Olhar Crítico

Reflexão sem televisão - Em 17/01/2018

Queria propor às pessoas peo menos de Manaus e do Brasil, que desliguem as suas televisões por uma semana no ano e tentem refletir sobre a vida ansiosa e apressada que vivem. Uma semana inteira sem notícia, novela, reality show, futebol, propaganda, nada. Esqueçam-se, que a televisão existe e promete colocá-los a par com o Mundo a todo instante durante todo o dia. Acredito que uma semana sem televisão pode mudar a vida das pessoas, revelando a elas outras formas de viver e, nos casos mais dolorosos, o quanto a vida tornou-se vazia e enfadonha com as tantas horas de televisão que aceitamos, submetidos à ditadura da imediaticidade.

Não estou convencido que poderemos refletir sobre a vida, mas concordo que uma semana sem televisão pode levar as pessoas a uma reflexão sobre o que fazer com o tempo disponível. Há uma pesquisa do professor Jeffrey Johnson, da Universidade de Colúmbia, publicada na Science, em que mostra a acentuada relação entre a programação da televisão e o comportamento violento de quem a assiste, crianças e adultos. Antes de falar da programação da televisão, ou condenar a televisão como meio de comunicação perverso, manipulador e invasor de privacidades, imaginei que há por trás desse plano de agonizar as mentes e colocá-las merce da propagação de idéias desagregadoras, um componente ideológico, ditado pelo mercado: a audiência.

Tudo é medido pela quantidade de gente que está vendo e pouco se discute sobre o que é visto. Se muita gente está assistindo, então continua, e imagina-se que, justo porque muita gente está assistindo, deve haver uma razão de identificação. Só me pergunto o que leva um povo, considerado cordial e humilde, a querer ver tanta violência, imersão na privacidade alheia e mergulhar em provas de desafios onde prevalecem o grotesco e a animalidade. A primeira resposta me parece conhecida: estar na mídia implica ser cultuado como celebridade e esta condição leva à riqueza. Só me pergunto se os produtores populistas, captadores do desejo e dos anseios populares, no uso de suas arbitrárias intuições do que tanto quer ver o povo, não poderiam tentar algo menos próximo das necessidades básicas do ser humano.

Desligar a televisão por uma semana é fazer a audiência cair, é colocar uma chaga de contestação nas programações. Mas, espere aí, por favor: na programação da televisão também há momentos de entendimento do mundo onde vivemos de uma maneira menos caótica. Talvez não precisemos desligar a televisão, mas escolher o que queremos ou não ver e decidir o quanto necessitamos estar vidrados por dia, colocando em xeque "Madame Audiência". Quem sabe, desligando por uma semana, dê para arrumar a cabeça.



Faltam vozes altivas - em 10/01/2018

Há uma crise abalando os alicerces da Nação. É tempo de instaurar um diálogo construtivo entre os partidos políticos e a sociedade e sair das brumas de um entardecer para despertar um bom-dia brasileiro. Os grandes intérpretes da vida nacional sempre disseram que o mal do nosso País é o marginalismo das elites dominantes, que vivem submissas ao mundo exterior, limitando-se a copiar leis e instituições alienígenas. O copismo legiferante produziu um país injusto. Os guias da nacionalidade são conhecidos. A lição dos jesuítas nos primórdios da terra de Vera Cruz e a epopéia dos bandeirantes (Raposo Tavares, Garcia Paes, Bartolomeu Bueno e Fernão Dias) demarcaram os limites do Brasil, tornando letra morta o Tratado de Tordesilhas. Mas não deu para transformar em realidade os sonhos de Frei Caneca e Tiradentes. O clarim da independência não frutificou em justiça social. A única saída é retomar os princípios fundamentais da nossa história. Se olharmos à nossa volta, veremos que faltam vozes altivas e competentes, como ouvimos de Bernardo Pereira de Vasconcelos e Honório Hermeto Carneiro Leão, e a presença marcante de um novo Mauá na luta pela emancipação econômica. Tampouco temos a visão de um Rio Branco na política externa. Falta-nos um ideário nacional. Nossos eldorados são coisas do passado. O ouro de Minas foi carreado para um dos países que lançou as bases do turbocapitalismo neoliberal. Sérgio Buarque de Holanda, em seu notável livro Visão do Paraíso, lembra esquecida página de Caio Prado Júnior: Na realidade nos constituímos para fornecer açúcar e tabaco, mais tarde ouro e diamantes, em seguida algodão e café para a metrópole européia. Não mudou muito. Uma nova etapa está em andamento e terá seu epílogo no grande comício eleitoral de outubro. Já passou da hora de conhecer os planos dos candidatos presidenciais. Aqui e ali há trechos com o evidente propósito de abrandar um choque com as forças que dominam o mercado, ao dizer que alterações na proteção à produção nacional não implicam, contudo, o fechamento da economia, nem tampouco devem promover a ampliação do grau de monopólio e de margens de lucro das empresas instaladas no país. Lembro agora uma frase de Joaquim Nabuco: Se dos moderados não se podem esperar decisões supremas, dos exaltados não se podem esperar decisões seguras. Mudaram apenas os personagens, mas a situação é idêntica. Em que pese os avanços sociais e se diga que vivemos em um Estado Democrático de Direito, continuamos sem a tão sonhada liberdade. Se no passado, como os militares, não tínhamos vez e voz, agora no presente, quem nos silencia são os bandidos. As favelas do Rio (sempre o Rio!) são exemplos vivos de que o cidadão nada pode quando o Estado-traficante não permite. Jacarezinho, Vidigal, Providência, são lugares com mais de meio milhão de habitantes dominados e aterrorizados ao ponto deles não saírem de casa ou irem à escola se o tráfico não permite. Aqui no outro Rio, o do Norte, a cidade passou horas e horas em poder de bandidos que, ao final pegos alguns, foram soltos pela Justiça. Sem contar que nos dois Rios (de Janeiro e do Norte) tem policiais à beça envolvidos no mundo do crime. Para não ficar só nesses dois Estados, no Espírito Santo, a maior quadrilha é dirigida pelo presidente da Assembléia Legislativa e por um coronel da Polícia Militar. E Em Manaus? Basta ver quem está preso.


Fábulas e verdades - Em 03/01/2018

Algumas pessoas pensam que nasceram para serem admiradas. Querem, a todo custo, serem notadas pelas virtudes que têm ou pensam ter. No livro "O Pequeno Príncipe", um dos personagens que aparece é o vaidoso. Ao receber o Príncipe, não se faz de rogado e ordena logo os aplausos para si. Mesmo não existindo mais ninguém no planeta, além dele, quer ser o mais bonito, o mais inteligente, o mais rico... Decepcionado, com tal recepção, o Pequeno Príncipe foi se embora. Não estava disposto a aplaudir apenas para satisfazer o ego alheio.

Na mitologia grega, todos conhecem, a estória de Narciso. De tão encantado, com a própria beleza refletida no lago, acabou se afogando. Ao ler a estória, a gente pensa: que pena! Um jovem tão bonito e uma morte tão feia... Infelizmente, esta parece ser a sorte reservada aos vaidosos. Algumas pessoas não conseguem ver nada mais, além de si mesmas. Não conseguem trabalhar em equipe, nem colaborar com os outros. Sobre o pedestal onde se postam, só querem o perfume do incenso alheio.

Jean de la Fontaine, em uma de suas fábulas, relata-nos a estória da raposa e do urubu. Após comer um bife, "bem passado", o urubu segurava um grande pedaço de queijo no bico, enquanto descansava no alto de uma árvore. Uma sábia raposa, entretanto, aproximou-se dele dizendo: Estou sabendo! Disseram-me que você tem o canto mais lindo da floresta! Pena que ainda não tive o prazer de ouvi-lo, completou com olhar de aparente tristeza. Diante de tal elogio, o urubu estufou o peito e começou a cantar desajeitado. O pedaço de queijo caiu direto na boca da raposa que saiu correndo pela floresta.

Hoje, muita gente, ainda perde o queijo por causa da vaidade excessiva. Quantos profissionais deixam de crescer e se especializar pensando que já sabem tudo. A vaidade, nesse caso, leva à morte do profissional. Um mercado competitivo, como o nosso, não tolera muito os urubus...

Outra fábula que li, quando criança, dizia que o pavão era a ave mais vaidosa da floresta. As penas de sua cauda, quando agitadas, provocavam um espetáculo de rara beleza. Mas, como nada é perfeito, o que sobrou em seu rabo, faltou em seus pés. Os pés do pavão causava escândalo de tanta feiura. Por causa disso, o pavão levantava o rabo, não tanto para mostrar sua beleza, mas para esconder a feiura dos próprios pés.

O vaidoso, ao que parece, quer muita atenção sobre si, também para esconder as lacunas de sua personalidade e a miséria real na qual se encontra. Numa organização, o "sucesso pessoal", quase sempre é resultado de um esforço coletivo. Para que o piloto vença a corrida, não podemos ignorar o papel do mecânico, ainda que ele não apareça. Os salvadores da Pátria, há muito caíram de moda. O pódio poderá ceder lugar ao túmulo, se um simples mecânico deixar de colocar o parafuso no lugar certo. Se o barco afundar, a morte não será reservada somente ao piloto, mas a toda a tripulação.


2018 - Em 27/12/2017

A cada ano parece que o tempo passa mais rápido, lembro bem depois desses mais de mil e duzentos artigos, que já escreví sobre o final de mais um ano mais de trinta vezes, mas a vida é mesmo assim: tudo flui e sempre, como o dia que vai escurecendo-se com a noite, que perde-se ao amanhecer da alvorada do novo dia. Eis o tempo "de novo"...

Existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente - no mais ou menos das vezes? "O tempo tudo tira e tudo dá; tudo se transforma, nada se destrói...", sentenciou Giordano Bruno.

O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso... Indubitavelmente que o tempo, como uma dimensão física - segundo os cientistas naturalistas racionais - ou transcendente - vide os metafísicos e filósofos -, ocorre transmutando-se a si mesmo e a todos os seres animados e inanimados, como se fora ele, o Gênesis do grande Universo. Seria o tempo-ser incomensurável, onipresente e onisciente, o próprio Deus?!

O nascimento, a evolução e a morte de uma estrela - qualquer a sua grandeza - se dá através do tempo... E quanto aos homens... "Nunca existiram grandes homens enquanto vivos estivessem. É a posteridade que os cria", observou, no seu tempo, Gustave Flaubert.

Um dia, num passado tão perto, um homem do seu tempo mas muito iluminado pelo conhecimento acumulado sobre os ombros de outros gênios, e pelo talento da sua inteligência criativa, articulou os princípios do espaço e da luz e matematicamente demonstrou que eles se inflexionam quando uma velocidade lhes era contraposta num tempo determinado: o universo se curvava em algum espaço futuro... Ou seria no passado?

