Diário de um louco

Welton Oda
Filósofo e pedagogo 
yudioda@hotmail.com.br

REDAÇÃO DO ENEM: OUTRO TIRO CERTEIRO - Em 10/11/2016

“Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração.” Schopenhauer


Num ano Simone de Beavoir e o necessário debate sobre o feminismo, no outro o combate à intolerância religiosa. Desnecessário dizer que tais discussões, no contexto atual, são fundamentais. Neste sentido, o ENEM é um belo recurso. Entre especialistas do campo da avaliação educacional é consensual a ideia de que uma das características de um bom instrumento avaliativo é seu caráter pedagógico. Aprende-se ao responder à questão, aprende-se ao discuti-la com outros candidat@s, aprende-se com a repercussão que ele provoca. Aprendem candidat@s, mães, pais, namorad@s,  sogr@s, cunhad@s de candidat@s.
Estivesse eu fazendo a redação no domingo passado, escreveria o seguinte:
“São todos um só Deus”, dizem alguns. Assim, poderiam dizer também “São todos um só Tupã”, “um só Alá”, “um só Jeová” ou “um só Buda”. Poderiam, mas não dizem! Ou quem sabe dizer “São todos Orixás!” Mas, claro, isso é o que não dizem mesmo! Alguns, provavelmente, com a sensação de superioridade daqueles que acreditam num deus travestido de europeu pretensamente universal, embora surgido no Oriente Médio. Para esses, talvez, a comparação com divindades africanas seria blasfêmia. Quem dera o brasileiro professasse o mesmo ecumenismo do Padre Fábio de Melo, que diz preferir conviver com um ateu honesto, humanista a conviver com um religioso hipócrita.
Um equívoco comum é o reducionismo de quem atribui a intolerância religiosa exclusivamente aos evangélicos. Contribui para isso o clima de Fla x Flu que existe entre parte expressiva de católicos e neopentecostais, fato que evidencia a existência, também entre os primeiros, da intolerância. Neste sentido, não se pode deixar de registrar a ocorrência de muçulmanos, judeus, hare krishnas, espíritas, umbandistas, candomblecistas e ateus intolerantes.
Diz José Luís Fevereiro, dirigente nacional do PSOL, ao avaliar o resultado das eleições cariocas, que a classe média e a esquerda, em geral, carregam preconceito contra evangélicos, reduzidos à condição infantil de pessoas facilmente manipuladas por pastores inescrupulosos. Fevereiro lembra, entretanto, que picaretas como R. R. Soares, Valdomiro e Silas Malafaia contribuem para reforçar esse esteriótipo. Conclui sua análise dizendo que, ainda que a maioria dos evangélicos seja, de fato, muito conservadora, a presença de igrejas neopentecostais dirigidas por gays, a oposição evangélica aos referidos picaretas e os quase 9% de evangélicos eleitores de Freixo mostram que esse universo é bem mais plural do que supõe seus críticos.
         Lembremos que o combate à intolerância religiosa, no Brasil e no mundo, não é questão recente. Esta verdadeira chaga da humanidade, responsável por conflitos sanguinários desde tempos imemoriais, teve, na metade final do século passado, um importante contraponto: a Teologia da Libertação. A partir dela, católicos (que nasceram sob o peso da vergonha do Santo Ofício), sobretudo, mas também metodistas, judeus, budistas, religiosos afrobrasileiros e outros, buscavam valorizar, reciprocamente, suas religiosidades, construindo uma práxis de respeito à crença alheia. Com o tempo, setores mais conservadores da Igreja Católica, sob a batuta de João Paulo II, mas, principalmente, de Bento XVI, contribuíram para o enfraquecimento do movimento.
         Neste contexto de crescente conservadorismo e intolerância, é alvissareira a chegada do Papa Francisco I. O argentino, torcedor do San Lorenzo e líder de uma das mais importantes religiões do Ocidente já mostrou, em discursos e práticas, que atuará para combater a intolerância religiosa. É alvissareira também a discussão que provoca o tema da redação do ENEM. Prova disso é que Kaylane Coelho (13), a menina candomblecista atingida, há dois anos, por uma pedrada, desferida por um grupo de fanáticos religiosos, e sua mãe Kátia, que é mãe de santo, comemoraram a escolha do tema.
         A discussão é importante e precisa avançar, superando a fragilidade de visões cristãs centradas em leituras literais da Bíblia Sagrada e, sobretudo, o paradoxo representado pela existência de uma Teologia da Prosperidade erigida dentro da religião inaugurada por um judeu pobre que desprezava os ricos e o acúmulo de riquezas. É preciso, mais do que isso, avançar para além do campo da Teologia, afinal, theos e logos nos conduzem em direção ao monoteísmo e ao ocidente. Quem sabe (opinião de leigo) algo como uma Religiologia, possa dar conta da diversidade religiosa do mundo contemporâneo e incluir, em pé de igualdade, aqueles que acreditam nos mitos da ciência ocidental, os praticantes das religiões nativas do Novo Mundo, os descrentes, os poetas, os discípulos do Inri Cristo, os que acreditam em vida extraterrestre, aqueles que oram para a vitória do seu time de futebol e até mesmo aqueles que, a exemplo de tantos brasileiros, são cristãos, mas quando a coisa aperta mesmo, correm para o terreiro em busca de proteção.

