Língua a Conta-Gotas

A escrita de E ou de I no fim dos verbos

Notei que inúmeras pessoas têm dificuldade de discernir quando empregar "e" ou "i" na grafia final dos verbos.

Se você tem dúvidas em relação a quando escrever, por exemplo, "surge" ou "surgi", intenciono dar cabo a esse dilema ao término desta postagem. O que você aprenderá vale para toda a Língua Portuguesa, sem exceção!

Você deve grafar "e" somente nas sílabas átonas (fracas) dos verbos paroxítonos (aqueles cuja sílaba mais forte é a penúltima).

Repare nos exemplos abaixo:

Gertrudes inGEre bebidas alcoólicas quando seu esposo a trai.

O sol SURge fortemente nas primeiras horas do dia, em Manaus.

Astrobete CURte música eletrônica em alto volume.

Cornélio proMEte fidelidade a sua futura esposa, Astrogilda.

Por sua vez, você deve grafar "i" nos verbos oxítonos (os que têm a sílaba mais forte na última posição).

Perceba o que ocorre com os verbos acima quando são oxítonos:

Eu ingeRI uma água de coco geladíssima.

Eu surGI na sua vida para amá-la, Gertrudes! (cacofonia intencional: /mala/ 😀)

CurTI a nova música de Justin Bieber.

PromeTI que irei amar-te para sempre, Teobalda!

Notou outra diferença? Você deve usar "e" na terceira pessoa do verbo (percebe?); já "i", na primeira (percebi, Edson!).

Observação - Em verbos como CONTRIBUIR (UI é um encontro vocálico), a ocorrência de "i" na sílaba tônica se mantém da seguinte forma:

A corrupção excessiva contriBUI para que o povo sempre desconfie dos políticos. (aqui houve ditongo na sílaba destacada)

Eu contribuÍ para a mudança do panorama político do País por meio do meu voto. (nesse caso, houve hiato tônico; por isso o "i" foi acentuado).

De qualquer forma, em contriBUI e em contribuÍ, a vogal "i" continua ocorrendo na sílaba tônica!

Por fim, repare em que, em verbos como contiNUe (imperativo de CONTINUAR), SUe (imperativo de SUAR), aTUe (imperativo de ATUAR) etc., você grafa "e" pelo fato de essa vogal aparecer na sílaba fraca.

Um importante fenômeno linguístico: a lei do menor esforço - Em 24/11/2017


As línguas estão em constante evolução, e há uma tendência de os falantes cada vez mais expressarem suas ideias por meio de menos palavras. A essa economia no que tange ao emprego das estruturas linguísticas chamamos de Lei do Menor Esforço. O próprio nome desse fenômeno sugere a sua essência. Para a melhor compreensão do leitor deste texto, darei dois exemplos bem didáticos dessa Lei. 

Durante o processo de colonização portuguesa, a expressão VOSSA MERCÊ, que até certo ponto cronológico era empregada somente para o rei, passou a ser utilizada para designar qualquer título de nobreza. Essa difusão também atingiu as classes vulgares (entenda "vulgar" no sentido latino de "do povo"). A partir daí, tal expressão vem sofrendo REDUÇÃO fonética e morfológica: VOSSA MERCÊ passou a VOSMECÊ, que mais adiante se tornou VOCÊ (e há quem utilize 'OCÊ, 'CÊ ou ainda VC nas conversas por meio de aplicativos como o WhatsApp).

VOSSA MERCÊ > VOSMECÊ > VOCÊ é um exemplo clássico da Lei do Menor Esforço. 

Note que na situação acima ocorreu igualmente a dessemantização (perda do sentido original do que representava VOSSA MERCÊ). 

Outro prático exemplo dessa Lei ocorre quando damos BOM DIA, BOA TARDE ou BOA NOITE a alguém, e essa pessoa responde à saudação apenas com BOM, BOA e BOA, respectivamente. Tal redução na resposta ao cumprimento demonstra economia na linguagem, mas também carrega, sob a ótica do discurso, a ideia de que o interlocutor pode estar desinteressado na conversa ou ocupado ou em outra condição que inviabilize a conversação. 

Em resumo, a Lei do Menor Esforço consiste na progressiva síntese das estruturas linguísticas dentro do processo de comunicação.