Olhar Crítico


SALA DE AULA - Em 20/09/2017

Em Conversas com quem gosta de ensinar, Rubem Alves diz: "Educador não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança". Bom que a discussão sobre o ambiente em sala de aula tenha conquistado a opinião pública. Pontos de vistas diferentes têm sido manifestados, e isso é o que realmente precisamos: refletir sobre o ambiente da sala de aula para atingirmos a necessária aprendizagem.

O Brasil tem pressa; temos muito a percorrer para diminuir o fosso educacional que nos separa dos países do Primeiro Mundo. Ignorância, ausência de educação escolar significam pobreza caminhando célere para a miséria; má qualidade de vida, insatisfação, doenças, violência, gastos e mais gastos públicos, má qualificação profissional, desperdícios e carências de toda ordem.


Semana passada no agradabilíssimo local Flor de Lis, discutimos sobre o tema Politica na Escola, tendo como convidados Wendell Garcez, Dr. Mauro Lippi, Dra. Francilane Mendes, Dayana Braga, e alunos da Universidade Estadual do Amazonas. Promover educação significa, em última instância, contribuir para fazer as pessoas mais felizes.

A partir da segunda metade do século 20, mudou o papel do professor, a atitude dos alunos e, consequentemente, a relação professor-aluno. Recomendar a um professor universitário dos idos de 1960 que motivasse seus alunos seria considerado um contrassenso, um despautério. Para ele, eram adultas as pessoas que ingressavam numa universidade deveriam, pois, saber o que queriam. Além disso, com todas as dificuldades e esforços que isso acarretava, só procurava uma universidade quem tinha realmente vontade de aprender.

Mas, atualmente, são muitos os motivos que levam as pessoas a procurar um curso superior, assim como são mínimas as dificuldades e exigências de ingresso. Por isso, nossos alunos precisam ser motivados, e o professor que desconsiderar este aspecto, dificilmente conseguirá envolvimento e bons resultados. E, à medida que o aprendizado não é mais, necessariamente, o cerne do interesse do aluno, motivá-lo passa a ser responsabilidade do professor.

O que move as pessoas para a ação varia de pessoa, formação, interesses, objetivos, necessidades, história de vida e outros fatores. Porém, embora pessoal, interna, ela pode ser provocada por fatores externos; assim, para motivar alguém, é preciso saber o que "mexe" com ela, quais são as suas necessidades, o que a faz vibrar, se envolver.

Embora direcionados para o ambiente de trabalho, seus estudos podem ser verificados no ambiente da sala de aula, já que aprender implica uma ação, uma atitude pessoal na direção da construção de um conceito, na criação de uma visão de mundo, na libertação da dúvida para a conquista do conhecimento.

Na educação superior, entretanto, não faz muito sentido pressupor que vibração, excitação, ludicidade sejam condições para ocorrer o aprendizado, mesmo porque, atividades estimulantes, dinâmicas, lúdicas, por si só, não conseguem manter a motivação em alta durante todo o tempo, assim como também não garantem o aprendizado em qualquer nível. muito, para isso.



OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA - 13/09/2017

O ditado popular - a melhor defesa é o ataque - tem sido incorporado pelos envolvidos na Operação Lava Jato que tentam, a todo custo, não se defenderem, mas colocar em descrédito aqueles que o acusam, no caso o Ministério Público Federal ou mesmo o Poder Judiciário quando as decisões são contrárias aos acusados. A campanha de difamação pelas redes sociais, discursos inflamados, sem nenhum cunho jurídico, tornou-se uma prática corriqueira entre os acusados de cometerem ilícitos em desfavor daqueles que possuem a árdua missão de julgar.

O Poder Judiciário, personificado na pessoa do Juiz Sergio Moro por ter condenado vários empresários, políticos, e o ex-presidente Lula, expoente maior do Partido dos Trabalhadores, tem sofrido os maiores ataques. É sabido que não há democracia sem um Judiciário forte e independente, assim como não há sem o respeito às prerrogativas da nobre classe dos advogados, que com a beca sobre os ombros tem a árdua missão de defender seus constituintes, independente da gravidade dos atos praticados.

O ex-presidente Lula, condenado em primeira instância e réu em vários outros processos, tem, sistematicamente, utilizado do ataque ao julgador como forma de se defender perante a opinião pública.
O último ataque de Lula ocorreu na caravana que fez pelo Nordeste, na cidade de João Pessoa, em seu discurso com suas costumeiras bravatas, afirmou que nenhum "canalha" conseguiu apontar nada de errado que ele fez na vida.

