Olhar Crítico

Divagações - Em 12/12/2018

Caros leitores, novamente me pego escrevendo divagações. É fácil escrever sobre o que acontece no dia a dia, mormente quando o nosso Estado e o Brasil mudam de governantes e a perspectiva é grande, mas frustrante também. Mas a vida é tão curta - dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe - que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará? Essa ficará. Há pouco o que fazer num palco de enunciados apócrifos. É hora de levantar os braços e pedir clemência. Talvez reste apenas a prece da súplica. Em silêncio absoluto, com a vela acesa, chorando pingos de parafina, flambando as poucas esperanças que sobram, peço paz para os homens de boa-vontade. Não encontro os campos de girassóis. Que direção tomar? Exaurido da procura, refugio-me no claustro, lendo, escutando música erudita, meditando sobre as razões que me tornam cada vez mais frágil, cada vez mais impaciente, cada vez mais vulnerável... Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa. Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor. Acabo sempre em fuga, aceitando a condição de monge. E regalo-me com a escolha. As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu-lugar. Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.


Tiros e sussurros - Em 05/12/2018

Não há mais sono no Brasil. As noites e os dias são longos. Em cada estado, em cada cidade, cada rua, cada casa, a respiração calma do sono foi cortada, como se noite de estio pesada e sufocante incendiasse a atmosfera e confundisse os sentidos. As pessoas, aqui e ali, que outrora navegavam suavemente no barco escuro do sono, ouvem agora o caminhar dos relógios e sentem dentro de si o verme da inquietação e os corações machucados. Uma humanidade inteira se consome na febre, noite e dia, em perene vigília através dos sentidos excitados de milhões.

O destino penetra invisível por janelas e portas, e afugenta o sono e o esquecimento de cada leito. São tempos perigosos esses que vivemos, com cada um espreitando a distância longe de si. Há o temor do desemprego, das balas perdidas, da bandidagem negociando com o governo, com a insegurança afugentando as multidões solitárias que povoam as ruas em busca de trabalho. A tibieza, a fraqueza com que o governo enfrenta a bandidagem mostram que o país vive uma guerra civil, que Brasília não reconhece, por motivos políticos.

Não há emprego, as pessoas se temem; não há perspectivas do amanhã nesses dramas sociais que aterrorizam trabalhadores, empresários e a polícia. É assim em São Paulo, Rio, Recife, Belo Horizonte e Manaus, onde viver e trabalhar já foram atos mais generosos. Não podemos perdoar essas ofensas.
A guerra civil, que encontra especialistas para explicar por que a bandidagem está irritada, faz vítimas que a imprensa internacional mostra, sem piedade com este país infeliz, povoado por desempregados, congressistas corruptos, governo fraco e um presidente que não sabe o que diz.

Nessa transformação da vida, todos estamos atrelados aos acontecimentos, ninguém permanece frio diante do terror da violência que se espalha, forçando a conclusão de que o Iraque e o Haiti não são muito diferentes da realidade que vivemos, uma espécie de febre do mundo. O que se pretende é transformar o drama em tema eleitoreiro.

Esses fatos não são uma visita aos despreocupados, à comunidade agonizante de esperanças de nosso país. Pela visão crítica dos jornalistas desfilam homens e mulheres, símbolos vigorosos da vida a temer pelos filhos que se atrasam nas noites violentas, com expectativas de impressionante agudeza e gravidade. São dias perigosos que se somam a noites aterrorizantes.

No discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1972, Alexander Soljenitsin disse que a violência não existe e não pode existir por si só. Ela está invariavelmente entrelaçada com a mentira. E assim ocorre.


Desarmar e não armar - Em 28/11/2018

Dentre as medidas que o futuro Presidente Bolsonaro, prevê em colocar em prática, é a tolerância as armas de fogo para que o brasileiro possa comprar e ter, Sou radicalmente contra e essa é a minha opinião, não me venham depois nos comentários, discordar me acusando, repito essa é a minha opinião. Não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita. Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco. Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal-Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu. Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso. Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo. É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, "desarmamento seja o novo nome da paz" como disse o desembargador Paulo Gadelha no Diário em 9 de outubro. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro. Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados. O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos. Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução. Otávio Paz avalia: "O ocaso de nossa imagem do amor seria uma catástrofe maior que a derrubada de nossos sistemas econômicos e políticos: seria o fim de nossa civilização". O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Restrepo diz que isso deve ser adquirido "no terreno amoroso, do produtivo e do político, arrebatando territórios em que dominam há séculos os valores da vingança, da sujeição e da conquista". O amor e a sexualidade devem nos desarmar. Por isso compartilharemos as alegrias e a saúde emocional que uma boa vivência da sexualidade possibilita ao cidadão. As reflexões que fizermos poderão facilitar desarmamentos. Assim, nossa mão poderá estender-se para o afago e a solidariedade não para a violência. O amor e a paz não serão possíveis se estivermos blindados afetivamente.


