Olhar Crítico

Flávio Lauria
Professor Universitário e Consultor de Empresas 
lauriaferreira@hotmail.com

POR QUE OS POLÍTICOS MENTEM - Em 19/04/2017

O leitor não encontrará evidentemente no presente artigo a resposta para o título do mesmo, mas, se alguns políticos o lerem, poderemos ter uma mudança de hábito. O desencontro entre a ética e a política pode ser observado na facilidade com que a mentira impera na vida pública. Para o cidadão que busca o decoro e a compostura dos comportamentos dos seus representantes, dizer a verdade é um imperativo. A presença de práticas e comportamentos transgressores dos valores e normas no comportamento dos políticos colabora para o desaparecimento do respeito à lei e às regras da sociedade.
Por que os políticos mentem?
O argumento de que o governante teria o direito de mentir se fosse para benefício da comunidade contrapõe-se ao direito à informação verdadeira por parte dos governados. Quando se debate, às vésperas de uma eleição, as verdadeiras intenções, o objetivo é revelar ao eleitor a verdade daquele que pleiteia um cargo público. Para Platão, a mentira na política depende das circunstâncias para ser considerada válida. Ela pode ser útil quando a usamos contra os inimigos ou falamos deles em benefício de nossa comunidade. Nos demais casos, não.
Na política, só a verdade é nobre e merecedora de aplauso. Precisamos urgentemente educarmo-nos para proteger a verdade na política. Não é evidente que a ilusão e a mentira dominem totalmente o espaço do poder. Os políticos precisam compreender que a sociedade valoriza a verdade. Ela é a base da confiança, alicerce da vida em comum. Os políticos precisam inverter os termos da relação verdade/mentira na política, desaprender a concepção na qual a mentira é um mal menor. Os políticos precisam aprender que a mentira é um ingrediente ruim para a vida pública.
Estamos no limite da política quando os políticos a tomam como prática comum da vida pública. Eles esquecem que em todo o mundo líderes políticos tiveram sua imagem destruída quando se tornou pública a verdade. No mundo marcado pela espetacularização, é um erro pensar que a mentira não virá à tona. Na vida pública, a vontade pessoal não pode ser maior que a decisão da sociedade, e a mentira, maior que a verdade. Na “rés pública”, a mentira é associada à corrupção.
A sociedade tem o voto como instrumento de defesa contra políticos que mentem e que não dão valor à sua palavra. Verdadeiro “remédio contra mentira” na vida pública, ensina aos políticos serem verdadeiros e a basearem suas ações pela busca da verdade, único caminho para a construção de uma sociedade democrática. Como dizia Frei Beto “Pobre política dos discursos desajuizados, proferidos na veemência despida de ética, ecoando rancores. E das aleivosias moldadas pela conveniência, disfarçadas de firmeza enquanto os pés chafurdam no lodo das negociatas. Pobre política da veneração desmesurada ao poder, do desfibramento ideológico, da despolitização dos eleitores, da indigência de estratégias imunes ao calendário do próximo pleito. Pobre política da prepotência de quem ignora que cargos não alongam estaturas, nem a moral, e enche o peito de virtuais medalhas concedidas pela própria vaidade de quem se julga acima da média".

 

 

INVERNO DE ESPERANÇA - Em 12/04/2017

Existem marcas deixadas por leitores que me nutrem o coração com reações do tipo: seu artigo lavou-me a alma, me fez rir, me comoveu, me fez dizer "É isto mesmo". Sinalizam que não estou sozinho em meus modos de perceber e de pensar. Também sou construtivamente marcado pelos que discordam e criticam, pois me ajudam a manter a mente aberta. Inspirados em indignações ou encantamentos, meus artigos refletem a marca de valores legados pelos construtores da minha bagagem em seus "recados de vida":
Ignorância gera besteira ou desgraça. Pode ser melhor, sim. Desconfie sempre do governo e não confie demais na oposição. Discurso é ação e o autor deve ser responsabilizado por suas palavras. O preço das decisões é para ser pago sem queixas. Imoral é enganar os outros. O bem que fizeres retorna a ti, o mal também. Sede assim, qualquer coisa, serena, isenta, fiel. Quem merece de Deus os dias e as noites, merece de nós bom dia, desculpe e obrigado.
Faz vinte anos que comecei a escrever semanalmente para jornais em Manaus. Entre pesadas máquinas de escrever Olivetti,na velha redação do DIARIO, tive a atenção fraterna do jovem e já experiente repórter Ajuricaba, cujo bom humor e coleguismo são inesquecíveis. Depois de outros tantos anos como docente, eis-me colaborador da página de Opinião, onde publiquei mais de 1.130 matérias. Falei de mazelas sociais, desmantelos urbanos, amor, ética, política, religião e até futebol. Com profissionalismo, respeitei rigorosamente o limite determinado para o tamanho dos textos, apurando forçosamente um estilo enxuto que parece agradar à minha vintena de leitores
Após todos estes anos, sem abandonar a causa do respeito às diferenças nem o sonho de melhora da cidade e do Mundo, confesso que ao receber uma curtição ou um compartilhamento no Facebook onde também publico meus artigos, sinto-me regozijado, formando opiniões, e para alguns leitores sendo o contraponto do que pensam. O labor e a responsabilidade de expressar ideias esculpindo textos são para mim, também curtição. Prossigo de olho no mundo, de coração nos afetos, de alma na trilha da paz. Continuo como artesão de textos em outros contextos, nutrindo a humilde esperança de marcar um pouco os outros com minha visão de mundo e ser por eles marcada.
O que torna nossa sociedade perversa é o fato de a vulnerabilidade institucional ser benéfica aos poderosos e madrasta para o cidadão comum. Das práticas mais comezinhas do cotidiano às decisões dos mais altos escalões administrativos é patente que as instituições não conseguem impor funcionalidades impessoais. Não servem à coletividade porque funcionam mal e porque se ajustam aos projetos de seus dirigentes circunstanciais.
Enfim, para encerrar esta epístola e, assim, abreviar o tédio de quem teve a pachorra de lê-la até aqui, tenho a convicção de que o inverno de nossa desesperança, não será longo demais. Há, neste querido Brasil e em Manaus, instituições em que você e eu temos de acreditar, pelo inegável papel histórico que representam. Há inúmeros outros varões, com dignidade, senso de responsabilidade, boa vontade e desejo de lutar contra uma situação que envergonha, deprime e degrada uma pátria que desejamos nobre, altiva e independente. Boa semana santa a todos.

 

HABEAS MENTIRAS - Em 05/04/2017


O ex governador Plinio Ramos Coelho, cunhava a expressão “ensancha oportunosa”, ou seja aqueles que se aproveitavam da oportunidade de alguma maneira. O mensalão foi uma dessas, por mais que isso desconcerte e machuque, é enganoso imaginar que essa erva daninha, batizada em tempos mais recentes com nome de "mensalão", é coisa apenas dos desconcertantes tempos de agora. Não é. Ela, na verdade, é tão velha, como prática repulsiva, que carece ser extirpada da nobre atividade política, quanto a Serra da Canastra.
Qualquer estudioso da política pode chegar bem longe nas conclusões, mesmo recuando algumas décadas, em pesquisa que promova a respeito desse desavergonhado procedimento adotado por alguns no trato dos recursos públicos. Se contentar com avaliação que abarque apenas duas dezenas de anos, se deparará, logo de cara, com aquele estrondoso esquema de corrupção que levou ao impedimento do próprio presidente da República.
Não se dorme um dia no País sem que se acorde no seguinte com nova denúncia sub oculis. O denuncismo tomou conta da nossa paciência e, depois que os acusados descobriram que aqui também existe a denunciação premiada, todos têm que pedir a proteção legal para mentir mais um pouco. Só quero lembrar a cada um e a todos que denunciação é faca de dois gumes: se a denúncia for falsa ou não servir ao interesse da apuração, a cana é segura, pois a lei prevê pena.
Até condenados a quarto de século de cadeia pretendem os favores da lei. E a presunção da verdade onde fica em uma declaração do condenado ou acusado? Aliás, valha-me Santa Bárbara: que exibição ridícula tem sido vista de gente sem a menor capacidade intelectual. Se bem que a televisão tenha mostrado honrosas exceções (parlamentares de muito bom gabarito), outros, coitados, são patativas repetitivas, que nada criam, não raro pretendendo apenas projetar-se com discursos insossos e descabidos.
A tevê está prestando relevante serviço ao sistema, aproximando os parlamentares dos eleitores e permitindo que se identifiquem valores. Nesse festival de cinismo em que se transformaram inúmeros depoimentos graças à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), concedendo habeas corpus, logo transformados em “habeas mentiras”, pouco se tem aproveitado para o êxito final das investigações,
As CPIs, pelo que vejo, vão ter que se sustentar só em documentação, porque os depoimentos não ofereceram nada. E não vão oferecer, porque qualquer pernilongo que por lá apareça intimado já chega municiado de um “habeas mentira”, o que torna inviável conseguir qualquer coisa. Além disso, o habeas assegura aos depoentes não se auto-incriminarem, embora estejam obrigados a responder quando as perguntas se referirem a terceiros.
O habeas não acoberta o direito à negativa universal, como se tem visto. O que me preocupa é que, com isso, o Legislativo parou. Mas, o Executivo também parou. O tal gabinete da crise se reúne apenas para tomar conhecimento da denúncia do dia. Pouco tem-se alcançado, porque, afinal, o presidente continua fazendo discursos que nada esclarecem e nada somam para aliviar a crise. Chega de sonhar com lideranças efêmeras. O bicho está roncando é aqui mesmo.

 

PRINCÍPIOS INARREDÁVEIS - Em 29/03/2017

Vamos e venhamos, pode ser chato para nossa famosa autoestima, mas a sensação que dá, quando a gente fica a par do noticiário, não é a de que aqui absolutamente todo mundo rouba, de uma maneira ou de outra? Não vou hierarquizar, nem mesmo qualificar nada, vou só olhar aqui à toa. Hoje cinco conselheiros do TCE do Rio foram presos por propina com empreiteiras e empresas de ônibus, Mais um assalto na Lagoa, no Rio. Entre os assaltantes, um inspetor da Polícia Civil. Mais um assalto na madrugada, em São Paulo. Entre os assaltantes, um delegado.
E o Tribunal de Contas da União? Está certo, seus quadros não são compostos de anjos tampouco, mas logo o Tribunal da Contas da União, uma espécie de símbolo institucional (pode até nunca ter passado muito de símbolo, mas é símbolo, isso tem valor) da seriedade com o dinheiro público? A sociedade brasileira é regida por sua lei maior, a Constituição, e apesar de sua complexidade, é sempre bom lembrarmos os princípios normativos que regem nossas vidas, enquanto sociedade una.
A norma fundamental inspira-se no Contrato Social de Rousseau, onde o povo contrata a criação de um ente autônomo para zelar por seus interesses. A Constituição organiza a sociedade e legitima o correto funcionamento do ente público. O artigo 37 da Carta determina que a administração pública, direta e indireta, obedecerá aos princípios inarredáveis da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Esses valores são tutelados pelo direito, e caso não sejam observados, não merecerão proteção.
Para garantir o cumprimento do bem coletivo, os atos de improbidade administrativa importam a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao Tesouro, sem prejuízo da cadeia. Assim, todo servidor tem o dever de ser honesto, independentemente de seu cargo.
O povo, por meio do Congresso Nacional, tem o dever e o poder de fiscalizar e controlar, diretamente, ou pelo Senado Federal ou Câmara dos Deputados, os atos do Poder Executivo, incluídos os da administração indireta, como as estatais. O Senado (artigo 52) pode processar e julgar o presidente e o vice-presidente da República nos crimes de responsabilidade, bem como os ministros de Estado.
Crime de responsabilidade é todo ato que atente contra a Constituição e, especialmente, contra a probidade na administração. Como a cada dia estamos tentando entender, por meio dos noticiários escritos, falados e televisados, qual a distância entre os fatos, a lei e a aplicação desta, passamos a lidar com a fórmula que conecta o processo político com a lei. Caso ambos estejam desconectados, estaremos em um regime de exceção, onde à manutenção do status político é dada mais importância do que ao status legal.
Diante da simbiose constatada entre o Legislativo e Executivo federais, por meio de atos atentatórios à moralidade, resta saber se o povo dará validade à lei com suas próprias mãos, ou se ficará satisfeito, nesse momento crucial e grave, com o desempenho de seus mandatários nas Casas de Brasília. Será vergonha maior esconder a imoralidade, ou legalmente expor aqueles que da mesma se beneficiam, crentes na própria imunidade?

 

 

PRAZERES - Em 22/03/2017

Ouvi de uma querida amiga essa semana duas palavras que não ouvia a um certo tempo: disse ela que era fogosa e pervertida na hora do sexo, ou traduzindo numa linguagem de siglas PDTS. Até aí tudo normal porque cada um tem seus apetites e suas fantasias. Há quem diga que, prazer, sexo, emoções fortes, intensidades, são experiências dos anos dourados da vida. Quais serão, porém, os anos dourados da vida de alguém? E o que "doura" esses anos?
Na estereotipia dos olhares fixados na pele jovem, no corpo sarado, ágil e esbelto, na carne exposta, o lado de dentro do sujeito não é visto, sequer cogitado, como o lócus de grandes acontecimentos, onde se tecem possibilidades de grande prazer. A redução que se faz da experiência sexual, ao simples encontro e desempenho dos corpos, é empobrecedora, por superestimar o grau de eficiência com que os parceiros realizam suas proezas.
Constata-se uma precariedade filosófica e ideológica na sexualidade reduzida à busca do prazer pura e simplesmente, sem envolvimento. A sexualidade em qualquer idade, está nessa dimensão base, mas também para além desse desempenho, ela porta um mais além do corpo. Quando a cultura banaliza isso, reduz-se a experiência sexual, a uma ordem que nos aproxima mais daquilo que é vivido pelo animal, que da imensa potencialidade que atravessa o humano.
A sexualidade está no corpo, na carne, na pele, no imaginário, na fantasia, na emoção, na sensibilidade, na estética, no espírito, na poética, no outro, na existência. No fundo, há mais sexo no imaginário, que nos genitais das pessoas. A maior barreira sexual é, em qualquer idade, a mordaça que se coloca na voz do coração. A felicidade não mora em nenhum recanto específico do nosso corpo, nem em nenhuma performance conseguida. A sexualidade amadurecida não se detém no terreno das necessidades, mas das potencialidades e sensibilidades. Em tempos maduros, em pessoas maduras, ela é mais expressão do viver com sabor, do que afirmação e desempenho. A sexualidade não tem idade. Ela pulsa na pessoa idosa, menos pela ordem do desempenho padronizado, e mais pela liberdade de expressar-se no afeto e no sentimento, que crescem sempre, se forem nutridos.
Essa sexualidade, que aqui refiro como expressão do viver, não pode ser uma improvisação, mas fruto de uma história construída. Viver com prazer até o fim, é uma arte que se conquista ao longo da vida. É tarefa do existir. Transcrevo o depoimento de uma pessoa de 68 anos: "O namoro começa no olhar. Nós podemos namorar com os olhos, superficial ou profundamente. Pode-se ir completando com o tocar as mãos, carícias, beijinhos, daí vai chegando a profundidade, onde chegamos ao ponto máximo, que nunca deixamos de desejar. Tomar banho juntos, dormir juntos, amanhecer juntos. Ao amanhecer, sentir o calor do namorado. Beijar sua boca quente, encostar peito a peito, sentir até o coração do outro, bater dentro do nosso próprio peito. Namorar...é até voar numa nuvem terrena!!!
Leio esse depoimento como um hino à vida amorosa. É a própria expressão de um terno viver. Quem ousaria aí questionar se há desempenhos, ereções ou orgasmos? Quem negaria que isto seja vivência da sexualidade? Quem ousaria sugerir técnicas, estratégias ou pílulas para melhorar essa performance? O coração é um órgão que pode se manter erétil até o último sopro de vida.

IMPÉRIO DO FINGIMENTO - Em 15/03/2017

A visão que o público tem da realidade do mundo depende do que lhe chega pela mídia. Conforme a seleção das notícias, tal será o critério popular para distinguir o real do ilusório, o provável do improvável, o verossímil do inverossímil. Goethe foi um dos primeiros a assinalar um dos efeitos mais característicos da ascensão da mídia moderna. Dizia ele: "Assim como em Roma, além dos romanos, há uma outra população de estátuas, assim também existe, ao lado do mundo real, um outro mundo feito de alucinações, quase mais poderoso, no qual está vivendo a maioria das pessoas." Não há dúvida de que o próprio progresso da mídia, estimulando a variedade de pontos de vista, neutraliza em parte esse efeito, mas volta e meia ele aparece de novo, nas periódicas retomadas dos meios de comunicação por grupos ideologicamente orientados, que impõem sua própria fantasia gremial como a única realidade publicamente admitida. O controle da mídia por uma classe ideologicamente homogênea leva inevitavelmente a opinião popular a viver num mundo falso e a rejeitar como loucura qualquer informação que não combine com o estreito padrão de verossimilhança aprovado pelos detentores do microfone. Quem são esses detentores? Os jornalistas de esquerda continuam se fazendo de coitadinhos oprimidos pelas empresas jornalísticas. Mas o fato é que hoje nenhuma empresa jornalística, do Brasil, dos EUA ou da Europa, se aventura a tentar controlar o esquerdismo desvairado que impera nas redações. A "ocupação de espaços" pela militância esquerdista cresceu junto com o poder da própria classe jornalística, e hoje ambas, fundidas numa unidade indissolúvel, exercem sobre a opinião pública uma tirania mental que só meia dúzia de inconformados ousa desafiar. Quando esse estado de coisas dura por tempo suficiente, mesmo aqueles que o criaram já não se lembram mais de que é um produto artificial: vivem no mundo ficcional que criaram e adaptam para as dimensões dele todas as distinções entre realidade e fantasia, tornadas por sua vez pura fantasia. Assim, pois, todos já se esqueceram de que o PT e o PSDB foram essencialmente criações de um mesmo grupo de intelectuais esquerdistas empenhados em aplicar no Brasil o que Lenin chamava "estratégia das tesouras": a partilha do espaço político entre dois partidos de esquerda, um moderado, outro radical, de modo a eliminar toda resistência conservadora ao avanço da hegemonia esquerdista e a desviar para a esquerda o quadro inteiro das possibilidades em disputa. Tendo-se esquecido disso, interpretam o predomínio temporário da esquerda moderada, que eles próprios instauraram para fins de transição, como um efetivo império do "conservadorismo", e então se sentem - sinceramente - oprimidos e jogados para escanteio no momento mesmo em que sua estratégia triunfa por completo. Que sanidade, que instinto da realidade pode sobreviver a um tão completo e perfeito império do fingimento? Na sua corrida para o poder ilimitado, a voracidade esquerdista não se inibe de destruir, de passagem, a alma e a consciência de todo um povo.

AS MULHERES E A POLÍTICA - Em 08/03/2017

Já fiz alguns artigos homenageando o dia Internacional da Mulher, as vezes pela coincidência da data, outras antecipando a homenagem, escrevendo até sobre o feminicídio. O que comemorar? Muito, podemos dizer, se compararmos a evolução da presença feminina na sociedade como um todo. Pouco, pode-se observar, se decidirmos analisar a presença das mulheres na política em nosso estado. Apesar de alguns avanços notáveis, como o fato de hoje as mulheres poderem ocupar 30% das vagas destinadas aos partidos nas eleições – coisa que vigora para todo o País, diga-se de passagem – é difícil imaginar quando as mulheres vão poder dividir com os homens os cargos públicos, na real proporção da participação feminina na sociedade – mais de 50% do eleitorado. Basta recorrermos à ponta do lápis. Nas últimas eleições, as mulheres só conseguiram ocupar uma das 8 vagas de deputados federais do estado, com a vitória de Conceição Sampaio, temos apenas uma mulher dos vinte e quatro deputados na Assembleia Legislativa, Alessandra Campelo, e uma Senadora, Vanessa Grazziotin. Na Câmara Municipal é pior a estatística, dos quarenta e um vereadores, somente quatro são mulheres. Em alguns casos experimentamos retrocesso. Também nos cargos de relevância do Estado, ambiente propício para o surgimento de candidaturas, temos poucas mulheres exercendo cargos de direção. Nunca elegemos uma mulher prefeita de capital. Muito menos uma governadora. Sinal dos tempos? Pode ser. Os quadros políticos no Brasil, e o Amazonas não é diferente, ainda se formam, em percentual elevado, no ambiente familiar e dificilmente um pai aposta em uma mulher na vida pública se tem um filho que possa lançar primeiro. Se no próprio ambiente familiar é assim, como a sociedade vai reagir diferente? Seria o exagerado machismo o culpado por tudo isso? Novamente só um estudo sociológico para responder mas, sem sombra de dúvida, no dia em que a mulher depender menos do âmbito familiar para chegar à política, vai andar com muito mais celeridade e confiança. Exemplos em outros Estados já se tem de sobra e no mundo eles se multiplicam a cada dia, embora elas só comandem quatorze países no mundo. Na Alemanha, a primeira-ministra é uma mulher, Ângela Merkel, na Jamaica Portia Simpson-Miller, Michelle Bachelet comanda o Chile, Na Noruega Erna Solberg No passado tivemos Margaret Thatcher, na Inglaterra, e Indira Ghandi, na Índia. E nas últimas eleições brasileiras, uma mulher, Dilma Rousseff, afastada por impeachment. Com raras exceções, essas mulheres não aguardaram o reconhecimento familiar. Foram em frente, lutaram e venceram. Do contrário poderiam permanecer até hoje como ilustres desconhecidas. A situação no Brasil exige a criação de políticas transversais no mais alto nível da gestão pública, com instituições fortes que promovam o empoderamento das mulheres para garantir avanços e impedir retrocessos. Parabéns a todas as mulheres neste dia.

