Tempo-Espaço e Memória
Orlando Sampaio Silva
Professor Titular da UFPA. Doutor em Ciências Sociais(Antropologia). 
ossilv@attglobal.net

SUELTOS POLÍTICOS: IDEOLOGIAS

- Vice-Presidente da República
               No sistema eleitoral vigorante no Brasil, o vice-presidente da república e os suplentes de senadores são eleitos como uma consequência ou uma decorrência inevitável da eleição do Presidente da República e dos três Senadores eleitos em cada Estado e no DF.
                    Assim, o atual Presidente da República chegou a essa função de grande realce na estrutura do Estado Brasileiro porque Dilma Rousseff foi eleita Presidente. A disputa eleitoral democrática foi entre os candidatos a Presidente da República, não ocorrendo uma competição eleitoral entre os candidatos a vice-presidente, de vez que seria impossível ser eleito um Vice-Presidente que não fosse o candidato da chapa do Presidente eleito. Segundo as normas eleitorais anteriores ao sistema militar no poder, portanto, anteriores a abril de 1964 e de conformidade com a Constituição de 1946, os vice-presidentes eram eleitos independentemente da eleição do candidato a presidente com o qual se haviam candidatado formando uma chapa. O Presidente da República que era eleito, então, podia ter como Vice-Presidente um político que concorreu como candidato vinculado a outro candidato a presidente que não foi eleito. Foi o que aconteceu na eleição de Jânio Quadros, que teve como Vice-Presidente João Goulart, tendo este sido candidato na chapa em que o General Teixeira Lott foi o candidato a Presidente. Os eleitores, naquele tempo, votavam separadamente para Presidente e para Vice-Presidente. Na sistemática eleitoral atual, quando o eleitor vota em um candidato a Presidente, automaticamente, está votando no candidato de sua chapa a Vice-Presidente, mesmo que preferisse votar no candidato da chapa de outro candidato a Presidente. Assim, o atual Presidente da República do Brasil está ocupando esse alto cargo porque Dilma Rousseff foi eleita Presidente da República. Foi legalmente impossível votar em Dilma para Presidente sem votar em Temer para Vice.
 
- Ideologias
                    Nestes termos, o Vice-Presidente de Dilma Rousseff, que ocupa, presentemente, a Presidente da República, está empenhado em colocar em prática um projeto político e econômico capitalista neoliberal. O que este fato significa? É um engano supor-se que os partidos de esquerda são ideológicos e que o sistema econômico capitalismo é sem ideologia. Assim como o marxismo tem princípios ideológicos básicos que fundamentam seu projeto de Estado, o capitalismo também possui um arcabouço de cânones, que se constituem em um sistema ideológico orientador da organização do Estado e de seu funcionamento. A ideia fulcral que preside as postulações estruturais dos teóricos e da prática do capitalismo é a centralidade do mercado. A ele são atribuídos poderes orientadores de toda a vida em sociedade. Esta convicção se organiza na forma das leis do mercado. A mão invisível do mercado (Adam Smith). A sustentação do mercado se encontra no lucro, sendo este a diferença entre o valor do custo de produção e o preço de venda-compra do produto no mercado. Os dois vetores da produção são o capital e o trabalho. O capital pertence ao capitalista e a força-do-trabalho é atributo do trabalhador. Este produz financiado pelo capital, que ele alimenta com a sua produção. Em tempos de quarta revolução industrial, intervêm, nessa dinâmica produtiva, as novas tecnologias. A automação vai transformando aquelas relações de dependência entre o capital e o trabalho.
                    Houve o tempo mercantilismo, o do colonialismo europeu, seguido pelo do imperialismo capitalista, que desembocou na globalização. Houve os estados comunistas, há os estados sociais-democratas e os estados capitalistas liberais. Imperou o capitalismo selvagem. Veio o neoliberalismo. Estados comunistas surgiram e desmoronaram. A China está se tornando, surpreendentemente, um estado capitalista ditatorial comandado pelo Partido Comunista. Novas teorias explicativas destes fenômenos surgem.
                    Vivemos em um mundo capitalista, que teve sua origem nas revoluções agrícola e urbana, na passagem da Idade da Pedra Polida para as primeiras “civilizações" (com as Idades do Bronze e do Ferro). Há quem fale na "barbárie", como uma etapa intermediária entre a primeira e a outra, no processo social evolutivo. Lembrar que, quando se fala em “mundo capitalista” não se está idealizando uma humanidade que vive toda ela em um estado de progresso e desenvolvimento capitalista. Há uma parcela da população do Mundo que vive na prosperidade. Porém, veja-se a pobreza e a miséria presente em muitos países da África, da Ásia e do Continente Americano, onde massas humanas sobrevivem e sucumbem sofrendo: fome, doenças, falta de habitações, idem de saneamento básico, ausência de escolas, migrações em fuga etc. e... guerras. Há quem diga que nos grupos humanos da pré-história (e mesmo nas tribos indígenas do presente) prevalecia o “comunismo primitivo”. O dito "comunismo primitivo" não foi um comunismo. Era mais assemelhado ao anarquismo. Eles não possuíam estado. O fator organizativo que prevalecia era a reciprocidade.
                    A principal decorrência daquela híper valorização da potência do mercado está na instituição do Estado Mínimo. Este existe para agir em função daquele, garantindo seu funcionamento sem peias e sem limites na busca de mais lucros, que permitem, por um lado, o acúmulo de capital, e, por outro, os reinvestimentos. Nas sociedades de mercado, neoliberais, todos os setores que podem gerar lucro, por princípio estrutural e organizacional do sistema, não devem estar na esfera do estado, mas, sim, no setor privado, inclusive a educação, as aposentadorias, os seguros, as organizações do trabalho, as infras estruturas, a saúde etc.; a segurança, de certa forma, com a segurança privada.
                    Em um estado capitalista democrático, existem os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. O Poder Legislativo elabora as leis de proteção do mercado. O Executivo executa essas leis e mantém a segurança do funcionamento do estado e do mercado, e as relações diplomáticas e comerciais com os demais países. As Forças Armadas integram o Poder Executivo. O Poder Judiciário é o responsável pela Justiça e pelo primado do cumprimento das leis, principalmente, da Constituição. O Poder Judiciário fica fora da esfera de interesse orgânico do mercado, de vez que em seu funcionamento e em suas instâncias não há setores que propiciem lucro. Muito embora, o mercado possa se interessar pela administração de presídios, onde encontra mão-de-obra barata. No mercado se trava a batalha entre os competidores capitalistas, no interior das nações e no âmbito internacional.
- A Lista de Schindler
                    Considero equivocada a suspeita ou suposição de Schindler ter agido (pelo menos, inicialmente?) movido por motivos capitalistas e menos por razões humanitárias, ao salvar da morte uma grande quantidade de judeus. Do meu ponto de vista, ele arriscou sua vida (sendo ele, tb., um judeu) ao executar seu projeto, que considero ético, humanitário, para reduzir, mesmo um pouco, a matança humana. Não vejo em sua ação a decisão de explorar a mão de obra escrava de prisioneiros e (com isto) de buscar a obtenção de lucro. Parece-me que admitir essas possibilidades é adotar um viés anticapitalista na abordagem do caso de um homem que, independente de sua profissão e de sua etnia,   - repito -   arriscou a própria vida nessa empreitada humanitária. [Há na sociedade um estereótipo do judeu como uma pessoa avara (ora, avarentos os há em todas as etnias, em todas as nacionalidades, em todas as sociedades)].
Assim eu vejo a saga salvadora de vidas da lista de Schindler.

 

 

CAPITALISMO X NÃO CAPITALISMO (PARTE II) Em 01/05/2017

Eu vivo dizendo que o nazismo/fascismo são expressões do capitalismo. Eu e outros escrevemos esta verdade. Os países nazistas e fascistas foram Estados capitalistas.
Meu alerta de agora é o seguinte: A luta anticapitalista, como ela está sendo entendida por alguns, se concentra na revolução marxista/leninista.
Não se tenha ilusões, senhores que assim pensam. Se, neste momento sensível, o objetivo dos que valorizam a liberdade e a justiça social for o da substituição do capitalismo pelo comunismo, o nazismo triunfará. A instauração da revolução marxista/comunista demanda um processo lento, difícil e doloroso. Basta olhar para a história recente do Mundo.
Então, a luta, fundamentalmente, neste momento, para essas pessoas, deveria ser, sim: derrotar o nazismo!
20/01/2017
MARXISTAS/COMUNISTAS
A pergunta que eu faço é: Derrotar o capitalismo, para substituí-lo por qual sistema político-ideológico?
A Revolução Espanhola era uma revolução republicana contra o governo fascista do Franco. As frentes que desejavam as liberdades democráticas estavam juntas no enfrentamento com o militarismo fascista. A Igreja estava aliada a Franco. Nessa frente libertadora se encontravam grupos republicanos de muitas tendências entre os quais o PC. Porém, (faz parte da história) Franco, com o apoio do fascismo italiano e do nazismo alemão, derrotou a frente republicana pela democracia.
As lutas revolucionárias marxistas-comunistas ficam imbricadas aos líderes revolucionários. Na Russia, pouco depois da revolução de 1917, um golpe de estado (golpe no golpe) derrubou o social-democrata Kerenski, que havia assumido o poder com a queda da monarquia, e, em seguida, veio a divisão entre bolchevistas e menchevistas, todos comunistas, mas inimigos de morte entre si.  Stalin via inimigos na própria sombra e são conhecidas as trágicas consequências em meio ao PCUS. Estava instaurado o sistema político no qual se confundiam o governo do Estado, o PCUS e o Komintern (Internacional Comunista). Depois veio o 20º Congresso do PCUS com Gorbachov e seu relatório arrasador. E as águas continuaram rolando, com dirigentes incompetentes, até chegar o Kruchiov ao poder e, em seguida, as quedas dos dois muros, o de Berlim e o da Cortina de Ferro (do qual aquele fazia ideologicamente parte, como sua expressão material). No Brasil, verificaram-se as inconsistências dos dirigentes comunistas (apesar de alguns muito inteligentes, como o Marighella). Entre os dirigentes se destacava Carlos Prestes com seus erros e mais erros, sem nenhum conhecimento da realidade revolucionária, e suas aventuras estúpidas. Ele não chegou ao Poder e, hoje, os comunistas, divididos, estão mais atrelados aos governos do que a projetos revolucionários. Querem estar no Poder, seja ele de qual matiz ideológica for. É o caso de certos ministros, inclusive no governo atual da República.
Prestes, como Secretário Geral, nunca de fato teve em suas mãos as rédeas da direção geral partidária. Procurou viver o mito do “cavaleiro da esperança”, e apenas ele o manteve na função decorativa de direção partidária.
A história é longa e plena de gestos caracterizados pelo fanatismo ideológico cego e alienado da realidade.
Não é por aí que se vai enfrentar a onda neonazista!
21/1/2017
NÃO  ÀS  DITADURAS
Como dizemos, o capitalismo é um sistema com faces diversas que se espraiam por todo o Globo Terrestre e é poderosíssimo. Há dezenas de países capitalistas nos quais não há o nazismo organizado, nem o perigo dele se erguer. Enfrentar o capitalismo como um todo, como eu tenho dito, é um embate longo, difícil, demorado. Com esse andar do andor, com o passar do tempo, pode ser “perdida a guerra” com o nazismo! Podemos viver e conviver com países capitalistas não nazistas. Porém, o combate imediato é contra o nazismo, uma hidra que quer se levantar com toda sua potência maléfica.
O empenho contra o capitalismo como um todo não é a única luta dos que sonham e querem a justiça social para todos. Há sistemas e sistemas político-ideológicos. O nazismo é um deles e precisa ser combatido. Não se trata de uma luta onírica, de fanáticos. É uma luta de humanistas, de pessoas que cultuam valores, pessoas racionais, inteligentes, objetivas, com os pés no chão, que se empenham para atingir objetivos possíveis e concretos conforme prioridades temporais e conjunturais. A luta contra o nazismo não pode ficar para depois. O comunismo stalinista foi derrotado. O neonazi-fascismo é um mal a ser extirpado de imediato. Tenhamos em mente as ideologias políticas!
NÃO EXISTE APENAS O CAPITALISMO SELVAGEM! Além da defasagem no tempo da estratégia revolucionária preconizada por Marx (ele é um homem do tempo da revolução industrial!), um de seus maiores e dramáticos erros foi advogar a implantação da “ditadura do proletariado”.
Há sistemas econômicos-políticos-ideológicos-administrativos-organizativos-estruturais nos quais há a prevalência da justiça social, dos valores mais caros à Humanidade, com a plena vivência fulgurante da liberdade e da paz!!!
NÃO A TODAS AS FORMAS DE DITADURAS!!!
21/1/2017
SÁBIOS  HUMANISTAS  E  O  BEM  SOCIAL
Foi no congresso do PCUS que o secretário-geral partidário, Kruchiov, denunciou os crimes de Stalin.
Negar a possibilidade de se submeter personagens históricas à análise da ciência social, hoje, é negar a própria crítica historiográfica. Como esquecer os crimes brutais de Stalin e de Hitler?! Impossível! A humanidade não os esquecerá. Esse esquecimento valeria por uma compactuação com os que cometeram aqueles crimes e um perdão a esses personagens políticos, que devem ser condenados no tribunal da história. Conjunturas econômicas, políticas, sociais, presentes em momentos históricos, não justificam crimes contra a humanidade!!!
Podemos, tendo liberdade para tal, buscar construir sistemas políticos, acalentar ideologias e utopias. Porém, não nos esqueçamos de que os grandes sábios, os humanistas, ao longo da história, contribuíram para a constituição de modelos do maior resplendor em termos de justiça no convívio entre os homens. Não devemos cultivar negativismos ante as concepções do BEM, que devem prevalecer.
21/1/2017
OUTRAS  ALTERNATIVAS
Evidentemente o Congresso do PCUS foi o 20º, que se realizou em 24/25-2-1955. A partir daí, houve a debandada de grandes humanistas, que ainda estavam solidários com a revolução de 17. Khrushchev e Gorbachov, em momentos diferentes, se irmanaram no empenho de tornar o governo da URSS-PCUS/Komintern mais humanista, menos ditatorial, menos totalitário, liberando-se, também, da prática da eliminação cruel dos “inimigos internos”, coletiva e individualmente, estivessem onde eles estivessem. Até machado foi utilizado como arma nessas eliminações atrozes de vidas.
Sartre e Simone afastaram-se do PC. No Brasil, Jorge Amado, que, contratado pelo PCUS-Komintern, escreveu o livro de louvação “O Mundo da Paz”, deixou o PC. Como eles, muitos outros idealistas, humanistas, em todo o Mundo. Na URSS, o PCUS determinou a eliminação definitiva do “culto à personalidade” de Stalin, inclusive, retirando seu corpo do mausoléu onde se encontrava ao lado do corpo de Lenin, na Praça Vermelha.  Trotski, pouco antes de sua morte, escreveu um artigo que foi publicado na revista “Liberty”, no dia 10 de agosto de 1940, onze dias antes do assassinato que o eliminou da arena política (cf. http://www.socialistamorena.com.br/stalin-matou-lenin-por-leon-trotski/). Neste artigo, Trotski expõe a possibilidade de Stalin ter sido o responsável pela morte de Lenin, com o uso de veneno. Lenin havia sofrido três AVCs e estava vivendo em uma cadeira de rodas, dependente. Lenin, Trotski e Stalin eram os principais dirigentes do PCUS, então. Conviviam na cúpula do governo e do partido, e Lenin era o “primeiro-ministro” ou presidente da URSS. Stalin sugeriu a Trotski que eles mandassem administrar veneno a Lenin, para abreviar sua morte. Trotski se recusou a participar da ação criminosa. Havia a luta pelo poder. Com a morte de Lenin, Stalin assumiu a direção absoluta do partido e do estado soviético. Não demorou, em 21 de agosto de 1940, efetivou-se o assassinato de Trotski, a mando de Stalin, no México.
Na URSS se condenava a arte (“burguesa”) decadente; na Alemanha nazista era execrada a “arte degenerada” de autoria de judeus e comunistas. Obras majestáticas do gênio humano foram destruídas por esses regimes obscurantistas, totalitários.
Há no Mundo outros modelos de governos que são, esses, sim, respeitosos pela vida humana, pela criatividade de artistas, que, pela sua genialidade, transcenderam à dimensão do tempo e que fizeram sua trajetória das paredes e dos tetos das cavernas aos museus de arte do presente, deixando a marca de seu poder criativo. Foram muitos os gênios ao longo da história. Todos conhecem esses autores de “artes burguesas” e de “artes degeneradas”!
Há, existem, sim, outros caminhos para a libertação do homem das agruras, das injustiças, do terror e dos sofrimentos impostos em todos os sistemas desumanos, que foram engendrados como expressão do mal sobre a face da Terra!
29/04/2017
CORRUPÇÃO
Lembro que a ocorrência da corrupção é uma realidade que não tem relação com as classes sociais. Em todas elas podem ser encontrados corruptos relacionados a valores (pecuniários) roubados relativos a cada posição social. Mesmo assim, quando um bando rouba milhões de reais de uma transportadora, pode-se verificar qual é a origem social desses ladrões.  Da mesma forma, quanto ao ladrão de galinha, quanto ao que roubou uma caixa de fósforo, quanto ao pedestre que se apoderou de uma carteira de dinheiro que achou perdida no chão da rua etc. No caso brasileiro: o que aconteceu, ao longo da história, foi o uso de métodos aéticos para se apoderar do dinheiro público por aqueles que estavam em posições funcionais na sociedade e no Estado, que lhes permitiam essa apropriação indébita, sendo uns corruptores, outros corrompidos, outros corruptores e corrompidos, todos corruptos. Práticas como tais se naturalizaram, se tornaram “naturais” no manuseio do dinheiro e dos bens públicos em geral. Agir dessa maneira tornou-se a maneira "normal" de ser político, administrador, empresário, empreiteiro, legislador, membro do poder executivo. Normalizou-se o crime. A Odebrecht, que não é um convento de freiras, na vivência desse estado de coisas, resolveu facilitar a burocracia operacional, racionalizar a prática do crime, mediante o funcionamento de um departamento especializado.