A inapropriada adjetivação utilizada pelo ex-presidente tem o endereço certo, eis que, como dito, por diversas vezes tentou desacreditar os membros do Ministério Público e o Juiz Sergio Moro, agora passando à agressão pessoal. O destempero de Lula é acompanhado por seus asseclas, vários deles envolvidos em denúncias da Lava Jato sejam em Curitiba ou no Supremo Tribunal Federal (STF) por questão do foro privilegiado.

A presidente do Partido dos Trabalhadores, Senadora Gleisi Hoffmann, chegou a chamar Moro de "covarde" por ter condenado o ex-presidente Lula e que sua decisão ataca a democracia. Já o senador Lindbergh Farias o chamou de "covarde e fantoche da Rede Globo". A tentativa vã de desmoralizar o Poder Judiciário parece ser orquestrada por aqueles que se sentiam inatingíveis pela lei e, agora, ostenta a condição de réus ou condenados.

Não estou aqui a fazer a defesa de Sergio Moro, tenho críticas pessoais à quantidade de prisões preventivas deferidas, que poderiam ser substituídas por medidas acautelatórias, mas há de reconhecer o trabalho hercúleo que vem desenvolvendo na condução dos processos da Lava Jato, além de seu reconhecido saber jurídico.

Decisões judiciais se combatem com recursos e não com blasfêmias nas redes sociais e do alto de palanque. Por evidente que elas não estão imunes às críticas, sejam da sociedade, da imprensa, de advogados e dos próprios condenados, mas de forma respeitosa e no campo das ideias e não com insultos pessoais.

Apesar de toda tentativa de difamação, importante ressaltar que a maioria das decisões proferidas pelo Juiz Sérgio Moro tem sido confirmada em instância superior, valendo outro ditado popular, "os cães ladram e a caravana passa".


MÃOS - Em 06/09/2017

Os símbolos criam o contraste poético na história dos homens. Dessa vez as mãos assumem um protagonismo especial. Quando D. Pedro desembainhou sua espada com suas mãos e gritou "Independência ou Morte!", estava sendo protagonista da revolta pelo desgaste do sistema econômico, com restrições e altos impostos, exercido pela Coroa Portuguesa no Brasil.

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista: há mãos carregadas de um lirismo ingênuo, há mãos que serpenteiam, gesticulam, criam e falam, há mãos verdadeiras, acolhedoras e reflexivas.

Mas há também mãos cruéis, dominadoras e assassinas fazendo o contraponto com as mãos calejadas pelo trabalho e demasiado sujas com as dores ou desgraças do mundo. Todas as mãos deveriam ser profundamente assépticas. Exatamente como as mãos de um cirurgião no instante em que apanha o bisturi para salvar uma vida.

Afirmou certa vez Charles Péguy que Kant só possuía mãos limpas porque era privado de mãos. Estava errado o poeta. Até porque as mãos assumiram um significado importante na história. Elas servem, por exemplo, para barrar os escândalos, a corrupção ou o nepotismo. Como imaginar um governo com mãos autoritárias, ou, inversamente, com mãos frouxas.

A lassidão permite sentir a vertiginosa sensação de queda e de vazio no poder que acabará por converter a sociedade numa babel. Não a Babel do filme de Alejandro Iñárritu, tão rico quanto a vida nas suas complexas teias, na sua tensão entre o que não interessa, mas a que se dá relevância, entre aquilo que tem natureza de salvação e redenção e o que se perde no discurso, entre a situação limite das diferentes personagens e a imprevisibilidade do nexo causal que não sendo juridicamente adequado é ontologicamente.

Falo aqui de outra Babel igualmente complexa que se faz perceber no levantar coletivo de uma multiplicidade de mãos numa espécie de coreografia de massa. É como se observássemos um espetáculo de balé de sombras. Nessa representação real, as mãos são de todas as cores, idades e formatos.

Agora fechadas - numa situação de protesto - elas exigem direitos constitucionalmente assegurados e reclamam a segurança pelo menos no uso do transporte coletivo sem serem violentadas. Esperam justiça no ressarcimento das suas perdas e a não humilhação que se evidencia numa simples frase: resistir é perigoso e denunciar é inútil.

Novamente as mãos. Mãos agora sitiadas. Mãos que recusam as leis ditadas pelos homens porque eles não representam os verdadeiros interesses e necessidades daqueles que os elegeram. Mãos inoperantes, e esses exemplos de inoperância se fazem ver, por exemplo, na instituição parlamentar, que abre horizontes a cada legislatura sob o signo da mesmice, dando a entender que a representação política nada aprendeu a respeito dos sismos que devastaram a réstia de crença nos que detêm mandato popular.


