Observador Participante

O perfil de um governo - Em 14/01/2018

O dia em que se escrever a história do crime no Brasil, dificilmente o período 2015/2018 será superado, na quantidade de registros. Não pensem que me refiro apenas às rebeliões nas penitenciárias, tornadas costume, nestas terras onde canta o sabiá.

O que se poderia esperar acontecesse em estabelecimentos destinados à recuperação de praticantes de atos ilícitos, transformados em escolas de especialização e pós-graduação de alunos neófitos? Difícil, se não insensato, imaginar que o desvio de finalidade dos presídios levasse a mais que o observado pela população, em qualquer das unidades federativas. Embora de uma federação que há muito tempo perdeu essa condição.

Essa é só uma parte das fartas fontes de informação sobre os delitos praticados naquele país nada imaginário, que Elio Gaspari chama Pindorama. Outros setores também têm muito a oferecer, com grau de gravidade ainda maior que os massacres com que tendemos a nos acostumar, praticados nos presídios. Tenham ou não a fictícia segurança máxima.

Basta acompanhar os acontecimentos políticos para identificar as mais variadas formas de agredir a sociedade, seja compondo equipes marcadas pela trajetória delinquente de muitos dos seus integrantes, seja pelas decisões que põem a nu o mais absoluto desprezo pela população e a intenção única de proteger-se.

A forma como Michel Temer chegou ao poder, se contém ingredientes importantes para mostrar a imoralidade em que consistem as tratativas e os resultados destas para os políticos, é fichinha, se comparada com o que se tem visto depois da queda de Dilma Rousseff.

Imoral, pusilânime, entreguista, patrimonialista, antipopular - esses os adjetivos que, no mínimo, cabem na identificação do atual governo. Assim foi no seu início, assim tem sido ao longo do tempo em que urdiu, derrubou e substituiu a companheira de chapa do Chefe do Poder Executivo neste infeliz período de nossa história.

Mesmo que encontremos algum conteúdo moral nos pretextos que fizeram Temer abandonar o barco de Dilma, a escolha dos nomes que o acompanham não deixa dúvidas. Não é preciso sequer o comentário dos oposicionistas, para ver clara a imoralidade levada aos altos postos de República. Moreira Franco, Elizeu Padilha, Gedel de Lima, Romero Jucá e, mais recentemente, a filha de Roberto Jeferson - para ficar nos mais notórios - timbram a marca da imoralidade, ainda que se esqueçam os Eduardo Cunha, Carlos Marun e outros, facilmente apreendidos pela Polícia Federal, se tempo houver para pôr atrás das grades outros meliantes.

É pusilânime todo indivíduo que, as convicções substituídas pelas conveniências, o espírito público prejudicado em benefício de interesses minoritários, toma decisões que logo, logo serão substituídas. Às vezes, exatamente pela opção contrária. No mínimo, isso deveria ser chamado leviandade ou fraqueza de caráter.

As decisões de Temer, longe de vislumbrar um futuro alvissareiro depois da ponte que ele prometeu construir, nos condenará a entregar o que de riqueza até aqui produzimos coletivamente. A oferta da Petrobrás aos insaciáveis apetites internacionais, um só dos muitos exemplos a indicar, mais que um gesto entreguista, o é de lesa-pátria. Não é um professor de Direito que poderá alegar ignorância a respeito de como surgiu a estatal e das razões que a fizeram surgir.

O patrimonialismo resulta da aliança espúria entre governantes e elites econômicas, sempre alimentadas pela certeza de que o País, a República e tudo quanto se tenha realizado e acumulado até agora a eles - e só a eles - pertence. Podem dispor disso como se lhes correspondesse a quase um direito natural, perpétuo, irremovível, transferível aos seus herdeiros, em detrimento dos verdadeiros construtores dessa riqueza.

É antipopular o governo, não apenas porque as pesquisas revelam a rejeição do povo pela maioria das decisões que ele toma. O é, sobretudo, pela opção por atender aos interesses vorazes dos endinheirados, sejam os ricos nacionais, sejam os estrangeiros, todos eles empenhados em explorar nossas riquezas, a maior delas o trabalho honesto e dedicado do homem e da mulher brasileiros.

Posso não ter produzido o retrato escrito do governo de Michel Temer com a precisão e o brilho necessários. Sei, porém, que qualquer outra fisionomia que pretendermos dar ao grupo que tomou por um assalto parlamentar o poder, não dispensará os adjetivos aqui sugeridos. Apenas destacará outros aspectos, que por motivos óbvios deixam de estar aqui registrados.


Despudor e angústia - Em 06/01/2018

O despudor é uma das marcas do atual governo. Os que dele participam comportam-se como se investidos de poderes divinos tivessem à sua disposição magos capazes de construir uma realidade que ninguém enxerga. Pouco se lhes dá se a grande maioria dos súditos (porque assim é que Temer e seus acólitos consideram os brasileiros) rejeita sua forma de governar e os propósitos que animam as decisões do Planalto.

Até certo ponto, é fácil compreender a conduta de Temer e do malsinado grupo que lhe rende homenagens e empresta a mais lucrativa submissão. Afinal, o golpe que derrubou sua antecessora e colega de chapa não se terá feito ao léu. As motivações encontradas, contudo, nada têm a ver com a corrupção alegada, alguma irregularidade menor praticada pela ex-Presidente ou o desejo de levar o País a bom rumo.

Quanto mais o tempo nos distancia da fingida indignação que o então vice-Presidente pôs em carta à sua companheira de jornada eleitoral, mais se tem condições de apreciar o cenário e como ele se construiu.

Vão-se tornando transparentes as ligações de Michel Temer com os grandes capitais internacionais e com os representantes locais de seus interesses. Os media, igualmente, servem de adjutório ao esforço por transferir o patrimônio público brasileiro para o controle dos grupos internacionais. Essa foi a promessa de Temer, e ele tenta cumpri-la à risca. Mesmo que isso aprofunde a desigualdade da qual nos tornamos campeões e afaste para mais longe o momento em que a sociedade brasileira romperá os maus costumes políticos e econômicos tão conhecidos. Um dia ela o fará.

Desde quando se instalou, o atual governo revelou a que viera. Teve a infelicidade de instalar-se quando a Operação Lava Jato já tinha colhido informações que, em outros países, levariam ao suicídio muitos dos investigados. Como não tinha qualquer - como ainda não tem - compromisso com a população, o Presidente foi buscar na lista de suspeitos boa parte do grupo que o assessoraria e ajudaria a (des) governar o Brasil. A presença de pessoas como Moreira Franco, Eliseu Padilha, Gedel Vieira Lima, na equipe do Planalto; e de Rodrigo Loures e Romero Jucá, nas cercanias do gabinete presidencial dizem da inclinação para o recrutamento de malfeitores.

Pior: não bastava premiar suas artimanhas e ilicitudes. Seria necessário impedir que um dia se vissem constrangidos pela Justiça a prestar contas de seus atos delinquentes. Daí o empenho em proteger gente como Eduardo Cunha, cujo apoio de Joesley Batista deveria ser mantido. Isso, não sou eu quem o diz, mas interessante e esclarecedora gravação do diálogo entre dois amigos, tão próximos, que nem de agenda precisam para conversar, à luz de velas.

Não foi apenas isso, porém, que revelou o despudor com que Michel Temer age no Planalto. A mochila cheia de dinheiro transportada na sombra de uma garagem de centro comercial, por um de seus mais chegados assessores reforça a identificação do estilo do Presidente. Já nem se lembre do apartamento de Gedel, abarrotado de malas milionárias.

Michel Temer sabe que, uma vez posto o primeiro pé fora do Planalto, o Ministério Público e a Polícia Federal tratarão de pôr em atividade as algemas e tornozeleiras agora em falta no mercado. Por isso, empenha-se em achar um jeito de concorrer à eleição. Se não como candidato a sucessor de si mesmo, para algum cargo passível de ser alcançado com as sobras de votos de algum Tiririca ou Wlademir Costa.

O esforço de Temer para manter-se Presidente esbarra na pretensão de Henrique Meireles, que a banca vê como mais confiável; afinal, é um deles. Mas Temer sabe nada desprezível obter um mandato federal, para não ser excluído do rol dos que desfrutam de foro privilegiado. Dele precisará, sem dúvida.


O artrópode do Planalto - Em 30/12/2017

Índole, diz o Novo Dicionário Aurélio, significa propensão natural, tendência característica, temperamento. Assim, conhece-se a índole de uma pessoa, pela observação de seus atos, mais que de suas palavras. Mesmo que se considere eivada da própria experiência social, a pessoa observada pode orientar-se em certa direção por motivos de tal maneira íntimos, que acabam por fazer do convívio social apenas adjutório nas situações em que se envolvem. Justifica-se, assim, a atribuição de naturalidade à propensão do indivíduo.

A tendência a agir de determinada maneira, não de outra, pela regularidade com que se apresenta acaba por transforma-se característica da pessoa. A sequência de seus atos revela, então, ser esse ou aquele o temperamento de que é portadora.

A propósito, é oportuno lembrar a anedota sobre a travessia de um escorpião, montado nas costas de outro animal. Como não dispunha de meios próprios para chegar ao outro lado do rio, aconteceu de aquele artrópode ter-se válido dos préstimos de outro animal, este sim, dotado de nadadeiras. Quando se preparava para deixar o dorso de seu transportador, o lacrau (que é como se conhece o artrópode em algumas regiões do Brasil) aplicou-lhe dolorosa ferroada. Interpelado pela vítima, o ingrato apenas retrucou: é da minha índole.

Revelava ali, o abjeto espécime, a inevitabilidade de comportar-se como era de sua própria natureza. Nascera para ferroar os demais que com ele se relacionassem, e não seria o fato de ter merecido as atenções e o favor do outro que revogaria seu destino, nem enfraqueceria sua propensão natural, afinal uma característica que o escorpião trazia consigo. Per omnia secula saeculorum.

Tudo isso dito (ou lido, não é?), podemos avaliar as mais recentes decisões do Presidente Michel Temer, de cujos bons propósitos só os beneficiários dessas mesmas decisões podem dizer favoravelmente.

Cai por terra, depois dessa - que não foi a primeira, nem a segunda, nem será a última - vez, qualquer tentativa de desqualificar os que o acoimam de acumpliciado a Eduardo Cunha, Romero Jucá e outros notórios escorpiões. A rigor, eles e tantos outros de sua coorte participam da mesma coletividade que as investigações da Polícia Federal, as promoções do Ministério

Público e as manifestações do Judiciário chamam de quadrilha.

Quando determinou a Joesley Batista que mantivesse o apoio a Eduardo Cunha, então já condenado, houve quem suspeitasse - absurdo! - de que a gravação era montada, uma falsidade. A esses incautos brasileiros, pouco a pouco o chão foi cedendo. As operações postas em prática, com o objetivo de impedir o aprofundamento das investigações sobre a conduta de Temer foram debilitando a crença dos ingênuos (se não também comprometidos).

Mais recentemente, o indulto feito por costureiras e alfaiates sabedores do manequim da clientela foi tecido por inspiração e determinação do escorpião que se instalou no Palácio do Planalto.

Chegar ao outro lado do rio é o que importa a Michel Temer. E aos que lhe dão as ordens. Até que estes últimos, investindo-se dos ferrões, agulhem o dorso de seu transportador. Então, o artrópode da política brasileira (um deles, na verdade) já terá cumprido a sina que a natureza lhe reservou. E os sócios exigiram.