 


PELEUMONIA - Em 01/08/2016

 

Muitas pessoas que, como eu, nasceram em famílias de trabalhadores, oriundos de algum pequeno município do interior do Brasil, se indignaram com o escárnio contido na selfie de Guilherme Capel, um jovem médico, branco, de classe media, que zombava do mecânico José Mauro de Oliveira Lima, um paciente que, por sua pouca escolaridade, não falava as palavras “pneumonia” e “raio-x” segundo a norma padrão do português brasileiro.

O ato que provocou enorme indignação foi capaz de traduzir, perfeitamente, o pensamento de muitos médicos brasileiros para os quais, o paciente humilde, trabalhador, semialfabetizado, é uma sub-raça, é sub-humano e, por isso, não merece um tratamento digno, não é capaz de pensar, dialogar e, por isso, sequer merece respeito. É bicho! É inferior, na escala de valores, ao poodle que pisa o sofá de sua sala.

A postagem de Capel caracteriza aquilo que o linguista Marcos Bagno definiria, em sua obra mais conhecida, como preconceito linguístico. Capel, o doutor sem doutorado que deve julgar-se o suprassumo da inteligência, mal deve ter ouvido falar na obra ou no famoso linguista. Tampouco deve ter familiaridade com grande parte dos conhecimentos das Humanidades. Como tantos médicos brasileiros, é provável que tenha se formado num curso no qual há primazia de disciplinas dos campos da biologia e das ciências biomédicas, tornando-se assim mais um profissional com a marca do mecanicismo, do biologicismo. Em outras palavras, um médico com tal formação, em seu consultório, trata de um mero corpo enfermo, do mesmo modo que o mecânico José Mauro conserta seus carros. Conhecimentos técnicos, da prática, mecânicos, que requerem pouca reflexão, num e noutro. O que os difere, ao que tudo indica, pode contar em favor do mecânico, pois se o mesmo for minimamente respeitoso com seus clientes, estará em vantagem sobre o homem do jaleco.

Tal comportamento, comum entre médicos brasileiros, tem origens na atrasada medicina medieval europeia, que, naqueles tempos misturava conhecimentos e crendices de povos nativos da Europa com a Astrologia. Neste período, as chances de cura, numa população altamente infectada por doenças infecciosas como a peste bubônica, a sífilis, a tuberculose e o tifo, eram mínimas. Os médicos tratavam os pacientes ricos e poderosos, como hoje, enquanto os religiosos cuidavam dos pobres, apenas com gestos de caridade, alimentando-os e afastando-os da população saudável.

Depois deste tempo, com a invenção do microscópio, as ideias de que partículas do ambiente, os miasmas, poderiam ser transmitidas, em dias de conjunção de Marte com Júpiter ou por castigo divino, começaram a ser questionadas. Isso, claro, fora das universidades. Em pleno século XX, no Brasil, muitos cursos de Medicina eram ainda resistentes às ideias de vacinação e tratamento químico via penicilina. Um dos maiores compositores brasileiros, Noel Rosa, por exemplo, ainda morreu, em 1937, por falta de tratamento adequado para a tuberculose.

Deste modo, o domínio de conhecimentos desta medicina científica brasileira, tão juvenil ainda, deveria ser motivo para mais humildade do rapaz que, mesmo tendo pedido desculpas, sabemos, não deixará de ser um elitista preconceituoso assim, da noite para o dia.

Além do mais, os que dominam o Estado da Arte da Epidemiologia, da Infectologia, da Saúde Pública, compreendem, diferente do arrogante rapaz, já superaram esta visão, segundo a qual a doença infecciosa inscreve-se no corpo. Especialistas contemporâneos compreendem que a doença é um complexo no qual estão englobados fatores como os psíquicos, os sociais e os culturais. Médicos que, dominam estes e outros saberes, compreendem a nocividade do processo que Paulo Freire denomina de invasão cultural.

Por isso, ao invés de perceber seu próprio povo como digno de pena ou compaixão, admira-o e sente orgulho destas que são suas próprias raízes, fincadas nos vastos rincões deste país que fala píula (ou pírula), célebro, custipação e peleumonia. Jovem Capel, escute a voz do Mestre Patativa que diz “é melhor falar errado dizendo a coisa certa do que falar certo dizendo a coisa errada”!

 

 

 

 

MARCOS QUEIRÓS FILHO - FILHO DE TODOS NÓS (EM 22/06/2016)

Leitor(a), desafio você a engajar-se nest texto! Não pare de ler! É sobre você, é sobre todos nós!

ALERTA!
Peço aos familiares do rapaz, assim como todo pai, mãe ou irmão que tenha perdido, precocemente, um ente querido, que interrompa a leitura neste ponto. Explico: é que o texto não se dirige a ti, que não precisas vivenciar novamente esta experiência traumática. Proponho aqui um exercício, uma reflexão, um exercício de imaginação para aqueles que nunca vivenciaram a perda de um ente querido, por razões que, ao final, explicarei.

Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.
Ó pedaço de mim, ó metade amputada de mim... Chico Buarque

É domingo e você volta para casa, depois de um encontro familiar, um churrasco, com prim@s, ti@s e outr@s amig@s. Cansado, mas alegre, você só pensa em tomar um banho e relaxar.