Albert Einstein acabara de "relativizar" a lei da inexorabilidade do devir, segundo o paradigma: tudo tem o seu tempo... de fruir. E a direção é o futuro...? Revelara-se: o universo tem massa e energia, e se move, se expande... Além do tempo. Mas que tempo? Na efêmera condição humana, apreende-se desde a sua infância mais tenra e vulnerável que o tempo serve, primordialmente, para o crescimento do corpo físico, da aprendizagem do viver, da reprodução da espécie-família, para o envelhecimento e para a morte.

"Nada do que é grande surge repentinamente, nem mesmo a uva. Se me dizes: "Quero um figo", respondo-te. "É preciso tempo". Antes... deixa virem as flores, depois.... os frutos e que amadureçam", filosofou o grego Epicteto.

Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor.

Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. Assim seja. Feliz 2018 para todos os leitores.


Então é Natal - Em 20/12/2017

Domingo é Natal, e sempre que a data máxima da cristandade de aproxima, sou naturalmente levado a pensar nos mistérios da vida e especialmente no que significou para a humanidade o nascimento de Jesus, o sentimento de sua existência, de seus padecimentos e da brutalidade de sua morte. É quando chego mesmo ao extremo de indagar se o cruel sacrifício a que Deus submeteu seu Filho, ao enviá-lo à terra na tentativa de salvar os homens - esses ingratos -, teria valido a pena.

Como vêem, o Natal para mim não representa apenas tempo para montar árvores coloridas e fazer troca de presentes. Ao contrário, é época de recolhimento, de reflexões, de pensar nas profundezas do significado e dos mistérios da data. Está no Velho Testamento que no princípio era o caos, que Deus criou a terra e os céus. E, não contente com obras tão grandiosas, criou o primeiro homem, ao qual, vendo-o tristemente solitário, brindou com a companhia de uma mulher. E deu no que deu. O casal tanto se multiplicou que o cenário terreno se transformou neste imenso complexo do qual temporariamente fazemos parte, ora rindo, ora chorando.

Ao menos para mim, um diplomado em ignorância sobre esses assuntos, o que ainda não ficou bem claro foi a intenção com que a Divindade realizou tamanho feito. Por vezes me questiono se essa obra corresponderia a uma necessidade divina. Estaria ela se sentido enfadada, atormentada pela solidão? A criação dos homens teria como justificativa a falta de servos para que a amassem e servissem - como reza meu velho catecismo? Onisciente e onipresente como era (e certamente assim continuará sendo "per omnia saecula saeculorum"), não era igualmente auto-suficiente? Claro que sim, não é mesmo? Quanto à decisão de conceder às suas criaturas a faculdade do livre arbítrio como entendê-la? Porventura seu provável mau uso não figurou nas cogitações do onisciente Criador?

Nesta altura deste mal lançado texto é muito provável, para não dizer certo, que o leitor deve estar se perguntando sobre os motivos que me levaram a esses questionamentos iniciais. Minha explicação é singela: como frisei no inicio é o efeito natalino. Vou aproveitar o momento e explicar a quem dos meus leitores não sabe, como nasceu a arvore de Natal. Certa vez, numa daqueles noites geladas da Alemanha, nas proximidades do Natal, ao retornar para casa o monge Martim Lutero, encantou-se com a paisagem. Para Lutero, o cristianismo fora uma notável revolução dos cordeiros, da gente humilde da antiguidade que se insurgira contra as injustiças do mundo pagão. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam a trilha, viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida uns papeluchos coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Pronto, era aquilo que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Nascia assim a árvore de Natal.

Feliz Natal a todos.


Pena de morte - Em 13/12/2017

Sou leitor contumaz da seção de cartas de leitores dirigidas aos jornais. E tenho visto com frequência algumas de pessoas que voltam a defender a pena de morte. Isso me assusta, embora compreenda a revolta de muitos contra o atual estado de coisas: violência e morte em grau jamais alcançado entre nós.

O bandido mata. A sociedade mata o bandido. Os bandidos passam a matar dobrado. A sociedade, por seu lado, duplica as matanças de bandidos. Se o ato de matar é que nos é repugnante, como legalizar o assassinato, revivendo e consagrando o velho ''olho por olho, dente por dente''? Bem, pede-se exceção para os crimes hediondos, tantos que não vale nem a pena citar. São hediondos, sim. Mas teremos então que repetir o gesto hediondo, imolando ritualmente os criminosos?.

Deus que dá a vida, até mesmo aos bebês de proveta, porque para fecundar o óvulo ''in vitro'' precisava existir a centelha inicial de vida, quer no óvulo fecundado, quer no espermatozóide fecundador. E essa centelha misteriosa continua nas mãos de Deus, ou da força criadora, como a chamem, se quiserem; misteriosa, imponderável, fora totalmente do alcance do homem e das suas artes.

Não vamos pensar em pena de morte. E atentar contra as leis da vida é querer tomar na mão o privilégio de Deus. Sua eficácia como elemento dissuasório nunca foi comprovada. Punição bárbara, primitiva, de feroz crueldade. Não adianta modernizá-la, usando cadeira elétrica, injeção letal, câmara de gás. E o julgamento, a sentença, a data marcada, a última refeição, o último cigarro, as últimas palavras compõem um ritual de sadismo inexcedível. E cuja ferocidade fria se iguala à dos crimes que pretende castigar.

O dever da nossa sociedade, assolada por uma onda de violência absolutamente intolerável, ninguém o nega, é aperfeiçoar o processo judiciário, proporcionar as penas de acordo com o delito. Não criar tantas e extraordinárias facilidades para os chamados réus primários. Há casos de ladrões contumazes que, devido ao seu longo prontuário, são condenados a penas severíssimas; enquanto que um matador, por mais hediondo, tem direito a inúmeras saídas, desculpas, portas abertas, concessões. As próprias penas existentes no código atual teriam alguma eficácia se não fossem tão permeadas de concessões.

Um jovem juiz não achou por bem pôr em liberdade o matador da própria noiva, apesar de réu confesso, por crime executado com requintes de crueldade - tortura, morte lenta por afogamento, e tudo por motivo fútil? Mas quem errou não foi o juiz, foi a lei de malhas largas a que ele se julgou obrigado a obedecer; afinal, juiz existe para cumprir a lei.

Se queremos punir um criminoso hediondo, não o libertemos pela morte; e, muito menos, não o liberemos por ''bom comportamento'' na prisão, ou porque cumpriu um terço da pena, ou porque não há mais lugar para ele nas penitenciárias superlotadas. Sentença é feita para ser cumprida. E sentença perpétua tem que haver, sim.

Se o criminoso hediondo se regenerar na prisão, como se imagina possível que exerça a sua sociabilidade readquirida dentro dos limites do seu confinamento, que pode ser até em ambiente rural, mas sem contato direto com a sociedade que ele tão brutalmente agrediu? Seja professor, enfermeiro, advogado, pregador - mas lá dentro, sem perigo de reincidência. E se não se recuperou, já está lá dentro que é o lugar certo.


Violência - em 05/12/2017

Se a um transeunte você indagar qual o maior problema da sociedade nos dias de hoje, a violência estará entre os primeiros. Nenhuma novidade, pois a mídia, em especial o rádio e a tv que fazem a cabeça das massas , esmera-se, ao requinte e sem reproche, em sua descrição. Trata-se de uma torrente cotidiana de informações eivadas de sensacionalismo, em que é claro o incitamento à depravação dos costumes, à criminalidade, à barbárie e à impunidade, numa demonstração inequívoca de desrespeito à Constituição, que garante os valores éticos e sociais da pessoa humana.

Se se indagar desses caminhantes, que modalidades de violências mais os assustam, a resposta abarcará um enorme leque de infortúnios. E todos eles ora se intrometem com sutilezas ou sem elas permissivamente no domicílio via tv, ora são dramas vividos e sofridos no dia-a-dia pelo cidadão: a banalização do sexo, a tolerância às drogas e o indulgente combate ao seu tráfico, a insegurança no domicílio, o seqüestro, a ousadia de bandidos e de servidores públicos de sua igualha, o ostensivo poder paralelo dos presídios, a guerrilha urbana e tantas outras não-merecidas desditas a intranquilizarem a sociedade e a afrontar o poder público.

Ao me colocar na condição desse transeunte, sob a ótica de minha profissão, a resposta é imediata, posto já a ter fixado em várias oportunidades: para mim, constitui violência inominável a pobreza e a miséria.. Sensível como é à causa do homem, a violência encontra-se intimamente dependente da perversa distribuição de renda, da injustiça social e da impunidade. E tudo isso medra daninhamente nos centros do poder, constituindo o fator patogênico mais importante e mais indigno em todo o mundo subdesenvolvido. E para esta sociopatia falecem ao médico, com sua ciência e arte, remédios capazes de, no mínimo, tangenciar o problema real, que é anterior e mistifica a doença; esta, na realidade, uma indignidade menor e transfigurada, que leva milhares de infelizes a engrossarem as filas dos ambulatórios, em busca da saúde perdida.

Se é impotente o médico, mais ainda o são os governantes que, movidos por solavancos de solidariedade humana, só enxergam a adoção de terapêuticas paliativas e protelatórias. Pobres visionários: ignoram ou fingem não ver que a solução racional, antes de tudo, reclama que se reponha ordem na sociedade! Melhor ainda, reclama se restaure a justiça porque se ela desaparece, escreve Kant, é coisa sem valor o fato de os homens viverem na Terra. E ordem na sociedade é o mesmo que a saúde para o indivíduo. Desafortunadamente, a sociedade e o indivíduo só se lembram de uma e de outra quando já não mais as possuem.

Ao encarar a violência em meu redor, sempre a confronto com sua matriz: a pobreza e a miséria. Embora uma pessoa marcada por violências torpes e imundas, minha coragem é serena e racional; mais racional do que serena, para resignar-me, contrafeito, com o fato de termos sido delas vítimas minhas extensões mais próximas e eu. É difícil conter a indignação pela resignação e pela esperança em uma sociedade ordenada e justa. Assim, acato a advertência de Malraux: Um só homem não pode erguer mais do que dois ombros . A plebe é mais impaciente do que o indivíduo e anseia por soluções definitivas e justas. No século XVIII, a sociedade francesa conseguiu-as após uma sangrenta revolução de costumes e de idéias.


Ali Babá - Em 29/11/2017

No reino de Ali Babá não havia peemedebistas tucanos e coligados, mas havia 40 ladrões. Longe de mim estar insinuando que Temer e sua coligação no poder representam em nosso país tropical o herói e seu bando das mil e uma noites de Sherazade. Apenas associei as duas imagens, ao constatar a quantidade de políticos e assessores, que, à sombra do Planalto, se envolveram em corrupção no atual governo e até hoje continuam impunes.

Por alto fiz um levantamento em que contei, de lembrança, mais de duas dúzias de nomes sob suspeita e acusação. Curiosamente, como Ali Babá, também Temer é poupado de pechas e acusações. Daí decorre a segunda razão de aproximar, para contrastar, os dois contextos: o da lenda e o da realidade política. É que Ali Babá e seus ladrões eram transparentes. Assumiam o que eram e faziam. Estranhamente as pessoas vinculadas diretamente a Temer indiciadas ou apontadas pelo noticiário, não têm a mesma postura. Usam de todos os recursos e erguem com a maior desenvoltura uma cortina de fumaça negra e densa em torno deles mesmos e de seus atos, para evitar que a opinião pública saiba a verdade do que tem acontecido nos bastidores do governo. Operações de abafa, rolo compressor, respostas sarcásticas, ataques verbais são o mínimo apresentado como autodefesa e barreira à averiguação pública.