 

 

CAPITALISMO X NÃO CAPITALISMO (CORRESPONDÊNCIAS) - Postado em 09/04/2017

12/01/2017
Caro,
concordo plenamente com a crítica que você faz pras desgraças aumentadas que o governo Temerário está causando, aliás, em grande medida, continuações lógicas dos governos do PT e utilizando a terra arrasada do petismo no terreno da luta dos trabalhadores
sobre o Ken Loach, gosto muito de alguns trabalhos dele, acrescentaria o Espirito de 45 ao Pão e Rosas como destaques positivos,
no entanto, penso que filmes como Terra e Liberdade, crítica ao Stalinismo, fazem um desserviço para a verdade e para a causa dos trabalhadores. Um amigo meu que estuda a Guerra Civil na Espanha resume a crítica de esquerda ao Stalin neste episódio assim: uma parte o acusa de não ter mandado armas pra guerrilha (causando assim a derrota) outra parte o acusa de ter mandado armas p guerrilha (não permitindo q esta se desenvolvesse por si e, causando assim a sua derrota).

aliás, um outro aspecto a destacar, citado nos linhas abaixo do seu primeiro email sobre o filme, é do 'surgimento da saúde coletiva na Inglaterra', que aprendemos nos livros daqui, mas que parece não corresponder bem à verdade, uma vez que a saúde como direito universal, o acesso real (e não só discursivo) a um sistema de saúde ocorreu pela primeira vez na URSS, causado pela revolução Socialista. O problema de jogar tudo fora no que aconteceu na URSS\Stalin é q jogamos fora a verdade e a nossa própria história (como bem estudou o Domenico Losurdo, em diversos livros - Fuga da História como destaque)
quanto ao pouco tempo, creio que não justifica a opção pela diminuição pra crítica, gastaria dois minutos pra localizar o tema (do Welfare State decadente) num cenário de determinação (pelo Capital, pelo Neoliberalismo, pela Queda do Muro (e, portanto, pelo fim da pauta imposta ao Capitalismo de Questões Sociais). Me parece antes um Programa Político restrito, do tipo sindical, limitado a uma parcela dos trabalhadores, de uma parcela de paises.
estou longe com esta crítica de desmerecer o conjunto do trabalho deste cineasta brilhante, estou apenas colocando uma crítica às opções teóricas que transparecem deste filme (e do sobre a Espanha na Guerra Civil)
Grande abraço,
(NÃO ESTOU AUTORIZADO A REVELAR QUEM É O AUTOR DA MENSAGEM QUE VEM ACIMA))
12/01/2017
 
Prezado.......
               Discutir o Stalin neste contexto em que se encontra o Mundo me parece falta de assunto, quando, em verdade, há muitos, sérios e graves temas a serem examinados!
Só uma pergunta: O Stalin é um intocável?
Um abraço.
Orlando

 

19/01/2017
 
Gente,
             Marx foi um filósofo, um sociólogo, um economista, um jurista e um revolucionário (todas essas qualidades reunidas, em verdade, nele) brilhante. Teve capacidade de analisar, interpretar e compreender a sociedade capitalista, tendo em vista o passado histórico e o momento da (segunda, terceira?) revolução industrial, quando, em verdade, foi semeado a capitalismo com suas leis desumanas, anti-humanas, que contêm o gérmen da formação de muitas sociedades que se caracterizam pela ocorrência de profunda injustiça social. O tempo passou. Certamente, os ensinamentos do pensador e revolucionário alemão perderam sua oportunidade prática. Ele, jovem, cometeu o engano estratégico de desenhar, para a sociedade que sonhava, a instituição da “ditadura do proletariado”, e tentou a prática revolucionária.
            Um alerta que faço: Nenhum homem ou grupo de homens, nenhum povo conquista a libertação de suas agruras sociais, econômicas e vivenciais sob sistemas ditatoriais. Daí se depreende  o grave equívoco da idéia da “ditadura do proletariado”. Proletariado se constituía (se constitui) em uma classe social. Se há a ditadura de uma classe, ela se exerce sobre outra ou outras classes. Ou seja, outra ou outras classes são subjugadas sob o poder da classe que detém o poder. Mas, a proposta do marxismo é a supressão das classes em oposição. Em um estado estruturado segundo o marxismo, existiria apenas uma classe, e essa não teria sobre quem exercitar a sua ditadura! Porém, trata-se da idéia do processo de construção do comunismo. Com a revolução vitoriosa, seria estabelecida a etapa dita “socialista” (fase em que se encontrava a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS). Fechou-se o muro e criou-se a cortina de ferro, para ser construído o “novo homem”. Apenas quando este já estivesse forjado é que ocorreria a sociedade comunista, sem classes, sem hierarquias, e mesmo, sem Estado. Esta a grande utopia comunista.
            Com a complementação de idéias e estratégias formuladas por outros pensadores revolucionários, outras práticas foram tentadas anos mais tarde (diga-se, no século XX). A sociedade humana continuou em sua marcha. Experiências, práticas, ficaram no passado. Depois da “Revolução de 1917” na Russia, comunista, veio a resposta do sistema capitalista dominante no Mundo pela via da implantação do fascismo na Itália, ainda na década de 20 e, do nazismo na Alemanha, a partir de 1933. A experiência prática do nazi-fascismo, pelos anti-valores, pela anti-ética, pelo culto aos ditames do mal, foi uma das maiores tragédias (que os cultores deste gênero literário me perdoem!) da vida do homem após a primeira revolução industrial.
            E chegamos a estes dias em que estamos vivendo. Ainda. Mais uma vez, o sistema dominante tenta implantar uma nova experiência-prática nas sociedades humanas, uma “nova” ordem. Ela se anuncia com as nuvens escuras que conduzem as tempestades. Não se trata de catastrofismo, de perda de perspectivas históricas, do medo desarrazoado. Não esqueçamos o “inferno” nazista. Ele é dos dias de muitos de nós. Observemos, objetivamente e sem ilusões, o que está acontecendo no Mundo. A humanidade tem superado imensuráveis desastres desumanos perpetrados pelos homens ao longo da história. Guerras, revoluções sanguinárias, escravização de povos por outros povos, genocídios. Mas, chegamos ao presente. Neste presente, líderes (lembrar do führer do “Reino de 1.000 Anos”!) egoístas, egocêntricos, preconceituosos, racistas, isolacionistas, dominadores, imperiais, sem compromisso com o bem da humanidade, têm em suas mãos a chave do futuro da humanidade, da sobrevivência ou da auto-extinção do gênero humano, as armas nucleares (atômicas, de hidrogênio). QUE FAZER? As armas revolucionárias de Marx são insatisfatórias para esse enfrentamento. As religiões seriam a renúncia da busca do enfrentamento.
É necessário que os homens e as mulheres, portadores que são da inteligência, da razão e da ética, se abasteçam dos mais puros e sublimes valores que o gênio humano engendrou na Moral, na Ética, no Humanismo, e, como combatentes do bem, se unam todos (a divisão só enfraquece!) na grande luta no enfrentamento dos Trump, das Le Pen, dos Putin, dos Assad e de outros “pequenos” Hitlers que estão crescendo no Mundo. O inimigo é poderoso! Será uma luta de David contra Golias! É necessário instrumentalizar as lições dos sábios e, com astúcia, entrar no combate, com estratégias que não contenham ilusões, saudosismos, facciosismos. Sabedoria! À LUTA!!!
Orlando
PS – Gente, como parte desta guerra, acabam de matar o ministro Teori!!
 
20/01/2017
Minha gente do coração,
            Um compromisso me impede de me alongar. Apenas poucas palavras e permitam-me ser direto e claro.
            O capitalismo está aí, seja ele neoliberal, como na maior parte do Mundo Ocidental, seja na forma muçulmana /países árabes /islâmica/religiosa ou laica, seja na forma “comunista” como a existente na China atual, ou na forma, vencida no século passado, do nazifascista, na Alemanha e na Itália.
            Nos dias que correm, movimentos neonazistas se erguem na busca da conquista dos poderes em diversos países.
            Como cientista social, estudei e estudo a luta do Partido Comunista para a conquista do poder. Em primeiro lugar, nesse partido, o grupo de dirigentes se divide em subgrupos adversários entre si, que se tornam inimigos e uns procuram eliminar os outros. Em segundo lugar, tem a ilusão de que as “massas” estão aderindo à sua luta revolucionária que visa à conquista do poder. Equívoco. Assim tem sido em todo a Mundo.
            A luta pela conquista do poder, empreendida pela extrema esquerda, colocada em primeiro plano, neste momento do Mundo, coloca em risco a Humanidade, porque divide a frente antinazista. A maioria dos antinazistas não quer um regime comunista, mas quer evitar o risco do nazismo implantado nos poderes de países. Na guerra contra o nazifascismo, no século passado, se uniram capitalistas e comunistas, os países ALIADOS, e, com esta estratégia, derrotaram o inimigo comum.
            Nos dias que correm, o enfrentamento, de forma imediata, é com a força neonazista que se levanta no Mundo. Lembremos que, nos campos de concentração e nos fornos de cremação, os nazistas sacrificaram judeus, comunistas, negros, ciganos etc.
Não nos dividamos, nós os antinazistas. Eu, pessoalmente, sou contra todas as formas de totalitarismos; mas, o neonazismo é o perigo emergente. Impeçamos a vitória do inimigo comum, o neonazismo!
            Com a vitória da liberdade democrática, todos terão oportunidade de, livremente, se empenharem em debates e ações a favor de suas utopias.
            O alvo para os petardos na atual batalha está muito claramente definido: o neonazismo,  que busca estar em ascensão!
Orlando Sampaio Silva

 