 

ROUBO E VIOLÊNCIA - Em 01/03/2017

Hoje vou abordar um tema que nos deparamos a cada dia mais presente e mais vivo em nossa sociedade: os roubos e a violência. Tomo como exemplo eu mesmo, que fui vitima dentro de um dos supermercados de Manaus, considerado o mais elitizado e talvez por isso o mais caro. No caixa para efetuar o pagamento, ao abrir a carteira deixei cair sem ver uma quantia considerável que tinha acabado de sacar do Banco, sendo visto pela caixa que uma senhora logo atrás sem  me alertar, juntou simplesmente as notas e saiu por outro lugar.
Não posso culpar a caixa até porque ela não cometeu nenhum crime, nem de omissão, pois quando sai rapidamente e voltei logo em seguida ela me disse o que aconteceu. Esse furto é fruto do desenvolvimento de uma sociedade egoísta e egocêntrica, em que é melhor tirar vantagens e usufruir essas vantagens, na teoria de que o ter é muito mais interessante que o ser e aí temos os ingredientes básicos para o início da violência.
Quero crer que devamos nos debruçar sobre o que torna um indivíduo mais agressivo do que já o é pela condição humana que tem. O homem, a despeito da faculdade de usar a razão, é um ser extremamente agressivo: é o único ser vivo capaz de matar um semelhante sem que para isto esteja em perigo ou com fome. Mais: as oportunidades de crescimento cultural são sempre restritas a pequenas elites.
A mídia e alguns políticos dão a ideia de que todos têm direito às facilidades que só são acessíveis àqueles que podem pagar por elas, esquecendo que é necessário que saibamos que somente o esforço nos permite a aquisição dos bens de consumo. Mais ainda: que na verdade poderemos ter uma vida digna mesmo sem alguns desses bens de consumo.
Ora, as mentes perversas de indivíduos que se consideram espertos a ponto de entender que obter vantagens sem esforço é muito mais importante que a dignidade da luta por metas faz com que o respeito pelo que outros conseguiram com muito trabalho seja reduzido a pó e, por isso, permitem-se o direito de surrupiá-los.
Fora aqueles que, por uma suposta boa causa política, invadem, explodem, roubam e matam: não há causa justa amparada por atos injustos. Ou somos humanos o suficiente para fazer valer nossas opiniões pelo debate aberto que permita o contra-argumento ou não merecemos a condição tão alardeada de seres racionais.
O estudo da violência exige um debate profundo e qualificado, eis que se trata de um fenômeno complexo. Em primeiro lugar, por abranger desde um simples furto praticado por um indivíduo contra outro, até o mais sanguinário atentado terrorista, não diferenciando classe social, raça, credo ou cor. Em segundo lugar, por não ter sua origem única em questões sociais, políticas ou econômicas separadamente, mas no conjunto delas, impõe-se uma análise nessas diversas áreas de conhecimento, sendo que aquele que restringir seu campo de estudo a apenas uma dessas nascentes por certo estará fadado a muito pouco fazer para a solução do problema.
A cada cidadão compete, inicialmente, compreender o tema a que estamos nos referindo, retirando-se do obscurantismo causado pela ignorância e pela alienação.
 

CARNAVAL - Em 22/02/2017

Estamos na semana do Carnaval, na verdade existem carnavais e carnavais. No Brasil, o carnaval costuma vir antes e sair depois com os seus estridores peculiares. Os ensaios pré-carnavalescos funcionam como clarinada de convocação e experimento das passarelas, dos equipamentos de som e das próprias fantasias em avant-première. Músicos e bandas ajustam os instrumentos ao timbre conveniente das ruas e salões. As autoridades vivem o seu carnaval particular de vigilantes e sagazes olheiras do que poderá acontecer a tanta multidão reunida por tanto tempo. Noutras plagas, passa o carnaval despercebido. Em inúmeros lugares do mundo exterior ao Brasil, olha-se o calendário por mero hábito ou desfastio e certo enfado. É carnaval, mas ninguém se mexe. Noutros, a movimentação corre por conta de uma tradição já esmaecida, uma como que herança dos derradeiros momentos de uma Idade Média onde um papa, inspirado pela ciência do comportamento, veio de sugerir, não, a proibição do entrudo de fezes, mas, a respectiva substituição pelo entrudo de rosas com que passaram a saudar-se os foliões. Noutros ainda, a animação da festa tem ultimamente ficado por conta de uns quantos brasileiros saudosos dos seus passados carnavais do Rio, Pernambuco e Bahia, principalmente. Na pátria dos negócios, onde tudo pode ser negociado ao sabor da vantagem econômica, como na Roma dos césares, foliões brasileiros de New York viraram carnavalescos e os carnavalescos, homens de negócio interessados mais no empresar o passista, a baiana e a mulata do que em exibir o samba-enredo e o frevo autêntico na pista de rua. Todavia, são tudo, menos carnaval, porque o barulho, por maior que seja, não substitui a harmonia, o compasso não é a mesma coisa que o ritmo, a exuberância do vestuário rico não vence a graça, as luzes não superam as cores, o entusiasmo vendido e comprado fica longe do calor humano. É tudo muito frio, em terras frígidas, tudo muito distante, em terras longínquas. Aqui, ainda os entrados na idade provecta brincam, também a sua maneira condigna. Velhinhos solfejam e cantarolam, plenos de compostura e siso, as marchinhas de antigamente. Mencionam os blocos de estimação, lembram o nome dos monstros sagrados que faziam brilharem e afamarem os típicos carnavais manauaras, recordam inspirações que parece não voltam mais. Ainda hoje, até jovens, em coro com os idosos, enchem a atmosfera de entusiasmo com a invocação de um passado que nem foi deles, cantando marchinhas que não deixam cair no esquecimento. Não deixem a sensibilidade virar indústria, não permitam que a negociação e a demagogia política infelicitem a felicidade popular. A alma dos nossos carnavais é a espontaneidade, a naturalidade com que exprime a desinibição do seu feitio natural um povo inteiro. Se, todavia, queremos matar a inspiração, tolher o entusiasmo dessa gente descontraída, proclamemos regras, escrevamos éditos, lancemos portarias e regulamentos para os futuros e certamente tristes carnavais.

 

 

INSEGURANÇA PÚBLICA - Em 15/02/2017

Nunca se falou tanto em segurança pública e nunca os resultados obtidos se mostraram tão decepcionantes. Crescem os homicídios, os assaltos, os roubos de carro, o tráfico de entorpecentes, o contrabando, os seqüestros, o medo dos cidadãos e as casas cercadas. Episódios violentos, com requintes de crueldade, são cada vez mais frequentes. A sensação da população é de que o poder público e a própria sociedade estão perdendo a batalha contra o crime. O feriadão do Carnaval está chegando e pelo que tudo indica haverá um aumento da violência no trânsito. A expansão da violência revela um indesmentível fracasso do poder público em todas as suas instâncias. Diante dessa realidade, as mensagens otimistas enviadas pelo presidente da República parecem apenas o retrato de um sonho. Já se disse reiteradamente que nossas principais cidades, no país e no Estado, exatamente onde se concentram o melhor da produção econômica, educacional e cultural, não conseguem harmonizar esses avanços de civilização com padrões decentes de convivência. É nas maiores concentrações de população que se projetam com toda sua crueldade os efeitos da íntima relação entre pobreza e violência. Relatório recente da Secretaria de Desenvolvimento e Solidariedade da prefeitura de São Paulo revela em números essa relação: quanto maior o crescimento de número de chefes de família pobres num distrito, maior a chance de essa região conviver com o aumento de mortes violentas. Situação oposta ocorre em áreas onde houve redução da pobreza. A deterioração das condições de vida das áreas urbanas, especialmente no que diz respeito à segurança, está impondo à sociedade um toque de recolher às avessas, vigiado nas ruas pelos agentes da delinquência. O crime organizado, que já assumiu a condição de um poder dentro do poder, age com a liberdade que lhe dá o fato de não precisar respeitar a lei nem submeter-se ao controle público. Não precisa promover concurso para admissão de pessoal, nem licitações para a compra de carros e armas, não se submete a prestações de contas e nem obedece a normas éticas. Contra esse inimigo cada vez mais poderoso, que corrói o tecido social, é fundamental que o poder público retome a capacidade de governar e devolva a confiança aos cidadãos. Embora a competência da segurança pública seja dos Estados e caiba a eles a responsabilidade primeira e maior com sua prevenção e repressão, está claro que a tarefa tem dimensão nacional e laços internacionais, exigindo uma ação que englobe essas características. Quando falecem as garantias individuais, crescem de forma perigosa as chamadas empresas de segurança privada , que hoje comandam 1,5 milhão de guardas armados, enquanto o contingente das polícias públicas congrega apenas 700 mil homens em todo o País. Ou o governo toma providências urgentes para restaurar a confiança da população ou em pouco tempo seremos uma Nação desprezada pelos investidores estrangeiros, de que tanto necessita a nossa economia.

 

CARGOS EM COMISSÃO - Em 08/02/2017

Parece piada caros leitores, mas não é, em meados de 2003 foi solicitado a um determinado político até hoje militando, uma colocação no serviço público para um parente. O requerente após ouvir os valores dos cargos oferecidos fica espantado com os valores e a generosidade: os cargos oferecidos tinham vencimento alto demais para o que ele pedia. Pleiteou então, algo mais simples, de remuneração mais apoucada, que desse para uma subsistência mediana ao parente, foi quando ouviu do benfazejo padrinho a resposta: Valores menores que esse, só através de concurso. Cabe dizer, escusado o lugar comum: seria cômico se não fosse trágico. Muito para além de mero gracejo, o caso revela intenção e mensagem mais sérias. De fato, a estória põe a nu uma das mazelas da administração pública brasileira: o descaso com o funcionário público de carreira e, mais especificamente, a proliferação dos chamados cargos em comissão ou de confiança. O mal, vê-se, é antigo e persiste na contramão dos avanços institucionais que preconizam e consagram, desde o nível constitucional, o sistema de mérito e a desejada neutralidade da administração pública. Sem abolir a nomeação baseada na confiança, reconhecidamente tida como necessária, a Constituição, a partir da E/C nº 19/98, estabeleceu nítidos e incontornáveis limites à criação legal dos cargos de confiança, que, desde então, e por força do art. 37, V, da lei fundamental, destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e assessoramento. Em outros dizeres, cargos essencialmente técnicos, científicos, e de funções predominantemente executivas ou materiais não podem ser criados com a natureza comissionada. Assim já entendia o Supremo Tribunal Federal, antes mesmo da alteração da lei maior. A mesma norma constitucional estabelece que os cargos em comissão devem ser preenchidos preferencialmente por servidores de carreira nas condições e percentuais mínimos previstos em lei. O mandamento, ainda que superficialmente modificado, está presente no texto constitucional, desde sua promulgação, em 1988. A inércia do legislador e uma distorcida visão de conveniência administrativa impedem que a mencionada lei seja editada na maior parte das entidades federativas, mantendo-se morta a letra da Constituição. Se a restrição quanto ao conteúdo do cargo em comissão constitui um avanço ainda não inteiramente assimilado é preciso ver que a investidura no cargo de confiança também se submete a limites. Não há dúvida de que a nomeação de pessoas sem aptidão para o exercício de funções públicas ou que simplesmente não as exercem, como mero presente pessoal, encerra desvio de finalidade que igualmente fere a Constituição. Trata-se de vício que se expõe, entre outros, ao controle do Poder Judiciário. A consciência desses limites é, entre outras correções demandas pelo serviço público, a ferramenta necessária para fugirmos do conhecido atalho que conduz ao clientelismo, ao favoritismo, ao patrimonialismo, ao nepotismo, e a outros ismos que insistem em barrar o aperfeiçoamento da administração pública no País. 

 

ELCY BARROSO - Em 01/02/2017

A vida também entardece. Inevitavelmente caminhamos todos nessa direção, e, como o sol, nos guardaremos no manto da noite. A sombra que avança para a noite nos dá notícia do tempo; do tempo que passou e do tempo que está aí, diante de nós. Descobrir esse tempo tem algo de medo, mas também de parto, de nascimento. É no tempo que dispomos que teremos de construir sentido para nosso estar-no-mundo. Não importa quanto tempo teremos, importa torná-lo precioso. Isso se faz renascendo em direções cada vez mais humanizadas e significativas. O pôr do sol tem cheiro de saudade, sim, mas é um privilégio ter do que sentir saudade. Fica eternizado em nossa memória, aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir.

Todo esse preambulo é para falar da partida do meu amigo José Elcy Barroso Braga para a eternidade. Depois de muito lutar pela sua sobrevivência aqui na Terra, partiu para habitar um novo ecossistema, o ecossistema dos céus. Elcy fez legítima uma máxima do poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz que dizia: “Diz-me como morreste e te direi quem és. Se não morrermos como vivemos é porque realmente não foi nossa a vida que vivemos”. Elcy deixa, com sua vida digna, e com sua maneira corajosa de morrer, uma prova de como a morte é uma extensão da vida. Se foi uma vida de lutas e de coragem será, também, uma morte com luta e coragem. A sua, assim o foi.

Estou convencido de que o meu amigo Elcy foi um destes exemplos de pertinência que atravessa épocas distintas e contempla diferentes concepções de mundo. Elcy vinha lutando, há dez meses, com a doença que o levou à morte neste último dia 27 de Janeiro. Mesmo neste período não se deixou abater. Na verdade sua morte aconteceu de forma coerente com a vida que levou. Uma vida de luta e de resistência aos autoritarismos de ação e de pensamento. Foi um intransigente lutador da liberdade. Um crítico permanente das injustiças sociais de toda ordem sem cair, no entanto, na armadilha do discurso fácil e oportunista, tão em voga hoje em dia, tanto de intelectuais de seriedade duvidosa quanto de políticos demagógicos e oportunistas.

La Rochefoucaudt disse certa vez que para o sol e para a morte os homens não conseguiam olhar de frente. Querido Elcy, você agora é também mais uma estrela. Um sol. Não poderemos, portanto, olhá-lo de frente. Porém, por força de suas idéias, talvez, possamos olhar para um mundo melhor. Há momentos em que nos sentimos tão frágeis que procuramos amparo e braços fortes de alguém que nos proteja. Tantos adjetivos...

A noite de sexta-feira ficará marcada nas vidas de muitos amazonenses e não amazonenses que tinham em comum, acima de qualquer comunhão objetiva, o respeito e a admiração por José Elcy Barroso Braga. Somos uma legião de admiradores que tiveram a honra de conviver com ele. Nós, os privilegiados por poder durante muitos anos conviver e aprender com ele, neste momento sentimo-nos impotentes. Incapazes de compreender a justiça divina, que nos priva de um homem para quem os adjetivos de nossa língua dizem pouco. Um homem admirável por ser “decente” e nessa palavra se pretende reunir um universo de predicados que a ele pretendemos atribuir: homem de palavra, confiável, verdadeiro, honesto, equilibrado, corajoso, transparente.

 

DOM QUIXOTE - Em 25/01/2017

Este ano, o mundo vai comemorar os quatrocentos e doze anos de vida de um dos monumentos da literatura universal: Dom Quixote. Ontem, como hoje, a obra seminal de Miguel de Cervantes Saavedra continua tendo o selo eterno dos valores modernos.

Ao escrever Dom Quixote, pretendia ridicularizar os livros de cavalaria, que eram muito populares na sua época, por narrarem histórias fantásticas cheias de realce e pompa na ação dos personagens. Assim, em seu livro, o personagem principal é um nobre que enlouqueceu porque lia sem parar esses romances, e que passou a querer imitar seus heróis preferidos.

Amadis de Gaula , Diana , La Araucana e Orlando Furioso são alguns desses livros citados por Cervantes como pertencentes à biblioteca de Dom Quixote. Assim, mais do que nunca, estão vivos o Cavaleiro da Triste Figura e o seu fiel escudeiro Sancho Pança, ensinando a arte de viver e ver o mundo.

Lembro-me bem quando meu pai trouxe-me o livro, comprado, se não estou enganado, na Livraria Acadêmica da Henrique Martins.  À época, devo, proustianamente recordar, eu era estudante, do curso ginasial, do Instituto de Educação do Amazonas, sob o comando sério, austero e didaticamente correto da professora Lila Borges de Sá e de sua fiel escudeira a bedel Valentina.

Relendo-o agora, eu me acosto à interpretação feita por Luiz Paulo Horta, quando observa, de forma elegante e nostálgica, que, "com a cabeça virada pelos romances de cavalaria, Dom Quixote, um arruinado fidalgo espanhol da província de La Mancha, saiu um dia pelo mundo a desfazer agravos e injustiças, montado no seu esquelético Rocinante.

A seu lado, enganchado num burro, Sancho Pança era a voz do bom senso; e o melhor do livro (comovente, até) é o modo como os dois vão conversando pelas serras e estradas da Espanha, trocando maneiras de ver - até que, um certo momento, Sancho tem as suas tiradas de Dom Quixote e vice-versa".

Por isso, não consigo afastar da minha cabeça a força das ideias desta magistral e sonhadora dupla. do que já conhecemos do Quixote, sem precisar sequer dar-nos ao trabalho de lê-lo, podemos concluir que possivelmente se trata de um louco, manso, mas louco.

Porém, procuremos analisar essa conclusão com algo mais de vagar. Há muitas formas de se encarar a vida e a realidade. Há aqueles que olham para a vida e não veem nada além do que seus olhos retêm. Os conselhos, a filosofia de vida, a obstinação, dão-lhe - e à obra - um toque mágico de eterna juventude.

Metáfora à parte, escrito há mais de quatrocentos anos, o texto é de uma teimosa realidade. Sem dúvida, psicografado para os tempos da cibernética. Perfeita, pois, a lição do mestre Ariano Suassuna, quando ensina: "Meu clássico é "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes.

Ele é o autor do livro onde a condição humana foi melhor expressa na sua polaridade de loucura e rotina. De sonho e realidade". Agora, vou encerrar este artigo, já que Dom Quixote me convoca para, montado no seu Rocinante, viajarmos a Sousa, num passeio sentimental ao poético mundo das saudades. Que não acabam nunca. Como Dom Quixote e Sancho Pança.

A herança de Dom Quixote é tão forte que existe até um adjetivo – quixotesco – para se referir aos homens que, como o cavaleiro, são extremamente idealistas.

 

FELIZ ANO NOVO - Em 18/01/2017

Embora dezoito dias atrasado, escrevendo sobre os problemas carcerários do inicio do ano, escrevo o presente desejando Feliz Ano Novo. Feliz Ano Novo aos que acordaram em 2017 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.

Feliz ano a quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes aqueles que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; generosos, ousam a humildade.

Ano Novo a todos que despertam ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.

Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio; a vida é dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.

Novo seja o ano àqueles que nunca maldizem e possuem a própria língua, poupam palavras e semeiam fragrâncias nas veredas dos sentimentos.

Seja também feliz o ano de quem guarda-se no olhar e, se tropeça, não cai no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.

Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, carro e amor; viver é graça a quem acaricia suas rugas e trata seus limites como cerca florida de choupana de montanhês.

Feliz Ano Novo aos órfãos de Deus e de esperanças, e aos mendigos com vergonha de pedir; aos cavaleiros da noite e às damas que jamais provaram do leite que carregam em seus seios.

Felizes sejam, neste ano, os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vantagens; aqueles que nada temem, exceto o olhar súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que não lhes querem.

Felizes sejam também as mulheres que se matam de amor, e de dor por quem não merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências e para quem não conspira contra a vida alheia.

Feliz Ano Novo para quem coleciona utopias, faz de suas mãos arado e, com o próprio sangue, rega as sementes que cultiva.

Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a idade alvíssaras de emoções férteis.

Um ano feliz aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a morte sem estranheza e brincam com a criança que os habita.

Um Ano Novo muito feliz a todos nós que juramos sequestrar os vícios que carregamos e não pagar o resgate da dependência; o futuro nos fará magros por comer menos; saudáveis, por fumar oxigênio; solidários, por partilhar dons e bens.

Feliz 2017 ao Brasil que circunscreve a geografia do paraíso terrestre, sem terremotos, tufões, furacões, maremotos, desertos, vulcões, geleiras, tornados, neves e montanhas inabitáveis.