Basta simples suspeição que logo se levantam para praticar a velha máxima de que a melhor defesa é o ataque. Antes que sejam destruídos, ainda que em nome da verdade e da justiça, Temer, Gedel e comparsas tudo fazem para destruir os adversários. Para mostrar que é superior e acima de qualquer suspeita, Temer usou e abusou de expressões como o Brasil está crescendo, caiu o desemprego e pretensas frases aparentemente d ésprit, mas na verdade de uma pobreza intelectual de causar dó! A revelar sempre o propósito de agredir para não ser atacado.

Agora seu assaz contestado candidato à sucessão demonstra que copiou o grande chefe . Mal começaram as graves denúncias que o envolveram com as falcatruas de Elizeu Padilha, tenta ironizar: tudo não passa de tititi e trololó . Temendo que os ventos soprem a poeira para sua janela, Temer vem a público declarar que se trata de acusações requentadas , quando para advogados de renome e respeitados políticos sua omissão e leniência, à época da ocorrência dos fatos, podem culpá-lo de improbidade administrativa.

Temer, Elizeu e assessores pousam de impolutas vestais da República. Ao contrário de Ali Babá e seu bando, em vez de se esconder em cavernas, à espera do Abre-te Sézamo , procuram trancar a corte a sete chaves. Será que pensam que todos nós temos que engolir calados? Será que de tititi e trololó, com tropeços aqui e ali, sem o ar e a luz que paradoxalmente sobram nas cavernas de Ali Babá, mas tanto faltam nos subterrâneos do Planalto, chegaremos a eleger, sem continuidade, nem continuísmo, o sucessor de Temer, e apurar tudo o que foi feito?


A força do desejo - Em 22/11/2017

Nunca o desejo de bem-estar foi tão forte. Pessoas e sociedades sonham cada vez mais com avanços e redenções. Só que na vida real a felicidade parece cada vez mais difícil de ser alcançada. Ninguém se compraz por muito tempo com o alívio causado pela superação de algumas dificuldades. Por isso, o desafio é determinar o que fazer para aperfeiçoar de modo constante e sustentável o estado material e espiritual da Humanidade.

O problema é que não basta querer; é preciso também saber como chegar a melhores resultados. Não adianta imaginar perfeições paradisíacas sem saber como conquistá-las. Igualmente inútil é conhecer o caminho sem ter a tenacidade para trilhá-lo enfrentando seus percalços. As sociedades só conseguem se aperfeiçoar quando suas instituições, preocupadas em gerar um todo harmonioso, oferecem aos indivíduos condições propícias ao desabrochamento e à realização de suas potencialidades. Como o entendimento é precário e os desejos, ilimitados, o ideal está crescentemente se descolando da realidade.

Todos temos, independentemente de grau de instrução, diminuta compreensão do mundo e de nós mesmos. E, no entanto, nos sentimos capazes de controlar as situações e ditar o rumo dos acontecimentos. Falamos como se tivéssemos perfeito conhecimento dos fenômenos psicológicos e sociais. E agimos sem ciência como mãos tateantes que procuram objetos no escuro. A falta de saber tira da ação o poder de perseguir com eficiência melhores resultados.

A busca do ideal deve se basear nas potencialidades que o real oferece, não em sua negação. A pseudo-sabedoria estimula a expansão da vontade cega que atropela os objetivos na ânsia de atingi-los. Brandindo a mais reles teoria da conspiração, todo mundo se acha em condições de proclamar verdades sobre as mais intrincadas matérias.

Nas lutas pelo poder se explora, de forma cada vez mais cínica, o abismo entre os desejos e o entendimento do homem comum. Mesmo sem saber como funciona a máquina do mundo, os demagogos aproveitam-se do infortúnio alheio apresentando-se como semideuses capazes de tudo mudar. Prometem, para ter (mais) poder, um mundo melhor sem saber o que faz a dura realidade ser o que é. Manipulando as massas, ocultam o vazio intelectual com a retórica genérica de que um outro mundo é possível.

As decisões fundamentais continuam sendo tomadas por governantes despreparados que nem sequer têm noção de quão complexas são as situações corriqueiras que administram. E para piorar registra-se a fragmentação da "vontade geral" com a ênfase recaindo cada vez mais sobre os grupos de interesse. Os fins da política se deslocam, de modo alarmante, dos indivíduos para os grupos e as etnias. E isto aumenta a distância entre as pessoas a ponto de impedir que haja um acordo fundamental em torno dos direitos e dos deveres de todos.

Estamos todos, indivíduos e sociedades, atrás de desejos que não sabemos como realizar. Vivemos acima de nossas possibilidades porque agimos sem a devida compreensão de nós mesmos e dos outros; e aquém de nossas possibilidades, porque estamos longe de tornar realidade nossos mais caros desejos. Os desejos são luzes que, bruxuleantes na imensidão, estimulam o pensamento a descobrir novos caminhos em continuação aos conhecidos ou na direção contrária dos percorridos.


Pobre país - Em 15/11/2017

A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista do governo no Brasil. Bem que poderíamos ter outra proclamação, retirando todos os políticos e dando uma nova forma ao governo deste nosso pobre país. O noticiário político da mídia impressa e eletrônica brasileira comprova que andamos quase todos, incluindo ela própria, despreocupados em processar corretamente fatos, objeto de comentários incongruentes, quase sempre em benefício dos interesses do Executivo federal e do seu grupo partidário. Dessa forma, contribui para manter-nos alienados, sem percepção de contradições significativas, presentes na condução da vida política nacional. Vou fixar-me em quatro exemplos atualíssimos, concluindo com elenco de contra-sensos cometidos por quem precisa e, normalmente, tem de ser comedido, mas não consegue conter-se:

1. De uns tempos para hoje, as conveniências da situação passaram a defender a necessidade de apoio parlamentar majoritário ao Executivo, em nome da governabilidade do País. Chega-se a criticar dissidências pontuais contingentes, justificáveis, absolutamente legítimas no sistema de governo que praticamos, como gestos de traição impatriótica. E, no entanto, defende-se a manutenção do presidencialismo, sob cujos princípios o fato de o Executivo ser minoritário no Congresso não constitui anormalidade. Observe-se o modelo original norte-americano.

2. O PSDB foi constituído por inspiração de um grupo de peemedebistas de São Paulo, tendo como motivo fundamental afastar-se da associação com políticos malvistos com influência na legenda. O que se observa nestes dias desmente a circunstância, já que os tucanos só se entendem com a chamada banda podre do PMDB.

3. O Executivo tenta forçar a reforma da Previdência, dizendo que não pode arcar mais com o pagamento dos aposentados. Contudo, não lhe parece criticáveis ônus financeiros eventuais bem superiores, resultantes da política de juros do Banco Central.

4. No episódio desabonador de seus ministros mais próximos não se considera que os desrespeitos ao devido processo legal mais de um , faltas até mais graves, porque envolvem agressões à mecânica da ordem jurídica, exigem que se enquadrem gregos e troianos . Por fim, é incompreensível que, em vez de manter-se afastado, para conter a desagregação, o presidente Temer procure o centro da ribalta de microfone em punho, a fazer provocações, talvez pensando que os desconsiderados por ele, com os quais conviveu proximamente nos últimos sete anos, são invertebrados: tempestade em copo d´água ; eleger-se-ia sem eles ; promotores de tricas e futricas contra o interesse nacional. Nenhuma substancialmente verdadeira. Pobre País.


FALTA DE APEGO - Em 08/11/2017

São muitas as ameaças que rondam o desamparado indivíduo. Razões não faltam para que se diga a toda hora indignado. É cômodo, no entanto, ver-se como simples vítima de uma realidade perversa para assim livrar-se de qualquer responsabilidade. Além do mais, a postura de sofredor impotente em nada contribui para a melhoria da vida pessoal e coletiva. Há motivos de sobra para que o cidadão se diga revoltado com impostos excessivos, governos perdulários e ineficientes, serviços públicos de má qualidade, caos urbano, violência generalizada.

Ocorre, porém, que esse quadro desalentador é resultado da soma da ação de todos. Não é porque há tantas coisas erradas que se justifica uma manifesta falta de envolvimento afetivo com o País. Não deixa de ser oportunista, expressão apenas de um espírito festeiro, o amor fácil aos símbolos pátrios durante copas do mundo em que nos consideramos favoritos. Não há desgoverno e "problemas sociais" que justifiquem o flagrante desamor às cidades, aos bairros e às ruas. Infelizmente, o que se vê por toda parte é um enorme fosso entre o indivíduo e a comunidade. É inevitável que com a violência comendo solta o brasileiro se sinta sitiado, ameaçado em cada esquina, e perca muito da alegria de estar com os outros nos espaços públicos.

Nada disso, porém, explica a indiferença cívica que caracteriza as relações dos brasileiros com suas instituições e organizações. Salta aos olhos que não conseguimos nos afeiçoar minimamente às coisas a ponto de nos empenharmos por elas, de procurarmos crescer com elas. Aplicássemos às coisas miúdas de nosso dia-a-dia coletivo um pouco da paixão que devotamos à Seleção Brasileira de futebol e seríamos uma sociedade muito mais coesa e participativa. Mas por que não temos ou perdemos o sentimento de vinculação ao outro e ao todo?

Não aprendemos até hoje a lição de que a defesa dos interesses individuais obriga também cada um a se preocupar com o que é comum. Talvez o processo de nossa formação social explique por que o brasileiro não se envolve afetivamente com suas instituições. Cobra delas desempenho sem se sentir participando de sua construção. Enxerga-as como se fossem máquinas defeituosas e não como construções sociais resultantes das ações de cada cidadão. Se comemorações fossem suspensas sempre que as coisas não vão muito bem, o mundo mergulharia numa tristeza funérea.

O fato é que os manipuladores da consciência coletiva invocam as imperfeições, os problemas sociais, como justificativas para um mal pior: a falta de "amor social". Os cidadãos precisam se ver como construtores do País e de suas instituições. Do contrário, permanecerão na cômoda posição de se indignar e esperar que o bom caia do céu. O mau funcionamento do País e das cidades não deve servir de pretexto para que fiquem na confortável posição de crítica sem participação. Uma sociedade é edificada com crenças, símbolos, instituições e ações. Falta por aqui uma saudável dose de apego aos símbolos que definem nossa existência compartilhada.

Somos de um pragmatismo destrutivo: se não funciona bem não nos envolvemos. Mas o problema é que se não nos envolvemos não tem como funcionar bem. Este é o dilema.

O PERDÃO - Em 01/11/2017

Nesta véspera do dia de Finados, nada melhor do que falar do perdão, principalmente para aqueles que se foram o ficaram sem perdoar seus desafetos. Perdoar é verbo pouco conjugado no contexto de nossa cultura narcisisticamente movida a competição, a mania de grandeza, a banalização de valores, a desconsideração da importância dos outros.