Tatuagem - um novo conceito Em 23/12/2017

Em quase todas as regiões do País, se não em todas, é corriqueiro usar-se a expressão o buraco é mais em baixo (ou em cima), quando se trata de deixar claras as diferenças entre uma situação ou problema e outra/o. Assim, o buraco assume a condição de parâmetro, sempre que se aprecia um fato, bom ou mau. De sua localização - mais acima ou mais abaixo - se deduz a gravidade ou a complexidade da situação ou problema.

As sucessivas crises por que tem passado o Brasil tornou corrente a expressão o fundo do poço. Os otimistas achando que quando ele for alcançado surgirão todas as soluções historicamente esperadas. Talvez por isso, não faltam no cenário agentes pressurosos pelo alcance do ponto final, o fundo do poço.

Uns, aboletando-se nos cargos públicos, eletivos ou de livre nomeação; outros, fazendo uso dos primeiros - todos se entregam a ampliar o buraco, em profundidade e amplitude. E nada de se encontrar seu fim... O que só torna mais exaustiva a faina dos interessados na meta pretendida: o fundo do poço.

Os que se utilizam, em fraternidade promíscua, das oportunidades que autoridades públicas lhes propiciam, não laboram em sentido contrário. Tratam, eles também, de buscar o fundo desse poço de que todos falam e muitos poucos se aproveitam. Ao mesmo tempo em que o alargam e aprofundam

Procede, portanto, a denominação atribuída à quadrilha que defendeu a livre concorrência tantas vezes proclamada, com a formação do cartel chamado Tatu Tênis Clube. Camargo Corrêa, Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão não poderiam ser mais exatos!

O nome dessa entidade que as autoridades judiciárias chamam de quadrilha não poderia ser outro, nem desprezível é a contribuição dela à viagem que levará ao fundo do poço. É claro que chegar lá deixou de interessar aos tatus brasileiros, todos eles incensados e premiados pelos seus feitos.

Muitos, como Adriana Ancelmo e Marcelo Odebrecht, já desfrutam do favor oficial, podendo relatar seus dias de prisão no antegozo do livro que por certo escreverão (ou mandarão escrever), a troco de alguns milhões. Porque é somente isso que os motiva.

Tatu porém, não é bicho que se acostume com espaços tão limitados. Ele pode aparecer em túneis urbanos, como podemos vê-lo em buracos menos sofisticados em terras áridas ou em gabinetes refrigerados. Os desdentados fazem prole na planície, como a fazem no planalto. Infestam todo lugar onde haja a menor possibilidade de varar o terreno e esconder-se, porque para fazer isso nem de paraísos fiscais precisam.

Daí tornar-se necessário sair em busca desse espécime da família dos dasipodídeos, cuja carência dentária não os impede de morder..., de preferência, cofres e bolsos. Se não falam, porque lhes falte o verbo, isso importa pouco, desde que haja verbas.


Nojo e asco, sentimentos justos - Em 14/12/2017

O pasto é bom e o rebanho se alvoroça. É preciso conquistar todos os espaços onde a gra(n)ma possa medrar e satisfazer a fome voraz dos que a contemplam. Ainda que isso custe a vida dos que imaginam construir uma fazenda maior, onde a produção de todos, por todos seja justamente dividida.

Mesmo que a grande maioria dos habitantes da fazenda se tenha dedicado ao trabalho probo, ao esforço produtivo e à busca de melhores dias, para si e para os seus, a minoria dos animais é mais forte. Dispõe das armas; conta com a cumplicidade dos fiscais de suas atividades; encontra acolhida nas togas que fingem zelar pelos interesses coletivos; tem o aplauso dos que se postam nas melhores posições do (quase dizia da ... pocilga) comedouro.

É assim que se pode ver o cenário político e econômico deste imenso e imensamente infelicitado país.

As reiteradas manobras para descaracterizar crimes com caráter quase axiomático já nem despertam o estupor de uma sociedade crescentemente aviltada, cotidianamente enganada, minuto a minuto espezinhada. Malas cheias de dinheiro, mochilas que transitam nos desvãos de estacionamentos subterrâneos, gravações cristalinas das ilicitudes cometidas - nada disso parece sensibilizar ninguém.

Nem os que estão obrigados a investigar as denúncias, nem os que veem roubados de sua mesa a comida que lhes assegurará o dia seguinte de vida, a educação para seus filhos, o remédio para seus males - nenhum deles parece entender o que deixou de ocorrer nos escondidos dos gabinetes, para dotar-se da mais absurda ostensão. A vergonha parece definitivamente perdida. A esperança, idem.

Vergonha e esperança, como faces da mesma moeda, escorrem pelos mesmos esgotos por onde transitam as verbas públicas. Enquanto isso, transfere-se o pouco que ainda resta do patrimônio construído por todos, para beneficiar pequenos grupos, não bastasse serem estes detentores de parte substancial e excessiva da riqueza nacional. Não são os ignorantes que o dizem, mas é assim que se revelam os números da tragédia brasileira.

Mantêm-se nos tribunais agentes da injustiça, cuja ascensão não parece menos que o prêmio conferido a quem sempre se mostrou submisso - asqueroso, melhor dizer com toda a força do sentimento justo e adequado.

É de nojo, asco, profunda ojeriza o único sentimento cabível, nesta temerária fase de nossa história.

Um novo ano se anuncia, sem que se possam anunciar profundas alterações nessa maneira de ser de nossas lideranças políticas e empresariais. A alternativa a esse desencanto vai-se mostrando pior que o soneto. A emenda, neste caso, pode ocorrer na própria Constituição, essa vitima selecionada sempre que os interesses mais mesquinhos amordaçam as vozes discordantes e se amplia a ganância dos que sempre ganharam. E mais uma vez ganharão, a não ser...


Ferida a rosa, fica a roseira - Em 02/12/2017

O golpe de que resultou a queda de Dilma Rousseff está em pleno e acelerado curso. Enquanto não produzir todos os efeitos perseguidos pelos golpistas, não cessará. Para isso conta com um Congresso preocupado em enriquecer seus próprios membros; juízes dedicados à defesa dos privilégios conquistados em campo minado pelos que dependem de sentenças; negócios feitos a pretexto de produzir e disseminar notícias; e a maioria da população, anestesiada na luta constante pela sobrevivência. Nada mais.

Enquanto for esse o quadro, dificilmente será desviado o caminho do retrocesso, ameaçando tornar-nos contemporâneos da terceira metade do século XIX.

O trabalho escravo, que pensávamos ter erradicado mesmo sendo o último país a fazê-lo no continente, faz parte do cotidiano de grandes parcelas da população rural. O conluio entre empresários e políticos, que seria desfeito por obra de graça da redemocratização que custou tantas vidas, permanece incólume. Assim, vamos nos encaminhando para o que de mais autoritário se poderá experimentar: uma nação sem vontade própria, sujeita a determinações elaboradas no exterior, ao sabor dos interesses dos que se acostumaram a explorar os mais fracos, e enfraquecidos pela cumplicidade que se estabelece no mais alto escalão da República, imiscuindo-se por todo o tecido social.

É exemplar, nesta trajetória golpista, o que aconteceu dia 29 de novembro, em instalações da Universidade Federal do Pará. Quando o seminário As veias abertas da Volta Grande do Xingu preparava-se para conhecer e debater resultados de pesquisas realizadas pela academia naquela região paraense, repetiu-se o que assistíramos na noite de 30 de março de 1964, no auditório da Faculdade de Odontologia. Naquele momento, baderneiros ostentavam lenços brancos no pescoço, para não serem confundidos por seus companheiros de invasão com as pessoas que deveriam ser agredidas.

Desta vez, não havia lenços brancos, nem militares participavam ou davam cobertura à baderna. Nem seria preciso, tamanho é o poder dos agressores de hoje, muito bem instalados e representados nos gabinetes mais influentes da República. Os revólveres de ontem são substituídos pelas canetas, de poder letal mais efetivo. Pelo menos, as armas de fogo têm seu uso reservado às ações contra os camponeses e os que, no campo, lhes emprestam a solidariedade recomendada pelas várias confissões de fé.

A reitoria da Universidade do Pará já se manifestou, denunciando o ato praticado pelo prefeito do Município de Senador José Porfírio e cerca de quarenta asseclas. Diz a nota da Reitoria que os jagunços desejavam impedir a apreciação das questões ambientais que envolvem projetos do interesse dos grandes capitais, na região. Jagunços, já se sabe, há muito deixaram o campo, para atuar nas cidades, algumas vezes instalados em confortáveis gabinetes de onde promanam decisões da maior importância para a população.

Nem chega a ser surpreendente que o alvo mais uma vez foi o ambiente universitário. É dele que podem vir as ideias mais lúcidas e as denúncias mais contundentes, ainda que nele ainda possam ser encontrados os defensores de um tipo de democracia que só se sustenta quando o debate é evitado, a discussão é malvista, a divergência perseguida.

Dia 15 de dezembro próximo foi escolhido o momento de declarar a resistência e a luta pela Universidade Brasileira. O que significa dizer a luta pela alteração profunda dos rumos que um governo golpista quer impor à sociedade, contrariando a manifesta hostilidade que os brasileiros têm mostrado aos que se apoderaram dos postos de mando.

Os invasores do auditório do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Federal do Pará podem ter arrancado uma rosa, mas jamais conseguirão deitar por terra a roseira. Resistir, mais que necessidade, é a alternativa que resta àqueles destituídos do egoísmo que obnubila o pensamento e faz a honra mergulhar na lama.


Novo Titanic e seus ratos - Em 18/11/2017

Magoa mais para certas pessoas a dor da perda de cargos públicos e das vantagens (nem sempre lícitas) que a posição assegura, que o desaparecimento de pessoa de suas relações. Graças a isso, sucedem-se episódios que muitos encaram como traição ou falta de caráter, nenhuma dessas considerações conseguindo desvendar o que ocorre no mais fundo da alma humana.

No mundo político, alianças se fazem e desfazem, ao sabor dos interesses em jogo. Quase sempre, a cobiça é despertada não pela oportunidade de participar do poder, mas pelo que essa participação pode garantir materialmente aos que dela desfrutam.

A história está cheia de exemplos, de que a expressão do Imperador Romano (Até tu, Brutus!) não é menos que o resumo da perplexidade injustificada dos que se têm considerado traídos. O próprio Jesus Cristo passou por esse mau pedaço. O resultado é o que os livros sagrados e mesmo os heréticos relatam: um homem posto na cruz, pelo pecado de ameaçar as estruturas de poder e tentar estancar o permanente esforço de uns para subjugar a maioria.

Daí vem a crença de que todo homem tem uma cruz a carregar. Uns, cada dia em número menor, entendem justo ter sobre os ombros o pesado madeiro um dia carregado pelo andarilho da Judeia. Enchem-se de resignação e encontram no exercício da fé religiosa a maneira de conviver com o peso de sua cruz, certamente menor que o peso de suas próprias consciências.

Boa parte, porém, perde a vida toda em busca de quem carregue seus pecados, enquanto tratam de recolher os benefícios que fazem da vida dos contemporâneos o pesadíssimo lenho que aos primeiros caberia carregar. É o justo pagando pelo pecador, como também está inscrito nos livros sagrados.

Ainda agora, o assim chamado Partido da Social Democracia (?) Brasileira entende chegada a hora de deixar a cruz sobre os ombros do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, hoje absolutamente desfigurado da imagem que Ulysses Guimarães construiu, quando os cães perseguiam os opositores do regime, nas ruas e nas masmorras.

Um e outro - PSDB e PMDB - filhos gerados no mesmo útero político, nunca lograram desfazer a figura xifópaga correspondente às práticas comuns dos nascidos no mesmo berço. Ora mais, ora menos próximos, aos poucos foram percebendo os riscos de continuar o caminho compartilhado. A cruz de um já não serve ao outro.

