Língua a Conta-Gotas

Tudo tem um porquê! Em 16/01/2018

Hoje trataremos da grafia de uma palavra em relação à qual a maioria dos falantes da Língua Portuguesa tem dúvidas. São as quatro formas de escrever PORQUE. Esperamos que, até o fim do texto, o leitor assimile por que se grafa assim cada um destes porquês!

PORQUE sempre equivale a POIS.

Exemplo:

Estudamos, porque sempre precisamos aprender.

PORQUÊ com acento sempre está substantivado. Aceita artigo ou outro determinante.

Exemplo:

Não sei o porquê de tanto peculato sem punição no País.

POR QUE

* Preposição + pronome relativo = PELO QUAL e flexões (sempre há um substantivo anterior claro ou subentendido)

Exemplos:

A impunidade é o motivo por que o brasileiro pouco acredita na justiça.

Eis por que o País está com baixa credibilidade. (motivo por que, razão por que)

* = POR QUE MOTIVO, POR QUE RAZÃO

Exemplos:

Por que a punição só vale para os pobres?

Não sabemos por que ainda há fome num país opulento como o nosso.

* = POR QUAL

Exemplo:

A polícia descobriu por que estrada fugiram os meliantes.

POR QUÊ

* Usa-se ao lado de pontos ou vírgulas.

O País está um caos, e todos sabem por quê.

Teobalda traiu Chifronésio por quê, se ele sempre foi um bom cônjuge?

* Também leva acento se o verbo usado anteriormente está subentendido para não ser repetido.

Exemplo:

As pessoas escrevem misto com "x". Explicar por quê remonta ao Inglês. (Explicar por que escrevem assim remonta ao Inglês).



As funções da linguagem - Em 24/12/2017

Em todo ato comunicativo, existe uma pretensão, uma intenção a ser atingida. Roman Jakobson, linguista russo, elaborou estudos acerca das funções da linguagem, as quais são úteis para a produção e a análise dos textos.

O que é a FUNÇÃO DA LINGUAGEM? De modo simples, é a INTENÇÃO, o OBJETIVO que se pretende atingir no processo de comunicação.

Em um texto, pode haver mais de uma FUNÇÃO, por isso se deve falar em predomínio das FUNÇÕES DA LINGUAGEM.

Por exemplo, quando se lê uma notícia, a intenção do autor é INFORMAR o leitor, havendo, com isso, a FUNÇÃO REFERENCIAL.

Outro exemplo: as propagandas visam CONVENCER, PERSUADIR o receptor em relação ao conteúdo disposto na mensagem. É um exemplo clássico de FUNÇÃO APELATIVA.

FUNÇÃO REFERENCIAL ou DENOTATIVA ou INFORMATIVA: transmite-se a informação de modo objetivo, denotativo. A intenção é informar: textos jornalísticos, científicos, técnicos, didáticos, correspondências oficiais.

"Em 2018 empresa vai levar dois turistas para viajar em volta da Lua." (UOL - 27/2/2017 - Função Referencial)

FUNÇÃO EMOTIVA ou EXPRESSIVA: o autor, de modo verdadeiro ou não, expõe seus sentimentos, sua opinião, sua emoção. Predomina a subjetividade. Nesta função ocorre a primeira pessoa do singular.

A oração "Eu te amo" contém FUNÇÃO EMOTIVA. "Puxa!", "Meu Deus!" também são exemplos dessa função. Repare nas exclamações (do eu).

FUNÇÃO FÁTICA ou DE CONTATO: prolonga ou interrompe a comunicação, testa a eficiência do canal, estabelecendo e mantendo contato com o interlocutor.

Também ocorre quando se repete muito a mensagem, com a intenção de enfatizar seu conteúdo: "Compre Batom, compre Batom...".

Expressões de fim de frase como "Entendeu?", "Certo?", "Não é mesmo?", "Oi!", "Alô!" são exemplos de função fática.

FUNÇÃO APELATIVA ou CONATIVA ou IMPERATIVA: aqui a intenção é convencer, persuadir o receptor da mensagem. Utilizam-se muitos verbos no modo imperativo e vocativos (chamados).

Os textos publicitários e os discursos políticos exemplificam facilmente a função apelativa ou conativa: "Eleitor, vote na mudança!".

FUNÇÃO METALINGUÍSTICA: a linguagem explica a própria linguagem aqui. É o código (a língua) explicando a si mesmo.

Exemplo clássico são os dicionários. Note que neles as palavras explicam umas às outras.