Perdoar, tornou-se babaca, valor obsoleto, coisa de gente fraca, no estilo dessa cultura tolificada pela mania de revidar, de ser vencedor, de ter que sobrepujar, de passar por cima, de destituir o outro, de ser herói. Perdoar tornou-se palavrão, coisa pejorativa, justificativa de gente sem coragem para a desforra. Mágoas, ressentimentos são freqüentes na experiência mais guardada das pessoas.

Quem já não teve seus motivos de guardar uma dor, um sentimento rebentado, uma raiva por desejos frustrados, ou até ódio por uma situação transtornada, humilhante ou injustiçada? Eu já tive, e de quando em vez tenho uma recaída. Somos todos muito capazes sim, desses sentimentos raivosos. Eles compõem a nossa realidade humana. Contudo, é bom lembrar que nossas mágoas não resolvidas promovem sequelas muito sérias, quando as mantemos nutridas e realimentadas dentro de nós. Torna-se póssível então, uma imensa produção de destruições em nós mesmos.

A qualidade da vida interna, a saúde emocional, ficam prejudicadas nesse território amargurado, onde não sobra espaço para a alegria, a leveza, a partilha cordial, o afeto. Talvez tenhamos construído a idéia de que o perdão é uma fragilidade diante do outro que nos ofendeu. Talvez imaginemos que se trata de um fechar os olhos para a falta do outro, de desculpar seu mau comportamento ou esquecer a dor que ele nos causou.

O que não percebemos contudo, é que perdoar é útil sobretudo a nós mesmos, à nossa própria saúde. Perdoar tem mais a ver conosco do que com o outro. O perdão nos libera do peso da raiva, da mágoa ou ressentimento que nos impedem de ficar bem. Essa é uma bagagem muito pesada para nossa saúde emocional. Se não nos livrarmos dela, adoeceremos por dentro. Neste sentido, perdoar é uma escolha que fazemos, para viver livre dos fantasmas destrutivos. Não se trata de minimizar ou negar a própria dor, os sentimentos, mas de redimensioná-los.

Quando nos impedimos de perdoar, nos impedimos também de crescer, de nos desembaraçar-nos, de sermos nós mesmos. Enquanto não perdoamos, concedemos muito poder ao outro de continuar nos afetando. Temos o direito de ficar irados quando nos maltratam, mas perdoamos para continuar a viver com qualidade. Perdoamos para ter condições de controlar nossas emoções, para preservarmos o bom senso e resgatar em nós, a experiência de paz que pode ser sentida.

Mas não perdoamos por um ato de decisão apenas. Faz-se necessário o exercício cotidiano de desculpar, de tolerar, de cascavilhar menos as faltas do outro, de perdoá-lo nos pequenos deslizes. Se isto parecer muito difícil, vale a pena lembrar o que Cristo falou aos fariseus, rconhecendo o quanto eles eram hipócritas: "Atire a primeira pedra quem não tiver pecado". Que ensaiemos portanto, passar do estado de raiva, de ódio, de intolerância, para um estado de compreensão do humano, em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio.


EXTINÇÃO DOS POLÍTICOS - Em 25/2017

Caros leitores e leitoras, bem que eu queria continuar com meus artigos falando sobre a vida e sobre as relações interpessoais, mas os políticos não querem e não deixam. O mar de lama que se instalou nos gabinetes e a política, tomada em significado de governo, direção e administração do poder público, sob a forma do estado, faliu, tornou-se sem sentido, não funciona mais. No Brasil e no mundo.

O bem comum embutido na palavra logrou o fracasso. O homem não aprende muito com a história. Todos os regimes políticos tornaram-se arremedo de sua invenção grega original. Uma falácia em nome da isonomia democrática, da tal politika praticada por homens sem ética, res publica em causa própria. O estado de miséria decorre das políticas públicas; os políticos alimentam-se de pobres. O poder que emana do povo é contra o povo: com a classe política, nenhum problema é resolvido.

A sacralização dos políticos resulta de sua contraditoriedade: elege-se político para nada. Pela Constituição, os políticos são legisladores. Nenhuma lei, porém, se lhes corta privilégios. Ao longo dos séculos, política deixou de ser um valor e de ter um sentido para a vida humana. Desde a Idade do Ouro, quando os homens começaram a se organizar socialmente, à pós-modernidade, a política é responsável pelo fato de a humanidade ser infeliz.

Em nome da lei, do estado ou de Deus, tudo é permitido e permissivo. A política é um castigo como o mito de Prometeu. Ela opõe-se por conveniência a todos os conceitos de decência, seja pela injustiça comunitária, pelo lastro irrefutável da corrupção, ou em oposição à virtude oriunda da Themis - lei divina incidente no universo, a physis, a ordem do mundo, ou nomos e a dike - justiça entre os homens e as coisas. O caos é político. A crise é política. A esculhambação é política. Todo corpo de leis reconhecido tem origem política, portanto, não funciona. A política é um presente grego.

A política, além de corromper, mente, rouba, deturpa, mata e nunca, mas nunca mesmo muda para melhor a situação social e econômica. É razoável questionar por que então manter-se a classe política? Quem afirma serem necessários 570 deputados? Os políticos. E se a classe política desse um tempo deixasse de existir por pelo menos uma década e permitisse à sociedade se organizar em torno de um novo paradigma que não tivesse o vírus da política nem dos políticos? Quem pode afirmar que não, se nada foi tentado? E se os políticos não fossem mais escolhidos pelo voto, mas pelo veto e durante o (longo, espera-se) período de hibernação, lhes fosse imposta uma radical reciclagem que incluísse o fim de todos os seus privilégios, como salários altos, imunidade parlamentar, nepotismo, pagamento de despesas extras? Sem relevar números ao pé da letra, e se em vez de 570 fossem apenas 135, uma média de cinco por estado? O mundo, o Brasil está a exigir um novo modelo político. O que acontece atualmente no País, ainda que haja precedentes planetários, é indigno, mas tem de servir para promover mudanças.


A VIDA É UM SOPRO - Em 18/10/2017

Este ano que ainda não findou, tive a tristeza de perder alguns amigos, e aí fico me perguntando o que é a morte, mesmo com ideias e conhecimento espirituais, e chego a conclusão que a morte nada mais é do que uma passagem. A passagem de um mundo que conhecemos bem, para outro totalmente desconhecido. E, por isso, amedronta e traz dor...

Essa era a sensação de dois fetos gêmeos dentro do útero da mãe, que percebiam que chegava a hora de nascer. Um perguntou ao outro: E aí, você acredita na vida após o parto? E o irmão respondeu: Não, ninguém voltou para contar. Nascer, para eles, seria passar de um mundo conhecido para o desconhecido...Aquele mundo imenso fora dos limites do útero materno.

Quantas vezes nós também olhamos para a nossa vida com a mesma limitação? Pois igual aos fetos, cremos que o mundo se reduz ao que conhecemos, ao que nos parece familiar, ao que podemos perceber com os nossos sentidos. Os dois gêmeos, estavam familiarizados com o quentinho da bolsa, as batidas do coração da mãe e o alimento que chegavam fácil por um tubo... Assustados, conversavam sobre aquele momento traumático. Como seria o mundo lá fora? Escuro? Frio? Ameaçador? Estavam prestes a ser expelidos daquela penumbra repousante para um mundo de luz, cores, cheiros e ruídos... Eles sentiam medo de sair dali... As contrações começaram, o mundo em torno se fechava e eles estavam sendo forçados de lá para fora.

Ao nascer, o impacto dos pulmões se enchendo de ar pela primeira vez causou um impacto tão violento que até a memória da vida intrauterina se extinguiu... E o que eles tinham à frente era nada mais do que a vida... A vida num mundo, até então desconhecido onde eles iriam crescer, se formar, ter descendentes, envelhecer e novamente se preparar para uma nova passagem... Por isso, os monges beneditinos jamais falam de morte e sim de passagem.

Passamos por esta vida, como um grande presente de amor que deus nos deu... Nosso nascimento, "o nascimento desses fetos", certamente trará muita felicidade e amor aos seus pais e, vendo assim, como uma passagem, podemos imaginar que o que nos espera, na outra etapa, na outra passagem... É algo muito melhor.

Nada mais natural que a morte! As vezes fazemos a passagem muito jovens, não mais velhos, aliás velho e velhice são palavras de conteúdo e peso psicológico terríveis, sobre a mente humana, em particular do idoso que se acostumou a vê-la, ouvir e chegar. Envelhecido e sem condições físicas de desfrutar na sua totalidade da recompensa, já se considera velho, e essa velhice cria-lhe problemas diuturnos e crescentes.

Outro dia fui abordado por um amigo de longas datas, com esta pergunta: Você se considera um velho? Pasmei por alguns instantes e o respondi que não, visto que a vida é linda e a velhice não é coisa inesperada é o resultado das mais diversas fases da sua existência desde o nascimento, crescimento, até chegar à idade adulta, mesmo se notando na nossa face, todas as manhãs, sinais inexoráveis da marcha do tempo refletido através de um espelho.

O tempo passa pela ação deletéria a partir de certa idade. O efeito é o encurtamento da existência a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, se não para evitar tal desfecho, pelo menos para ampliar a expectativa de vida. E, tenho certeza que um dia todos nos encontraremos: a vida é um mistério maravilhoso! Mas continuo com meu velho jargão: A vida é um sopro.

RECADOS DA VIDA  - Em 11/10/2017

Quem escreve semanalmente como eu com mais de mil e quatrocentos artigos e ensaios, fica com o ego massageado quando se recebe ou por e-mail ou por mensagem do facebook, mensagens como "seu artigo lavou-me a alma, me fez rir, me comoveu, me fez dizer "É isto mesmo". Sinalizam que não estou sozinho em meus modos de perceber e de pensar.

Também sou construtivamente marcado pelos que discordam e criticam, pois me ajudam a manter a mente aberta. Inspirados em indignações ou encantamentos, meus artigos refletem a marca de valores legados pelos construtores da minha bagagem em seus "recados de vida": Ignorância gera besteira ou desgraça. Pode ser melhor, sim. Desconfie sempre do governo e não confie demais na oposição.

Discurso é ação e o autor deve ser responsabilizado por suas palavras. O preço das decisões é para ser pago sem queixas. Imoral é enganar os outros. O bem que fizeres retorna a ti, o mal também. Sede assim, qualquer coisa, serena, isenta, fiel. Quem merece de Deus os dias e as noites, merece de nós bom dia, desculpe e obrigado.

Faz vinte e cinco anos que comecei a escrever diariamente no Jornal O Jornal e também no Diário da Tarde onde o velho Ajuricaba e a própria D.Lourdes Archer Pinto me davam incentivos para escrever, e olha que era coluna social, com pseudônimo. Depois fui escrever no Jornal A Critica, onde levava meu artigo para o velho Martins Diretor de Redação ainda na Lobo DÁlmada, e ele era o meu censor.