É assim que deve ser vista a manifestação do mais emplumado dos tucanos, ninguém menos que o festejado sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Em recente artigo publicado em dois dos mais influentes jornais brasileiros, o ex-Presidente destoa da conduta característica dos peessedebistas e sequer usa eufemismos. Recomenda, com todas as letras, o abandono da nau temerária que se apossou do Brasil, desde 2016. Fugindo aos hábitos que o fazem pessoa considerada detentora de grande habilidade, FHC chega a cutucar alguns de seus correligionários, em especial os que teimam em permanecer no Titanic comandado por Michel Temer e uma grei de liderados que o Ministério Público Federal identifica a uma quadrilha de malfeitores.

Não se pense, porém, que a surpreendente sinceridade do tão respeitado sociólogo quanto deficiente executivo, se faz movida pelo interesse público. Ao contrário, a previsível derrota nas urnas de 2018 mostra a FHC os caminhos que ele recomenda ao seu partido. Nada mais que isso.

O navio segue à deriva. Para que alguns não sejam levados pelas águas da história, parece chegada a hora de lançar-se ao mar, enquanto o grande buque naufraga. Comportamento semelhante ao dos ratos, sendo que algumas vezes o comandante é o primeiro a abandonar o passadiço de onde comanda o barco.

Não faz tanto tempo, um comandante italiano deu o exemplo. Talvez nada tenha perdido, se é que lhe terá bastado manter-se vivo. Há comandantes, contudo, que têm mais que a vida a perder. Que o digam os portadores de malas, sacolas e maletas, ou os ocupantes de bunkers instalados em apartamentos de alto luxo.


O Éden dos ministros - Em 10/11/2017

Circula no Brasil, faz tempo, uma das muitas curiosidades que nos fazem diferentes. Somente aqui, prostitutas se apaixonam por seus rufiões. Algo precursor do fenômeno que levou à conceituação da síndrome de Estocolmo: a vítima apaixonada pelo algoz.

O rol de curiosidades não se restringe às relações pessoais e íntimas dos envolvidos em registros semelhantes. Nem mesmo o universo político e empresarial consegue fugir.

Ainda agora, respeitáveis órgãos de comunicação estrangeiros descobrem que o Ministro da Fazenda brasileiro mantém empresa em paraíso fiscal. Isso não basta para a conclusão apressada de que Henrique Meirelles pratica ilicitudes. Também o fato de outro dos auxiliares de Michel Temer ser titular de outra off-shore não concorre para julgarmos o entusiasmado pré-candidato à Presidência da República um réprobo. Afinal, política e administrativamente, a posição de ambos - Meirelles e Blairo Maggi - é a mesma de Eliseu Padilha, Moreira Franco e tantos outros que vivem à sombra do Presidente da República. E lhe propiciam a desejável penumbra. Inclusive, concorrendo para que o Ministério Público veja na reunião deles uma organização criminosa.

O próprio Meirelles afirma que seu investimento em paraíso fiscal tem fins benemerentes. Ele o faz para, quando morrer, financiar ações educacionais no País. E diz não sonegar impostos que o leão sob sua batuta costuma pôr em ação, para morder o contribuinte brasileiro. Aquele que sequer sabe a latitude e a longitude onde se situam os paraísos fiscais.

Até aí, tudo bem: o fato de manter investimentos fora do País não constitui, por si só, delito a ser punido. Ainda mais quando nada teria sido feito à revelia das autoridades fiscais, nem os cofres do país do investidor (no caso, o Brasil) foram privados dos impostos devidos. Menos ainda, se poderá condenar o investidor, quando de seus investimentos possam decorrer a total eliminação do analfabetismo, a excelência dos cursos superiores, o avanço científico e tecnológico do País. Afinal, não é isso que se deve esperar de investimentos na educação?

Ocorre que de Henrique Meirelles - e também de seu colega Mauro Blaggi - não se pode dizer tratar-se de duas pessoas comuns. Ambos fazem parte do mais alto escalão político e administrativo, daí decorrendo deveres que jamais poderiam ser cobrados dos demais contribuintes.

Logo eles, docemente constrangidos pelos privilégios que se atribuem aos servidores públicos instalados em luxuosos gabinetes e atendidos por uma coorte de subordinados bem pagos, levarem para fora do País valor que bem poderia ajudar o PIB brasileiro!?

O menos que se pode fazer, em situações semelhantes, cujos envolvidos nada têm de semelhantes aos que lhes pagam os vencimentos, é conhecer mais a fundo a verdadeira situação. Longe de tentar censurar as notícias, ou desqualificar os que deram origem a elas ou as divulgaram, Blairo Maggi, Henrique Meirelles e quantos mais lhes sucedam no noticiário, precisam exigir profunda investigação dos fatos.

Avançar qualquer julgamento, por enquanto, é temerário. Não é porque os tempos são efetivamente temerários que deveremos todos incorrer nessa perversa conduta. Impossível, porém, deixar que as coisas sejam ignoradas pela população, tanto quanto pelos órgãos aos quais se atribuem deveres investigativos em defesa dos direitos coletivos.

Mais trabalho para a Lava Jato! Ou para outras instâncias que desejem passar água e sabão na vida nacional.

Só assim, e dependendo dos resultados, estaremos impossibilitados de acrescentar ás curiosidades tão nossas a de que somos o único país no mundo em que responsáveis pela cobrança de impostos fogem a esse elementar dever de cidadãos. E tratam de ir em busca do novo Éden.


Funeral da Lava Jato - Em 03/11/2017

Corre mais rápido do que muitos imaginariam o processo de esvaziamento da operação Lava Jato. Avançam as estratégias anunciadas por vários dos mais influentes líderes do PMDB, tanto quanto de partidos que se supunha adversários de Temer e acompanhantes, os mesmos que o Ministério Público Federal chamou de quadrilha.

Se coube a Romero Jucá expressar com enorme sinceridade a aspiração maior de seus companheiros, Aécio Neves não escondeu até aonde podem chegar os esforços para pôr todos a salvo das medidas legais aplicáveis aos que cometem ilícitos. O primeiro mostrou a necessidade de "estancar a sangria", enquanto o outro chegou a mencionar a conveniência de matar quem tentasse frustrar a tentativa de manterem-se todos fora da lei.

Um e outro, mas não apenas eles, fizeram o que os IMLs em todo o mundo jamais lograriam alcançar: revelar em sua profunda raiz o DNA que aproxima os delinquentes, onde quer que tenham cometido os crimes de que são acusados. R

Romero Jucá, um dos mais bem-sucedidos filhotes da ditadura e o neto de Tancredo Neves, escorado na fama do avô, resumem a ópera de mau gosto em curso no País. Triste palco, esse em que foi perdida totalmente a noção de bem público, independentemente do poder constituído (prostituído talvez coubesse melhor afirmar) em que se exibe a tragicomédia brasileira.

Mesmo o mais alto tribunal do Poder Judiciário faz absoluta questão de participar da pantomima, se essa não for comparação demeritória para os artistas de circo e de outros picadeiros.

Antes, a atuação de alguns magistrados, talvez não a maioria deles, revelou a perda de substância e credibilidade do STF. Pouco a pouco, porém, a nódoa alastrou-se, até envolver a própria instituição.

À conduta temerária (em todos os sentidos que se possa encontrar para este termo) de Gilmar Mendes somam-se hoje manifestações das quais não se pode dizer estarrecedoras apenas porque não destoam do cenário. Quando se esperava que a Presidente Carmen Lucia imprimisse rumo diferente ao Supremo, ela se comporta com tibieza pouco identificada com o rigor que as mulheres fazem questão de ostentar, quando lhes cai às mãos o cajado.

Isso tudo estimula outras instancias, tamanha a forca do exemplo. Diz disso a recente divulgação

do acordo celebrado entre o Ministério da Transparência e as empresas. A legislação que se seguirá credencia outros órgãos da administração a celebrar acordos de leniência, tirando a exclusividade da providencia do Ministério Público. Trocando em miúdos: enfraquecerá o MP e cedera às raposas o direito de vigiar o galinheiro.

Melhor seria incluir na legislação a troca de nome: de Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União, para Ministério da Conivência e Proteção de Acusados.


SERÁ O FUNDO? Em 28/10/2017

"O tráfico de drogas não acaba porque financia campanhas políticas no Brasil. O tráfico é nocivo e funesto, mas a corrupção é o crime que mais mata no Brasil." Marcinho VP, chefe do "Comando Vermelho", facção criminosa que domina o tráfico no Rio.

O cenário que vislumbro, neste país que Stephan Zweig imaginava ser o do futuro, traz à memória um tempo em que o drama vivido pela Colômbia impressionava. Presa da ação maléfica dos traficantes de drogas, a nação irmã justificava conceitos que não eram mais que preconceitos; julgamento desatrelado de qualquer critério minimamente justo; desprestígio vinculado à maneira autoritária e odienta contra os que não se parecem conosco.

Não demorou, na busca de um fundo de poço que abriga nossa desmesurada desigualdade, chegamos a situação talvez pior à que vivenciaram nossos vizinhos. A eles não se concediam as atenções que merecem todos os que, pessoas ou coletividades, têm o mesmo direito de buscar ser felizes. Mesmo as forças que sustentaram a guerrilha sucumbiram à sedução - não apenas do tráfico de drogas, mas à crença em que o dinheiro que a prática lhes proporcionava acumular conseguisse alterar a desigualdade social prevalecente.

O resultado foi o que se viu. O armistício entre governo e FARC, mais que evidenciar a escassa possibilidade de êxito no campo de batalha, revelou quanto o processo político em curso torna improváveis as mudanças necessárias.

Poucos os que trataram de saber das razões desse drama e das alternativas à prática guerrilheira. Muitos estancaram diante de argumentos com base exclusivamente moral, como se a sobrevivência digna de cada homem ou mulher estivesse alheia à moralidade - pública e particular.

Verifiquemos o cenário, no Brasil de hoje. Campeões em desigualdade social, reproduzimos em cores ainda mais fortes, a tragédia que se abateu sobre a Colômbia. Com a hipocrisia característica de nossas relações sociais, fingimos unanimidade na crítica ao tráfico de drogas. Entre as proclamações de insatisfação e a persistência no crime, a droga torna dependente maior número de brasileiros, a cada ano. Pior que isso, dissemina uma cultura de violência e intolerância, enquanto se multiplicam os apelos ao autoritarismo, como se esse não fosse fator propício ao aumento da tragédia.

O que um dos mais conhecidos chefes do tráfico disse (e a epígrafe registra) só é novidade para os absolutamente alheios à realidade de que somos parte. Não é de hoje que se produzem, mais que suspeitas e denúncias, provas do que Marcinho VP afirma. Nem será injusto ampliar o coletivo a que se refere o traficante, eis que não deixa de fora dele qualquer das instituições em funcionamento no País. Disso dá conta o noticiário de todo dia, ainda que os grandes meios de comunicação pintem com tintas neutras a cor aziaga da tragédia. A não ser quanto ao nome da raia miúda, da que não pede dinheiro para campanhas políticas, nem paga anúncios.

Corrupção e tráfico, portanto, não podem ser vistas como coisas à parte, alheias uma à outra. Ambas compõem o quadro e estão dentro do poço cujo fundo não se sabe onde está. Neste particular aspecto, jamais será inoportuno mencionar quanto interessa a políticos, empresários, membros da sociedade civil e da que veste farda, estancar a sangria da Lava Jato. Como já o disse um dos mais credenciados representantes disso tudo que está aí. E que Marcinho VP tão bem soube identificar.