Deformação administrativa - Em 21/11/2018

Começa um novo governo, estadual e Federal, há uma dificuldade de preenchimento de cargos públicos pela meritocracia, não há continuidade como ocorre em países desenvolvidos onde a máquina pública é permanente e imune à alternância no poder.

No Governo Federal o Presidente tem que prover cerca de 22 mil cargos na administração federal. A inexistência de limitações precisas entre os cargos de natureza política e os de natureza técnica é uma porta aberta para o clientelismo em nosso país. São tantos os cargos comissionados que a administração pública, em todos os seus níveis, acaba sendo contaminada por um elevado grau de politização, com prejuízo do mérito e da eficiência.

O poder de nomear e de exonerar assegura aos governantes e aos ocupantes dos postos mais elevados uma arma imbatível no jogo político. Tal é a liberalidade do comando político no provimento de cargos comissionados que a profissionalização acaba sendo desestimulada.

O mais grave, porém, é a utilização deste poder como instrumento de barganha política. Não são poucos os governantes que se valem da estratégia das nomeações para conquistar apoio político nos parlamentos, fazendo dos cargos públicos uma moeda de troca. É uma prática corruptora e danosa para o contribuinte, que acaba tendo que sustentar o nepotismo, a ineficiência e o apadrinhamento de políticos muitas vezes rejeitados pelo voto.

Ora, é evidente que o cargo público não é propriedade de quem dele dispõe para a livre nomeação. Já está mais do que na hora, de o Brasil substituir o sistema de apadrinhamento pelo sistema do mérito, de modo a valorizar a profissionalização e os planos de carreira. A redução de espaço para nomeações políticas certamente contribuirá para o aumento da eficácia administrativa, além de reduzir a margem do clientelismo e da corrupção.

O empreguismo tolerado na administração federal multiplica-se pelos demais estamentos da federação, incluindo todos os poderes, tornando a máquina burocrática permeável à vontade política dos governantes de plantão. Trata-se de uma deformação histórica que precisa ser corrigida pelo incentivo à carreira e à profissionalização, sem que os servidores profissionais fiquem isentos do necessário controle da sociedade.

Cumpre apontar um paradoxo que persiste à evidência: como podem ideias e conceitos colocados à prova da realidade permanecer em voga, não obstante tenham apresentado resultados práticos muito aquém daqueles propugnados pelos seus defensores?

Refiro-me a políticas de planejamento central, controles burocráticos e regulamentação estatal, tendo sempre como pano de fundo a demagógica supremacia do interesse do burocrata (dito coletivo) sobre a escolha dos indivíduos. Tem-se a impressão de que uma cortina de fumaça, levantada por ideologias plasmadas pelo credo quase religioso e, portanto, à prova de qualquer crítica, continua a fazer com que as pessoas não queiram enxergar, seja por fé cega, seja por interesse próprio. Com isso, acabam por virar as costas à realidade, comprovando a antiga sentença de que as convicções são mais inimigas da verdade que as mentiras.


Jazigos - Em 14/11/2018

Passado do Dia de Finados, ouso comentar alguns escritos em túmulos, mesmo que não vá ao cemitério. Alguns diálogos, entre médicos e pacientes, acabaram famosos. Como aquele, registrado por Manuel Bandeira (Pneumotórax), em que um doente com "febre, hemoptíase, dispnéia e suores noturnos" pergunta: "Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?", ouvindo, como resposta: "Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."

Outro desses diálogos aconteceu agora, com o querido amigo Joaquim. Francamente, Joaquim não é modelo de vida saudável. Até criou uma dissidência nos Alcoólicos Anônimos - em que ele, e seu grupo, se consideram liberados para consumir Bacardi com Coca-Cola, em dias de festas. O problema é que, para Joaquim, todo dia é uma festa. E assim viveu a vida até quando sua santa mulher, Leticia, conseguiu lhe levar a um médico. Com os exames na mão. Finda a leitura do mapa de seus lipídios e colesteróis (muitos), disse o doutor: "Posso lhe fazer uma pergunta?" Ao que Joaquim, educado como sempre, respondeu: "Estou aqui para isso." E o médico: "Dr. Joaquim, o senhor por acaso já comprou um jazigo no cemitério?"