Entre pesadas máquinas de escrever Olivetti, na velha redação do Jornal do Comercio, tive a atenção fraterna do proprietário e já experiente Guilherme Aluísio, cujo bom humor e coleguismo são inesquecíveis. Depois de outros tantos anos como docente eis-me colaborador da página de Opinião, onde publiquei mais de 1.200 matérias.

Falei de mazelas sociais, desmantelos urbanos, amor, ética, política, religião, causos e causos verdadeiros ou não ( a maioria foram verdadeiros), sobre um lado de sandália deixado na Djalma Batista, artigo que me trouxe muitos elogios, e até futebol. Com profissionalismo, respeitei rigorosamente o limite determinado para o tamanho dos textos, apurando forçosamente um estilo enxuto que parece agradar à minha vintena de leitores.

Após todos esses anos, não abandono a causa do respeito às diferenças nem o sonho de melhora da cidade de Manaus e do Mundo. O labor e a responsabilidade de expressar ideias esculpindo textos são para mim, também curtição. Sou grato aos leitores, que me motivaram, e vou prosseguir de olho no mundo, de coração nos afetos, de alma na trilha da paz.

Continuo como artesão de textos em outros contextos, nutrindo a humilde esperança de marcar um pouco os outros com minha visão de mundo e ser por eles marcada. Grato a todos os leitores e leitoras que me acompanham e que tecem comentários sobre as matérias geradas as vezes no raiar do dia da quarta feira, dia que escrevo.

O PODER - Em 04/10/2017

Fazendo uma análise do instituto da reeleição esta excrescência admitida em nosso sistema político, fiquei a pensar sobre o porque da briga para voltar ao cargo que exercia. Só há uma resposta. O Poder. O exercício do poder é sem dúvida, o sentimento mais forte e o que exerce maior fascínio sobre o homem. Chega a ser mais forte do que o do sexo. Ainda que seja o poder político ou o poder econômico. E, lamentavelmente, a principal força que afeta a insensatez política é a ambição do poder, definida por Tácito como "a mais flagrante de todas as paixões".

A ideia do Poder está, por assim dizer, intimamente ligada à noção de glória. A glória chega a ser uma paixão consequente do Poder e que se transforma no prazer inebriante de existir além de si, a preencher o mundo com o seu nome. Mas, nenhum homem pode ter uma vida inteiramente dominada pela ânsia do poder, eis que, mais cedo ou mais tarde, depara-se com obstáculos impossíveis de superar. E é por isso que se afirma: a insensatez política é filha do poder.

Aliás, a tendência da humanidade sempre se concentrou em dois aspectos - economia e política ou, melhor dizendo; riqueza e poder. A esse respeito já disse Bertrand Russel: "O megalômano é diferente do narcisista, eis que prefere ser poderoso a encantador, temido a amado. E a este tipo pertencem os lunáticos e a maioria dos grandes homens da historia".

A Revolução Francesa, por exemplo, foi sem dúvida o primeiro movimento de ideias importantes na Europa do Século XIX. Apesar disso, tão logo atingida a vitória, Robespierre começou a admitir que só consolidaria o seu Poder Político, com a exclusão sumária de Danton que dividia com ele a liderança dentre os revolucionários. E logo Danton, talvez o mais puro revolucionário e que mais sinceramente desejou a ascensão do povo francês, no desfrutar do decantado tripartido simbolismo do ideal da Revolução: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. E, a partir da decapitação de Danton, a revolução perdeu seu encanto.

Nos dias atuais, é comum ver-se a todo instante a pretensão da disputa pelo poder, das mais variadas formas. Na seara político/partidária, e ante a aproximação do procedimento eleitoral, viu-se em todo o país, as mudanças de partido político e a quebra de compromissos assumidos e mantidos enquanto auferia-se, individualmente, dividendos eleitorais. É por isso que, apesar desse fascínio, nem sempre o homem se prepara para o exercício do Poder.

É razoável questionar por que então manter-se a classe política? Quem afirma serem necessários 570 deputados? Os políticos. E se a classe política desse um tempo? Deixasse de existir por pelo menos uma década e permitisse à sociedade se organizar em torno de um novo paradigma que não tivesse o vírus da política nem dos políticos? Quem pode afirmar que não, se nada foi tentado? E se os políticos não fossem mais escolhidos pelo voto, mas pelo veto e durante o (longo, espera-se) período de hibernação, lhes fosse imposta uma radical reciclagem que incluísse o fim de todos os seus privilégios, como salários altos, imunidade parlamentar, nepotismo, pagamento de despesas extras? Sem relevar números ao pé da letra, e se em vez de 570 fossem apenas 135, uma média de cinco por estado? O mundo, o Brasil está a exigir um novo modelo político.


INSPIRAÇÃO - Em 27/09/2017

Em conversa com uma amiga, perguntava-me ela como era a inspiração para toda semana escrever sobre assuntos diversos. Minha resposta foi a noção comum que se tem a respeito do escritor é que são pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de outro espírito propriamente dito - fenômeno a que se dá o nome de ''inspiração''.

O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças àquele dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados - mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil. O processo todo é penoso e dolorido - e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico - que se assemelha terrivelmente a uma gestação cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos.

Começa você sentindo vagamente que tem umas coisas para dizer ou uma história para contar. Ou, às vezes, ambas. Fica aquilo lá dentro, meio incômodo, meio inchado (antigamente se dizia como ''uma dor incausada''), quando um belo dia a coisa dá para se mexer. Surgem frases já inteiras, surgem indefinições que, se você for ladino bastante, anota para depois aproveitar; mas se for o contumaz preguiçoso, confia-os à memória e depois os esquece. Dentro da enxurrada de frases e de ideias aparecem, então, as pessoas. Surgem como desencarnados numa sessão espírita - timidamente, imprecisamente. São uma cabeça, uma silhueta, uma voz.

Nesse ponto, junto com as frases, pensamentos e criaturas (e mormente com o cenário, embora ainda não se haja falado nele). Nessa altura, a história já se está arrumando. Você sabe mais ou menos o que contar. Os autores meticulosos, nessa fase dos acontecimentos, já delinearam o que eles costumam chamar ''plano de obras'', ou seja, um esqueleto do enredo. Se é um romance, o esquema será mais amplo - os claros serão facilmente preenchíveis. A história corre a bem dizer por si. Mas se se trata de teatro, o esquema bem linear é imperioso: aquilo tem que ser como um pingue-pongue, ter um crescente constante, uma economia, uma nitidez...

E então chega um dos piores momentos nessa fase embrionária da obra por escrever. O autor enguiça. Falta-lhe imaginação para desenrolar o resto da história, falta a centelha necessária para criar a situação única, indispensável, climática, que será como a tônica do trabalho. E a gente fica numa irritabilidade característica, e numa pena enorme de Deus Nosso Senhor, que é obrigado a dirigir as histórias não apenas de um punhado de personagens, mas os milhões de viventes que andam pelo mundo - e se concebe um respeito trêmulo pela divina capacidade de intenção, que tão pouco se repete e tão invariavelmente cria...

Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente. É provável que eles, ao contrário de nós, os terra-a-terra, primeiro imaginem um enredo e depois, segundo as necessidades desse enredo, vão criando os personagens e os situando no tempo e no espaço. Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são os estrelos. A arraia miúda escrevente - ai de nós - é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve. Pronto acabei de fazer mais uma obra.

SALA DE AULA - Em 20/09/2017

Em Conversas com quem gosta de ensinar, Rubem Alves diz: "Educador não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança". Bom que a discussão sobre o ambiente em sala de aula tenha conquistado a opinião pública. Pontos de vistas diferentes têm sido manifestados, e isso é o que realmente precisamos: refletir sobre o ambiente da sala de aula para atingirmos a necessária aprendizagem.

O Brasil tem pressa; temos muito a percorrer para diminuir o fosso educacional que nos separa dos países do Primeiro Mundo. Ignorância, ausência de educação escolar significam pobreza caminhando célere para a miséria; má qualidade de vida, insatisfação, doenças, violência, gastos e mais gastos públicos, má qualificação profissional, desperdícios e carências de toda ordem.


Semana passada no agradabilíssimo local Flor de Lis, discutimos sobre o tema Politica na Escola, tendo como convidados Wendell Garcez, Dr. Mauro Lippi, Dra. Francilane Mendes, Dayana Braga, e alunos da Universidade Estadual do Amazonas. Promover educação significa, em última instância, contribuir para fazer as pessoas mais felizes.

A partir da segunda metade do século 20, mudou o papel do professor, a atitude dos alunos e, consequentemente, a relação professor-aluno. Recomendar a um professor universitário dos idos de 1960 que motivasse seus alunos seria considerado um contrassenso, um despautério. Para ele, eram adultas as pessoas que ingressavam numa universidade deveriam, pois, saber o que queriam. Além disso, com todas as dificuldades e esforços que isso acarretava, só procurava uma universidade quem tinha realmente vontade de aprender.

Mas, atualmente, são muitos os motivos que levam as pessoas a procurar um curso superior, assim como são mínimas as dificuldades e exigências de ingresso. Por isso, nossos alunos precisam ser motivados, e o professor que desconsiderar este aspecto, dificilmente conseguirá envolvimento e bons resultados. E, à medida que o aprendizado não é mais, necessariamente, o cerne do interesse do aluno, motivá-lo passa a ser responsabilidade do professor.

O que move as pessoas para a ação varia de pessoa, formação, interesses, objetivos, necessidades, história de vida e outros fatores. Porém, embora pessoal, interna, ela pode ser provocada por fatores externos; assim, para motivar alguém, é preciso saber o que "mexe" com ela, quais são as suas necessidades, o que a faz vibrar, se envolver.

Embora direcionados para o ambiente de trabalho, seus estudos podem ser verificados no ambiente da sala de aula, já que aprender implica uma ação, uma atitude pessoal na direção da construção de um conceito, na criação de uma visão de mundo, na libertação da dúvida para a conquista do conhecimento.

Na educação superior, entretanto, não faz muito sentido pressupor que vibração, excitação, ludicidade sejam condições para ocorrer o aprendizado, mesmo porque, atividades estimulantes, dinâmicas, lúdicas, por si só, não conseguem manter a motivação em alta durante todo o tempo, assim como também não garantem o aprendizado em qualquer nível. muito, para isso.



OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA - 13/09/2017

O ditado popular - a melhor defesa é o ataque - tem sido incorporado pelos envolvidos na Operação Lava Jato que tentam, a todo custo, não se defenderem, mas colocar em descrédito aqueles que o acusam, no caso o Ministério Público Federal ou mesmo o Poder Judiciário quando as decisões são contrárias aos acusados. A campanha de difamação pelas redes sociais, discursos inflamados, sem nenhum cunho jurídico, tornou-se uma prática corriqueira entre os acusados de cometerem ilícitos em desfavor daqueles que possuem a árdua missão de julgar.