NO TEMPO DAS CATÁSTROFES - Em 23/03/2017

No sistema eleitoral vigorante no Brasil, o vice-presidente da república e os suplentes de senadores são eleitos como uma consequência ou uma decorrência inevitável da eleição do Presidente da República e dos três Senadores eleitos em cada Estado e no DF. Eleições diretas. As candidaturas dos Vices são vinculadas às dos Presidentes.
Assim, o atual Presidente da República chegou a essa função de grande realce na estrutura do Estado Brasileiro porque Dilma Rousseff foi eleita Presidente. A disputa eleitoral democrática foi entre os candidatos a Presidente da República, não ocorrendo uma competição eleitoral entre os candidatos a vice-presidente. Segundo as normas eleitorais anteriores ao sistema militar no poder, portanto, anteriores a abril de 1964, os vice-presidentes eram eleitos independentemente da eleição do candidato a presidente com o qual se havia candidatado em chapa. O Presidente da República eleito podia ter como Vice-Presidente um político que concorreu como candidato vinculado a outro candidato a presidente que não foi eleito. Foi o que aconteceu na eleição de Jânio Quadros, que teve como Vice-Presidente João Goulart, que foi candidato na chapa em que o General Teixeira Lott foi o candidato a Presidente. Os eleitores, naquele tempo, votavam separadamente para Presidente e para Vice-Presidente. O Vice-Presidente era eleito como um concorrente pessoal, independentemente do seu candidato a Presidente. Na sistemática eleitoral atual, quando o eleitor vota em um candidato a Presidente, automaticamente, está votando no candidato de sua chapa a Vice-Presidente, ainda que preferisse votar em candidato da chapa de outro candidato a Presidente. Assim, o atual Presidente da República do Brasil está ocupando esse alto cargo porque Dilma Rousseff foi eleita Presidente da República. Foi, legalmente, impossível votar em Dilma para Presidente sem votar em Temer para Vice.
                    O Vice-Presidente de Dilma Rousseff, que ocupa, presentemente, a Presidência da República, está empenhado em colocar em prática um projeto político e econômico capitalista neoliberal. O que este fato significa? É um engano supor-se que os partidos de esquerda são ideológicos e que o capitalismo e seus partidos integram um sistema sem ideologia. Assim como o marxismo tem princípios ideológicos básicos que fundamentam seu projeto de Estado, o capitalismo também possui um arcabouço de cânones, que se constituem em um sistema ideológico orientador da organização do Estado e de seu funcionamento. Políticos neoliberais “acusam” os esquerdistas de fazerem propostas ideológicas, como se as que eles fazem não fossem eivadas de conteúdos ideológicos.
                    O capitalismo tem sua teoria, e seu paradigma fundamental se encontra no “mercado”. Este é mitificado, quase objeto de culto religioso. A crença básica, nessa corrente de pensamento, é que o mercado por si é capaz de resolver todos os problemas do convívio dos homens entre si, na sociedade. “A mão invisível do mercado” (Adam Smith) atua na sociedade, no Estado como um deus todo poderoso ou como um demiurgo salvador. O Estado, nesse sistema, é um mero instrumento, para garantir a ação livre do mercado. Daí porque o Estado é quase descartável e o seria não fosse a necessidade do asseguramento da ordem pública para que o mercado atue com todo o seu poder. Estado mínimo. O capitalismo neoliberal não advoga a extinção do Estado. Propor sua eliminação o confundiria com o anarquismo. Na sociedade, todos os organismos sociais capazes de produzir lucro   - segundo a lógica do mercado -, não devem fazer parte do Estado, mas, sim, têm seu lugar na dinâmica do mercado, ente privado, particular, não estatal. A saúde pública, a educação pública, os transportes públicos, as estradas, os aeroportos, as riquezas do solo e do subsolo, as terras, as águas, os esportes, os meios de comunicação, o lazer, etc. são entes sociais que produzem lucro. Não importa se são bens e direitos a serem desfrutados pelo povo em geral. Seu lugar, pela lógica do capital, é o mercado, são os setores privados. Ao Estado, concebido no modelo neoliberal, caberia, na Presidência da República, a função de Chefe de Estado e seu representante simbólico nas relações internacionais, e, funções tais como a diplomacia, a segurança nacional e defesa da soberania com a presença das Forças Armadas, o Poder de Polícia interna, a de mantenedor da “ordem para o progresso” assegurador das condições para o funcionamento da dinâmica do mercado, e muito pouco mais.
                    O mercado, enquanto entidade estrutural dinâmica, tem no capital e no trabalho suas forças propulsoras, a energia para seu movimento construtivo. Assim, as sociedades capitalistas neoliberais têm dois grandes estamentos populacionais: os detentores do capital e os que possuem a força do trabalho, interdependentes entre si. O capital é alimentado pelo lucro (ou a mais valia), que decorre, em uma explicação simples, da diferença entre o custo da produção e o preço pago na sua venda. Quem produz é o detentor da força do trabalho, o trabalhador. O processo produtivo é financiado pelo capital. Este é alimentado pelo lucro. Quanto maior a diferença entre o custo e o preço de venda do produto, maior o capital. Esta diferença é tanto maior quanto menor for o custo. Assim, para o detentor do capital importa produzir com o menor custo possível. Esta é a racionalização da produção. Para assegurar esta meta básica, o detentor do capital reduz ao máximo possível a remuneração do trabalho do detentor desta força. Quanto menores os salários e demais direitos dos que produzem com o uso da força do trabalho, menor o custo da produção e, consequentemente, maior é o lucro que alimenta o capital e propicia o seu acúmulo. Neste padrão de organização social, os direitos fundamentais dos trabalhadores    - as leis trabalhistas [a Justiça do Trabalho, em consequência], salários compatíveis com a quantidade e a qualidade do produzido, aposentadoria, repouso, assistência à saúde e à formação no sistema educativo, o lazer, a pensão das viúvas, o auxílio à maternidade, as creches, o transporte dos trabalhadores, a alimentação etc. -    são consideradas quezilas ideológicas dos esquerdistas. Esses direitos regulados pelo Estado, nesse sistema, são obstáculos à ação livre do mercado. Se direitos houver, nesse sistema, eles são regulados pelos interesses e pela racionalidade do mercado. Neste, é privilegiada a negociação entre os poderosos detentores do capital e os frágeis integrantes da força do trabalho, para o estabelecimento de “direitos” de ambas as partes, sem a regulação de legislação e sem a intervenção incômoda da Justiça. O mercado estabelece os direitos e os atribui segundo sua racionalidade. Daí a terceirização, que precariza o trabalho. A reforma da Previdência pretendida e a prevalência da negociação entre patrões e empregados sobre a legislação trabalhista.

 

 

CORRESPONDÊNCIAS; LUTAS  DE  INDÍGENAS E DE RIBEIRINHOS; CARNAVAL; O HOMEM PRÉ-COLOMBIANO; ÍNDIAS; O JUDICIÁRIO E A ÉTICA; ARTE CLÁSSICA

Nesta oportunidade, trago a esta página, mais uma vez, diversos temas relevantes, que são apresentados em textos curtos. Conforme a seguir:
  1. Correspondências -
Meus queridos filho Márcio e nora Ariani,
                  Considero que a Imperatriz Leopoldinense e todos vocês que participaram desse projeto majestoso prestaram a mais simbólica homenagem aos povos indígenas, que já se concretizou em nosso país.
                    Inteligente, artística, criativa, extremamente significativa, de grande beleza, deslumbrante. O desfile carnavalesco do sambódromo carioca (minha homenagem ao idealizador e concretizador desta obra, Darcy Ribeiro) é um mega-evento que integra uma festa, que já foi dominante e originariamente popular, mas que, com o passar do tempo, se tornou quase um inacreditável por ser grandioso espetáculo capitalista, que está voltado para o Mundo, como um instrumento de atração turística, de interesse de empresas financiadoras, de hotéis, de companhias de aviação, da imprensa principalmente a televisiva. Trata-se de uma festa báquica antiga, que é praticada por muitos povos em culturas diversas. Apesar do caráter comercial e da indústria do carnaval, a centralidade temática do desfile da Escola de Samba “Imperatriz Leopoldinense”, com a presença de numerosos representantes indígenas de diferentes grupos étnicos, inclusive com a figura mítica do tuxaua-pajé Rauni e outros líderes, participantes com efetivado destaque na apresentação, é de grande significado humanístico, político e antropológico. A entidade carnavalesca adotou a posição de solidariedade com as causas indígenas, dos ribeirinhos, da Amazônia e do povo brasileiro, que testemunham o avanço do agronegócio sobre as terras do interior do país, destruindo ecossistemas, inclusive a floresta amazônica. Concomitantemente, o projeto desenvolvimentista dos governos promove ao primeiro plano das prioridades nacionais a produção de energia elétrica, com a construção de dezenas de barragens-usinas, sem levar em conta o mal que está causando às sociedades particulares, indígenas e não indígenas, que são destroçadas de roldão com  avanço das obras. A exploração das riquezas naturais vegetais e minerais por empresas nacionais e estrangeiras, estruturadas ou marginais à lei, vai transformando a Amazônia, com seu manto florestal e hídrico, no Saara Amazônia. Isto eu tenho dito em diferentes oportunidades e imagino que, em cinquenta anos, se não houver mudança de rumo, o Brasil, Mundo e o povo brasileiro entristecido constatarão a concretização desta antevisão, que não é pessimista, é realista, objetiva. O progresso-desenvolvimento capitalista não tem ética, não projeta tendo em vista as realidades concretas do povo e suas necessidades prementes; apenas, o interesse no lucro desvairado. 
                  Pois bem, a Imperatriz Leopoldinense é um agrupamento musical, de expressão carnavalesca, originariamente da Região da Leopoldina, subúrbio carioca. Sua origem é popular. O povo permanece nela, muito embora, a grandiosidade do espetáculo exija a participação dos patrocinadores, dos que financiam. Não importa. A entidade se engajou em uma ação de enfrentamento com os inimigos dos povos indígenas e do povo brasileiro como um todo.
                  Parabéns à “Imperatriz Leopoldinense”, à você Ariani e a ti, meu filho Márcio, que têm participado, tão valentemente e com grande idealismo pleno de sentimento humanista e de solidariedade, dessa jornada épica do povo brasileiro contra seus inimigos.
Beijos do pai e sogro
Orlando
                    Oi pai, obrigado pela tua mensagem. De fato foi uma experiência forte e inesquecível participar desse desfile: a Ariani na avenida e eu na plateia, apoiando com entusiasmo. No dia anterior estiveram conosco (em nossa casa, onde comemos uma peixada feita pela Ariani) a Antonia Melo (principal líder ribeirinha da região de Altamira), Bel Juruna (da aldeia Miratu, da Volta Grande), Alessandra Mundurucu e Valdenir Mundurucu. Foi um dia maravilhoso com essas pessoas que são batalhadoras 24 horas por dia todos os dias do ano. Pessoas dignas e cheias de carinho e energia que lutam por um mundo justo, como canta o enredo da escola. Elas são vítimas, mas mais do que tudo, são batalhadoras. A invisibilidade que a nossa sociedade sempre impôs às figuras dos indígenas foi quebrada, ainda que por alguns momentos apenas, por esse gesto da Imperatriz Leopoldinense. Neste momento específico, de um Governo ainda mais genocida do que os que o precederam, esse gesto é fundamental. E a avenida recebeu a mensagem de modo entusiasta e aberto. Muitos cantaram juntos e todos se contaminaram por essa mensagem. A força do samba não pode ser desprezada. Foi um gesto importante. Um momento histórico nessa luta. Mas ela continua, com novas energias, mas consciente dos terríveis perigos e desafios desta era fascista que despreza tudo o que não é puro capitalismo. E os indígenas são a configuração mais perfeita do que é o oposto do capitalismo, seu inteiramente outro!
Um beijo do filho
Márcio
 Prof. Dr. Márcio Seligmann-Silva - Professor titular de Teoria Literária - Instituto de Estudos da Linguagem, IEL - Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP - Professor of Literary Theory and Comparative Literature - Rua Sérgio Buarque de Holanda, n. 571 CEP 13083-859 - Campinas - SP – Brasil - m.seligmann@uol.com.br
 
         
  1. O Homem Pré-Colombiano -
 
                    Vi um material fotográfico e cinematográfico, e textos sobre geoglifos, que são impressionantes e revelam (descobertas de) sinais da presença de sociedades humanas na região do Acre e circunvizinhança há mais de mil anos.
Os "geoglifos" são formas megas de expressões "gráficas" dessas populações; elas "escreviam" na terra (intencionalmente ou não) com o seu trabalho com formas artísticas. As artes indígenas, em diferentes povos, apresentam belíssimas formas artisticamente elaboradas, com simetria, algumas na forma de "gregas". Portanto, não nos deve surpreender essa simetria artística presente nessas escavações cujas fotos foram agora divulgadas.
                    Essas obras pedem leituras diversificadas. Elas se constituem em "textos" a serem desvendados pelos estudiosos, pelos arqueólogos. Restos de carvão antigo encontrados e retirados nestas/destas escavações permitiram a elaborações de datações, que revelam a antiguidade de seu uso, portanto, da presença do homem aí em um passado muito remoto. Com quais objetivos essas sociedades arcaicas realizaram obras como tais? Evidentemente, elas exprimem a presença antiga evidente de sociedades humanas. Por onde o homem passa ele deixa as suas marcas, que no futuro, valem como provas, testemunhos de sua vida no local: estes "geoglifos" podem estar associados a restos de fogueiras, ossadas em cemitérios, restos de alimentos, esqueletos de animais usados na alimentação, objetos líticos de uso diário esculpidos ou não, pontas de flechas, cortadores, raspadores, almofarizes, cerâmica etc. e, quem sabe, ruínas ou restos, sinais de habitações, vestígios do passado que podem ser interpretados e que podem revelar narrativas referentes aos povos que os construíram, qual/quais a/as função/funções  destas escavações com formas predefinidas, planejadas?  Funções práticas? Funções cerimoniais? Silos, locais para habitações, fortificações para a guerra defensiva, fossos protetores contra invasões, delimitações de locais para práticas religiosas, cultos aos deuses etc.?
                    Quão grandes quantitativamente eram essas populações, que se espraiaram por uma área tão extensa. A realização de obras de escavações tão imensas demandava o trabalho de muitas pessoas. Estas seriam senhores ou populações escravizadas a eles? Os Íncas utilizavam a mão-de-obra de outros grupos submetidos.
                   Constatações arqueológicas como essas sobre os "geoglifos" do Acre e áreas vizinhas podem nos levar às especulações a respeito dos povos que habitaram a Ilha do Marajó, onde eles construíram grandes montes de terra    - os "tesos" -, que foram usados com fins cerimoniais, cemitérios. Os povos "marajoaras" deixaram belíssimos exemplares de cerâmicas decoradas, sendo que muitas delas eram utilizadas como urnas funerárias. Esqueletos humanos foram encontrados em seus interiores.
                    Nosso país, o Estado Brasileiro tem tido, ao longo da história e no presente, pouco cuidado com tudo que diz respeito aos povos indígenas, ao passado pré-histórico e histórico dessas sociedades. O avanço do "progresso" econômico da "sociedade nacional" nos nossos interiores leva de roldão terras indígenas, sociedades indígenas, suas artes, os vestígios e testemunhos do passado.
                    Esperemos que as pesquisas ainda consigam desvendar muitas dessas incógnitas do passado remoto e que o Brasil, enfim, proteja esse patrimônio que é brasileiro, mas que também é da Humanidade.
 
 
 
  1. Índias esmoleres -
                    Ainda ontem (uma tarde de fevereiro/2017), encontrei, no velho centro da São Paulo, duas índias Guaraní, cada qual com seu pequeno filho, pedindo esmola, sentadas nas calçadas. Perguntei a uma delas a qual aldeia elas pertencem. Resposta: Aldeia Jaraguá (na periferia de São Paulo, junto ao Pico do Jaraguá). Há sessenta anos testemunho este espetáculo trágico das esmoleres guaranis nas ruas do São Paulo. É triste.
  1. Poder Judiciário –
                    A esquerda tenta desmoralizar o trabalho do Judiciário, aí incluído o juiz Moro, no caso da Operação Lava Jato!!! O Judiciário é o único setor do Estado Brasileiro em que se pode confiar nesta fase da história deste país. Há erros? Há. Todos são humanos. Porém, apenas esse Poder da República está se firmando como o único sustentáculo da ética, da justiça e das esperanças para o povo brasileiro. Se não prestigiarmos o Judiciário, então, estamos condenando o Brasil ao domínio do caos anômico, no qual todos se locupletam e que segue ladeira abaixo na queda no abismo irreversível. Orlando Sampaio Silva
  1. Mural Romano
                    Imagino que esse mural (erótico) de extrema beleza seja do Império Romano. Certamente um casal de deuses! Eles estão coroados com louro! Os deuses greco-romanos tinham a vantagem da eterna juventude. Eles, deuses e deusas, usavam o elixir restaurador, recuperador (ambrosia).
                    Note-se a técnica pictórica, as formas, o sábio uso da luz, as cores, o rigor na perspectiva (lembrar que os egípcios, mesmo os contemporâneos dos romanos antigos) não conheciam a perspectiva, o que se percebe em sujas pinturas, principalmente de corpos humanos). Os romanos criaram uma arte que veio a renascer, um milênio e meio depois, no Renascimento, com grande perfeição e genialidade.