TRAJE NÃO FAZ DIFERENÇA - Em 20/10/2017

Faz pouco tempo, era considerado louco quem arriscasse a possibilidade de um golpe de Estado. Mesmo depois do golpe parlamentar que derrubou Dilma, o mínimo que se atribuía aos que viam nebuloso o cenário político era o culto ao pessimismo. Talvez porque daquela vez os quartéis preferiram ficar à margem, muitos observadores (?) consideraram afastada qualquer intervenção militar, não obstante o fenômeno tenha raízes históricas desde o fim do Império. No entanto, mencionar essa hipótese fazia desabar verdadeira chuva de adjetivos pejorativos sobre quem o fazia.

Só depois da proclamação do general Antônio Mourão, e da consequente conduta de seus chefes, o risco indicado pareceu emergir das profundezas em que costumam operar os golpistas de todo gênero. A presença daquele oficial, fardado e eloquente, em uma sessão da maçonaria aberta ao público terá operado como a senha que fez detonar o processo a que se assiste.

Se, antes da pregação de Mourão, os setores avessos à democracia continham seu ímpeto, a partir daquela ofensa à hierarquia castrense as amarras foram rompidas. Por isso, têm-se multiplicado pronunciamentos repetitivos da reivindicação do Diretor de Finanças do Exército.

Hoje, os mais céticos admitem atravessarmos momento extremamente grave da crise que se prolonga desde a queda de Dilma Rousseff. A porteira aberta pelo general gaúcho está sendo aproveitada por todo o rebanho, como se tem visto nos últimos dias.

Mesmo os que usam o argumento de que na história a repetição sempre ocorrerá de modo farsesco já veem semelhança entre os pródromos do golpe de 1964 e o cenário atual. Não que os momentos sejam iguais, mas há semelhança entre muitas das circunstâncias e dos ingredientes em que se inserem.

Ainda não se consegue vislumbrar, pelo menos ostensivamente, a efetiva participação do empresariado no golpe em preparação. Talvez suas lideranças ainda não tenham concluído os cálculos econômicos e financeiros que costumam, com exclusividade, orientar seus caminhos.

No passado, os ganhos foram imediatos, levando muitas dessas lideranças e de suas entidades representativas a envolver-se até no que de mais sujo e condenável foi prática dos governos ditatoriais, a tortura e a eliminação física dos divergentes. Os documentos produzidos pela Comissão Nacional da Verdade o comprovam. Como as Igrejas também o atestam.

Também se há de considerar que às empresas interessa pouco trocar o atual governo por um governo dirigido por militares, tanto os quartéis têm reclamado da roubalheira generalizada. Neste particular aspecto, empresas e políticos participam em igualdade de condições. No máximo, os costumeiros financiadores dos políticos poderão encontrar no próprio noticiário certo alento. As práticas corruptas não passam ao largo dos quartéis, cujos hóspedes são feitos do mesmo barro que produz os políticos, os empresários e todos os demais brasileiros. Basta ler o que os grandes jornais e certos periódicos têm publicado sobre o envolvimento de homens fardados em falcatruas que põem no ralo o dinheiro público.

Não é o traje diferente que confere dignidade e honorabilidade a ninguém.


DOIS ASSUNTOS - Em 14/10/2017

A meu juízo, duas são as matérias mais interessantes dos media, esta semana. A primeira faz referência à intenção do governo de majorar as alíquotas do PIS e do COFINS. A outra diz respeito ao julgamento do STF, sobre os limites em que a Justiça pode interferir no Parlamento.

Engana-se quem pensa desvinculados os dois temas entre si. Será dito, pode-se apostar, que o primeiro tem caráter essencialmente tributário, enquanto o outro opera no âmbito do Judiciário. Nada mais enganoso!

Um e outro mantêm vínculos profundos, eis que versam sobre os propósitos de políticos desejosos de manter-se no poder a qualquer custo, e o outro busca pelo menos obstaculizar as costumeiras ações predatórias dos políticos.

No primeiro caso, avulta o pronunciamento do relator da Lava Jato, Ministro José Édson Facchin. Louvando-se na posição assumida e nas palavras proferidas pelo antecessor nessa função, Ministro Teori Zavasky, Fachin procurou dar um xeque-mate em alguns de seus colegas de tribunal. Por isso, lembrou como votaram a hoje Presidente do Supremo e outro de seus pares, quando da decisão sobre a destituição de Eduardo Cunha.

Carmen Lúcia e Levandowsky foram favoráveis à cassação do ex-Presidente da Câmara dos Deputados e primeiro na linha sucessória do Presidente da República.

Como se comportarão, agora, Carmen e Levandowsky? Sobretudo, levando em consideração o que disse o mesmo Facchin, sobre o risco de desmoralização do próprio Poder Judiciário. Pior, por manifestação de sua mais elevada instância, por isso chamada Supremo Tribunal

Não é que ainda perdure alguma expectativa de surpresa no seio da população, a respeito da conduta futura dos dois ministros. O esperado, em tempos marcados pela hipocrisia e pela motivação mais oprobriosa, é o recuo, o desmentido do que foi dito antes.[1]

De qualquer maneira, Facchin foi coerente com a orientação que vem seguindo. Ao menos, ele.

O outro tema mostra a absoluta desonestidade característica do atual governo, já não bastasse a omissão do próprio Presidente da República, ao manter em seu Ministério réus em crimes de que se ocupa a Lava Jato. Favorece Temer, no entanto, o fato de que faz parte de seu ethos particular dizer ontem o que hoje desmentirá, prometer na véspera o que negará no dia seguinte.

Aumentar tributos foi outra das propostas, evidentemente saídas da cachola não do Chefe formal do Poder Executivo, mas do verdadeiro comandante-em-chefe dos negócios (opa! Não há ironia aqui) governamentais. Henrique Meirelles, rentista conhecido, é dos que proclamam exagerada a carga tributária. Não obstante, é ele mesmo quem propõe torná-la ainda mais onerosa para o contribuinte. Tudo, porque a farra feita com o dinheiro que é meu, seu, e de todos os brasileiros que efetivamente trabalham e ganham a vida com o suor do próprio rosto, talvez ajude a manter no poder a equipe que o ex-Procurador-Geral Rodrigo Janot chama de quadrilha.

Se Facchin faz tudo para evitar a desmoralização do Supremo, Meirelles desmoraliza-se por ele mesmo, tanto quanto desmoraliza a tese que ele sabe mentirosa: a de que a nossa é a maior carga tributária do mundo. Dizê-la injusta não é coisa que se possa esperar do Ministro, nem dos que lhe festejam as decisões. Pior que isso: os propósitos.


[1] Redigido na véspera da lamentável decisão do STF, o texto errou apenas no tamanho do recuo. O Ministro Facchin não teve êxito no xeque-mate. Reis e rainhas não se deixam vencer com facilidade.

NO REINO DE LAMPEDUSA - Em 08/10/2017

O que se pode esperar de uma reforma, seja lá no que for? Qualquer pessoa no uso pleno de sua sanidade mental exigiria alteração nas condições da coisa reformada. O exemplo mais prosaico talvez seja a reforma de uma casa. Sem que a ela se atribuam novas condições - e sempre para melhor - de habitabilidade, de pouco valeria a pena o esforço de reformá-la.

Esse não é o entendimento dos parlamentares brasileiros, ainda que a reforma política contenha ingredientes muito mais importantes que tintas, pedra, tijolo, cimento e areia. Não é para manipular tais materiais que o eleitor brasileiro elege seus supostos representantes. Aqui, nenhuma ironia, tamanha é a distância entre os interesses da população que vai às urnas e o desempenho dos que ela coloca nas casas do Congresso.

É quase unânime o clamor pela reforma política. O assunto é discutido nos bares, nos salões sociais, nos gabinetes dos três poderes, em associações de bairros, nos sindicatos e centros acadêmicos ...e, verdade, quase nunca na própria academia. E quando ocorre de ocupar os deputados e senadores, não é para reencontrar-se com os anseios populares que eles batem boca.

A PEC e os dois projetos aprovados a toque de caixa, cercado pelo alheiamento da sociedade, a cumplicidade dos meios de comunicação e o desinteresse da academia, foi alcunhado de reforma política. (Se não fosse assunto tão sério, daria mais para rir que para chorar).

O arremedo que será levado ao Presidente Temer, nos próximos dias, pode ser tudo, menos uma reforma política. Primeiro, porque se fez à revelia da sociedade, embora esta seja o destinatário final do arranjo institucional. Depois, porque pesaram nos debates mais os interesses dos debatedores e das agremiações partidárias a que estão vinculados, que o interesse público. Mais uma vez, a esfera privada dita a conduta dos entes públicos.

Não se despreze, além disso, a sofreguidão com que os beneficiários financeiros da tal reforma acompanharam o processo. Reduzir a quantidade de dinheiro envolvida nas campanhas eleitorais significaria a perda da oportunidade de enriquecimento a muitas empresas de alguma forma ligadas às atividades políticas. Também repercutiria na redução da taxa de corrupção costumeira. Tornada tradição, não seria demais afirmar.

O grau de dependência de um poder ao outro, a forma de nomeação de servidores públicos do Judiciário, por exemplo, ainda depende da caneta do Presidente da República, chefe de outro poder.

O financiamento, depois do balão de ensaio envolvendo quase 4 bilhões de reais, acabou retirando das emendas parlamentares 30% de seu valor global. A despeito de tais emendas serem justificadas pelos que delas se beneficiam - não os habitantes de regiões desfavorecidas, mas os deputados e senadores que as propõem, além dos prefeitos apaniguados.

O resultado limitou-se à aparência, não ao cerne do problema. Uma reforma (sejamos indulgentes) meramente cosmética, que não se relaciona com os anseios populares, nem afeta os principais problemas relacionados à democracia capenga que insistimos em manter e fortalecer.

Veja-se, para exemplificar, a proibição de candidaturas avulsas, sem vínculo partidário. Aqui, o pretexto é que a democracia exige partidos prestigiados, fortes, representativos. Ora, nenhuma dessas condições está presente no cenário atual, e nada indique que estará, com as mudanças propostas.

Prestigiar os partidos em funcionamento é o mesmo que premiar toda sorte de crimes cometidos em nome de uma tal governabilidade que só aproveita aos que governam, jamais aos governados.

Da representatividade torna-se dispensável falar, haja vista o absoluto e exagerado descompasso entre o que pensam e desejam os supostos representados e seus também supostos representantes.

Quanto ao fortalecimento, os partidos frequentemente não passam de estações de temporada dos congressistas. De tal sorte e em tamanha amplitude, que o processo de migração partidária assemelha-se às linhas aéreas, com pontos de partida e destinos surpreendentes. Assim, pode-se migrar do PC do B para o DEM, como sair do PSDB para o PR.

Chame-se de qualquer coisa ao produto das últimas sessões parlamentares, menos de reforma política.

ONDE BUSCAR A ESPERANÇA? Em 30/09/2017

As palavras de Antônio Palocci, ex-homem-forte do governo Lula, dão novo rumo às investigações da Lava Jato e, em consequência, da compreensão que se tem da vida política nacional. Seu antigo aliado e hoje desafeto, Luís Inácio Lula da Silva tem confirmadas afirmações que, se não põem nenhum dos dois acima de toda e qualquer suspeita, servem para descrever o cenário em que se movem tradicionais aliados - o empresariado "brasileiro" e os agentes políticos, onde quer instalem sua voracidade predatória e seu desprezo pelo povo.

Lula, ao assinar o documento de rendição intitulado Carta aos Brasileiros, não operava sozinho. Nem aquele documento foi obra de uma só cabeça, ainda que se admita terem sido apenas de uma só pessoa as mãos que o digitaram no teclado de um computador.

Da formulação das ideias ali delineadas, responsáveis pelo maciço apoio empresarial que permitiu a subida à rampa do Planalto, já se sabe ter participado boa fatia do PIB nacional. Disse-o, sem subterfúgios, Emílio Odebrecht. Luís Inácio Lula da Silva, com seu pragmatismo em nada diferente do que ostentam aqueles que ele dizia combater, já reconhecera: impossível mudar o cenário, para manter-se no poder.