Conceda-nos Deus a bênção de tantos dons, livres de políticos que constroem para si o céu na Terra com a matéria-prima do inferno coletivo.

 

 

OS PREFEITOS E A LEI - Em 11/01/2017

Não se fez ainda a conta de quantos novos prefeitos se declaram aborrecidos com a situação que encontraram, nas prefeituras a que tiveram acesso pelo voto popular. Isto quer dizer que os edis substituídos provavelmente não andaram bem das pernas, ao fechar o ano de 2016, último da respectiva administração. Houve um caso que se terá passado em meio às brumas da alta política nacional: certa prefeita, com aval de cima, negociou com o novo edil uma fórmula pela qual se acordava deixar determinado pagamento para a nova administração. Houve, é claro, um pacto de silêncio, porém, a Imprensa arranjou meios de inteirar-se do assunto nos devidos pormenores. Do descobrimento da Imprensa resultam perguntas indeclináveis: e a Lei da Responsabilidade Fiscal? Como fica o cumprimento da Lei?
Se o prefeito substituto aceita o encargo de pagar dívida do antecessor, contrariando a letra e o espírito da benéfica legislação, qual vai ser o pensamento do competente Tribunal de contas, ao qual incumbe a defesa do direito público instituído, e qual a maneira como analisará o episódio os procuradores públicos? Se a moda de negociar a passagem de débito for julgada obra-prima do bom senso administrativo, não haverá outra caminho para as altas autoridades da República que endurecer os pertinentes dispositivos ultrapassados da Lei da Responsabilidade Fiscal, ou omitirem-se por completo, deixando que se faça tábula rasa dos saudáveis dispositivos legais contornados pela manobra.
Imagine-se que muitos prefeitos novos, imagine-se que a totalidade dos novos edis aceite o trato com o antecessor, para responder por suas dívidas, pequenas ou grandes, não importa. Aí, será o caso de indagar em que país estamos, no qual uma manobra sibilina de bastidores tem a força e o poder de anular legislação elaborada e sancionada por quem de direito. A posição da cidadania que, de certa maneira frustrada, acompanhou pela Imprensa o desenrolar dos fatos aqui mencionados, é de expectativa. Não pode ser outra.
É esperar que órgãos e entidades encarregados de fiscalizar o cumprimento e eventual descumprimento da lei se manifestem na defesa, é claro, da plena vigência das normas que atestam a existência entre nós, do Estado de Direito com todas as respectivas implicações. Não nos preocupa, apenas, isto, a possibilidade de negociação entre prefeitos que saem e prefeitos que entram. Preocupa-nos por igual que tenha aparecido tão avultado número de novos prefeitos queixosos do que haverão de ter encontrado nas Prefeituras. Os indícios são de que teriam encontrado, não, propriamente, um serviço público bem ordenado e em pleno funcionamento, mas situações de terra arrasada por todos os lados, a começar pelo estratégico caixa.
O último ano de cada administração municipal não pode ser aquele no qual o prefeito se habitua a acionar petardos contra os bons princípios que regem a condução dos negócios públicos. A presunção da cidadania é que no primeiro e no último exercício do mandato, todos os dias sem exceção, os prefeitos - e toda autoridade pública investida do munus de cuidar do bem público - se portarão dominados pelo zelo e o cuidado do bom administrador. As reclamações, queixas e protestos que se divulgam a cada momento, ao que tudo indica, estão a sugerir a prática de desmandos sem conta em que pese a vigência da lei aqui mencionada. Necessário verificar, e verificar a fundo.

 

REBELIÃO ANUNCIADA - Em  04/01/2017

Confesso que não sou adepto a pena de morte, mas tenho absoluta certeza que dos sessenta homens que morreram na rebelião do Compaj (dizem que foi muito mais), não existe nenhum homem de bem, hoje, cada vez mais estimulados pelo abastardamento da repressão penal neste país e por esse humanitarismo piegas, este sim hipócrita, que está sempre de prontidão quando se trata de outorgar benefícios a delinquentes, mas em estado de letargia diante das súplicas de suas vítimas e familiares.
É muito fácil teorizar com a dor alheia, sem nenhum apego à dura realidade de nossos dias, salpicada de dor, lágrimas, orfandade e desesperança. O que mais vemos e ouvimos hoje, como se vivêssemos no país dos sonhos, é criminosos sendo chamados de "excluídos", circunstâncias agravantes da pena sendo interpretadas como atenuantes, legisladores esbanjando favores a criminosos, sentenciados recebendo benefícios ao arrepio da lei e, o que é pior, pessoas pobres sendo estigmatizadas como criminosos em potencial, num lamentável lombrosianismo socioeconômico retardatário.
Dizer que marginais não têm direitos em nosso país é outra alienação. Os traficantes de drogas, por exemplo, têm tantos direitos que são praticamente imunes à repressão penal e constituem um poder paralelo em muitas capitais brasileiras, impondo sua lei aos homens de bem. Vivemos uma perigosa farra garantista, que ainda vai nos custar caro, pelo retorno à vingança privada.
Por tudo isso, para mim, toda ação policial, mesmo se resultar em morte, é, em princípio, legítima. Ou será que o princípio da presunção de inocência e o direito à legítima defesa própria ou de terceiro não existem para o policial? O ideal seria que o crime não existisse. Não é assim. Ele estará no meio social enquanto houver convivência humana. Para uma eficaz prevenção ao crime, sem dúvida, necessita-se de uma policia ostensiva aparelhada, treinada, motivada e acima de tudo disciplinada, que imponha respeito e obediência, alimentada de credibilidade e sensatez.
Nota-se clara tendência de responsabilizar, isoladamente, os órgãos estaduais encarregados de prevenir, reprimir e retribuir (no sentido de punir) pelo aumento dos índices de violência e criminalidade. As razões vão desde o entendimento simplista da questão até o pavor, a revolta e os interesses políticos. É necessário lembrar, no entanto, que esses órgãos estaduais, em específico as Secretarias de Segurança, abordam a questão, sempre e necessariamente – ante a estrutura do poder – a partir das suas consequências, não de suas causas. Estão, portanto, sempre tentando “apagar o incêndio”, o que não constitui novidade. Também, parece indispensável não esquecer que o maior gerador da violência e da criminalidade é o próprio Estado, através de muitos de seus agentes. Fala-se na impunidade dos crimes como uma das causas; a superlotação dos presídios como outra das causas; a ausência de um sistema penal mais efetivo e mais incisivo; o desmantelamento das polícias, enfim, uma infinidade de causas que passam longe do ato violento, já praticado.

 

QUE CHEGE LOGO 2017 -Em 28/12/2017

Preferiria falar do amanhã que fosse a expressão libertária do viver, da fraternidade da convivência, do direito à divergência. Preferiria dizer de um amanhã em que não houvesse o medo, a angústia e a incerteza. Mas, para que esse amanhã se faça é preciso falar no ontem, e esse ontem foi 2016 cheio de incertezas.

A três dias do ultimo dia do ano- por mais formal, convencionalizado, artificial e ritualizado que sejam os conteúdos mutantes da passagem de um número (2016) para outro (2017) - torna-se difícil não cair na tentação de se fazer ou um balanço do ano que se passou (retrospectiva) ou fazer especulações e avaliar expectativas para o ano que vai entrar (perspectiva). Ou, realizar as duas experiências.

Caio hoje nesta tentação - na segunda, exclusivamente, as perspectivas. Não tenho vocação de plantonista de conjunturas ou de inventariante de contingências. E não jogo búzios ou faço mapas de astros nem visito oráculos ou terreiros. Também nunca experimentei tarô, coisa muito chique em gente universitária. Em compensação, 2017 é um número esteticamente mais agradável, tanto gráfica como sonoramente. Mais agradável do que o duro e o péssimo 2016.

Apenas vou escutar às portas e sentir a agitação do ano que começa domingo. Penso que 2017 vai ser ano muito complicado.  Com a dose dupla do Trump, como vai se encaminhar o Iraque? Ou não vai se encaminhar - o que é o mais provável. E o Vladimir Putin, como irá se comportar com as conturbadas estocadas de Trump? E os movimentos antiglobalização irão se desmiliguir de vez?

E por falar em desmiliguir o governo Temer vai "amarelar" até que ponto? Vão ter início os prólogos para a sucessão presidencial de 2018. Geralmente este é um período que vulnerabiliza as boas intenções de políticas do governo e pode complicar os comandos deste ano de mandato do grupo de Temer. Lula certamente vai voltar à cena, mas com que papel?

Mas o principal a olhar, se possuíssemos uma bola de cristal, será para as grandes corporações transnacionais, sentindo o que elas planejam para as economias para o ano de 2017. E isso que pesa na verdade Que taxa de lucratividade elas vão desejar estabelecer como meta? Repito: é isto o que vai importar. O resto ... , o resto é a nossa preciosa vidinha provinciana cercada de barulhos por todos os lados.

Foi pensando na qualidade desta nossa vidinha que votei em candidatos para prefeito e vereador explicitamente atentos e ocupados (preocupado sou eu) em melhorar nossa cidade e influir no processo de civilização da nossa região metropolitana, principalmente melhorar Manaus.

Domingo estas pessoas a quem foram dados muitos votos, irão ser empossadas e devem começar a trabalhar. E nos, cidadãos, precisamos cooperar com eles, propondo boas realizações sociais para 2017 e para o futuro. Futuro que nos tire desta medíocre modernização periférica, neste mundo marcado pela hierarquia estacionária de desenvolvimento entre os países. Não vai ser em 2017 que esta situação vai ser resolvida.

O máximo que podemos desejar é que todos tenham um ano bem menos pior.

 

ESPÍRITO NATALINO - Em 21/12/2016

Como escreví sobre o perdão no artigo passado, entro no espirito natalino e exponho minha alegria por esta época. Nossos pensamentos e sentimentos, no dia de Natal que este ano cai no domingo, tornam-se mais sublimes, nobres e profundos. Os ambientes são coloridos de flores e pisca-piscas. Fogos de artifício, dos mais variados, enchem os céus de glória. 

Tudo canta de alegria! O exterior parece traduzir uma linguagem interna de bons desejos. Os profetas, porém, alertam: "Talvez seja no Natal que nossas carências ficam mais expostas. Damos presentes sem nos dar, recebemos sem acolher, brindamos sem perdoar, abraçamos sem afeto, damos à mercadoria um valor que nem sempre reconhecemos nas pessoas" (Frei Betto, Folha de São Paulo, 24/12/97). 

É preciso celebrar hoje não apenas 25 de dezembro, mas o Natal do Senhor. Por isso, não tem sentido colocar o presépio no local de convívio, se não há um ambiente acolhedor, uma família construída. Terá valor a árvore natalina, ornada de enfeites, luzes e bolinhas, sem o ser humano ser revestido de sua dignidade? Que significado terá o banquete natalino sem preocupação com a campanha do Natal sem Fome para uma justa ceia dos 50 milhões de famintos brasileiros? De que adianta a figura ilustrativa do Papai Noel trazendo brinquedos e alegria aos filhos, se os adultos não trouxerem esperança e educação às crianças e jovens? 

A estrela de Belém brilha mais quando houver luz nos corações. É difícil ser estrela... Muito mais fácil é ser cometa. É mais simples ser fraterno somente nessa época de sentimentos solidários.

Domingo é Natal não porque os sinos repicam nas igrejas, mas porque as vozes e vidas dentro delas multiplicam bênçãos. É noite santa não porque se cantará o tradicional Noite Feliz, mas porque se canta e concretiza a felicidade em cada dia do ano. 

É Natal não porque um menino nasceu há 2 mil anos, mas porque Ele renasce hoje onde o amor for vivido e celebrado. 

É Natal não porque Deus se faz novamente uma criança, mas porque permanece conosco desde aquele primeiro presépio. 

É Natal não porque nos emocionamos entoando cantigas natalinas, mas porque ajudamos aqueles que não podem cantar e se alegrar. Se Jesus nascesse em nossa época, para ser adorado, talvez tivesse que nascer num shopping, não numa estrebaria.

Existem presépios feitos com criatividade, dos mais variados materiais: de madeira, de gesso, de pano, de lata, de palha... Neste ano, chamou-me atenção um presépio feito, em uma casa humilde que visitei. Acontece que o Menino Jesus estava sem braços, que se quebraram de um ano para outro. Para utilizá-lo novamente, com os panos da manjedoura ela cobriu o corpo do menino, ocultando assim seu defeito de não ter os membros superiores. 

Então me ocorreu dizer o seguinte, na ocasião: "Esse menino está sem braços, porque precisa usar os nossos". Desejo a todos um Feliz Natal e Ano-Novo cheio de alegrias e bons projetos!

 

O PERDÃO - Em 14/12/2016

Proximidade do Natal, e o que me vem a cabeça para escrever depois de tantos anos escrevendo no dia, na vespera ou na semana do Natal este ano é a palavra Perdão. Perdoar é verbo pouco conjugado no contexto de nossa cultura narcisisticamente movida a competição, a mania de grandeza, a banalização de valores, a desconsideração da importância dos outros.

Perdoar, tornou-se babaca, valor obsoleto, coisa de gente fraca, no estilo dessa cultura tolificada pela mania de revidar, de ser vencedor, de ter que sobrepujar, de passar por cima, de destituir o outro, de ser herói. Perdoar tornou-se palavrão, coisa pejorativa, justificativa de gente sem coragem para a desforra.

Mágoas, ressentimentos são freqüentes na experiência mais guardada das pessoas. Quem já não teve seus motivos de guardar uma dor, um sentimento rebentado, uma raiva por desejos frustrados, ou até ódio por uma situação transtornada, humilhante ou injustiçada?

Eu já tive, e de quando em vez tenho uma recaída. Somos todos muito capazes sim, desses sentimentos raivosos. Eles compõem a nossa realidade humana. Contudo, é bom lembrar que nossas mágoas não resolvidas promovem sequelas muito sérias, quando as mantemos nutridas e realimentadas dentro de nós. Torna-se póssível então, uma imensa produção de destruições em nós mesmos.

A qualidade da vida interna, a saúde emocional, ficam prejudicadas nesse território amargurado, onde não sobra espaço para a alegria, a leveza, a partilha cordial, o afeto.Talvez tenhamos construído a idéia de que o perdão é uma fragilidade diante do outro que nos ofendeu. Talvez imaginemos que se trata de um fechar os olhos para a falta do outro, de desculpar seu mau comportamento ou esquecer a dor que ele nos causou.

Perdoar tem mais a ver conosco do que com o outro. O perdão nos libera do peso da raiva, da mágoa ou ressentimento que nos impedem de ficar bem. Essa é uma bagagem muito pesada para nossa saúde emocional. Se não nos livrarmos dela, adoeceremos por dentro. Neste sentido, perdoar é uma escolha que fazemos, para viver livre dos fantasmas destrutivos. Não se trata de minimizar ou negar a própria dor, os sentimentos, mas de redimensioná-los.

Quando nos impedimos de perdoar, nos impedimos também de crescer, de nos desembaraçar-nos, de sermos nós mesmos. Enquanto não perdoamos, concedemos muito poder ao outro de continuar nos afetando. Temos o direito de ficar irados quando nos maltratam, mas perdoamos para continuar a viver com qualidade. Perdoamos para ter condições de controlar nossas emoções, para preservarmos o bom senso e resgatar em nós, a experiência de paz que pode ser sentida.

Que ensaiemos portanto, passar do estado de raiva, de ódio, de intolerância, para um estado de compreensão do humano, em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio. Cabe-nos dar destino ao que somos. Cabe nos apropriarmos do que queremos ser e fazer. Perdoar é abrir mão do ódio e permitir que a vida continue.

 



FLANELINHAS - Em 07/12/2016

Sou obrigado a dirigir automóvel em vez de pedalar, porque a cidade não está à altura da civilização da bicicleta como meio de transporte seguro. Ciclista frustrado de fazer dó, motorista a contragosto, enfrento diariamente "meus flanelinhas". E olhe que no meu trabalho o carro é guardado em garagem sem flanelinhas. Mas eles existem na minha vida desde que tenho meu primeiro carro.

Detesto o serviço impingido, mas os trato com bom humor e cortesia. Bom dia, boa tarde, até logo. Se, nos coquetéis da vida, cumprimento educadamente certos super-assalariados de reputação duvidosa, como não ser cortês também com sub-empregados de reputação inequívoca - artistas da sobrevivência, na farsa do "Deixe que eu tomo conta"? O primeiro sustenta a família há trinta anos, como "guardador" de carros. A segunda, corre pra lá e pra cá, de gorro, suarenta e prestativa. O terceiro, jovem, sorridente e desdentado, além de "administrar" as vagas do quarteirão, presta serviços de lavagem de carro, com água semi-límpida e molambo semi-limpo - como diria seu hipotético marqueteiro. A quarta, de cabelos brancos, estende o papelão sobre o pára-brisa do meu carro e recolhe na pochete encardida o meu CPVE - contribuição permanente de vagas de estacionamento.

A ocupação tornou-se unissex. Com meu quinto flanelinha, mantenho um relacionamento diplomático antigo, fornecendo-lhe, além do real de praxe, o trocado do peixe - na Semana Santa, do milho - no São João, e as "festas" de Natal. É um bom rapaz. Atua na Rua do Comercio no Parque 10, descola um almoço por semana e se faz de protetor, acompanhando  quarteirão afora, quando me encontra: Pidão em demasia, cobra sistematicamente presentes e itens de consumo. Quando posso, me escondo dele, indo estacionar bem longe. Mas aí, um concorrente seu encosta. Troquei seis por meia dúzia, ao voltar, pois geralmente somem depois de embolsar o trocado. Surpresos, agradecem e se desdobram na gesticulação do pretenso serviço de guardador e "peru" de manobra.

Na chegada, pergunto: "É você, o dono do pedaço?" ou "Esta calçada é a sua?". Respondem que sim. Sempre que possível, vou a pé a banco, xerox, levar coisas para consertar, almoço com amigos. Sem carro, livro-me de encenar a interação forçada com os flanelinhas onipresentes, escapo de ouvir, a cada estacionamento, os bordões: "pode deixar, doutor" e "tio". A pé, descanso um pouco da cobrança injusta dessa prestação adicional da dívida social que não contraí, com esses cidadãos desprotegidos, pelos quais já pago muitos impostos.

Agrada-me caminhar em vez de dirigir carro e assim, poder usar a rua sem o assédio de flanelinhas. Mas com muito cuidado para não tropeçar nas calçadas desniveladas, esburacadas e decoradas com titica de cachorro - outras imposições de uma sociedade destrambelhada. As reclamações ficam por conta daqueles que sem a autorização do proprietário ou motorista, jogam agua e começam a limpar o para brisa do carro sem o menor consentimento.

 

 

DESVIO DE ROTA - Em 30/11/2016

No final da semana, zapeando os canais de televisão, parei em um, em que uma atriz de cinema pornográfico contava que que protagonizou uma, digamos, façanha. Como semifinalista da I Maratona Internacional de Sexo, realizada na Europa, com disputas ao vivo, a entrevistada praticou sexo com 633 homens durante oito horas ininterruptas. Isto significa 80 cópulas por hora ou, em um cálculo mais minucioso, uma a cada 1 minuto e três segundo - o que confere aos "atores" envolvidos, pela rapidez, desempenho sexual digno daqueles graciosos animais orelhudos tão lembrados na Páscoa.

Bonita, 25 anos de idade, a atriz respondeu às perguntas com extrema naturalidade, mesmo às mais corriqueiras, como a se fora preciso usar gelo na cidadela após tantas horas sob os ataques de aríetes apressados. Parte do corpo de entrevistadores, duas jovens nitidamente curiosas insistiam em perguntar se, em algum momento, a atriz atingira o clímax e, mais, como poderia ocorrer tudo aquilo sem envolvimento, sem amor.

Talvez desinteressadas das coisas do cotidiano brasileiro, não se deram conta de que 633 cópulas em 8 horas não significam uma proeza. Afinal, os poderosos da República - figuras de proa do Executivo, do Legislativo e do Judiciário - impõem a mais de 200 milhões de brasileiros, 24 horas por dia, 365 dias por ano - ainda bem que só como metáfora -, o que os "atores" fizeram em parcas oito horas à atriz entrevistada. E nem por isso temos orgasmo ou somos apaixonados por eles.

O panorama estampado de corrupções, que faz o rio correr para interesses pessoais e não para interesses do Estado, nos faz pensar que os políticos desviaram a rota de seu saber e de seu dever para com o Estado. A polis, não parece mais ser a morada, o lugar seguro, confiável do cidadão, ela tornou-se o lugar incerto que desampara o homem contemporâneo.

A consciência grega era uma consciência feliz, porque os interesses do cidadão grego eram os interesses da polis, não os interesses individuais. Deslizamos historicamente para o seu avesso. A ação política com a qual se convive hoje, tem deixado de servir à polis e volta-se para o candidato eleito e os interesses do grupo que lhe dá apoio e sustentação.

