Olhar Crítico

Falsas promessas - em 15/09/21

As instituições democráticas não estão falidas, mas o não cumprimento da promessa de acabar com as oligarquias, pelo menos no Brasil, tem fomentado um custo social que é a despolitização da sociedade civil. De que adianta instituições democráticas fortes se, ao cabo de tanto esforço, o poder acaba sendo restituído às mesmas bases e fontes oligárquicas? Só adianta para dizermos que é melhor a pior democracia que o melhor totalitarismo.

É provável que a responsabilidade recaia sobre os partidos, uma vez que eles lucram com a estabilidade democrática, mas duvido que esse argumento seja de todo capaz de convencer a quem quer que seja. Os partidos também nunca conseguiram cumprir a promessa de fiéis representantes de causas e programas de transformação da sociedade e não parecem estar comprometidos com a ampliação das instituições representativas.

O que temos sempre entre nós, onde houver democracia ou não, é a predominância de personalidades autoritárias coordenando o cenário político e social em nome de uma percepção distinta da realidade. Nada disso parecendo verdadeiro, a ponto de haver uma insatisfação com personalidades, partidos e com o próprio sistema democrático, que passa a ser visto como parte sujeita a manobra pelo Estado e esse controlado pelas oligarquias.

Mesmo partidos que sempre existiram e sustentaram sua existência sob princípios sociais e econômicos em nome da representatividade coletiva se veem olhando para si e praticando, não apenas o culto à personalidade - como necessitam aqueles que se chamam de carismáticos -, mas o culto à personalidade autoritária - como precisam parecer aqueles que querem chegar ao poder executivo.

Cultuar personalidades autoritárias, excludentes, é o inverso do que o sistema democrático prometia. Assim, se a democracia não conseguiu acabar com as oligarquias, se os partidos não conseguiram representar as orientações e expectativas latentes na sociedade, se a sociedade civil não tem o poder de organização, legitimação e reticência ao Estado, se, no fim de todos os processos de escolha democrática, somos levados a decidir por personalidades autoritárias e atribuir a elas poderes divinos ou imperiais, se os próprios candidatos não se veem diferente disso, as promessas de um novo pacto social podem parecer mínimas e distantes.

É por isso que eu gosto da ideia de gestão participativa. Ela pode parecer nova e desajeitada, pode até parecer insignificante diante da necessidade dos técnicos estatais de justificarem a ciência nos assuntos públicos, mas é oxigênio nas instituições democráticas. Não vejo como o Brasil possa entrar numa década de resultados sociais se as instituições democráticas não se estenderem até o cidadão mais simples que nem se aceite ou se reconheça como cidadão.

Antes, precisamos dizer: chegar de marketing. A peleja no horário eleitoral sobre quem vai gerar mais empregos é um espetáculo de encenação desprezível que, tenho de reconhecer, vai dar para aquele que parecer mais convincente o cargo de mandatário. Todo cidadão sabe que políticos prometem. Todos votamos acreditando que a nossa preferência por esse e não por aquele se dá em função de sua capacidade de liderança e controle da situação e dos processos. Não votamos em um grande negociador ou articulador que seja parte de um plano de continuidade democrática portanto, com dias contados -, mas votamos em figuras que são vestidas como czares, imperadores, generais, os redentores.

Eu não sei se todos entre nós sabem, mas não há governo que não seja produtivista, que não prometa solucionar em pouco tempo todos os males e conflitos da sociedade. Quem votaria em gente que diz: vamos com calma, precisamos de tempo e precisamos de sua participação? A sociedade é algo que não para e tem sempre coisa por fazer. Não dá mais para pensar em Estado poderoso e empregos para todos, em soberanias nacionais prepotentes e fechadas, mas os discursos permanecem os mesmos de sempre e ainda há aqueles que querem deixar as necessidades sociais para uma década mais favorável, como se pudéssemos passar mais uma temporada sem alguma coisa de muito importante para todos nós.


HOLOFOTES - em 01/09/2021

Dizia Oscar Wilde, que "o mundo é um grande palco. Pena seja o enredo tão ruim". As comissões parlamentares de inquéritos, as famosas CPIs, se transformam em palcos iluminados, onde se desenrola um enredo muito pobre, representado por arremedos de atores pouco versados na verdadeira arte de representar. Ao contrário do que diz a famosa canção Chão de Estrelas, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, os protagonistas não estão vestidos de dourado e muito menos as ilusões são tão perdidas assim. Pela única razão de que a simples instalação de uma CPI rende àqueles que a requereram instantes de efêmera glória publicitária. Projeta sobre eles as luzes da grande mídia. Todavia, passados os primeiros momentos da ação dos torquemadas parlamentares, o assunto vai caindo na rotina até que o desinteresse retira da pauta o assunto que lhe deu causa e a maioria de seus integrantes volta ao anonimato. Foi assim no passado. Um admirável instrumento de fortalecimento da instituição parlamentar transformado em pantomima para dar pasto à jactância daqueles que estão bem distantes do cumprimento dos estritos deveres do mandato. Quando um ilustre membro do Parlamento, de vereador a senador, resolve incomodar um adversário ou tentar escapar da obscuridade que pode prejudicar sua reeleição, brande a ameaça terrível de requerimento de uma CPI, da qual se aproveitam jornalistas para lançar mais achas na fogueira das vaidades em que vai certamente se transformar. No dia da instalação, o espetáculo é empolgante. Casa cheia. Rádio, televisão e jornais. Todos os membros presentes, escolhidos presidente e relator depois de demoradas articulações entre os partidos, igualmente sequiosos de usufruírem a inevitável preferência das manchetes dos órgãos de divulgação, perfaz-se a agenda dos depoimentos a serem tomados. Em face da maré montante de escândalos, permeando toda a seara governamental e o partido que a apoia, disputam a primazia de merecer maior espaço na mídia, especialmente nos canais do Senado e da Câmara, institucionalmente determinados para tal cobertura. Como o grau de imoralidade suplantou todas as expectativas da opinião pública, incrédula ela se agarrou à televisão para ver com os próprios olhos aquilo que lhe parecia sonho ou devaneio. Começa um perturbador jogo de vaidades entre os ilustres parlamentares, cada qual procurando aparecer mais, muitos perdendo tempo com parvidades e contribuindo para a degradação da importante instituição legislativa. Simplesmente porque seus autores e membros deixaram de ser notícia para a grande mídia. Perdido o interesse, o efeito é imediato. Ficam vazios os plenários, depoentes não comparecem, enfim, o ato final que deveria ser apoteótico termina como o epílogo de um dramalhão ante o bocejar da plateia cansada. Contudo não é assim na atual CPI da COVID, presidida pelo ilustre senador amazonense Omar Aziz, que coloca ordem nos trabalhos, evitando superposições de tarefas, usando termos amazônicos para ironicamente cutucar os depoentes mentirosos, conseguindo êxito impondo o silêncio a alguns mais afoitos em seu afã exibicionista. As CPIs são fundamentais para o funcionamento dos parlamentos. Algumas, levadas a sério, produziram excelentes resultados, principalmente as que trabalharam no silêncio produtivo dos debates não merecedores das honras especiais da imprensa. Quando desde logo se transformam em espetáculo, seu corolário é o fracasso. No caso presente tal não poderá jamais ocorrer. Seria enorme frustração para a opinião pública, especialmente depois de destampada a panela da corrupção, exalando mau cheiro para todo o País. No caso da CPI presente, foram descobertas as verdadeiras maracutaias para compra de vacinas, e a forte indicação de que o Presidente da República, foi omisso na pandemia e deu de ombros para a inicial compra de vacinas. Fica o registro que depois do relatório pronto, esta CPI, prestará uma grande contribuição ao País, evitando a compra de vacinas que nunca chegariam, e desvendando o Gabinete Paralelo da Presidência da República.


O MEDO -  em 25/08/21

Eu dificilmente tenho medo, tenho receios de pessoas, mas o medo não cabe na minha ideia, nem de morrer, porque isso é uma definição, mas tenho medo de gente que tem medo de gente, como aquele ex-presidente da ditadura militar que tinha horror até do cheiro de povo. Tenho medo especialmente de quem tem medo de gente pobre, preta, de gente que veio de baixo e ousou sair do lugar que lhe estava destinado como um vaticínio. Tenho medo de quem confunde inteligência com título universitário, saber com conhecimento; esses que estigmatizam como incapazes os que não saíram do próprio ventre. Eles abolem o princípio de igualdade e de indivisibilidade de todos os seres humanos. Portanto, eles acreditam em seres superiores, eleitos por obra divina, e com esse tipo de convicção costumam simpatizar com diferentes modalidades de fascismos, racismos etc.

Tenho medo de quem tem medo de alternância de poder porque esse medo revela outro, mais assustador, que é o medo mais profundo que eles escondem de uma verdadeira democracia. Tenho medo de quem demoniza a esquerda, de que tem medo de oposição, de quem acredita em pensamento único, em Deus único. Porque eles se acomodam a toda espécie de intolerância e obscurantismo. Tenho também medo de uma esquerda com classe, mas sem raça. Mas temo mais ainda uma direita que só governa para os simplesmente de primeira classe. Tenho medo dos que tentam conspurcar com seu medo a livre expressão daqueles que têm como única arma para mostrar a sua indignação o voto. Graças a esse medo, a história deste país tem sido o de uma ilha de democracia cercada de ditaduras por todos os lados.

Tenho medo de quem tem medo do resultado de eleições livres e democráticas, mas não se apavora diante do fato de que este país, no início do terceiro milênio, mantenha pessoas trabalhando em regime análogo ao de escravidão, entre elas crianças de 4 a 10 anos de idade, como denunciado pela imprensa na última quarta-feira, mais uma entre as inúmeras denúncias que se conhece sobre esse tema que, via de regra, envolve gente que participa de eleições cujo resultado se conhece antes da contagem dos votos. Tenho medo de quem não se apavora com os 53 milhões de pessoas empobrecidas, das quais 22 milhões vivendo em condições de indigência humana num país cuja economia está entre as dez maiores do mundo e, no entanto, é incapaz de oferecer segurança alimentar ao conjunto de sua população.

Tenho medo de quem tem medo de uma esquerda que, onde exerce o poder, nunca empreendeu nenhuma revolução. Isso significa que a mera defesa de direitos elementares de cidadania às massas excluídas é considerada ainda hoje como no pós-abolição, como rompantes revolucionários por setores de nossas elites. Tenho medo de quem é capaz de usar o medo para acovardar outros; para domesticar consciências, manter o status quo e inviabilizar a emergência de qualquer alternativa. Que tentam nos convencer de que se esgotou a capacidade humana de criar, sonhar e cultuar a esperança.

Tenho medo dos que preferem o conforto do mal conhecido à ousadia de lutar pela transformação, pela mudança. Quando essa gente se move para garantir que tudo permaneça como está, não tem limites: vale-se do terrorismo político que se assemelha nas práticas e objetivos ao terrorismo criminoso, como o dos traficantes dos morros cariocas. No cerne de ambos, o medo da derrota política para uns, ou da frustração de seus planos de consolidação de um poder paralelo criminoso para outros. Em ambos os casos, a intimidação como arma. Sempre tive medo do medo. E esse medo que no inicio do presente artigo disse que não tinha, confesso que tenho, e esse medo do medo sempre me impulsionou a me arriscar para impedir que ele me governasse. Por isso, com prazer, o derrotarei, uma vez mais, no próximo ano, em legítima defesa de minha liberdade, sobretudo de sonhar e ousar mudar.


Textos inacessíveis - em 11/08/2021

Quem já foi a exposições, percebe que por incompetência ou falta de capacidade para mostrar o que é exposto, sente-se quase cego para ler o que está escrito ao lado do que está exposto. Se o tamanho da letra for abaixo de "corpo 12", é impróprio para consumo humano. Isto vale para livros, papers, telas de micro, legendas, etiquetas. Empurram-nos textos de péssima legibilidadade nas listas telefônicas (que crescem em espessura e decrescem em qualidade), nos anúncios classificados e nas apólices de seguro, grafadas para desencorajar uma leitura atenta.

A leitura também é insalubre em outdoors e exposições. Há outdoors ineficientes no fornecimento da informação que levaria ao ato de compra. Telefone, endereço e site aparecem em letras miúdas, ocupando espaço mínimo na superfície do macroanúncio. Às vezes, grafadas em tipo superfino, espesso demais, ou imitando manuscrito. Impossível ler à distância. O bumbum da garota propaganda ou qualquer outra imagem são privilegiados no espaço, para chamar a atenção. Mas a indicação clara de como chegar ao produto, é falha. O anunciante sai lesado e o possível cliente, já era.

Textos fisiologicamente difíceis de ler são notórios em museus e outros espaços de exposições de arte, história, arqueologia, ciências. Este detalhe importante merece ser tratado com atenção e bom senso. Ao lado das pinturas, fotos e outros objetos, há explicações valiosas, mas compostas de letras subdimensionadas para o ato de leitura nesses espaços. Lê-se mal nas exposições. Somos forçados a decifrar o texto bem de perto, impedindo a visão de outras pessoas, que poderiam lê-lo à distância, se fosse grafado em letras maiores. Tanto trabalho para montar uma exposição e os visitantes "pulam" porções de seu conteúdo, porque a leitura de densos blocos de texto e letras apertadinhas, é cansativa e desestimulante.

Constatei este defeito em recentes exposições na concha do Ibirapuera e na Pinacoteca de São Paulo, no Espaço Cultural Bandepe e no Instituto Ricardo Brennand. Todos com exposições magníficas, porém deficientes em legibilidade, mesmo para leitores de visão normal. Nesses locais, a informação escrita costuma ser diagramada em forma de esfera, retângulo ou quadrado, com ampla superfície vazia ao redor, ou imprensada entre fotos e desenhos. "Coisa de arquiteto/ambientador que se lambuza com a estética e se borra na funcionalidade", comentou um amigo enfezado. A frustração gera generalizações injustas.

Além dos textos em paredes e painéis, as minúsculas placas de identificação de telas, esculturas e peças raras protegidas por vitrinas, também precisam ser impressas em tipos maiores. Ou que se forneça uma lupa a cada visitante. Tipos pixititinhos como aqueles, só são aceitáveis em teste de oftalmologista. Esperemos que os curadores e patronos de exposições sensibilizem-se para facilitar a leitura da informação nesses espaços. Os textos que selecionaram com tanto gosto e competência merecem ser lidos confortavelmente por todos - em tipo apropriado para consumo humano.