Deu no que deu.

Antes, o mensalão levantara as primeiras suspeitas de que algo não cheirava bem no reino. Infelizmente, não no da Dinamarca. Disso dou testemunho pessoal, eis que me alinhei com a minoria de membros do falecido CDES- Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, mais tarde conhecido (quem sabe até jocosamente) como Conselhão. Foi a percepção de que não havia a menor intenção do governo em esclarecer os fatos e, depois, de oculta-lo quanto e enquanto pudesse, que me levou a deixar aquele colegiado. Não sem a sensação de perda e desesperança. Perda quanto à oportunidade que parecia apresentar-se, de caminharmos para a segura e progressiva redução da desigualdade que muitos proclamavam combater. A desesperança resultou da decepção com a conduta de muitos dos que se diziam comprometidos com o aprofundamento da democracia e o fortalecimento das relações com o povo. A defesa dos interesses populares, portanto, como móvel da ação desses agentes.

Uma a uma, as esperanças se foram dissolvendo, mesmo as que pensávamos sólidas. Afinal, comprovava-se que tudo que é sólido desmancha-se no ar.

Poucos os que conseguimos ver na Carta aos Brasileiros o documento-fundador dessa nova fase de um processo que parece ter seguido seta com direção invertida.

Seguiu-se a adoção de medidas que tiraram milhões de brasileiros do estado de indigência, alimentaram nova imagem do País no exterior, reacenderam esperanças que pareciam sepultadas. Ao mesmo tempo, os números da economia aproveitaram os bons ventos vindos do exterior, avançaram sobre as florestas, o subsolo e as águas, assegurando ganhos jamais experimentados na história deste País (para ser fiel ao condutor-mor). Isso nos levou ao registro de ainda maior desigualdade: os ricos ganhando proporcionalmente mais do que os pobres vinham recolhendo das políticas oficiais.

A constatação de que sem subserviência aos ricos, impossível aquinhoar (miseramente que seja) os mais pobres pôs-se em prática como jamais. E a situação é a que hoje experimentamos.

Quase ninguém destaca a importância do conluio entre grandes capitais e governo. Enquanto isso não for posto sob o foco da opinião pública e mobilizar os movimentos paralisados pela criação de nova classe de pelegos e de organizações aparelhadas, pouco restará, se de esperanças estamos falando.

FIEL À TRADIÇÃO - Em 23/09/2017

Parece-me arriscada a despreocupação de muitos, quando oficial superior da ativa manifesta-se como se manifestou recentemente o general Antônio Hamílton Martins Mourão. Ainda mais se ele se apresentou em nome de seus camaradas do alto comando. Esta circunstância não pode ser atribuída à invencionice dos jornalistas, tanto que sequer foi posta em dúvida, desde que o assunto transcendeu a loja maçônica em que as inquietantes declarações de Mourão foram proferidas.

Seria necessário ignorar fatos recentes, reveladores do escasso grau de mudanças operadas na caserna, para tratar do assunto com leveza e sem gravidade.

Já quase toda gente sabe quanto as escolas militares brasileiras permanecem presas às ideias e às práticas vigentes no tempo da guerra fria. Quando pensávamos terem soprado também pelas janelas e portas dos quartéis os ventos que têm varrido a sociedade, aqui e alhures, eis que se repetem declarações e condutas capazes de derrubar tão ingênua crença.

Não fosse isso, o capitão Bolsonaro não teria passado de mais um dos muitos deputados eleitos graças ao voto de seus companheiros de chapa. Não é esse o caso. Mesmo os oficiais menos raivosos que o discípulo de Brilhante Ulstra ostentam grau de tolerância (quem sabe aplauso) demasiado, diante do que o parlamentar proclama, alto e em bom som. As restrições à sua preferência pela tortura, ao seu jeito de bravatear e de ofender pessoalmente quem dele diverge não produzem qualquer constrangimento aos que o têm como liderança em ascensão e provável disputante das próximas eleições presidenciais. Pode-se até conjeturar que a proclamação do general Mourão significa descrença no desejável e vitorioso desempenho do líder político-militar da direita brasileira, no pleito de 2018. Por enquanto, porém, isso não passa de conjetura.

Não terá sido por acaso, nem fruto de mera desatenção a menção do Diretor das Finanças das forças federais ao alto comando. Primeiro, porque ele tinha plena consciência de que a desobediência e a agressão à hierarquia traz pesadas consequências para o militar que as comete. Depois, porque não houve uma só voz de censura, do alto e dos demais comandos militares, ao que ele disse, metido em traje de trabalho.

Muitos apontam para a diferença entre o clima vigente durante o período da guerra fria, e hoje. Os capitais que costumam manipular os cordões dos orientadores das políticas econômicas e sociais dos países teriam encontrado outros modos de chegar aos mesmos resultados, sem que o golpe de Estado seja necessário. Isso importaria negligenciar aspecto marcante na trajetória dos brasileiros - o golpe como agente de mudança política, desde a derrubada do Imperador D. Pedro II. A sucessão de golpes de Estado, tão bem comentada por nosso colega de página, Orlando Sampaio Silva, em seu Os militares e a vontade de potência (Editora Chiado, Lisboa, 2013), sugere dar mais atenção às declarações de oficiais metidos em seus engomados trajes.



A PARTE QUE FALTAVA ESCLARECER - Em 18/09/2017

Coube ao decano do Supremo Tribunal Federal esclarecer aspecto fundamental do papel desempenhado pelo Ministério Público, sobretudo em decorrência de dispositivos constitucionais vigentes desde a chamada Constituição-cidadã. Refiro-me à conduta do chefe da PGR, chame-se ele Rodrigo Janot ou Raquel Doge.

O ministro Celso de Mello, que muitos têm como palavroso e solene ao excesso, disse o que muitos fingem ignorar ou realmente ignoram. Os primeiros, aparentam desconhecer os princípios que norteiam as ações do Ministério Público em seus diversos escalões, enquanto os outros padecem de conhecimentos que uma boa escola de direito pode prover. De nenhum bom aluno da área jurídica pode-se esperar ignorância sobre as finalidades do MP, em âmbitos estadual e federal. Daí a absoluta falta de fundamento à reclamação de que um procurador ou promotor deve pautar seu comportamento funcional pela imparcialidade. Que os realmente ignorantes cobrem dos membros do MP essa indiferença é até compreensível. Afinal, a ignorância nem sempre pode ser atribuída a quem dela sofre. Iniciados na seara jurídica ou os que de alguma forma têm a ver com ela (como políticos e comunicadores sociais) só por imperdoável descaso profissional ou desonestidade intelectual podem incorrer no equívoco que Celso de Mello aponta. Mais ainda, esclarece.

Não é novidade na legislação brasileira, a participação de promotores e procuradores de Justiça no processo judicial. Representante da sociedade e de seus interesses, ao Ministério Público compete propor em nome dos cidadãos o que lhe pareça necessário à promoção e distribuição da justiça. Também integra o rol de deveres de que são investidos os membros do MP a defesa dos direitos da sociedade.

Resulta transparente para o mais desavisado - mas criterioso - leitor, o fato de que o MP é parte da contenda judiciária. Ele representa, portanto, um dos polos da disputa que busca a sentença judicial, como forma civilizada de resolver conflitos próprios da sociedade de classes.

Se ao magistrado, como julgador, é negada a manifestação prematura, o contrário ocorre quando se trata do membro do Ministério Público. Por dever de ofício, este há de portar-se segundo os interesses da sociedade, ainda que lhe seja dado o direito de não acusar quem lhe pareça não ter incorrido em infração legal agressiva aos direitos da cidadania e correlatos.

Talvez porque muitas vezes é pedida pelo Ministério Público a exclusão de algum dos originalmente arrolados - ou mesmo sua absolvição, em processos promovidos pelo MP, as pessoas sejam induzidas a erro. Generalizam a situação e passam a exigir o inexigível: a imparcialidade do procurador.

É certo que nem todos os magistrados se têm pautado por conduta que lhes preservem a esperada autoridade e o prestígio intelectual. E, em consequência, o respeito da sociedade e a reverencia ao seu modo de proceder. Alguns, esquecidos de que um dia ouviram de seus professores sentença das mais sabias - o juiz só fala nos autos - deitam falação a propósito der tudo e de todos, desdenhando do impedimento que suas bravatas acarretariam sobre o processo.

Esses, ao contrário, fazendo-se porta-vozes de alguma das partes litigantes acabam por revelar seu nenhum pendor pela justiça. (Leia Gilmar Mendes, quem o desejar).

Se a Rodrigo Janot ou Raquel Doge cabe assumir posição de parte na contenda judicial, isso não deve ocorrer com qualquer dos julgadores.


O MAIS GRAVE DOS CRIMES - Em 11/09/2017

Sejamos francos e demos às palavras seu verdadeiro significado. Desde crianças, todos aprendemos o significado do termo ladrão. Talvez, pelo abundante registro de atos praticados pelos que merecem tal classificação, saímos da primeira infância sabendo o - e quem - faz jus à outrora infame qualificação. Ladrão é todo aquele que se apropria de algo que não lhe pertence. Ainda que as leis estabeleçam diferenças entre várias formas de o ladrão agir, substantivo é verificar se o prejuízo ao patrimônio alheio não tem amparo legal.

As leis penais referem, pelo menos, o furto, o roubo, o furto qualificado. No direito público, sabe-se da apropriação indébita, cuja expressão esgota qualquer dúvida em sua literalidade. Crimes contra a administração pública, igualmente, incluem outras formas de tomar o agente para si aquilo que a si não pertence. A rigor, as formas até aqui listadas dão aos que delas se utilizam o direito de serem tratados chamados - e aos demais, o dever de chama-los - ladrões.

De tão arraigadas ao nosso cotidiano, as ações criminosas que se enquadram em qualquer das hipóteses previstas nas leis acabaram por merecer, mais que a tolerância e a leniência, certa admiração. Pois é com esse sentimento que muitos praticantes desses delitos são saudados, em geral pelos que lamentam apenas a eles mesmos nunca se ter apresentado a oportunidade de também mostrarem-se ladrões. Aqui, o verbo mostrar faz muito sentido. Basta lembrar o professor Félix Valois, para quem o ladrão nasce feito, aguardando a hora revelar-se.

Até aqui, tratei dos aspectos legais do que o padre Antônio Vieira chamou, em um de seus mais famosos sermões, a arte de furtar. Entendo necessário, porém, dar atenção a outros aspectos problema, detesto significativamente esvaziado, diante da rotina em que se constitui tal tipo de crime e dos sentimentos que ele desperta, desafortunadamente, mesmo em bons cidadãos.

Refiro-me a outros delitos, de caráter político , eis que, fiel a Aristóteles, vejo na essência do homem esse conteúdo. Mesmo o existencialismo admitiria tal condição, porque as relações sociais onde e quando quer que se estabeleçam trazem consigo o timbre da Política.

Ora, se o ser só se faz humano em presença de seres semelhantes; se de suas relações se cria a sociedade, e se nesta sempre estarão presentes questões ligadas à formação e ao exercício do poder, a Política subordina a própria vida humana. Por isso, o tal civismo, que alguns limitam ao respeito aos símbolos nacionais, vai muito além do que supõem os ingênuos que se contentam em aplaudir os desfiles de sete de setembro.

Daí entender mais grave o crime que atenta contra toda a sociedade, todo um povo, comparativamente ao que agride parte pequena dele. Não é o caso da padroeira vigente, sabido quanta falta faz à solução de recorrentes problemas sociais a dinheirama envolvida .