Em meio à escassez de atitudes éticas, isso vai sendo lamentavelmente legitimado, tornado natural. E nós, vamos nos conformando a tais deformidades. Saramago diz que "cada um de nós é filho de suas obras". Talvez tenhamos de lembrar disso ao votar. O próximo presidente é filho de nosso voto. Temos o dever e o direito de eleger políticos "sarados", éticos, justos, transparentes, que cuidem do Estado, e não abandonem a causa do povo que governa. E quando os encontrarmos, é preciso elegê-los e apoiá-los, contribuindo para que façam jus à eleição de seus nomes.

Diante dos lances teatrais a que vem se dedicando o presidente do Congresso, urge que se reavivem mesmo alguns conceitos que de tão acacianos constrangem quem os repita. Como este: é pecado contra a inteligência e a moral confundir-se as partes com o todo. Ou, então, além disso, e por consequência, subordinar essa instituição – O Judiciário- que vitalmente carece de independência para exercer sua função judicante – a outro poder. Estão querendo nos impor uma maratona de sexo explicito no sentido figurado.

 

 

O TEMPO - Em 23/11/2016

A proximidade do Natal me faz repensar sobre cada uma das pessoas que no Natal passado estiveram neste mundo e que agora não mais estão. O tempo sempre foi uma grande preocupação para os filósofos e para os físicos, e porque não dizer para todos nós mortais.

No final do ano passado escrevi sobre o tempo absoluto, que corre permanente e dos tempos parciais que dentro dele se desenvolvem. Neste é que se verificam os acontecimentos que nos marcam, o nascimento, a morte e todos os fatos que se localizam entre estes dois extremos.

Este ano, concentrarei a atenção sobre o último aspecto: o tempo enquanto medida dos fenômenos da vida. O homem, como toda matéria viva, tem um ciclo biológico limitado. Nasce, desenvolve e extingue-se necessariamente. Porém mostra-se fundamentalmente diverso dos demais seres vivos porque tem conhecimento de si próprio. Nele se forma a matéria pensante que permite lhe permitir compreender a existência que em seu corpo se desenvolve e o universo em que se encontra situado.

Schopenhauer dizia que a vida é o momento fugaz da consciência, ou seja, o passageiro instante em que homem percebe o mistério de onde veio e o mistério para onde vai. Dois pontos de interrogação para os quais a ciência e a filosofia não encontraram ainda uma resposta satisfatória.

O fato é que o homem enquanto organismo vivo, tem o pesado fardo de conduzir a existência. Primeiro, são as exigências naturais: a necessidade de cuidar da saúde e de preservar as aptidões que a natureza lhe deu. Como não é um ser isolado, vive com os demais. E aqui começa uma outra categoria de problemas que a organização social necessariamente envolve: a sobrevivência, a profissão, a participação política, a organização do Estado e das instituições.

Esta sucessão de fatos naturais e humanos que se entrecruzam é um fluir contínuo que nossas mentes vão dividindo em tempos parciais. Contamos os dias, os meses, os anos, os séculos e neles mergulhamos a experiência de cada um de nós, erigindo as diversas culturas e civilizações. Alimentamos sempre a esperança de que, após o decurso de uma destas unidades de tempo, a existência melhore e o ser humano se engrandeça.

Não poderia ser diferente porque não é possível viver sem esperança. Nem que seja para olhar no horizonte azulado o nascimento de um novo dia, mesmo sabendo que ele se juntará aos outros na eterna cadeia do tempo perene e interminável. Incerto e cheio de dúvidas é o porto aonde chegaremos na viagem que todos temos de fazer e terminar. Para os racionalistas, este porto é a extinção de tudo.

Para os que têm fé, ele é o começo da vida definitiva. Mas a ambos falecem elementos objetivos para comprovar a certeza das duas expectativas. Enquanto isto, o barco desliza inexoravelmente pela superfície da existência, navegando para o destino final, cuja hora a ninguém é dado saber.

Diante de tantas incertezas vale a pena viver? Terá um sentido maior a vida humana, além das dificuldades por que todos temos de passar? Não é fácil a resposta e sobre ela se interrogam e sempre se interrogam os filósofos de todos os tempos e escolas. A razão e a fé jamais deram uma resposta a estas inquietações que satisfizesse a todos os mortais.

EDUCAÇÃO E EMPREGO - Em 16/11/2016

Volta e meia, talvez pela minha outra profissão de professor, lembro de abordar assuntos referentes à área educacional, preocupante sem dúvida nos dias de hoje. É crescente a preocupação entre o processo educacional e a sua relação com o mercado de trabalho. A escola, na expectativa das famílias, sendo vista como espécie de "elevador social", através do qual, pelo conhecimento, se ganharia lastro ao emprego e à empregabilidade.
Dentre as escolas que se preocupam com a qualidade dos seus serviços - é lamentável as que, por escassas condições, umas, por inaptidão, outras, - não praticam, com excelência, o ensino-aprendizagem, mormente quando o conhecimento, nesta era pós-industrial, é a mola propulsora da formação. Nessa escola de qualidade, o aluno tem posição híbrida: é cliente e é produto. Cliente, juntamente com os professores, familiares e funcionários, no receptivo de suas vivências e convivências escolares, e nas suas expectativas, estas, todavia, no âmbito de limites que assegurem a construção do saber, e da formação ético-moral-religiosa. Produto, quando a universidade o aguarda, mais e mais, adiante, quando a sociedade o recebe como profissional a quem se impõe competência.
Porém, mais do que eficiência, também se pede comunicação, boa índole e bom caráter, versatilidade, espírito de liderança, equilíbrio emocional quase estou a desenhar o perfil desse profissional que a globalização e a tecnologia estão tecendo e suscitando. Se o profissional de há poucos anos era mais da especialização, capaz nas suas funções específicas, tão rápidos os avanços tecnológicos e a mundialização reinantes, que o mesmo já se põe noutra moldura: ao contrário dos velhos paradigmas, precisa saber de tudo um pouco. Conhecimento de idiomas e de informática, dois requisitos básicos.
Nos Estados Unidos, a Universidade de Harvard apregoa: "o profissional do futuro terá que saber muita coisa de alguma coisa e pouca coisa de muita coisa". Em síntese: tem que ser um especialista-generalista. Sabe-se que os currículos, nos diversos níveis de ensino, precisam ser revistos e adequados à realidade atual.
A nova LDB, mais flexível, espelha essa preocupação, além de mostrar caminhos competentes às avaliações pedagógicas e a continuidade dos estudos. Estudar é preciso! O professor ainda não se convenceu que o aprendizado é um potencial de todos. Nunca se demonstrou a incapacidade humana ao exercício da aprendizagem. Conhecimento mediante estudos que não podem ser interrompidos nem mesmo após as lides universitárias e pós-universitárias. Qualificação e requalificação, inclusive para que o trabalhador do futuro, de quem se espera atualização permanente, não se transforme no profissional-dinossauro, carcomido pelos avanços galopantes da tecnologia.
Que a sala de aula seja o fruto do desejo do aluno na sua sede de conhecimento. E o professor, diante do não-saber desse aluno, possa instigá-lo às perguntas e às curiosidades, para, saindo, do além-sala-de-aula, saber encontrar a viga mestra noutros ambientes do conhecimento, que, sendo de praticidade econômico-mercadológica, conforme apregoa a Unesco, esteja forjando o profissional conforme os anseios dos familiares e expectativas da sociedade como um todo.
 

PAIXÕES - Em 09/11/2016

Sou um apaixonado pela vida, por suas vicissitudes, por seus descaminhos, por seus desencontros, pelo lado árido, pelo lado doce e por sua imprevisibilidade, talvez por isso resolvi escrever sobre paixões e amor. 
Para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como. Os poetas usam a linguagem figurada, plena de metáforas para representar o amor. Tentam encontrar o seu significado através de comparações e imagens. 
Algumas pessoas podem te amar mais em um ano do que outras poderiam te amar em cinquenta anos. Algumas pessoas podem ensinar-lhe mais em um único dia do que outras durante toda a sua vida. 
Frases feitas, mas servem para falar de paixão. Mas para falar sobre o tema as palavras fogem. E apenas há ressonâncias sinalizando a eventualidade das sílabas nos lábios. Escrever sobre paixões, incluindo os jovens e nós mesmos os mais velhos, não é tarefa fácil. 
Demorei muito tempo para ter a certeza de que a paz de espírito não tem preço e que a felicidade plena nada tem a ver com vícios e/ou riquezas. O maior patrimônio que o homem constrói na vida é, sem nenhuma dúvida, o equilíbrio. Sem o equilíbrio pouco ou nada o homem fará na vida. Uma vida equilibrada pode surpreender até os mais céticos quando conseguem chegar a esse estágio. 
As paixões, são as doenças da alma, dizia René Descartes, e todos sofrem em busca de um amor perfeito que não existe. Existe sim, tesão, atração, companheirismo, admiração, lealdade, mas amor em relacionamento afetivo, não existe. Amor é algo sublime e harmonioso, bem diferente da proposta dos relacionamentos. 
Os casais se apaixonam e desapaixonam diversas vezes durante o relacionamento, pois se apaixonados ficassem muito tempo, enlouqueceriam devido à cumplicidade. Esses moços de hoje em dia, possuem visão imediatista, e acabam desperdiçando ótimas oportunidades de construir alicerces para uma vida feliz. 
Se pudesse voltar ao tempo, priorizaria infinitamente a busca do equilíbrio a qualquer outra coisa. Sabemos que  múltiplas são as tarefas bonitas que a existência proporciona a quem vive atento às intensidades do seu próprio estar-no-mundo. Cada época da vida, cada estágio vivido, anda sempre grávido de ações e emoções que, se forem percebidas e vividas, nos fazem emergir do fundo de nós mesmos. Mas, se ao contrário, elas passarem despercebidas em nosso dedilhar cotidiano, a vida perde em intensidade e encantos. 
Há sentimentos em nós que não precisam ficar claros para existir. Estão aí, precisam apenas ser contactados. Eles moram em nós como um fóssil de significação, aguardando o tempo de serem compreendidos e vividos. As vezes alguns morrem sem compreender. Na verdade todos os amores são vitais e indispensáveis. Se não, como explicar a sensação de morte, quando eles se vão? 
Mas esses amores, que quando eclodem, mudam nossos referenciais, e na alucinação de cada descoberta nos transformam outra vez em adolescentes inseguros e sonhadores, esses amores são todos condicionais.

 

FINADOS - Em 01/11/2016

Tivemos durante este ano, algumas surpresas desagradáveis com a partida de algumas pessoas muito caras, e reajo sempre pensando que em nossos dias, vivenciamos uma triste e perigosa banalização dos sentimentos. As relações são efêmeras, voláteis.
A história é um relato das relações humanas. Suas conquistas, seus triunfos, as batalhas ganhas, no relacionamento social, empresarial ou político. Mas também as batalhas perdidas. Pequenas e grandes perdas do cotidiano. As que nem são percebidas, ou nem são consideradas perdas efetivas, como, por exemplo, o próprio tempo vivido.
Por outro lado, a submissão econômica, a opressão e a irracionalidade social, sendo sempre endêmicas na história são causadoras de tantas perdas e, das mais variadas consequências. Quantos de nós trocamos por remunerações, muitas vezes irrisórias, os nossos anos mais floridos e as horas mais coloridas dos nossos dias?
As vicissitudes da própria condição humana levam os homens, de um modo geral, a se preocupar com as relações entre a felicidade e a virtude, a liberdade e a justiça, a fé e a consciência, o bem e o mal e, inserindo nesses conceitos as perdas do dia a dia. Alguém já disse que não morremos de uma vez. Morremos ao poucos, a cada dia, com o enfrentamento das pequenas decepções, desenganos, dissabores, das perdas, mesmo que banais. Um amor incompreendido.
A morte de parentes, de grandes amigos ou mesmo um mero desconhecido da via pública, vítima da belicosidade do homem dos nossos tempos. Em confronto com isso tudo e, nos entregando à passividade do silêncio, chegamos à perda maior de todas elas. A derradeira. A definitiva, como paradigma do absoluto: a nossa própria morte.
Como dizia Kafka: "Não a morte gloriosa dos deuses, dos santos ou dos heróis, mas a morte cotidiana, banal, burocrática, médico-legal". A que nos faz ficar fitando o vazio! A que não tem retorno e que, de resto, somente nos cabe o cultivo da esperança da ressurreição, muito embora sempre com o medo do incumprido.
Para George Steiner; "Todas as dicotomias que determinam a condição humana, como a vida e a morte ou a luz e as trevas, podem ser compreendidas como representações específicas, embora difusas, da dualidade absolutamente estabelecida da presença e da ausência". Já Heidegger, que era agnóstico, fez com que a consciência da morte fosse determinante para a compreensão do significado da vida. Para ele, "apenas a consciência de nossa mortalidade torna a nossa existência preciosa. Se não morrêssemos, tudo perderia o sentido. Tudo o que fazemos hoje, poderíamos deixar para amanhã".
Finalmente com o apoio e fundamento na crença religiosa, de qualquer culto que seja, nas grandes perdas há de se fazer a ligação ainda mais íntima com o Ser Superior no aguardo da passagem para a espiritualidade plena. É nessa ocasião que nos entregamos à solidão pela iminência da presença de Deus.
... e a vida continua!

 

IMPARCIALIDADE - Em 26/10/2016

Durante o período dessa eleição que termina no domingo, temos visto várias pesquisas com números totalmente diferentes, bem como jornalistas que tomam partido por este ou aquele candidato. Há quem defenda que quem trabalha na editoria de política tem que ser imparcial, na cobertura da campanha eleitoral. Defendem que o jornalista jamais pode tomar partido de político ‘A’, ‘B’ ou ‘C’. e precisa sempre trabalhar à luz da legislação eleitoral em vigor. Isso como forma de evitar transgressões às normas eleitorais vigentes e possíveis punições que a lei preveja.
Acho particularmente difícil essa posição, todos sabemos que o jornal A Critica apoia o candidato Marcelo, o Diário do Amazonas apoia o candidato Arthur, e isso é natural. Acredito sim que o bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, escapa à perspicácia do leitor médio. Daí a gravidade do dolo
Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de ranços ideológicos invencíveis, transformam um princípio irretocável num jogo de faz-de-conta.
A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à qualidade informativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva.
O pluralismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão. Certos setores da imprensa, vez por outra, têm caído nessa tentação antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando a credibilidade.
O leitor não é tonto. A verdade, cedo ou tarde, acaba se impondo. O brilho da pauta construída com os ingredientes da fraude é fogo de artifício. Não é ético e não vale a pena. Ainda não conseguimos, infelizmente, superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro clichês: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas.
Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que, há muito, deveriam ter sido banidos das reações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos. A reportagem de qualidade é sempre substantiva. O adjetivo é o adorno da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta da apuração. É importante que os responsáveis pelas redações tomem consciência dessa verdade redonda: a imparcialidade.

 

APRENDER A APRENDER - Em 19/10/2016

Em tempo de eleições, somos obrigados a ver na televisão as maiores atrocidades cometidas com nossa língua. Candidatos que se espera tenham pelo menos um razoável conhecimento da língua, deslizam e criam palavras que nada tem a ver com a realidade. Nesta época, podemos afirmar que somos expectadores de um Brasil mais justo, pois fomos espectadores de um Brasil desigual. 
Aproveitando o dia do Professor, insisto que Estudar é preciso! Mais do que isso: "aprender a aprender". O professor ainda não se convenceu que o aprendizado é um potencial de todos. Nunca se demonstrou a incapacidade humana ao exercício da aprendizagem. Impõe-se uma didática instigante. O "homo sapiens" formando o "homo tecnologicus". O aluno construindo o seu saber.
Conhecimento mediante estudos que não podem ser interrompidos nem mesmo após as lides universitárias e pós-universitárias. Qualificação e requalificação, inclusive para que o trabalhador do futuro, de quem se espera atualização permanente, não se transforme no profissional-dinossauro, carcomido pelos avanços galopantes da tecnologia.
Que a sala de aula seja o fruto do desejo do aluno na sua sede de conhecimento. E o professor, diante do não-saber desse aluno, possa instigá-lo às perguntas e às curiosidades, para, saindo, do além-sala-de-aula, saber encontrar a viga mestra noutros ambientes do conhecimento, que, sendo de praticidade econômico-mercadológica, conforme apregoa a Unesco, esteja forjando o profissional conforme os anseios dos familiares e expectativas da sociedade como um todo. 
Aproveitando o ensejo, observo que várias palavras na língua portuguesa apresentam semelhança na pronúncia ou na grafia, o que pode causar grandes confusões. Quando você decide passar um feriado num hotel, deve marcar uma estada, pois quem faz estadia é cavalo, barco ou carro...Costumo brincar ao dizer que aquele que marca uma estadia, pede trezentas gramas de mortandela em vez de trezentos gramas de mortadela.
O que dificulta ainda mais a nossa língua é a questão de Regência Verbal. Domingo passado, dia 16 de outubro (é com letra minúscula mesmo, hein!), o Fantástico apresentou uma reportagem sobre as atrocidades cometidas por muitos advogados (para muitos, adEvogados, se me permitem um erro de ortoepia). Vimos coisas como "rasões", "Meretríssimo" e "haja visto", pode? Todavia, o pior ainda estava por vir... Ao comentar tais erros, um professor da língua pátria afirmou que os bacharéis em Direito estavam "pisando na língua portuguesa", esquecendo-se de que o verbo em questão é transitivo direto. Portanto, o certo é "pisando a língua portuguesa". 
Recentemente, ao ouvir um grande jornalista da mesma emissora que o programa acima citado, fiquei certo das atrocidades linguísticas, quando noticiou: "O Secretário explicou ontem por que deixou o cargo". Se já deixou o cargo não é mais Secretário, certo? Bastava acrescentar o prefixo Ex e tudo estaria perfeito... Às vezes, o mínimo já basta. Enfim, será sempre um privilégio (e não previlégio) comentar casos como esses, pois é melhor prevenir (e não previnir) do que remediar...
 

 

POLITIKA - Em 05/10/2016

Caros leitores, como podemos acreditar que o povo aprendeu com o impeachment da Presidente, com os inúmeros casos de prisão da Lava Jato a votar? Senão vejamos, em Manaus o vereador mais votado não tem ensino fundamental, eleito pela igreja Universal, a mãe do cantor Wesley Safadão, a Dona Bill, foi eleita vice prefeita em uma cidade do Ceará, e por aí vai.

Na verdade, os grandes campeões deste primeiro turno de eleições municipais foram os votos inválidos ou ausências. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, a soma de votos nulos, brancos e abstenções superou o primeiro ou segundo colocado na disputa para prefeito em 22 capitais. É o sinal que o povo está totalmente desinteressado para outorgar mando a quem vai administrar sua cidade.

A  política tomada em significado de governo, direção e administração do poder publico, sob a forma do estado, faliu, tornou-se sem sentido, não funciona mais, O bem comum embutido na palavra logrou o fracasso. O homem não aprende muito com a história. Todos os regimes políticos tornaram-se arremedo de sua invenção grega original. Uma falácia em nome da isonomia democrática da tal politika praticada por homens sem ética, res publica em causa própria.

O estado de miséria decorre das politicas públicas: os políticos alimentam-se de pobres. O poder que emana do povo é contra o povo: com a classe política, nenhum problema é resolvido. A sacralização dos políticos resulta de sua contraditoriedade: elege-se político para nada. Pela Constituição, os políticos são legisladores. Nenhuma lei, porém, se lhes corta privilégios.

Ao longo dos séculos, política deixou de ser um valor e de ter um sentido para a vida humana. Desde a Idade do Ouro, quando os homens começaram a se organizar socialmente , á pós-modernidade, a política é responsável pelo fato de a humanidade ser infeliz. Ela opõe-se por conveniência a todos os conceitos de decência, seja pela injustiça comunitária, ou pelo lastro irrefutável da corrupção. O caos é político. A crise é política. A esculhambação é política. Todo corpo de leis reconhecido de origem política, portanto, não funciona, A política é um presente grego, além de corromper, mente, rouba, deturpa, mata e nunca muda para melhor a situação social e econômica.

É razoável questionar por que então manter-se a classe política? Quem afirma serem necessários 570 deputados. Os políticos. E se a classe política desse um tempo?  Deixasse de existir por pelo menos uma década e permitisse á sociedade se organizar em torno de um novo paradigma que não tivesse o vírus da politica nem dos políticos? Quem pode afirmar que não, se nada foi tentado? E se os políticos não fossem mais escolhidos pelo voto, mas pelo veto e durante(o longo espera-se) período de hibernação, lhes fosse imposta uma radical reciclagem que incluísse o fim de todos os seus privilégios, como salários altos, imunidade parlamentar, nepotismo, pagamento de despesas extras? Sem relevar números ao pé da letra, e se em vez de 570 fosse apenas 135, uma média de cinco por estado?

O mundo, O Brasil, está a exigir um novo modelo político. O que acontece atualmente no País, ainda que haja precedentes planetários, é indigno, mas tem de servir para promover mudanças.