Dia dos Pais- em 04/08/21

Confesso que já escrevi no dia dos Pais, artigo bem semelhante ao que estou escrevendo, mas hoje escrevo para dois advogados, e para quatro filhos, dois filhos e dois netos. E é para esses dois netos, Matheus e Bernardo, que escrevo uma parte desse artigo. Cada época da vida, cada estágio vivido, anda sempre grávido de ações e emoções que, se forem percebidas e vividas, nos fazem emergir do fundo de nós mesmos. Mas, se ao contrário, elas passarem despercebidas em nosso dedilhar cotidiano, a vida perde em intensidade e encantos. Imagino, nesse devaneio, a paisagem de afetos que dormita no peito dos avós quando aguardam a chegada dos primeiros netos. Um tempo novo, outro ponto do ciclo da vida, outras tarefas, descobertas e experiências. A gente está mais pronto para ser avô que para ser pai. Embora ninguém possa escrever a história do que poderia ter sido, um neto ao chegar, resgata a vida mais intensa, a alma infantil liberta, os olhos vagabundos daqueles que andavam esquecidos de brincar ou de "comer as montanhas e beber os mares" como dizia Neruda. Há sentimentos em nós que não precisam ficar claros para existir. Estão aí, precisam apenas ser contatados. Eles moram em nós como um fóssil de significação, aguardando o tempo de serem compreendidos e vividos. Ser avô, avó, são experiências e sentimentos que estão como fóssil em nós, até que a vida se emprenhe de uma nova vida. Os netos não fazem nenhum milagre, mas podem renovar a vida da família, torná-la de novo intensa e brincante, sobretudo naqueles que mantêm acesa a chama do sonho e da liberdade, porque é isso que se pode partilhar com netos: sonhos e liberdade. Por sua vez, os avós devem viver a coisa que lhes é mais preciosa: a tarefa do amor, com a cumplicidade e a sabedoria de quem conhece a estrada e não teme a imaginação. Os pais vivem outras tarefas, a de cuidar, de ordenar, educar, dar limites, disciplinar a vida dos filhos. Mas os avós, estes sim, podem misturar-se aos netos, falar-lhes a mesma linguagem, traçar com eles planos secretos, criar palcos para a encenação de mágicas, fantasias. Há quem pense que a utilidade dos avós é marginal. Enganam-se. Seus corações são como um albergue aberto por toda a noite. Ao lado dos netos, arquivam reclamações costumeiras, inventam ramalhetes de sonhos, fantasias e palavras. E inscrevem na experiência infantil a ordem do amoroso pela vida. Neste dia tão especial que é o Dia dos Pais, mais do que presentes e almoço, o que quero mesmo é dizer algumas palavras a vocês, amados filhos e netos. Palavras que não soem como desculpas, mas sim como uma reflexão que faço de todos estes anos de convivência, ensinamentos e aprendizado; e de esperança em construir em vocês um alicerce seguro que possa suportar para sempre, em qualquer época, os solavancos desta vida, para que vocês sejam sólidos de educação, caráter, dignidade, honra, respeito ao próximo e religiosidade. Deste modo, quantas vezes gostaria de ser melhor para vocês e simplesmente não consigo. Quantas vezes corria pra casa no fim do dia, mas uma coisa ou outra não permitia que eu chegasse em tempo de encontrá-los acordados. Quantas vezes disse não, mesmo que este "não" seja penoso, me deixasse triste; é o não da razão que vive sob constante ameaça do "sim" que vive lá no fundo do coração. Quantas vezes fiquei acordado até tarde da noite à espera de sua febre baixar, ou do telefone tocar avisando que a festinha ou o show terminou. Quantas vezes dilacerei meu coração ao vê-los chorando por algo que não pude dar, mas aproveito para alertá-los de que na vida nem tudo que se quer se pode ter. Quantas vezes sofro com vocês, quando em alguma esquina da vida trombam de frente com uma decepção ou desilusão. Quantas vezes deitei ao lado de vocês e fiquei ali, quieto, sentindo aquele cheiro que não sairá de minha lembrança mesmo após toda vida se passar e eu sendo um velho pai. Aos netos, quantas vezes tirei-os da cama dos pais e levei para minha e acalentei-os. Quantas vezes sou chato por orientá-los insistentemente sobre uma conduta saudável e responsável, ou tento avisá-los de situações de risco, como se pudesse evitar que aprendam doloridamente com os próprios erros. Quantas vezes fui superprotetor, na ilusão de que poderia poupá-los de trafegarem por estradas mal sinalizadas, esburacadas, escorregadias e com curvas perigosas, na inocente pretensão de protegê-los da vida. Quantas vezes, nas dificuldades da vida, deparo-me com situações onde é preciso tomar decisões, e rejeito enveredar pelo caminho mais fácil e lucrativo que põe em prova a integridade de meu caráter, a minha dignidade e honestidade, para assim, reencontrar com vocês com a cabeça erguida, e deste modo olhar fundo nos seus olhos, sem a cortina da vergonha e da culpa a nos separar. Quantas vezes preciso ser firme e colocar limites nestas vidinhas, para ensiná-los que o mundo é infinitamente maior que nosso lar, e que vocês têm que aprender a viver em coletividade, respeitando o próximo e sabendo que não são seus todos os doces da bonbonniere. Quantas vezes no ímpeto de protegê-los tomo para mim o leme desta embarcação e passo para vocês a imagem de herói, de que sou o maior, o único que pode mantê-los em segurança; perdendo a oportunidade de ensiná-los que somente em Deus encontraremos infalibilidade, segurança, proteção e forças para resistir. Somente n'Ele que é Pai dos pais, das mães, dos filhos e de toda a humanidade. Quantas vezes poderia ter feito mais! Ter sido mais amigo, entusiasta, confidente, companheiro, cúmplice, disciplinador, participativo, compreensivo. Não importa a idade de nossos filhos, ainda é tempo de recomeçar, arregacemos as mangas e mãos-à-obra. Sinto-me orgulhoso meus filhos e netos, por ser pai e Avô de vocês.


O ESPELHO - em 28/07/21

Caríssimos leitores e leitoras, tinha prometido não falar mais de política, nem atacar ou elogiar o nosso Presidente da República, porque cada um faz a sua análise de sua gestão como quiser. Confesso que no presente artigo chego até a achar que ele está certo conforme um livro de contos que reli nessa pandemia, do Machado de Assis, o qual mostra com clareza a alma de dentro pra fora e de fora pra dentro. Se o amigo leitor ainda não leu, leia o conto "O espelho", é um dos melhores do nosso melhor escritor de todos os tempos. Se o fez, permita-me sugerir-lhe a releitura, que sempre vale a pena. Caso contrário, peco-lhe licença para despertar-lhe a curiosidade, e delicie-se com o que o "Bruxo do Cosme Velho"  chamou ironicamente de esboço de uma nova teoria da alma humana.

É o caso de uma personagem de nome Jacobina que, aos vinte e cinco anos, fora nomeado alferes da guarda nacional. É bem de imaginar o acontecimento que o fato provocou. Comemorações às pamparras. Marcolina, tia e madrinha, não abriu mão de recebê-lo e festejá-lo por uns dias em seu sítio, e fez questão de botar-lhe ao quarto um grande espelho para refletir o garbo do sobrinho, enfiado na farda reluzente. E todos, a começar pelos escravos, a homenageá-lo pelo título, a tal ponto e com tal intensidade que o alferes acabou por eliminar o homem.

Por aí vai o curso da narrativa com o propósito de demonstrar que cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Quando se mantêm as duas equilibradas, tudo bem. Articulam-se, entendem-se, alternam-se. Todavia, quando se desequilibram, adeus, é preciso afagar, alimentar, deixar brilhar, de preferência em público ou diante do espelho a que prevaleceu. É que a alma exterior, que leva a palma, se impõe de tal modo e com tanto domínio que ou se lhe dão asas ou a pessoa enlouquece.

Uma das revistas de circulação nacional trouxe esta semana curiosa reportagem sobre Bolsonaro e a transformação a que foi submetido pelo seu marqueteiro, figura famosa nos arraiais da publicidade, cujo objetivo é mudar-lhe a imagem perante o eleitorado, na busca frenética dos votos preciosos para quem sabe? uma vitória de cara, sem perda de tempo, logo no primeiro turno. Mais interessante é que o candidato, parece ter-se recusado, anteriormente, a cair na armadilha de um dos mitos mais cultivados na sociedade capitalista o marketing, rendendo-se à eficácia de seus mistérios. Estou, é claro, a conjeturar.

Não conheço, sequer nunca vi de perto, o atual Presidente, posto que me desse desprazer a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente, pois trata-se de personalidade fora da curva. Fica-me a impressão de que sua recusa no passado em ceder à máquina do the making of a president, como apreciam dizer os americanos, se deu para preservar sua própria autenticidade e não iludir ninguém. Suposição certa, admire-se-lhe a decisão. Não concedeu em passar um figurino que não veste, revelado, emblematicamente agora, na resplandecente dentadura que passou a exibir. Se o sacrifício ajudá-lo a ganhar as eleições, que se dê por bem pago e seus eleitores por bem servidos. Não se abandone, porém, exclusivamente, à sua segunda alma a que vem do poder como o fizeram as almas exteriores de César e de Cromwell, conforme citação do romancista, enérgicas e exclusivas , que podem não fazer bem ao equilíbrio democrático, o que não admitimos, menos ainda o provável futuro presidente da Nação.


Sabedoria - em 21/07/21


Curvado sob o peso dos muitos anos vividos, ele caminha lento, como quem não tem pressa de chegar aonde a vida o vai conduzindo. Quem por ele passa imagina que muita sabedoria ele conquistou em todo esse tempo vivido. Contudo, nos perguntamos se a sabedoria é atributo inequívoco dessa faixa etária, ou de um tempo de vida percorrido? Sem dúvida é desejável, e de certo modo esperado, que aquele que já viveu mais tempo, tenha feito uma elaboração suficiente das experiências e tenha conquistado alguma sabedoria. Mas, é importante lembrar que a longevidade não imprime sabedoria. Não a conquistamos porque temos 60, 70, 80, 90 anos de idade. Ela não é um dom, mas uma conquista. Neste sentido, podemos encontrar, tanto pessoas jovens sábias, como pessoas idosas que não chegaram a nenhum grau de sabedoria, e até nos perguntamos se algum dia chegarão a tê-lo. Sabedoria supõe um processo de vida comprometido com a qualidade da vida interna que se desenvolve na pessoa, e que se reflete naturalmente no seu modo de ser e estar no Mundo. Sabedoria não depende de sabermos muitas coisas, mas de vivermos com intensidade, pequenas e frequentes oportunidades a que a vida nos expõe, sem deixá-las passar em branco. É possível retirar desses momentos a lição e a cota de felicidade que eles escondem. Nos fragmentos do cotidiano podem estar contidos preciosos retalhos de vida, que não temos o direito de desperdiçar. A vida sim, é um Dom, e não temos o direito de deixá-la sem sentido. Grandes lições podem estar em pequenos gestos, pequenos acontecimentos, pequenas alegrias e sofrimentos. Nenhum ato é pequeno quando lhe damos sentido. Alegrias simples e profundas podem provir de gestos de solidariedade, de amabilidade, companheirismo ou apoio a alguém. Seremos tolos e destrutivos se apenas percebermos dores e desencantos semeados no cotidiano. A sabedoria pode estar em se encontrar prazer nas coisas simples e gratuitas da natureza. Muita sabedoria pode ser encontrada no simples contemplar um por de sol. É um cenário que pode nos dizer muito sobre o nosso envelhecer. O entardecer da vida tem seus encantos, sim, mas só poderemos percebê-los se tivermos abertas as janelas da alma. As maravilhas do mundo e do viver serão inúteis, se não pudermos senti-las, contatá-las, amá-las. É sábio também compreender e amar a vida que existe no aqui e agora, no tempo em que se vive. Na verdade, a gente só pode ser feliz AGORA. Ontem se foi e amanhã é talvez. A chance de ser feliz é agora, ou nunca. Nossa sociedade tem algumas manias de grandeza, postula grandes felicidades, sugere prazeres imensos, propõe uma juventude eterna, exige um corpo e performances impecáveis. São manias exigentes e alienantes que nos distanciam de nós mesmos esses deixam acompanhar de ilusões e frustrações. A felicidade, porém, é um sentimento simples que nasce de pequenas ocasiões, e é vivido no mais dentro da gente. Há múltiplos prazeres disseminados nas esquinas da vida, que nos ajudariam a sentir felicidade, mas se estamos engessados na ideia do grande prazer, deixamos de usufruir da festa simples da vida. Uma eterna juventude da alma (não do corpo), pode ser pensada, se nos mantivermos abertos para a vida, num contínuo intercâmbio, renovação e ressignificação de nossa presença no Mundo. Há uma certa experiência de vazio em nós que só se preenche com o sentido que damos à vida. Este sentido terá de ser dado aos pequenos fatos do cotidiano, e até mesmo ao sofrimento. É sábio compreender que ele nos transforma, nos possibilita crescimento, beleza interna e maturidade. Melhor que banir o sofrimento, (que nem por isso se vai), seria acolhê-lo, crescer e aprender com ele. Isto seria sábio. Fica sempre uma pitada de tristeza no ar, quando falamos de entardecer. O por do sol tem cheiro de saudade, sim, mas é uma honra ter do que sentir saudade. Teríamos de ser capazes de "Contemplar o abismo sem ser destruído por ele" (R. Alves) ou "Conter a morte inteira, docemente, sem nos tornar amargos" (R. M. Rilke). Sabedoria pode ser, olhar o sofrimento sem nele se perder, encontrando as vias que ele guarda, de acesso ao crescimento.


ABUSOS - em 14/07/21

Depois de falar de amor, gratidão, e escrever sem a ressaca da culpa, volto aos temas que deixam indignados os brasileiros, principalmente se você é cidadão honesto, cumpre seus deveres e responsabilidades, saiba que, no Brasil, você é uma ilha cercada de contravenções por todos os lados (não punidas, consentidas, incentivadas).

Das políticas públicas nos são imputadas altíssimas taxas de juros, número abusado de impostos, catastrófica concentração de renda nas mãos de poucos já muito aquinhoados, inimagináveis atos de corrupção e desvio de dinheiro público. Sabe-se que a quantia envolvida nos escândalos de corrupção e desvio de verbas públicas nos últimos 10/15 anos daria para solucionar os problemas da educação, saúde, saneamento básico, moradia, emprego e alimentação dos 220 milhões de brasileiros.

Já lhe ocorreu que, em vez de privação e carência, todos poderíamos levar uma vida digna, saudável, farta e segura? Ou, será que esse direito estaria reservado apenas ao primeiro mundo? Não creio que tão absurda situação e tão óbvia solução seja por falta de competência ou visão dos nossos governantes e mandatários. Creio, sim, em uma estratégia pensada, calculada para manter ricos e pobres em seus devidos lugares.

Na sociedade, é cada vez mais normal transgredir leis, acordos sociais, violar regras de respeito e cidadania. O outro é algo, um empecilho que pode e deve ser banido, eliminado. No trânsito, não há regras, por mais que se criem leis e multem infratores. Nos relacionamentos, livros de autoajuda, clichês de boa convivência espalhados pelos meios de comunicação, e slogans religiosos poluindo carros e ruas, não são suficientes para inseminar respeito e solidariedade. Seu carro, casa, privacidade, conquistas, vida, não são seus. Eles pertencem àquele que resolve retirá-los de você, à força, à luz do dia, em público, com a confiança de quem não teme, nem deve. No comércio, a lógica não é menos perversa.

Não temos salário; o que temos é a ilusão de posse do dinheiro, que nos é emprestado, e retomado a seguir numa tática eficaz e segura. Gera-se na pessoa o desejo forte de possuir algo. Depois, lhe é oferecida a chance única, imperdível, generosa, de adquirir aquele bem em troca de suaves e intermináveis prestações mensais. A lógica é que nos preocupemos apenas em fazer o valor da prestação caber no orçamento mensal, e não em criticar se estamos pagando o preço justo, ou se necessitamos, realmente, daquele bem.

O mundo, porém, é dinâmico, e as coisas não são estáveis. Na mesma velocidade com que a qualidade de vida se deteriora, crescerá a inconformidade e a necessidade de mudar a realidade. Uma saída é deixar as coisas como estão e assistir aos níveis de carência e da instabilidade atingirem patamares insuportáveis, elevando medo, estresse, miséria, insegurança, com consequências imprevisíveis. Outra saída é trabalhar pela conscientização e amadurecimento da população. Nessa, infelizmente, não dá para apostar muitas fichas, pois, embora única alternativa verdadeira e digna, ela implica na valorização e no investimento em educação e cidadania. Além de longo prazo, comprometimento ideológico e esforço conjunto, essa saída não combina com os valores hedonistas, imediatos e vazios, que estão sendo incrustados no nosso povo, como: satisfação imediata, levar vantagem em tudo, explorar coisas e pessoas, vencer a qualquer custo.