ESPERAMOS QUE MUDE - Em 30/08/2017

Este é o desejo de muitos amazonenses e não amazonenses que residem no Amazonas, sobretudo dos que acabam de eleger Amazonino pela quarta vez como Governador do Estado. Foi da própria campanha de Amazonino o slogan "Vamor arrumar a casa em 12 meses" Isto significa que estamos sendo convocados pessoalmente a mudar. Esta é uma convocação, ao mesmo tempo, fantástica e amedrontadora.

Fantástica porque ela é a base da compreensão mais cristalina do que somos. "Somos pessoas em processo permanente de aprendizagem", o que quer dizer protagonistas de mudanças drásticas, de tempos em tempos. Mas mudar dá muito medo. Por causa deste medo, muitas vezes nos encolhemos no já batido e experimentado, confortavelmente perigoso.

Precisamos aprender as coisas mais simples, até como ter fome e sono, por incrível que pareça. E o que pensar de outras aprendizagens que são ainda mais complexas e mais exigentes, as quais não conseguimos fazer sem escola, tais como aprender a ler e a escrever, ou a ingressar nas maravilhas da estrutura multiplicativa dos números, quando da iniciação matemática, a qual faz uma falta grande para que a gente se sirva da articulação em rede que preside a maioria dos pensamentos.

Pensar é indispensável para entender, porque às vezes somos felizes e às vezes não, e para nos ajudar a aumentar as chances de nos sentirmos bem. Aprender é, portanto, mudar. Mas mudar tem dois momentos que se alternam, o das mudanças nas bases e o das mudanças em cima de bases assentadas. Há momentos em que mudar é colocar elementos para edificar sobre um alicerce posto. Há outros momentos em que mudar significa mexer nos próprios alicerces.

Em política hoje, impõe-se o segundo momento, o de remexer nos próprios alicerces, para sobre eles conseguir apoiar novas estruturas. Este momento implica remexer nas idéias que animam a prática dos políticos, porque, não há prática sem teoria, isto é, não há ação sem idéia por detrás. E são as idéias que sustentam a prática que demandam mudanças. As idéias vigentes nesta área estão equivocadas e superadas. E de seu equívoco emana uma injustiça detestável - a não-aprendizagem pelas pessoas nascidas em famílias pobres que frequentam nossas escolas públicas, quando eles todos podem aprender.

Fazer esta mudança implica tanta coragem e tanto apoio popular como a mudança na ortodoxia monetarista que domina nosso modelo econômico. Que cada um de nós ajude a promover tal mudança, porque, se você não muda, nada muda. Estamos todos convocados a gritar presente. Com certeza a construção de um contexto de um mundo mais igual e fraterno só será possível através da consciência individual, na busca por valores de cidadania e de justiça social.

Até agora nenhuma sociedade alcançou a democracia sendo fiel a todos os seus princípios e valores até mesmo na Grécia Antiga onde esse sistema surgiu, boa parte da população era excluída das relações sociais, através da escravidão, da marginalização e da exploração do trabalho. Ainda hoje isso acontece. Não existem mais escravos, contudo as pessoas vivem muito em função de seu trabalho e levam um vida material, esquecendo as questões sociais e outros aspectos essenciais à existência humana. Todos estamos esperando que mude.



UM OLHAR SOBRE A ELEIÇÃO - Em 23/08/2017

Neste próximo Domingo teremos o segundo turno da eleição suplementar para saber quem vai governar nosso Estado nos próximos 15 meses. Há algumas reflexões que merecem destaque. Como forma de olhar a política, as pesquisas eleitorais dizem muito, mas falam pouco. Os números que mostraram Amazonino estourando na dianteira, mais de 30 pontos à frente do segundo colocado deixam evidente que o candidato do PDT está sabendo se valer de trunfos preciosos: sua longa exposição à mídia e seu amadurecimento político, ao passo que Eduardo não teve a capacidade de capturar o difuso espírito oposicionista que parece ter tomado conta da população, ao menos no momento.

Os números sugerem que há muitas dificuldades a partir de agora atormentando a candidatura de Eduardo. Além de ser pouco "simpático", á classe média, de ter fama de gostar demais do poder e de não conseguir resolver seus imbróglios junto a Procuradoria da República, Eduardo não parece estar conseguindo contornar as resistências encarniçadas que se lhe antepõem os setores mais duros do próprio PMDB, ou seja, de sua própria base de sustentação, além da pecha ao seu vice de ter sido seu algoz na eleição passada. Os números mesmo não tão eloquentes acabam por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias.

A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um fato forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno. As estratégias se dedicam a burilar imagens, efeitos e "conceitos", quem sabe embalagens. Os conteúdos importam menos. Os números integram-se a isto e passam a ser cotejados sofregamente. Tudo fica assim condicionado. Uma falha de comunicação, uma frase boba, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido da biografia, qualquer bobagem pode jogar tudo ladeira abaixo.