O Poder Judiciário, personificado na pessoa do Juiz Sergio Moro por ter condenado vários empresários, políticos, e o ex-presidente Lula, expoente maior do Partido dos Trabalhadores, tem sofrido os maiores ataques. É sabido que não há democracia sem um Judiciário forte e independente, assim como não há sem o respeito às prerrogativas da nobre classe dos advogados, que com a beca sobre os ombros tem a árdua missão de defender seus constituintes, independente da gravidade dos atos praticados.

O ex-presidente Lula, condenado em primeira instância e réu em vários outros processos, tem, sistematicamente, utilizado do ataque ao julgador como forma de se defender perante a opinião pública.
O último ataque de Lula ocorreu na caravana que fez pelo Nordeste, na cidade de João Pessoa, em seu discurso com suas costumeiras bravatas, afirmou que nenhum "canalha" conseguiu apontar nada de errado que ele fez na vida.

A inapropriada adjetivação utilizada pelo ex-presidente tem o endereço certo, eis que, como dito, por diversas vezes tentou desacreditar os membros do Ministério Público e o Juiz Sergio Moro, agora passando à agressão pessoal. O destempero de Lula é acompanhado por seus asseclas, vários deles envolvidos em denúncias da Lava Jato sejam em Curitiba ou no Supremo Tribunal Federal (STF) por questão do foro privilegiado.

A presidente do Partido dos Trabalhadores, Senadora Gleisi Hoffmann, chegou a chamar Moro de "covarde" por ter condenado o ex-presidente Lula e que sua decisão ataca a democracia. Já o senador Lindbergh Farias o chamou de "covarde e fantoche da Rede Globo". A tentativa vã de desmoralizar o Poder Judiciário parece ser orquestrada por aqueles que se sentiam inatingíveis pela lei e, agora, ostenta a condição de réus ou condenados.

Não estou aqui a fazer a defesa de Sergio Moro, tenho críticas pessoais à quantidade de prisões preventivas deferidas, que poderiam ser substituídas por medidas acautelatórias, mas há de reconhecer o trabalho hercúleo que vem desenvolvendo na condução dos processos da Lava Jato, além de seu reconhecido saber jurídico.

Decisões judiciais se combatem com recursos e não com blasfêmias nas redes sociais e do alto de palanque. Por evidente que elas não estão imunes às críticas, sejam da sociedade, da imprensa, de advogados e dos próprios condenados, mas de forma respeitosa e no campo das ideias e não com insultos pessoais.

Apesar de toda tentativa de difamação, importante ressaltar que a maioria das decisões proferidas pelo Juiz Sérgio Moro tem sido confirmada em instância superior, valendo outro ditado popular, "os cães ladram e a caravana passa".


MÃOS - Em 06/09/2017

Os símbolos criam o contraste poético na história dos homens. Dessa vez as mãos assumem um protagonismo especial. Quando D. Pedro desembainhou sua espada com suas mãos e gritou "Independência ou Morte!", estava sendo protagonista da revolta pelo desgaste do sistema econômico, com restrições e altos impostos, exercido pela Coroa Portuguesa no Brasil.

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista: há mãos carregadas de um lirismo ingênuo, há mãos que serpenteiam, gesticulam, criam e falam, há mãos verdadeiras, acolhedoras e reflexivas.

Mas há também mãos cruéis, dominadoras e assassinas fazendo o contraponto com as mãos calejadas pelo trabalho e demasiado sujas com as dores ou desgraças do mundo. Todas as mãos deveriam ser profundamente assépticas. Exatamente como as mãos de um cirurgião no instante em que apanha o bisturi para salvar uma vida.

Afirmou certa vez Charles Péguy que Kant só possuía mãos limpas porque era privado de mãos. Estava errado o poeta. Até porque as mãos assumiram um significado importante na história. Elas servem, por exemplo, para barrar os escândalos, a corrupção ou o nepotismo. Como imaginar um governo com mãos autoritárias, ou, inversamente, com mãos frouxas.

A lassidão permite sentir a vertiginosa sensação de queda e de vazio no poder que acabará por converter a sociedade numa babel. Não a Babel do filme de Alejandro Iñárritu, tão rico quanto a vida nas suas complexas teias, na sua tensão entre o que não interessa, mas a que se dá relevância, entre aquilo que tem natureza de salvação e redenção e o que se perde no discurso, entre a situação limite das diferentes personagens e a imprevisibilidade do nexo causal que não sendo juridicamente adequado é ontologicamente.

Falo aqui de outra Babel igualmente complexa que se faz perceber no levantar coletivo de uma multiplicidade de mãos numa espécie de coreografia de massa. É como se observássemos um espetáculo de balé de sombras. Nessa representação real, as mãos são de todas as cores, idades e formatos.

Agora fechadas - numa situação de protesto - elas exigem direitos constitucionalmente assegurados e reclamam a segurança pelo menos no uso do transporte coletivo sem serem violentadas. Esperam justiça no ressarcimento das suas perdas e a não humilhação que se evidencia numa simples frase: resistir é perigoso e denunciar é inútil.

Novamente as mãos. Mãos agora sitiadas. Mãos que recusam as leis ditadas pelos homens porque eles não representam os verdadeiros interesses e necessidades daqueles que os elegeram. Mãos inoperantes, e esses exemplos de inoperância se fazem ver, por exemplo, na instituição parlamentar, que abre horizontes a cada legislatura sob o signo da mesmice, dando a entender que a representação política nada aprendeu a respeito dos sismos que devastaram a réstia de crença nos que detêm mandato popular.


ESPERAMOS QUE MUDE - Em 30/08/2017

Este é o desejo de muitos amazonenses e não amazonenses que residem no Amazonas, sobretudo dos que acabam de eleger Amazonino pela quarta vez como Governador do Estado. Foi da própria campanha de Amazonino o slogan "Vamor arrumar a casa em 12 meses" Isto significa que estamos sendo convocados pessoalmente a mudar. Esta é uma convocação, ao mesmo tempo, fantástica e amedrontadora.

Fantástica porque ela é a base da compreensão mais cristalina do que somos. "Somos pessoas em processo permanente de aprendizagem", o que quer dizer protagonistas de mudanças drásticas, de tempos em tempos. Mas mudar dá muito medo. Por causa deste medo, muitas vezes nos encolhemos no já batido e experimentado, confortavelmente perigoso.

Precisamos aprender as coisas mais simples, até como ter fome e sono, por incrível que pareça. E o que pensar de outras aprendizagens que são ainda mais complexas e mais exigentes, as quais não conseguimos fazer sem escola, tais como aprender a ler e a escrever, ou a ingressar nas maravilhas da estrutura multiplicativa dos números, quando da iniciação matemática, a qual faz uma falta grande para que a gente se sirva da articulação em rede que preside a maioria dos pensamentos.

Pensar é indispensável para entender, porque às vezes somos felizes e às vezes não, e para nos ajudar a aumentar as chances de nos sentirmos bem. Aprender é, portanto, mudar. Mas mudar tem dois momentos que se alternam, o das mudanças nas bases e o das mudanças em cima de bases assentadas. Há momentos em que mudar é colocar elementos para edificar sobre um alicerce posto. Há outros momentos em que mudar significa mexer nos próprios alicerces.

Em política hoje, impõe-se o segundo momento, o de remexer nos próprios alicerces, para sobre eles conseguir apoiar novas estruturas. Este momento implica remexer nas idéias que animam a prática dos políticos, porque, não há prática sem teoria, isto é, não há ação sem idéia por detrás. E são as idéias que sustentam a prática que demandam mudanças. As idéias vigentes nesta área estão equivocadas e superadas. E de seu equívoco emana uma injustiça detestável - a não-aprendizagem pelas pessoas nascidas em famílias pobres que frequentam nossas escolas públicas, quando eles todos podem aprender.

Fazer esta mudança implica tanta coragem e tanto apoio popular como a mudança na ortodoxia monetarista que domina nosso modelo econômico. Que cada um de nós ajude a promover tal mudança, porque, se você não muda, nada muda. Estamos todos convocados a gritar presente. Com certeza a construção de um contexto de um mundo mais igual e fraterno só será possível através da consciência individual, na busca por valores de cidadania e de justiça social.

Até agora nenhuma sociedade alcançou a democracia sendo fiel a todos os seus princípios e valores até mesmo na Grécia Antiga onde esse sistema surgiu, boa parte da população era excluída das relações sociais, através da escravidão, da marginalização e da exploração do trabalho. Ainda hoje isso acontece. Não existem mais escravos, contudo as pessoas vivem muito em função de seu trabalho e levam um vida material, esquecendo as questões sociais e outros aspectos essenciais à existência humana. Todos estamos esperando que mude.



UM OLHAR SOBRE A ELEIÇÃO - Em 23/08/2017

Neste próximo Domingo teremos o segundo turno da eleição suplementar para saber quem vai governar nosso Estado nos próximos 15 meses. Há algumas reflexões que merecem destaque. Como forma de olhar a política, as pesquisas eleitorais dizem muito, mas falam pouco. Os números que mostraram Amazonino estourando na dianteira, mais de 30 pontos à frente do segundo colocado deixam evidente que o candidato do PDT está sabendo se valer de trunfos preciosos: sua longa exposição à mídia e seu amadurecimento político, ao passo que Eduardo não teve a capacidade de capturar o difuso espírito oposicionista que parece ter tomado conta da população, ao menos no momento.

Os números sugerem que há muitas dificuldades a partir de agora atormentando a candidatura de Eduardo. Além de ser pouco "simpático", á classe média, de ter fama de gostar demais do poder e de não conseguir resolver seus imbróglios junto a Procuradoria da República, Eduardo não parece estar conseguindo contornar as resistências encarniçadas que se lhe antepõem os setores mais duros do próprio PMDB, ou seja, de sua própria base de sustentação, além da pecha ao seu vice de ter sido seu algoz na eleição passada. Os números mesmo não tão eloquentes acabam por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias.

A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um fato forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno. As estratégias se dedicam a burilar imagens, efeitos e "conceitos", quem sabe embalagens. Os conteúdos importam menos. Os números integram-se a isto e passam a ser cotejados sofregamente. Tudo fica assim condicionado. Uma falha de comunicação, uma frase boba, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido da biografia, qualquer bobagem pode jogar tudo ladeira abaixo.

Em decorrência, todos tendem a não se afastar muito de um ponto "ótimo" de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um factóide bem plantado vale ouro. É a anticampanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros se combinando com o disfarce de si próprio, as escaramuças moralistas e "imagéticas" ganhando mais peso que o debate democrático. Por isto mesmo que cada eleição é novo aprendizado, cada prélio, uma lição que aprimora e aperfeiçoa.

Da mesma forma que na disciplina a que alude o canto décimo de "Os Lusíadas", o democrata não aprende na fantasia, somente sonhando, imaginando e estudando, mas vendo, tratando e pelejando. Este um dos papéis salutares destas eleições. De todas as eleições. Na realidade ficamos com dois candidatos já conhecidos da população por realizações e não realizações, por empáfias e empáfias, os números de votos nulos e brancos vão mostrar o desinteresse do povo em confiar em algum deles.