Estou indignado, mas sei que não estou sozinho. O que fazer? Penso que devemos começar por não deixar perder nossa capacidade de indignação. Falar a respeito; falar muito, com o outro, para o outro, e analisar criticamente a realidade que nos cerca. Como disse Carl Sagan: "Praticar rigorosos hábitos de pensar para não nos transformar em uma nação de patetas prontos para sermos passados para trás pelo primeiro charlatão que cruzar o nosso caminho". Os próximos passos a própria vida indicará.


SEM A RESSACA DA CULPA- em 07/07/21


Caros leitores e leitoras, já fiz dentre mais de mil e seiscentos artigos, alguns que coincidiram com o dia dez de Julho, data em que faço aniversário, e nunca, durante esses mais de vinte e três anos, fiz um artigo falando de meu modo de viver, ou de dar ideia de como viver sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha. Já escrevi várias vezes sobre porque temos em Manaus a rua Dez de Julho, simbolizando a libertação dos escravos antes da Lei Aurea, que só foi sancionada pela Princesa Isabel em maio do ano seguinte.

Por isso, peço desculpas aos que me dão a honra de compartilhar a leitura desses mais de mil e seiscentos artigos, para dizer o pouco do que sou e penso, embora existam discordâncias, principalmente por aqueles que não me conhecem além do corpo, ou seja não conhecem a alma. Posso dizer que não sonego afetos, nem arranco de mim fontes onde borbulham transparências e não miro os que lhe estão próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes aqueles que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; generosos, ousam a humildade.
Desperto hoje ao som de preces e agradeço o tido e não havido maravilhado pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos. a vida é dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus. Que este próximo ano de vivência nessa terra, seja novamente para que não poupe palavras e consiga semear fragrâncias nas veredas dos sentimentos.


Seja também feliz o novo ano cronológico de nascimento, de quem guarda-se no olhar e, se tropeça, não cai no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores. Aqui está quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, carro e amor; viver é graça a quem acaricia suas rugas e trata seus limites como cerca florida de choupana de montanhês.

Que esta nova etapa de minha vida, endividado e alegre, carente de afago, mas repleto de vindouras fortunas em meus anseios. Louvo aos órfãos de Deus e de esperanças, e aos mendigos com vergonha de pedir; aos cavalheiros da noite e às damas que jamais provaram do leite que carregam em seus seios. Felizes sejam, os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vantagens; aqueles que nada temem, exceto o olhar súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que não lhes querem. Ficarei feliz, se as mulheres que se matam de amor, e de dor por quem não merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro. Que esta nova idade seja de paz para que quando bêbado jamais tropece em impertinências e para que não conspire contra a vida alheia. Sou daqueles que adora quem coleciona utopias, faz de suas mãos arado e, com o próprio sangue, rega as sementes que cultiva. Que sejamos muito felizes, nós os denominados velhos que não se disfarçam de jovens e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a idade alvíssaras de emoções férteis. Muitas felicidades aos que trazem em si a casa do silêncio e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado, ou vinho, com sorrisos de sabedoria.

Espero, mesmo com essa pandemia, que este próximo ano cronológico de idade, seja um ano feliz aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a morte sem estranheza e brincam com a criança que nos habita. A todos nós que juramos sequestrar os vícios que carregamos e não pagar o resgate da dependência; o futuro nos fará magros por comer menos; saudáveis, por fumar oxigênio; solidários, por partilhar dons e bens. E que o Brasil que circunscreve a geografia do paraíso terrestre, continue apesar dos políticos, sem terremotos, tufões, furacões, maremotos, desertos, vulcões, geleiras, tornados, neves e montanhas inabitáveis. Conceda-nos Deus a bênção de tantos dons, livres de políticos que constroem para si o céu na Terra com a matéria-prima do inferno coletivo. Espero estar entre os vivos no próximo dez de julho, sem a ressaca da culpa.


O amor - em 02/07/21

A vida é um grande ato de teimosia e a mente é o portal para que o homem atinja a sua real dimensão cósmica. O caminho é longo e o aprendizado difícil, mas o homem vem resistindo ao longo dos séculos. Ultimamente, tenho meditado sobre a aventura humana na Terra, a angustiante era de incertezas e contradições em que vivemos e, a cada dia, fica mais claro aos meus olhos, que o tema central da vida é o amor e o desamor. A violência, a injustiça, a fome, as guerras, são diferentes faces ou os vários sinônimos da palavra desamor no mundo. O homem já cruzou oceanos, escalou montanhas, foi a Lua e está se preparando para ir a Marte. Contudo, a verdadeira viagem a ser feita é a interior. Ou seja, em torno de si mesmo, em busca de sua identidade e de um significado para a sua existência. O homem precisa ter um objetivo, precisa lutar pelos seus sonhos para poder escrever a sua lenda pessoal.

O psicanalista Erich Fromm, no seu livro A Arte de Amar, afirma que: "O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana". O jurista italiano Francesco Carnelutti já dizia que o Direito é um triste substitutivo do amor. Quando o amor e a compreensão entre os homens cessam, nasce o Direito para dirimir os conflitos entre os homens. O apóstolo Paulo, na Bíblia, em uma das suas Cartas aos Coríntios, intitulada " O Amor é o Dom Supremo" apregoa-nos que: "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei." Cristo veio ao mundo, dividiu a História e, essencialmente, pregou o amor entre os homens.
Isso tudo pode parecer óbvio, mas é tão difícil de aceitar e aplicar em nossas vidas.

Neste momento em que atravessamos uma pandemia, marcada pela morte de mais de meio milhão de seres humanos e pelas incertezas de uma grave crise econômica e também de valores, insistimos em renovar as nossas esperanças de que o homem, finalmente, descubra a força transformadora do amor, através de ações solidárias para com os seus irmãos. Deus permitiu que eu visse, à minha maneira, que o grande tema da vida é o amor. É possível que, desde então, o meu entendimento sobre a vida, no lugar de ficar resolvido, tenha se tornado um mistério, mas o meu espírito, finalmente, logrou ficar mais próximo da paz. Lá na frente é que poderemos realmente saber a qualidade de vida que tivemos. Bem lá na frente é que poderemos avaliar do que exatamente foi feita a nossa vida, se de amor ou de rancor, se de alegrias ou tristezas, se de vitórias ou derrotas, se de ilusões ou realidades.


QUE LÁSTIMA! - em 09/06/21

Caros leitores, tinha abandonado as redes sociais, e continuo sem estar nelas, mas o que aconteceu em Manaus no ultimo fim de semana, me deixa além de atônito, certo de que estamos vivendo um momento em que a bandidagem nos encarcera em casa e eles ficam soltos. O crime, não obstante sua covarde crueldade, é, lamentavelmente, um registro dramaticamente rotineiro na crônica policial. Ele provoca, talvez, um espasmo de indignação. E nada mais. É duro, sobretudo para a vítima e seus familiares, mas é assim. Estamos, todos, perigosamente anestesiados pelo câncer da violência que vai minando o organismo social. Assistimos a uma surpreendente vulgarização da delinquência bem-nascida. O tema, sem dúvida preocupante, exige uma reflexão aprofundada. O mal existe e, sem dúvida, tem algo de insondável. Mas a crueldade não é fruto do acaso. É o resultado de uma equação bem-determinada. Violência transmitida pelo mundo do entretenimento, família dilacerada e impunidade compõem, estou certo, o caldo que engrossa a paranoia. A era do entretenimento, cuidadosamente medida pelas oscilações do Ibope, tem na violência um de seus carros-chefes. A transgressão passou a ser a diversão mais rotineira de todas. Alguns setores do negócio do entretenimento, apoiados na manipulação do conceito de liberdade de expressão, crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência da violência ficcional, omitem uma realidade bem conhecida da psicologia: a promoção do sadismo como instrumento de diversão não produz a sublimação da agressividade, antes representa um forte incitamento a comportamentos antissociais. A crise da família está também na raiz do problema. Não sou juiz de ninguém. Mas minha experiência profissional indica a presença de um elo que dá unidade aos crimes praticados por adolescentes: o esgarçamento das relações familiares. Há exceções, é claro. Desequilíbrios e patologias independem da boa vontade dos pais. A regra, no entanto, indica que o crime infanto-juvenil tem suas raízes num ambiente familiar desestruturado. A ausência de limites, a crise da autoridade e a impunidade estão na outra ponta do problema. Transformou-se o prazer em regra absoluta. O sacrifício, a renúncia e o sofrimento, realidades inerentes ao cotidiano de todos nós, foram excomungados pelo marketing do consumismo alucinado. Decretada a demissão dos limites e suprimido qualquer assumo de autoridade (dos pais, da escola e do Estado), sobra a barbárie. A responsabilidade, consequência direta e imediata dos atos humanos, simplesmente evaporou. Em todos os campos. O político ladrão e aético não vai para a cadeia. Renuncia ao mandato. Delinquente juvenil não responde por seus atos. É "de menor". É preciso um choque de bom senso. Impõe-se a recuperação da noção da existência de relação entre causa e efeito. O erro, independentemente dos argumentos permissivos da psicologia da tolerância, deve ser condenado e punido. As análises dos especialistas esgrimem inúmeros argumentos politicamente corretos. Fala-se de tudo. Menos da crise da família, da irresponsabilidade do mundo do entretenimento e da impunidade. Mas o nó está aí. Se não tivermos a coragem e a firmeza de desatá-lo, assistiremos a uma espiral de crueldade sem precedentes. O horror dos delitos sem explicação não está nas telas dos cinemas. Está batendo às portas das casas de um Brasil que precisa recuperar suas raízes genuínas. Não existe crime organizado, mas para facilitar o entendimento, usemos o "crime organizado". Tem imenso poder, com base num sistema que lhe permite aproveitar as fraquezas do Código Penal. Dispõe de meios instrumentais de moderna tecnologia e intrincado esquema de conexões com outros grupos, além de rede clandestina de ligações com os quadros oficiais da vida social, econômica e política. Seu poder é tão devastador que origina atos de extrema violência, ao mesmo tempo em que sua ação corrompe todos que estiverem à venda. Tornou-se, em algumas regiões, o poder paralelo, que oferece trabalho, segurança; diz como devem funcionar as escolas e o comércio; cobra taxas dos moradores e define penas para aqueles que transgredirem suas regras. É uma lástima


Esquemas partidários - em 04/05/21

Quanto mais se aproximam as eleições, sejam as estaduais ou as ou as presidenciais, no ano 2022, os confrontos políticos vão se evidenciando mais fortes. Todos os grupos em disputa pelo poder sabem que precisarão de uma vitória ampla, que permita aos vencedores manterem nas mãos o comando da ação, o privilégio de mando.No regime em que vivemos, os defeitos inerentes a um processo eleitoral excessivamente liberal no que se refere à formação e definição de partidos, à filiação ou desligamento, em seus quadros, dos seus integrantes, a negociatas grosseiras permitindo alianças e acordos vergonhosos às vésperas de cada pleito, à indevida interferência dos poderes constituídos nas eleições, através da utilização considerada criminosa, contudo, autorizada, com base em engenhosos artifícios, de recursos públicos usados em favor de determinados candidatos, à permissão da reeleição para os mesmos cargos, dos que estão agora a exercê-los, sem a necessidade, antes existente, de deles se afastarem, tudo isto torna esse nosso sistema democrático bastante vulnerável às duras críticas dos que desejam viver numa verdadeira democracia.

Os confrontos entre os chamados partidos talvez, no entanto, sejam mais fáceis de ser contornados que os surgidos entre as várias facções que os compõem, envolvendo pessoas que se enfrentam somente em defesa dos seus próprios interesses, desde que para elas a legenda representa apenas uma oportuna e eventual cobertura, uma roupagem qualquer, sob a qual provisoriamente se abriguem uma nova, por vezes, em cada eleição. E aproveitando-se dessa situação, hábeis lideranças políticas tratam de aguçar a cobiça dos menos escrupulosos, prometendo-lhes grandes vantagens em troca de uma fidelidade a ser assumida para com eles próprios, mantendo, assim, a longa tradição brasileira do coronelismo, do também chamado caciquismo, na prática política do país. Existem, pois, sem que se possa negar, donos de partidos ou de coligações de partidos; com seus dirigentes nacionais ou regionais comprometidos não com programas ou diretivas conceituais partidários, mas, de modo essencial, com políticos, que bem podem ser chamados caciques, ou recordando velhas nomenclaturas - coronéis ou caudilhos.

É quase sempre através das portas abertas das comissões do Orçamento que os confrontos pessoais de interesse e a habilidade da corrupção penetram e se estabelecem. É que, na divisão do bolo orçamentário, há uma grossa fatia destinada à satisfação dos apetites políticos dos parlamentares. Cada um deles, em função do partido ou da facção de partido a que pertença, tem direito a uma parte da iguaria. Evidenciando-se a presença constante, em Brasília, de representantes de empreiteiros, com escritórios ali montados, com o objetivo declarado de negociar com determinados parlamentares a preferência para a execução de obras previstas e talvez autorizadas com a aprovação das emendas destinadas a cada um deles. Chegando a ocorrer, por vezes, entre os interessados, trocas oportunas e vantajosas de tais emendas, aparecendo, então, para espanto de muitos, uma autorizando a construção de uma ponte em certo município, apresentada por um deputado que nada tem a ver com aquele estado, e uma outra, a correspondente à troca efetuada, relativa à compra de equipamentos para determinado hospital em São Paulo, defendida por um parlamentar de Palmas ou do Araguaia. definitivamente, em lados opostos, sobre a arena do circo de Roma. 