 

PESQUISAS NÃO GANHAM ELEIÇÃO - Em 28/09/2016

Os dois grandes mitos das campanhas eleitorais andam juntos. O primeiro deles são as pesquisas de intenção de voto. Importante instrumento de análise política e campanha eleitoral, as pesquisas não ganham nenhuma disputa. Também não representam algum tipo de bola de cristal capaz de dizer com certeza o que acontecerá no futuro. Os analistas estão cansados de dizer que pesquisas são o que são, retratos de um momento político. Elas os influenciam e por eles são influenciadas. Fazem parte de um processo dinâmico e, por isso, são tão esperadas, mesmo muitos meses antes da eleição. O outro mito das campanhas políticas são os marqueteiros. Publicitários dedicados a fazer os programas de televisão dos candidatos. Alguns são tão ou mais venerados do que os candidatos, considerados mágicos capazes de destruir ou alavancar candidaturas. Como todo mágico, mestres em ilusionismo. A arte de mostrar e esconder, de acordo com os interesses dos candidatos. O prestígio dos marqueteiros justifica-se pelo peso que a televisão adquiriu nas campanhas eleitorais.
Num país de grandes dimensões e muitos analfabetos, a maior parte da população se informa pela televisão. É por isso que os candidatos vivem repetindo que o jogo eleitoral só vale quando começa a propaganda gratuita na televisão. É também por causa da televisão que alianças são fundamentais para alguns candidatos. Juntando-se a outra legenda, aumentam o tempo de propaganda na TV a que têm direito. Os marqueteiros, em geral, não se limitam aos programas de televisão. Palpitam em tudo, desde a roupa com a qual o candidato deve se apresentar em determinado compromisso até sobre o que pode ou não falar. Como as pesquisas de intenção de voto, os marqueteiros são instrumentos importantes de campanha. Mas não são eles que ganham as eleições, embora alguns acreditem que sim. Como não existe nenhum tipo de pesquisa para se saber por que os eleitores votaram neste ou naquele candidato, fica fácil atribuir à mágica dos marqueteiros o sucesso ou fracasso de uma eleição.
 A verdade é que a vitória de um candidato é resultado de um conjunto de coisas, como apoios políticos, propostas de governo convincentes, momento eleitoral propício e, claro, uma boa estratégia de marketing eleitoral. A supervalorização da participação dos marqueteiros deixou as campanhas mais artificiais. Nem sempre se pode fazer distinção entre as cenas melosas de uma propaganda eleitoral e uma trama de Glória Perez para a novela das 8. Ou os programas populares como Casa dos Artistas e Big Brother. Todos têm muito choro, muita música e quase nada de conteúdo. Os estrategistas que pululam em época eleitoral criam mitos, idéias falsas sem correspondente na realidade, e muitas vezes a linguagem deles influencia profundamente o grande público e daí as distorções maléficas ao regime democrático, que fica comprometido não apenas pelo jogo dos políticos, mas também pela política do jogo daqueles que confundem o eleitorado. Sexta teremos a ultima pesquisa e domingo veremos quem realmente chegou mais perto.

 

DISPUTA ELEITORAL - Em 21/09/2016

O primeiro turno da eleição para Prefeito e vereadores, ocorre em dez dias. Os brasileiros estão democraticamente envolvidos nesse clima de disputa cívica, numa demonstração de vigor das instituições políticas. Pesquisas eleitorais, debates entre candidatos, a paisagem das ruas e especialmente o programa gratuito de televisão indicam compreensivelmente o acirramento do debate e da disputa.
Uma campanha eleitoral é, por definição, um confronto de posições, de idéias, de perfis, de experiências e de projetos. Compreende-se, por isso, que no acesso dos debates os candidatos e suas alianças partidárias tentem valorizar-se e busquem colocar-se como alternativas melhores e tentem apontar os pontos vulneráveis dos adversários. Até aí, nada mais democrático nem mais compreensível. O que não é democrático, nem compreensível, nem civilizado é extrapolar os limites, baixar o nível e utilizar-se de meias verdades ou de mentiras completas nessa tentativa de buscar o voto do cidadão.
Cabe aos partidos e candidatos zelar para que essa pequena mas consistente tradição eleitoral se aprimore ainda mais. A disputa eleitoral não é o jogo do vale-tudo. E a eleição em si não é mais que a execução de uma rotina de aferição da vontade da população, construída sobre rituais rígidos para evitar que tal manifestação seja perturbada ou fraudada. Nosso aprimoramento político, que já avançou e que já permite que o país seja visto como uma democracia grande e sólida, pode e deve avançar ainda mais até converter-se num processo sem sobressaltos.
O que está em causa nesta e em qualquer eleição, por mais momentosos que sejam os problemas em debate, é singelamente a substituição ou não de autoridades legislativas e executivas. Não se trata de uma revolução, mas, ao contrário, do cumprimento das disposições constitucionais e legais que dão forma ao princípio republicano da alternância dos representantes da população à frente dos poderes do Estado. Por isso, nada justifica comportamentos que quebrem as normas estabelecidas ou que firam a urbanidade, o bom senso e até o bom gosto.
O eleitor, que amadurece a cada experiência eleitoral, saberá avaliar os candidatos e os partidos pela performance do passado e pelos projetos com os quais pretendem conduzir o futuro. Na luta cívica pela caça ao voto, vale tudo: de goles de cachaça a dois ou três almoços diários, passando pela proeza de carregar crianças, beijar quem estiver à vista, carregar agua e, sobretudo, suportar a enxurrada de pedidos dos eleitores em potencial.
Há alguns meses, eleito prefeito de uma cidade do nosso Estado, me dizia o alcaide do sofrimento que significa beber sem vontade, comer sem fome, conversar sem assunto, tudo em nome das urnas. Com o fígado brigando com a vesícula, segue o candidato em direção às urnas consciente de que seu marketing eleitoral depende de anotar todos os pedidos - que vão de tijolos a dinheiro e aval para negócios bancários. Nos pequenos municípios, mais vale uma boa promessa do que uma má resposta negando a pretensão e destruindo o sonho. A técnica é simples: rasga-se as anotações, já que candidato não é empresa financeira.

 

NOSSOS CANDIDATOS - Em 14/09/2016

Bandeiras e discursos diversos estão soltos nas ruas e bairros de Manaus, anunciando candidatos aos cargos que elegeremos no próximo mês de outubro. São bandeiras coloridas, trazem fotos, símbolos, números, quase convencem, não fosse o descrédito e a astenia da população ante o elenco de promessas descumpridas e o desamparo social que é vivido pelos cidadãos, passadas as eleições.
Carros de som apregoam o que a população não mais quer ouvir. Emissoras de rádio e TV faturam, na tentativa de operar algum milagre sobre a crença moribunda nas consciências "cidadãs". Começam os debates. E vai-se além de debate. Desvirtua-se o sentido democrático do debate que seria informar a população os projetos que cada candidato tem para administrar este País.
Envereda-se por garotices e serrilhadas de acusações, que deseducam e desrespeitam a população. Do lado de cá da tela, enquanto expectadores, teremos de acordar da sonolência crítica, para perceber o que há de consistência, sustentação e serenidade nas propostas.
Quando há projetos a expor, não há tempo a perder com ataques e contra-ataques pessoais. Campanha de solavancos e briguinhas midiáticas, não atesta seriedade de nenhum candidato. A despeito das falhas de nossos candidatos, apesar de toda dúvida que em nós se instale, das descrenças, decepções, desestímulos, preocupações futuristas, reais ou dolarizadas, teremos mesmo assim, que assumir a responsabilidade de sermos responsáveis, ao escolher um dos candidatos, como governante da cidade, e a Camara Municipal.
O povo inquieto, desorientado, desprotegido, começa a fazer derivas e buscar ajuda de supostos olhares protetores espelhados nas vidraças da cidade. Mas é com olhar crítico e pés no chão, com responsabilidade e lucidez, que deveremos eleger.
Nossos candidatos sabem (devem saber) o que é política: essa ciência dos fenômenos referentes ao Estado; essa arte de bem governar os povos, como diz o Aurélio.. Quando em nossa cultura, as coisas se invertem e os projetos de crescimento e sustentação dos indivíduos são esmagados, é possível que a força ou a violência assumam o comando de nossos destinos. Isso começa a ser uma realidade muito grave entre nós.
O panorama estampado de corrupções, que faz o rio correr para interesses pessoais e não para interesses do Estado, nos faz pensar que os políticos desviaram a rota de seu saber e de seu dever para com o Estado. A polis, não parece mais ser a morada, o lugar seguro, confiável do cidadão, ela tornou-se o lugar incerto que desampara o homem contemporâneo.
Em meio à escassez de atitudes éticas, isso vai sendo lamentavelmente legitimado, tornado natural. Temos o dever e o direito de eleger políticos éticos, justos, transparentes, que cuidem do Municipio, e não abandonem a causa do povo que governa. E quando os encontrarmos, é preciso elegê-los e apoiá-los, contribuindo para que façam jus à eleição de seus nomes. Mesmo contra a reeleição, Manaus deve continuar com o trabalho iniciado em 2013.

 

 LIÇÃO DEMOCRÁTICA - Em 07/09/2016

No dia que comemoramos além da vitória da seleção brasileira em Manaus contra a Colombia, festejamos a Indepedencia do Brasil com um dos fatos históricos mais importantes de nosso país, pois marca o fim do domínio português e a conquista da autonomia política, quero lembrar que não foi o Estado que melhorou no Brasil; a sociedade é que se transformou.
Aquela época aumentaram no Brasil as pressões e descontentamento contra o monopólio comercial imposto por Portugal ao Brasil. As elites agrária e comercial brasileira desejavam liberdade econômica para poder ampliar o comércio de seus produtos. Esta liberdade só seria obtida com a independência do país.
O tempo ensina que os governados acabam sendo melhores que os governantes. Trazendo para os dias de hoje, foi-se o tempo em que os eleitos com mandato mandavam livremente nos eleitores comandados. O campo de manobra das ações governamentais está cada vez mais estreito.
A sociedade fez conquistas políticas no campo democrático. Mesmo que o governo queira proteger seus candidatos, as estatais deixam de ser o quintal para os desmandos do poder. A agencias reguladoras não negociarão sua política de responsabilidade por um balaio de votos. Por mais que a política neoliberal não goste, O Brasil já viveu tempos de desbragado estelionato eleitoral. Podem existir ainda algumas brisas de corrupção política, mas os ventos mudaram.
A tática de transformação do povo está lentamente mudando a ética de comportamento dos governantes. São conquistas que a sociedade vai acumulando a cada eleição; são limites que o cidadão vem impondo a cada governo. É a lição democrática que só o uso sucessivo do exercício do voto pode ensinar.
O governante tem o legítimo direito que de querer fazer seu sucessor. O povo tem o inquestionável direito de impor limites às preferências governamentais. Hoje, qualquer deslize lhe será cobrado pela história e, em curtíssimo prazo, pelo implacável julgamento das urnas. Impossível, os interesses nacionais ou locais, não podem mais ser negociados na bacia das almas.
Exige-se a distinção entre ressentimentos provincianos e a grande conquista popular do controle da máquina estatal. Não há outro caminho para acertar bem do que errar muitas vezes. A sociedade vota certo quando vota muitas vezes. Os profetas do caos animam a falácia de o Brasil não tem jeito. Tem jeito sim, tem presente e tem futuro. O País tem solução porque seu povo é maior que a desesperança.
A sociedade é muito mais adulta do que a máquina cartorial do Estado montada nestes País há quinhentos anos. Esta solidez da teia social, flexível como as redes e resistentes como cabos de sustentação, forçou o Estado a ser menor e ecolher-se a seu mero papel de espectador do processo. No caso específico dessas eleições de Outubro, escolheremos os vereadores e o Prefeito de Manaus. Seja quem ganhe as eleições, já há festejado um vencedor com glória: a sociedade.

 

 NÃO SE SURPREENDA - Em 31/08/2016

Antigo, querido e ilustre amigo me liga no final da noite desta terça-feira, e eu sem um tema concreto para escrever esta semana, apesar de inúmeros fatos acontecidos, inclusive o julgamento do impeachment da presidente.
Fato histórico realmente, Mais ele não queria falar só disso, coisa de mais de quarenta minutos ao telefone. Motivo: relatar-me seu desencanto com fatos e pessoas cujos passos vem acompanhando.
Desde logo, com os estragos que a luta pelo poder causa em certas pessoas. Quase em lágrimas, me disse estar definitivamente decepcionado com a política, na qual, como tristemente recém acaba de se dar conta, tudo é possível.
Como exemplo justificativo de seu desalento, citou os noticiados entendimentos em curso entre partidos de antagônicas ideologias em troca de uma fatia de poder.
Referindo-se a pessoas, citou, vários políticos locais e nacionais. Mais o amigo verbalizou: deu ênfase especial à opinião que um candidato do PT emitiu em defesa da correção de um ex-governador amazonense.
Opinião segundo a qual nada existe contra a honorabilidade do político, eis que até aqui, por mais que tenha sido atacada nada ficou provado em tal sentido...
Evidente que concordei plenamente com tudo o que o amigo dizia, principalmente nas alianças feitas para as eleições de outubro próximo, com coligações partidárias cujos reclamos ja há alguns anos partem de diversos setores da sociedade.
Apesar das promessas, nem o governo se preocupou em encaminhar uma proposta para o Congresso nem o Congresso teve a ousadia de tomar a dianteira no processo de reformar politicamente o País.
Diante do desencanto do antigo parceiro de jornadas etílicas e procurando evitar que ele continuasse se afogando num atoleiro de pessimismo, sugeri-lhe que se tornasse sócio do clube “Nào se surpreenda”.
Explico: referido clube, fundado na mesa de bar ou cafeteria – coisa de intelectuais –, não cobra jóias, nem mensalidades, nem tem estatutos. Seus associados devem apenas assumir este compromisso: não se surpreenderem com nada que aconteça neste mundo. Cumpre apenas ficarem, se vacinarem contra todo tipo de ocorrência e comportamentos imprevistos, sejam eles quais forem. Assim, ainda quando vierem a topar com a notícia de que Eduardo Cunha foi transformado em candidato único de uma coligação de todas as correntes partidárias do Brasil. Ou que Donald Trump entrou para uma Congregação Mariana. Ou que  o papa Francisco entrou para a Escola de Samba dos Bambas da Orgia, que a Lei de Responsabilidade Fiscal é seguida fielmente inclusive pelos Tribunais, que o Prefeito do Rio ao entregar uma casa pede para que a dona trepe muito no quarto.
Tratei de consolá-lo com a lembrança de que, em se tratando de jogadas políticas, tudo se pode esperar. Não sei se consegui apaziguar o amigo com a realidade, menos ainda convencê-lo a filiar-se ao clube que serve de título deste texto. Mas fiz o que pude. Afinal, amigo é para essas coisas.

 

 

 A VIOLÊNCIA E O PODER LOCAL - Em 24/08/2016

Conheço inúmeras pessoas que foram assaltadas nos últimos tempos em Manaus e, se não tiveram algum problema mais grave, no mínimo ficaram sem o celular. Dois mil e quatrocentos anos antes de Cristo, Aristóteles afirmou: “Os homens se reúnem nas cidades por causa da segurança, permanecem juntos por causa da vida boa.”

Coitado do grande filósofo! Hoje, ressuscitado, voltaria desesperado para o túmulo diante da tragédia urbana em que foi transformada a cidade, esta notável herança deixada pela luminosa civilização grega. Resta pouco da Polis. Resta quase nada de um espaço físico capaz de abrigar a complexidade das relações sociais que congregam a convivência, o encontro, a identificação simbólica dos habitantes e a participação cívica da cidadania.

De fato, a vida nada tem de “boa”, a segurança da comunidade foi destruída pelas múltiplas faces da violência, o espaço público encolheu, as funções clássicas da cidade – habitar, trabalhar, circular e recrear – estão estruturalmente comprometidas. Se é verdade que a humanidade nasceu no campo e foi morar nas cidades, é verdade também que, de modo geral, o mundo urbano perdeu seu encanto. E perdeu por conta do fenômeno da violência, efeito devastador do crescimento disforme das cidades.

Nesse panorama, o quadro brasileiro é dramático e nele se insere Manaus, outrora musa dos poetas, hoje, objeto de uma crônica sangrenta. A questão que se põe diante de uma angústia generalizada é se há solução para um problema que gerou a sociedade do medo. Decerto não há solução mágica, mas há solução, segundo atestam as boas práticas bem-sucedidas em países ricos, emergentes e pobres.

O êxito das políticas públicas de segurança preventiva e repressiva tem, em comum, além de firme decisão política, recursos adequados, articulação institucional e integração operacional, a decisiva participação do poder local, mobilizando e envolvendo a cidadania. No Brasil, essa questão passa ao largo dos poderes locais, como se a responsabilidade de enfrentamento dessa calamidade estivesse subsumida à competência da União e, mais diretamente, à dos Estados. Não raro, uma interpretação canhestra do artigo 144 da Constituição Federal é usada para eximir a esfera municipal.

A dimensão que tomou o problema da violência urbana, torna-se imprescindível a efetiva participação dos poderes locais, em especial do Executivo e Legislativo municipal, ampliando e melhorando os espaços públicos de convivência, monitorando o funcionamento de bares e casas noturnas, criando mecanismos de mediação de conflitos de vizinhança, evitando o seu agravamento, promovendo uma cultura de paz.

Não há mais lugar para escapismo e transferência de responsabilidade, a sociedade acuada vive o clima de guerra civil, o caminho é a firme crença na força da cooperação e na capacidade transformadora do poder local. Esperamos que nas propostas dos candidatos a Prefeito nas eleições de Outubro, tenhamos algo para minimizar essa violência urbana.

 

MEU CAMINHO - Em 17/08/2016

Parece que as vezes é muito fácil escolher um tema da crônica semanal, mas a diversidade deles torna mais difícil a tarefa. Fiquei entre escrever sobre as Olimpíadas no Rio, ou sobre as coligações partidárias para as eleições em Manaus em outubro próximo, aí optei por um tema sentimental. Dentre poucas musicas que me causam emoção, uma delas é My Way, titulo em inglês da canção Comme D”habitude que foi lançada pela primeira vez pelo autor, Claude François, imortalizada por Frank Sinatra e Elvis Presley, e que teve Paul Anka que ouviu a canção durante uma emissão da televisão francesa, e adquiriu seus direitos em língua inglesa para seu estúdio de produção nos Estados Unidos. Seus acordes estão até hoje presentes para causar emoção em velhos e novos corações.

Minha geração foi embalada no romantismo despertado pela inolvidável canção. Durante os bailes sabáticos do antigo Ideal Clube ou no baile domingueiro do mingau do mesmo clube, nos deixavam impregnar pela sedução despertada nos boleros e canções em voga naquele tempo. Tenho certeza que todos os leitores que já passaram dos quarenta, ao ouvir My Way tem a musicalidade bailando na lembrança. É possível até mesmo ensaiar alguns passos de dança ao seu ritmo dolente. Quando me recordo dos bailes destinados no Clube da Aeronáutica  onde tocava Blue Bird”s, havia uma onde carimbó na cidade, face os inúmeros paraenses que frequentavam aquele local, mas ao tocar My Way, o salão enchia dos casais enamorados. Assim acontecia  no Bancrevea, no Rio Negro, no Ypiranga, nos Barés e em todos os clubes.

Como mudaram os tempos. Hoje pares rodopiam separados em musicas destituídas de harmonia ou suavidade num tempo marcado pela mais intensa liberdade sexual. Percebo, nas raras oportunidades em que compareço a festas, o efeito calmante e sedutor, quando a musica de sofrência, daquele um por cento vagabundo, é substituída por uma canção como My Way. Há imediata adaptação dos pares na aproximação dos corpos, como se estivessem tangidos pela magia do prazer. Por todas essas recordações e lembranças, despertadas pela audição hoje dessa maravilhosa musica, a preferencia da crônica semanal.

Os leitores pertencentes a geração que ouviu e curte essa musica deve ter penetrado no mundo de suas saudades para reviver um curto e breve momento de emoção. Ao contrário, se você pertence a estas nova e novíssima gerações, com  musicas belas também como dos Justin Bieber ou do Timberlake pare um instante e busque ouvir em silêncio essa imortal mistura de fox, pop, jazz, e vai sentir como seus ancestrais viveram, instantes maravilhosos. Afinal no mundo apressado de hoje, ouvir que “arrependimentos teve alguns, mas são tão poucos para mencionar, e fez o que tinha que fazer”, equivale a sentir a eternidade do amor, jamais interrompida pela voragem do tempo e a crueldade do homem.

Em suma, é melhor escrever sobre esta canção do que sobre algumas vergonhas das Olimpíadas do Rio e das confusas coligações partidárias da próxima eleição.