Mesmo assim, poderíamos dizer que o crime político opera no atacado, enquanto o outro o faz no varejo.

A surdez diante dos movimentos sociais, a cooptação de segmentos hostis da sociedade, o estímulo ao surgimento de grupos servis à vontade dos poderosos - e quantas mais práticas de igual jaez - parecem-me conter gravidade maior. Mas isso será objeto do próximo texto.


COMPADRIO TAMBÉM É NEPOTISMO - Em 01/09/2017

Antropólogo dos quadros da Universidade Federal do Pará, o professor Romero Ximenes resolveu inovar, Faz pelo menos três décadas. Enquanto a muitos estudiosos interessava o nível de renda dos diversos segmentos da população, o pesquisador da UFPA deu preferência às estratégias de sobrevivência dos mais pobres habitantes da capital do Estado. Particularmente quanto ao bairro da Vila da Barca, localizado na periferia da cidade e tendo na baia do Guajará um de seus limites, Ximenes encontrou evidências da criatividade brasileira.

O universo da pesquisa excluiu as pessoas empregadas e as que, vendendo sua força de trabalho ou não, sobrevivem de ganho certo, mesmo sem a proteção das leis do trabalho, hoje no caminho da extinção.

Biscates e outras formas de assegurar o pão de cada dia, e nem sempre todos, explicaram a possibilidade de sobreviver ainda quando esse exercício é - digamos assim - intermitente e sujeito às mais variadas ameaças.

Um dos expedientes encontrados tem curso, quando o beneficiário atua à margem da lei. Graças a isso, e à necessidade de pôr-se a salvo da Polícia, impõe-se obter a cumplicidade de pessoas ou famílias que enfrentam igual dificuldade de sobrevivência. Por isso, é frequente em sua permanente fuga dos policiais, embrenharem-se nos desvãos das comunidades periféricas. Lá, granjeiam a confiança dos moradores de cuja lealdade passa a depender sua própria liberdade.

O delinquente deixa parte dos alimentos que furtou (pedaços de carne tirados de um açougue ou outros gêneros alimentícios levados de um mercadinho)na casa em que foi buscar socorro. Garante, assim, o compromisso de ser dada aos policiais perseguidores a informação que o deixará em liberdade.

Outro expediente consiste em estabelecer vínculos com pessoas de outra classe social, tornando-se ao longo do tempo quase um membro da família. Neste caso, é frequente o necessitado inaugurar o vínculo com a prestação de um serviço eventual, até tornar-se frequentador assíduo da casa de seu benfeitor. Daí a fazê-lo padrinho de um dos filhos, é só um passo.

Isso explica o interesse de pesquisadores pelo fenômeno do compadrio, tão presente no passado sobretudo das nossas cidades interioranas, Brasil adentro. Engana-se, porém, quem pensa definitivamente afastada essa prática, mesmo nas mais importantes cidades dos Estados brasileiros. Nem a capital da república foge à regra.

Essa forma nefasta de nepotismo não poupa sequer autoridades investidas do dever da prestação jurisdicional. Nesse caso, enquadra-se o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Fugindo à tradição e à mais elementar responsabilidade de um julgador, o trêfego magistrado preferiu patrocinar os desmandos de pessoa com quem mantém relações de compadrio, a manter-se afastado de pendenga judicial em que este é envolvido.

Não pode ser outra a percepção dos cidadãos, sobretudo dos que ainda viam o Poder Judiciário afastado das práticas nocivas à democracia e, em especial, ao Estado de Direito.

A escaramuça jurídica e judicial que tem como disputantes um juiz de primeiro grau e o ocupante de cadeira onde Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Afonso Arinos tiveram assento empurra pela mesma ladeira o poder que ainda se pensava distante das práticas há muito adotadas pelo Legislativo e o Executivo.

A ministra Rosa Weber trata do assunto, no âmbito do Supremo. Se ela optar por submeter a seus pares, em plenário, a proposta de afastamento do ministro Gilmar Mendes, o mínimo que se pode esperar é o atendimento da solicitação do Ministério Público Federal. Sem isso, ficará a nódoa que o conselheiro de Michel Temer se esforça por lançar sobre a Justiça nacional.


O tamanho e a grandeza da crise - Em 26/08/2017

Mais que nunca, vivemos uma crise institucional. Se, anteriormente, as crises envolviam apenas partidos políticos ou as casas representativas (o Congresso) e os dirigentes do Poder Executivo, nas mais diversas esferas administrativas, hoje a situação é muito mais grave.

É claro o envolvimento do Poder Judiciário, cuja contribuição ao agravamento da crise, por ação ou omissão, fez-se conhecida do mais indiferente cidadão.

Sem compararmos, impossível sequer chegar-se a um conceito da coisa, seja ela o que for. Por isso, será sempre conveniente destacar o papel que a magistratura do País, em seus sucessivos graus, desempenhou em momentos cruciais da vida nacional. Praticamente assumindo funções moderadoras, o STF - sua mais alta instância - punha o Judiciário a salvo do (mau) julgamento dos cidadãos. Não que o poder estivesse infenso às vicissitudes (e os vícios, até) que cercam os indivíduos, como parte da sociedade humana.

Certos requisitos, tão mais exigíveis quando se propala a existência de um Estado de Direito, não eram meras figuras de retórica. Nem seu abandono era coisa trivial ou rotineira. Daí a perseguição dos membros da magistratura e, por consequência, das instituições judiciárias, sempre que a liberdade e a cidadania eram desprezadas.

Foi assim que Geisel tratou o STF, quando sentiu que o apego ao Direito e à Constituição ainda não havia sido de todo expulso da Justiça. O chamado pacote de abril criou maioria ilegítima, porque o general-Presidente não pretendia ver limitado seu arbítrio. Para remover a resistência do Supremo, tornou-se necessário avançar na empreitada autoritária, mesmo quando o Ai-5 ofendia a mais elementar noção de democracia.

Até então, podia-se ver assentadas na mais alta corte de justiça do País personalidades ideologicamente diversas, nenhuma delas, porém, destituída do saber notório e de conduta ilibada. Isso merecia o apreço da sociedade, ao mesmo tempo em que assegurava certo grau de tranquilidade aos diferentes segmentos sociais.

Não se quer dizer, aqui, que tudo era maravilhoso, que vivíamos na plenitude democrática. A comparação com os tempos atuais, contudo, revela vivermos época de retrocesso.

Jamais tantos profissionais do Direito frustrados em tentativas anteriores de mostrar sabedoria jurídica chegaram ao STF, como hoje. Da ilibada conduta dos ministros de ontem, sequer chega próxima a conduta de alguns dos que hoje têm cadeira cativa naquele órgão judiciário. E, mais, no passado valia a máxima "o juiz só fala nos autos". Dispondo, sob a guarda da Constituição, da prerrogativa de julgar seus contemporâneos, os magistrados sabiam quão danoso seria usarem tal prerrogativa para ofender os cidadãos ou revelar preferências pessoais incompatíveis com seu múnus oficial.

Atualmente, a reiteração de episódios como os inúmeros que têm como protagonista o ministro Gilmar Mendes revela a distância em que nos encontramos, dos tempos em que o STF era merecedor do respeito generalizado.

O silêncio dos pares do trêfego, loquaz e inconsequente ministro, se não os envolve nem acumplicia com o colega, enreda o próprio Tribunal nas pendengas a que teria que propor solução. Isso é que tornou a crise, mais que política, econômica e institucional, uma grave ofensa à sociedade. Esta abrangência, portanto, em nada aproveita à anterior respeitabilidade do Judiciário, se é que não o iguala aos demais - e desmoralizados - poderes.


O FUTURO PRÉ-1822

Pouco se pode esperar, do convívio (seria mais justo dizer cumplicidade) entre os poderes Executivo e Legislativo, nesta república de brincadeirinha. O segundo não sendo mais que o quintal onde a casa grande desfruta do espaço de diversão e promove as mais absurdas experiências, coloca a sociedade sob permanente risco. Em especial, os segmentos a que não acodem o dinheiro farto, que a tantos interesses espúrios satisfaz.

Não há, portanto, apenas coincidência, quando as providências de um e outro desses poderes servem para mutuamente complementar-se. Enquanto os deputados discutem a criação de fundo bilionário para satisfazer sua voracidade - pelo poder e por tudo quanto disso decorre - empenha-se o Executivo em compensar déficit de que não pode ser acusado qualquer cidadão ou contribuinte. É tudo responsabilidade dos poderes conluiados, sendo certo que os esforços oficiais sempre encontram na sociedade o bode expiatório.

Desde a derrubada de Dilma Rousseff, por motivos muito menos demeritórios que as práticas ora em vigor, a maioria dos cidadãos desconfiava das razões daquele golpe. À medida que o tempo passou (o tempo é senhor da razão, repetiu o hoje senador Fernando Collor de Mello, ele também enredado nas teias da Lava Jato), foi-se desvendando a que se prestou a derrubada da ex-Presidente, não por acaso urdida pelo maior beneficiário pessoal da queda.

Para surpresa de alguns analistas, a vergonhosa e criminosa atuação de Michel Temer e de seus aliados, em maioria integrantes das listas divulgadas pelos investigadores da operação anti-corrupção, ocorre à luz do dia. Já não há sequer o menor pudor em congratular-se com os dilapidadores do patrimônio público e os compradores de consciências e muito mais. Joesley e Wesley Batista aparecem juntos com Temer; Geddel frequenta as páginas policiais, como a frequentam Moreira Franco, Eliseu Padilha, Romero Jucá, Funaro, Palloci, Eunício Oliveira, Paulo Bernardo, Vacarezza ...e tantos mais, que sobrariam nomes no espaço deste artigo.

Enquanto isso, altera-se o valor do déficit programado, sem que a sociedade reaja como tem reagido em outros países acometidos pelo mesmo mal que nos faz sofrer. É iminente a majoração da contribuição dos trabalhadores para a previdência social, passando dos atuais 11% para 14%. Embora vítimas dos desmandos e das mentiras relacionadas a esse item das despesas governamentais, deles será cobrado pelo mal a que não deram causa. Os desmandos ficam por conta de sucessiva aplicação dos recursos que deveriam financiar programas de assistência e pagamento de pensões (aposentadoria e outras) em outras atividades, todas elas interessantes aos detentores do capital. Às mentiras corresponde a cínica e persistente alegação de déficit na previdência. Coube ao Ministro Waldyr Pires colocar as coisas em ordem, ao dirigir o setor. Quando deixou a Pasta, Waldyr deixou-a saneada. Mas saneamento, seja do que for, é algo que causa urticárias na maioria dos que se entregam à vida política em busca do pote de ouro, não no interesse coletivo.

A apenação dos trabalhadores, a redução de direitos duramente conquistados e a ampliação das desigualdades sociais acontecem com a mesma tranquilidade com que o governo cria novas formas ou renova antigas práticas destinadas a pagar a conta contraída com os que fartaram os bolsos e contas bancárias de grande parte dos seus agentes. A Lava Jato o tem comprovado.

Se a população não voltar às ruas, pouco se pode esperar, em termos de mudança. È célere a corrida do Brasil sobre a ponte que, a pretexto de nos deixar no futuro, restaurará situação que talvez nem os brasileiros vivos antes de 1822 terão experimentado.


EXTERMINADORES DE ESPERANÇAS - Em 12/08/2017

Os últimos acontecimentos políticos dispensam exercícios analíticos complexos e esforços intelectuais sofisticados, para serem apreendidos em sua integridade. Eles se explicam por si mesmos, sobretudo por confirmarem o que a grande maioria dos brasileiros pensa dos que supõem ser seus representantes ou dirigentes. Igual percepção a sociedade tem da elite empresarial, diferente da elite política (nela incluído o chamado baixo clero - como se houvesse outro no cenário) apenas pelo lado que ocupa no grande balcão de negócios.