 

NATAL - ANO NOVO - Em 11/01/2017

No Natal se comemora o nascimento de Jesus Cristo
 
Este nascimento marca o início da Era Cristã, ou seja, o tempo, no Mundo Cristão, que passou a ser medido como a.C. e d.C. Portanto, o primeiro dia do ano deveria ser o dia 25/12, o em que se comemora o nascimento. Não é por causa do calendário gregoriano (cristão; adotado pelo papa Gregório XIII  - 1502-1585 de nossa era), no qual o ano começa no dia 1° de janeiro. Por quê? Porque, quando Jesus nasceu, vigia outro calendário, o juliano (romano; adotado por Júlio César – 100-40 a.C.), e a data do nascimento de Jesus ficou uma incógnita segundo esse calendário romano. Mas, foi estabelecido, na tradição cristã, que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro. Por quê? Aí vêm duas questões: a) pelos dados bíblicos, Jesus teria nascido no solistício do inverno, levando em conta, além da posição do eixo da Terra, na época, também, a localização dos astros, como eles eram vistos, e o aparecimento, então, de um cometa, sendo estes dados da realidade (conhecidos pelos astrônomos do presente), que teriam orientado os Reis Magos na sua busca da gruta do nascimento; b) os judeus comemoram, deste os tempos antigos, bíblicos (desde a criação, desde a origem?), no Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico. Esta celebração é uma festa móvel que, no presente, cai em setembro-outubro. Jesus e sua família, judeus, comemoravam o Rosh Hashaná no solistício do inverno. Com a substituição do calendário juliano pelo gregoriano pelos cristãos, foi, então convencionada a celebração do nascimento para o dia 25/12, em uma combinação da tradição judaica com a questão do solistício.
A árvore de Natal e o Papai Noel são duas tradições diferentes e paralelas. Ambas se reportam ao extremo Norte do Globo Terrestre, em fases arcaicas, relacionadas com crenças, lendas e rituais de povos bárbaros, ou pagãos, ou não cristãos. As duas tradições se localizam, em sua origem, no Norte da Finlândia, terra dos Lapões. A Finlândia tem florestas de pinheiros. Aqueles povos primevos celebravam o solistício de inverno em torno da árvore símbolo, o pinheiro, exatamente na época de sua ocorrência. De lá se expandiu para o Mundo, sempre a árvore (pinheiro) coberta de "neve", que é exposta justamente nesta época do ano.  A árvore de Natal não teria, originariamente, um significado religioso cristão. É um elemento de decoração adotado do exterior (em relação ao Brasil), principalmente por influência do cinema e da literatura. Acompanhei a introdução e o aumento paulatino de seu uso nas comemorações do Natal, em Belém. Antes elas, as árvores de natal, não existiam na época do Natal. Nas casas eram instalados presépios. Depois, as árvores foram sendo colocadas ao lado dos presépios.
Já o papai Noel tem origem com a vida de São ou Santo Nicolau, ou Santa Claus, ou Santa Klaus (trata-se da mesma pessoa). Foi um bispo católico que, no Séc. IV, tinha o costume de distribuir presentes às crianças, no Natal. Ele viveu, também, nessa região do Norte da Finlândia (que é disputada pela Russia, daí porque diz-se que Santa Claus era russo).
Noël é natal, nascimento, em francês. Papai Noël é papai Natal, Papai Nascimento (de Jesus). O papai Noel saía de sua casa em um trenó puxado a renas (animais naturais daquelas regiões geladas), para distribuir os presentes às crianças. Este ser tornou-se uma figura lendária, cujo trenó alçava vôo em sua caminhada distributiva pelo Mundo. As crianças de todo o Mundo passaram mesmo a escrever cartas a papai Noel, fazendo seus pedidos de presentes. Papai Noel entraria sorrateiramente pelas chaminés das casas para fazer a entrega dos presentes, enquanto as crianças dormiam. Veja-se, casas com chaminés, normalmente, só existem em áreas em que o inverno é uma estação muito fria, nas quais existem lareiras. O ritual do papai Noel tornou-se um segredo misterioso para as crianças, que, ao acordarem, encontravam seus presentes sobre seus sapatos, junto às suas camas (ou debaixo das redes de dormir nos lugares em que há esse costume), ou nas janelas das casas sobre os sapatos, ou ainda, sobre os sapatos junto às lareiras, depois, junto às árvores de Natal. O curioso é que existe, mesmo nos dias correntes, uma pessoa, que vive na Lapônia finlandesa, que diz ser o papai Noel, assume esse papel lendário e que faz a representação anual da distribuição local de presentes e que recebe cartas de crianças de todos os continentes. Mas, os pais    - o verdadeiros papais Noéis -    sempre procuravam manter aquela aura misteriosa, o segredo, em torno do personagem papai Noel, buscando preservar uma mística de inocência e pureza na crença de seus filhos. Nos dias atuais, marcados pelo laicismo, esta tradição vai sendo desfeita mediante a revelação às crianças de quais são os verdadeiros Papais Noéis. E o comércio adotou a figura do homem gordo e sorridente, de longas barbas brancas e vestida de roupa para o frio vermelha, como instrumento de propaganda comercial.
Reveillon, na língua francesa, se refere a acordar, despertar, pode ser ver um novo dia. Daí essa palavra  francesa "reveillon", que é utilizada para referência à passagem do Ano Novo. Ora, Ano  Novo significa o aniversário do início da Era Cristã, ou seja, o nascimento de Jesus.
Assim, as festas do Natal e do Ano Novo são a mesma celebração, ou seja, é a celebração do mesmo evento, o nascimento de Jesus Cristo. O costume de dar presentes às crianças no Natal, desde São Nicolau, tem a ver, de forma originária, com a tradição da visita dos Reis Magos à gruta em que Jesus nasceu, onde ofertaram presentes ao recém-nascido. Era o Natal! Em consequência, santo Nicolau instaurou o gesto da doação de presentes às crianças. Daí ficou o costume, no Mundo Cristão, da distribuição de presentes às crianças no Natal.  Depois, entre pessoas de qualquer idade! Pessoas de outras religiões também costumam adotar essas comemorações e, dar presentes nestes dias da festa de Natal-Ano Novo. Pessoas livres-pensadoras, agnósticas, atéias, também. Trata-se de uma festa humana de confraternização que se universalizou.
Famlílias judaicas realizam a mesma festa, na mesma época. Comemorando o que? O nascimento de Jusus? Não. Esta celebração festiva se tornou uma prática ocidental, de confraternização, que, em alguns casos, perdeu o cunho religioso cristão. Como eu disse, o Ano Novo judaico é comemorado no Rosh Hashaná. Os judeus estão  no ano  5.777, enquanto nós estamos chegando ao  2.017 (da Era Cristã). Outro ritual judaico, o Yom Kipur (arrependimento, perdão), é celebrado junto com o Rosh Hashaná. Tem a ver com o arrependimento e o pedido de perdão a Deus, via Moisés, pelo culto ao bezerro de ouro pelos Hebreus, na caminhada de retorno à Terra Prometida.
Na França, já em tempos remotos, a figura do Santo Nicolau ou Santa Claus passou a ser denominada de Papai Noël. Daí, em português, papai Noel. Outros países mantêm o Santa Claus ou Santa Klaus. E há outros nomes para o mesmo personagem. Trata-se de uma tradição antiga que veio a ser instrumentalizada pelo comércio, para estimular as compras no Natal.
Quando eu era criança, havia o papai Noel; quando meus pais eram crianças (eles eram do Séc. XIX), havia o papai Noel.

 

 

ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS - Em 14/11/2016

Se considerarmos a já desgastada dicotomia esquerda X direita, nenhum dos dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, na eleição recém-realizada, é de esquerda. Reservamos essa classificação ideológica para a verdadeira oposição binária: nazismo X democracia. Aqui, sim, o nazismo é a síntese da extrema direita, e a democracia é o reino da liberdade. Com a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética, o comunismo    - a síntese da extrema esquerda -    se tornou uma utopia do passado. O que restou vem passando por transformações estruturais, que pouco a pouco vai modificando antigos padrões marxistas, que deixaram de se contrapor a muitos cânones capitalistas; haja vista o que está ocorrendo na China e em Cuba. Que tal, empregar-se a clássica categorização político-ético-social: conservadores X progressistas? Trata-se de um esquema classificatório rico em possibilidades. No campo da democracia há diversas opções programáticas, tais como a democracia liberal, a social democracia, o socialismo democrático. A democracia liberal, preservando a marca libertária, reveste-se de traços característicos do capitalismo, podendo adotar o “capitalismo selvagem”, o neoliberalismo.

Nos Estados Unidos de Franklin Delano Roosevelt, com o New Deal de inspiração (e constituição) keynesiana, este estado capitalista do norte, no pós-crise de 1929 e como um estado “aliado” na II Grande Guerra e até alguns anos posteriores, adotou um sistema muito próximo da social democracia. Nos oito anos de Barak Obama no poder, este presidente novamente tentou administrar para toda a população, beneficiando o conjunto dos norte-americanos, inclusive os da classe média baixa e os pobres; mas, o Congresso, com a maioria conservadora republicana, impôs obstáculos à concretização do projeto social do presidente democrata.

Na eleição para presidente da república, concluída no último dia 8 de novembro/16, no país capitalista Estados Unidos da América do Norte, os dois candidatos eram adeptos do livre mercado. Lembre-se que os EE.UU são uma democracia neoliberal. Desde a sua constituição, com a independência, jamais se instaurou nesse país uma ditadura no poder; nem mesmo, um governo monárquico, pois o sistema político dominante é republicano desde o seu nascedouro; muito menos, um governo militarista, mesmo quando generais governaram o país, como nos casos dos governos de Washington e de Eisenhower. É o paraíso do livre comércio. Quando, por um lado, a URSS praticava o expansionismo ideológico dominador sobre outras nações, por outro lado, os EE.UU executavam uma ampla política capitalista-imperialista, no mundo.

Este cenário de oposições de interesses econômicos, ideológicos e mesmo territoriais, que dominaram o palco da guerra-fria, em nossos dias, está revestido das tonalidades de um sistema de inclusão/exclusão mundial conhecido como mundialização ou, mais freqüentemente, como globalização. Foi neste último palco que os cidadãos norte-americanos elegeram seu novo presidente de república. Ambos os candidatos eram conservadores, um menos (Hillary), outro mais (Trump). Hillary Clinton, se eleita, procuraria preservar os valores e ideais da democracia neoliberal do Partido Democrático, que outros presidentes pertencentes ao seu partido cultivaram, como ocorreu no período do governo de seu esposo Bill Clinton. Daria prosseguimento, certamente, ao estilo mais dialogal da diplomacia que praticou como Secretária de Estado no governo que ora termina. Donald Trump, o presidente eleito, inapelavelmente, tem compromissos com o neoliberalismo, com o “capitalismo selvagem” preconizado por seu Partido Republicano.

Falastrão, como um comediante de mau gosto, uma figura de ópera bufa, burlesca e patética, com suas pantomimas, em uma peça farsesca ou tragicômica, em trampas de mau gosto, lançou sobre o povo idéias de propostas, de projetos grotescos, como a construção do muro na fronteira sul do país, dizendo que o México pagará pela despesa da construção (!), e como a ameaça de repatriação de imigrantes ilegais, ao invés de, primeiro, tentar legalizar os viáveis; proibir a entrada de muçulmanos no seu país, independentemente de serem ou não terroristas; o anúncio do rompimento dos compromissos norte-americanos firmados no tratado do clima de Paris, e o retorno ao uso do carvão como combustível, em grave ameaça ao ecossistema mundial. Trump diz - contrariando as constatações científicas ao redor do Globo Terrestre -   não haver correlação entre ações humanas e o aquecimento global! A ameaça de substituir as negociações diplomáticas pelo uso da força do capital e das armas nos entendimentos e nas contendas entre seu país e os outros estados, no cenário internacional, etc. Não foi à toa que a indústria armamentista apoiou a candidatura de Trump.

Trata-se de um ser preconceituoso, racista, que despreza os afro-descendentes. Seu universo mau conhecido se encontra no interior dos limites fronteiriços de seu país. Ao sul do Rio Grande, a América Latina é o quintal dos Estados Unidos e, muito provavelmente, vai procurar se informar quem é o presidente de um país situado na América do Sul chamado “Buenos Aires, cuja capital é o Brasil”...

Muito provavelmente, a Amazônia e, em conseqüência, a soberania nacional do Brasil, estarão correndo grave risco em face das ambições de setores retrógrados expansionistas da potência do norte. Há a possibilidade da retomada prática da Doutrina Monroe, em uma versão ultranacionalista e expansionista, dominadora. 

No âmbito internacional, os líderes mundiais, convivendo há oito anos com o democrata progressista Barak Obana na presidência norte-americana, estão em grande expectativa diante do dirigente que se anuncia. Trump promete que romperá com o tratado assinado com Cuba, em um grande retrocesso no processo de paz continental. Trump recebeu, na Flórida, os votos dos refugiados cubanos e seus descendentes já autorizados a votar, refugiados chegados ao país em fuga da situação política da Cuba pós-revolução. Hillary foi votada pela maioria dos demais hispanos. Trump venceu na Flórida.

O fato de a candidata democrata ser mulher deve ter pesado na opção eleitoral dos americanos. Hillary seria a primeira mulher presidente do país.

O presidente eleito tem relacionamento cordial com o presidente russo, Putin, traço político que, por um lado, desperta otimismo, já que pode provocar o distanciamento das tensões vividas pelo mundo na guerra-fria, uma vez que Rússia e Estados Unidos são as duas maiores potências atômicas sobre a face da Terra. Porém, por outro lado, na estratégia geopolítica mundial, pode aproximar os EE.UU do ditador Bashar Assad, da Síria, que é apoiado, incondicionalmente, por Putin. Estas pedras no jogo político mundial, assim colocadas, contêm a ameaça de favorecer a permanência do ditador sírio no poder e de provocar o massacre do povo sírio, que luta pela liberdade. Também, desconhece-se qual será a atitude do novo presidente em face do Califado-Estado Islâmico e, da luta contra o terrorismo internacional e interno, fatos que deixam o Oriente Médio e o Planeta em grande insegurança. Desconhece-se qual será o posicionamento do governo Trump vis-à-vis o da China.

O eleitor norte-americano deve ter votado da forma que votou motivado por diferentes fatores. O candidato vencedor anunciou, na campanha, que “fará a América grande novamente”, reerguerá a Grande América (lembrar dos planos de Putin de refazer a Grande Rússia dos tempos dos Czares e da URSS!); o cansaço com um governo democrata de oito anos e a tradição norte-americana de alternância no poder dos dois grandes partidos, o Democrata e o Republicano; em uma população de maioria protestante de origem puritana, registra-se a permanência do american dream que valoriza o self made man, que admira a conquista do enriquecimento pessoal a qualquer custo, o “vencer na vida”. Trump, em acréscimo, prometeu trabalho aos desempregados, principalmente, nas áreas das indústrias e cidades decadentes (como em Detroit).

No caso Trump, a história não foi bem assim, de conformidade com aqueles padrões do “sonho americanio”, de vez que ele é de origem rica e tornou-se um multibilionário em decorrência de suas aventuras bem sucedidas em diferentes campos da economia especulativa de seu país. Grandes construções de edifícios, torres Trump, hotéis, fundou uma cidade e erigiu verdadeiro palácio para o jogo em Las Vegas, cassinos;  investiu na  área imobiliária etc. Articulou-se e se associou com mafiosos; criou um império na media, inclusive com emissora de televisão, na qual dirigiu pessoalmente um programa de grande popularidade.

A Ku Klux Klan apoiou a candidatura republicana!