Em decorrência, todos tendem a não se afastar muito de um ponto "ótimo" de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um factóide bem plantado vale ouro. É a anticampanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros se combinando com o disfarce de si próprio, as escaramuças moralistas e "imagéticas" ganhando mais peso que o debate democrático. Por isto mesmo que cada eleição é novo aprendizado, cada prélio, uma lição que aprimora e aperfeiçoa.

Da mesma forma que na disciplina a que alude o canto décimo de "Os Lusíadas", o democrata não aprende na fantasia, somente sonhando, imaginando e estudando, mas vendo, tratando e pelejando. Este um dos papéis salutares destas eleições. De todas as eleições. Na realidade ficamos com dois candidatos já conhecidos da população por realizações e não realizações, por empáfias e empáfias, os números de votos nulos e brancos vão mostrar o desinteresse do povo em confiar em algum deles.


LEAL DA CUNHA - Em 16/08/2017

Em mais um dia muito triste, lá fui eu, rumo a Funerária. Todo dolorido, coração esbodegado. Uma vez mais, entre tantas outras em tempos diversos. Na cabeça - esta impiedosa registradora de fatos que gostaríamos de esquecer - algo que li, faz tempo, entre as preciosidades machadianas. A ideia era esta: a certa altura da vida, os amigos que nos restam são de data recente; os demais, os mais antigos, já foram estudar a geologia dos campos santos.

Dura realidade essa. Já a amarguei muitas vezes, sofro-a sempre que realizo meus balanços afetivos. Quando isso acontece, me belisco, me agrido, me autoflagelo ao me dar conta de que, por essas distorções e ocupações da vida, desfrutei menos do que devia da companhia dos amigos que já se foram, os fujões involuntários. Foi com esses pesares e com lembranças tais que, no último fim de semana, levei meu silencioso abraço de despedida a um amigo muito querido, benquisto e admirado por quantos com ele privaram, sem falar na imensa torcida do Flamengo, sua grande paixão esportiva, e que a ele ficou devendo os vários campeonatos que lhe proporcionou.

Posto que nesta altura já desnecessariamente, vou escrever seus dois nomes, o genérico e o próprio. O primeiro: amigo; o segundo Leal da Cunha. Amigo mesmo, desses que aparecem nas horas más e que tornam mais deleitáveis nossas horas boas. Poderia ir bem mais longe homenageando o afeto que se foi, eis que o tema é tão rico quando a dor de tê-lo perdido. Fico por aqui, porém. O que faço por esta soberana razão: seu nome não rima com morte. Os que o conheceram de perto sabem do que acabo de falar. Os demais - os que não tiveram a aventura de com ele conviver... Bem, esses não sabem o que perderam.

Tomo emprestado o título do filósofo Sêneca, que em seu livro A brevidade da Vida, presenteia-nos com temas que enriquecem o espírito e arejam a mente através de seu pensamento filosófico. Ele aborda o real significado da vida em relação ao seu rápido transcurso temporal e adverte que o problema não é a velocidade do fluxo vital, fonte de lamentos para muitos, mas sim, a forma como se utiliza o tempo.

Quando se passa por problemas de saúde, e com as reflexões que o momento sugere nos perguntamos: para que, dentre as pessoas, tanta soberba? Tanta vaidade? E os arroubos de poder? E as arrogâncias? O egoísmo? Por que o eu cada vez mais eu e o nós cada vez menos nós? E as ambições? A corrupção e a ética, onde fazem moradas? E o vil metal? Não sabem os que pegam do dinheiro sujo o quanto este se transforma em azinhavre da alma. Por que tantas guerras e o porquê da barbárie que não se desgruda dos que se jactam do poder e da ganância desenfreada?

Passamos com o tempo a emoldurar melhor as ideias do mundo e as definições dele. A vida é um nada neste mundo, mas é bonita e é bonita, como sugere o canto de Gonzaguinha, e o encanto da vida que, por vezes, parece se apagar como a chama de uma vela quando de pequenos sopros, demonstra a nossa fragilidade. Que bom escutar a voz solidária e carinhosa dos familiares e de verdadeiros amigos. Amigo Leal, tenha uma boa morada entre os que passaram por esta vida sem prejudicar ninguém.


PAI - Em 09/08/2017

Neste domingo Dia dos Pais, começo a pensar que existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência. Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nosso dias e que deixou marcas.