Do cenário de luta, no ano 2022, somente um, no entanto, com certeza, deverá sair trazendo sobre a testa o símbolo do triunfo. Confrontos ou não que sejam as divergências ora evidenciadas, é bom que aconteçam, para o fortalecimento e manutenção da frágil democracia em que vive o povo brasileiro, enquanto espera pelo combate à vera a ser travado, já apostando no provável vencedor


Palavra falada - em 28/04/21

Escrita ou oralmente expressa, a palavra tem ampla e significativa importância, por isso de tal forma compromete e responsabiliza quem a profere que, muitas vezes, exige-se a confirmação para não restar a mínima dúvida acerca do que foi publicamente afirmado.O cidadão comum, a autoridade de qualquer natureza,todos respondem de alguma forma pelo que dizem, daí a exigível discrição, a continência da linguagem, especialmente em torno do que se deve expressar quando está em causa o interesse comum, e chega a ser uma forma de sabedoria dizer apenas o necessário, no momento certo. Daqueles que por dever de ofício são quase obrigados a falar em público, muitos evitam o improviso, ou para não omitir fatos e nomes, ou para, medindo as palavras, não cometer excessos, enfim, para preservar a autoridade do cargo no qual estão investidos, imunizando-se a cobranças. O noticiário através da televisão obriga a ouvir, ou o que não se quer, ou o que não se deve, sobretudo quando choca, a ponto de, tão estarrecedora a notícia, preferir-se aguardar o jornal do dia seguinte para uma necessária conferência, para a possível confirmação do que foi dito por determinada autoridade. Aguardando-se a transmissão de um importante evento esportivo, por exemplo (este sim, é importante !), cansado já do que há tanto tempo vem sendo noticiado sobre uma tal de CPI da Covid, com o governo tentando manipular os cargos, eis que, em vez de Robinho e seus dribles, surge na tela a figura de Sua Excelência o sr. presidente da República, a afirmar sem medo que seu governo promoveu o desmatamento na Amazónia e anunciou que a nova meta brasileira é atingir ainda em 2050 a neutralidade climática - quando o país reduz drasticamente suas emissões de gases causadores do efeito estufa e compensa as emissões restantes com medidas ambientais.Está visto que essa mentira, partindo de quem está presidente, compromete e muito, porque, de qualquer ângulo que se queira enxergar, é o reconhecimento público de que em matéria ambiental o Brasil não estacionou, mas andou para trás com esse Ministro de Meio Ambiente, acobertando madeira ilegal. Convenha-se, no entanto, que o maior representante do Estado afirmar em rede nacional de informação, prometendo acabar com o desmatamento ilegal até 2030, compromisso que ele já havia anunciado em carta ao líder americano na semana passada, é brincar com as palavras sem ter nenhum compromisso com a veracidade.Já faz um certo tempo que os habitantes desse nosso Brasil se orgulhavam de ostentar uma Constituição Federal tão esperada e admirada, a ponto de ser adjetivada de Constituição Cidadã, francamente, convenha-se que estamos muito perto mesmo da desesperança total. Resta a concretização de um acalentado sonho com uma autêntica liderança, jovem, valente, altaneira, criativa, atuante, contida, austera, respeitável, enfim, compromissada sobretudo e especialmente com os fundamentos da República: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa , o pluralismo político. Sonhar ainda não é tributável.


Felizes no delírio- em 21/04/21

A felicidade bate à porta. Já não precisamos comprá-la com receita faixa-preta na prateleira dos ansiolíticos e antidepressivos nas farmácias. Agora, somos faixa-preta no jiu-jitsu do dia-a-dia. Se, antes, vivíamos aflitos e sem trabalho, comendo duro pão com alho, eis que agora temos o "ás" do baralho. Enfim, chegou a prosperidade! Tanta, que a ignorância, a fome e a marginalidade já não são um problema. Agora, o único teorema é a obesidade. Em qualquer idade. Perdão por rimar, mas rimo porque me falta ar!

Nos diferentes círculos oficiais há tanta euforia, tanta visão de otimismo ou ufanismo piegas, que até parece que vivemos sob ditadura. Sim, pois nas ditaduras todos os olhares convergem para o poder supremo. Até a oposição é guiada por quem detém as rédeas do cavalo-mor em que se transformou a República. E como todo bom equino, com cavalar dom divino, repetimos a linguagem presidencial e empilhamos êxitos em cima de êxitos, como sacos num armazém de cereais. Em qualquer área - federal, estadual ou municipal, só há espelhos para autoelogios.

Manaus, por exemplo, vive momentos difíceis, fruto de uma longa sucessão de governos medíocres, mas o novo governador buscou apenas composições partidárias, sem convocar as "cabeças pensantes" do Estado para delinear caminhos e ações. Repetiu em tom menor o que o presidente da República fez no âmbito da nação, ao reunir a esmo quem o quisesse apoiar em votos no Congresso. Os que pensam e sabem não estão nos partidos. A vida partidária transformou-se em simples atividade de catar votos, sem interpretar a sociedade e sem tentar vasculhar os caminhos do futuro.

Em qualquer lugar, fala-se hoje dos perigos do aquecimento global, mas continuamos a degradar a natureza em cada passo do dia-a-dia. O poder público, inerme e inerte, não pensa sequer em convocar os grandes especialistas das diferentes áreas - da ciência biológica e química ao Direito - para definir uma política de ação que, no degrau seguinte, abarque o setor privado e a comunidade. Perdemos a noção do futuro.

Os novos e grandiosos instrumentos da tecnologia eletrônica não nos levaram a aprofundar a visão e compreensão do mundo. Nos comunicamos mais e melhor, mas crescemos em espírito também? Suspeita-se que a radiação dos campos eletromagnéticos possa levar a novos processos cancerígenos, mas quem se desprende do telefone celular? Há mais de dois anos, o quotidiano do país reduz-se a esperar o novo escândalo político, que haverá de fazer esquecer o anterior. Nossos casos de corrupção parecem até fazer parte do desenrolar da vida, como os atentados no Iraque. Em ambos os casos, é o delírio quem manda. Lá, o terror da ocupação estrangeira soma-se ao fanatismo islâmico e as bombas soam como fácil e trágico protesto. Aqui, o conluio do setor privado com políticos e altos funcionários aumenta lucros e faz crescer fortunas com a facilidade impune da nossa tragédia de subornos.

O desmascaramento das redes de corrupção, porém, em vez de inibir, parece estimular o surgimento de novas formas de roubo, como se a depravação fosse o cerne dos altos escalões da função pública nos três poderes. Agora, os subornos envolvendo grandes estaleiros e chefes de serviço da Petrobras mostram o segredo óbvio de que a maior empresa do país não poderia ser a donzela virgem do prostíbulo. O próprio gigantismo da Petrobras (em atividades e orçamento) dificulta os elementos de controle e é de se indagar o que terá ocorrido por lá nos anos da ditadura, quando tudo se calava, ou nos tempos recentes, quando nada se investigava?

A felicidade está aí, porém, e deliramos com a construção de uma ponte que leva nada a lugar nenhum, onde subitamente gastaram-se mais de um bilhão. Enfim, felizes no delírio.


Rendição e amargura - em 14/04/21

Ultimamente, ao fim de minhas escutas dos noticiários e de minhas leituras matutinas dos jornais, tenho a impressão de haver saído enlameado. Macambúzio. Envergonhado. Com ímpetos de mudar não apenas de país, mas também de planeta. Ou simplesmente de me recolher a um sítio isolado, silencioso e sem outro meio de comunicação e convivência que não sejam alguns livros já lidos e dos quais guardo as mais gratas lembranças.

Dito isso, penso haver deixado bem claro que nesta manhã, no momento em que começo a dedilhar o computador, não estou num bom estado de espírito. Este reconhecimento recomenda ao leitor que se acautele quanto a este texto. Tristeza, mau humor, desencanto e assemelhados são males contagiosos. Dado o aviso, tento ir em frente, apontando algumas notícias que me acabrunharam ainda ontem. Desde logo, esta que foi manchete de primeira página em quase todos os grandes jornais e noticiosos de rádio e TV: "O Brasil é o 69º em qualidade de vida". A ela se junta um outro informe contristador: "50 milhões de brasileiros têm renda abaixo de R$ 80 mensais". No corpo da matéria aparecem números dando conta da distribuição da renda nacional, de quantos, tão poucos, ganham infinitamente mais do que a maioria esmagadora de nossa gente.

Os contrastes são brutais. E a eles são acrescentados informes sobre a criminalidade crescente em todo o país. Disso resulta que, diante do quadro de pobreza e de violência desnudado, à tristeza que nos invade soma-se o medo que tal realidade nos inocula. Mas a desoladora imagem que essas informações do país põem diante de nossos olhos somam-se outras que nos pungem igualmente. Elas não emergem apenas das páginas policiais, mas também - e quase se equivalem - das do noticiário político. Ou melhor, das notícias sobre estarrecedores assaltos aos dinheiros públicos, melhor dizendo, aos dinheiros de tantos milhões de carentes de educação, de saúde, de teto, de previdência social, de segurança, de trabalho, de alimentação...

Sobre a pandemia, nem quero falar, visto que todo dia, morrem milhares de brasileiros, pela inoperância do Governo Federal, e a morosidade em pedir vacina. Caros leitores e leitoras, querendo ou não, lá vem um dia em que a gente mesmo não figurando na lista dos milhões de excluídos, dos que têm sobradas razões de se sentirem de mal com a vida, se deixa tomar de assalto por este tipo de reflexões, pela tristeza e revolta que elas nos ensejam. Ocorrem, então, para quem, como eu, dispõe de uma válvula para um desabafo, essas manifestações de acabrunhamento e indignação. E de insegurança e pânico - sejamos francos.

Tenho certeza que passado o período dessa pandemia, o que não acredito muito que passe, o circo será desmontado, está na hora de pagar as contas; novas tarifas, elevação dos impostos, propinas, superfaturamento, dispara o dólar, sobe o gás, falta energia. É hora de o pobre coitado voltar à realidade: à vida de trabalho e mais trabalho ou sem trabalho, mas sempre com a certeza de muita dificuldade! A vida do povo volta a sua rotina... até o próximo pão e circo romano que está próximo com as eleições de outubro do ano que vem.

Esses dias são meus dias de rendição a amargura e a rebeldia, uma farsa com tonalidades cômicas se não fossem trágicas pelo desvio do dinheiro dos impostos, extorquidos da população pela infernal máquina arrecadadora do estado para convalescer grotesca mistificação. Desde quando as resistências opostas à implantação do sistema distrital no Brasil superaram a batalha contra a moralidade, pelo qual se teria armado dispositivo capaz de combater com eficiência a corrupção eleitoral, quantos a cada nova eleição conquistam o mandato pelo uso imoderado da pecúnia, espalhando pelo Brasil o vírus dessa doença maldita que contamina impérios e as sociedades. Os leitores que me perdoem por este desafogo.


Sem mesmice - em 07/04/21

Confesso aos caros leitores e leitoras, que iria escrever sobre a pandemia novamente, ou outro assunto mais em voga, a briga para ser o futuro Ministro do STF, agradando o Presidente, sem olhar a vida humana, na liberação de cultos, confesso também que nunca acreditei na capacidade intelectual desse novato no STF, mas resolvi fazer outras elucubrações. Parido, criado e preservado no século 20, nunca tinha visto o que acontece nos dias de hoje. 

- E daí? - indagará o leitor. E não apenas ele, mas também eu que agora aqui estou à procura do que dizer a respeito desses solavancos que as mudanças costumam nos aplicar. 

No momento, minha situação é esta: a busca de algo que de alguma forma pudesse ao menos distrair o leitor, se não pelo conteúdo ao menos pela forma, talvez pelo título, mas seria baldado a atenção na leitura do texto. Mas está difícil a empreitada, confesso sem rodeios. As tentativas que fiz até aqui se malograram, não deram mais do que lugares comuns, coisas mil vezes ditas e repetidas pela mídia e por articulistas muito mais bem preparados que eu. A única certeza mesmo que tenho sobre o que irá fazer a diferença deste artigo dos outros é a de que, este é um artigo que não beirará a mesmice. 

Não sei se o leitor já reparou que, na parte do noticiário nacional e, por vezes, até local nossos jornais impressos beiram certa dose de marasmo. Os grandes periódicos brasileiros têm quase todos os mesmos provedores, sendo apoucado o retoque que cada veículo dá nas matérias que recebe. Resulta daí certa similaridade pouco convinhável. A abordagem factual do dia-a-dia é próxima de uma narração repetitória. Nos veículos alimentados por agências, por vezes até os erros e equívocos nas notícias denunciam a origem única das composições. 

A experiência e a prudência me autorizam a esperar que, em tudo o que está acontecendo, se acerte mais do que erre, pois o que acontecer será decidido e composto por homens e não por santos milagreiros, até porque estes há muito estão em falta no mercado. 

Deixando de lado essas especulações que não levam a lugar algum, ocorre-me lembrar que vivemos como se estivéssemos em um picadeiro, como nas artes circenses, nas aventuras do trapézio e da corda bamba. O circo é pródigo de deslumbramentos, dos burlantins, dos magos da risada e da emoção barata. O culto ao circo pode prescindir do equipamento clássico dos picadeiros. A substância do circo está no ilusionismo, no malabarismo e no exibicionismo estrondoso dos palhaços - o que pode ser praticado em toda parte: nas salas ministeriais e de governo, nas repartições públicas, no plenário das assembleias, no recinto dos tribunais, nas convenções partidárias, e principalmente nos estúdios de rádio e de TV. 

O amor ao circo, que ora domina todo o circuito de comunicações, entregou-nos, atados, à exibição dos malabaristas da palavra, aos contorcionistas da razão e aos ilusionistas da promessa fácil. Enfim, enfim... Enfim o quê? Sei lá. O leitor que me ajude a compor o fim desta crônica que me custou muito a começar e que agora volta me fazer penar para encontrar um jeito de encerrá-la. Mas o que fazer? Já não é novidade que se vive numa sociedade do espetáculo. E o espetáculo tanto pode ser extasiante, sedutor e chamativo, como pode ser ridículo, melancólico e depressivo. É da vida e é do circo. Fizeram da pandemia um circo.


Burocracia - em 31/03/21

É uma lei sociológica universal: ao passo que a tecnologia cresce em razão aritmética, a burrocracia cresce em razão geométrica. Tanto no setor dos serviços privados como no setor público. Trata-se de um processo extremamente complexo e metastático, como o câncer. Como o câncer, devora energias construtivas transformando-as em ameaças letais para o indivíduo e a sociedade, pois é um devorador de recursos, neutralizador da produtividade, propagador de burrice e destruidor do tempo. E, como a vida é feita de tudo isso, pode-se alinhar a burrocracia como uma das mais insidiosas e piores moléstias da atualidade.

Ela se origina fundamentalmente da desconfiança na pessoa humana, cujas palavras e atos são considerados despidos de boa-fé e indignos de credibilidade, devendo ser substituídos por papéis e processos. Mas como papéis e processos são também operados por pessoas, é necessário certificá-los com outros papéis, selos, timbres e carimbos, o que origina a "corrente da felicidade burrocrática" e novos motivos de infernização do cidadão.

Obviamente, nenhum dos segmentos desse processo assegura confiabilidade ao que certifica, nem seus operadores assumem responsabilidade pelo que fazem, já que a inconfiabilidade pessoal é seu dogma fundamental. Resultam daí as auditorias, os recadastramentos, processos administrativos e judiciais, os apelos e revisões de instância, as pizzarias das comissões de inquérito e a produção de novas leis, decretos, medidas provisórias, instruções e portarias.

Tudo isso cria novos processos burrocráticos que submetem todos os cidadãos dados como inconfiáveis independentemente de prova em contrário. Pois é mais fácil submeter a maioria dos cidadãos honestos ao cumprimento das leis do que impedir uma minoria de delinquentes de fraudá-las.

A burrocracia demonstra notável afinidade com a safadeza, mesclando-se a ela de forma indissolúvel. Exemplo dos mais corriqueiros é o de que um dos maiores bancos brasileiros, mais avançados no uso dos recursos informáticos, leva hoje dez dias para entregar um talão de cheques após a abertura de uma conta. Obviamente não porque não o possa fazer antes. Em qualquer dos mais modernos shoppings, o comprador gasta mais tempo para passar pelo caixa do que para fazer sua compra.

Há alguns anos levei mais de meia hora para que uma funcionária bancária conseguisse me dizer qual era o saldo disponível de minha conta, após fazer diversos cálculos herméticos de somas e deduções, pois então, como agora, os extratos estão escritos na linguagem burrocrática de siglas, somas e deduções ininteligíveis. Para nada se falar dos impressos de impostos.

Mas isto é apenas o miúdo da burrocracia. Um exemplo magno é o que cerca a legislação relativa a loteamentos. Tempo houve em que abundavam loteadores e lotes populares em São Paulo. O loteador comprava uma área, fazia uma planta, registrava-a na Prefeitura e num cartório, entrava com um trator para abrir as ruas, demarcava os lotes e vendia-os. Os compradores começavam no dia seguinte a erguer seus barracos e com o decorrer dos anos iam melhorando suas moradias. Assim vi nascer muitos bairros que são hoje da classe média de São Paulo.