Esse problema não tenho. Temos o hábito em reuniões de confraria, perguntarmos perante todos quem irá primeiro, e aí surgem a apostas, eu digo sempre que irei a missa de sétimo dia de alguns. Não vou a cemitério, uma vez fui ao enterro de minha tia e passei mal, acho que é porque está longe o dia em que irei ser enterrado. Saudade grande dos que foram como meu pai e alguns amigos, mas já ouvi algumas inscrições que levam para os túmulos, e acabo anotando porque tem algumas curiosas. Dentre outras: "Coragem, adversidade, honradez nos compromissos, aversão às maledicências. Foram os ensinamentos que o teu exemplo ofereceu aos filhos, que por ti foram ilimitadamente amados." "A saudade que dela sentimos seja suavizada pela esperança de um dia nos encontrarmos no céu." "As virtudes e os exemplos dos que aqui estão servem de consolo aos que choram a sua ausência." "Que os nossos descendentes se ajoelhem sempre neste túmulo que guarda os despojos de uma vida que foi a nossa vida." "Tudo que fiz foi em nome da liberdade." "Aqui também mora o amor." "Viver no coração dos que ficam, não é partir." "Deus nos deu. Deus a tomou. Bendito seja o nome do senhor." "Tombe dos teus lábios sob o que passou, cantando-te a beleza efêmera e o misterioso gênio." "Os preceitos acalmei-os as vãs, grandezas renunciei-as, a piedade foi o meu punhal." "Fui altivo, fui bom e fui modesto." Mas nenhuma inscrição intrigou tanto quanto uma do início do século passado, próxima ao jazigo de meu pai, que diz: "Aqui descansa Euphrosina ..., assassinada aos 12 anos. Lembrança do Foro e admiradores." Esse "Foro", provavelmente, deva a ser o tabelião seu pai. "Senhorita" também estranha, na lousa fria. Talvez se escreveu assim porque, apesar de sua tenra idade, já teria no corpo os primeiros sinais de mulher. Tanto que tinha "admiradores", e não amigos. Mas não é comum assassinar pessoas tão jovens, com só 12 anos. Vingança ou paixão, imagino. Dinheiro ou algum amor perdido, apesar de tão jovem. Morrendo, a pobre criança, sem sequer conhecer as alegrias, as dores e os mistérios do amor e da vida. Descanse em paz.

P.S. Se algum leitor amigo tiver lembrança de antepassado com esse nome tão pouco comum - Euphrosina, por favor dê notícias



Manaus da mentira - Em 07/11/2018

Consta que numa das tantas lendas que correm sobre o Diabo, lembrada pelo padre Vieira, aquele, saindo dos infernos, teria desabado por sobre a Europa. Partiu-se, porém, em pedaços que se espalharam por todos os lados. A cabeça, chifre e tudo, caiu na Espanha, daí os espanhóis terem os miolos quentes, os seus pés caprinos foram parar na França, entendendo-se assim lá gostarem de dançar e de se agitar, enquanto que o ventre satânico foi dar na Alemanha, o que aclarava o porquê da gula daquele povo, sempre embeiçado atrás das partes do porco, cozidas ou assadas, tanto faz. E a língua do demo, indagou o padre Vieira, onde teria ela ido parar? Supôs que em Portugal. Por isso, da Vila do Castelo à Vilamoura, aquela mania do falatório, da maledicência, do fuxico e da intriga. Tão prodigiosa era a fartura de palavras ruins em português que um tal de Drexelio, com elas, preparou um Abecedário dos Vícios da Língua.

E o que encontraríamos nele se consultássemos, por exemplo, o verbete dedicado à letra "M", o M de Manaus? Ora, respondeu o padre categórico: "M de murmurar, M de motejar, M de maldizer, M de malsinar, M de mexerico" e, sobretudo, concluiu o pregador, "M de mentir". Bastou estar um pouco mais de um ano naquela parte do Novo Mundo, saído um tanto desterrado de Portugal, para que o padre Vieira entendesse que a costa de Manaus era um refúgio da mentira.

Em 1652, seus inimigos, afastando-o das proximidades do trono português, conseguiram empurrá-lo para dentro de uma nau despachando-o para o outro lado do Atlântico, para os quadrantes da vila de São José da Barra. O Estado do Amazonas daqueles tempos, a parte do resto do Brasil desde 1621, diga-se, era a Sibéria do Reino Lusitano. Um litoral imenso, pouco desbravado, que se estendia do Ceará à bocarra do Rio Amazonas, cheio de areia, mato fechado e desolação. Pouquíssima gente branca o habitava, mas muito nativo cor de cobre andava por aqueles sertões.

Vieira desembarcou num caldeirão. O lugar era um vespeiro no qual os jesuítas enfrentavam diariamente os colonos. O padre Vieira logo constatou que os chamados "forasteiros", isto é, os brancos que vinham da metrópole tentar a vida por aqueles lados não queriam saber de converter ao cristianismo a boa alma de ninguém. Muito menos a dos tapuias. Que ficassem pagãos. Queriam, isso sim, era o corpo dos índios. Estando eles, os reinóis que governavam a província, bem longe das vistas do rei, tudo sujeitavam e em tudo botavam a mão, pois não faltavam ofícios onde se podia furtar.

A hora do padre - furioso, magoado com as rixas constantes - de acertar-se com aquela gente deu-se na Quinta Dominga da Quaresma, em abril do ano de 1654, momento quando, no final da missa, o grande homem, subindo ao púlpito, reservou-lhes um sermão purgativo. Manaus, para ele, tornara-se "o reino da mentira", com corte estabelecida na própria cidade. Como no fundo dos mares, ali não havia solidariedade nenhuma. Tal como entre os crustáceos e os peixes, imperava o canibalismo. Lá os olhos mentiam de dia, quanto mais à noite.