 

 

 

PAI DUAS VEZES - eM 10/08/2016

Tentarei neste artigo, fazer uma homenagem aos pais pela celebração no proximo domingo de seu dia. Já disse em outras oportunidades que economizamos nossos sentimentos, seja consciente ou inconscientemente. Somos levados pela maré do comodismo nos relacionamentos e arrastados pela onda do corre-corre da vida contemporânea. Ficamos inertes em palavras e gestos com aqueles que amamos, incluindo ai, infelizmente, nossos próprios pais. Por vezes, permanecemos à espera, quiçá, do dia dos pais para dar um presente, nem sempre agregado a um cartão que expresse nossos sentimentos e muito menos junto a um "Eu te amo".

Afora as derrapadas estéticas, hoje vou escrever sobre ser pai duas vezes. Certa vez encontrei o meu amigo Elcy Barroso, hoje enfermo mas se recuperando, a quem reverencio neste artigo e perguntei-lhe como estava passando. A resposta, dita com esperta ironia e após breve reticência, foi: "Vou indo... envelhecendo com a possível dignidade".

Ele já era avô, na época. Achei graça, porque eu era novo e não refletia a respeito dessas coisas. Aguns anos depois, contudo, vim a entender o Elcy.Existem aqueles que envelhecem dignamente, e aí podemos incluir os solteiros, os ainda-não-avós, os tios e os comerciantes por atacado. Os avós, esses, não apenas perdem a dignidade, mas a honra, os amigos e, se não se cuidarem, o dinheiro e a roupa do corpo. Suas ocupações, antes tão solenes e regulares, embaralham-se por completo

As crianças, quando nascem, passam à imediata órbita dos pais, e aos avós são destinadas as sobras. É algo que diz respeito ao necessário e ao supérfluo. Mas sejamos justos: o necessário, como o dormir por fragmentos, dar mamadeiras nas madrugadas, providenciar remédios a cada duas horas, fazer aviãozinho para colheradas de mingau, trocar fraldas, juntar chupetas do chão, lembrar-se das vacinas, isso é um direito sagrado e intocável dos pais. Assim foi estabelecido desde tempos remotos, e assim deve ser: não se contraria a lei natural da vida.

Quanto aos avós, eles que se contentem com o supérfluo. Até hoje ninguém perguntou por que as crianças crescem tão velozmente: ontem nos olhavam com aquela carinha desconfiada, hoje já dão gargalhadinhas, logo mais estarão comendo xis com ovo e procurando pokemon. Sabem por que isso acontece de modo tão rápido? É para que os avós tenham tempo de vê-los passar por todas as idades.

Pensando bem, até que poderia ser menos rápida essa evolução, pois os avós teriam algumas décadas de felicidades a mais. E os netos não retribuem de caso pensado a tantos afagos e dedicações: porque isso de serem bonitos, simpáticos, gordinhos, risonhos, graciosos, inteligentes, fazedores de artes, etc., é apenas da sua natureza. Ser pai e ser avô, são coisas iguais e diferentes, um filho sabe que o amor do pai vem da riqueza de valores que passou, mas ser avô, além do néto saber desses valores, diz um eu te amo não somente com a boca, mas pelo coração e sem dúvidas pela alma.

Viram só? Tentei escrever sobre os pais e acabei escrevendo sobre os pais dos pais. De qualquer forma, Feliz Dias dos Pais, mesmo para aqueles que ainda não experimentaram a sensação de ser pai duas vezes.

 

 

PROPINABRASIL - Em 27/07/2016

Fico a pensar sinceramente se não seria mais bem empregada essa dinheirama roubada do mensalão e petrolão, se construíssemos uma grande e espaçosa nave espacial bem brasileira – com substancial ajuda dos milhões de dólares afanados pelos políticos de barbinhas e de caras lisas que habitam nosso vergonhoso Congresso Nacional – e, com lotação esgotada, mandássemos uma leva considerável de corruptos para orbitar definitivamente em volta da Terra, com passagem só de ida.

A nossa poderosa nave, com propulsores de ventiladores de repartição pública, seria batizada de PropinaBRA o projeto seria nomeado Guerra das Estrelas e seu comandante Spock organizaria uma viagem bem divertida. Em solo pátrio, uma despedida monstruosa e festiva seria organizada pelo povo louco para se livrar da sua laia. Lá estariam na fila do adeus, Lula e todos os deputados cassados ou não pelas CPIs, seus protetores, a república de Ribeirão Preto comandada por Palocci, os líderes afastados ou não do PT, liderados por Genoíno, Delúbio e Silvinho, aconselhados de perto pelos seus cínicos servidores no Congresso sob a batuta dos deputados Cunha e Maranhão, além dos senadores Renan e Romero e a asquerosa Ideli Salvatti. Caladinhos no fim da fila, Dantas, Okamoto e companhia financeira limitadíssima, carregavam malas e malotes de reais, dólares e euros liberados, com um conforto fúnebre.

Com patentes em baixa, alguns membros do judiciário ainda se davam a arrogância de exigir overbooking, à frente Nelson Jobim, Vidigal e outros de menor expressão, contrariando a carteirada verde-amarela daquele general de Congonhas. Lula, brindava com uma marvada pinga sindicalista do ABC, acenava a todos que embarcavam ao lado da silente e carrancuda dama de ferro Dilma e do filho Lulinha exibindo sorriso amarelo. Pois bem, chegou o melhor do lançamento: a partida. Todos a postos! Cinco, quatro, três, dois, um, já... E lá se vão os homens conquistar o mundo lá de fora – cantaria o ministro Gil, com coreografia rebolativa e ridícula da deputada Ângela Guadagnin – para alegrar a festa.

Já pensaram o Zé Dirceu ainda cheio da vaidade e salamaleques de ex-metido primeiro ministro, todo alegrinho com as meninas contratadas na casa do caseiro Francenildo? Duda Mendonça e sua trupe de artes publicitárias ainda tentando fazer um desvio de rota para uma aterrisagem de emergência em Vênus e adquirir umas camisinhas para se proteger da aids. Uma nave de insensatos.

Bem, agora quero avisar aos navegantes, caso sobrevivam nas estratosferas, que não adianta me processar pela minha sugestão, pois já consegui um habeas-corpus no STF e não terei nada para responder. Quanto ao dinheiro arrecadado para a construção do foguete, a sobra, de jeito e maneira deverá ser depositado na poupança da Caixa, pois assim estará vulnerável para outros de colarinhos brancos e falas mansas da elite política que por aqui ficarão – evidentemente sem quebra de sigilo, pois os engravatados são sabidos demais.

OS INVISÍVEIS - Em 27/07/2016

Além das pessoas que nos tratam como invisíveis, não demonstrando as vezes o afeto e a importância que tem em nossa vida, via de regra as pessoas que se julgam importantes, não dão atenção ou importância ás pessoas de menor poder aquisitivo ou de posição na sociedade.

Já se fizeram experiências em que essas pessoas invisíveis foram substituídas por outras sem que os cidadãos ilustres e financeiramente mais bem situados, que estavam em contato casual com elas, percebessem.

Tanto faz falar com uma ou com outra, é a mesma coisa, no máximo será uma farda, ou uma função, não são vistos – o gari, o manobrista, o pequeno empregado, o zelador, o vigia, o porteiro, o vendedor do grande magazine.

Como não os veem, as pessoas importantes tendem a imaginar que esses pequeninos nem existem e aí, tranquilos, certos de sua não-existência, não hesitam em fazer e desfazer na frente deles, como se estivessem sozinhos. Põem-se a subornar, corromper, prevaricar.

Sentem-se impunes (que essas ilicitudes são de dificílima comprovação) e tramam nas sombras, sem testemunhas, sem documentos escritos, sendo, geralmente, aqueles com quem negociam muito mais cúmplices e comparsas do que vítimas. Mas aqueles pequeninos, que não são vistos, veem.

E às vezes são convocados para falar. E falam, embora sem entusiasmo e sem gosto, sem terem tido a iniciativa, como apenas cumprindo elementar obrigação.

E dão seu testemunho humilde mas firme, com absoluta segurança, apenas a verdade.

E até se assustam com a importância que seu modesto depoimento passou a ter, e se espantam com as consequências que aquelas singelas afirmações provocaram.

E desmentem as versões fantasiosas, ficções, mentiras, cinismos das pessoas importantes, dos poderosos.

E é formidável ver que o todo-poderoso da véspera, que ninguém ousava afrontar, o intocável, até mais idolatrado pela oposição do que pelos companheiros de partido, o que, impávido, se dispunha a ir ao Congresso e arrostar todas as críticas, o homem forte do governo, se desmilinguiu de repente, somente pela até atemorizada palavra do caseiro, confirmando que o viu, sim, dezenas de vezes, na casa das negociatas e das orgias, em que ele afirmara jamais haver posto o pé...

Ficará imortal a resposta do humilde motorista ao inquisidor, deputado habituado às negociatas e ao mercenarismo, que imaginou arrasá-lo com a pergunta óbvia do seu universo de cinismos e patifarias: “quer dizer que o senhor está testemunhando tudo isso somente por amor ao Brasil?” Imprevisível, fulminante, desmoralizador, o pequenino motorista deu a réplica que jamais passaria pela cabeça do grande patife, de cujo coração há muito se ausentara qualquer patriotismo: “E o senhor acha pouco?”

Outro dia, um querido amigo, horrorizado com tantos espetáculos da corrupção mais desbragada, com esses péssimos exemplos que todo dia as grandes elites dão ao País – nos Executivos, Legislativos e Judiciários – me perguntou se ainda seria possível ser otimista no Brasil de hoje. Mas como não ser?

Antes de mais nada, tudo depende de nós mesmos, tudo está nas nossas mãos. O Brasil está nas mãos de seu povo, da sociedade civil. Basta que o povo reaja e faça a sua parte, cobre honestidade dos seus representantes, fiscalize, não se conforme, não se deixe enganar pelas falsas bandeiras de moralidade, enquanto o País contar com invisíveis, que ainda o amem e achem que não é ridículo o amor à pátria, esse é um País no qual se pode ter fundadas esperanças.

 

CHEFES MEDÍOCRES - Em 20/07/2016

A escalada de importantes pigmeus dos nossos Três Poderes, corrupto e ladrões, assombra a sociedade. Eles surrupiam o tesouro nacional e, como Antônio Maria, rasgam nossa carta de cidadania e zombam da nossa capacidade de raciocinar – dão asas a uma brevíssima anarquia generalizada no País, molestando os homens de bem e formando quadrilhas de criminosos em todos os segmentos. Isso sem falar nos caixas-dois e na cobertura da turma do cartel das drogas.

Ninguém vê sequer uma atitude das autoridades policiais e, pasmem, judiciárias, de cuja cartilha de leis traduzem, pantagruélicos, os julgamentos sérios em gigantescas e já folclóricas pizzas. E, todos os dias, é a mesma cantiga da perua que afugenta a sabedoria de cada exigência da cidadania, da sociedade organizada – corrompendo os valores humanos, programando imaginárias revoluções sem sentido.

Eu creio na máxima de que somente chefes medíocres aceitam funcionários medíocres, oh! e como aceitam. Também nos partidos. Chefes inexpressivos nivelam o comportamento geral ao criarem clones obedientes entre cargos, afagos e lamentáveis sorrizinhos-24 horas. Bobos da corte. Nos partidos, também. Empresas e partidos precisam de conceitos, missões, metas. Por isso, fazem história e criam referências culturais internas e externas.

O modelo das chefias, repetido na casta privilegiada, dá o tom geral: ‘‘Incomodados que se mudem’’, pontificam em arrogância suprema.   Nas empresas, o impacto é menor pelo vínculo particular do negócio (a não ser quando usam dinheiro público em financiamento direto ou subsídios). Nos partidos, o choque, o conflito, a interlocução permanente, desabafos destemperados, discursos contraditórios, longe de significar fraqueza são sinal de imensa vitalidade.

O pessoal que rasteja pelo poder tem dobradiças servis na coluna flexível vertebral ao invés de ossos. Adula, nunca diz não, sempre é ‘‘fiel’’ ao faro oportunista. Detesta contraditórios. Busca a melancólica ‘‘paz dos cemitérios’’: harmonia é simulacro de grupo (todos concordam); satisfação é a droga letal da criatividade; estar confortável não é construir o melhor para a empresa, ou o partido, mas, o mais conveniente para o chefete imediato.

Rebeldes pagam o pacto da mediocridade. São alvos a serem queimados na fogueira da boa conduta. Uns ardem rápido, outros são voláteis por natureza; porém, a maioria assa devagar. Isolados, caem aos poucos. Nos partidos e empresas. No Brasil prevalece o estigma do partido cordeirinho (nas empresas, empregado bom é empregado calado).

Essa diferença vem sendo explorada por aquele pessoal louco para ver erros na virtude e assim respirarem aliviados: ‘‘Eles não são puros, é tudo a mesma coisa’’. Ainda bem que a vida pulsa nas contradições do caminho e incoerências naturais de quem busca, rebelde e radical por desejar as coisas pela raiz, pela essência, pela mudança estrutural. Sem medo do caos criativo. Pior é o silêncio, omisso.

 

NA DERROTA, A POLÍTICA É MADRASTA - Em 13/07/2016

Confesso que não me interessa o numero de candidatos, o que me interessa é a sequência de postulantes. Não me parece desagradável nem monótona, permanentemente animada pelo entusiasmo e postura dos candidatos, suas promessas, convicções e certezas de um trabalho sempre melhor que os outros.

Simultaneamente, vou percebendo que apesar de as figuras muito divergirem no aspecto, na idade, no visual, também no arroubo e no tom, os acenos são de uma insistência imutável, com predominância para a educação, saúde, segurança, emprego, melhoria das condições de vida, barateamento das coisas, coibição das regalias, tudo o que o povo deseja e quer.

Com o tempo vou intimamente questionando os anseios desses candidatos, a procura de um degrau a mais, uma evidência, um lugar ao sol. E começo a me apiedar de muitos que ali se expõem, desavisados e sonhadores a prometerem o extermínio da pobreza, a moradia para todos, escolas e hospitais gratuitos, uma escalada de benesses inatingíveis e impossíveis em qualquer ponto do mundo.

São principiantes de um novo ofício, alguns marinheiros de primeira viagem num esforço de atitudes e eloquências, certos de uma boa apresentação a lhes proporcionar, pelo destaque conseguido, os votos mais que necessários para o êxito infalível. Assim não acontece com os veteranos de outras pelejas, que ao curso de jornadas anteriores, e campanhas bem mais seguros, poupando-se das veredas duvidosas.

Nada mais árduo e desgastante do que uma campanha política. Uma dedicação exclusiva, tensa, e emocionada a exigir o máximo de disciplina e tolerância por parte do interessado, sempre amável e sorridente, sem qualquer tipo de desconfiança ao companheiro.

Na hora da derrota a política é a mais perversa das madrastas. Jamais vi, padecimento mais atroz, abalo mais comovente, decepção mais profunda do que um candidato na hora crucial da derrota. Homens destemidos e corajosos, veteranos de bravas lutas, companheiros enrijecidos, pelos combates e curtidos pelas refregas, desmoronam-se, aparvalhados, como noviços. O ser todo alquebra-se de uma feita.

Pensando no barco do balatau ( aquele que leva perdedores depois das eleições para darem um passeio de 04 anos pelos rios da Amazônia) o semblante do candidato envelhece em segundos, os olhos se apequenam, lacrimosos, a face é lívida, cor de cera, os lábios tremem afilando-se, a coluna cervical curva-se, baixando a cabeça, a respiração é ofegante, o pulso acelera-se, e ao simples exame objetivo constata-se o intenso sofrimento sob a mais cruel das formas. A boca é seca, a língua amarga, a falta de apetite constante, as palavras se balbuciam com esforço, e ao simples exame objetivo, constata-se um estado físico suscetível de figurar na nomenclatura médica, sob o título de "síndrome do derrotado". Entidade de evolução passageira, sintomaticamente amainada em dias, semanas, ou mês, tudo refluindo como a maré que volta.

 

PROGRESSÃO DO CRIME - Em 06/07/2016

Dois meninos, de dez e 11 anos, invadiram um prédio em São Paulo, roubaram um carro e fugiram. A polícia perseguiu os dois e o menino de 10 anos, que mal sabia dirigir, bateu o carro. Segundo a investigação, houve troca de tiros, e o garoto mais novo acabou baleado e morto. Tudo isso parece só manchete de jornais, mais é preciso que pensemos mais.

Do furto, pouco mais do que ocasional, ao caco de vidro na mão. Deste, à arma em punho. Em seguida, ao dedo no gatilho. Em tão curto espaço de tempo social, um salto gigantesco foi dado: de trombadinha a latrocida.

No automatismo do ato, o automatismo da vida. Não se encontrando, esta, presa a quase nada, exceto a um tênue fio social que tem se revelado inútil. Corpos esquálidos hiperinflados de si mesmos, sem noção de limites e possuídos por um misto de alucinação e vertigem, saem à cata das suas vítimas pelas ruas e avenidas das cidades.

São os meninos-caranguejos, os adolescentes-guabirus, e os adultos jovens-guarás, sempre à espreita da próxima presa, em cada esquina. Uma abordagem repentina, várias ordens de comando, alguns gritos, e escutam-se estampidos. Vidas estão sendo ceifadas a céu aberto.

O clamor é geral. Nem poderia ser diferente. A perda e o luto dilaceram a carne e roem os ossos de quem fica. A sangria afetiva revela-se sem fim. E deixa a todos em estado de estupor permanente, acuados, aterrorizados e perplexos.

Exigem-se respostas imediatas e ações efetivas no combate a criminalidade, o que é de se esperar em qualquer sociedade minimamente civilizada. Todavia, a vida em sua dimensão única é seccionada em duas partes distintas: a dos que matam alucinadamente e a dos que se mantêm ainda vivos a prantear os seus mortos. Tudo se torna muito simples e fácil de explicar.

O medo embota a consciência, é sabido. E o pensamento binário se constitui em sua lógica imediata. E igualmente perversa. De um lado, vidas produtivas embaladas em berço esplêndido ou forjadas pelo esforço próprio. Do outro, dejetos humanos prontos para serem lançados nos esgotos, os seus possíveis lugares de origem.

Mas, de lá, eles teimam em voltar. Espalhando medo e gerando pânico. Criaturas desnaturadas, abortos da vida, comenta-se à boca miúda e graúda – verdadeiros monstros, também dizem. Há, ainda, quem abra bem os olhos para um dos lados da questão, é quando falam em inversão de valores, assim como há, também, quem os feche, na mesma proporção, no que concerne ao outro lado da mesma – para esses, a inversão de valores não passa de um arraigado preconceito de classe.

O que não remove, nem uns nem outros, do pensamento binário. Mas tão-somente os coloca num beco social e político sem saída. Para pôr fim a tal binarismo, cujos efeitos são socialmente desastrosos, é preciso que nós nos olhemos mais de perto no espelho.

Sem medo e sem pejo do que o mesmo poderá vir a refletir ou a nos dizer: a vida é sempre única, embora existam múltiplas formas de expressão da vida. Em sendo única, todos nós somos coparticipes do que dela fazemos de melhor e de pior, em termos da sociedade que construímos para nós mesmos. O que exige muito mais do que um simples ater-se à esperança quanto ao futuro, imediato ou longínquo. E um bom começo para tal é romper com o pensamento binário e os sentimentos dele decorrentes – quer sejam de amor ou de ódio.

 

VERGONHA NA CARA - Em 29/06/2016

No Brasil de hoje, vemos as discussões sobre os que são contra e os que são a favor da presidente. Quando se trata de discutir as questões políticas e sociais, diz-se tudo, menos a verdade.

Ouvimos dizer, por parte de alguns, que o Brasil vai mal em decorrência de nossas heranças étnicas. Descendentes que somos do negro, do índio e do português degredado, não poderíamos ter outra coisa, senão o infortúnio.

Por sua vez, moralistas de ontem e de hoje repetem, até à exaustão, que vivemos com dificuldades porque faltam aos homens públicos vergonha na cara.

Outros afirmam que nos falta um líder forte, de pulso, para colocar o País nos eixos. A amiga carola afirma que falta Deus nos Corações.

O velho Partido Comunista Brasileiro, o PCbão, ensinou a várias gerações que nossas desditas sociais decorriam da natureza de nossa economia calcada num semi-feudalismo (que nunca existiu) e em nossa dependência ao imperialismo, mal congênito de nossa realidade.

Diante desse diagnóstico, o PCbão receitava uma política nacional-reformista ou social-patriota. Já outros, denunciam a falta de espírito cívico. Assim, vemos que não nos faltam discursos. Eles existem fartamente e são veiculados pelo rádio, TV, jornais, revistas e pelos pupilos das diversas igrejas e através dos papos das calçadas e botequins.

Não bastasse a profusão de discursos, recentemente, um certo senhor dado ao hábito de citar autores estrangeiros com a clara intenção de explorar o preconceito cultural e inibir os incautos, saiu-se com essa pérola de cretinice política: "a nossa elite é inculta e insensível", estando aí a razão de nossas desgraças sociais. Não lembra ele que a culta e sensível "elite" italiana deu seu aval ao fascismo de Mussolini.

Por sua vez, a cultíssima "elite" alemã patrocinou o nazismo de Hitler e a sensível elite belga massacrou os negros do Congo.