Daí entrou a burrocracia de braços dados com os defensores do povo. Resultado: tornou-se inviável produzir lotes a preços accessíveis às classes de menor poder aquisitivo. Os loteadores honestos cessaram atividades - criou-se assim uma "reserva de mercado" para os desonestos. Nem assim eles deram conta de suprir as necessidades populares. Terrenos vagos foram preenchidos por favelas e as periferias foram ocupadas por loteamentos clandestinos e invasões que não respeitaram sequer as regiões dos mananciais.

Por aí se pode fazer ligeira ideia dos custos econômicos e sociais da burrocracia, camuflados pelas invisíveis metástases do processo burrocrático. Tudo fica legalizado por um oceano de instrumentos e repartições públicas e "socialmente" legitimado por inesgotável literatura sócio jurídica. Todos pagam, mas ninguém confere esses custos. Muito menos responde por eles. A burrocracia tem um corpo gigantesco, mas nenhuma cara visível.


Abusado - em 25/02/21

Leitores ando pra lá de abusado. Rendo-me a esta expressão do dialeto mais ou menos vulgar (tanto vulgar, como já em desuso, substituída que foi por outra expressão, de origem anátomo-obscena que é "de saco cheio"), para manifestar um estado de irritação e impaciência com certas realidades sociais, umas mais recentes, outras mais antigas, das sociedades contemporâneas mundiais em geral, e da sociedade brasileira em particular. 

Por exemplo: tomei um abuso com esta mais que tendência que é a proliferação das diferenças nos campos das ideologias, das atitudes políticas e das posições dos grupos sociais. Foi o próprio presidente, general Charles De Gaulle que, não abusado, mas alegre pelo orgulho do seu nacionalismo francês, quem em certa ocasião indagou todo ancho: "Como governar um país com 325 queijos?" Esta quantidade da variedade de queijos "atormentava" o juízo do velho e carrancudo estadista. 

Pois hoje, torra o meu juízo dar conta de tantas diferenças que explodiram nos cenários social, político e cultural do mundo. Se o absolutismo e o maniqueísmo são situações ruins, a exacerbação das diferenças, com o seu corolário que é o hiper-relativismo, é também, de outro modo, uma situação muito ruim. E o proselitismo de cada diferença, abusa e aporrinha mais ainda. Aparentemente eu estou escrevendo como se isto fosse mero desabafo de um desconforto particular, meu; de uma das minhas idiossincrasias. É. Mas, mais relevantemente, é um problema grave que atinge (para complicar, diga-se) todas as relações sociais na medida em que gera uma multiplicidade destrambelhada de identidades que não comungam quase nada entre si, instituindo um isolamento que não só esgarça, mas rasga em pedacinhos o tecido social, pondo em risco tanto o conceito abstrato de sociedade, como a vida concreta vivida no cotidiano comunicativo das relações sociais. 

Uma das conseqüências disso é a perda da apreensão e da compreensão da realidade social como uma totalidade interdependente. Nessa situação de agora os agentes sociais penduram-se cada um no seu galho e no seu nicho, se lixando para as condições da árvore, esquecendo-se que, caso a árvore apodreça, ou fronda repercute em cada um dos galhos. As condições econômicas atualmente vigentes explicam em parte esta irritante hipertrofia das subjetividades, que neste caso em vez de valorizar as individualidades, arrota arrogantemente o que de pior existe do narcisismo e do corporativismo, pervertendo o que de saudável existia quando era politicamente viável, proveitoso e adequado (às vezes, inadequado) enunciar o famoso lema "vive la différence". Aparece então o que o arguto sociólogo Antônio Flávio Pierucci chamou, inclusive para título de seu ótimo livro, de Ciladas da Diferença. 

Tudo bem com os processos que levam à individualização. Mas atualmente chegou-se aos absurdos da hiper particularização. E, tudo aquilo que particulariza o indivíduo acarreta a diferenciação; e isto o afasta, não mais dos seus semelhantes, mas o afasta dos seus outros dessemelhantes. Esta é uma monstruosa hipertrofia que não vai ser possível suportar por muito tempo. Um outro abuso: com as manifestações que exibem uma certa admiração pela ignorância, pela grosseria e pelo rústico. O historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello em muito recente entrevista fez referência a este fenômeno, particularmente com relação ao Brasil. 

Pela minha análise avalio que muito desta admiração pela ignorância é alimentada por duas ideologias: a do populismo político, culturalmente popularesco e carnavalizado e a dos regionalismos provincianos, sobremaneira o nordestino que delirantemente consagra com quase histeria manifestações artísticas, principalmente, que na realidade valem quase nada. E o pior é que agora essas manifestações são potencializadas pela mídia com suas terríveis técnicas e estratégias de marketing, com a própria aquiescência dos beneficiados. 

O debate piorou e não se vê a preocupação de melhorá-lo. 

À vista destas constatações eu tomei um abuso...E estou mais abusado com o Ministro da Saúde, que se pudesse faria com que ele engolisse cada mentira proferida sobre a imunização, nem que fosse através de uma centena de folhas de papel das entrevistas mentirosas que deu. Estou abusado, e vou continuar assim, principalmente com esse rol de idiotices tomadas pelo governo Federal, tanto no tocante a imunização dos brasileiros, como na vã perspectiva de que mudando gestores públicos como no caso Petrobras, vai arrefecer o valor do combustível. Alias pensando bem os abusados são eles.


Liturgia da gratidão - em 17/01/21

Hoje é Quarta Feira de Cinzas que significa cobrir-se de cinza para simbolizar penitência e arrependimento, e é uma tradição que vivem muitas religiões. Esta é a origem e o significado deste símbolo. Mas é um momento diferente, em função dessa pandemia que nos levou tantos amigos e parentes. E existem momentos que podem ser de oração. Oração no sentido mesmo da prece. Invocação de santos e de familiares já no reino da eternidade. Silêncio interior, onde ressoa apenas a voz misteriosa daqueles que povoaram a infância perdida e de alguma forma - ou por todos os motivos - foram os profetas do destino de cada qual e, instante por instante, pululam em nossas lembranças numa espécie de "vício de memória velha", como gostava de se reportar Machado de Assis. Rezo, neste espaço de página, o meu louvor ao Pai Celeste por ter me concedido a graça de continuar pelo menos até agora neste "mundão de meu Deus", junto com meus filhos e netos. Essa malsinada pandemia tem a ressonância da fatalidade, cortante, parece ferir de morte a quem a tem, apesar de todos os avanços médico-científicos no combate às suas ameaças e mazelas. Médicos e todo o quadro de enfermagem estão se revezando na eficácia do atendimento. Estabeleceu-se em mim um sentimento diferente, o do medo-coragem. À minha frente, o perigo iminente, daí o medo e o pavor. Como autodefesa, o equilíbrio e a disposição de colaborar com os cuidados necessários ao combate ou pela menos pela tentativa de imunização. No meu afã de vida, sempre consulto o meu amigo Dr. Geraldo Catunda, que me transmite serenidade, com m a perda de alguns amigos e amigas que não pensava em momento nenhum que partissem dessa nossa passagem tão rapidamente, reflito e assevero novamente, o quão efêmera é a vida. Eu me pergunto: para que, dentre as pessoas, tanta soberba? Tanta vaidade? E os arroubos de poder? E as arrogâncias? O egoísmo? Por que o eu cada vez mais eu e o nós cada vez menos nós? E as ambições? A corrupção e a ética, onde fazem moradas? E o vil metal? Não sabem os que pegam do dinheiro sujo o quanto este se transforma em azinhavre da alma. Por que tantas guerras e o porquê da barbárie que não se desgruda dos que se jactam do poder e da ganância desenfreada? As pessoas esquecem que o somatório dos dias é a subtração das horas. Vale lembrar o verso "Poder" de Francisco Bandeira de Mello: "Eu posso/ tu podes / ele pode /(eu pó tu pó ele pó)". Confesso que as vezes deixo correr algumas lagrimas, e outro dia, uma amiga que encontrei perguntou-me: "Por que essas lágrimas se o senhor está bem?". Disse-lhe: - saudades dos meus netos, Matheus e Bernardo, saudade dos meus filhos Rafael e Gabriel, saudades dos meus amigos, até aqueles que por um motivo ou outro, deixaram de se comunicar comigo. Sofrer é preciso... Parece que não se cura, quando dos repousos instados pelos médicos, apenas o corpo, mas também se revigora o espírito. Pensar, livre pensar: a vida é um nada neste mundo, mas é bonita e é bonita, sendo este o canto de Gonzaguinha, e o encanto da vida que, por vezes, parece se apagar como a chama de uma vela quando de pequenos sopros, demonstrando a nossa fragilidade. Que bom escutar a voz solidária e carinhosa dos familiares e amigos. As preces rezadas portantos e quantos. E haja estresse, o mal do ano passado, e que, espraiado, prossegue neste início do novo ano. A minha prece é de gratidão. Que Deus acompanhe os meus passos, dando-me vida e saúde, paz e serenidade, o amor insubstituível dos meus entes queridos e o bem querer de tantos amigos, além de um pouco de suprimento de alma para que eu possa somente ter bondade no meu coração, levando os dias sem os ranços que, por vezes, apequenam o espírito e os gestos do humano. E que eu possa morar no futuro, ao lado de todos os meus. Que assim seja por muitos anos, por todos os dias, por todas as horas, amém!


Conceitos errôneos - em 10/02/21

O brasileiro vive dentro de uma nebulosa de conceitos que se contradizem, se entrechocam, se atropelam e acabam criando desconexa corrente de opinião que, em muitos casos, desemboca num estuário de non sense e surrealismo. 

Entre as conceituações equívocas existem, inclusive, aquelas que se acham institucionalizadas, petrificadas, o que torna extremamente difícil a sua correção, para que fiquem nos trilhos da racionalidade e da lógica. 

Vejamos o caso exemplar do conceito de salário mínimo. O fato de estar inscrito na Constituição, com todas as características imaginadas pelo legislador, potencializa e aprofunda as visões obscurecidas desse mecanismo de justiça social nascido com as melhores intenções. O resultado é que muita gente supõe que o salário mínimo seja na verdade uma espécie de salário máximo. 

A Constituição de 88, repetindo as definições já existentes sobre o problema, não conseguiu deixar bem claro que se trata no caso de um nível de remuneração trabalhista no seu último limite abaixo do qual nada pode ser pago ao assalariado formal. Como somos, entretanto, um país basicamente pobre, fez-se inevitável a generalização de uma mão-de-obra remunerada pelo que o empregador poderia pagar nas menores proporções com anuência do Estado e da Justiça. 

Por sua vez os cofres governamentais e previdenciários ficariam também envolvidos pelo imperativo do rebaixamento do quanto do salário mínimo, tendo em vista o impacto transmitido às folhas de pagamento do pessoal ativo e inativo das administrações federal, estaduais e municipais. Nada é mais inusitado no Brasil do que o nível de salário mínimo estabelecido a cada ano. 

Dele se diz comumente que é uma vergonha, uma indecência, uma indignidade, e pululam as comparações com os valores adotados na matéria pelos países ricos ou mais adiantados do que o nosso, onde continua havendo uma população faminta calculada em 30, 40 milhões de habitantes. São evidentemente comparações, vazias de todo o fundamento e que só denunciam desinformação e ausência do senso de medida de quem usa tais argumentos.

Mas vejamos o que diz a Constituição de 88 no inciso IV: o salário mínimo deve atender as necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família, ''como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social''. Poderia haver dispositivo constitucional mais delirante em face da realidade econômica e social do Brasil do nosso tempo? 

E então se converte num jogo de faz-de-conta discutir de 20, 50, 100, 200 reais por acaso acrescentado ao salário mínimo vigente em cada ano, teriam condições de atribuir ao assalariado de tão escassa remuneração o poder aquisitivo capaz de satisfazer a todas as necessidades enumeradas na Carta Magna. E nos lembremos de que ali se fala não apenas nas exigências do bem-estar social do trabalhador individualmente. Fala-se nele e na sua família não importa de quantos membros ela se constitui. 

 O conceito de discriminação racial é outro que entre nós sofre múltiplas variações de avaliação, inclusive mantendo alguns pontos de vista já defasados, pois é claro que a discriminação ainda sobrevive, mas sem a abrangência e o rigor que muitos ainda pretendem identificar no nosso cotidiano. Por exemplo, fala-se muito nas desigualdades de tratamento salarial da mão-de-obra branca e negra chegando as denúncias a respeito a fixarem os percentuais do injusto diferencial. Ora essa generalização é falaciosa ou ao menos extremamente simplista, tanto mais quando se refere a trabalhadores e funcionários que exercem cargos ou funções iguais e têm a mesma responsabilidade exigida pelos serviços que prestam. 

Na administração pública a hipótese discriminatória pelo preconceito de cor é inviável dada a estrutura burocrática cristalizada e isonômica de funções e vencimentos do sistema. Na iniciativa privada qualquer discriminação justificaria uma reclamação trabalhista e fácil incriminação de racismo, já capitulado como crime inafiançável. O que existe, na verdade, é a dificuldade maior de acesso do negro à verticalização salarial, por motivos que nada têm de preconceituosos. Trata-se de um processo que vem de longe, na história da evolução política, social e cultural do Brasil. 

A vasta maioria da população afrodescendente ainda purga as consequências perversas das iniquidades sociais herdadas da escravatura, cuja tardia abolição apenas lhes tirou os grilhões, mas os deixou condenados a um longo período de pobreza, marginalização, exclusões de todo o tipo, enfim de bloqueio às instâncias do conhecimento e da qualificação profissional. 

No imenso mercado de trabalho doméstico do Rio e de outras cidades brasileiras, quem conhece a prática de salários diferenciados pelo critério da cor da pele? 

De problemático só existe a difícil conquista do empregado adequado, pouco importando o seu perfil racial. 

Na experiência em curso em algumas universidades, envolvendo a distribuição de vagas de acesso segundo um sistema de cotas de vestibulandos negros e pardos, ocorreu algo de surpreendente para quem vê cores radicais no cenário da nossa discriminação racial. Estudantes brancos tentaram passar por pardos e até mesmo por negros (alegando ascendência familiar mestiça) para obterem prioridade e vantagem no julgamento dos exames do curso superior. 

É o brasileiro se mostrando mais pragmático e esperto do que racista.


Políticos - em 03/02/21

Se os políticos praticassem individualmente contra seus eleitores os desaforos e as fraudes que lhes infligem coletivamente, certamente seriam hoje uma espécie extinta, pois de um ou de outro já teriam recebido o troco que merecem. Mas eles agem coletivamente. Quer dizer, ocultamente. Ocultos pelo anonimato, protegidos pela abstração das instituições: O Estado, O Fisco, A Câmara, O Congresso, A Prefeitura, O Judiciário.

Abrigados sob o anonimato dessas pomposas, temíveis e inefáveis estruturas convencionais e abstratas, não há como identificá-los, individualizá-los, personalizá-los, nomeá-los, vê-los, botar as mãos em cima deles. Embora por baixo ou por cima dessas instituições o que se acha são indivíduos em iguais aos seus eleitores - salvo nos privilégios e imunidades que se auto outorgam. Entretanto, só eles se conhecem, se identificam, se personalizam. Só eles estão inteirados de suas vantagens e falcatruas.