Em um grande retrocesso, Trump ameaça desbaratar as poucas conquistas de Barak Obama na área social, tal como o Obama Care. Curiosamente, Trump obteve a maioria dos votos populares, na população menos escolarizada, de renda média e baixa, e moradora em cidades médias e pequenas. Hoje com 70 anos de idade, na juventude, foi militar, fez a Academia Militar, foi para a Viet Nan na guerra, mas não chegou a combater por contra-indicação constatada no exame de saúde, e voltou. Passou à atividade empresarial com a ajuda financeira inicial de seu pai. Foi candidato à presidência sem ser um político no sentido tradicional. Nunca ocupou um cargo público, pois sempre atuou no setor privado. É um new face na política. Nesta eleição, para os eleitores, ele representa a figura do empresário bem sucedido, o não político partidário  característico nas eleições americanas. O caso político Trump faz lembrar a vitória recente, na eleição para prefeito de São Paulo, do candidato pelo PSDB, um empresário bem-sucedido, que não é um político tradicional.

Como candidato, Trump prometeu, na sua política internacional, revisar os tratados assinados, políticos e comerciais; projeta ser seu governo isolacionista, política, militar e economicamente, em face do resto do Mundo. Referiu, no âmbito dessa política, da possibilidade da retirada da esquadra norte-americana da região do sudeste asiático, uma área vulnerável, que vive sob grande tensão pela existência de disputas territoriais e econômicas latentes e expressas, além das rivalidades históricas; região do globo em que são personagens países tais como o Japão, a China e a Coréia do Norte. O Japão está assustado ante esta política isolacionista. Qual será a política americana para o Sudeste asiático, onde, há décadas, os EE.UU registram a presença de suas forças militares, principalmente nos mares? Ainda é uma incógnita qual será a estratégia do novo governo no setor das armas nucleares. Promete rever o tratado nuclear assinado com o Irã. Essa política de distanciamento anunciada por Trump se correlaciona, no mapa da estratégia geopolítica internacional, com o brexit, que está levando a Inglaterra a se afastar da Comunidade Européia. Os dois eventos podem enfraquecer o sistema de segurança entre os Estados, no complicado tabuleiro dos interesses no âmbito da Globalização. O equilíbrio da Paz Mundial, recebendo esses impactos, deixa os povos de todo o Mundo em sobressalto. 

O Partido Republicano, de Trump, adota princípios e valores neoliberais e ultraconservadores. Porém, seguindo a tradição democrática norte-americana, o Mundo não corre o risco de ter, com Trump, uma ditadura nos Estados Unidos. É evidente que está ocorrendo uma inflexão ideológica à direita, como em alguns outros lugares do Mundo. Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, expressou seu regozijo ante a vitória do norte-americano. Mas, a democracia será preservada.

Nesta contradição quase incompreensível, nesse paradoxo da democracia  americana, Hillary Clinton, em um processo eleitoral esdrúxulo, recebeu maior número de votos diretos da população que Donald Trump (em um país em que o voto não é obrigatório), mas o candidato empresário obteve a maioria de delegados partidários, delegados que lhe darão o cargo de Presidente dos Estados Unidos!!!

 

VOZES DA AMAZÔNIA - Em 30/10/2016 
Recentemente foi lançada ao público uma iniciativa editorial de inegável importância nos cenários cultural e acadêmico amazônico e nacional. Trata-se do livro “VOZES DA AMAZÔNIA III – Investigação Sobre o Pensamento Social Brasileiro”, organizado por Élide RUGAI BASTOS e Renan FREITAS PINTO. O empreendimento editorial é da Editora da Universidade Federal do Amazonas-EDUA, Manaus, 2016. É um alentado volume de 455 páginas, nas quais se encontram reunidos ensaios (capítulos) de autoria de prestigiados intelectuais e professores, que, prioritariamente, se empenham no estudo das contribuições às culturas brasileira e amazônica de alguns pensadores e escritores da maior importância nesses cenários.

                   Tendo em vista sua alta qualidade ensaística, e a relevância dos escritores estudados e suas obras analisadas, registro, a seguir, os trabalhos levados ao público mediante essa obra paradigmática:

  1. Milton HATOUM – “A Narureza como Ficção – Leitura do espaço nos romances A Selva, de Ferreira de Castro, e Mad Maria, de Márcio Souza
  2. Jucimara TARRICONE – “Uma revisitação à crítica de Benedito Nunes
  3. Orlando SAMPAIO SILVA – “O Pensamento de Eduardo Galvão
  4. Marilina Conceição Oliveira Bessa Serra PINTO – “Raul Bopp - um antropófago na Amazônia”
  5. Javier URIARTE – “Rios e ritmos indisciplinados – Uma leitura da oscilação em Euclides da Cunha e Alberto Rangel
  6. Violeta REFKALEFSKY LOUREIRO – “Inglês de Souza e a dimensão sociológica do romance amazônico”
  7. José SERÁFICO – “A Varanda e os Serõzinhos de Machado Coelho
  8. Aldrin Moura de FIGUEIREDO – “O Dançarino da Lua – A arte e o mundo de Bruno de Menezes nos anos 20”
  9. Davyd Spencer Ribeiro SOUZA – “Djalma Batista e o Desenvolvimento na Amazônia – Reflexões sobre a perspectiva da Liberdade e de Justiça Social”
  10. Maria Stella Faciola Pessoa GUIMARÃES e Brenda Vicente TAKETA – “Eidorfe Moreira e suas publicações no jornal A Província do Pará”
  11. Selda Vale da COSTA – “Imagens da Amazônia – Ermano Stradelli
  12. Paulo Emílio Matos MARTINS – “Administração e Pensamento Social Brasileiro – Vozes e Ecos da Amazônia”
  13. José Aldemir de OLIVEIRA – “O Pensamento Geográfico sobre a Amazônia dos Viajantes”
  14. Joaquim Rodrigues de MELO – “O SPI no Amazonas – 1910-1932”
  15. Mariana CHAGURI – “Ideias, Romances, Região”.
 
 
ELEIÇOES - Em 04/10/2016
Alguns comentários apenas sobre as eleições.
Em termos de partidos políticos, o maior derrotado foi o PT. Por quê o povo (os eleitores) votou assim?
O governo Dilma (principalmente nesse segundo mandato) estava sendo uma lástima, pleno de contradições, de coerência ideológica: auxiliares (a ministra da Agricultura e o Barbalho filho, p. ex.); as benesses aos Bancos, que nunca tiveram lucros tão volumosos; os financiamentos do BNDES; os enfraquecimentos de programas sociais; outras ações neoliberais, tais como privatizações de bens do patrimônio público; a reforma agrária nula trazendo na sua esteira de omissões as invasões de terras; a política indigenista nula e equivocada, cenário propício às mortes de indígenas nos conflitos com fazendeiros e seus jagunços; e, entre muitos outros erros, o convívio ou acolhimento de corruptos e a corrupção insanada no âmbito estatal. No mesmo contexto, sofrendo os impactos da crise econômica mundial globalizada e, com ela, presenciando o aumento da inflação e o desemprego crescente.
Isto tudo levou ao descontentamento da população, principalmente das classes alta e média. Vieram os panelaços e as multidões nas ruas protestando. Os partidos da oposição se aproveitaram da situação para conquistarem créditos, caíram de pau na Presidente, e encontraram o momento estratégico para a concretização de seu projeto de conquista do poder de imediato. O Aécio Neves queria derrubá-la desde o primeiro dia após as eleições de 2014. Articulados, os partidos oportunistas e de oposição encontraram no instituto constitucional do Impeachment o meio "legal" para dar o golpe de misericórdia. O Temer, raposa, logo viu que seria ele o conquistador do poder. Traiu sua companheira de chapa. Aqueles mesmos partidos, não querendo assumir clara e diretamente o ônus das ações golpistas, delegaram ao Eduardo Cunha o papel de condotier do processo do golpe. Estava decidido: a Dilma cairia e eles assumiriam o poder. O Impeachment seria um mero e competente instrumento para a efetivação do desideratum. E tudo aconteceu como é conhecido.
Por outro lado, a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça levavam à frente procedimentos processuais contra corruptos, que vinham desde o Mensalão, depois, o Petrolão, mediante a Operação Lava a Jato e outras congêneres. Há investigados de diversos partidos políticos, sendo o PP um dos que mais têm filiados seus  processados. E vieram as condenações e as prisões. Grandes capitalistas, empresários, que se beneficiavam, mediante procedimentos da corrupção, de vantagens no âmbito governamental, pela primeira vez na história, foram para a cadeia. Entre os políticos, líderes do PT têm sido os, prioritariamente, punidos por corrupção. Por quê essa prioridade? Mesmo sendo possível haver motivações obscuras para tal, a população não está interessada nelas, e opera a conjunção de suas insatisfações com o governo do PT com as ações da Justiça, que são públicas. Ela, a população, sentiu confirmados e reforçados os motivos de sua insatisfação política, social e econômica.
Tudo aconteceu assim, e vieram as eleições. O Impeachment e os procedimentos policiais e judiciais não estavam na alçada da ação direta da população, mas o voto era o instrumento de demonstração concreta e efetiva da insatisfação e a forma de punição exercitada pelo próprio povo votante.
E aconteceu o que todos sabemos. O PT punido. Partidos vitoriosos: PSDB, PSD.
Partidos de "esquerda" desprezados, com raros casos excepcionais.
O PMDB, também, de certa forma, punido: Já há forte insatisfação popular com o governo Temer. Para uns, decepção com ele; para outros, trata-se de um ex-aliado do PT (o Vice).
A eleição de João Dória para prefeito, em São Paulo, já no primeiro turno, foi um fenômeno eleitoral único na história dessas eleições. Mas, esse fato é um corolário do contexto eleitoral mais amplo efetivado no país. Entre os partidos políticos pequenos, o que melhor se saiu foi o PSOL, com um crescimento modesto, mas visível. Ele, com  seus candidatos, estará concorrendo, no segundo turno, nos importantes colégios eleitorais do Rio de Janeiro e de Belém.
O panorama geral dessas eleições, acima delineado em síntese, certamente, não será alterado com a realização do segundo turno.
 
 
 
IMPEACHMENT    - Em 08/09/2016 
Os golpes de estado se caracterizam por serem ações de grupos de pessoas que, não estando no poder do estado, conquistam-no, afastando ou depondo os que,  legitimamente ou não, encontram-se na chefia do governo. As ações golpistas contrariam a legislação vigente, principalmente a Constituição do país em que têm lugar esses episódios. Os golpes de estado podem se materializar mediante o emprego do aparato militar com o uso da força das armas, como nos casos dos golpes militares, e também se podem concretizar sem a interferência da força armada, e sim com o emprego de ações civis imperativas, como nos casos de decisões até mesmo do Poder Legislativo.
Quando, no Império, foi declarada a “maioridade” do príncipe Pedro, com 13 anos de idade, por ato do Congresso (1840), para que ele assumisse o poder imperial, esta decisão foi considerada o “golpe da maioridade”. Com esse ato, o político que detinha a regência do poder, Pedro de Araújo Lima, foi deposto, passando o príncipe adolescente ao status de Imperador do Brasil, D. Pedro II. Configurou-se um golpe de estado civil, um golpe civil, sem a interveniência da força das armas.
Porém, a “proclamação da república” se materializou por meio de um golpe de estado militar, quando, pela força das armas, o Marechal Deodoro da Fonseca derrubou do poder o imperador Pedro II e assumiu a presidência da república. Concretizou-se um golpe militar.
Em 1930, teve lugar, na história de nosso país, a assim denominada “revolução de 30”. Estava no poder da república Washington Luiz. Um golpe militar perpetrado por três oficiais generais constituídos em uma “junta militar”    - o general Augusto Tasso Fragoso, o general Leite de Castro e o almirante Isaías de Noronha -, no dia 24 de outubro de 1930, depôs o presidente da república, tendo, então, a Junta Militar assumido o poder executivo. Onze dias depois, no dia 3 de outubro do mesmo ano, a Junta entregou o poder ao líder civil da “revolução”, Getúlio Vargas, que assumiu como ditador, em decorrência do golpe, a presidência da república. Configurou-se um golpe militar concretizado mediante o uso da força armada.
Durante a ditadura Vargas, teve lugar um golpe no golpe, quando, a 10 de novembro de 1937, o ditador Getúlio Vargas, revogando a Constituição de 1934, que estava em vigor, outorgou a Constituição de 1937, mediante a qual impôs ao país o “Estado Novo”, aprofundando a ditadura de direita pré-existente e mantendo-se como ditador na presidência. Este foi um golpe civil-militar, de vez que Getúlio, um civil, ao dar o golpe, contou com o apoio formal de militares.
No dia 29 de outubro de 1945, outro golpe civil-militar pôs fim à ditadura Vargas. Um golpe de estado punha fim à ditadura. Getúlio foi apeado do poder, que passou às mãos do ministro José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal-STF. Mediante procedimentos legais, foi implantado um sistema político democrático no país, o que se configurou com a eleição de um Congresso Constituinte, que elaborou a Constituição de 1946, e a eleição, pelos votos diretos da população, do presidente da república.
A 11 de novembro de 1955, com um golpe militar, o general Henrique D. Teixeira Lott, ministro da guerra, para evitar um golpe militar ou civil-militar que impediria a posse do presidente eleito Juscelino Kubitscheck, destituiu da presidência da república Carlos Luz. Este político, presidente da Câmara dos Deputados, assumira a presidência em razão da licença para tratamento médico do Vice-Presidente Café Filho, que estava na chefia do governo em decorrência do suicídio do presidente Getúlio Vargas. Os tanques foram às ruas. O ato de força, paradoxalmente com reais fins democráticos, do general Teixeira Lott, foi um golpe preventivo e ficou registrado na história como o “Movimento de 11 de Novembro”.
A 31/3-1°/4 de 1964, militares, que havia muitos anos aspiravam o domínio do Estado Brasileiro, enfim conquistaram-no mediante um golpe militar. O general Olímpio Mourão Filho deslocou as tropas de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro e de Brasília; o general Humberto de Alencar Castelo Branco, comandante do Estado Maior do Exército, de seu gabinete, mantinha os entendimentos, para a efetivação da deposição do chefe do Poder Executivo, com outros chefes militares e com políticos civis como Carlos Lacerda e Magalhães Pinto; os comandantes dos Exércitos e das Regiões Militares aderiram à ação armada para a conquista do poder. O presidente João Goulart viajou para o RGS na esperança frustrada de lá conseguir apoio militar. Não se efetivou efetivamente resistência ao movimento desestabilizador no âmbito militar. Neste contexto, instaurou-se, o Comando Supremo da Revolução constituído do general Artur da Costa e Silva, do almirante Augusto H. Rademaker Grünewald e do brigadeiro Francisco Correa de Melo, que garantiam o poder do estado em mãos militares. Ante este panorama vitorioso na área militar, no Senado Federal, no dia 2 de abril, o presidente da Casa, senador Áureo de Moura Andrade, em uma atitude arbitrária, declarou vaga a Presidência da República, apesar do presidente João Goulart se encontrar no território nacional, no seu estado. Diante desse fato consumado, assumiu a presidência o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Renieri Mazilli. Em face da irreversibilidade do golpe de estado, João Goulart homiziou-se no Uruguai. No dia 9 de abril, entrou em vigor o Ato Institucional N° 1, que, na prática, substituiu a Constituição de 1946. No dia 11 de abril, assumiu a presidência da república o general Humberto Castelo Branco, o primeiro presidente militar na ditadura.
 Complementando (ou completando) as normas autoritárias então vigentes, no dia 13 de dezembro de 1968, entrou em vigor o Ato Institucional N° 5 – AI 5.
Tendo o segundo presidente da república, na ditadura, general Artur da Costa e Silva, se licenciado por estar enfermo, ao invés de assumir a Presidência da República o Vice-Presidente, o político civil Pedro Aleixo, este foi impedido pelos militares de assumir a função. Esta, então, foi ocupada por uma Junta Militar constituída do general Lira Tavares, do brigadeiro Márcio de Souza Melo e do almirante Augusto Rademaker Grünewald. Estes acontecimentos se configuraram em um golpe no golpe, no âmbito da ditadura militar.
Na história do nosso país independente ocorreram diversas tentativas de golpes de estado e/ou movimentos armados que objetivavam a conquista do poder. Debruçar-me-ei sobre este tema no próximo artigo.
Afinal, o impeachment de 2016. As forças políticas adversárias do PT e do governo de Dilma Rousseff, depois de mais de doze anos de governos petistas, decidiram conquistar o poder de imediato, não esperando a próxima eleição presidencial. Este posicionamento político tomou corpo e se estruturou a partir da vitória eleitoral de Dilma em 2014. Aécio Neves, candidato derrotado, não se conformou com o revés. Seu partido aliou-se a outros partidos políticos, grandes e pequenos, na articulação dos complexos procedimentos objetivando a derrubada da presidente da república sem procurar lançar mão da violência armada, e, sim, mediante procedimentos legais.
Para a medida extrema do afastamento definitivo de um presidente da república a Constituição de 1988 prevê a possibilidade de ser ele condenado em um processo de impeachment pelo Senado Federal. Ocorre que, aprovado o impedimento do presidente, legalmente assume a Presidência da República o vice-presidente. No caso brasileiro específico de agora, o político que ocupava esta alta função era Michel Temer, do PMDB. Assim, o PSDB, aliado a outros partidos, concretizaria o impeachment, mas não lavaria a Presidência. Tudo bem. A grave decisão política estava tomada: a derrubada do poder da presidente Dilma Rousseff mediante um impeachment e a então oposição passaria a dominar o poder executivo da república. 
Um impeachment do presidente da república se constitui em um julgamento do mesmo pelo Senado Federal, o que ocorre sob a presidência do presidente do Supremo Tribunal Federal-STF. Comprovada a prática de crime de responsabilidade pelo presidente da república, ele pode ser condenado pela aprovação de, no mínimo, dois terços dos integrantes da Câmara Alta, nessa situação alçada à condição judicante.
Neste caso brasileiro de 2016, o processo de impeachment transcorreu segundo os ritos processuais regularmente estabelecidos na Constituição, nos códigos de processos e nos regimentos internos da Câmara e do Senado. Nesses procedimentos processuais, atuaram os advogados de acusação e de defesa, na correta prática do contraditório. O julgamento foi presidido pelo presidente do STF.
No transcurso do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, antes mesmo do julgamento pelo plenário do Senado, havia uma decisão política, a de afastá-la de forma definitiva da presidência. Desta forma, o plenário do Senado tomou uma decisão política, independente das provas processuais. Agiu politicamente e não como uma corte, no caso, na condição judicante. No dia 31 de agosto de 2016, foi cassado o mandato da presidente Dilma Rousseff.
Assim como hoje se pode encontrar nos compêndios de história do Brasil referências ao "Golpe da Maioridade" perpetrado, no Império, em 1840, nossa história, muito provavelmente, registrará, no futuro, a ocorrência do "Golpe do Impeachment" (um golpe legislativo) que afastou da chefia do governo brasileiro uma Presidente da República.
Porém o Senado, nesse grave episódio político, tomou duas deliberações: a) a perda do cargo da Presidente da República; b) assegurou a ex-Presidente Dilma Rousseff o direito ao exercício de função pública.
A lei estabelece que da aprovação do impeachment do Presidente da República decorre a “perda do cargo de Presidente, com a inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública”.
A sociedade brasileira e a história julgarão esses fatos.
  