Toca o telefone, número desconhecido. O sujeito do outro lado da linha fala com voz grave e pronuncia, solenemente, seu nome. Você responde, já preocupad@: - Sim, sou eu!
Ele se identifica como delegado de polícia e conta sobre um crime. Seu corpo gela. Estariam desconfiando de mim? O que eu poderia ter feito de errado? Ou será que alguém próximo foi vítima do crime? O delegado revela então algo que você temia ser possível: foi encontrado um corpo e suspeita-se que seja seu filho [irmã(o) mais nov@ ou namorad@, etc.]. Você tenta controlar-se para não alarmar os demais parentes, em casa, mas sabe que, de algum modo, terá que contar para eles, pois terá que justificar sua saída para o IML. Seu coração está disparado, o nervosismo toma conta de você. Ao contar aos demais, mesmo com o tom suave e os tantos “senões” da explicação, um dos familiare tem uma crise nervosa e começa a chorar. Você tenta acalma-l@, mas percebe a lágrima no canto dos olhos dos demais parentes, a te olhar. Para complicar, seu(ua) parceir@ pede para ir com você, mas, por alguma razão, o delegado pede que você vá só. A saída de casa rumo ao IML é tensa. Sua mão, ao volante, está trêmula, seus olhos embaçados, marejados.
Chegando lá, o médico legista pede pra você se sentar e tentar se acalmar, dizendo que precisa ser forte e estar preparado para o que vai ver. O nervosismo aumenta. Depois de um copo de água com açúcar e de algumas tentativas de tranquiliza-l@, você e o legista se dirigem às gavetas nas quais estão depositados os corpos. A imagem que se revela, ao ser aberta a gaveta, nunca mais sairá da sua mente. Digna dos mais tenebrosos filmes de terror, a imagem revela que a pessoa que você mais amava nessa vida, foi vítima dos mais sofridos e dolorosos momentos a que um ser humano pode ser submetido: tortura, mutilação, espancamento, decapitação.
Tamanha a deformação produzida pela violência, mal se pode identificar o corpo, mas uma cicatriz, uma tatuagem, uma mancha de nascença, algo lhe dá a certeza de que é ele/ela sim, sem sombra de dúvida.
Tristeza, revolta, dor, em intensidade máxima, lhe apertam o peito que você tem a impressão que lhe faltará o ar. A fome, a vontade, a alegria, nesse momento, parecem sensações tão distantes que você acredita que jamais conseguirá voltar a senti-las.

Diante da banalidade do mal, o que você fará?

Na cidade de Manaus, em que um governante associado às mais brutais quadrilhas de traficantes, instala gângsters em postos estratégicos da Secretaria de Segurança, ninguém, nem eu, nem você, nem seu filho ou sua filha, seu irmão ou sua mãe, estamos livres de uma tragédia como a que se abateu sobre a família Queiróz.

Nestes tempos, que Kubrick parecia profetizar, em seu clássico “Laranja Mecânica”, vale lembrar a você da conhecida frase de Martin Luher King, que disse: “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons!”

 

 

AO CALUNIADOR CAGÃO (08/06/2016)

Por Welton Oda e Karine Sanchez

 

Dia desses, um sujeito escondido por trás de um perfil fake do face, alguém que pode chamar-se Diógenes, José, Paulo ou Raimundo, escreveu e postou uma foto (Welton empunhando um cartaz da greve) com acusações grosseiras e de caráter sexual. Para não darmos ao dito os cinco minutos de fama que ele almeja (essas crianças kkkk), omitiremos o nome fake e o espaço virtual em que as asneiras foram vomitadas. Diga-se, de passagem, que a foto postada, foi feita durante a greve dos professores (o que ajudará o leitor a compreender o contexto), mas o “cagão” já a retirou, além de editar o comentário mas nós, que não somos bobos, já printamos e enviamos à Polícia Civil, onde registramos o B.O, além de constituir um advogado. Aliás, o termo “cagão”, aqui usado, está entre aspas para que o leitor não o associe ao ato da defecação, para o qual, como veremos, o termo não poderia ser usado, visto que o (mal)dito tem mal resolvida a relação com seu próprio esfíncter anal (e, como consequência, também com o alheio).

1o. afirmação: inteligência inquestionável, confiram vocês mesmos!

Esquerdistas da UFAM, porque não socializam os seus cus”

1a. Humilde réplica

Inventando a roda, Paulo (ou Raimundo)! Dentre aqueles que você denomina esquerdistas, no caso, os professores grevistas, há até direitistas. Alguns socializam seus cus, outros não e ninguém briga por isso, não há homofóbicos e, portanto, não há cus amargurados por lá. No seu caso, Lúcio (ou seria José), talvez fosse legal você resolver esse desejo oculto, essa projeção, como diria Freud. Esse sentimento invejoso está te fazendo muito mal, como se depreende desse post. Andas mal resolvido.