LEAL DA CUNHA - Em 16/08/2017

Em mais um dia muito triste, lá fui eu, rumo a Funerária. Todo dolorido, coração esbodegado. Uma vez mais, entre tantas outras em tempos diversos. Na cabeça - esta impiedosa registradora de fatos que gostaríamos de esquecer - algo que li, faz tempo, entre as preciosidades machadianas. A ideia era esta: a certa altura da vida, os amigos que nos restam são de data recente; os demais, os mais antigos, já foram estudar a geologia dos campos santos.

Dura realidade essa. Já a amarguei muitas vezes, sofro-a sempre que realizo meus balanços afetivos. Quando isso acontece, me belisco, me agrido, me autoflagelo ao me dar conta de que, por essas distorções e ocupações da vida, desfrutei menos do que devia da companhia dos amigos que já se foram, os fujões involuntários. Foi com esses pesares e com lembranças tais que, no último fim de semana, levei meu silencioso abraço de despedida a um amigo muito querido, benquisto e admirado por quantos com ele privaram, sem falar na imensa torcida do Flamengo, sua grande paixão esportiva, e que a ele ficou devendo os vários campeonatos que lhe proporcionou.

Posto que nesta altura já desnecessariamente, vou escrever seus dois nomes, o genérico e o próprio. O primeiro: amigo; o segundo Leal da Cunha. Amigo mesmo, desses que aparecem nas horas más e que tornam mais deleitáveis nossas horas boas. Poderia ir bem mais longe homenageando o afeto que se foi, eis que o tema é tão rico quando a dor de tê-lo perdido. Fico por aqui, porém. O que faço por esta soberana razão: seu nome não rima com morte. Os que o conheceram de perto sabem do que acabo de falar. Os demais - os que não tiveram a aventura de com ele conviver... Bem, esses não sabem o que perderam.

Tomo emprestado o título do filósofo Sêneca, que em seu livro A brevidade da Vida, presenteia-nos com temas que enriquecem o espírito e arejam a mente através de seu pensamento filosófico. Ele aborda o real significado da vida em relação ao seu rápido transcurso temporal e adverte que o problema não é a velocidade do fluxo vital, fonte de lamentos para muitos, mas sim, a forma como se utiliza o tempo.

Quando se passa por problemas de saúde, e com as reflexões que o momento sugere nos perguntamos: para que, dentre as pessoas, tanta soberba? Tanta vaidade? E os arroubos de poder? E as arrogâncias? O egoísmo? Por que o eu cada vez mais eu e o nós cada vez menos nós? E as ambições? A corrupção e a ética, onde fazem moradas? E o vil metal? Não sabem os que pegam do dinheiro sujo o quanto este se transforma em azinhavre da alma. Por que tantas guerras e o porquê da barbárie que não se desgruda dos que se jactam do poder e da ganância desenfreada?

Passamos com o tempo a emoldurar melhor as ideias do mundo e as definições dele. A vida é um nada neste mundo, mas é bonita e é bonita, como sugere o canto de Gonzaguinha, e o encanto da vida que, por vezes, parece se apagar como a chama de uma vela quando de pequenos sopros, demonstra a nossa fragilidade. Que bom escutar a voz solidária e carinhosa dos familiares e de verdadeiros amigos. Amigo Leal, tenha uma boa morada entre os que passaram por esta vida sem prejudicar ninguém.


PAI - Em 09/08/2017

Neste domingo Dia dos Pais, começo a pensar que existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência. Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nosso dias e que deixou marcas.

Marcas... Umas serão mais profundas, outras superficiais, porém todas com algum significado. Serão detalhes que guardaremos dentro de nós e que se contarmos para outros talvez não tenha a menor importância, pois só nós saberemos o quanto foi incrível vivê-los. Poderá ser uma música, quem sabe um livro, talvez uma poesia, uma carta, um Natal, uma viagem, uma frase que alguém tenha nos dito num momento certo. Quem sabe uma amizade incomparável, um sol que foi alcançado após muita luta, algo que deixou de existir por puro fracasso. Pode ser simplesmente um instante, um olhar, um sorriso, um perfume, um beijo. Para o resto de nossas vidas levaremos pessoas guardadas dentro de nós.

Umas porque nos dedicaram um carinho enorme, outras porque foram o objetivo do nosso amor. Outras ainda por terem nos magoado profundamente. Mas o nosso pai vivo ou morto levaremos para sempre a sua lembrança. Já escrevi uma vez em artigo dedicado aos pais, mas falando aos meus filhos, que mais do que presentes e almoço, o que queria mesmo era dizer algumas palavras aos amados filhos. Palavras que não soem como desculpas, mas sim como uma reflexão que faço de todos estes anos de convivência, ensinamentos e aprendizado; e de esperança em construir em vocês um alicerce seguro que possa suportar para sempre, em qualquer época, os solavancos desta vida, para que vocês sejam sólidos de educação, caráter, dignidade, honra, respeito ao próximo e religiosidade, gratidão.

Quanto um filho é grato aos pais pela vida? Quantos têm gratidão ao benfeitor que aparece sempre nas horas mais difíceis? Penso que o mundo seria muito melhor se as pessoas abrissem o coração e falassem o que realmente estão sentindo. Deste modo, quantas vezes gostaria de ser melhor para vocês e simplesmente não consigo. Quantas vezes digo não, mesmo que este "não" seja penoso, me deixe triste; é o não da razão que vive sob constante ameaça do "sim" que vive lá no fundo do coração. Quantas vezes sou chato por orientá-los insistentemente sobre uma conduta saudável e responsável, ou tento avisá-los de situações de risco, como se pudesse evitar que aprendam doloridamente com os próprios erros. Quantas vezes superprotejo, na ilusão de que poderei poupá-los de trafegarem por estradas mal sinalizadas, esburacadas, escorregadias e com curvas perigosas, na inocente pretensão de protegê-los da vida. Quantas vezes poderia ter feito mais! Ter sido mais amigo, entusiasta, confidente, companheiro, cúmplice, disciplinador, participativo, compreensivo.

Não importa a idade de nossos filhos, ainda é tempo de recomeçar, arregacemos as mangas e mãos-à-obra. Sinto-me orgulhoso meus filhos, por ser pai de vocês. E a todos os pais, Feliz Dia dos Pais.


ELEIÇÕES - 02/08/2017

Domingo teremos eleição para o governo do Estado, para completar o mandato do ex governador que foi cassado. Temos os mais diversos institutos de pesquisa dando como certo segundo turno. O que nos preocupa é que nosso estado está falido, e a primeira coisa que o eleito deve fazer é uma ação consciente e fundamental na vida de um povo como um todo, e não apenas de uma classe restrita - a elite econômica e financeira que infelizmente rege o País. Em seguida, que se estabeleçam bases sólidas (ou pelo menos quase críveis) dessa atividade para que brotem objetivos planejamentos e diretrizes respeitadas. Entretanto, o que vemos constantemente nessas ações - ilações costumeiras transformadas em promessas vãs pelo imenso naco dos políticos brasileiros - são as influências burguesas como concepções próprias da vida, defeitos herdados dos erros do passado e o caráter duvidoso convenientemente emprenhado em grande parte no consciente de nossos homens públicos. Pois que tudo que se planeja é arranjado por acordos, ideias ou doutrinas, geralmente em benefício dos mesmos e seus áulicos. Por vezes, estendem um pouco das sobras do que deveria ser do bem comum para dividir com o pobre povo marginalizado que só acredita em Deus, nas aflições de fé e nos passeios contritos em filas comportadas das procissões de suas oportunas padroeiras. O crucial problema, tanto político como de seus acessórios relevantes para com a governabilidade de um país, tais o econômico ou o pedagógico, só será resolvido quando seus seguidores práticos esbanjarem um mínimo de dignidade em seus atos pelos quais lutam ou postulam na vida em geral - sobretudo na pública. O Estado deveria não só promover como reger a sociedade no caminho desse ilusório bem-comum. Essa alusão do Estado como regente da sociedade presta-se a um entendimento estatista, em contradição aos princípios da doutrina e prática da política. O Estado não pode mandar o povo fazer o que ele manda. Agora, o povo, leia-se sociedade consciente em todas as suas classes, sim! Pela manifestação eleitoral é que pode ditar suas necessidades, promovendo acentuada exigência na gerência do seu dinheiro arrecadado pelos governantes - o tesouro nacional e suas reservas patrimoniais. O Estado, pois, nada mais é do que delegado do povo e seus eleitos dirigentes e asseclas são funcionários pagos pelo povo. O poder de autoridade é fixado nos limites da Lei Eterna e da Lei Natural, seguindo o catecismo filosófico de Santo Tomás de Aquino. Aí surgiu, silencioso, um liberalismo soberano que deu força ao povo, embora combatido por intelectuais católicos, visivelmente inseridos como tema prioritário de má campanha insone de Jackson de Figueiredo, desde o tempo em que o liberalismo individualista tinha abafado os próprios germes do cristianismo de sua geração, na reação fascista contra o comunismo soviético, visto então como uma sadia afirmação do bom senso político. A vontade geral foi desprezada, antes pelo getulismo, depois pelo militarismo, e hoje com o advento do neoliberalismo, argamassada de vez pelo petismo stalinista. Enquanto outros só vivem na cantiga de Lula. Sabem por quê? Foi o único que não deixou os pobres na mão - todo mês tem Bolsa-Família e ninguém se esforça mais atrás dos empregos. Votemos com consciência caros eleitores por mais que pareça apenas quinze meses, tem a famigerada reeleição que com certeza vai ser objeto de cobiça do eleito no domingo. 


O ESTIGMA DA CORRUPÇÃO - Em 26/07/2017

O Poder Legislativo, escreveu Rousseau, é o coração do Estado e o Poder Executivo é o cérebro que dá movimento a todas as partes, para concluir, de forma arrasadora: "O cérebro pode paralisar-se e o indivíduo continuar a viver. Um homem torna-se imbecil e vive, mas, desde que o coração deixa de funcionar, o animal morre."

A imagem é forte, mas os malfeitos sob o patrocínio do parlamento sugerem que, há um bom tempo, vem ele desvanecendo na cinza moral que cobriu formidável parcela de suas decisões no decorrer da onda de baixarias que o País vivenciou e que, pelo visto, ganha passaporte para continuar.

Mais que o Executivo, o Poder Legislativo, por força do simbolismo, constitui o vetor de mudanças e aperfeiçoamento da institucionalização e da democracia. Aos políticos se impõe enterrar de vez o ciclo originado no ventre da ditadura, que nasceu com a concessão autoritária para existência de partidos e se desenvolveu com um oposicionismo monitorado, descambando, mais tarde, neste modelo de tutela de parlamentares, pagamento na boca do caixa, prostituição partidária, adensamento do patrimonialismo, inexistência de ideias e escrúpulos e, coroando o processo, a criação de um (esdrúxulo) parlamentarismo às avessas, caracterizado pela extravagante condição a que se permite o Executivo, qual seja, aplicar leis que ele mesmo institui por meio do abuso de medidas provisórias.