 
AMEAÇA INTERNACIONAL? - Em 11/07/2016
Li um artigo na Internet (“Brasil ilhado pelos EUA”. Autor?) no qual o autor atribui aos EE.UU a responsabilidade por ocorrências que estariam em curso no Brasil e nas Américas, as quais seriam: 1 – interesse em ocupar a Amazônia; b – projeto de apropriar-se do Aqüífero Guarany; c – intento de incorporação dos diversos países do Continente Americano ao território e ao domínio estatal norte-americanos, e d – o juiz Sérgio Moro estaria agindo, em sua função judicante, a serviço da CIA.
A seguir, desenvolvo alguns comentários a propósito da maneira ideológica como essas questões são abordadas no texto em questão.
O mundo todo sabe das ambições de dominação e expansão dos EE.UU, da mesma forma que as tiveram a URSS e têm, hoje, também, a China. Porque há múltiplas ambições de dominações, cada país expansionista cria a sua geopolítica econômica e militar. Note-se que, ao longo da História, registram-se casos exemplares: Império Romano; França de Carlos Magno e de Napoleão; os mongóis de Gengis Khan, que chegaram à Europa Oriental; os turcos - Império Otomano -; a Alemanha de Hitler; o expansionismo fanático-militarista japonês; o Império Britânico no qual o sol nunca se punha...; todos os países europeus colonialistas; o expansionismo soviético; o imperialismo norte-americano. No presente, além das ambições norte-americanas e chinesas, há, também, o neo-expansionismo russo. Esse contexto mundial cria as condições para que os países expansionistas procurem agir segundo estratégias ofensivas-defensivas que têm por alvo, por um lado, a concretização de seus projetos de expansão e, por outro lado, a necessidade que sentem de estarem prontos para se defender dos demais concorrentes em quaisquer emergências.
Em meio a esse contexto mundial, encontram-se os demais países não expansionistas e mais frágeis. Porém, todos estes últimos países são estados soberanos que devem procurar defender suas soberanias e seus interesses no mundo. Nenhum país pode instalar bases militares ou não militares no território de outro país sem que este permita, consinta, salvo em caso de invasão, sendo esta um ato condenável e ilegal. Trata-se de uma questão de defesa da soberania. Na II Guerra Mundial, os EE.UU instalaram bases aéreas em Belém (PA) e em Natal (RN), porém com o permissão do governo brasileiro e nós estávamos na guerra ao lado dos americanos. Terminada a guerra, eles, os EE.UU tiveram que devolver as bases ao Brasil. Exigimos. O povo foi para a rua exigir. Todos os países podem e devem agir assim, preservando seus direitos territoriais, econômicos e suas soberanias. Se os EE.UU (ou outro qualquer país) vierem a instalar bases em outros países sul-americanos nossos vizinhos, próximas ou não de nossas fronteiras, temos todo o direito de protestar e de alertar os expansionistas que estamos alertas e preocupados com esses eventos. É um dever do Estado Brasileiro. Cada país defende a sua soberania, e não pode interferir nos assuntos internos dos demais países.
Os norte-americanos sempre foram expansionistas: da costa atlântica se expandiram até o Pacífico, inclusive incorporando quase a metade do território mexicano conquistado na guerra e por compra. Monroe era um norte-americano desta estirpe e, como tal, pensava assim, a fez a sua doutrina. Ainda hoje há, inclusive no Congresso norte-americano, quem sonhe com uma "América para os americanos" (do norte) e, neste caso, os demais países do continente passariam a constar como estrelas na bandeira nacional americana e elegeriam deputados e senadores ao Congresso Americano, como ocorre com Porto Rico. Os EE.UU ocuparam o território do Alasca e o arquipélago do Havaí, no Oceano Pacífico, hoje estados norte-americanos.  Ambos territórios onde viviam (e vivem) povos nativos, tribais, que tinham o direito de viver soberanamente em suas terras e águas. Foram ações expansionistas, colonialistas.
Os EE.UU lutaram e foram derrotados na Guerra do Viet-Nam. No Afeganistão, em substituição à URSS, que o havia invadido, os EE.UU também invadiram este país, para de lá vir a retirar-se sem atingir seus objetivos anunciados: derrotar o terrorismo islâmico. Fizeram a guerra no território do Iraque, alegando o mesmo objetivo da invasão anterior. Com esta invasão, certamente, contribuíram para a instauração, no norte do Iraque, do assim denominado Estado Islâmico, a mais infernal fonte de ações terroristas no mundo atual e, da prática de crimes contra a humanidade. Os EE.UU saíram destas trágicas aventuras    -  Viet-Nam, Afeganistão e Iraque -   humilhados e ofendidos, com os desastres estratégicos que cometeram e com as conseqüentes milhares e milhares de mortes em todos os lados em conflito nessas guerras.
O mundo se preocupa com o oxigênio e com a água potável. A Amazônia brasileira, peruana, venezuelana, colombiana, boliviana, equatoriana e das Guianas é vista como o "pulmão do mundo". Todos querem participar desse oxigênio. O Aqüífero Guarany é o maior manancial de água doce do mundo. O resto do Mundo se volta ambicioso e invejoso para o Aqüífero Guarany brasileiro, paraguaio, boliviano e argentino, um território contínuo multinacional. Cabe aos países que detêm a Amazônia e o Aqüífero defenderem os seus interesses, os seus territórios, as suas riquezas. Isto no presente. Quanto ao futuro longínquo, nada se sabe.
Os EE.UU vão ocupar o Brasil de mão beijada? Não! Não seremos um estado ou uma colônia americana. Há quem acredite que o juiz Moro é um “pau mandado” dos EE.UU, que determina que ele condene e sentencie a prisão de  A ou B  capitalistas, políticos...  Ora, a Operação Lavajato é conduzida e concretizada pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal. Ministros do STF estão julgando processados por esta Operação.
A ser verdadeira aquela suspeita, aquela hipótese, aquela crença, todos os agentes das investigações, dos processos, dos julgamentos e das sentenças    - ministros, juízes, procuradores e policiais federais -,   por estarem praticando esses atos que são de suas competências, no exercício de suas funções constitucionais, estariam a serviço do imperialismo norte-americano!!!... Isto é um delírio sectário da extrema esquerda ("esquerdismo", como diriam Stalin e Prestes; sobre o conceito de “esquerdismo”, consultar a obra de Vladimir Ilitch Lênin – “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo”, 1920).
Este artigo é uma síntese do que se pode dizer sobre o assunto.
 
21/06/2016 08:00   
CINEMA COMO POESIA DE DENÚNCIA ÉTICA E HISTÓRICA: GENOCÍDIO DE ÍNDIOS E DITADURA NO CHILE
Algumas palavras sobre um filme que assisti no Cine SESC, em São Paulo, SP: "Botão de Pérola (Nácar)", 2015, de Patrício Gusmán, cineasta chileno.
Como em uma tragédia, o diretor usa linguagem poética, para narrar, criticamente, episódios dantescos. Uso este adjetivo, porque o filme me lembra a Divina Comédia, com seus momentos líricos a complementar a dramaticidade do Inferno. Tomando por fio condutor básico a questão do genocídio dos povos indígenas da Patagônia, ele, em sua narrativa plena de valores humanistas, denuncia à sociedade dos homens as atrocidades cometidas pela ditadura militar chilena.
O dualismo das tragédias é expresso mediante uma linguagem cinematográfica que manuseia oposições binárias, tais como norte / sul; a secura do deserto de terras altas / terras molhadas das ilhas e águas nas terras baixas; cenários fotográficos de extrema beleza estética, tais como as fotografias das águas correntes e as dos desenhos de gelo de extrema beleza; estas cenas a cores de indizível expressão do belo, e as escuras, que exprimem a escuridão da torpeza humana, etc.
A poesia cinematográfica está contida nas cenas do universo, assim como nas reproduções destas nas pinturas corporais indígenas. A expressão da riqueza da beleza do pensamento mítico indígena, com referências profundas aos seres inanimados da natureza como parte do mundo vivo, as águas que falam e as estrelas que são humanos após a morte.
Enfim, um filme de extraordinário valor estético, ético, humanístico, documental, antropológico e histórico.
Essas oposições binárias simbolizam as faces opostas do bem e do mal na vida deste país andino. Planalto seco, porém com o homem moderno procurando desvendar as origens da totalidade universal, no norte, / e /, no sul, o genocídio de povos indígenas; o governo Allende, em um projeto socialista humanista libertário, que incluía a devolução da dignidade às populações indígenas, / e / a instauração da ditadura militar sanguinária; os povos indígenas em sua plenitude da força vital, / e / a eliminação destes seres humanos com o avanço da "civilização do lucro" sobre suas terras e águas.
Essa percepção sensorial e mítica da natureza pelos indígenas, ao dialogarem com as águas que falam, me fizeram lembrar de minha infância, quando eu com meu pai, José Torquato, nos colocávamos a ouvir o murmúrio das águas dos igarapés, em meio à floresta. Era uma sensação deslumbrante. Lembro-me, também, de eu ficar ouvindo o "falar" das árvores quando o vento soprava em suas folhas que, com o farfalhar, emitiam expressões da vida na natureza.
O cineasta se refere ao índio que foi levado à Europa, lá ficou um tempo e, depois, voltou não mais conseguindo se integrar em sua sociedade e cultura. Crime desumano como esse foi praticado por colonizadores e por missionários (eles, também, colonizadores) em toda a América, inclusive no Brasil. Em nosso país ocorreu o fato exemplar do índio borôro Aipoboréu   - ao qual os salesianos atribuíram o nome português Thiago Marques -, que foi levado pelos missionários católicos para a Europa, onde viveu, estudou e voltou. Levado ao seu grupo indígena não conseguiu readaptar-se à vida tribal, mas não se sentia um "civilizado". Tornou-se um pária, um não-ser entre duas "civilizações". O antropólogo teuto-brasileiro Hebert Baldus (sobre cuja obra escrevi minucioso ensaio, que se encontra publicado na Revista de Antropologia, USP) escreveu e publicou um artigo modelar a propósito deste acontecimento histórico.
Como esses dois casos, o chileno e o brasileiro, houve muitos outros. Montesquieu sentiu-se empolgado ao ver um grupo de índios que foi levado do Brasil à França.
 