2o. afirmação: a ideia genial que não serve pra nada

Lembrei, eles já fazem isso de graça”

2a. humilde réplica

Rapaz, Teobaldo, te resolve, os esquerdistas socializam seus cus ou não? Sua primeira afirmação sugere uma coisa, a segunda outra, que salada! Ou... “sobre como pensar antes de escrever ajuda a não ser tão contraditório”. Por falar em contradição, você afirma que “certo professor” “dorme com outro homem” ou “dá a bunda pra outro homem”, mas mesmo assim ainda quer aconselhar os professores a socializarem seus cus. Das duas uma: ou você não tem tanta certeza sobre o que diz ou tem mais experiência no assunto do que seria capaz de admitir. Pra nós, que vemos a homossexualidade sem o preconceito que tu demonstras, seria inconcebível resumir um ser humano ao “ato de dar o cu”. Além do mais, Josenildo, de boa, o cu é nosso e você não tem nada a ver com isso.

3a. afirmação: sobre o medo de ser ridículo

Conheço um certo professor grevista que adora passar vergonha, defensor do PT, do PC do B, e PSOL”

3a. humilde réplica

Gostaríamos, fraternalmente, de discordar de vossa sapiência, nesse caso, somente para dizer que, de fato, ninguém gosta de passar vergonha. Como imaginamos que você não seja uma pessoa de muita leitura, gostaríamos de recomendar Fernando Pessoa (que, embora você não tenha ouvido falar, foi um dos mais importantes escritores portugueses de todos os tempos). Pessoa fala sobre como é importante que cada um de nós compreenda o quanto há de ridículo em cada um de nós (inclusive em você, viu, Daniel?). Veja por exemplo a repercussão deste seu excremento pseudotextual: recebemos inúmeras manifestações públicas de solidariedade de docentes e estudantes da UFAM, no face e em outras redes sociais. Você, Diógenes, com certeza, com seu ato cloacal, não poderá dizer o mesmo.

Defendemos o PSOL e, em alguns casos, também o PT e o PC do B (embora tenhamos mais críticas do que concordâncias), mas lá vem você, que é defensor de partidos como aquele do “cara mais corrupto que existe” falar em passar vergonha. Estranho você, não, Feliciano?

4a. afirmação: sobre como é importante ler sobre o objeto da crítica

(o professor) “que é casado, mas dorme com outro homem e libera a mulher dele para outros homens, na “lógica” dele tudo na vida é sociável, até mesmo sua mulher”

4a. humilde réplica

Veja, Rigobaldo, como sua leitura de orelha de livro não te ajuda muito. Quem acredita no socialismo combate a propriedade privada. Portanto, falar sobre a propriedade privada de um ser humano é algo que se concebe apenas na sua “lógica” machista (por isso o ódio ao feminismo que você destila em outras postagens). Como não “temos” um ao outro, somos livres para fazer nossas escolhas, um não libera o outro pra nada, até porque nenhum de nós acha que tem direito sobre o outro, como na sua “lógica”. Diferente de você, temos profundo respeito um pelo outro. Além disso, em casa vivemos nós e nossos filhos e nos estranha essa afirmação sobre esse homem que dorme por aqui. Como você diz com tanta certeza, imaginamos que você de fato saiba mais do que nós e, se sabe mais do que nós, então esse homem é...Aham!! É VOCÊ! Rapaz, é melhor tomar cuidado com esse seu fetiche de voyeur porque uma hora dessas acabaremos te encontrando a brechar nosso quarto!

5a. afirmação: fechando com chave de fezes

Vocês já sabem quem é esse idiota?”

5a. humilde réplica

Como é que você faz uma pergunta dessas e bota a foto embaixo? Dããããã!! Até revistinha infantil quando publica uma charada sabe que não pode dar a resposta assim, tão fácil, Francivaldo!

Sem moral, sem história

Diferente de vocês, moralistas, que adoram uma “moral da história”, não pretendemos dizer como você, Jair, deve viver, mas em nome de minorias, como as mulheres, cis, e sobretudo trans, de gays, lésbicas, bissexuais e travestis, que sofrem na pele todos os dias com xingamentos e agressões feitas por pessoas como você, é que não poderíamos deixar essa agressão passar em brancas nuvens.

O Brasil, recentemente inundado por postagens agressivas, chulas, carregadas de ódio, como a sua, tem contribuido para banalizar violências graves, como estupros, agressões homo e transfóbicas, destruições de terreiros, intolerância religiosa, agressões e assassinatos de nordestinos, mendigos, pobres e outros grupos vulneráveis. Ainda assim, os tempos em que gente da sua laia mandava e desmandava impunemente, acabaram.

Vá de retro, Satanás!

 

 


UM GÂNGSTER NO STF: O CUNHA DO JUDICIÁRIO (29/05/2016)

À morte não dou mais importância que a um figo podre, mas dou o máximo valor a não cometer nenhuma injustiça ou impiedade. (Sócrates).

Diz Vanuzia Lopes, criadora da Associação de Vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih “Eu fiquei dois anos sem sair de casa, com pânico desse homem (...) “Ele me violentou quando eu estava sedada, só que eu acordei minuto antes e consegui me desvencilhar”. “Não tem defesa. Ele é safado, estuprador, é um monstro sim”, diz Helena Leardini, outra vítima. “Logo que denunciei recebi telefones dizendo que iam acabar comigo, me destruir”, conta Yvany Serebenic. Já Maria Silvia Franco, em seu depoimento diz: "Ele destruiu famílias, sonhos de mulheres, casamentos e famílias. (...)fiquei doente, não tive filho, não consegui engravidar, (...) me separei do meu marido, fiquei um ano, dois anos sem ninguém encostar em mim. Ele me fez abortar com quatro meses, sozinha em casa, sem amparo médico. Ele não me deixou ir para o hospital." Com Tereza Cordioli foi assim: “Eu estava de sonda, com soro nos dois braços. Ele sugava meu seio, lambia as partes, queria que eu fizesse sexo oral, esfregava o membro no meu rosto. Nessa época, Roger tinha 28 anos, e era médico-residente.