Investidos de seu mandato, de seus privilégios e de suas imunidades, não há como o eleitorado, e muito menos o eleitor, individual, alcançá-los. A ficção democrática os investe da soberania: eles são "os representantes do povo", sua voz, seu desejo, seu poder. A ideologia democrática diz que eles são o poder maior, absoluto, incontestável. Acima do povo ou contra ele, que poder maior pode se impor?

São eles que fazem as leis, são eles que estruturam a Justiça e comandam a Polícia, os fiscais, e todos os demais aparelhos legais de coerção e repressão. Sem dúvida, a Ética, o Direito, a Constituição, se acham acima deles. Na prática, os instrumentos de operação social desses valores são imponderáveis e impotentes. Existe, inegavelmente, uma Opinião que exprime o pensamento, os sentimentos e o desejo da maioria. Existem a Mídia, os Tribunais de Contas, os Ministérios e Promotorias públicos. Mas sabe-se bem o limite de ação prática desses instrumentos e a que ponto a política e o Estado os controla e manipula.

Assim, o único corretivo contra as deformidades, abusos e degenerações da Política está nas mãos dos próprios políticos. E nada existe mais poderoso, mais salutar e mais produtivo para a melhoria dos costumes políticos do que as brigas de família entre eles. Só eles conhecem seus próprios podres e suas próprias fraquezas e só eles têm o poder de corrigi-los. Daí a salubridade das comissões de inquérito. Daí, também, a prontidão com que eles tratam de encerrá-las o quanto antes e minimizar seus efeitos. Hodi mihi, cras tibi.

Embora a maioria dos políticos ignore o latim, nenhum deles desconhece esse ditado: Hoje eu, amanhã você. E, como todos têm os rabos trançados no mesmo rolo de minhocas, nenhuma máfia observa com maior escrúpulo e temor a regra da Omertà - o silêncio da cumplicidade que a ameaça da retribuição assegura. Hoje se denomina de corporativismo a esse espírito de defesa grupal. As corporações eram instituições de ofício medievais. Mas a coisa é mais antiga e mais profunda do que isso. Os etnólogos a conheciam por tribalismo e os zoólogos por instinto grupal.

Em nenhum grupo humano esse instinto é mais forte do que na manada política. A razão é simples. Zoologicamente eles pertencem à variedade animal dos predadores e, se nesse tipo de bicho não predominar o instinto grupal, sua sobrevivência estará ameaçada. É por isso que lobo não come lobo e os leões vivem em paz entre si. Piranha também não come piranha. Salvo se uma delas for sangrada.

Na política, o processo de criar bodes expiatórios é um sistema de preservar a tribo e o próprio bode. Mesmo depois de mortos eles voltam como heróicos ectoplasmas para retomar seu lugar no cocho. Não vão os pundonoros e os pudibundos políticos brasileiros, considerar ofensivas as palavras deste artigo. Elas são inferiores em contundência à gravidade dos fatos que praticam contra seus eleitores e representados.

Teríamos melhor segurança, melhor educação, melhor saúde se os milhões por eles embolsados chegassem ao destino para os quais os pagamos. Pois o problema não é o de "quanto" se arrecada, mas o de como se "gasta". Sem os furtos políticos do último quarto de século, este já seria um país do Primeiro Mundo.


Inspiração - em 27/01/21

É comum a pergunta de amigos ou de alguém que lê alguns artigos meus, sobre como eu faço para escrever e as vezes até poetizar coisas tão difíceis como foi o último artigo sobre a morte. Eu respondo sempre, que é a inspiração, em momentos as vezes e sempre no dia anterior que mando o artigo, muito só ou com pensamentos vagando.

A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de outro espírito propriamente dito - fenômeno a que se dá o nome de ''inspiração''. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças àquele dom de nascimento que é a sua marca.

Pode ser que existam esses privilegiados - mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil. O processo todo é penoso e dolorido - e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico - que se assemelha terrivelmente a uma gestação cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos.

Começa você sentindo vagamente que tem umas coisas para dizer ou uma história para contar. Ou, às vezes, ambas. Fica aquilo lá dentro, meio incômodo, meio inchado (na minha terra se diria como ''uma dor incausada''), quando um belo dia a coisa dá para se mexer. Surgem frases já inteiras, surgem indefinições que, se você for ladino bastante, anota para depois aproveitar; mas se for o contumaz preguiçoso, confia-os à memória e depois os esquece.

Dentro da enxurrada de frases e de ideias aparecem, então, as pessoas. Surgem como desencarnados numa sessão espírita - timidamente, imprecisamente. São uma cabeça, uma silhueta, uma voz. Nesse ponto, junto com as frases, pensamentos e criaturas (e mormente com o cenário, embora ainda não se haja falado nele). Nessa altura, a história já se está arrumando. Você sabe mais ou menos o que contar.

Os autores meticulosos, nessa fase dos acontecimentos, já delinearam o que eles costumam chamar ''plano de obras'', ou seja, um esqueleto do enredo. Se é um romance, o esquema será mais amplo - os claros serão facilmente preenchíveis. A história corre a bem dizer por si. Mas se se trata de teatro, o esquema bem linear é imperioso: aquilo tem que ser como um pingue-pongue, ter um crescente constante, uma economia, uma nitidez...

E então chega um dos piores momentos nessa fase embrionária da obra por escrever. O autor enguiça. Falta-lhe imaginação para desenrolar o resto da história, falta a centelha necessária para criar a situação única, indispensável, climática, que será como a tônica do trabalho. E a gente fica numa irritabilidade característica, e numa pena enorme de Deus Nosso Senhor, que é obrigado a dirigir as histórias não apenas de um punhado de personagens, mas os milhões de viventes que andam pelo mundo - e se concebe um respeito trêmulo pela divina capacidade de intenção, que tão pouco se repete e tão invariavelmente cria...

Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente. É provável que eles, ao contrário de nós, os terra-a-terra, primeiro imaginem um enredo e depois, segundo as necessidades desse enredo, vão criando os personagens e os situando no tempo e no espaço. Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são os estrelos. A arraia miúda escrevente - ai de nós - é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve.


A morte - em 20/01/21

Caros amigos e leitores, quero no presente artigo apenas tentar poetizar a dor da saudade. As vezes dizemos estou com "saudades", principalmente agora nessa pandemia quando muitos se foram, mas para mim, claro que quando morre alguém a saudade dói, sinto muito mais saudades das pessoas que não vejo a algum tempo, e que representam muito. A morte nada mais é do que uma passagem. A passagem de um mundo que conhecemos bem, para outro totalmente desconhecido. E, por isso, amedronta e traz dor...Por isso, os monges beneditinos jamais falam de morte e sim de passagem.

Passamos por esta vida, como um grande presente de amor que deus nos deu... Nosso nascimento certamente trouxe muitas felicidades e amor aos nossos pais e, vendo assim, como uma passagem, podemos imaginar que o que nos espera, na outra etapa, na outra passagem... É algo muito melhor. Nada mais natural que a morte! E, tenho certeza que um dia todos nos encontraremos: a vida é um mistério maravilhoso!

Escrevo o presente com a dor da saudade pela partida vitimas dessa pandemia de muitos amigos e amigas, exatamente a meia noite e dez minutos, no maior silêncio, mas o silêncio é uma granada escutada na fuga da alma. Eu sento diante do birô noturno da vida para escrever o instante. As palavras fogem. E apenas há ressonâncias sinalizando a eventualidade das sílabas nos lábios. Sinto ser apenas de carne e sonho, sangue e esperanças vagas possibilidades de ecos nas odisseias cavalgadas. Catalogo lembranças que cedo me queda o riso do inicio da madrugada. Entro nas labaredas do alvorecer, catando linguagem. Silencio.

Vejo a ciranda das horas passar. Dedos pesados de chumbo. Sacrifício inconcluso no calendário. Como se a lâmina resoluta cortasse rajada, seus dias e vocabulário. Tinem rajadas e folhas longilíneas no traçado da missão anunciada. A paisagem é este estandarte florido, berço acústico no imaginário da tarde dos encontros e das palavras. Pulsam partituras de festim nas cordas serenas do indivisível do coração que se despoja no cavalete das pinturas envelhecidas.

A palavra é o espelho, e a poesia é um vidro quebrado. Há de ser distorcida a palavra para tirar dela a essência e a cor crucial de sua plasticidade. Trabalhar com elas é um risco permanente de se tonar luz, ou cadafalso, o caminho do mundo. ser um verdadeiro lavrador da metáfora e do sentimento. Os versos podem ser pesados ou leves conforme os aviões. E tem-se que confiar em seu rumo quando se embarca numa dessas aeronaves sem nunca se ter visto o piloto. De repente, pode um voo libertar ou aprisionar. Um voo do gavião certeiro, que não sai do chão sem a presa em plena mira. Ou um ultraleve, que sobrevoa os açudes e, de repente, encontra o oceano. Das cores a correr no meio-fio do amanhecer da ilusão humana.

Tento as vezes ser poeta, o poeta é filho da linguagem. Poemas são lavras que consomem por dentro o coração. A leitura dos versos deve ser o olhar penetrante da medusa, que transforma curiosidades em granitos. O sonho é um poema incontrolável. Talvez por isso mesmo os poetas sejam considerados lunáticos. A lua, certamente, sempre foi o astro principal da constelação da lírica. Plangente. Esta a palavra que exprime a situação, inesperadamente vivida, nestes últimos dias em Manaus.

Abro o computador e todo dia fico dividido entre o martírio e o taciturno. Notícia súbita de que um amigo ou amiga, partira sem a mínima chance de um olhar ou um aceno a lhe transmitir o adeus. Não estava mais entre os vivos. Havia atendido ou não um chamado lá do alto. Doloroso saber que não havia sequer quatro pessoas para lhe segurar a alça do caixão. Pela pandemia não pode ter mais de duas ou três pessoas para acompanhar o velório.

Recordo as passagens que tive com muitos deles. A ânsia de perscrutar o absoluto me invade. Acho o cemitério sinistro como é redundante dizê-lo. A morte, então, para mim, não chegará para me levar vestida de outra cor senão a rubra. Um tipo crepuscular, igual a uma paisagem que chega pincelada de vermelho. O corpo nunca adoece antes da alma. Passamos a vida adiando o agora. Quantos acenos inconclusos, quando beijos adiados, quantos abraços esquecidos, quanta ternura poupada por conta da máxima cruel de nossa época: "não tive tempo"?

É o jantar recusado à amada, a presença-ausente do Dia das Mães, o esquecimento sintomático do aniversário de um amigo. São questionamentos que me acompanham ao transitar, contrito, e somente pelas ideias, já que não vou a cemitério, por entre a selva de mortos nesse mar de catacumbas ou uma cidade de prédios guardando a insônia inquieta dos solitários. Não adianta adiar o mapa do coração, dizer que amanhã é possível, ou talvez quem sabe. Estamos assim desprezando a arte de viver e o encanto que as belezas, inapercebidas por deformação profissional, trazem. Se não o fazemos para que adiantou respirar ou transitar nesse mundo sublunar?

De fato, quem tem a certeza de amar e ser amado não precisa de uma justificativa material para traduzir seu sentimento. Um gesto basta. No planeta Terra não cabe solidão. A essência do abraço não está no outro. Está em nós. Abrace o outro para ser feliz.

Voltando ao eixo do quotidiano, tenho a impressão de enxergar as coisas por outro prisma. Um diamante, por mais belo que seja, precisa ser lapidado para se tornar uma joia. Observemos o sândalo que perfuma o machado que o fere. Nosso ofício de escrever deve nos levar a uma reflexão profunda da alma humana, de suas dignidades e limitações.

As ações mais singelas são as que frequentemente preenchem nossos dias. Orná-las de um significado maior, valorizando detalhes, lembrando gestos, nos previnem de uma despedida invisível. Somos responsáveis pelo nosso viver e morrer. Não podemos colher camélias se plantamos rosas. Temos de enfrentar as dificuldades do dia-a-dia sem a parcimônia do afeto, sem a sobreposição material de nossos carinhos. E deixemos que os mortos enterrem seus mortos, Jesus!

Os acontecimentos, próprios da existência, interpretamos mais como tragédias do que como dádivas, e assim passa despercebida a riqueza da vida, do sonho e do tempo, tal como Shakespeare filosofou ao dizer: "Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco com o muito que temos".


O Estado leniente - em 13/01/21

Existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência. Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nossos dias e que deixou marcas. Marcas como a que estamos sentindo agora com a perda de muitos amigos, amigas, parentes, pela leniência do Estado brasileiro.

Um país que perde mil vidas por dia em razão da pandemia, está em guerra cruenta. O número é estarrecedor. Somos o segundo país de uma macabra estatística, computados já os que estão em guerra ou em paz com os demais. Sequer estamos a falar das mortes nos desastres no trânsito, outra tragédia nacional, decorrente do horrendo conúbio entre a imprudência e as péssimas condições de nossas rodovias.

Não queremos saber que nível da Federação é responsável pela existência das mortes. Para a população, são todos: União, estados e municípios. Contudo, causa espécie que o governo federal, em que a maré montante do mortes por coronavírus cresceu assustadoramente, não tenha coordenado com determinação e método um plano nacional de combate a este tipo de pandemia, nem tampouco provisionado, juntamente com estados e municípios, os recursos necessários à manutenção da ordem.

Uma guerra como essa implica pesquisa, metodologia, recursos adequados e ações positivas. O caso do bolsa ajuda, por si só, não é suficiente, atua apenas para amenizar os que estavam sofrendo com a perda dos empregos, mesmo assim precariamente. Havia um expert no governo que tinha um plano de ação muito bom, fruto de anos de estatística, pesquisas e trabalho de campo. Foi-se embora, vitima do Covid. De lá pra cá, nada aconteceu de positivo.

Ora, o que desejamos é uma política eficaz de prevenção a esta pandemia, e esta não há. A China, está à frente do Brasil. A situação está insustentável. Não ficamos sabendo de um caso aqui outro acolá, de tempos em tempos. Todo dia, um parente, um amigo, o amigo de um parente ou o parente de um amigo que se vai, guardando estatística para mais uma morte. São fatos que se tornaram banais. No entanto, a vida, virou uma banalidade.

Na luta pela sobrevivência, o certo e o errado igualaram-se e o ter superou o ser. Viver é preciso, seja lá como for. É dizer, o caos social venceu a ordem. Aos homens de boa vontade, sejam ricos ou pobres, restam a fé na verdade e a esperança em dias melhores. Precisamos de um Cícero moderno para escarmentar no Senado os poderes da República, sempre a repetir suas catilinárias: "Ó governante leniente e frouxo, até quando abusarás da nossa paciência?"

E nós, brasileiros, sabemos que sentir falta não é o mesmo que sentir saudade. Somos descendentes de povos que mistura saudade dos mais diferentes lugares. Saudade à brasileira deve ser como o banzo do negro escravo: Sente-se. Alimentamos sempre a esperança de que, após o decurso de uma destas unidades de tempo, a existência melhore e o ser humano se engrandeça. Não poderia ser diferente porque não é possível viver sem esperança. Nem que seja para olhar no horizonte azulado o nascimento de um novo dia, mesmo sabendo que ele se juntará aos outros na eterna cadeia do tempo perene e interminável.

A caminhada é a única certeza que temos. Incerto e cheio de dúvidas é o porto aonde chegaremos na viagem que todos temos de fazer e terminar. Para os racionalistas, este porto é a extinção de tudo. Para os que têm fé, ele é o começo da vida definitiva. Mas a ambos falecem elementos objetivos para comprovar a certeza das duas expectativas. Enquanto isto, o barco desliza inexoravelmente pela superfície da existência, navegando para o destino final, cuja hora a ninguém é dado saber.