Na poesia parnasiana, a arte explica a própria arte: "Assim, procedo. Minha pena / Segue esta norma, / Por te servir, Deusa serena, / Serena Forma!" (Olavo Bilac)

Note que Bilac faz um poema falando acerca da arte em si de compô-lo. (função metalinguística)

FUNÇÃO CONOTATIVA ou POÉTICA: aqui há a recriação dos sentidos das palavras; ocorre a combinação de sons, de ritmos que dão novas possibilidades à mensagem.

"No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho". (Carlos Drummond de Andrade)

No famoso trecho de Drummond, há um novo sentido dado à palavra "pedra", além das inversões e da proposital transgressão gramatical (tinha em vez de havia).


A escrita de E ou de I no fim dos verbos - Em 10/122017

Notei que inúmeras pessoas têm dificuldade de discernir quando empregar "e" ou "i" na grafia final dos verbos.

Se você tem dúvidas em relação a quando escrever, por exemplo, "surge" ou "surgi", intenciono dar cabo a esse dilema ao término desta postagem. O que você aprenderá vale para toda a Língua Portuguesa, sem exceção!

Você deve grafar "e" somente nas sílabas átonas (fracas) dos verbos paroxítonos (aqueles cuja sílaba mais forte é a penúltima).

Repare nos exemplos abaixo:

Gertrudes inGEre bebidas alcoólicas quando seu esposo a trai.

O sol SURge fortemente nas primeiras horas do dia, em Manaus.

Astrobete CURte música eletrônica em alto volume.

Cornélio proMEte fidelidade a sua futura esposa, Astrogilda.

Por sua vez, você deve grafar "i" nos verbos oxítonos (os que têm a sílaba mais forte na última posição).

Perceba o que ocorre com os verbos acima quando são oxítonos:

Eu ingeRI uma água de coco geladíssima.

Eu surGI na sua vida para amá-la, Gertrudes! (cacofonia intencional: /mala/ 😀)

CurTI a nova música de Justin Bieber.

PromeTI que irei amar-te para sempre, Teobalda!

Notou outra diferença? Você deve usar "e" na terceira pessoa do verbo (percebe?); já "i", na primeira (percebi, Edson!).

Observação - Em verbos como CONTRIBUIR (UI é um encontro vocálico), a ocorrência de "i" na sílaba tônica se mantém da seguinte forma:

A corrupção excessiva contriBUI para que o povo sempre desconfie dos políticos. (aqui houve ditongo na sílaba destacada)

Eu contribuÍ para a mudança do panorama político do País por meio do meu voto. (nesse caso, houve hiato tônico; por isso o "i" foi acentuado).

De qualquer forma, em contriBUI e em contribuÍ, a vogal "i" continua ocorrendo na sílaba tônica!

Por fim, repare em que, em verbos como contiNUe (imperativo de CONTINUAR), SUe (imperativo de SUAR), aTUe (imperativo de ATUAR) etc., você grafa "e" pelo fato de essa vogal aparecer na sílaba fraca.

Um importante fenômeno linguístico: a lei do menor esforço - Em 24/11/2017


As línguas estão em constante evolução, e há uma tendência de os falantes cada vez mais expressarem suas ideias por meio de menos palavras. A essa economia no que tange ao emprego das estruturas linguísticas chamamos de Lei do Menor Esforço. O próprio nome desse fenômeno sugere a sua essência. Para a melhor compreensão do leitor deste texto, darei dois exemplos bem didáticos dessa Lei. 

Durante o processo de colonização portuguesa, a expressão VOSSA MERCÊ, que até certo ponto cronológico era empregada somente para o rei, passou a ser utilizada para designar qualquer título de nobreza. Essa difusão também atingiu as classes vulgares (entenda "vulgar" no sentido latino de "do povo"). A partir daí, tal expressão vem sofrendo REDUÇÃO fonética e morfológica: VOSSA MERCÊ passou a VOSMECÊ, que mais adiante se tornou VOCÊ (e há quem utilize 'OCÊ, 'CÊ ou ainda VC nas conversas por meio de aplicativos como o WhatsApp).

VOSSA MERCÊ > VOSMECÊ > VOCÊ é um exemplo clássico da Lei do Menor Esforço. 

Note que na situação acima ocorreu igualmente a dessemantização (perda do sentido original do que representava VOSSA MERCÊ). 

Outro prático exemplo dessa Lei ocorre quando damos BOM DIA, BOA TARDE ou BOA NOITE a alguém, e essa pessoa responde à saudação apenas com BOM, BOA e BOA, respectivamente. Tal redução na resposta ao cumprimento demonstra economia na linguagem, mas também carrega, sob a ótica do discurso, a ideia de que o interlocutor pode estar desinteressado na conversa ou ocupado ou em outra condição que inviabilize a conversação. 

Em resumo, a Lei do Menor Esforço consiste na progressiva síntese das estruturas linguísticas dentro do processo de comunicação.