Por estas e por outras dezenas de denúncias de crimes sexuais, sendo 56 estupros, o ex-médico Roger Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão e, de fato, chegou a estar preso, não fosse o dedo de um dos mais perigosos gângsters do judiciário brasileiro, o Cunha do Judiciário, Gilmar Mendes. Em fevereiro de 2011, após inúmeros esforços da Polícia Federal para prender Abdelmassih, que estava foragido, no Paraguai, um habeas corpus do magistrado permitiu que fugisse para o Líbano, onde vive, em liberdade.

E esta é apenas a pior ação de um bandido com uma ficha corrida extensa. Diga-se de passagem, este habeas corpus havia sido negado, em maio de 2010, pela ministra Ellen Gracie. Além deste, foi Mendes quem também concedeu habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, preso pela Polícia Federal em 2008 no caso Satiagraha. Outro habeas corpus famoso de sua lavra soltou Cristina Maris Meinick Ribeiro, condenada por desaparecer com um processo de sonegação fiscal da Receita Federal contra a Globo.

Quer mais? Pois bem, o Cunha dos tribunais também acoberta o irmão, que anda livre, leve e solto com seus mais de 30 processos judiciais nas costas. Sem contar a lambança judicial que fez, num cassa-descassa interminável do prefeito eleito da pequena Diamantino (MT) Erival Capistrano (PDT), rival de sua família nesta que é a cidade natal de Gilmar Mendes.

E a alcunha aqui atribuída, Cunha do Judiciário, não é gratuita. Foi também Mendes quem mandou arquivar a Petição 5.169, que trata de investigação sobre crimes financeiros contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Não bastando esta “forcinha”, Mendes também segurou por mais de um ano (até que fosse citado criminalmente) o processo contra o financiamento empresarial de campanhas eleitorais, além de integrar a lista de beneficiários do chamado “mensalão do PSDB”.

E pra fechar com chave de ouro sua ficha corrida, é preciso fazer referência ao seu empenho, pouco usual, na defesa de fazendeiros que fazem uso do trabalho escravo, como o senador João Ribeiro, dono da Fazenda Ouro Verde, no Pará. O senador foi condenado, mas Mendes, junto com Marco Aurélio Mello e Dias Toffoli, votaram contra. Tal voto foi dado mesmo com a confirmação, pelo TST, em 2010, da presença de trabalho escravo na fazenda. Talvez por essa e por outras é que o Ministro Joaquim Barbosa, numa áspera discussão com Mendes disse para ele respeitá-lo porque ele não estava falando com seus capangas no Mato Grosso.

É claro que Mendes não é o único e que o Judiciário, como o Executivo e o Legislativo, é infestado por corruptos, como comprovam as recentes gravações de peemedebistas graúdos. É provável que quase todo o STF esteja comprometido. É bem verdade que os togados parecem acima da lei, que não são sequer investigados, que dirá condenados, mas é exatamente por isso que precisamos questionar a Suprema Corte, sobretudo, agora, quando as vísceras são expostas e a infecção se mostra exuberante.

Se estás indignado, lembre-se que, de acordo com a Lei no. 1079/1950, a chamada Lei do Impeachment, é permitido a todo cidadão denunciar perante o Senado Federal, os Ministros do STF (...) pêlos crimes de responsabilidade que cometeram. Parece claro que o cenário atual indica uma pizza de encher os olhos, mas se todo cidadão pode denunciar ministros do STF, uma chuva de denúncias seria um fato político da maior relevância e fragilizaria os Batmans, Supermans e Chapolins Colorados da magistratura nacional.

Não sabe como proceder? Procure quem sabe, organize-se, associe-se. Para você, que diz lutar contra a corrupção, talvez já esteja claro que esta luta é longa, que deve ser cotidiana e que deve envolver amplos setores da sociedade

E, nesta luta, o STF, em geral, e Mendes, em particular, são a bola da vez!

 

 

NASCE UM NOVO BRASIL (13/05/2016)

Sou do país do futuro/ futuro que insiste em não vir por aqui (Toquinho)

Ok, vitória parcial, satisfeitos? Certamente! Percebe-se fácil, já que aquela disposição incrível para combater a corrupção... Corrupção? Mas, claro... havia me esquecido... Que ingênuo sou eu! Não te vejo mais nas ruas porque a corrupção já acabou!! 12 de maio! Que data memorável! Aliás, seu novo presidente, na nova equipe possui, na pasta da Justiça, o nome mais apropriado para esta tarefa: Alexandre de Moraes, ex-advogado do PCC. Meritocracia total! Que coerência a sua! Escolheu bem, hem?

Em outras áreas idem. Por exemplo, o alegado machismo, essa invenção de feminazis e petralhas, agora não tendo mais uma mulher com essas ideias tresloucadas na presidência para reforçar essa invenção comunista, o presidente interino, que não padece deste mal, pode montar sua equipe dispensando a presença das mulheres, que devem ser belas, recatadas e do lar, o que não combina nada com política, que é coisa para homens.