 
 
Em 06/06/2016
INSTITUT ILIADE - EMIGRAÇÃO- EUROPEÍSMO - FANATISMO - FASCISMO
O Le Pen pode não pertencer a esse Instituto Eliade, mas ele, o Instituto, com certeza, é uma espécie de seita mística na busca do culto da “natureza”, da "excelência" e da "beleza", valores que não seriam deletérios, não fossem eles procurados, por esta entidade, mediante um misticismo mágico, fanático, com a prática de rituais cabalísticos. Tudo indica ser uma espécie de movimento político de extrema direita e/ou uma seita mística que evoca origens bárbaras. Um fanatismo europeu  isolacionista e exclusivista.
O culto à natureza e a excelência e a beleza, inclusive de inspiração na civilização européia, não são males em si mesmo. A questão está nos meios como cultivar esses valores! Eles podem ser procurados, porém sem fanatismos místicos e, principalmente, sem fascismo. Estive verificando isto. Eu vim a intuir essa postura de extrema direita desse agrupamento fanático europeu.
É verdade, na Europa houve Nero e Calígula, houve os expansionistas Júlio César, Carlos Magno, Napoleão e Hitler (para não falar nos "bárbaros”); ocorreram as lutas entre católicos e mouros (árabes) com as Cruzadas; tiveram lugar as guerras religiosas entre católicos e protestantes; a "santa" Inquisição com seu oceano de torturas e mortes obscurantistas e desumanas teve sua sede lá, onde ocorreram, também, grandes guerras como a dos 100 Anos e a dos 30 Anos com seus rios de mortes; lá os burgueses guilhotinaram os nobres, mas, também, "filhos" da revolução; lá surgiram seitas satanistas; lá estão os países colonialistas etc.
São de um tempo muito próximo de nós (eu sou contemporâneo) os crimes brutais de Stalin (com os massacres de milhões de comunistas divergentes) e de Hitler  (e seus sonhos de dominação mundial e a tragédia do holocausto), sendo que este último em uma das mais cultas nações do Mundo. São de ontem a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e seus milhões de vítimas inocentes. Etc.
E aqui vem o grande paradoxo inexplicável: a Europa não é apenas a pátria do mal; são de lá os grandes filósofos, os notáveis literatos, cientistas ilustres e iluminados compositores. O renascimento é europeu, os filósofos gregos da Antiguidade Clássica, assim como os iluministas   - fontes das mais puras e humanísticas ideologias -   são de lá; Goethe, Shakespeare, Cervantes, Leonardo, Marx, Tolstói, Bethoven, Bach, Voltaire, Rousseau, Sartre, Einstein , Homero, Virgílio, Dante, Torquato Tasso, Ariosto, Camões, Kafka, Espinosa, Proust, Victor Hugo, Sócrates, Platão, Aristóteles, Chopin, James Joyce, Dostoyewski, Kant, Schiller, Virgínia Wolf, Thomas Mann e mesmo Clarice Lispector   - que é de origem européia -    e tantos e tantos outros gênios da humanidade são europeus. Vejamos a Europa como o berço da civilização moderna, da democracia, do socialismo democrático. Prefiro ver a Europa como o locus da humanidade em que o bem supera o mal.
Estados colonialistas europeus são, em grande parte, responsáveis pelas agruras dos povos que hoje emigram de seus sofridos países para a Europa. Países com povos pobres, mas com minorias corruptas e ricas, e que têm potenciais riquezas, que poderiam ser desfrutadas por suas  populações.
Estas emigrações em massa que estão ocorrendo da África e do Oriente Médio para a Europa põem em risco o bem estar social dos povos europeus. Esses movimentos desordenados de populações podem contribuir para a desorganização dessas sociedades européias estáveis para onde se estão se dirigindo e podem provocar a pobreza como um lugar comum para todos, imigrantes e recepcionistas, o mal estar social generalizado. Estes movimentos de populações, além das trágicas mortes na travessia criminosa do Mar Mediterrâneo, não resolverão os problemas imensos dos países de origem dessas populações.
Sonho com um mundo em que todos os povos possam viver o bem estar social. Os países europeus podem dar a sua contribuição para a mudança nas agruras dos povos que antes submeteram no colonialismo. Ao mesmo tempo em que salvariam aquelas populações e preservariam e protegeriam as suas.
Há pequenas cidades na Alemanha em que há mais imigrantes do que alemães! Os imigrantes, nessas condições, não são bem aceitos pelos donos da casa e estes temem os forasteiros. É uma situação de forte tensão social. A Alemanha, há menos de um século, foi a sede da tragédia nazista e, antes, agiu no planeta como um país colonialista submetendo povos. Hoje é um modelo de democracia humanista e de bem estar de seu povo. Da mesma forma, outros países, tais como a França, a Itália, a Inglaterra etc. Eles têm o dever de contribuir para a recuperação, pelo menos, dos povos que exploraram durante o colonialismo.
Em síntese, sinto e penso assim.
 
HOMEM OU MACACO - 21/04/2016 08:00  
Assisti à sessão da Câmara dos Deputados, na qual foi aprovada a admissibilidade do impedimento da presidente Dilma Rousseff. As atitudes da maioria dos parlamentares, ao votar, foram de tal modo inconcebível, considerados o referido ambiente institucional e suas funções, que julgo ser procedente fazer-se uma revisão do processo evolutivo, este que ficou tão célebre com os estudos de Darwin. É para refletir sobre o nosso gênero “homo sapiens”. Será que ocorreu algum desvio no desenvolvimento da evolução?!
              Trata-se de constatações científicas. Este é um modelo de desenvolvimento construído mediante pesquisas no campo da antropologia física ou biológica, que tem predominado na área das hipóteses e dos achados de campo. Porém, se, em linhas gerais, tudo indica ser o modelo verdadeiro, em termos de detalhes, há outras hipóteses, outras constatações mesmo, outros paradigmas parciais e, muito provavelmente, a ciência dificilmente chegará a uma verdade final e definitiva. Muitos sítios continuarão sempre sendo escavados sobre toda a face da terra na busca de novas descobertas e sempre ocorrerão novas revelações; novas hipóteses, novas pesquisas e novas descobertas continuarão a ocorrer. Por exemplo: no que tange ao "homem americano", as verificações até agora realizadas no norte do continente, indicam como rota para o povoamento do continente, a passagem da Sibéria-Alasca, e os vestígios mais antigos seriam os de Clovis, nos Estados Unidos, com cerca de 15.000 anos. No entanto, há outras hipóteses para a chegada do homem pré-histórico ao continente, além do asiático-americano.
Pesquisas recentes desenvolvidas no Brasil têm encontrado indícios da presença do homem neste território há 40.000 anos (para uns), há 22, 20.000 anos para outros, portanto, populações anteriores às de Clovis.
Os estudos sobre raças, que tiveram grande desenvolvimento no século XIX, ficaram congelados no século XX, em face das tendências, em determinadas correntes do pensamento, em classificar as raças em uma escala de superioridade-inferioridade. Os nazistas se destacaram nesse caminho. As pesquisas sobre "diferenças raciais" foram desprezadas, praticamente abandonadas, mesmo proibidas na vida acadêmica.
A origem mais remota, muito provavelmente, é comum para os hominídeos. Estes não eram nem homens, nem macacos. Eram a origem, o ente originário, o começo de onde se irradiaram, como galhos ou como raízes de uma árvore, por um lado, os macacos e, por outro, os "Adões" e "Evas" primeiros, os seres humanos. Os macacos primevos evoluíram para os macacos atuais; os pré-humanos (não macacos, nem pré-macacos) evoluíram para os humanos atuais. Os primeiros macacos não evoluíram para o humano, assim como os primeiros humanos não "evoluíram" ou "involuíram" (?) para os macacos. São processos de mudanças biológicas concomitantes. Evolutiva e biologicamente, os macacos e os humanos são "primos" entre si. E por aí vai. O homem não é um macaco "moderno" ou "modernizado", assim como o macaco (em suas várias espécies, inclusive naquelas mais próximas do homem, como o orangotanto, o gorila e o chipanzé) não é um homem "amacacado", ou seja, um homem que involuiu (?) ou que mudou na escala biológica. O processo vital é sempre evolutivo, portanto, do mais primitivo para o mais avançado. Assim, a linhagem evolutiva dos macacos, que teve seu começo no tronco originário, evoluiu para os macacos modernos, e a linhagem evolutiva dos homo, que teve o seu começo no tronco de origem, evoluiu para o homem moderno, o homo sapiens (a “mulher” aí incluída, para lembrar uma infeliz assertiva feminista de uma dama imoportante!!!). O Homo de Neanderthal foi um tipo de “homem moderno” que teve sua evolução biológica, social e cultural interrompida? Pode ser! O homem moderno dos nossos dias é Homo Sapiens. Ou será que houve sobreviventes Neanderthais que estão disseminados por aí?!...
Muito há que se descobrir, mesmo em se tratando de um campo finito, ou seja, que tem limites materiais. Não é como o Universo... As possibilidades de pesquisas de campo na área da antropologia física ou biológica e da arqueologia pré-histórica são incomensuráveis.
O processo evolutivo humano chegou ao seu ponto atual, neste pequeno momento de 10.000 anos da presença deste homem moderno sobre a face da terra? A última Idade do Gelo teve fim a cerca de 10.000 anos. Somos a forma última, final do processo evolutivo? Por quê seríamos? A evolução prossegue. Estamos em um momento deste processo. No futuro, se sobrevivermos às loucuras humanas atuais, às guerras, à destruição da natureza, não seremos macacos, nem os macacos serão humanos. Cada grupo biológico prosseguirá em sua evolução sempre cada um na linhagem de sua espécie.
A seleção natural darwiniana é verdadeira. A provável eliminação dos Neanderthais pelos Sapiens faz parte desse processo. Os mais fracos têm sido eliminados pelos mais fortes quando se coloca uma concorrência pela vida, uma disputa entre as espécies por espaços vitais.
As espécies vivas no mundo atual, animais e vegetais, também poderão ser extintas, em processos mais amplos, como o foram as do tempo dos dinossauros, quando um meteoro gigante caiu sobre a face da Terra (provavelmente, no Golfo do México). Essa possibilidade, também pode se colocar em decorrência de outros fatores naturais ou provocados pelo homem. Uma nova, longa e totalizante era do gelo, ou o aquecimento desmedido do globo terrestre; a destruição da vida sobre o planeta em conseqüência da ação das sociedades humanas destruindo os ecossistemas são possibilidades catastróficas. Mas, sobreviveremos ainda por muito tempo, apesar dos fatores contrários à vida. Os homens buscarão sobreviver até mesmo pela força do instinto, pela força vital.
O "homem moderno" é o que saiu da Idade da Pedra, saiu da caverna, deixou de ser apenas caçador, coletor e pescador, descobriu o uso do fogo no preparo dos alimentos, aprendeu a domesticar animais e, a conservá-los para serem consumidos  como alimento, e, também, a colocá-los a seu serviço; esse homem passou a ser menos nômade e, a praticar a agricultura. Com esses avanços, se foram constituindo os grupos sociais maiores, social e economicamente mais complexos, que passaram a construir suas habitações em conglomerados maiores, tornaram-se mais sedentários, vivendo em vilas com populações maiores, organizando-se em grupos e subgrupos, forjando especializações ocupacionais, sociais, para a vida na paz e para a guerra. Aquele homem que, há milênios, documentava e registrava, como testemunhos, nas paredes das cavernas, eles próprios e os não-humanos que participavam de seu sistema de vida, foram os primeiros artistas com seu grafismo, a arte primitiva, que já anunciava a escrita sistemática, que a seguir foi engendrada, entre os sumérios ou sumerianos (Suméria, na mesopotâmia, no Oriente Médio).
Com a escrita surgiu a sociedade moderna, ou seja, saíamos da pré-história e passamos a erigir as primeiras civilizações e, com elas, as cidades e os Estados estavam sendo gerados, Estados-nacionais ou pluri-nacionais (as ditas civilizações: Sumérios, Hebreus, Egípcios, Assírios, Babilônios, Fenícios, etc., e vieram os Gregos, os Romanos, os Árabes, os povos ditos “bárbaros”  - que parecem ainda existir, em nossos dias..., etc., etc. etc.).
 
 
 