Os políticos, todos sabemos, são capazes de tudo, não se excluindo mesmo o recurso à eliminação física dos competidores. Além do que, sempre estão dispostos a vender sua consciência - se é que um dia se deram conta de tê-la. Talvez até porque não a têm. Por isso, entendem no sentido mais rude e atrasado o que se chama mercado, esse amplo espaço em que a religião predominante se exercita e monta seus rituais. Daí vem a expressão "tudo tem um preço", que os mais famintos substituem por "não há almoço gratuito".

A existência de dezenas de partidos, enquanto outro tanto aguarda o dia em que terá assegurado seu lugar diante do balcão, não é mais que a representação política do fenômeno. A multiplicidade desses grupos vorazes torna mais fácil o negócio, sobretudo para os que compram. Numerosos, os que se vendem chegam a preços desprezíveis, tornando fáceis as negociações e assegurando maiorias eventuais no Congresso, seja qual for o objeto em questão.

Disso tem dado prova muito de trajetória política do Brasil.

A recusa em processar Michel Temer, por exemplo, é ilustrativa do conluio de que se aproveitam os mais influentes agentes econômicos e políticos. É tão desavergonhada a conduta de uns e outros, que as proclamações contra a sempre alegada carga tributária e a cantilena lamuriosa sobre o que seria o déficit público são refutadas pelas decisões governamentais. Não basta aos ganhadores de dinheiro e aos que eles patrocinam o escancarado desmentido do que proclamam, à moda de Goebells, o ministro de Hitler.

Se dizem necessário equilibrar as contas públicas, ao mesmo tempo beneficiam-se da redução de suas dívidas tributárias, resultantes - é preciso que fique claro - do descumprimento de preceitos legais. Como impedir que tais agentes sejam considerados, como todos os que delinquem, marginais? Da aliança que se estabelece entre eles e os governantes, resulta provada a tese de que às vezes o crime compensa.

Claro que ao batedor de carteiras não aproveitam as liberalidades favoráveis a outro tipo de criminoso, aquele que não usa armas convencionais, porque dispõe de outros instrumentos bélicos de que não podem suspeitar as pessoas honestas.

Mas não é apenas o perdão ou a redução da dívida que dá o tom absolutamente contraditório da peça mambembe. A distribuição de dinheiro público para comprar votos de supostos representantes do povo, igualmente, afirma muito mais que as notas oficiais e as inserções nas redes sociais, esse estranho meio de que se valem dirigentes atônitos diante da crescente perda de credibilidade.

Ao invés de revelarem-se arrependidos pelos muitos delitos praticados, políticos e empresários tentam nivelar todos os cidadãos pelos mesmos valores e interesses que movem seus atos e seus passos.

Repito, para finalizar: somente aos brasileiros destituídos do menor senso de realidade escapa a vergonha do cenário montado por esses exterminadores de esperanças.


REAGIR É PRECISO - Em 31/07/2017

Quem se der o trabalho de consultar os registros do Fundo Amazônia será surpreendido com a ausência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o respeitável INPA, dentre os destinatários de financiamento. Trata-se, não obstante, de instituição produtiva e comprometida c om os objetivos que justificaram sua criação, já se vão mais de 60 anos.Criado em 2008, pelo Decreto nº 6.527, de 1 de agosto, o Fundo é uma tentativa de responder aos desafios impostos pelas ameaças ambientais e sua repercussão sobre a vida humana. Estejamos onde estivermos, pertençamos a qualquer raça e sejamos governados por qualquer dos sistemas conhecidos, impossível imaginar que alguém consiga superá-las, individualmente.Porque goza de prestígio internacional e ultrapassou a fase inicial de sua trajetória, o INPA hoje é repositório da esperança de milhões de brasileiros, e não só os que habitam a Amazônia. Não só isso: faz-se cada dia mais respeitado na comunidade científica universal, ao mesmo tempo em que seus pesquisadores, técnicos e servidores integraram-se totalmente à comunidade local. Ficou para trás o período em que o INPA era visto como um gueto, incrustado em área era e distante - do centro da cidade e dos interesses da sociedade. Foi adiante, graças sobretudo à compreensão de seus objetivos e o crescente comprometimento da instituição com as melhores causas dos amazônidas.Lembrar que nem sempre foi assim, longe de depreciar ou desdenhar dos trabalhos do INPA, revela quão positivo foi o esforço de muitos dos seus dirigentes, uma expressão do conceito formulado por Lev Tolstoi: se queres pintar o universo, pinta primeiro tua província. Nada mais universal do que essas palavras.Atualmente, ao lado de tantas outras instituições com objetivos semelhantes, mas específicos (Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Instituto Evandro Chagas, FIOCRUZ, UFAM, UEA, Fundação, HEMOAM, exemplificativamente), o INPA continua a esforçar-se pelo desvendamento da efígie, para usar termo ao gosto de um de seus mais eminentes ex-diretores, Djalma Batista. Só isso bastaria para justificar a permanente busca, por respeitadas instituições internacionais, pelas pesquisas da instituição.Imaginemos que a pesquisa contasse com o necessário e justo apoio dos sucessivos governos! O contrário é o que vem ocorrendo, gerando a suspeita de que o Brasil prefere comprar que produzir conhecimento científico. Vem daí a importância de um fundo, como o Fundo A'mazônia, cujos recursos são geridos pelo Banco de Desenvolvido Econômico e Social, o BNDES.Pois agora, a ausência do INPA na lista dos contemplados com recursos do FA tem novo adjutório: a decisão do atual diretor, que pretende colocar nas mãos de fundação sediada em Minas Gerais os milhões há mais de quatro anos solicitados pelas diversas equipes cientificas do Instituto que ele dirige,Por enquanto, apenas o SINDSEP- Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Amazonas se manifestou hostil ao propósito predatório. Talvez a comunidade acadêmica e científica, o empresariado e políticos e formadores de opinião ainda não alcançaram as maléficas consequências dessa decisão. Nem mesmo os que, fornecedores e prestadores de serviços, terão subtraída a oportunidade de movimentar seus negócios, em benefício de negócios mantidos fora da região.Ao SINDSEP devem juntar-se todas as demais instituições legitimamente comprometidas com o destino da Amazônia. Só assim será evitado mais um esbulho contra este pedaço de Brasil. Menos porque a prática desrespeite a comunidade do INPA, afronte a sociedade amazônica, prejudique o empresariado regional e ignore a existência de fundação criada no seio do Instituto, a FDB. Mas porque fere a dignidade dos manauaras, dos amazonenses e de quantos desejam um futuro melhor para todos. O silêncio custará caro aos omissos.


OS PATOS DA FIESP - Em 22/07/2017

Uma das mentiras mais divulgadas pelos detentores do capital é o suposto exagero da carga tributária. Incomparável ao peso do tributo sobre os contribuintes, em pelo menos trinta outros países, a contribuição dos brasileiros é reiteradamente considerada um exagero. Nunca se diz, porém, da injustiça característica de nossa política tributária. Muito menos, ainda, sobre as inúmeras práticas - nem todas legais - que remetem o peso da carga ao lombo dos mais pobres, deixando isentos ou reduzidos os recolhimentos tributários dos mais ricos. Nesse particular aspecto, mesmo analistas e economistas defensores da exorbitante acumulação reconhecem o caráter regressivo de nosso sistema tributário, que onera bens de uso generalizado, ao mesmo tempo poupando as rendas e o patrimônio.

Não obstante essa política anti-Robin Hood, os ganhadores de sempre insistem em obter cada dia mais favores fiscais. A concessão das chamadas desonerações é rotina, sem jamais ter logrado aumentar a oferta de empregos, quando não ocorre de ser seguida de novas ondas de demissão.

Quem se der o trabalho de acompanhar as mais recentes desonerações e o mercado de trabalho, facilmente constatará a que tem servido a redução ou a suspensão de alíquotas em setores específicos da economia. Ela apenas torna a sociedade ainda mais desigual.

Nem por isso, a FIESP e outras entidades vinculadas aos rentistas instalaram no Centro da capital paulista um placar luminoso em que se registra, em tempo real, a arrecadação de impostos no País. Com isso, pretende predispor a população à prática da desobediência civil. Isso tudo, quando os serviços públicos sofrem acelerada deterioração, sobretudo pela escassez de recursos. Aos incautos, as lideranças das entidades representativas da elite econômica brasileira nada dizem sobre o desinteresse de seus associados pelo destino de hospitais e escolas públicos, para ficar apenas nesses dois setores.

Compreende-se essa conduta, pois se sabe que os patrões sempre que acometidos por algum mal grave, recorrem a hospitais privados, quando não se deslocam muitas vezes em aviões de sua propriedade, para outros países. Também matriculam seus filhos em colégios privados, como meio de fugir à ineficiência e aos baixos níveis do ensino público do País.

O discurso ofensivo à sociedade e desrespeitoso para com os que vivem do suor de seus próprios rostos esconde o propósito de manter ou elevar o atual nível de acumulação, de que a antirreforma trabalhista é exemplo dos mais cruéis.

Sequer é dada atenção ao fato de que muitas das mais importantes lideranças acolhidas no seio das entidades mencionadas estão envolvidas até o pescoço com os ilícitos de que a Operação Lava Jato nos dá conta. Á frente de todos, o idealizador da imagem do pato, uma espécie de mascote da luta contra o Estado e a parte pobre da sociedade brasileira.

Presumindo-se boa fé em expressivo número de empresários nacionais, cabe perguntar: quem são os patos postos a serviço da malfadada campanha? Quem, ao final, pagará a conta? E agora, que Temer cria novos impostos, ainda mantêm a falácia de que nossa carga tributária é a maior do mundo?


VAGA CONTRA A PONTE - Em 14/07/2017

Quando antipatias pessoais ou apego a preconceitos superam a análise objetiva dos fatos, pouco se pode esperar da discussão dos problemas. Isso não vale apenas para a política, pois é aplicável a qualquer setor para onde convirja o interesse humano.

O Brasil vive difícil momento, e não apenas no que diz respeito aos acontecimentos eminentemente políticos. (Se bem que tal conteúdo perpasse toda conduta humana, a darmos atenção ao que postulava Aristóteles - o homem é animal essencialmente político). É truísmo dizer-se que experimentamos uma crise abrangente, nela podendo ser identificados elementos indubitavelmente políticos, outros econômicos, éticos alguns e geracionais alguns outros. Trata-se, portanto, de situação a que quase ninguém consegue fugir.

Vivemos em uma das nações mais bem-dotadas, se a questão se resume a promover o desenvolvimento do qual todos se aproveitem, não apenas a ínfima minoria que habita nosso imenso território. Este, exatamente por sua extensão, constitui um dos fatores mais favoráveis ao bom encaminhamento das soluções.

Não somos o país de maior área territorial do Planeta, mas o único em que os rigores da natureza em nada obstaculizam ações humanas consistentes e não-deletérias. Nesse território concentram-se algumas das reservas mais estratégicas da Terra, como as águas, certos minerais, o potencial hídrico, a variedade de espécies animais e vegetais. Nos 8 e meio milhões de quilômetros quadrados que despertam tolo ufanismo, vive uma população predominante de seres humanos em idade produtiva. Nosso clima, diversificado, permite gerar alternativas econômicas em uma região, diferente das aplicáveis em outras regiões. Isso, ao mesmo tempo, no calendário gregoriano.

Em suma: nossas condições, do ponto de vista natural, são invejáveis. Incomparáveis, podemos dizer, sem qualquer laivo ufanista. Por que, então, teimamos em ficar cegos a essas circunstâncias e somos levados a menospreza-las?