Outra invenção comunista, o racismo, também não demandará mais seu combate pelo novo governo. Para reforçar esse novo ponto de vista, Temer dispensará negros e indígenas do primeiro escalão (também do segundo e do terceiro), o que reforçará, no cotidiano da equipe, a ideia de igualdade. Vejam que gênio! Acabando com a desigualdade, por todos os lados os ministros só verão homens, altos, brancos e ricos!

Homofobia, transfobia? Vejam quanta herança maldita dos petralhas! Outra invencionice comunista a ser transformada! O projeto do novo governo pretende revolucionar o Projeto Minha Casa, Minha Vida, oferecendo casas com armários embutidos com portas e fechaduras reforçadas, no padrão tradicional. E para mostrar seu apreço por aqueles que não são heterossexuais, criará dois programas: “Eu tenho até um amigo gay!” e “Eu até falo com travestis!” Tais iniciativas ficarão a cargo de seu único ministério novo: o Ministério da Cura. Irá assumir... quer dizer, tomar posse no cargo, o ex-deputado federal Marco Feliciano.

Quanto aos indígenas, esses gananciosos, que agem como se houvessem chegado aqui antes de nós, Temer pretende, como proposta pedagógica e cultural, remontar e encenar um espetáculo apresentado por seus ancestrais (do quais afirma ser de linhagem pura) em 1500. O espetáculo, que recapitulo por puro preciosismo, já que todos conhecem, inicia com o conhecido ato da troca de espelhos, vírus, estupros, além de presentinhos Made in China dos generosos lusitanos, por ouro, prata, pedras preciosas (que, mesmo quando paraguaios, eram legítimos), doados pelos pobres e primitivos indígenas (os coitados não tinham nem roupa pra vestir, nem Bíblia!). O segundo ato, intertextual, traz uma composição cujo autor é um personagem histórico conhecido (ao menos naquele período): Roger Rocha Moreira, com sua banda “Ultraje a rigor”. O músico paulista oferece a conhecida performance “Nós Vamos Invadir sua Praia”, tocada pela banda e coreografada pelo corpo de balé “Santa Maria, Pinta, Nina e seus mil canhões”. O último ato, intitulado “Doe tudo o que tens, aceite a palavra do Senhor ou então morra!” é um épico de fazer inveja à Stanley Kubrick e seu “Laranja Mecânica” e conta com a participação de Edir Macedo e Amazonino Mendes.

Por fim, para mostrar inovação e modernidade, nada de BRICS, esse conglomerado do atraso e primitivismo. O Ponte para o Futuro prevê convênios de cooperação com países de 1º. Mundo, em termos que resgatam nossas melhores relações com estes países que sempre fizeram tão bem ao Brasil, os fiéis depositários de tantas de nossas riquezas, da madeira ao ouro, do ferro ao imigrante ilegal. A estes países, sempre tão generosos e benevolentes devemos oferecer um pouco mais de nosso trabalho e riqueza, afinal, já sabemos o quanto eles prosperaram com esses acordos! Você, que com a FIESP, batalhou tanto para a prosperidade europeia e estadunidense, obviamente, trabalhará orgulhoso, mesmo com um pequeno aumento na carga horária e uma pequena redução salarial, não é mesmo! Parabéns!

Não esquecendo de Deus, tão fundamental neste novo Brasil! Você, irmão, que pediu tanto a ele, em nome de sua família, saiba que todo esse futuro de prosperidade e igualdade que se anuncia, em breve será uma realidade, ainda que não te inclua. Como sabemos de sua imensa generosidade, imaginamos que não se importará quando souber que acabaram os kibes do Habib’s e o lanchinho da FIESP. Dê a outra face agora!

Só resta a você, defensor do impeachment, levantar as mãos pro céu e agradecer! Tão verdadeiramente quanto sorriso de comercial de creme dental ou quanto a bondade do Ronald Mc Donald, você será muito feliz!

 

 

TEXTÍCULOS DE MÃES (09/05/2016)

Lúcia pensa em seus filhos 24 horas por dia. Não permite que saiam sozinhos, que andem sujos ou façam brincadeiras perigosas. Lúcia cuida para que seus filhos tenham boas amizades e jamais permite que durmam fora de casa. Mauro, 38, e Paula, 26, a consideram uma mãe muito presente e amorosa.

Aurineia teve depressão pós-parto. Até hoje, seis meses depois de nascido seu filho, ela não consegue vê-lo sem sentir certo enjôo. Os vizinhos falam muito mal de Aurineia. O marido a abandonou e agora quer tomar de sua família a guarda da criança.

Lídice sai da reunião com a militância do partido e vai para o Bar do Zé. Lá, olha para Nestor e se enamora. Nestor vai até sua mesa, pede licença e começa a cortejá-la. Enroscam-se e lambuzam-se de paixão por três dias, quase não saem do quarto, quase não comem, esquecem de tudo. A primeira discussão é violenta e Nestor manda Lídice embora. Ela retorna para sua casa, onde é recebida, com fúria, por sua filha mais velha, que reclama da irresponsabilidade da mãe, que deixou três filhos sem comida a semana inteira. Por causa disso, prosseguiu, aumentando o tom de voz, teve que recorrer aos vizinhos para não morrerem, todos, de fome. Lídice vai para o quarto e dorme.