Diante de tantas incertezas vale a pena viver? Terá um sentido maior a vida humana, além das dificuldades por que todos temos de passar? Não é fácil a resposta e sobre ela se interrogam e sempre se interrogam os filósofos de todos os tempos e escolas. De onde viemos, para onde vamos e qual o sentido de tanto esforço? A razão e a fé jamais deram uma resposta a estas inquietações que satisfizesse a todos os mortais. Porém uma coisa é certa. O ato de viver nos traz a obrigação de lutar para aperfeiçoamento do mundo no momento em que vivemos.

Assim agiram os homens de bem em todos os tempos e em todas as épocas. Também é certo que, com atitudes éticas e solidárias, podemos melhorar a vida de nossos semelhantes e aperfeiçoar as desigualdades sociais, que dão mais a uns do que a outros. E receber do próximo o suprimento das carências que nos afligem. Não podemos fazer uma justiça perfeita, mas podemos realizar com certeza uma justiça possível em nossa passagem pela terra. Apesar do estado leniente, temos que ter fé que temos o pesado fardo de conduzir a existência. Enfim, que a vacina chegue e acabe com esse sofrimento.



PARA DAVID ALMEIDA- em 06/01/21

Caro David Almeida,

Todos nós estamos felizes com tua vitória e tua posse, teus compromissos -- exequíveis por sinal--, fizeram com que tua campanha fosse vitoriosa. Tenho algumas sugestões, simples, sem precisar de muito dinheiro e fáceis de serem executadas. Só precisará de modéstia para examiná-las e torná-las factíveis. Muitas vezes o simples é tão óbvio, que chega a ser ululante.

É preciso que a Prefeitura de Manaus e Governo do Estado passem a agir com maturidade, bom senso e equilíbrio. Governador e Prefeito são prepostos da população e a ela devem satisfação, e a soma de esforços para erradicar os habitantes das áreas de risco, melhorar as condições sanitárias da cidade, equipar os hospitais e definir, seguindo a Constituição, quais as reais áreas de competência do Município e do Estado.

Já que não se pode extinguir, por falta de empregos os flanelinhas, por que não institucionalizar a atividade de "vigilante de veículos", cadastrados, com crachás, fardados e treinados, poderiam ser distinguidos dos marginais mesmo existindo o Zona Azul. E já que falamos de treinamento, por que não preenchemos as lacunas na preparação dos servidores municipais já que estão entre as mais evidentes dificuldades para o funcionamento da prefeitura?

Vítimas das deficiências do sistema de ensino e do imediatismo de muitas administrações, os funcionários municipais raramente encontram oportunidades de se desenvolver como pessoas e profissionais. A prefeitura, por sua vez, perde em eficiência na sua administração e na prestação de serviços. Em última análise, os cidadãos são os maiores prejudicados: os serviços públicos oferecidos são de má qualidade e os recursos são desperdiçados.

Tradicionalmente, as atividades de formação de servidores são apenas para prepará-los para exercer os respectivos cargos. Não se investe na preparação do funcionário como servidor público: treina-se a merendeira apenas para fazer merenda, ou o auxiliar administrativo apenas para utilizar um editor de textos, por exemplo.

É claro que a implantação de um Programa de Formação de Recursos Humanos encontra barreiras, resultantes de longos e complexos processos que atingem não só o funcionalismo, como a sociedade e o Estado brasileiro. A substituição da responsabilidade quanto ao bem-estar público pelos ganhos particulares de curto prazo, a corrupção, a desvalorização do trabalho (presentes também na esfera da iniciativa privada), na administração pública permitiram a privatização do Estado por parte de seus dirigentes e, em escala mais reduzida, pelos próprios servidores públicos. Um programa de formação que se posicione contrariamente a isto com certeza encontrará resistências.

A desmotivação dos servidores, muitas vezes decorrente do descrédito nos sucessivos governos, deve ser enfrentada. Criar mecanismos para que participem ativamente das definições e da execução do programa de formação pode ser útil para a tarefa de transformá-los em parceiros do projeto, mudando suas expectativas.

Caro Prefeito, tenho certeza que motivando o público interno, haverá maior abrangência das ações, melhor qualidade dos serviços oferecidos, eficiência e por via de consequência, fortalecimento da cidadania.

Feliz e profícua gestão.


Reflexões- em 30/12/20

A vida é mesmo assim: tudo flui e sempre, como o dia que vai escurecendo-se com a noite, que se perde ao amanhecer da alvorada do novo dia. Eis o tempo "de novo" ... Existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente - no mais ou menos das vezes? "O tempo tudo tira e tudo dá; tudo se transforma, nada se destrói...", sentenciou Giordano Bruno.

O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso... Indubitavelmente que o tempo, como uma dimensão física - segundo os cientistas naturalistas racionais - ou transcendente - vide os metafísicos e filósofos -, ocorre transmutando-se a si mesmo e a todos os seres animados e inanimados, como se fora ele, o Gênesis do grande Universo.

Seria o tempo-ser incomensurável, onipresente e onisciente, o próprio Deus?!

O nascimento, a evolução e a morte de uma estrela - qualquer a sua grandeza - se dá através do tempo... E quanto aos homens... "Nunca existiram grandes homens enquanto vivos estivessem". Um dia, num passado tão perto, um homem do seu tempo mas muito iluminado pelo conhecimento acumulado sobre os ombros de outros gênios, e pelo talento da sua inteligência criativa, articulou os princípios do espaço e da luz e matematicamente demonstrou que eles se inflexionam quando uma velocidade lhes era contraposta num tempo determinado: o universo se curvava em algum espaço futuro... Ou seria no passado?

Albert Einstein acabara de "relativizar" a lei da inexorabilidade do devir, segundo o paradigma: tudo tem o seu tempo... de fruir. E a direção é o futuro...? Revelara-se: o universo tem massa e energia, e se move, se expande... Além do tempo. Mas que tempo? Na efêmera condição humana, apreende-se desde a sua infância mais tenra e vulnerável que o tempo serve, primordialmente, para o crescimento do corpo físico, da aprendizagem do viver, da reprodução da espécie-família, para o envelhecimento e para a morte.

Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor. Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. E que nosso país tão atrasado como o próprio mandatário, consiga vacinar os seres humanos que conseguiram escapar dessa pandemia.

Assim seja.


Agora é Trabalhar - em 02/12/20

David Almeida é novo Prefeito de Manaus. Os números mesmo não tão eloquentes acabaram por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias. Há bons analistas que neles se respaldam para prever a abertura, pelo sistema, de uma inescrupulosa caixa de maldades contra o candidato do Avante';': quanto mais cresceram os números de David mais se conspirou contra ele. A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um fato forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno. As estratégias se dedicam a burilar imagens, efeitos e "conceitos", quem sabe embalagens. Os conteúdos importam menos. Os números integram-se a isto e passam a ser cotejados sofregamente. Tudo fica assim condicionado. Uma falha de comunicação, uma frase boba, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido da biografia, qualquer bobagem pode jogar tudo ladeira abaixo. Em decorrência, todos tendem a não se afastar muito de um ponto "ótimo" de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um factoide bem plantado vale ouro. É a ante campanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros se combinando com o disfarce de si próprio, as escaramuças moralistas e "imagéticas" ganhando mais peso que o debate democrático. É um alívio saber que acabou a campanha eleitoral. Ninguém de bom siso aguentava mais, de fato, o festival de marketing oco e de discursos presunçosos, de passeatas barulhentas e de ruas emporcalhadas de propaganda sem graça ou ofensiva à beleza da paisagem (onde ainda existe paisagem, evidentemente) que se produzia por aí. Houve na realidade um mau-gosto da fase pré-eleitoral, agora, com tantos meios de comunicação novos à disposição do freguês (e mal utilizados), os motivos se multiplicam para que nos satisfaçamos com menos uma campanha nos próximos dias. Coisa de que, coitadas, não estão isentas as populações de Macapá Se, na campanha recente, faltou mais discussão de ideias e de propostas, o que nos fez escolher candidatos à base mais da crença de que honrarão seus mandatos honrados, aliás, David Almeida cumpre preparar programas de governo consistente e assumir as responsabilidades que lhe foi conferida. Nunca é demais lembrar que o mandato dado pelos eleitores é uma procuração para que o prefeito aja em nome da cidadania. Para alguém zelar pelo bem comum. Para isso, existe o processo da eleição um processo, frise-se, que tem sido aperfeiçoado no Brasil, fazendo com que, hoje, possamos causar inveja aos Estados Unidos. Ali, o sistema é tão confuso que se teme adotar o modelo eletrônico, bem-sucedido entre nós e na Venezuela. Percebem David Almeida e Marcos Rotta melhor os problemas da comunidade. Sabem que precisam, além de mobilização política, da indispensável retaguarda de pessoas qualificadas para executar as tarefas que deles a população espera. E para preencher lacunas no seu desempenho. Na maioria das cidades brasileiras há um certo conformismo associado à ideia de que o futuro trará cidades piores do que as que temos no presente e que tivemos no passado. É preciso acabar com essa ideia e fazer com que nossas cidades avancem no sentido de melhor qualidade de vida, de mais bem-estar humano. Para tanto, é preciso atuar seja no plano do cidadão comum, seja no da defesa de valores ambientais e estéticos, quer do meio natural, quer construído. O importante arquiteto paulista Isay Weinfeld observou recentemente que, para ele, "a estética da favela" é "muito mais rica que a dos prédios milionários em estilo francês. Parte da cara feia da cidade se deve a eles". Trata-se da opinião de alguém que projeta residências e que desenhou um belo edifício, o do Hotel Fasano, em São Paulo. Nesse ponto, Manaus carece de cuidados sensíveis. Precisa-se avaliar alternativas sensatas, e não ficar à mercê de questionáveis interesses especulativos e imobiliários. Está na hora de colocar em discussão, de forma sistemática, o que se pretende para nossas cidades: que qualidade decente de vida garantir para todos.


Malabarismos retóricos - em 28/10/20

Houve um momento em que parecia que o Brasil finalmente deslanchara. Tinha-se tornado a oitava economia do mundo e podia ambicionar voos ainda maiores. Hoje, quatro posições abaixo, o País procura retomar o fio do desenvolvimento acelerado sem conseguir se desvencilhar de vícios arraigados e erros recorrentes. Suas elites dirigentes têm tendido a se esconder dos desafios com malabarismos retóricos e tergiversações ideológicas.

O que preocupa não é apenas o fato de não terem tido continuidade os expressivos avanços alcançados em períodos recentes de nossa história, mas a propensão à inércia, ou ao movimento errático, que acomete protagonistas e coadjuvantes da vida nacional. Da escalada da violência à favelização das grandes cidades, passando pela deterioração dos serviços públicos, é visível que se está lentamente saindo do purgatório em direção ao inferno. E o assustador é o passivismo das autoridades.

Somos uma sociedade que se mantém muito aquém de suas potencialidades. Poderíamos, em todos os níveis, estar fazendo muito mais coisas e com muito mais eficiência. A grande maioria das pessoas permanece subaproveitada, limitando-se a fazer o mínimo indispensável e a executar as tarefas com tédio burocrático. Predomina em toda parte a rotina mecânica que aniquila a criatividade e o espírito de superação. Falta à maioria dos agentes a qualificação e o aguilhão que poderiam levá-los a se aprimorar e a melhorar seu desempenho. Já os preparados e empenhados se defrontam com outro tipo de dificuldade: veem-se obrigados a atuar no âmbito de lojas, empresas, repartições - instituições em geral - marcadas pela ineficiência e pelo boicote sistemático às inovações.

Fica fácil entender a sensação de estagnação que paira no ar quando se percebe que é generalizada a dificuldade em lidar com as limitações individuais e as obstruções institucionais. Não é por acaso que, em comparação com o tamanho de sua economia, nossa sociedade está entre as menos inovadoras. Atualmente, o grande desafio é remover as causas que conspiram contra a evolução pessoal e profissional do cidadão. Só cabe considerar desenvolvida uma sociedade quando oferece um ambiente que proporciona a seus membros as condições propícias à busca e realização de suas potencialidades.

Sem a devida qualificação, as pessoas não sabem do que são capazes e do que poderiam fazer para transpor os obstáculos em que esbarram nos planos individual e coletivo. É triste constatar que muitas potencialidades deixam de se tornar realidade porque estão ausentes as condições internas e externas que favorecem o seu desabrochar. A sociedade permanecerá pobre enquanto seus membros, da elite ao povão, tiverem desempenho muito inferior ao que poderiam ter. E tudo piora quando a fraca performance vem acompanhada de fracassomania lamurienta.

Não bastasse a grande legião de subaproveitados e mal aproveitados, está a sociedade infestada de bandidos e aproveitadores. Daí a urgência de se criar um sistema eficaz de vigilância e punição. Do contrário, se marchará inexoravelmente para a anomia. Diante do quadro geral de subutilização e desperdício de energias pessoais e coletivas, os políticos precisam parar de propor soluções populistas e demagógicas para os graves problemas nacionais.

É errado atribuir exclusivamente à falta de crescimento econômico substantivo o mal-estar que se abate sobre o País. Ao se reduzir o ser humano ao conjunto de suas necessidades materiais, deixa-se de dar a merecida importância ao processo de formação das mentalidades e à capacidade de autotranscedência dos agentes. Uma sociedade é mais que um sistema econômico, é um projeto de vida em comum que, para ser bom, precisa se basear em determinados valores. É o crescimento econômico que depende da existência de um ambiente favorável ao desabrochamento das potencialidades dos agentes. E não o contrário.

Por isso a educação cumpre papel crucial. Só que a pedagogia que libera potencialidades não é a da repetição enfadonha e a da doutrinação ideológica, e sim a que, à maneira de uma maiêutica socrática, vai estimular a criança e o jovem a prospectarem suas potencialidades dentro e fora da realidade em que vivem. Como sugere a evidência histórica, as sociedades que respeitam as iniciativas individuais, criando condições que as estimulam, são as que alcançam melhor padrão de vida. No Brasil, a realidade fica a cada dia mais dura por estar, na maior parte do tempo, impedindo que as potencialidades de cada um se tornem realidade


Ladrões do erário - em 23/09/20

O Rio de Janeiro parece ter uma praga jogada pelos antigos desbravadores portugueses, em termos de ter gestores ladrões do erário. Em quatro anos, todos os cinco governadores que foram eleitos e estão vivos já foram presos - Moreira Franco, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Rosinha Garotinho e Anthony Garotinho, sobre esses dois o Rio sofreu muito, Garotinho é um populista, um homem de visão limitada. Em 7 anos e 3 meses (contando com o governo da Rosinha) construiu só 2 estações de metrô. O emissário da Barra ficou se estragando. Nada fez na educação, nada fez na área da saúde, acha que governar é dar "vale cesta básica". Todos respondem em liberdade, exceto Cabral -- o único que admite os crimes.

Eis que o povo carioca entre a escolher um jogador de futebol senador, como Romário, que também não tinha capacidade de gestão nenhuma, mas talvez não fosse roubar, escolhe o novo, um juiz federal que vinha com seu discurso contra a corrupção e baseado em sua vida que agora sabemos que também como juiz era ladrão. Lembro do beijo da senhora Helena Witzel em seu marido ao fim da cerimônia de sua posse como governador do Rio de Janeiro, parecia um daqueles ósculos entre mafiosos que tanto podem significar apreço e boa sorte quanto podem representar uma forma carinhosa de dar adeus a um condenado.