Marcas... Umas serão mais profundas, outras superficiais, porém todas com algum significado. Serão detalhes que guardaremos dentro de nós e que se contarmos para outros talvez não tenha a menor importância, pois só nós saberemos o quanto foi incrível vivê-los. Poderá ser uma música, quem sabe um livro, talvez uma poesia, uma carta, um Natal, uma viagem, uma frase que alguém tenha nos dito num momento certo. Quem sabe uma amizade incomparável, um sol que foi alcançado após muita luta, algo que deixou de existir por puro fracasso. Pode ser simplesmente um instante, um olhar, um sorriso, um perfume, um beijo. Para o resto de nossas vidas levaremos pessoas guardadas dentro de nós.

Umas porque nos dedicaram um carinho enorme, outras porque foram o objetivo do nosso amor. Outras ainda por terem nos magoado profundamente. Mas o nosso pai vivo ou morto levaremos para sempre a sua lembrança. Já escrevi uma vez em artigo dedicado aos pais, mas falando aos meus filhos, que mais do que presentes e almoço, o que queria mesmo era dizer algumas palavras aos amados filhos. Palavras que não soem como desculpas, mas sim como uma reflexão que faço de todos estes anos de convivência, ensinamentos e aprendizado; e de esperança em construir em vocês um alicerce seguro que possa suportar para sempre, em qualquer época, os solavancos desta vida, para que vocês sejam sólidos de educação, caráter, dignidade, honra, respeito ao próximo e religiosidade, gratidão.

Quanto um filho é grato aos pais pela vida? Quantos têm gratidão ao benfeitor que aparece sempre nas horas mais difíceis? Penso que o mundo seria muito melhor se as pessoas abrissem o coração e falassem o que realmente estão sentindo. Deste modo, quantas vezes gostaria de ser melhor para vocês e simplesmente não consigo. Quantas vezes digo não, mesmo que este "não" seja penoso, me deixe triste; é o não da razão que vive sob constante ameaça do "sim" que vive lá no fundo do coração. Quantas vezes sou chato por orientá-los insistentemente sobre uma conduta saudável e responsável, ou tento avisá-los de situações de risco, como se pudesse evitar que aprendam doloridamente com os próprios erros. Quantas vezes superprotejo, na ilusão de que poderei poupá-los de trafegarem por estradas mal sinalizadas, esburacadas, escorregadias e com curvas perigosas, na inocente pretensão de protegê-los da vida. Quantas vezes poderia ter feito mais! Ter sido mais amigo, entusiasta, confidente, companheiro, cúmplice, disciplinador, participativo, compreensivo.

Não importa a idade de nossos filhos, ainda é tempo de recomeçar, arregacemos as mangas e mãos-à-obra. Sinto-me orgulhoso meus filhos, por ser pai de vocês. E a todos os pais, Feliz Dia dos Pais.


ELEIÇÕES - 02/08/2017

Domingo teremos eleição para o governo do Estado, para completar o mandato do ex governador que foi cassado. Temos os mais diversos institutos de pesquisa dando como certo segundo turno. O que nos preocupa é que nosso estado está falido, e a primeira coisa que o eleito deve fazer é uma ação consciente e fundamental na vida de um povo como um todo, e não apenas de uma classe restrita - a elite econômica e financeira que infelizmente rege o País. Em seguida, que se estabeleçam bases sólidas (ou pelo menos quase críveis) dessa atividade para que brotem objetivos planejamentos e diretrizes respeitadas. Entretanto, o que vemos constantemente nessas ações - ilações costumeiras transformadas em promessas vãs pelo imenso naco dos políticos brasileiros - são as influências burguesas como concepções próprias da vida, defeitos herdados dos erros do passado e o caráter duvidoso convenientemente emprenhado em grande parte no consciente de nossos homens públicos. Pois que tudo que se planeja é arranjado por acordos, ideias ou doutrinas, geralmente em benefício dos mesmos e seus áulicos. Por vezes, estendem um pouco das sobras do que deveria ser do bem comum para dividir com o pobre povo marginalizado que só acredita em Deus, nas aflições de fé e nos passeios contritos em filas comportadas das procissões de suas oportunas padroeiras. O crucial problema, tanto político como de seus acessórios relevantes para com a governabilidade de um país, tais o econômico ou o pedagógico, só será resolvido quando seus seguidores práticos esbanjarem um mínimo de dignidade em seus atos pelos quais lutam ou postulam na vida em geral - sobretudo na pública. O Estado deveria não só promover como reger a sociedade no caminho desse ilusório bem-comum. Essa alusão do Estado como regente da sociedade presta-se a um entendimento estatista, em contradição aos princípios da doutrina e prática da política. O Estado não pode mandar o povo fazer o que ele manda. Agora, o povo, leia-se sociedade consciente em todas as suas classes, sim! Pela manifestação eleitoral é que pode ditar suas necessidades, promovendo acentuada exigência na gerência do seu dinheiro arrecadado pelos governantes - o tesouro nacional e suas reservas patrimoniais. O Estado, pois, nada mais é do que delegado do povo e seus eleitos dirigentes e asseclas são funcionários pagos pelo povo. O poder de autoridade é fixado nos limites da Lei Eterna e da Lei Natural, seguindo o catecismo filosófico de Santo Tomás de Aquino. Aí surgiu, silencioso, um liberalismo soberano que deu força ao povo, embora combatido por intelectuais católicos, visivelmente inseridos como tema prioritário de má campanha insone de Jackson de Figueiredo, desde o tempo em que o liberalismo individualista tinha abafado os próprios germes do cristianismo de sua geração, na reação fascista contra o comunismo soviético, visto então como uma sadia afirmação do bom senso político. A vontade geral foi desprezada, antes pelo getulismo, depois pelo militarismo, e hoje com o advento do neoliberalismo, argamassada de vez pelo petismo stalinista. Enquanto outros só vivem na cantiga de Lula. Sabem por quê? Foi o único que não deixou os pobres na mão - todo mês tem Bolsa-Família e ninguém se esforça mais atrás dos empregos. Votemos com consciência caros eleitores por mais que pareça apenas quinze meses, tem a famigerada reeleição que com certeza vai ser objeto de cobiça do eleito no domingo. 