Mas por que era assim? Vieira disse que era o clima. A inconstância de tudo era tamanha, que o litoral de Manaus era o único no mundo inteiro onde até o sol, tão certeiro em outras latitudes, enganava os pilotos. Olhando o astrolábio, ora ele indicava um grau, ora dois, o resultado era que muitos barcos encalhavam por lá. O que o fez concluir que "até o céu mentia em Manaus!" Muito sol, além de quebrar os laços de solidariedade, gerava preguiça e o ócio. Este, ao prostrar as gentes, excitava-lhes a imaginação, mãe da mentira. Entre eles, mesmo que pelas duas orelhas escutassem uma verdade, perdida está no caracol do ouvido, terminavam expelindo uma mentira pela boca.

Tudo bem que em outras partes também se mentia. Lisboa, por exemplo. Mas ela era capital de um império, podendo exportar suas mentiras para outros cantos do mundo, para Veneza ou para Calicute. Manaus, por ser pequenina, não. Naquela vila, a mentira não tendo para onde ir alimentava ainda mais outras inverdades. Lá a mentira dançava de roda. Nesta campanha eleitoral o que mais vimos foram mentiras, promessas vãs e improváveis. Caros leitores isso é uma lenda na verdade nem sei se Padre Vieira passou por essas terras, mas que vale uma reflexão vale.


Fadiga política - em 31/10/2018

Teve fim nesta capital, no último domingo dia 28 de outubro, vitimado por falência múltipla dos órgãos, após prolongada agonia e pertinaz resistência, a agremiação política conhecida pelo nome de amazonismo. Quem derrotou Amazonino não foi seu adversário, foi o próprio Amazonino que na busca pelo poder tentou mais uma vez ser governador.

Poderia ter saído, após colocar o Estado em condições de governabilidade como prometeu nesses quatorze meses. Alguns incautos e muitos hipócritas divulgam a versão de que o amazonismo não morreu; pelo contrário, saiu mais forte depois da derrota. De fato, alguns analistas apressados e superficiais, impressionados com os 40,41% de votos do PDT no segundo turno, estão vendendo a ideia de que Amazonino entrou perdendo e saiu ganhando na disputa estadual, e que tem futuro garantido para concorrer em 2020, para Prefeito.

Semelhante visão das coisas é muito parada. Projeta no futuro a situação presente, como se o cenário político fosse estático. Os incautos e os hipócritas não querem se dar conta de que, para começo de conversa, o desempenho vitorioso do PSL em âmbito nacional deve provocar alterações marcantes no quadro político do País. E isso não porque o PSL possa crescer em ritmo continuado e progressivo, vindo a dominar o cenário nacional nos próximos anos. Esta doce ilusão que embala os sonhos de um Bolsonaro talvez não se concretize. Em compensação, uma coisa é certa - o sucesso do PSL em tão larga escala deve produzir reações na vida política e no seio da sociedade, atuando como um choque salutar que desperte o governo e nossa própria coletividade do marasmo e do imobilismo em que estamos mergulhados até o pescoço, incluindo aí os Estados como o nosso por exemplo.

O impacto eleitoral decadente do PT assusta (assusta até os próprios petistas) e o susto veio em hora certa, para gerar reações que possam neutralizar os ganhos da oposição e reequilibrar o jogo de forças até 2020. Amazonino Mendes ocupará o posto que já tem reservado ao lado dos bons companheiros Cabral e Garotinho, representantes de uma ideologia anacrônica e de uma prática política caduca e pouco idônea.

Amazonino Mendes foi um ganhador, que até em seu derradeiro suspiro encontra forças para agradecer a boa fé doa amazonenses. O certo é que os que buscam o poder são extremamente vaidosos. Para alcançarem o poder, valem-se de qualquer método: corrompem e são corrompidos, ameaçam, criam intrigas, unem-se a antigos desafetos e açoitam companheiros que ousem contrariar os seus interesses. Não possuem meias-medidas e perto deles, Maquiavel nem era tão maquiavélico assim. São os gananciosos pelo poder. Sua personalidade ilustra bem a tese de Octavio Paz que vale para toda a América Latina: "Movimentamo-nos dentro da mentira com naturalidade." O maior inimigo de Amazonino não é o PT, nem o PSDB, nem os homens de bem deste Estado. O maior inimigo dele é o tempo. Como é sabido, os aviões têm idade-limite para voar pelo desgaste natural dos metais de que se compõe sua fuselagem. É o que se chama de fadiga dos metais. Tanto tempo na vida pública, que chega a ter inapetência, e carência de aptidão nas relações da administração do quotidiano da vida política, que não é exagero afirmar que também ele está a padecer do mesmo mal.


Deixem de pavulagem - Em 24/10/2018

Havia razões, subjetivas e objetivas, para eu não tratar deste tema. Não é do meu recorte e da minha formação intelectual trabalhar mentalmente roçando os fatos (já disse o poeta francês, "os fatos, ah, os fatos me aborrecem") que não possuam uma escala de temporalidade mais alongada. Sinto-me melhor trabalhando com tendências mais ou menos já assentadas no tempo e com possibilidades de realizar comparatividades com outras sociedades e outras culturas.