Há muito me dei conta de que a maioria dos candidatos a cargos eletivos no Brasil não tem inteira consciência das dimensões da tarefa que faz tanta questão de assumir. Quando Witzel disputava com afinco a eleição para o governo fluminense e liderava as pesquisas, muitas vezes me perguntei se ela, aparentemente honesta em seus objetivos, avaliara com realismo o tamanho do desafio que propunha a si mesma. E o mesmo tipo de consideração fazia a propósito do candidato a presidente da República Jair Bolsonaro, que me parecia despreparado para governar o país. A nomeação dele para aquele que deve ser o cargo público mais complicado e espinhoso do Brasil atual confirma minhas suspeitas tanto sobre um quanto sobre outro: nem o governador Witzel alcançara em sua trágica profundidade toda a extensão da criminalidade fluminense, nem o Presidente Bolsonaro teria condições de bem governar uma nação das dimensões e da complexidade do Brasil ainda mais que se confirmam quando se dispõe a enfrentar o maior núcleo do crime organizado do país, do que agora já se sabe ele faia parte como líder de uma quadrilha.

Em resumo, tanto o meteórico Witzel e sua esposa, tem suas ambições eleitorais comprometidas por um extenso período. Os primeiros pronunciamentos de Witzel após sua eleição para o cargo, feitos em tom de bravata, não foram dos mais estimulantes. Combatida num quadro de vigência democrática, a criminalidade brasileira, acima de tudo aquela que se arraigou nos guetos miseráveis de Rio e São Paulo, só cederá mediante iniciativas conjuntas e intensivas que reduzam a miséria e o desemprego e melhorem os padrões de educação do povo. É preciso gerar com urgência ocupação para as parcelas das novas gerações que perambulam entre o vazio e o nada, sem saber o que fazer da vida. Tornar a atividade policial e prisional mais eficiente é importante, mas não reduzirá de maneira permanente a violência que se alimenta da falta de perspectiva e de esperança. A raiz de onde emergiram vícios hodiernos como clientelismo, nepotismo, corrupção (que parte da confusão entre público e privado), espírito orçamentívoro (que considera o Tesouro da Nação butim a ser distribuído entre amigos e apaniguados). A atualidade do diagnóstico feito sobre os nossos vícios sociais indica-nos que a estrutura patrimonial do Estado ainda está para ser superada.


Literatura- em 23/07/20

Esta semana vou falar de Literatura, e para consolo dos bolsonaristas ou não bolsonaristas, não falarei no nome do presidente, talvez no final dê uma puxada de orelhas em quem comanda a nossa cultura. Antes da República, ou por espírito de oposição ao império católico, ou por influência desse pensamento moderno, eram os intelectuais brasileiros quase todos livres-pensadores, ou pelo menos espíritos de um larguíssimo liberalismo, que roçava pelo livre-pensamento. Este liberalismo foi, aliás, a feição conspícua do espírito brasileiro e da vida pública brasileira durante todo o reinado de D. Pedro II.

Com a República, que não podia falhar à índole ditatorial e despótica do republicanismo latino e aos efeitos da sua educação pelo jacobinismo francês, atenuou-se essa feição e minguou na política, como na inteligência nacional, aquele espírito liberal. Uma escola literária não morre de todo porque outra a substitui, como uma religião não desaparece inteiramente porque outra a suplanta. Também não acontece que um movimento ou manifestação coletiva de ordem intelectual, uma época literária ou artística, seja sempre conforme com o seu princípio e conserve inteira a sua fisionomia e caráter. É, pois, óbvio que aqui, como sucedeu na Europa, ficaram germes ou antes restos do Romantismo, como neste haviam ficado do classicismo.

Misturados com o "cientificismo" do momento ou influídos por ele, esses remanescentes do Romantismo confundiram-se na corrente geral daquele originada, produzindo com outros estímulos e impulsos supervenientes algumas feições diversas na fisionomia literária desta fase. Nenhuma, porém, tão distinta que force a discriminação. A dificuldade geralmente verificada desta discriminação sobe de ponto aqui, onde por inópia da tradição intelectual o nosso pensamento, de si mofino e incerto obedece servil e canhestramente a todos os ventos que nele vêm soprar, e não assume jamais modalidade formal e distinta.

Sob o aspecto filosófico o que é possível notar no pensamento brasileiro, quanto é lícito deste falar, é, mais talvez que a sua pobreza, a sua enfermidade. Esta é também a mais saliente feição da nossa literatura dos anos de 70 para cá. Disfarça-as a ambas, ou as atenua, o íntimo sentimento comum do nosso lirismo, ainda em a nossa prosa manifesto, a sensibilidade fácil, a carência, não obstante o seu ar de melancolia, de profundeza e seriedade, a sensualidade levada até a lascívia, o gosto da retórica e do reluzente. Acrescentem-se como característicos mentais a petulância intelectual substituindo o estudo e a meditação pela improvisação e invencionice, a leviandade em aceitar inspirações desencontradas e a facilidade de entusiasmos irrefletidos por novidades estéticas, filosóficas ou literárias. À falta de outras qualidades, estas emprestam ao nosso pensamento e à sua expressão literária a forma de que, por míngua de melhores virtudes, se reveste. Aquelas revelam mais sentimentalismo que raciocínio, mais impulsos emotivos que consciência esclarecida ou alumiado entendimento, revendo também as deficiências da nossa cultura.

Mas por ora, e a despeito da mencionada reação do espírito científico e do pensamento moderno dele inspirado, somos assim, e a nossa literatura, que é a melhor expressão de nós mesmos, claramente mostra que somos assim. Literatura é arte literária. Somente o escrito com o propósito ou a intuição dessa arte, isto é, com os artifícios de invenção e de composição que a constituem é, a meu ver, literatura. Assim pensando, quiçá erradamente, pois não me presumo de infalível, sistematicamente excluo da história da literatura brasileira quanto a esta luz se não deva considerar literatura. Esta é neste livro sinônimo de boas ou belas letras, conforme a vernácula noção clássica. Nem se me dá da pseudonovidade germânica que no vocábulo literatura compreende tudo o que se escreve num país, poesia lírica e economia política, romance e direito público, teatro e artigos de jornal e até o que se não escreve, discursos parlamentares, cantigas e histórias populares, enfim autores e obras de todo o gênero.

Não se me impõe o conceito com tal grau de certeza que eu me não atreva a opor-lhe a minha heresia, quero dizer a minha humilde opinião. Muitos dos escritores brasileiros, tanto do período colonial como do nacional, conquanto sem qualificações propriamente literárias, tiveram, todavia, uma influência qualquer em a nossa cultura, a fomentaram ou de algum modo a revelam. Bem mereceram, pois, da nossa literatura. Erro fora não os admitisse sequer como subsidiários, a história dessa literatura. Não existe literatura de que apenas há notícia nos repertórios bibliográficos ou quejandos livros de erudição e consulta. Uma literatura, e às modernas de após a imprensa me refiro, só existe pelas obras que vivem, pelo livro lido, de valor efetivo e permanente e não momentâneo e contingente.

A literatura brasileira (como aliás sua mãe, a portuguesa) é uma literatura de livros na máxima parte mortos, e sobretudo de nomes, nomes em penca, insignificantes, sem alguma relação positiva com as obras. Estas, raríssimas são, até entre os letrados, os que ainda as versam. Não pode haver maior argumento da sua desvalia. Respeitador do trabalho alheio, como todo o trabalhador honesto, mas sem confundir esse respeito com a condescendência camaradeira, estreme de animosidades pessoais ou de emulações profissionais, com o mínimo dos infalíveis preconceitos literários ou com a força de os dominar, desconfiado de sistemas e assertos categóricos, suficientemente instruído nas cousas literárias e uma visão própria, talvez demasiadamente pessoal, mas por isso mesmo interessante da vida, ninguém mais do que ele podia ter sido o crítico cuja falta lastimou como um dos maiores males da nossa literatura. Em compensação deixou-lhe um incomparável modelo numa obra de criação que ficará como o mais perfeito exemplar do nosso engenho nesse domínio.


A liberdade de imprensa - Em 26/03/2020


Apesar de não ter feito Direito, e mesmo como administrador me socorri de Rui Barbosa em busca de inspiração para a construção de alguma luz jurídica. O grande brasileiro era o luzeiro guia de nossas vidas e para ele me voltava sempre que algum direito estava colocado diante de perigo iminente. De quantos ensinamentos foram bebidos nas páginas imortais do notável tribuno e jurista, nos prélios estudantis e nas lutas pelas liberdades cívicas sempre ressumavam conceitos a respeito da liberdade de imprensa, a "rainha das liberdades", segundo Thomaz Jefferson, os olhos da nação, por intermédio dos quais ela fica sabendo o que se passa em seu redor, devassa aquilo que lhe ocultam, expõe ao pelourinho do julgamento popular os corruptos e corruptores.

De todas as liberdades, não há nenhuma mais conspícua e mais necessária. Se tais conceitos e definições ganharam foros de verdades definitivas, não menos verdadeiro é que a liberdade de imprensa no mundo vem sofrendo a agressão de aprendizes de tiranos, a pressão dos endinheirados e a intolerância dos liberticidas. Abatem-se sobre ela as mais variadas tentativas de garroteamento, desde a força bruta até os blandiciosos acenos da pecúnia com os quais governos fracos e incompetentes tentam embair a opinião pública.

Se as pressões econômicas e financeiras são desfiguradoras do verdadeiro papel da imprensa livre, não menos verdade é que o engajamento político-ideológico da mídia constitui, nos dias de hoje, espécie de câncer capaz de fragilizá-la até a morte. Nesses estamentos radicais concentra-se o grande perigo a ameaçá-la. Tanto à esquerda quanto à direita montam acampamento os verdadeiros inimigos da verdadeira liberdade de imprensa. Ambos se alimentam de preconceitos, nada mais nada menos de velhos ranços autoritários. Por paradoxal que possa parecer, outorgam-se a condição de defensores da liberdade para poder mais facilmente esmagá-la. Não faz parte do cardápio dos tiranetes, quando no exercício do poder, permitir excesso de liberdade de imprensa, salvo quando ela se transforma em turibularia para o cantochão das louvaminhas estereotipadas.

O nosso atual Presidente da República, é um dos que assume o autoritarismo político, culpando sempre a imprensa pelos desmandos e até pelo coronavirus. É o mesmo padrão de prosélitos de José Saramago, para quem "a democracia é uma santa coberta de chagas, cheira mal e, ainda por cima, é surda. E mente quantos dentes tem na boca".

Quando verdadeiros democratas, entendidos aqueles por convicção e formação, não por ocasião ou oportunismo político, são atingidos por verdades no exercício da verdadeira liberdade de imprensa, sua reação é assinalada pela tolerância e a crença na superioridade da verdade. A democracia, que, no conceito de Saramago, "cheira mal", foi o remédio simples e nobre que restaurou a dignidade da liberdade que representa todas as outras.

A triste constatação de que esse modo autoritário de governar vai, aos poucos, transformando o país numa republiqueta em que valores que deveriam ser tratados como pilares da democracia - a liberdade de imprensa por exemplo - estão sujeitos à variação de humor do mandatário, numa clara submissão do conceito de nação - tantas vezes evocado pelos poucos que tentaram defender o governo -à figura do governante.


Importância da leitura - Em 23/01/2020

Poucos brasileiros entendem o que leem. Não passam de 25% segundo pesquisa recente do Ibope. Vale dizer que a maioria da população se mantém nos limites de uma deficiência instrumental que torna sombrio o prognóstico quanto ao futuro da nação.  A leitura é um dos últimos recantos da liberdade intelectual.

Quem lê cria tanto ou mais que o autor. Com a imaginação solta, o leitor elabora mentalmente os cenários, compõe o perfil dos personagens, interpreta diálogos, identifica afinidades pessoais e vive, a seu modo, o prazer e a infinitude das emoções potencialmente contidas no texto. Quem lê não recebe imagens prontas, coloridas, acabadas. Tem de construí-las pelo processo do entendimento e interpretação.

O leitor nunca é passivo. Exercita, o tempo todo, os mecanismos psicodinâmicos que fundamentam, estruturam e aperfeiçoam a consciência. Por isso, desenvolve a criatividade, refina a percepção, aprimora o senso crítico e fica imune às manipulações que a comunicação pela imagem veicula como ingredientes de dominação.

A leitura é problematizadora, induz a reflexão, suscita hipóteses, faz pensar. Já a comunicação pela imagem, ao ser utilizada como ferramenta de controle da opinião pública, é a negação do pensamento. Não passa de show visual cheio de efeitos especiais que despertam a sensação do fantástico, do extraordinário, do instantâneo e promovem a preguiça mental do expectador por meio do deslumbramento programado. E o deslumbrado não pensa, admira. Não critica, assimila. Não forma sua opinião, repete a que recebe. Não reage, absorve. Não cria, consome. Não resiste, deixa-se aculturar. Não se afirma, submete-se.

Não por acaso, as sociedades menos desenvolvidas e mais dominadas são justamente as que menos leem. São aquelas que admitem o analfabetismo com naturalidade, se é que suas elites não o perpetuam deliberadamente. Aliás, um dos indicadores de desenvolvimento usados na atualidade é o número de televisores difundidos pelo país. Não é o número de livros publicados ou lidos pelo cidadão.

Os grupos dominantes sabem muito bem que a palavra escrita é incontrolável e, portanto, libertadora, enquanto a imagem pode ser cientificamente ''editada'' para inibir a liberdade de pensamento. Nesse sentido, a palavra pertence à sintaxe da revolução, enquanto a imagem é a fonte da ilusão conservadora. A Santa Inquisição não queimava apenas as ''bruxas'' e os hereges. Incinerava montanhas de livros em praça pública para que não fossem lidos.

Da mesma forma, em nosso país, agentes dos governos militares invadiam casas de ''subversivos'', apreendiam e destruíam livros cujos títulos e autores integravam a lista dos proscritos do regime. Os jornais escritos foram duramente censurados, quando não empastelados. Em vez de criarem escolas para alfabetização e estímulo à leitura, optaram pela rede de televisão concebida como monopólio destinado a subjugar o povo, impondo-lhe novos padrões de consumo e dependência externa.

Nos primeiros momentos houve necessidade de recurso às tropas para sufocar a resistência das gerações ainda formadas pela leitura. Mas, com o passar dos anos, a estratégia de controle pela mídia eletrônica produziu os resultados projetados. As gerações educadas pelos shows domingueiros e pela Xuxa de todas as manhãs foram se distanciando do hábito de ler e se desinteressando da palavra, do pensamento crítico, do vernáculo.

A invasão cultural não tardou a nos americanizar, transformando-nos em consumidores da Disney, da violência enlatada, ou dos Big-Macs que já têm o sabor dos novos tempos. A comunicação pela imagem eletrônica é a tropa de ocupação dos tempos modernos. Sua eficiência é indiscutível. O império mais violento da história da humanidade é mantido e ampliado por meio das imagens cuidadosamente montadas que nos chegam via satélite. O último recanto da liberdade intelectual vai sendo assim tomado de assalto pela ditadura eletrônica.

O pensamento humano tornou-se prisioneiro de telas e cabos. Contudo, nos piores momentos de repressão, nunca se deixou de escrever e ler. Ainda que clandestinamente. E foi, quase sempre, na clandestinidade que se produziram os textos e leituras que transformaram a história do homem. O escritor e o leitor dos dias atuais não são espécies em extinção, mas militantes da resistência libertária empurrados para a clandestinidade. Vivem nas catacumbas do atual império, mantendo, com a palavra escrita e a leitura, a réstia de luz transformadora que emana do ato de pensar para iluminar os rumos do futuro

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