Esses e outros fatos demonstram a tagarelice infundada de nossos inúmeros intelectuais desfibrados e incultos, pois não devemos confundir alguns dedos de erudição com cultura.

Do moralismo ao discurso capenga do PCbão, vemos, para nossa tristeza, que tudo se diz, menos a verdade.

O sistema econômico e social vigente, o capitalismo, que produz as incontáveis mazelas sociais, se sustenta na mentira. Mas como se manteria de pé o capitalismo, não fosse a farsa, a fraude, o embuste, a fantasia? Como poderiam subsistir tantos absurdos não fosse o vigor da mentira tão bem cultivada? Ainda têm o desplante de dizer que a mentira tem pernas curtas.

Ora, a mentira social tem milhares de anos e transita leve a fagueira, tanto nos campos quanto nos "campus". Quem tem pernas curtas é a verdade. Basta ela dar sinal de sua presença e contra ela se erguem as mais diversas forças, dentre as quais a tão propalada "sociedade civil organizada".

Não é fácil agitar as bandeiras da verdade. Ela não foi confortável para Galileu, Giordano, Espinosa, Darwin, Copérnico e muito menos, para Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Andrés Nine alguns outros guerreiros da verdade. Não tiveram esses bravos, no seu tempo, as loas e as benesses que tão bem desfrutavam e desfrutam a nata da mediocridade

 

A PAZ - em 22/06/2016

A vida é um grande ato de teimosia e a mente é o portal para que o homem atinja a sua real dimensão cósmica. O caminho é longo e o aprendizado difícil, mas o homem vem resistindo ao longo dos séculos.

Ultimamente, tenho meditado sobre a aventura humana na Terra, a angustiante era de incertezas e contradições em que vivemos e, a cada dia, fica mais claro aos meus olhos, que o tema central da vida é o amor e o desamor.

A violência, a injustiça, a fome, as guerras, são diferentes faces ou os vários sinônimos da palavra desamor no mundo.

O homem já cruzou oceanos, escalou montanhas, foi a Lua e está se preparando para ir a Marte. Contudo, a verdadeira viagem a ser feita é a interior. Ou seja, em torno de si mesmo, em busca de sua identidade e de um significado para a sua existência.

O homem precisa ter um objetivo, precisa lutar pelos seus sonhos para poder escrever a sua lenda pessoal. O psicanalista Erich Fromm, no seu livro A Arte de Amar, afirma que: “O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”.

O jurista italiano Francesco Carnelutti já dizia que o Direito é um triste substitutivo do amor. Quando o amor e a compreensão entre os homens cessam, nasce o Direito para dirimir os conflitos entre os homens.

O apóstolo Paulo, na Bíblia, em uma das suas Cartas aos Coríntios, intitulada “ O Amor é o Dom Supremo” apregoa-nos que: “ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.”

Cristo veio ao mundo, dividiu a História e, essencialmente, pregou o amor entre os homens.Isso tudo pode parecer óbvio, mas é tão difícil de aceitar e aplicar em nossas vidas.

Nestes ultimos dias, marcado pelas emoções de perdas de amigos queridos e de ter visto o meu caçula Gabriel, juntar-se ao irmão mais velho e conseguir receber a ambicionada carteira de advogado, insisto em renovar as minhas esperanças de que o homem, finalmente, descubra a força transformadora do amor, através de ações solidárias para com os seus irmãos. 

E como dizia Ruy Barbosa, A profissão de advogado tem, aos nossos olhos, uma dignidade quase sacerdotal. Toda a vez que a exercemos com a nossa consciência, consideramos desempenhada a nossa responsabilidade.Empreitada é a dos que contratam vitórias forenses.

Nós nunca nos comprometemos ao vencimento de causas, nunca endossamos saques sobre a consciência dos tribunais, nunca abrimos banca de vender peles de ursos antes de mortos.

Deus permitiu que eu visse, à minha maneira, que o grande tema da vida é o amor. É possível que, desde então, o meu entendimento sobre a vida, no lugar de ficar resolvido, tenha se tornado um mistério, mas o meu espírito, finalmente, logrou ficar mais próximo da paz.

 

 

SEM PRESSA - em 15/06/2016

“Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais, hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? Só levo a certeza de que muito pouco eu sei Nada sei”, são os versos da primeira estrofe na música “Tocando em frente” de Almir Sater.

Neste momento da vida, estou sem qualquer pressa, pois sei que, independentemente da minha vontade, o amanhã virá. Liberto-me de adjacências como quem tira uma camisa: mudo de roupagem. E vou indo, sem nada que me cause problema, salvo a sensação de mudar.

Testemunho esta metade (dia 15) de junho de 2016. Metade de um ano polêmico, sem governantes, aliás com dois governantes no país, no Estado sem perspectivas, e isto me confere postura de quem espera pouco. Convivo, então, com as palavras, junto-as em frases, em lúdico exercício de comunicação comigo mesmo. Inicio meu dia, transponho a tarde e, à noite, estou recolhido com os fantasmas que estimulo, durante a jornada.

Sim, não tenho a menor pressa que, no trânsito da vida, provoque multa do Detran do tempo. Reconstruo meus muros, separo-me das circunstâncias com um desapego total. Mas não me liberto de algumas poucas lembranças. Uma delas: a de que sou. Continuamente, sou. E assim permanecerei, até que, clinicamente, não mais possa sê-lo.

Saúdo esta quarta-feira do - já pálido de exaustão! – junho de 2016, sem muito entusiasmo. É mais um dia que passa na voragem do tempo, como um degrau que levará, talvez, ao topo de nada. Vou indo, como também se esvai este ano e, com ele algumas realidades. Procuro identificar, nas vozes que ouço, a mensagem da criança que se perdeu por estes mundos todos que me conduziriam a extravios, veredas e, às vezes, até a vielas, mas consigo sempre sair de todas as (vielas). Tenho anjo precursor que me ajuda a encontrar as saídas, nos momentos exatos.

Não tenho qualquer pressa, eu dizia e dou título a este artigo. E nisto não há qualquer confissão: apenas um monólogo, pois sempre costumo falar sozinho, como se, ensandecido, estivesse ou buscasse interlocutor inexistente. Todos os momentos e o que há de ir. Um dia chegará. O devir. E isto não me será surpresa, desde que venho construindo meus impressentidos, com amor ou desamor, pouco importa.

Não tenho pressa, repito! Sei, perfeitamente, que a ninguém isto interessaria. Dirijo-me palavras, em monólogo, como quem economiza comunicação. Como não tenho flores a me ofertar, ofereço-me palavras racionadas. Poucas, raríssimas palavras. Por exemplo: bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Como não há retribuição parecida com um eco, calo-me, preparo-me para a gestação do outro dia, no caso, quinta-feira, amanhã, prenuncio de mais um fim de semana de festas juninas com saudades dos tempos de fogueiras, e como diz o poeta, a alma é movida pela saudade. E a saudade não deseja ir para frente. Ela deseja voltar. Todo homem deseja voltar às suas origens. É lá que mora a verdade que os adultos esqueceram. Então, até lá.

 

 

 

VOTO COMO OPÇÃO - em 08/06/2016

Recebi pelo Facebook uma marcação de amiga, com a solicitação de que não reelejamos nenhum político com cargo eletivo. Claro que curti, aqui mesmo neste espaço já fiz alguns artigos manifestando minha discordância sobre a reeleição, mas temo pela falta de objetividade da postagem.

Posso estar sendo repetitivo, mas meu coração anda enfraquecido. Nossas emoções estão se tornando tristes com o desencanto de viver momento tão cruel deste meu doce País. O que mais amargura é esse inútil comportamento da maioria dos nossos políticos, trovões acintosos e hipócritas em palavras desprezíveis à inteligência de uma grata e significativa parcela da sociedade.

Passaram-se anos e governos, testemunhamos revoluções, golpes e quarteladas, expulsamos invasores e gritamos independência – não sei de quê, criamos mitos, heróis, reis e rainhas urbanos e suburbanos, adubamos ignorâncias, petulâncias e falta de educação, velamos milhares de brasileirinhos natimortos por falta de assistência médico-hospitalar oficial, deixamo-nos dormir desastradamente quando a corrupção contaminava e já se estabelece, célere, na aridez molambenta dos tapetes dos Três Poderes constituídos, nunca aprendemos a cantar a nossa pátria amada completa, rimos com uma cidadania esquecida, votamos em pestes falastronas – por vezes analfabetas – e ainda não sabemos sufragar, parcimoniosos, por isso decadentes que somos, o antídoto democrático para debelá-los – surrealistas de várzeas pardacentas e lamacentas, também andrajosos, a surrupiarem nossa consciência.

Acredito que as eleições de outubro próximo mudarão muita coisa. Chegou a hora do povo brasileiro reagir. E a melhor arma para isso é o voto. Não adianta esperar que os políticos mudem. O povo é que tem de fazer a mudança, votando em quem não o trairá depois de eleito. Os políticos roubam, empresários desviam dinheiro, não podemos continuar conformados com essa realidade. O que se vê são as crianças pedindo esmolas, outras assaltando, largadas nas ruas. Não é este o País que queremos ver para os nossos netos.

Mas insisto que ainda há saída para o momento em que estamos vivendo. Basta que saibamos utilizar corretamente o voto nas próximas eleições. Ainda há salvação para o Brasil. Mas para isso tem de haver respeito, seriedade. Cada um tem de fazer a sua parte, começando por não eleger políticos que só pensam em roubar.

Todavia, mesmo assim, não vou sentir vergonha do meu País só porque, por inúmeras razões, votamos errado e botamos lá em cima uma minoria atuante e atrevida de safardanas. Entendo, isto sim, que a nossa única arma, o voto, precisa ser protegida, através da mais importante reforma de todas quantas necessitamos, a política. Só ela nos dará condições de impedir o livre acesso dos salafrários do poder agora sendo rastreados com a ajuda da imprensa, que precisa do apoio de cada cidadão, mas sobretudo dos empresários honestos, que não usam do dinheiro sujo para financiar campanhas eleitorais imundas.

 

 

EMPREGO E EDUCAÇÃO - Em 01/06/2016

Antigamente aqui em Manaus, as famílias de classe média preparavam as moças para ser normalistas, estudavam no Instituto de Educação e, é claro, também eram educadas para ser esposas prendadas e dedicadas. Os rapazes deveriam ser bancários, de preferência funcionários do então Banco da Lavoura, e os mais venturosos do Banco do Brasil. Era um empregão como diz minha mãe.

Habilitar-se a um cargo público era um conselho constante, face à segurança que esses órgãos ofereciam. Nos anos 1960, surgem, com muita força, as escolas técnicas federais, para onde jovens também passaram a ser encaminhados, certos de boas oportunidades de emprego.

Nos anos 1970, com o chamado  “milagre brasileiro”, tanto as famílias como os próprios jovens aumentaram suas vaidades; ser doutor era imperativo, e aí começaram a proliferar as faculdades. Faço esse preâmbulo para contextualizar.

A mídia hoje, não se cansa de destacar o desemprego que atinge a maioria dos jovens. São mais de onze milhões desempregados. Entra ano sai ano, mais as portas se fecham para os formandos.

As mudanças socioeconômicas são velozes, mas nosso povo, que não sentiu, como em outros países, grandes traumas, por guerras ou catástrofes, evidentemente reage com mais lentidão. É preciso abandonar ranços de uma época que passou e aceitar, com coragem, ideias contemporâneas. A colisão de pensamentos só ocorre quando a aliança é feita com a inércia e não com o movimento.

Há hoje mais espaço para micro e pequenos empreendedores e os empregos ficam cada vez mais distantes, com a constante racionalização e automação das empresas. Tanto as famílias como os candidatos ao trabalho precisam ter essa consciência. Ter curso superior não é mais garantia de bom emprego e a intuição jamais teve tanta valorização.

Os governantes também precisam entender e aceitar essa contingência. Cursos, acadêmicos ou de nível médio devem formar empreendedores e, para tanto, os currículos escolares precisam de alterações radicais. Disciplinas, como matemática e português, precisam ter mais qualidade e valorização diante de um mundo de números e fórmulas e do valor que hoje tem a informação.

Como se comunicar sem o bom conhecimento da língua? O técnico de edificações, de mecânica ou eletrônica precisa, por exemplo, estudar química? Não é melhor matemática financeira, ética, estatística ou outras disciplinas que lhe deem condições de gerenciamento de seus próprios negócios?

Os cursos de engenharia, administração, economia e outros, supondo-se que irão formar futuros gestores, precisam também se preocupar com a capacitação humana deles, já que instrução só não significa formação.

A inclusão de disciplinas mais consentâneas com o mundo de hoje nos currículos, certamente, formaria melhor esses profissionais do futuro, com condições de humanizar e compreender os novos tempos, criando oportunidades para os mais novos. Mais empregos? Exceto em algumas empresas mais alertas, há uma abundância de empregos péssimos.

 

 

ILICITUDES (25/05/2016)

O fato do senador e Ministro do Planejamento pedir licença do cargo, não tira a culpabilidade de vários crimes a ele atribuídos. O problema é que mesmo com a ação eficiente da Procuradoria da República e da magistratura, ficamos a pensar: Será que dá em alguma coisa? Quem é que já não escutou a expressão “isso não dá em nada” vinda de um diálogo entrecortado entre passantes na rua, ou mesmo diretamente, nas palavras de um interlocutor?

Ao mostrar desconforto em participar de um esquema de cola em sala de aula, o aluno escuta: não dá em nada! Pichadores incitam-se mutuamente dessa forma, antes de galgar prédios e monumentos, para sujar e poluir. Lavadores de dinheiro, fraudadores e criminosos do colarinho-branco em geral devem valer-se do dito quando combinam suas tramoias com os famosos laranjas, geralmente pessoas humildes, ainda com resquícios de decência e solidariedade social. E talvez a expressão tenha sido utilizada pelo Ministro, quando participou de propinas e tentativa de estancar a Lava Jato.

O ilícito, em qualquer grau e intensidade, faz-se acompanhar pelo bordão - ainda que não verbalizado - no seu planejamento ou execução.

Rapidamente, o Brasil está se tornando o país do "não dá em nada!", onde as condutas indesejáveis, das menos nocivas às mais execráveis, tornam-se a regra de convívio. E o tecido social vai se deteriorando, corrompendo-se, comprometendo cada vez mais aquele desiderato que, na atual quadra em que vivemos, soa cada vez mais como uma peça de ficção: "Constitui objetivo fundamental da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária". Está lá, no artigo terceiro de nossa Constituição! O "não dar em nada", com todas as suas implicações, traz ainda uma dificuldade adicional na área da educação.

Como passar os tais "valores" para adolescentes e jovens, em um ambiente de tanta degradação? É fácil imaginar o que passa na cabeça de quem vai estar decidindo e liderando daqui a alguns anos: "Por que ser solidário se o fulano preocupa-se apenas com o próprio umbigo e se dá bem? Para que honestidade, se não granjeia dinheiro e status? Por favor, não me falem de virtude, isso não me traz prazer, aqui e agora". E o grande problema é que a maioria silenciosa está silenciosa demais.

A mobilização mínima que já se faz notar é ainda diminuta para fazer frente ao tamanho dos descalabros na gestão da receita e da despesa em nosso país. Urge, portanto, que se dê combate imediato também às micro corrupções do dia-a-dia. É a tolerância com as pequenas patifarias do cotidiano que incuba os grandes escândalos.

Exigir ética, respeito e honestidade é uma jornada repleta de percalços, mas é também uma rota segura para legar um país melhor aos nossos filhos. E é um caminho que passa necessariamente pela reforma de todas as leis que for. Este parece ser o problema mais grave de nossa atualidade. O país não aguenta mais tanta indecência. Tem que dar em alguma coisa!

 

 

ACOMODAMENTO - Em 18/05/2016

O Brasil enfrenta tantos problemas todos os dias, tantos dramas econômicos, sociais, de corrupção, que talvez seja a hora de nos perguntarmos por que temos tantos problemas. Qual será o problema do problema que deixa o país na situação de perplexidade e sem reação?

Uma das consequências, pode ser o acomodamento da juventude brasileira, que assiste a tudo passivamente. Mesmo com essas manifestações contra e pró impeachment,  percebe-se nela imenso sentimento de descrença, de ausência de motivos para lutar por uma vida melhor e, quem sabe, por uma vida mais decente no comportamento dos homens públicos.

Os jovens parecem decepcionados, sem rumo e sem vontade de mudar as coisas, num país onde há tanto por fazer. Temos esses esquisitos, desmoralizados políticos e empresários.

Os velhíssimos apagões rodoviários provocados por calamitosas rodovias que prejudicam a economia, lesam a sociedade e todos os anos matam nada menos que 50 mil pessoas, impunemente.

A elite governamental brasileira é mal administrada, mesmo porque a gestão pública subordina-se ao Poder Político. E sabemos e presenciamos a cada dia, a péssima qualidade das elites políticas. Basta o leitor se debruçar na desorganização do transporte aéreo, na precariedade da saúde e na deficiência dos órgãos de segurança. Hoje em um curso de Administração Pública tanto na graduação como na especialização, os jovens aprendem uma teoria totalmente distante da realidade da gestão efetiva.

No Brasil, o governo não responsabiliza ninguém e, possivelmente, venha desse procedimento o sentimento que prevalece entre os jovens e que, de forma resumida, traduz o que todos pensam: “Não tenho nada com isso”.

Ora, além desses problemas nacionalmente reconhecidos e diariamente apontados pela imprensa, temos o apagão das multidões que, duas vezes ao dia, de forma absolutamente desrespeitosa, passam horas esperando pelos ônibus urbanos nas grandes cidades.

Como esse padecimento não sai nos noticiários, foi incorporado ao drama de se viver numa cidade grande. A falta de compromisso com políticas sociais é um discurso de quase meio século, mas que se torna atualíssimo. A busca da educação com qualidade, da saúde com respeito ao cidadão e da segurança é algo que não se esgota facilmente.

A história sempre se repete, pois tem-se a consciência que um governante quer o melhor para o seu povo e, se não consegue, cria um hiato que só a história memoriza e perpetua. O povo e os jovens principalmente e infelizmente esquecem. Na plataforma político-eleitoral do homem público, sempre destaca-se o batido trinômio-educação, saúde e segurança.

Suponho que a educação tenha esse condão. Obviamente, educador somos todos nós: governantes, políticos, magistrados, legisladores, jornalistas, família, religiosos, professores e até uma criança de cinco anos. Já está na hora de privilegiar a competência, a seriedade e a ética. Iniciemos, portanto, pela educação da classe política. É um excelente começo.

 

 

CHANCHADA 11/05/2016 08:30

Caros leitores, parece piada mas não é, o atual Presidente da Câmara Federal, depois de uma noitada com o Advogado Geral da União, resolveu de forma preclusa, não aceitar sem nenhuma competência, o que os seus pares já haviam decidido, anular o processo de impeachment. A chanchada produzida por esse outro bigode do Maranhão, só prejudicou o País, com queda da bolsa e motivo de incredulidade no mundo.

O recrudescimento da crise brasileira, com cenas próprias da pior delinquência – flagrantes policiais de situações constrangedoras, depoimentos cinicamente falsos e a sintomática submersão silenciosa dos envolvidos, incluindo o próprio interino da Câmara, conduz, inevitavelmente, a algumas conclusões.

A primeira, é a de que os governistas tentaram uma operação destinada a embaralhar as apurações em andamento, através do Advogado Geral da União. Dispersar a investigação e fragmentar os fatos formam parte da estratégia do governo.

Em segundo, pelo impedimento, põe-se o fim do acordo firmado entre as forças políticas para proteger a imagem da presidente da República. Afinal, quem merece uma blindagem contra a corrupção é o Brasil e seu povo ordeiro e sacrificado.

Acredito que caiu a ficha daqueles que, esquizofrenicamente, imaginavam que fosse possível separar a presidente da República dos corruptos e corruptores. O Brasil, caro leitor, pode emergir desse lodaçal para um patamar civilizado. Mas para que isso aconteça, com a urgência que se impõe, é preciso que os culpados sejam punidos.

Mas neste imbróglio do impeachment, há muitos canalhas, e os canalhas não têm passado moral a preservar. Não têm igualmente um nome a zelar. Nem muito menos estão preocupados com a opinião da sociedade a seu respeito. São servos de sua própria canalhice, por isso os canalhas são audaciosos. Não temem ser canalhas, desde que tirem proveito próprio de suas atitudes. E ser canalha populista em cargo público de destaque é ainda mais insidioso.

Mas como a política não é o reino dos bons sentimentos, nela valeriam todos os meios fraudulentos praticados para se manter no poder por muitas décadas. Só que a atual presidente (esperamos que só até hoje), não foi eleita apenas pelos votos petistas, pois ganhou a adesão de milhões de não-petistas que acreditaram na bandeira da ética e na mudança do comportamento oportunista e habitual de políticos inescrupulosos.

Fico pensando como foi possível manter uma gente tão populista, cínica, incompetente e corrupta no poder por tanto tempo?