Miriam caminha até a porta, de camisola, e diz aos evangélicos que a aguardam que não acredita no deus deles, pois é da macumba. Seu filho pergunta porque ela mentiu, já que é ateia. Miriam explica que a mentira tem suas utilidades e uma delas é não ter que perder tempo com cantilena de fanáticos. Ele pergunta porque ela não pode ser normal e acreditar em Deus como todo mundo. Ela, como sempre, afirma que não é como todo mundo. Ele diz que, na escola, é tratado como um ET quando perguntam sobre sua religião e ele diz que não frequenta nenhuma e que não tem coragem de assumir que não acredita em Deus por medo de ser excluído pelos colegas. Ela oferece bolo e suco ao filho.

Márcia aperta firme a trança dos cabelos de Letícia, que reclama de dor. Apertando ainda mais a trança, diz à filha que deixe de manha e que vá se acostumando porque jamais permitiria que ela saísse à rua assim, com o cabelo todo desgrenhado. Enquanto aperta a trança pergunta à filha: o que é que o vizinho veio visita-la, pela manhã? A filha explica que o rapaz veio para convidá-la para uma festa. A mãe, furiosa com o atrevimento do rapaz, pergunta à filha: o que foi que tu respondeste? Ela disse que respondeu ao rapaz que só poderia sair com ele caso fossem, primeiro, à sua igreja, juntos (mentiu). A mãe sorriu, orgulhosa.

Rô sai da aula de karatê com a filha, Yura Há. Passam no bar e encontram com as amigas para tomar umas. O bar é um bar normal, nem é um bar hetero. Vez ou outra aparece algum machista, tenta aprontar alguma machice e sai escurraçado. No caminho pra casa também há sempre um desavisado a tentar assediá-las agressivamente, tomando o devido corretivo. Em sala de aula, Rô leciona e fala sobre o tempo em que o machismo era hegemônico. Seus alunos ficam horrorizados.

Kelly adora Paulo, seu cliente mais assíduo. A transa é intensa, a camisinha estoura. A menstrução atrasa. Pede a Paulo que pague o Citotec. Já conhece o esquema: dois por cima, dois por baixo. Não funciona. Sente dores horríveis e precisa ir ao hospital. Quando acorda é informada pela enfermeira de que quase abortara, mas que já havia recebido medicação e que estavam bem, mãe e criança, mas que ficaria internada. Sua mãe e sua irmã são avisadas do ocorrido e cuidam dela para que se restabeleça. A barriga cresce, não pode mais abortar. Sua mãe e sua irmã retornam para sua cidade natal. A criança nasce. Sela com Leila, um pacto para que a criança tenha um destino melhor, comprometendo-se a nunca querer sua filha de volta. Retorna a seu mundo.

Sansara briga para que Krishna coma seu hômus. Secretamente, o filho não aguenta mais hômus, pão integral, pão sírio, pasta de berinjela, tabule e todo esse cardápio natureba. Deseja muito uma coca-cola e batatas-fritas, mas sabe o tamanho da cólera materna ao ouvir seus mais recônditos desejos, então resolve se calar. Acauã, seu vizinho de tenda, considera monótono e viajandão. Prefere Lucas, que joga videogame escondido de seus pais e tem uma coleção de revistas pornográficas incríveis. Krishna também acha um saco a reunião da União do Vegetal e briga com Sansara todos os domingos para poder ficar em casa. Às vezes é ele quem ganha a discussão, em geral acaba indo só pra não ter que ouvir o nhém-nhém-nhém da mãe.

 

 

O IDIOTA - 24/04/2016

O mundo de valores decadentes que Dostoievsky descreveu era o de meados do século XIX, cerca de 300 anos depois de Dom Quixote de La Mancha e quase dois mil anos depois de Jesus Cristo, os dois principais inspiradores do autor russo, na construção do personagem central da trama, o Príncipe Michkin, bondoso como um Mujica, dócil como Madre Tereza ou Gandhi.

Esse é o principal sentido de idiota no texto de Dostoievsky, bem distante de sua raiz etimológica grega, que dirige-se ao “sujeito privado”, cujo sentido é melhor representado, no presente pelos 367 “picaretas com anel de doutor” da letra da música “Luis Inácio”, de Herbert Vianna.

A atualidade do livro é evidente no Brasil da atual crise política. Num contexto em que a máxima bondade é facilmente confundível com estupidez, com falta de inteligência, o deputado federal e compositor Sérgio Reis (PRB-SP), revela a concepção hegemônica do brasileiro sobre honestidade, na letra de uma de suas mais famosas canções (Filho adotivo), que diz: "esse meu filho, coitadinho muito honesto, vive apenas do trabalho que arranjou para viver".

Percebe-se assim que não foi na votação de domingo a primeira vez que o cantor mostrou seu menosprezo pela honestidade. Na obra de Dostoievsky, Michkin, o idiota (também revelado, em bela adaptação, pela lentes do nipodiretor Akira Kurosawa) é um incompreendido pela aristocracia, que não preza seu desapego por bens materiais, mas também pelos mais pobres, que o consideram aristocrata demais.