Por outro lado, objetivamente, esta crise política atual já vai completando muito tempo de intensíssima cobertura por todas as formas de Imprensa e em todos os segmentos dos meios de comunicação de massa. Por intensidade e por extensividade, a esta altura, as várias audiências e os vários públicos já estão meio como que saturados de tanta cobertura informativa e analítica e de tanta exposição ao tema. Sei que tem de ser assim, inclusive por que para cada dito há um desmentido, e o noticiário e as análises têm de acompanhar o ritmo dos acontecimentos.

Estava tentando não desperdiçar este meu espaço aqui com este tema, e cuidando daquilo de que me sinto mais apropriado para escrever. Além do mais, nunca possuí vocação para ser o cidadão indignado, aquele de carteirinha, ou, mesmo, menos que tal. Hoje, no entanto, rendo-me a um fato de momento, que é a necessidade historicamente crucial de se falar com clareza e seriedade em vez de ficar declarando vagas miudezas, fragmentos de sabão.

Faz-se necessário um pronunciamento - no sentido brasileiro do termo, e não na terrível acepção hispânica. Candidato: como diz um brincalhão conhecido meu, "ou é, ou deixa de é". Ou, afirmando de modo erudito e acadêmico, citando um dos mais importantes sociólogos em atividade no mundo, o novaiorquino Immanuel Wallerstein: "O mundo moderno tem sido, ao longo de maior parte da sua história, prisioneiro da doutrina aristotélica do terceiro excluído. Uma coisa é A ou é não-A. Não existe uma terceira possibilidade."

Intelectualmente e existencialmente eu fujo deste aristotelismo extremamente limitador, tendo já de muito tempo absorvido a ideia de que as coisas e as pessoas podem ser duas coisas diferentes ao mesmo tempo, ou pelo menos podem ser medidas e avaliadas de duas formas diferentes. Quem já leu Marcel Proust entenderá muito bem o que eu estou dizendo. Mas neste momento, angustiante até, de uma crise brasileira, tem de se impor aos dois candidatos a presidência a doutrina do terceiro excluído. Ocorreram determinados fatos, ou não ocorreram; se existiram traidores, dê os seus nomes, desqualifique-os eticamente e de maneira rápida e contundente, e mande-os para aquele lugar.

Um candidato, se é realmente honesto e não tem rabo de palha, desvencilha-se de um escroque com duas ou três palavras. A coisa toda é muito chocante para comportar nuances de tratamento. A sucessão de ditos e de desmentidos já se tornou insuportável para a (in)compreensão da população brasileira. Lembrem-se candidatos de um pequeno poema da Gertrude Stein que diz: "Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa." E pronto. O resto não é silêncio (muito menos dos intelectuais).

Então candidatos deixem de pavulagem, domingo é a eleição e quem tiver mais votos ganhará naturalmente.


As interpretações do voto  - Em 17/10/2018

O objetivo deste artigo é o de apresentar, brevemente, duas interpretações sobre o papel do voto numa democracia. O voto não equivale à democracia. Somente quando o voto facilita as escolhas dos indivíduos é democrático. O voto é uma condição necessária para a democracia, mas não é suficiente. Para torná-la equivalente, a votação deve estar associada a outras instituições, tais como partidos políticos, liberdade de imprensa e expressão e a justiça eleitoral, as quais organizarão a votação em escolhas sociais.

Na visão liberal do voto (madisoniana), a sua função é simplesmente a de controlar os executivos que estão no poder, e nada mais do que isto. Para James Madison, o perigo da liberdade está em que os burocratas governamentais possam reduzir a liberdade dos cidadãos e reduzir a participação dos agentes. Em ambos os casos, o remédio liberal é a próxima eleição. Isto é tudo o que é requerido para proteger a liberdade: uma eleição e um mandato limitado.

A troca de governantes é, na visão liberal, o único instrumento disponível para proteger a liberdade dos indivíduos. Na visão liberal, o voto é então um método de controlar os governantes, sujeitando-os a eleições periódicas com um mandato fixo. Devemos destacar, também, que na visão liberal não é assumido que o eleitorado está certo. Este é um pressuposto que caracteriza o populismo. O liberal não assume a competência popular, mas somente que o eleitorado pode mudar os governantes se os indivíduos não estão satisfeitos ou esperam um melhor desempenho.

Para os liberais, o voto gera liberdade devido ao fato de que restringe os governantes pela eleição e pelo mandato limitado e não há necessidade de se vangloriar o produto do governo como um bem precioso para a liberdade. Já para os populistas (rousseaunianos), a liberdade e, portanto, o autocontrole através da participação é obtidos pela incorporação da "vontade das pessoas" nas ações do governante. Para estes, a liberdade individual é a participação dos cidadãos no Estado. Para os populistas, a participação na elaboração das regras é uma condição necessária para a liberdade. Para eles, a votação gera liberdade pela participação. O produto do governo deve ser precioso, pois este produto é a liberdade.