O ESTIGMA DA CORRUPÇÃO - Em 26/07/2017

O Poder Legislativo, escreveu Rousseau, é o coração do Estado e o Poder Executivo é o cérebro que dá movimento a todas as partes, para concluir, de forma arrasadora: "O cérebro pode paralisar-se e o indivíduo continuar a viver. Um homem torna-se imbecil e vive, mas, desde que o coração deixa de funcionar, o animal morre."

A imagem é forte, mas os malfeitos sob o patrocínio do parlamento sugerem que, há um bom tempo, vem ele desvanecendo na cinza moral que cobriu formidável parcela de suas decisões no decorrer da onda de baixarias que o País vivenciou e que, pelo visto, ganha passaporte para continuar.

Mais que o Executivo, o Poder Legislativo, por força do simbolismo, constitui o vetor de mudanças e aperfeiçoamento da institucionalização e da democracia. Aos políticos se impõe enterrar de vez o ciclo originado no ventre da ditadura, que nasceu com a concessão autoritária para existência de partidos e se desenvolveu com um oposicionismo monitorado, descambando, mais tarde, neste modelo de tutela de parlamentares, pagamento na boca do caixa, prostituição partidária, adensamento do patrimonialismo, inexistência de ideias e escrúpulos e, coroando o processo, a criação de um (esdrúxulo) parlamentarismo às avessas, caracterizado pela extravagante condição a que se permite o Executivo, qual seja, aplicar leis que ele mesmo institui por meio do abuso de medidas provisórias.

Este é o arcabouço que carece de mudança. Se não se criar novo paradigma para a política, o País verá ampliadas as possibilidades de consumar o crime de viver sob o estigma de eterna corrupção. A independência do Legislativo em relação ao Executivo, meta indeclinável de um conjunto de atores que substitui o poder das ideias pela disputa entre nomes, se estrutura sobre a qualidade partidária, que, por sua vez, depende de estatutos como a cláusula de barreira, abortada pelo Judiciário por inadequação constitucional. A chave do cofre do Palácio do Planalto manterá os parlamentares de pires na mão enquanto se mantiver o orçamento autorizativo, pelo qual o Legislativo apenas autoriza a realização de gastos pelo governo e este segue ou não o rito. O orçamento deve ser impositivo. Nos Estados Unidos, o Executivo fica a reboque, pois o orçamento é uma peça impositiva de gastos.

Estatuto mais que urgente é o da fidelidade partidária. O tempo de filiação de um deputado deve preencher o período eleitoral para o qual foi eleito (quatro anos), sujeitando-se o aventureiro que trocar de sigla a ficar fora do pleito seguinte. Para ganhar a confiança do eleitor, o representante precisa estar mais próximo a ele, e isso se consegue com a mudança do sistema de voto. Cerca de 80% dos eleitores não se recordam do voto dado ao deputado nas últimas eleições.

O ideal seria uma combinação entre os métodos proporcional e majoritário de listas. E por que não se pensar na possibilidade de o eleitor, indignado diante de eventual traição a compromissos, ganhar competência para destituí-lo por meio de representação (recall legislativo) junto à mesa diretora da Câmara? Se Rodrigo Maia e Eunicio Oliveira pensam algo sobre essa pauta, ninguém sabe. Fazem lembrar um pequeno conto: duas pessoas estão presas numa cela que tem apenas pequena abertura para o mundo exterior. Uma vê estrelas, outra só o reflexo delas na lama. O que enxergam os nossos representantes?