Acredito que antipatias pessoais, anunciadas acima, em nada ajudam. Porque não gostamos desse ou daquele partido, porque identificamos opiniões e posições diferentes naquele político, acabamos por desdenhar do principal. Nossas vistas, nossa total atenção e nossos propósitos são desviados para as questões menores. Daí cada brasileiro ser, concomitantemente, um técnico de futebol e um Presidente da República. O melhor time sempre será o que cada um escolher. Logo, jamais teremos uma equipe de todos. O mesmo acontece na política: as medidas que um propõe sempre será a melhor - para ele mesmo, digo.

Muito desse comportamento avesso à essência do ser humano, gregário por necessidade e por opção, produz cegos políticos e pobres intelectuais. Aqui, não me refiro à falta de escolaridade ou conhecimento acadêmico, mas à possibilidade de raciocinar sobre a realidade, compreender as relações que nela se estabelecem e propor razoáveis modos de superar o que entendemos por insatisfatório.

É certo que muitos, exatamente por terem alcançado sofisticado nível intelectual, engendram os mais complexos discursos, para justificar a manutenção do status quo. Quando não, o aprofundamento de suas características. Digo-o, porque (surpresa que eu pensava impossível, nesta fase da vida!) ouvi de pessoa dotada das condições referidas nas linhas anteriores, ser a pobreza um dado positivo. Isso, após confessar seu absoluto desprezo pela existência de desigualdades entre nós. (Não perguntei o saldo bancário do conferencista, pela obviedade revelada em suas palavras)

Pois bem. Discutem-se alterações nas leis que regem o sistema previdenciário, ao mesmo tempo em que o Congresso Nacional prepara a volta aos tempos pré-CLT. A hostilidade a esse ou àquele ex-governante obscurece tudo quanto de positivo foi alcançado, menos pelas virtudes do adversário, que pela antipatia pessoal por ele gerada. Não há a menor consideração pelo benefício por ventura haurido por alguma parcela da sociedade, mesmo quando essa constitui a maioria. Se o benefício não alcançou direta e generosamente o interlocutor, logo ele (o benefício) é desqualificado. É o caso do programa bolsa-família, cujo pecado maior é o de não ter apresentado desde sua criação, o momento em que poderia ser eliminado, pelo menos individualmente.

Se não bastaram as palavras acima para deixar explícita esta argumentação, sigamos em frente.

O bolsa-família, à moda da renda mínima, deveria ser usado para evitar a miséria, ao mesmo tempo em que se buscasse dinamizar a economia, de modo que o beneficiário da bolsa encontrasse trabalho digno e razoavelmente remunerado. Também em tempo não tão distante. Deixaria de ser simples benesse, para travestir-se de um programa com duas (pelo menos duas) funções nítidas e compreendidas por todos: 1. Evitar a miséria crescente na população; 2. Oferecer, após determinado prazo (5, 10 anos? ...?), o trabalho reclamado pela maioria dos brasileiros.

A propósito, convém lembrar que isso constou das propostas iniciais dos que inspiraram a criação e implantação do Programa de Bolsas. Logo, porém, o populismo interferiu e acabou por mostrar-se ainda vigoroso, tanto quanto maléfico.

Observe-se, porém, já nem serem promovidas discussões sobre o tema. O importante é condenar mais uma vez os beneficiários do programa, condenados antes pelo desemprego e pelos maus serviços públicos por que demandam. Pior, usando como instrumento de condenação seu vínculo com os governos que mantiveram as bolsas. O caso típico de antipatia pessoal presidindo o raciocínio do crítico.

Outro fator é a ideologia preferida. Os muitos ismos presentes no debate, no afã de anular-se mutuamente, enrijecem posições, ao negar validade (a mínima que seja) a qualquer ideia partida do opositor. Desqualifica-se a ideia ou a proposta, porque não se dá valor à sua fonte. Isso tudo, quando há verdades que só não saltam aos olhos de todos, porque alguns estão eivados desses vícios aqui tratados e de tantos outros, que não vem a pelo tratar aqui e agora.

Quem pode ignorar a desigualdade social com a qual convivemos? Quem não vê vínculo entre a desigualdade e a violência cotidiana? Qual dos brasileiros ignora que - para ficar apenas em exemplo dos dias que correm - o dinheiro corre solto, às vezes dentro de malas, enquanto os congressistas preparam-se para produzir ainda maior sacrifício aos trabalhadores? Como falar em déficit da previdência, ao mesmo tempo em que muitos milhões de reais são gastos em propaganda - na busca de tornar as alterações assimiladas e apoiadas pelos próprios prejudicados? Quem não vê nessa conduta dos governantes, além de iniciativa malsã verdadeira cusparada na cara dos cidadãos?

Ou fazemos valer nossa (frágil que seja) condição humana, ou chegará o dia em que os governantes exigirão que andemos de quatro, extraiamos e comamos com as mãos os alimentos naturais e profiramos grunhidos. É a isso que se destinam as "reformas" trabalhista e previdenciária.

Nosso prometido futuro, se ainda não tem a ponte que o alcançará completa, finca duas sólidas vigas. Só a vaga da multidão e o crescer de suas ondas poderá deter tal processo.


ESPADAS E TOGAS - Em 09/07/2017

Nos tempos em que a análise e a interpretação jurídicas cedem lugar aos operadores do Direito, não surpreende a preferência por Napoleão e a distância de Licurgo. Compreender as leis, a partir da expectativa de que elas pretendem conduzir à Justiça, portanto, substitui-se pela tática do general francês: a melhor forma de defesa é o ataque. Curioso é constatar quanto isso se torna mais evidente, quando os interesses em jogo incluem personagens mais próximas da área jurídica. Mais, ainda, se o protagonista um dia tentou ensinar as disciplinas do curso respectivo.

A despeito do conteúdo de curiosidade, impossível demonstrar menos que estranheza, já que a surpresa seria revelação de enorme ingenuidade.

A peça de defesa do Presidente Michel Temer, que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados apreciará ilustra a opção pelo Pequeno Caporal. E - quem sabe - o repúdio a Licurgo. A Drácon, mais ainda.

O inegável talento do defensor de Temer não foi capaz de fugir à repetição de palavras vazias de conteúdo, como se sabe o risco menor, diante de fatos indesmentíveis. Nem o reconhecimento da qualidade intelectual de Antônio Cláudio Mariz de Oliveira o impe-diu de partir para o ataque, ao invés de apresentar argumentos capazes de convencer os membros da CCJ,

Trata-se, obviamente, do cumprimento mais raso da desobriga profissional. Como se es-tivesse em disputa o pequeno furto, aquele que a jurisprudência exime de pena e por isso tem devolvido à liberdade os pobres que furtaram um tubo de creme dental ou um punhado de cebolas em um supermercado. A jurisprudência tem devolvido liberdade os que furtam valores insignificantes. Difícil é dar o mesmo tratamento, quando malas car-regam dinheiro vivo.

O processo de que se trata aqui, e os envolvidos na ação sub judice, afetam toda uma nação e a condução dos negócios que lhe são próprios. O denunciado não é o cidadão comum, vitimado pelas políticas públicas, que subtraiu artigo capaz de satisfazer-lhe premente necessidade. Em seu lugar, está não menos que o ocupante do cargo mais alto da hierarquia oficial, em suposta república onde se viveria segundo as regras de um Estado de Direito. Deve contar, ainda, uma agravante: por algumas horas despojado voluntariamente de suas prerrogativas, a autoridade ouve a confissão da prática de variados crimes, e faz ouvidos de mercador. Não estará aí, devidamente configurado um crime de responsabilidade? Ou o empresário antes festejado e agora tido por criminoso contava com a anuência de seu interlocutor, ou apostava na impunidade. Dele, e de quem mais participasse de tão estranha parceria.

Destaque-se, por oportuno, a repetição da cantilena usual. Impossível negar o fato denunciado, a tentativa de desviar o olhar dos julgadores vale-se da tática napoleônica. O que seria a defesa acaba por transformar-se em acusação, como se à Justiça interessasse substituir os denunciados, não chegar ao criterioso e justo julgamento daquele que, por enquanto, tem formalizada a peça acusatória. Que os outros sejam postos no banco adequado, nada demais. Desde que sua eventual denúncia se revista dos indícios e provas que sustentam o devido processo legal.

Talvez as mais desagradáveis experiências de um advogado advenham da dificuldade de transformar atos ilícitos em conduta aceitável. O que não importa desertar do dever de assistência, mas nem por isso serve para autorizar a obediência expressa à sentença do general francês.

Grave é constatar a fragilidade da peça tecida por um dos mais respeitáveis advogados do País, a única possível, diante das evidencias de que a sociedade já é conhecedora. O destino de Temer está entre a balança e a espada. Patético, quando não lhe faltam conhecimentos jurídicos.


ALTAR DOS SACRIFÍCIOS - Em 01/07/2017

A imolação parece essencial à caminhada em direção ao Paraíso. Não seria diferente com o neoliberalismo, essa religião que se espalha pelo mundo e nos leva à realidade que amargura a maior parte da humanidade.

De modo mais ou menos ostensivo, o certo é exigir o sacrifício, o derramamento de sangue, literalmente ou não. Diferentes os deuses a que se dedicam os fiéis, diferentes também os ritos.

O carneiro sacrificado em benefício da ainda maior concentração da riqueza produzida por todos, apresenta-se hoje como a população trabalhadora dos países.

O anúncio de que a realidade ainda será pior não foi proclamada por algum feroz opositor do atual governo. Muito menos partiu da boca de algum dos ex-fiéis que delatam os pecados dos estranhos sacerdotes. Disse-o um dos mais influentes e poderosos desses demiurgos, estrategicamente postado no altar-mor da religião que, segundo o Papa Francisco, reverencia e adora o esterco do mundo.

Coube a Henrique Meirelles fazer a ameaça, qual Zeus enfurecido porque as musas lhe são hostis: o crescimento do Produto Interno Bruto já não mais alcançará os 3% prometidos, quando derrubar Dilma Rousseff precisava encontrar pretextos para operá-lo.

Não é, porém, só esse pretexto que rui, meio às denúncias de atos atribuídos ao sacerdote-mor, jamais formulados contra a Presidente desalojada do Planalto.

Ingênuos os que pensam parar por aí a cerimônia de imolação da maioria dos brasileiros. O compromisso de manter no nível atual a carga tributária contra a qual tantos se rebelam, escoa pelo ralo.

Poderemos ter aumento de impostos, caso não sejam aprovadas as duas mais importantes (para os interessados no agravamento das desigualdades) reformas feitas dogmas dos usurpadores, a trabalhista e a previdenciária.

Sem a eliminação do que resta de proteção aos trabalhadores e excluída a entrega da aposentadoria às empresas do setor, desmoraliza-se o discurso longamente explorado. Mesmo se os arautos das meias-verdades não ignorem a classificação do Brasil, no item (carga tributária), em 30º lugar, a dar-se crédito à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2012.

Dia 28 de junho de 2017, qual Zeus enraivecido pela hostilidade das musas, Henrique Meirelles lançou seus raios sobre a população trabalhadora: cresceremos pífio meio por cento, em 2018. E, mais: estamos virtualmente a beira do aumento de impostos.

Não foi um simples cidadão do povo quem o disse, mas alguém com lugar privilegiado na ara laica e moderna, além de profissional experimentado na cruzada expansionista do neoliberalismo. A acrescentar apenas sua condição de postulante à cadeira de sacerdote-mor, caso os 513 acólitos instalados do outro lado do altar dos sacrifícios deem acolhida às denúncias formuladas pelo Ministério Público Federal.

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Observador Participante

Dr. José Seráfico