Na interpretação populista do voto, a opinião da maioria deve ser correta e deve ser respeitada porque a vontade das pessoas é a liberdade das pessoas. Já para o liberal, não há esta identificação mágica. O resultado de uma votação é somente uma decisão e não tem nenhum caráter moral especial.

O ponto importante a destacar nestas duas concepções é que os populistas podem justificar moralmente a tirania, supondo que incorporaram a vontade popular, e podem justificar sob este resultado um controle social, tal como os ditadores socialistas.

Contudo, acreditamos que os valores liberais com relação ao voto numa democracia, como defendidos por Madison, são os que garantam a liberdade para os indivíduos, para que eles próprios busquem sua felicidade e não estejam sujeitos à "vontade do povo" e nem seja imposto um "controle social" sobre os meios para buscá-la.


Cachaça ou candidato - Em 10/10/2018

Como público alvo de propagandas, sou osso duro de roer. Se ligo o piloto da analista de discurso, detecto argumentos mal-ajambrados, déficit de informação, excesso de apelos, humor desastrado ou empulhações acolchoadas. Quando o desligo, desligo-me e tampouco reajo como a consumidor dos sonhos dos anunciantes. Diante das mais deslumbrantes ou abiloladas peças publicitárias, meu Q.I. diminui.

Na agitação pictórica e sonora dos anúncios de TV, não capto o que a história tem a ver com o produto. Na voz alarmante e veloz dos comerciais de rádio, perco o essencial dos verbos "vá, compre, ligue, peça". Ir para onde? Pedir o quê? Nos outdoors, noto os despautérios. Poluem a paisagem e são perigosos para os motoristas. Levo nota zero em recall do produto. Só recordo a imagem da beleza feminina, com seu torso bronzeado e olhar de mormaço. O que é mesmo que a boazuda queria que eu comprasse?

Em um shopping-center, encontrei numerosas faixas e tabuletas onde se lia "biglio". Perguntei a um vendedor: que produto é este, anunciado em todas as lojas? Ele me olhou como se respondesse a um E.T.: "É big liq - grande liquidação". O rabinho do Q, estilizado e sunítico, era ilegível. Genialidade de arte gráfica. Mesmo reconhecendo o termo inglês "big", não saberia dizer de que língua vinha a palavra "liq". Além de um glossário de publicites, preciso de um dicionário de lógica publicitária.

Com a propaganda política, meus neurônios dão um nó. Atrapalho-me com os apelos dos concorrentes no mercado eleitoral. Misturo os macetes marqueteiros - tudo igual. Sem maldade, interpreto mensagens pelo seu sentido obtuso, o mais temido pelos comunicadores, segundo tipologia de Roland Barthes. P.ex., minha vista decodifica aqueles panos hasteados nos postes com nomes de candidatos, como bandeiras a meio pau - soturnas em seu simbolismo de luto. Mas muito pior seria se, em vez de vários nomes, fossem bandeiras repetidas com a mesma esfígie de um ditador.

Ouvi no rádio um jingle rimando com "31". Lá vem besteira de "vote no melhor", pensei e desliguei. Somente na terceira escuta, percebi tratar-se de anúncio de empresa telefônica. Em tempo de eleição, fica difícil saber se os brados e berros de 21, 22, 23, 31, em carro de som, radio e TV são comunicação política ou telecomunicações. O mesmo com a "boa idéia" 51, que me confunde: será a caninha ou um candidato? Juram-me que não existe partido de número 51 nem 24. Mas anunciam uma nova aguardente 21. Como posso distinguir se designa o porre do político ou "a danada da cachaça"?

Apesar dos pesares, anúncios comerciais e políticos são transparentes em suas metas: todos querem nos induzir a aceitar o que oferecem. Mas minha análise de discurso silencia diante desta avaliação de um cidadão desempregado: "É muita potoca nessas propagândias (sic), seu Flávio.


Chegou a hora - Em 03/10/2018

Pronto meus caros leitores, chegou a hora, domingo vamos escolher o próximo mandatário do país, os novos governadores, senadores e deputados federais e estaduais, tirando os senadores e deputados federais e estaduais, podemos ter outra eleição em segundo turno. Somos pessoas em processo permanente de aprendizagem, o que quer dizer protagonistas de mudanças drásticas, de tempos em tempos. Mas mudar assusta também, porque denuncia inexoravelmente o novo, o qual, por ser desconhecido, dá muito medo. Por causa deste medo, muitas vezes nos encolhemos no velho, confortavelmente perigoso.