ODE AO PAPEL - Em 19/07/2017

Se eu fosse poeta escreveria uma ode ao papel para homenagear esse humilíssimo suporte de toda a sabedoria do mundo. Ninguém se lembra, nunca, de agradecê-lo virtualmente pelos serviços que vem prestando há pelo menos 500 anos, desde a invenção da imprensa, que permitiu a multiplicação de exemplares.

Perecível, mas resistente ao tempo e ao maltrato, ele veio se especializando à medida que foi preciso estender mais o seu emprego na evolução de artes e ofícios. Todas as ideias, as descobertas, as invenções, os acontecimentos históricos e as necessidades emocionais que levam o homem a externar suas paixões e seus sentimentos estão lá, repousando nas superfícies silenciosas de páginas inseridas nos milhões de livros que já foram produzidos no mundo.

E nos documentos de toda espécie e tamanho, desde os privados até os públicos, usando os mais variados processos de escrita e reprodução de imagens. Glorioso. Glorioso papel, inerte e obediente que, até ontem, supria todas as necessidades de registro a serem guardadas na nossa memória ou enviadas para memórias distantes. Glorioso papel, cuja morte iminente foi preconizada com o surgimento da fabulosa mágica da informática, cujos poderes e dinâmica despachariam o inocente neto do papiro para a idade da pedra.

Mas, por enquanto não aconteceu quase nada disso. Digo quase porque a produção de impressos sobre papel se vale bastante, hoje, dos recursos comandados pelos teclados dos computadores e pela transferência de imagens. Mas o humilde e centenário papel continua silencioso e, ao que parece, usado agora em maior quantidade, dando conta das nossas exigências.

Até quando? Talvez até o dia - pode-se esperar de tudo da criatividade humana - em que não haverá mais necessidade de ler e escrever. Uma comunicação direta entre neurônios dispensará qualquer outro sistema de comunicação. E os papéis com assinaturas e carimbos, que conviveram com a história inicial da comunicação eletrônica já serão peças de museu (virtual, obviamente).

Por enquanto você precisa ainda de um pedaço de papel que diga que você nasceu e, outro, que você morreu, senão você não existiu na face da Terra. Glorioso papel, que já foi um dos primeiros recursos para a criação do veículo chamado jornal. Um tímido suporte que se prestou, desde a fase embrionária, a gravar em suas superfícies as informações e as opiniões que alimentaram e eram alimentadas pela sucessão de fatos e ideias que desenharam a história do mundo. Um veículo que resistiu a todas as ameaças de extinção. Talvez porque tenha o charme irresistível de uma bela mulher, que não envelhece e nunca perde seus encantos.

Mas todos nós sabemos - eu, você leitor, e um monte de gente que nos circunda - que somos viciados, dependentes do nosso exemplar matutino, que nos predispõe para atravessar o dia. Se, por ventura, você estiver lendo esta crônica, cujo berço é um pedaço de papel, talvez fique curioso por saber como ela se ajeitou neste espaço. É muito simples (ou milagroso?): eu escrevi o texto digitando em um computador, daí, pelo éter, com a velocidade do pensamento, foi transferido para um computador dos blogs, do face e do Em Tempo, entrando no processo de produção que imprimiu o exemplar que está na sua mão.


Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

CHIQUEIRO - Em 12/07/2017

Parece brincadeira, mas o que aconteceu ontem no Senado da República com as senadoras Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Grazziotin (PcdoB-AM), Fátima Bezerra (PT-RN) e Regina Souza (PT-PI) ocupando por mais de cinco horas a Mesa do plenário do Senado, sendo o Presidente do Senado obrigado a desligar as luzes e os microfones.

Há algum tempo, a revista inglesa The Economist, com ampla circulação mundial, publicou matéria em que classificava o Congresso brasileiro de "chiqueiro", lembrando que as duas casas do Poder Legislativo estão tão desmoralizadas que imaginar que os parlamentares votarão reforma política é o mesmo que atribuir aos perus, no Natal, a administração de seus pescoços. Claro que deputados e senadores se sentiram profundamente insultados, embora devessem estar acostumados, já que o assunto é tratado diariamente pela imprensa nacional.

As pesquisas de opinião revelam o que pensa o povo brasileiro sobre o Congresso, e a imprensa não esconde nada, mesmo tendo que conviver com a sucessão de escândalos que insistem em confundir o país com uma cloaca. Diante do insulto da revista inglesa, os congressistas têm duas alternativas: desafiar o jornalista para um duelo ou romper relações diplomáticas com a Inglaterra. Como nada disso, naturalmente, não será feito, talvez eles possam aproveitar a dura metáfora e admitir que deram inúmeros motivos para a redação de matéria tão áspera e tão feroz.