Este é o arcabouço que carece de mudança. Se não se criar novo paradigma para a política, o País verá ampliadas as possibilidades de consumar o crime de viver sob o estigma de eterna corrupção. A independência do Legislativo em relação ao Executivo, meta indeclinável de um conjunto de atores que substitui o poder das ideias pela disputa entre nomes, se estrutura sobre a qualidade partidária, que, por sua vez, depende de estatutos como a cláusula de barreira, abortada pelo Judiciário por inadequação constitucional. A chave do cofre do Palácio do Planalto manterá os parlamentares de pires na mão enquanto se mantiver o orçamento autorizativo, pelo qual o Legislativo apenas autoriza a realização de gastos pelo governo e este segue ou não o rito. O orçamento deve ser impositivo. Nos Estados Unidos, o Executivo fica a reboque, pois o orçamento é uma peça impositiva de gastos.

Estatuto mais que urgente é o da fidelidade partidária. O tempo de filiação de um deputado deve preencher o período eleitoral para o qual foi eleito (quatro anos), sujeitando-se o aventureiro que trocar de sigla a ficar fora do pleito seguinte. Para ganhar a confiança do eleitor, o representante precisa estar mais próximo a ele, e isso se consegue com a mudança do sistema de voto. Cerca de 80% dos eleitores não se recordam do voto dado ao deputado nas últimas eleições.

O ideal seria uma combinação entre os métodos proporcional e majoritário de listas. E por que não se pensar na possibilidade de o eleitor, indignado diante de eventual traição a compromissos, ganhar competência para destituí-lo por meio de representação (recall legislativo) junto à mesa diretora da Câmara? Se Rodrigo Maia e Eunicio Oliveira pensam algo sobre essa pauta, ninguém sabe. Fazem lembrar um pequeno conto: duas pessoas estão presas numa cela que tem apenas pequena abertura para o mundo exterior. Uma vê estrelas, outra só o reflexo delas na lama. O que enxergam os nossos representantes?


ODE AO PAPEL - Em 19/07/2017

Se eu fosse poeta escreveria uma ode ao papel para homenagear esse humilíssimo suporte de toda a sabedoria do mundo. Ninguém se lembra, nunca, de agradecê-lo virtualmente pelos serviços que vem prestando há pelo menos 500 anos, desde a invenção da imprensa, que permitiu a multiplicação de exemplares.

Perecível, mas resistente ao tempo e ao maltrato, ele veio se especializando à medida que foi preciso estender mais o seu emprego na evolução de artes e ofícios. Todas as ideias, as descobertas, as invenções, os acontecimentos históricos e as necessidades emocionais que levam o homem a externar suas paixões e seus sentimentos estão lá, repousando nas superfícies silenciosas de páginas inseridas nos milhões de livros que já foram produzidos no mundo.

E nos documentos de toda espécie e tamanho, desde os privados até os públicos, usando os mais variados processos de escrita e reprodução de imagens. Glorioso. Glorioso papel, inerte e obediente que, até ontem, supria todas as necessidades de registro a serem guardadas na nossa memória ou enviadas para memórias distantes. Glorioso papel, cuja morte iminente foi preconizada com o surgimento da fabulosa mágica da informática, cujos poderes e dinâmica despachariam o inocente neto do papiro para a idade da pedra.

Mas, por enquanto não aconteceu quase nada disso. Digo quase porque a produção de impressos sobre papel se vale bastante, hoje, dos recursos comandados pelos teclados dos computadores e pela transferência de imagens. Mas o humilde e centenário papel continua silencioso e, ao que parece, usado agora em maior quantidade, dando conta das nossas exigências.

Até quando? Talvez até o dia - pode-se esperar de tudo da criatividade humana - em que não haverá mais necessidade de ler e escrever. Uma comunicação direta entre neurônios dispensará qualquer outro sistema de comunicação. E os papéis com assinaturas e carimbos, que conviveram com a história inicial da comunicação eletrônica já serão peças de museu (virtual, obviamente).

Por enquanto você precisa ainda de um pedaço de papel que diga que você nasceu e, outro, que você morreu, senão você não existiu na face da Terra. Glorioso papel, que já foi um dos primeiros recursos para a criação do veículo chamado jornal. Um tímido suporte que se prestou, desde a fase embrionária, a gravar em suas superfícies as informações e as opiniões que alimentaram e eram alimentadas pela sucessão de fatos e ideias que desenharam a história do mundo. Um veículo que resistiu a todas as ameaças de extinção. Talvez porque tenha o charme irresistível de uma bela mulher, que não envelhece e nunca perde seus encantos.

Mas todos nós sabemos - eu, você leitor, e um monte de gente que nos circunda - que somos viciados, dependentes do nosso exemplar matutino, que nos predispõe para atravessar o dia. Se, por ventura, você estiver lendo esta crônica, cujo berço é um pedaço de papel, talvez fique curioso por saber como ela se ajeitou neste espaço. É muito simples (ou milagroso?): eu escrevi o texto digitando em um computador, daí, pelo éter, com a velocidade do pensamento, foi transferido para um computador dos blogs, do face e do Em Tempo, entrando no processo de produção que imprimiu o exemplar que está na sua mão.


Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

CHIQUEIRO - Em 12/07/2017

Parece brincadeira, mas o que aconteceu ontem no Senado da República com as senadoras Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Grazziotin (PcdoB-AM), Fátima Bezerra (PT-RN) e Regina Souza (PT-PI) ocupando por mais de cinco horas a Mesa do plenário do Senado, sendo o Presidente do Senado obrigado a desligar as luzes e os microfones.

Há algum tempo, a revista inglesa The Economist, com ampla circulação mundial, publicou matéria em que classificava o Congresso brasileiro de "chiqueiro", lembrando que as duas casas do Poder Legislativo estão tão desmoralizadas que imaginar que os parlamentares votarão reforma política é o mesmo que atribuir aos perus, no Natal, a administração de seus pescoços. Claro que deputados e senadores se sentiram profundamente insultados, embora devessem estar acostumados, já que o assunto é tratado diariamente pela imprensa nacional.

As pesquisas de opinião revelam o que pensa o povo brasileiro sobre o Congresso, e a imprensa não esconde nada, mesmo tendo que conviver com a sucessão de escândalos que insistem em confundir o país com uma cloaca. Diante do insulto da revista inglesa, os congressistas têm duas alternativas: desafiar o jornalista para um duelo ou romper relações diplomáticas com a Inglaterra. Como nada disso, naturalmente, não será feito, talvez eles possam aproveitar a dura metáfora e admitir que deram inúmeros motivos para a redação de matéria tão áspera e tão feroz.

Na verdade, o que a revista inglesa fez, refletindo a imprensa brasileira, foi mostrar que o Congresso não cumpre seu papel como deveria. A publicação levou ao mundo inteiro a triste e lamentável imagem de corrupção que prospera entre os congressistas e que toda as semanas se repete, seja na predação de recursos públicos, seja no escandaloso desvio de verbas que deveriam atender as necessidades de hospitais e escolas, além de ambulâncias e merenda escolar. Como não há limites para a imoralidade pública, os congressistas passam os dias a se explicar, prejudicando sensivelmente a confiança do povo nas instituições.

Pode-se dizer que The Economist poderia cuidar, com igual fervor, do Congresso britânico, mas até nisso os senadores e deputados brasileiros estariam equivocados, já que Parlamento inglês foi literalmente devassado pela revista e por todos os tabloides que circulam no país. Nada lhes escapa, de escândalos sexuais e ocorrências medonhas de pedofilia, passando por desvios de recursos públicos. Como se vê, competência para mexer em pântanos não lhe falta. A revista está certa de que os congressistas brasileiros não farão qualquer reforma política, para não perder privilégios.

A verdade é que o Congresso está desmoralizado e só se recuperará quando o Orçamento da União for deixado de lado e se der prioridade aos recursos da educação, dos aposentados e pensionistas, das grandes causas sociais e da precária e revoltante infraestrutura que se transforma em gargalo para o desenvolvimento do conjunto da economia. Há uma guerra civil diária nas ruas do Rio de Janeiro e na periferia de São Paulo, que domina o imaginário brasileiro e que alguns jornais, com ou sem maldade, dizem ser manifestação da população diante dos exemplos que vêm de Brasília. Assim, o Congresso, que não funciona como deveria, dá sua generosa contribuição para que o noticiário seja quase todo sobre criminalidade.


Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

O CONTO DOS DIFERENTES - Em 05/07/2017

Em meio a essa enxurrada de casos de desvios de dinheiros, envolvendo, principalmente, políticos de diversas origens partidárias e doutrinárias, observo as mais variadas opiniões, na TV, nas conversas, nas cartas de leitores e mesmo em artigos e editoriais. Uns, céticos, dizem que o Brasil não tem jeito. Os revoltados asseguram que não votam mais em ninguém.

Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

Pelo menos nos últimos 50 anos, para não ir mais longe na História, o Brasil passou da esperança para a decepção, quando algumas corporações, cada uma ao seu modo, impuseram, ou venderam, o sonho da salvação nacional, da pureza moral e da retidão ética. Os militares, em 64, comandaram o País, orquestrando o bordão Brasil, ame-o ou deixe-o, sob o qual se escondia a falaciosa mensagem maniqueísta: fiquem os bons; os maus se retirem (ou desapareçam). O fim gradual dessa prolongada experiência foi melancólico.

Anos depois, o colorido Caçador de Marajás renovou esperanças de grandeza moral e de soluções épicas, reprisando o estilo Indiana Jones, mas sem final feliz. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, durante os últimos 25 anos, conquistou, paulatinamente, os brasileiros, combatendo o autoritarismo, denunciando a corrupção e anunciando um novo estilo de governar. Afirmavam os seus ativistas que o PT era diferente. No exercício do poder, lamentavelmente, não foi diferente.

Temos aí lições sofridas, mas preciosas, que nos ensinam a não mais marcharmos, patrioticamente, ao lado do autoritarismo discricionário; não ficarmos embevecidos e esperando milagres de pretensos salvadores da pátria e não aceitarmos, por hipótese alguma, que os fins justificam os meios. Se assim julgava o núcleo duro do PT, talvez, até, com o distante assentimento do Presidente, inebriado com o seu Sonho de Poder, na prática, deu no que estamos, melancólica e democraticamente, presenciando... Uma velha advertência cabe ser sempre lembrada: a ocasião faz o ladrão!

O que devemos fazer, doravante, depois dessa quase mortal infecção generalizada, é fecharmos as portas para as ocasiões tentadoras. E isso, conquanto não seja alcançado, do-dia-pra-noite, deve constituir o objetivo perene a ser perseguido, tendo como viga-mestra instituições harmônicas, sadias e independentes, assentadas em robustos pilares democráticos.

Vamos tirar o Estado da execução e aprimorar as suas funções de planejamento integrado, supervisão e controle. Vamos eleger a educação, em sentido amplo, a maior prioridade nacional. A liberdade de imprensa responsável é um exemplo dessas forças catalisadoras. É a sua prática que vem nos permitindo assistir, em tempo real, o desmonte de patifarias e falcatruas que, em outras épocas, de menor transparência, proliferavam, impunemente.


Postagens Anteriores

Olhar Crítico

Professor Flávio Lauria