O velho é perigoso porque é ameaça de morte, é ausência de vida, é falta de tesão e de energia, mas é confortável na falsa serenidade que oferece. Gente não nasce sabendo como sobreviver. Precisa aprender as coisas mais simples, até como ter fome e sono, por incrível que pareça. E o que pensar de outras aprendizagens que são ainda mais complexas e mais exigentes, as quais não conseguimos fazer sem escola, tais como aprender a ler e a escrever, ou a ingressar nas maravilhas da estrutura multiplicativa dos números, quando da iniciação matemática, a qual faz uma falta grande para que a gente se sirva da articulação em rede que preside a maioria dos pensamentos. Pensar é indispensável para entender, porque às vezes somos felizes e às vezes não, e para nos ajudar a aumentar as chances de nos sentirmos bem.

Aprender é, portanto, mudar. Mas mudar tem dois momentos que se alternam, o das mudanças nas bases e o das mudanças em cima de bases assentadas. Há momentos em que mudar é colocar elementos para edificar sobre um alicerce posto. Há outros momentos em que mudar significa mexer nos próprios alicerces. Em educação, hoje, impõe-se o segundo momento, o de remexer nos próprios alicerces, para sobre eles conseguir apoiar novas estruturas. Este momento implica remexer nas ideias que animam a prática dos professores, porque, conforme tão bem assinalou Paulo Freire, não há prática sem teoria, isto é, não há ação sem ideia por detrás. E são as ideias que sustentam a prática escolar que demandam mudanças.

As ideias vigentes nesta área estão equivocadas e superadas. E de seu equívoco emana uma injustiça detestável - a não-aprendizagem pelos alunos nascidos em famílias pobres que frequentam nossas escolas públicas, quando eles todos podem aprender. Fazer esta mudança implica tanta coragem e tanto apoio popular como a mudança na ortodoxia monetarista que domina nosso modelo econômico. Que cada um de nós ajude a promover tal mudança, porque, se você não muda, o Brasil não muda. Estamos todos convocados a gritar presente.

Esta "festa da democracia", portanto, é ainda uma caricatura do que se espera de uma verdadeira democracia, aquela onde se possa realmente escolher entre fins substantivos, onde a eleição seja apenas o momento de escolher os nossos representantes, onde as ações de todos os poderes de governo sejam orientadas apenas pelo bem comum, e onde as pessoas possam fazer política sendo apenas elas mesmas.

Talvez isso seja só uma utopia (creio que sim), talvez a nossa infante democracia se justifique mesmo, apesar dos seus vícios, apenas pelo fato das alternativas a ela serem todas inconcebíveis, e talvez esta ambiguidade seja mesmo uma natureza indelével da democracia, ou talvez a gente até chegue lá; de qualquer forma, como dizia Paulo Freire, não se pode alcançar o outro lado da rua sem atravessá-la.


Golpe baixo - Em 26/09/2018

Faltando pouco mais de dez dias para a eleição, começam a surgir os golpes baixos contra candidatos que estão bem nas pesquisas, mas isso não é coisa nova. Desde a redemocratização, não houve eleição no Brasil sem que algum candidato tivesse patrocinado ou sofrido golpe baixo. A novela começou em 1985, na esteira da derrota da emenda Dante de Oliveira e do movimento Diretas Já. Mário Juruna, cacique dos xavantes em Mato Grosso e deputado federal pelo PDT, convocou a imprensa e, sob os olhos atônitos dos repórteres, desovou de uma pasta trinta milhões de cruzeiros. Seria dinheiro de suborno, segundo Juruna. Fora pago pelo candidato do PDS, Paulo Maluf, em troca de voto no colégio eleitoral.

Na eleição seguinte, em 1989, o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu o país e levou a candidatura presidencial do PT ao segundo turno. O adversário, Fernando Collor de Mello, exibiu no programa eleitoral gratuito o depoimento de Míriam Cordeiro, com quem Lula tivera uma filha. Míriam acusou Lula de ter lhe pedido para abortar. Nascida a criança - a menina Lurian -, a mãe disse que o petista não a reconheceu como filha legítima. Os dois casos guardam semelhanças indissociáveis. A candidatura presidencial de Maluf na eleição indireta de 1985 foi ferida de morte. Assim como a de Lula em 1989. Em ambos os casos, porém, o escândalo propriamente dito concentrou-se na esfera eleitoral. Não houve processo cível ou criminal de uma parte ou de outra. O jogo sujo aconteceu com naturalidade desconcertante.

As eleições seguintes mantiveram a mácula. Em 1994, o senador gaúcho José Paulo Bisol, então filiado ao PSB, foi linchado publicamente. Incluiu uma emenda no Orçamento da União beneficiando a cidade de Buritis, em Minas Gerais, onde tinha uma fazenda. Renunciou à vaga de vice na chapa de Lula. Processou sete empresas de comunicação por difamação. A Justiça deu-lhe ganho de causa em dois casos. Os outros estão em julgamento.

Quatro anos depois, o pleito foi marcado por um misterioso dossiê. O documento revelava a existência de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Caymann. A empresa administraria fundos ilegais pertencentes ao presidente Fernando Henrique Cardoso, aos ministros José Serra e Sérgio Motta e ao governador Mário Covas. Todos do PSDB. O dossiê revelou-se uma farsa. Hoje, é peça fundamental de um inquérito contra seus mentores.