Chegou ao fim, e uma nova fase de ajustes vai começar, pelo menos é o que se espera do atual vice no exercício da Presidência. A crise deve continuar por mais um pouco, e pelo que se sabe, só há três atitudes possíveis perante situações críticas: ignorá-las e ser destruído por elas, apequenar-se e sair por baixo, “dar a volta por cima” e crescer com elas. Essa nova situação do país deve pelo menos fazer com que as chanchadas diminuam

 

 

E AGORA? (04/05/2016)

Por que os contos de Maupassant, escritos há mais de 100 anos, ainda são atuais e Shakespeare nada perdeu da força de sua dramaturgia, passados quatro séculos? Certamente porque a matéria-prima em que se inspiraram foram as virtudes e os vícios da natureza humana. Nada inventaram, senão analisar a oscilação pendular dos homens. Nada que não seja próprio das misérias e grandezas da alma humana, desde os descendentes de Eva e Adão, muitíssimo antes que o rei Salomão tenha constatado que nada é novo sob o Sol.

Isso nada obstante, ainda não aprendemos com a permanente contradição humana. Cultuamos ao longo de milênios ídolos de pés de barro ou satanizamos pecadores que, arrependidos, fizeram-se santos citados no hagiológio. Essa digressão me vem à mente quando são desmascarados alguns dos ícones da república.

Já assistimos a esse filme na década de 80. Muitos de nossos governantes e representantes foram eleitos legalmente, mas moralmente já não representam nosso povo.  A política brasileira implodiu. Partidos e políticos voaram pelos ares como nunca se viu. Sobrou pouca coisa – se é que sobrou – do velho edifício institucional.

O cupim da corrupção não poupou sequer as ditas agremiações éticas, chegando a fustigar até mesmo o Palácio do Planalto, local onde muitas esperanças dos brasileiros ainda residiam. Da terra arrasada, só falta afastar o entulho e partir para uma nova construção institucional.

Para esse novo projeto, ficaram alguns balizamentos, fruto da experiência passada. Reeleições nunca mais, em quaisquer níveis, porque no Brasil, em vez de se constituírem em meios para o bem comum, viraram fins para o uso do poder pelo poder, e formadoras de dinastias familiares. Há que acertar o cronômetro das votações em datas coincidentes, com tempo menor de preparação, para que se reduzam os custos e as necessidades de financiamento das campanhas.

Mecanismos de transparência total devem constar de lei, calçados em punições exemplares para aqueles que cultivarem relações espúrias entre a área privada e o setor público.

Outros parâmetros devem ser discutidos amplamente pelo povo, não se descartando uma constituinte – limitada para não se correr o risco de perderem-se os avanços sociais - porque o assunto extrapola a questão política e envolve também o arcabouço dos três poderes e até a forma de governo, parlamentarista ou presidencialista.

Os edifícios envelhecem. Por falta de manutenção, a estrutura tem os ferros atacados pela ferrugem, os azulejos e os ladrilhos encardem e a pintura descasca. Os cupins comem o madeirame do telhado, a água se infiltra nas paredes que, por isso, trincam, a tubulação vaza e a fiação elétrica entra em curto. Os prédios ficam também defasados no tempo. A arquitetura se torna obsoleta. Assim mesmo são as estruturas políticas.

Urge uma agenda de desafios, na definição das prioridades futuras. E a primeira providência precisa ser a varredura do entulho ideológico, desobstruindo o caminho do progresso.

 

VÉU DE CUMPLICIDADES - 27/04/2016

Como todo brasileiro que quer a limpeza ética deste País, sabemos que este governo já está no final. Seriam prováveis sinais de estarmos em vias de voltar a trilhar o caminho do desenvolvimento que há pelo menos três décadas abandonamos para tropeçar nos atalhos da mediocridade e da estagnação.

Tudo isso pode ser fruto do clima de intensos debates que estamos vivendo. Em nenhum outro momentose deblaterou tanto em torno de idéias mal concebidas, de projetos desconhecidos e de reformas envelhecidas, mas infelizmente nada disso vai acontecer. Temos um corrupto presidente da Câmara, e outro do Senado,  estão todos batendo cabeça.

Para os ministros, falta dinheiro. Para o PMDB ministérios, e para o PSDB e o DEM, boas causas. Para os mais pobres sobram programas, promessas e justificativas para explicar por que não chega o dinheiro que evitaria fazer voltar aos lixões as crianças. Em compensação, para os economistas sobram idéias, como a da "focalização" (ou será a "focagem"?) das políticas sociais.

Para enfrentar esse fecundo entrechoque de velhas idéias e antiquíssimos problemas, a presidente conta com armas poderosíssimas. Continua a fazer jus ao título de pior animadora de auditórios que o Brasil já conheceu. Não esses confinados nos estúdios de tevê, como os dos pastores especialistas em sessões de descarrego ou da fauna de peritos em idiotices e baixarias, como ratinhos, faustões e gugus. Os auditórios que ela embala com edificantes ditados, como “não temos meta mas vamos dobrar a meta”, raciocinio ilógico, nem sempre merecem elogios.

Com tantos atributos, o Brasil está no picadeiro mundial, tentando roubar a cena dessa figura patética que é Donald Trump por cuja sobriedade uma parte do mundo teme, enquanto a outra treme. A nossa sorte é que, nesse picadeiro, o povo não conta. Não tuge, não muge nem chia. Para todos sobram ameaças de guerra, de gripes e de epidemias.

Vivemos pendentes das bolsas cujos índices nos enfiam pela garganta todas as noites, acompanhados das cotações do petróleo que sobem e descem para cair e aumentar no dia seguinte. Com hábitos assim tão arraigados, generalizadamente aceitos, muitos papéis estão invertidos. Fiscais que devendo arrecadar para o governo amealham para si e se tornam investidores privilegiados dos bancos suíços estão ficando fora de moda. Empresas "off shore", que os simples mortais nem fazem idéia do que sejam, já estão obsoletas, tão sem atrativos como a Ilha de Jersey de que o País tomou conhecimento graças à revelação de que lá tem contas o Presidente da Camara.

Em meio a tantas e tão efusivas provas de criatividade, não deixa de ser lamentável um espesso véu de cumplicidades tentar encobrir mistério que inquieta o País: Como o Presidente da Camara Federal consegue postergar tanto tempo sua prisão? O espetáculo chamado Brasil é assim. José Bonifácio dizia pensar que só em Portugal a realidade superava a ficção. Confessou sua decepção quando descobriu que no Brasil também.

 

 

SILÊNCIO - 20/04/2016

O País anda excitado, mais ainda depois de domingo na votação da Câmara sobre a admissibilidade do impeachment, mas não vou escrever sobre isso, deixo aos articulistas de plantão sobre política, o que importa agora é o futuro.

Estamos diante de um novo momento carregado de aflições sociais. Escrevo porque já é um hábito, as quartas publico no facebook e blogs, na quinta no jornal.

Na verdade, hoje não tenho vontade de fazer nada. Não querer nada, não pensar em nada, não contar nada, não pagar nada, não resolver coisa alguma, não me mexer. Ficar assim parado em silêncio. Ser contemplado com um silêncio absoluto, daquele que faz adormecer tudo, não sentir as pernas, nem os braços, nem nada.

Será que o silêncio é igual ao nada? Dizem que o silêncio pode ser eloquente, pode ser traduzido como sabedoria em algumas situações. Então prefiro um nada nada, um nada que não permita a revelação de nenhuma intenção, um nada mais silencioso que o silêncio, um nada poderoso que filtre tudo, até a luz do dia, até a luz da noite.

Os meus olhos rodam pelo apartamento, como se não conseguissem obedecer à recente ordem interna de não absorver nada, de ser incorpórea e indistinta. As almofadas eretas em cima do sofá da sala, num alinhamento insuportável, quadrado sobre quadrado, traço azul chumbo, cor de vinho, passando feito legenda.

A mesa de centro ou de jantar, parecendo vitrine de livraria. A revista semanal, jornal do dia, correspondências (geralmente de cobranças), e um livro que já li várias vezes “O Sol é para todos” do falecido recente Harper Lee. Já disse que não quero saber de nada, repito para mim mesmo, repito com mais ênfase para os meus olhos giratórios e impiedosos.

A fábrica de agua mineral atrás do apartamento, incessantemente com seus três turnos, não deixa o silêncio ser absoluto, as arvores que servem de paisagem a minha varanda deixa tudo escuro, estreitado pelos edifícios.

Um homem de meia-idade corre com seu tênis branco, seu short branco, sua camiseta branca, na área reservada aos que são fãs da prática do caminhar. A mesa redonda, as duas cadeiras de palhinhas na varanda, as fotografias emolduradas no aparador. O computador me desafiando, a imagem de um urso polar rosnando, como se fosse me devorar.

Tenho uma amiga que diz não poder conversar com ninguém porque não tem e-mail. Outra, tentando despertar o interesse de um certo cidadão, declarou a sua intenção de mostrar-lhe um trabalho que acabara de fazer. Ele responde, por telefone: - Passa pro meu endereço eletrônico: fulano de tal@...Lembro de  Virgínia Woolf: "... a humanidade é uma infeliz tribo de animais".

Tomara que o celular toque. E se aparecer uma barata, como aquela da Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector? Não. Tudo menos uma barata agora. Prefiro ficar olhando os chocolates no centro da mesa. Contar um por um, muitas vezes. Até dormir e acordar, se conseguir dormir, já que sofro dessa dificuldade com prejuízos significativos, até para exteriorizar o que quero agora.

 

 

CONLUIO DA MEDIOCRIDADE (13/04/2016)

Que me perdoem os leitores que não gostam quando escrevo sobre política neste espaço, mas a prisão preventiva na Operação Lava Jato, do ex-senador Gim Argello. só confirma que um grupo cada vez maior de candidatos bem-sucedidos nas urnas. faça do Parlamento brasileiro um lucrativo empreendimento comercial.Transformaram, por força de seus interesses pessoais, uma das mais importantes e respeitadas instituições políticas do País num lamentável conluio entre a mediocridade e o carreirismo.

Mas, se os cidadãos não se organizarem para expulsá-los da vida pública com os instrumentos democráticos do voto, não tardará o dia em que não será mais possível distinguir deputados probos e senadores honrados de vigaristas e delinqüentes investidos de mandatos protegidos pela impunidade do pior corporativismo que se conhece no mundo civilizado. O que antes era encarado como um serviço ao País virou profissão para alguns e meio de vida para outros.

O Parlamento brasileiro, que para Artur Ramos era apenas um "viveiro de portentosa verbiagem", vive hoje sob a ameaça de se transformar no abrigo de pretensos homens públicos que, acima de qualquer escrúpulo, são incapazes de justificar o próprio patrimônio acumulado com rendimentos e subsídios incompatíveis com o desempenho de cargos, cuja remuneração sempre foi insuficiente para enriquecer quem quer que viva honesta e decentemente.

É preciso que se exija dos parlamentares, em todos os níveis e esferas do poder, o cumprimento do mais elementar dos princípios democráticos, o da igualdade de todos perante a lei. E isso só será alcançado quando se proibir que recursos públicos amealhados de forma nem sempre legal e quase sempre ilegítima, como aumentos disfarçados de subsídios, sejam utilizados para custear suas próprias campanhas eleitorais em detrimento dos demais brasileiros que com eles concorrem, sem ter acesso a iguais benefícios. E todos, sem distinção, ainda preconizam o financiamento público das respectivas campanhas.

Da mesma forma, ninguém pode ser autorizado a votar em causa própria, ou em favor de causas em que tenha interesse direto ou indireto, imediata ou remotamente, como se tornou rotina em ambas as Casas. Sem medidas saneadoras como essas, o Congresso deixará de ser, em mais alguns anos, instrumento democrático de representação política para se transformar naquilo que está correndo o risco de se tornar: um vasto empreendimento comercial, utilizado para promover o enriquecimento dos que estão, cada vez com mais freqüência, abastardando o processo e as práticas da política brasileira.

Mais fácil, mais prático e mais barato é voltar aos padrões da austeridade perdida, no dia em que a transformaram numa empresa lucrativa para seus poucos sócios comanditários e terrivelmente onerosa e ineficiente para todos nós, segundo o julgamento invariável da imensa maioria dos brasileiros. Até porque não há outra alternativa possível.

 

DIAS DE HOJE , em 06/04/2016

Parido, criado e preservado no século 20, nunca tinha visto o que acontece nos dias de hoje. - E daí? - indagará o leitor. E não apenas ele, mas também eu que agora aqui estou à procura do que dizer a respeito desses solavancos que as mudanças costumam nos aplicar.

No momento, minha situação é esta: a busca de algo que de alguma forma pudesse ao menos distrair o leitor, se não pelo conteúdo ao menos pela forma, talvez pelo título, mas seria baldado a atenção na leitura do texto.

Mas está difícil a empreitada, confesso sem rodeios. As tentativas que fiz até aqui se malograram, não deram mais do que lugares comuns, coisas mil vezes ditas e repetidas pela midia e por articulistas muito mais bem preparados que eu.

A única certeza mesmo que tenho sobre o que irá diferenciar este artigo dos outros é a de que, este é um artigo que não beirará a mesmice. Não sei se o leitor já reparou que, na parte do noticiário nacional e, por vezes, até local nossos jornais impressos beiram certa dose de marasmo.

Os grandes periódicos brasileiros têm quase todos os mesmos provedores, sendo apoucado o retoque que cada veículo dá nas matérias que recebe. Resulta daí certa similaridade pouco convinhável. A abordagem factual do dia-a-dia é próxima de uma narração repetitória.Nos veículos alimentados por agências, por vezes até os erros e equívocos nas notícias denunciam a origem única das composições.

A experiência e a prudência me autorizam a esperar que, em tudo o que está acontecendo, se acerte mais do que erre, pois o que acontecer será decidido e composto por homens e não por santos milagreiros, até porque estes há muito estão em falta no mercado.

Deixando de lado essas especulações que não levam a lugar algum, ocorre-me lembrar que vivemos como se estivessemos em um picadeiro, como nas artes circenses, nas aventuras do trapézio e da corda bamba. O circo é pródigo de deslumbramentos, dos burlantins, dos magos da risada e da emoção barata.O culto ao circo pode prescindir do equipamento clássico dos picadeiros.

A substância do circo está no ilusionismo, no malabarismo e no exibicionismo estrondoso dos palhaços – o que pode ser praticado em toda parte: nas salas ministeriais e de governo, nas repartições públicas, no plenário das assembléias, no recinto dos tribunais, nas convenções partidárias, e principalmente nos estúdios de rádio e de TV.

O amor ao circo, que ora domina todo o circuito de comunicações, entregou-nos, atados, à exibição dos malabaristas da palavra, aos contorcionistas da razão e aos ilusionistas da promessa fácil. Enfim, enfim... Enfim o quê? Sei lá.

O leitor que me ajude a compor o fim desta crônica que me custou muito a começar e que agora volta me fazer penar para encontrar um jeito de encerrá-la. Mas o que fazer? Já não é novidade que se vive numa sociedade do espetáculo. E o espetáculo tanto pode ser extasiante, sedutor e chamativo, como pode ser ridículo, melancólico e depressivo. É da vida e é do circo.

 

CANASTRÕES (30/03/2016)

As contradições dentro do nosso Poder Judiciário, principalmente no caso da Operação Lava Jato, leva a um descrédito na instituição, que é nossa única e ultima esperança. O pior que pode acontecer a um povo é não acreditar em suas instituições e não respeitá-las. Grandes revoluções só ocorrem se os valores dos governantes encontram-se em assintonia com as esperanças dos seus cidadãos. Movimentos libertários resultam da luta pela conquista de princípios vilipendiados pelos representantes do poder. Por isso, a relevância do momento histórico vivido, hoje, no Brasil

Assistimos à confissão, por dirigentes partidários, agentes políticos, empresários e expressivas autoridades da República, de violações das legislações eleitoral, tributária e penal, sem constrangimentos, sem pudor, sem medo de punição e com total descrédito à apreciação judicial dos fatos revelados. A ponto de o ex-líder do governo no Senado, Delcidio Amaral, num escárnio à verdade e ao comportamento ético, fundamentais a qualquer democracia, afirmar que só entrava na maracutaia porque tinha que atender aos pedidos do governo a quem servia.

Que não se engane a nação: não há heróis depondo nas comissões do Parlamento: nem a secretária que denunciou o patrão, mas quis posar nua em revista; nem o patrão, que denuncia o esquema do partido político, e quer posar de empresário generoso; nem a esposa do patrão, que tem polpuda mesada e lamenta da vida; nem o deputado que renunciou e confia voltar à imunidade pelo voto dos eleitores incautos; nem a ex-mulher do tal deputado, que conviveu com a corrupção e só fala agora, porque abandonada e preterida; e, muito menos o político, que usufruiu do dinheiro surrupiado do povo, fez negociatas escusas, e tenta ludibriar os espectadores com oratória eloquente.

Os personagens dessa novela tragicômica, dessa ópera bufa, dessa comédia burlesca, são apenas bandidos canastrões, desempenhando papéis decorados em filmes de quinta categoria, dirigidos por advogados competentes e bem pagos, e que têm a certeza da impunidade dos estúdios, as instituições do Brasil.

Os responsáveis pelas CPIs e o Ministério Público têm que submeter à Justiça provas irrefutáveis de que o dinheiro tido como de empréstimo do empresário caridoso, no caso especifico a Odebrecht, é dinheiro público sim, remetido para paraísos fiscais, oriundo de transações fraudulentas, licitações mascaradas, contratos superfaturados, negociatas, compra e venda de políticos inescrupulosos, que teria sido utilizado para movimentar altas somas de dinheiro em pagamentos ilícitos para agentes públicos e políticos.

Não se trata, como arquitetado juridicamente, de mero crime eleitoral, decorrente de dinheiro de campanha não contabilizado, com penas mais brandas. Os atores decadentes desse holocausto desonroso para o País têm que perder os bens constantes em seus nomes e nos das suas mulheres; têm que perder, sobretudo, a liberdade de ir e vir. Com outro final, os bandidos serão vitoriosos e as instituições desacreditadas.

 

O HERÓI E SEU BANDO

Confesso que queria jejuar sobre assuntos ácidos nessa semana santa, não consegui, principalmente vendo na Avenida Paulista grupos de cidadãos em vigília, sem patrocínio, mostrando seus desencantos com o atual momento do Brasil. Lembrei então para fazer o presente artigo do reino de Ali Babá, onde lá não havia petistas e coligados, mas havia 40 ladrões.

Longe de mim estar insinuando que Lula e sua coligação no poder representam em nosso país tropical o herói e seu bando das mil e uma noites de Sherazade. Apenas associei as duas imagens, ao constatar a quantidade de políticos e assessores, que, à sombra do Planalto, se envolveram em corrupção no atual governo e até hoje continuam impunes.

Por alto fiz um levantamento em que contei, de lembrança, mais de duas dúzias de nomes sob suspeita e acusação. Curiosamente, como Ali Babá, também Lula é poupado de pechas e acusações. Daí decorre a segunda razão de aproximar, para contrastar, os dois contextos: o da lenda e o da realidade política.

É que Ali Babá e seus ladrões eram transparentes. Assumiam o que eram e faziam. Estranhamente as pessoas vinculadas diretamente a Lula, indiciadas ou apontadas pelo noticiário, não têm a mesma postura. Usam de todos os recursos e erguem com a maior desenvoltura uma cortina de fumaça negra e densa em torno deles mesmos e de seus atos, para evitar que a opinião pública saiba a verdade do que tem acontecido nos bastidores do governo desde que o PT assumiu o poder.

Operações de abafa, rolo compressor, respostas sarcásticas, ataques verbais são o mínimo apresentado como autodefesa e barreira à averiguação pública. Basta simples suspeição que logo se levantam para praticar a velha máxima de que a melhor defesa é o ataque. Antes que sejam destruídos, ainda que em nome da verdade e da justiça, Lula,  e comparsas tudo fazem para destruir os adversários.

Para mostrar que é superior e acima de qualquer suspeita Lula usou e abusou de expressões como fantasias, inveja direita carcomida, ultrapassados, e pretensas frases aparentemente d ésprit, mas na verdade de uma pobreza intelectual de causar dó! A revelar sempre o propósito de agredir para não ser atacado.

Mal começaram as graves denúncias que o envolveram com as falcatruas, tenta ironizar, autodenominando-se jararaca. Temendo que os ventos soprem a poeira para sua janela, Lula vem a público declarar que se trata de acusações requentadas, quando para advogados de renome e respeitados políticos sua omissão e leniência, à época da ocorrência dos fatos, podem culpá-lo de improbidade administrativa.

Lula, e assessores pousam de impolutas vestais da República. Ao contrário de Ali Babá e seu bando, em vez de se esconder em cavernas, à espera do Abre-te Sésamo, procuram trancar a corte a sete chaves. Será que pensam que todos nós temos que engolir calados? Será que com tropeços aqui e ali, sem o ar e a luz que paradoxalmente sobram nas cavernas de Ali Babá, mas tanto faltam nos subterrâneos do Planalto, Lula e Dilma continuarão tergiversando?