Na verdade, o que a revista inglesa fez, refletindo a imprensa brasileira, foi mostrar que o Congresso não cumpre seu papel como deveria. A publicação levou ao mundo inteiro a triste e lamentável imagem de corrupção que prospera entre os congressistas e que toda as semanas se repete, seja na predação de recursos públicos, seja no escandaloso desvio de verbas que deveriam atender as necessidades de hospitais e escolas, além de ambulâncias e merenda escolar. Como não há limites para a imoralidade pública, os congressistas passam os dias a se explicar, prejudicando sensivelmente a confiança do povo nas instituições.

Pode-se dizer que The Economist poderia cuidar, com igual fervor, do Congresso britânico, mas até nisso os senadores e deputados brasileiros estariam equivocados, já que Parlamento inglês foi literalmente devassado pela revista e por todos os tabloides que circulam no país. Nada lhes escapa, de escândalos sexuais e ocorrências medonhas de pedofilia, passando por desvios de recursos públicos. Como se vê, competência para mexer em pântanos não lhe falta. A revista está certa de que os congressistas brasileiros não farão qualquer reforma política, para não perder privilégios.

A verdade é que o Congresso está desmoralizado e só se recuperará quando o Orçamento da União for deixado de lado e se der prioridade aos recursos da educação, dos aposentados e pensionistas, das grandes causas sociais e da precária e revoltante infraestrutura que se transforma em gargalo para o desenvolvimento do conjunto da economia. Há uma guerra civil diária nas ruas do Rio de Janeiro e na periferia de São Paulo, que domina o imaginário brasileiro e que alguns jornais, com ou sem maldade, dizem ser manifestação da população diante dos exemplos que vêm de Brasília. Assim, o Congresso, que não funciona como deveria, dá sua generosa contribuição para que o noticiário seja quase todo sobre criminalidade.


Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

O CONTO DOS DIFERENTES - Em 05/07/2017

Em meio a essa enxurrada de casos de desvios de dinheiros, envolvendo, principalmente, políticos de diversas origens partidárias e doutrinárias, observo as mais variadas opiniões, na TV, nas conversas, nas cartas de leitores e mesmo em artigos e editoriais. Uns, céticos, dizem que o Brasil não tem jeito. Os revoltados asseguram que não votam mais em ninguém.

Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

Pelo menos nos últimos 50 anos, para não ir mais longe na História, o Brasil passou da esperança para a decepção, quando algumas corporações, cada uma ao seu modo, impuseram, ou venderam, o sonho da salvação nacional, da pureza moral e da retidão ética. Os militares, em 64, comandaram o País, orquestrando o bordão Brasil, ame-o ou deixe-o, sob o qual se escondia a falaciosa mensagem maniqueísta: fiquem os bons; os maus se retirem (ou desapareçam). O fim gradual dessa prolongada experiência foi melancólico.

Anos depois, o colorido Caçador de Marajás renovou esperanças de grandeza moral e de soluções épicas, reprisando o estilo Indiana Jones, mas sem final feliz. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, durante os últimos 25 anos, conquistou, paulatinamente, os brasileiros, combatendo o autoritarismo, denunciando a corrupção e anunciando um novo estilo de governar. Afirmavam os seus ativistas que o PT era diferente. No exercício do poder, lamentavelmente, não foi diferente.

Temos aí lições sofridas, mas preciosas, que nos ensinam a não mais marcharmos, patrioticamente, ao lado do autoritarismo discricionário; não ficarmos embevecidos e esperando milagres de pretensos salvadores da pátria e não aceitarmos, por hipótese alguma, que os fins justificam os meios. Se assim julgava o núcleo duro do PT, talvez, até, com o distante assentimento do Presidente, inebriado com o seu Sonho de Poder, na prática, deu no que estamos, melancólica e democraticamente, presenciando... Uma velha advertência cabe ser sempre lembrada: a ocasião faz o ladrão!

O que devemos fazer, doravante, depois dessa quase mortal infecção generalizada, é fecharmos as portas para as ocasiões tentadoras. E isso, conquanto não seja alcançado, do-dia-pra-noite, deve constituir o objetivo perene a ser perseguido, tendo como viga-mestra instituições harmônicas, sadias e independentes, assentadas em robustos pilares democráticos.

Vamos tirar o Estado da execução e aprimorar as suas funções de planejamento integrado, supervisão e controle. Vamos eleger a educação, em sentido amplo, a maior prioridade nacional. A liberdade de imprensa responsável é um exemplo dessas forças catalisadoras. É a sua prática que vem nos permitindo assistir, em tempo real, o desmonte de patifarias e falcatruas que, em outras épocas, de menor transparência, proliferavam, impunemente.


Postagens Anteriores

Olhar Crítico

Professor Flávio Lauria