A COLUNA PRESTES - 05/03/2016 08:00
A coluna Miguel Costa – Prestes, ou, como é mais conhecida, Coluna Prestes foi o movimento tenentista que eclodiu em 1924 e que empreendeu a grande marcha pelo interior do Brasil até 1927. Naquele ano, uma coluna de combatentes, depois de participar de confrontos armados com as forças fiéis ao governo central, partiu de São Paulo, capital, e se dirigiu ao estado do Paraná. Deste agrupamento de revoltosos faziam parte, o General Isidoro Lopes, o Ten.-Cel. da Força Pública de São Paulo Miguel Costa e um grande número de outros militares, entre os quais se destacavam os tenentes Juarez Távora, Siqueira Campos, Djalma Dutra, Cordeiro de Farias, Eduardo Gomes, Joaquim Távora, Mário Portela, Juracy Magalhães, Filinto Müller, além dos que aderiram pelo Brasil a fora (tais como Landri Sales, Magalhães Almeida, Magalhães Barata etc.). No mesmo ano e um pouco depois, partiu do Rio Grande do Sul, dirigindo-se para o norte, outra coluna de militares insurgentes sob o comando do capitão Luiz Carlos Prestes. As duas colunas se encontraram em Foz do Iguaçu, no Paraná. Nesta região, para empreenderem o prolongado deslocamento revolucionário, aqueles cerca de 1.500 homens em armas foram organizados na Coluna Miguel Costa – Prestes, que era composta de quatro Destacamentos de tropas. O general Isidoro Lopes, devido à sua idade avançada, não poderia seguir com a Coluna. Assim, assumiu o comando geral da Coluna o Tenente-Coronel Miguel Costa, que era o militar de mais alta patente na tropa que se deslocaria. Assumiu a função de Sub-Comandante o capitão Carlos Prestes, e a Chefia do Estado Maior foi ocupada pelo tenente Juarez Távora. Os Destacamentos foram comandados, cada qual, pelos tenentes Siqueira Campos, Djalma Dutra, João Alberto e Cordeiro de Farias. O tenente Filinto Müller, expulso da Coluna, se refugiou na Argentina. Em abril de 1925, a Coluna, fugindo do cerco das tropas legalistas sob o comando do General Cândido Rondon, depois de atravessar uma parte fronteiriça do território do Paraguai (para onde foi com a estratégia do estouro do “fundo da garrafa”), retornou ao território brasileiro e se dirigiu ao norte do país. Com esse imenso contingente de homens em armas, encontravam-se, também, muitos homens civis (não militares) e umas poucas mulheres, que vieram todos com a coluna do RGS. Conduziam cavalos como meio de transporte principalmente de armamentos e mantimentos.
Os tenentistas em geral, inclusive os de 1924-27, se rebelaram contra os governos civis na Presidência da República, na República Velha, que consideravam serem corruptos política, eleitoral e administrativamente. Eles pretendiam a conquista do poder para os militares. O movimento tenentista de 1924-27 se efetivou durante partes dos governos de Artur Bernardes e Washington Luiz.
A Coluna, em sua caminhada pelo interior do país, ora provocava pavor, ora sentimentos de esperança. Pavor quando se aproximavam e as pessoas não tinham certeza sobre o que eles fariam ao chegarem. Eles se deslocaram pelo interior do Brasil, vindos do extremo Sul, atravessaram quase todo o território nacional (exceto o Sudeste e a Amazônia) e passaram por quase todos os estados do Nordeste (do Maranhão à Bahia). Como alimentar tanta gente, como transportar tanta gente, como tratar de tanta gente? Eles não tinham dinheiro e os governos (federal, estaduais e municipais) eram contra a Coluna. Assim, por onde eles passavam "se apropriavam" de animais, uns para a alimentação dessa multidão (bois, porcos, carneiros, bodes, galináceos etc.), outros (cavalos, burros, jumentos; muitos desses animais iam morrendo ao longo da marcha) para o transporte de cavaleiros e, principalmente, de carga (medicamentos para o tratamento dos feridos, dos doentes, e alimentos, armas, roupas etc.). A Coluna conduzia os combatentes feridos e doentes; enterrava os mortos.
Esses comportamentos dos homens da Coluna foram divulgados por todo o país e estava no conhecimento do governo federal, que era inimigo dos revoltosos. O governo fez a intriga (preventiva) na expectativa de que o povo dos interiores se levantasse contra os revolucionários. O comando da Coluna se apropriava do que precisava, mas assinava, em cada caso, um papel se comprometendo a indenizar os proprietários expropriados, quando houvesse conquistado o poder da república!!! O povo se encolhia com medo e na expectativa. Os fazendeiros, que sabiam o que ia acontecer com seus animais, amedrontados, arrebanhavam jagunços e cangaceiros, que lançavam na luta contra os soldados da Coluna. Os governos estaduais lançavam as polícias militares na luta contra os insurgentes. Os padres tinham um horror. As tropas do governo federal, sempre no encalço dos revolucionários, com os quais entravam em combates, mas jamais conseguiram derrotá-los, em face da estratégia da "guerra de movimento" engendrada por Prestes, com a utilização dos quatro Destacamentos de tropas, que se deslocavam independentemente, mas coordenados entre si. Só quando a Coluna chegou ao sul do Maranhão, foi que um padre recebeu os oficiais dirigentes revolucionários em seu convento, hospedou-os (propiciou-lhes alimentos, lugares para dormir, banhos, tratamentos possíveis - curativos, remédios - etc.).
Em cada cidade que era atravessada pela Coluna, os revolucionários soltavam os presos das cadeias e rasgavam os processos policiais e judiciais. Diziam estar fazendo a "justiça revolucionária". As notícias sobre essas ações dos revolucionários também se espalharam pelo país por intermédio de reportagens de jornalistas, do telégrafo e de boca em boca. Muitos esperavam a libertação das injustiças quando a Coluna chegasse, ou quando ela vencesse. Enquanto uns se apavoravam, outras pessoas, famílias, voluntariamente, procuravam ajudar os revolucionários.
O que aconteceu na cidade de Rodelas, aldeia dos índios Tuxá, no norte da Bahia, à margem direita do rio São Francisco, foi bem um modelo do que acontecia em todos os lugarejos por onde os revolucionários passavam. Registrei essa narrativa a quando da realização de pesquisa antropológica entre os Tuxá, em 1975. As mulheres indígenas procuravam se esconder com medo dos homens fedorentos, sujos, barbados, com lenços vermelhos nos pescoços, que precisavam de mulheres. Os homens indígenas não tiveram outra alternativa se não ajudar os homens da Coluna, na fuga das tropas federais; ajudaram na travessia do Rio São Francisco, da Bahia para Pernambuco, do outro lado do rio, com a utilização das embarcações de que dispunham (os Tuxá são os "índios do rio").
Então, a Coluna continuou a marcha até, depois de atravessar diversos Estados inclusive Mato Grosso, vir a se embrenhar no território vizinho da Bolívia. Estava terminada a "grande marcha" (a maior na história moderna, mais longa no tempo e no espaço do que a "grande marcha" sob o comando do líder comunista Mao Tsê Tung, na China) dos tenentistas de 1924-27. Os jovens oficiais revoltosos e suas tropas não foram vencidos pelos batalhões oficiais dos governos (uma decepção). Estes contaram, também, com a ajuda de jagunços e cangaceiros, inclusive o Lampião. O pe. Cícero, então, para incentivar o cangaceiro maior na luta contra a Coluna, conseguiu que ele fosse nomeado "capitão" da Guarda Nacional, o famoso Capitão Virgolino.
Esta é uma síntese da história.
A Coluna dos insurgentes de 1924 teve entre seus líderes militares, notáveis e corajosos estrategistas, mas, certamente, o que mais se destacou entre eles foi o capitão de engenharia do exército Luiz Carlos Prestes, razão do nome que foi atribuído à Coluna e pelo qual ela ficou conhecida.
A Coluna Prestes se distingue do movimento revolucionário comunista conhecido como Intentona Comunista, que foi liderado pelo mesmo Carlos Prestes, em 1935. O tenentista Capitão Carlos Prestes de 1924-1927 não era comunista. O Carlos Prestes insurgente de 1935 estava fora do Exército, e se havia tornado um revolucionário marxista-leninista-stalinista.
Também, deve-se distinguir os movimentos tenentistas da chamada Revolução de 30. Esta representava os interesses das oligarquias, principalmente, da gaúcha, integrava a trama das lutas entre os interesses opostos dos antigos participantes da “política do café com leite” (oligarquias paulista e mineira) e culminou com um golpe de estado perpetrado pelos generais Augusto Tasso Fragoso e Leitão de Castro, e pelo almirante Isaias de Noronha. Estes militares de alta patente derrubaram do governo da república o Presidente Washington Luiz, impediram que o presidente eleito Júlio Prestes assumisse a Presidência e, dias depois, entregaram a chefia do Poder Executivo a Getúlio Vargas, um civil, político e oligarca do RGS. Getúlio Vargas concorrera na eleição de presidente da república recém-realizada e havia sido derrotado por Júlio Prestes, político paulista. Muitos “tenentes” aderiram a esse golpe de estado, porém não como seus protagonistas. O golpe de estado foi dado por aqueles oficiais generais (que não foram tenentistas) e o comandante militar da Revolução de Trinta foi o tenente-coronel do Exército Pedro Aurélio de Goes Monteiro, que havia sido inimigo dos movimentos tenentistas.
Antes da Coluna Prestes, ocorrera, em 1922, a revolta tenentista, cujo episódio mais conhecido e que lhe deu nome, foi o dos “18 do Forte de Copacabana”. Neste se destacaram os tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos e o capitão Euclides Hermes da Fonseca, sendo este o comandante do Forte, que era filho do ex-presidente Marechal Hermes da Fonseca.
Os movimentos tenentistas, à época de suas ocorrências, foram considerados, pela alta hierarquia militar, como ações rebeldes, de indisciplina, impatrióticas, de inimigos dos governos constituídos.
 
 
 
A  LEITURA  DE  UM  LIVRO (15/03/2016)
Acabei de ler  o livro "A Esquerda Militar no Brasil", do João Quartim de Moraes (Expressão  Popular, 2005). O autor é graduado em Ciências Jurídicas e  Sociais pela Universidade de São Paulo (1964), também, é licenciado em Filosofia  pela mesma Universidade (1964), e é  doutorado (Doctorat d'État en Science Politique) pela Fondation Nationale de Science Politique da Academia de Paris (1982). Atualmente é professor titular de Filosofia e Teoria Política da Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, e tem experiência nas áreas de história da filosofia antiga, história das idéias políticas, materialismo e marxismo, atuando principalmente nos seguintes temas: epicurismo, soberania, teoria do Estado, revoluções brasileiras, imperialismo.
Muito embora o livro tenha sido publicado por uma editora do PCB, não tenho  certeza de que o autor seja militante desse partido. A mim me parece que ele adota interpretações dos fatos históricos como um comunista independente, que decide sobre suas maneiras de ver a analisar os acontecimentos e as pessoas. Como estudioso das idéias políticas, tenho lido monografias sobre os comunistas de autoria de comunistas e de não-comunistas e tenho encontrado, nessas leituras, diferentes maneiras de ver os fatos e as pessoas no transcurso histórico da sociedade brasileira. E isso, essa diversidade de pontos de vista, é muito boa, é democrática. No tempo em que o PCB estava na legalidade, a partir
de 1945 até ser (novamente) proibido em 1948, liam-se textos que expressavam ou a posição oficial desse partido ou a de anticomunistas em oposição ao mesmo. Hoje, há uma produção acadêmica mais livre das censuras extremistas.
 
O livro de Quartim de Moraes entra nesse jogo da democracia acadêmica. O livro não é historiográfico. Se ele queria fazer um compêndio de história, não o fez. É mais uma monografia da área da sociologia. Mas, lamentavelmente, muito fraca como sociologia. O sectarismo ideológico prejudica a abordagem sociológica. Pelo seu posicionamento ideológico expresso em seu livro, percebe-se que ele é comunista
e, como tal, ele é levado a alguns exageros sectários interpretativos de atitudes políticas de agrupamentos de personagens de nossa história. Como o título do livro anuncia, os personagens principais do estudo são os militares, e o autor procura identificar os militares de esquerda em nossa história, não propriamente enquanto indivíduos, mas, como categoria grupal. Assim, ele comete o erro de assinalar que os militares brasileiros, em geral, são de esquerda desde o Brasil Império até a revolução de 30 (o período histórico que consta deste livro). O autor passa a usar, em sua obra, a classificação "esquerda", apenas após referir-se às posições das cadeiras dos jacobinos e dos girondinos na Assembléia revolucionária francesa, à esquerda e à direita, simbologia que analistas políticos do presente passaram a utilizar para referir-se a quem é de esquerda e a quem é de direita. No caso específico, ele considera que os militares brasileiros são de "esquerda" porque, segundo ele, os nossos homens de farda são contra as oligarquias e promovem movimentos revolucionários, pelo menos aqueles até a revolução de 30.
 
Quartim de Moraes acha que aqueles chefes militares brasileiros eram de esquerda porque, segundo ele, naquele período abordado, eles eram contra as oligarquias rurais, eram adversários dos "coronéis" (latifundiários que ganharam esses títulos como membros da Guarda Nacional). Então, a partir desses pressupostos, ele comete vários erros interpretativos. No período imperial, ele vê as oligarquias em oposição à nobreza, aos imperadores, e visualiza os militares contra as oligarquias da época. Eles, também, seriam contra a nobreza.
 
Aí se encontram vários erros: A nobreza esteve sempre associada às oligarquias. Os nobres brasileiros todos eles pertenciam à oligarquia dominante. O governo imperial vivia a distribuir títulos nobiliárquicos aos oligarcas e criou a "guarda nacional" na qual os "coronéis" eram todos fazendeiros, latifundiários. Os militares serviam ao governo imperial, estavam aliados ao governo e, como tal, sufocavam todas as revoltas populares, que, à época, foram muitas. Generais recebiam títulos de nobreza. Em síntese, o que caracterizava, então, a atitude
dos militares, enquanto corporação, era a fidelidade ao imperador, e o corporativismo (militar).
 
A seguir, veio o golpe republicano articulado por militares positivistas e civis republicanos. Mas, o Gen. Deodoro da Fonseca era fiel ao Imperador, a quem servia como chefe militar. Ele deu o golpe em meio a uma trama política com civis e militares envolvidos, e ele   - não se pode esquecer   -, como, era sentimento geralizado na corporação -, também, queria o poder para os militares. Os dois primeiros governos republicanos foram uma ditadura militar.
 
Na república  velha, ocorreram fatos novos, que provocaram diferentes posturas entre os militares. Já na "república da espada" os ditadores militares tiveram que enfrentar movimentos de rebeldia de militares, como o manifesto assinado por treze generais contra a permanência do Marechal Floriano Peixoto no poder, assim como, a "revolta da Armada". Os governos civis todos eles eram dirigidos por líderes oligarcas, que representavam as oligarquias principalmente de São Paulo e de Minas Gerais (na "política do café com leite") e todos foram governos que não atuavam na plenitude democrática (embora os governantes fossem "eleitos"). Governavam para favorecer seus interesses econômicos e as eleições se caracterizavam por decisões de gabinete. Corrupção generalizada na administração (esse fenômeno aético vem de longe em nossa história) e nas eleições. A alta hierarquia militar se mantinha fiel aos governantes.
Mas, emergiram os descontentamentos dos oficiais de baixa patente muitas vezes associados a praças graduados. Logo na primeira década do século XX, alguns jovens oficiais fizeram estágio junto ao exército prussiano (alemão) e voltaram ao Brasil imbuídos de convicções
autoritárias. Eles ficaram conhecidos na história como os "jovens turcos". Primeiro esses jovens se insurgiram em ações de rebeldia, como a exigência para a vinda de uma missão militar alemã ao Brasil para adestrar nossos oficiais. Esses comportamentos rebeldes arrefeceram no governo do Marechal Hermes da Fonseca, que contou com o apoio geral dos militares. Depois, vieram os "tenentistas", a partir de 1922.
Os "jovens turcos" não eram de esquerda, muito pelo contrário. A alta hierarquia militar também não era de esquerda. Os "tenentistas", também não.. Esses jovens oficiais se rebelaram contra a corrupção dominante no poder civil e almejavam o poder da república para os
militares, os quais    - eles acreditavam -    seriam mais preparados para administrar a nação com um projeto econômico desenvolvimentista, sem corrupção. Os jovens se lançaram em ações revolucionárias. Nada havia de posturas de esquerda nessas ações. Tratava-se, por um lado, do inconformismo rebelde contra a corrupção nas eleições e nas administrações civis e, por outro lado, da luta corporativista pela conquista do poder para os militares.
 
A partir da pregação republicana do Benjamin Constant (oficial de patente superior, professor da escola militar), os militares brasileiros, conscientemente ou não (ao longo do tempo histórico), passaram a adotar o ideário positivista. Ora, o positivismo não era uma filosofia de esquerda, muito pelo contrário; veio a tornar-se uma "religião". Os jovens militares rebeldes tenentistas, mesmo os líderes, como, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Carlos Prestes, Juarez Távora, João Alberto,  Djalma Dutra e Cordeiro de Farias, e outros que com eles estavam
(tais como Juracy Magalhães e Filinto Müller), e os "tenentistas" de altas patentes, como o general Isidoro Lopes e o major da Polícia Militar de S. Paulo Miguel Costa, não se tornaram de esquerda pelo fato de participarem dos movimentos tenentistas. Estes eram movimentos de rebeldia, insurgências, porém eram corporativamente militaristas, agiam como tais, sem qualquer envolvimento com o pensamento marxista-leninista, ideologia que era desconhecida por seus participantes.
Prestes foi um raro caso, entre os oficiais tenentistas, que veio a se tornar comunista, já terminada a marcha da Coluna que levou o seu nome (e que, no fim, penetrou no território boliviano). Sua conversão ao pensamento marxista se operou quando ele, após a grande marcha
rebelde, foi da Bolívia para a Argentina. 
 
Os movimentos tenentistas não eram de esquerda. Tinham atitudes críticas em face dos governos corruptos da Velha República. Todos queriam conquistar o poder para os militares.
 
Exceto Prestes (que foi convidado, mas não aderiu), os "tenentistas" aderiram à "Revolução de Trinta", um movimento armado da oligarquia gaúcha, aliada à oligarquia da Paraíba e (vejam!) de Minas Gerais (porque a "revolução" deu um golpe em um presidente que estava no poder e impediram a posse de outro, que acabara de ser  eleito, sendo ambos de São Paulo). Vitoriosa a "revolução", os tenentistas, como outros militares não-tenentistas, foram para o poder da república em um governo ditatorial de direita.
 
O autor do livro não diferencia os militares "tenentistas" dos que, com Prestes (Agildo Barata e outros), tentaram a revolução armada comunista de 1935. Todos queriam o poder, mas apenas estes (os rebelados de 35), sim, eram de extrema esquerda; os outros, não.
Ser rebelde, revolucionário, não significa ser, necessariamente, de esquerda.
 
Quartim de
Moraes pára seu estudo por aí. Comete grave erro sectário de interpretação de posturas político-ideológicas.