Sendo homem raro numa sociedade machista é disputado por duas mulheres fortes às quais o julgamento patriarcal classificaria como "caprichosas", "vaidosas". Sendo mulheres fortes em pleno século XIX, encontram brechas de opressão, espaço de poder em lares cujos "chefes de família" ou estão ausentes ou são incapazes de exercer o comando. Presume-se, na trama, que o pai de Nastácia, uma de suas pretendentes, é ausente, enquanto o pai de Aglaia, a outra, é alcólatra.

Solidário ao drama de ambas, torna-se alvo de um tiroteio emocional entre Aglaia e Nastácia. Mais do que isso, é instado pela família aristocrata e pela sociedade local a tomar partido em favor de Aglaia (que já não era assim tão bela, recatada e do lar) e desprezar Nastácia, uma espécie de Geni dostoievskyana, posição que ele recusa terminantemente, mesmo quando aceita se casar com Aglaia.

Isolado numa posição em que todo os lados do conflito desprezam seus valores e seu comportamento, Michkin, de tão bom, não consegue nem "cuspir no Bolsonaro", autoexilando-se depois de todo o tipo de violência, como o assassinato de Nastácia e o confinamento familiar de Aglaia, impedida de vê-lo.

Isolado numa posição em que todo os lados do conflito desprezam seus valores e seu comportamento, Michkin, de tão bom, não consegue nem "cuspir no Bolsonaro", autoexilando-se depois de todo o tipo de violência, como o assassinato de Nastácia e o confinamento familiar de Aglaia, impedida de vê-lo.




 

A SAGA DE RONYCLEISON - 05/04/2016


7 de maio
Ronycleison abre o portão e ouve o velho ranger do gonzo que sugere, a semanas, que deveria lubrificar o dito. Quase pisa na bosta do gato, depositada na mesma areiazinha acumulada no canto do muro há semanas. A vizinha idosa lhe deseja bom dia. Sente o cheiro do perfume de sua musa, que corre para não perder o busão. Oferta um belo sorriso, faz um galanteio e é ignorado. Pede dois pães na Taberna de Dona Rosa, um para a manhã e outro para a tarde. Paga com uma nota de cinco reais e reclama do troco, que veio a menos. Chega em casa e percebe que esquecera de comprar o pó de café.  Come pão com manteiga e bebe água. Veste-se apressadamente e vai para o trabalho, onde aperta exatos 352 parafusos do sedan modelo novo. Volta para casa exausto, deita no sofá e adormece.

8 de maio.
Ao abrir o portão, ouve o familiar rangido do gonzo. Angustia-se por não ter lubrificado o maldito. Desvia da bosta do irritante gato, depositada na mesma insuportável areiazinha acumulada no canto do muro. A vizinha idosa, dona dos gatos, lhe deseja bom dia. Quase dá de cara com sua musa, que corre para não perder o busão. Sorri galante e recebe, em troca, um olhar congelante. Pede seus dois pães à Dona Rosa, paga com uma nota de cinco reais e quase briga com ela por causa do troco errado. Procura o pó de café e não encontra.  Come pão com manteiga e bebe água. Veste apressadamente a roupa amarrotada e vai para o trabalho, onde aperta 355 parafusos do novo sedan, seu recorde. Volta para casa exausto, deita no sofá e adormece.

9 de maio
Ao ouvir o rangido do portão, perde a paciência e chuta o gato, prestes a cagar no montinho de areia. Distraído pisa em outra bosta de gato, mais adiante. A vizinha idosa, dona dos gatos, vocifera impropérios, Ronycleison a chama de velha coroca. Sua musa, hoje, aparece sorridente e de braços dados com um colega de trabalho. Compra seus dois pães, mas nem confere o troco. Não tem vontade de comer o pão, mal bebe água. Veste a calça do avesso e erra as casas dos botões da camisa. É alvo de chacota no busão da empresa. Perde uma das falanges ao sofrer um acidente na máquina de apertar parafusos. Gasta seus últimos trocados do salário com remédios e curativos. Volta para casa exausto, deita no sofá e mal consegue dormir, tamanha a dor.

10 de maio
O gonzo se solta e Rony sente uma dor horrível ao usar o dedo ferido para tentar segurar o portão, que cai no chão. A vizinha idosa diz “bem feito”, ele mal tem forças para retrucar. Sua musa passa a seu lado de mãos dadas com o mesmo colega, com um irritante riso apaixonado. Desiste de comprar pão só de pensar em Dona Rosa, no troco e na falta de apetite. Veste a mesma camisa suja de sangue do dia anterior, não havia mais nenhuma limpa. Padece com dores o dia inteiro para conseguir apertar os parafusos na máquina. Volta para casa e chora sobre a mesa suja das migalhas do pão. Olha para a faca sobre a mesa e a aproxima do pulso. Pressiona a lâmina sem vontade, sem coragem. Sente-se pior, um desgraçado, covarde, que nem pra se matar presta.

10 de novembro
Ronycleison, como nos últimos meses, abre o portãozinho da esquerda, já que o grande está com o gonzo quebrado. Dois gatos da vizinha e seus filhotes correm ao avistá-lo. A vizinha o ignora. Procura sua musa, como o faz há meses, mas novamente não a vê. Compra dois pães, reclama do troco e, na volta, encontra, enfim, sua musa, grávida. Sorri e cumprimenta a moça. Ela retribui o galanteio com o sorriso mais bonito que Ronycleison um dia já viu.