O mar de lama, entretanto, já chegou. Agora recheado de grampos, desvio de dinheiro público, espionagem. É preciso limpar de vez a democracia brasileira. Tornar os governos mais transparentes. E impedir que, a cada troca de gestores públicos, a sociedade tenha que fazer sua escolha incomodada com o odor dos subterrâneos do poder. Mas ainda vão aparecer muitos golpes baixos, sejam verdadeiros ou não, vamos esperar pra ver.


Candidatos e programas - Em 19/09/2018

Tinha prometido não falar de política nem eleição até o final no segundo turno, mas vendo os programas dos candidatos ao governo do Amazonas, verifiquei que são ocas e sem conteúdo, e lembro que na conhecida peça de Pirandello, tratava-se de seis personagens à procura de um autor. No nosso caso, parece que se trata de seis candidatos à procura de um programa.

O que há até o momento em matéria de propostas não passa de afirmações vagas e genéricas, mais o reino da indefinição do que da determinação, mais o âmbito da inocência do que do compromisso. Por isso mesmo, têm sido vistas como equivalentes. Temos, por um lado, a continuidade sem continuísmo, por outro, a descontinuidade sem descontinuísmo.

Em outros termos, lá, continuidade com descontinuidade; aqui, descontinuidade com continuidade. Ou será o contrário? Em suma, tudo se assemelha a um giro ou a uma revolução de 360 graus. Com uma grande desvantagem para quem pretenda efetivamente mudar: se os discursos se confundem dessa maneira, se as palavras se misturam de todas as maneiras, por que apostar na mudança/continuidade do lado de cá, com toda a incerteza do imprevisível, se disponível a continuidade/mudança do lado de lá, com toda a segurança do previsível?

Nesse terreno fértil e propício, crescem naturalmente em importância as técnicas de marketing político. A indefinição ou a indeterminação das propostas faz com que se sobreponha a forma ao conteúdo, o pouco ao muito. Podem alguns pensar que permanece de qualquer maneira a possibilidade de uma vez alguém vitorioso, tirar ele da cartola a solução nunca sugerida ou expressa, embora sempre pensada. Além da ilusão, reflete atitude ou omissão muito conveniente para o establishment, já que qualquer política de mudanças consistentes e sérias exige apoio social manifesto, antes de tudo no próprio processo eleitoral.

Entretanto, como explicitar apoio se não se formulam efetivamente as propostas, como ouvir e responder se não se fala? Os mais otimistas podem observar que a carência de programas, o acento na imagem dos candidatos, a ênfase nas técnicas de marketing político, entre outras coisas, decorre da tradição de personalização da vida política nacional e da característica imperial de nosso presidencialismo. Mas esquecem que esse desprezo pelo eleitor e pelo cidadão resultante da falta de propostas claras e objetivas pode ter como resultado o desinteresse ou a desafeição para com a política, terminando por deslegitimar os partidos, de direita ou de esquerda, e o próprio sistema político.

Eis aí refletido o desencanto de cidadãos cujo voto é a mais legítima expressão da soberania popular. Não é difícil apontar a causa de tal desapontamento. Ocorre que os aspirantes ao poder deveriam pautar sua conduta pela maturidade atingida pela sociedade brasileira e pelo vigor com que se resguarda nesta nação o Estado de direito tão arduamente conquistado. Em suma, deveriam desde já travar um debate elevado sobre os grandes desafios econômicos e sociais do Brasil e as suas propostas para superá-los.

Deveriam expor com lealdade seus programas e suas metas, os projetos que acalentam para que este se transforme em um país mais próspero e mais justo.

Deveriam defender o ideário de seus partidos e a filosofia de ação que os norteia.

Deveriam, assim, permitir que a escolha dos votantes não se desse em função de dossiês, de jogadas de marketing, de brilhaturas efêmeras, mas em razão do conhecimento adquirido dos disputantes e de sua identificação com o que pregam. Que então os candidatos lancem suas cartas na mesa que o eleitor paga para ver!


O velório do sorriso - Em 12/09/2018

Li num folheto da Associação Britânica de Saúde Mental: O verdadeiro inimigo da preocupação é o riso. As pessoas que não sabem rir de si mesmas, usualmente levam-se muito a sério, ou então sofrem de uma inadaptabilidade por recusar admitir que estão sendo postas em ridículo ou estão em erro. Um sentido de humor adequado é a maior ajuda para enfrentar dificuldades ou preocupações, que, quando excessivas ou desproporcionais, revelam-se como sintomas comuns de pessoas neuróticas.

O sorriso faz dupla com a linguagem como formas fundamentais da comunicação humana, o que nos faz lembrar o escritor e político inglês Joseph Addison (1672/1719): O homem é diferente de todos os outros seres, porque é o único que possui a faculdade do sorriso. Mas o sorriso só tem valor quando encerra plena espontaneidade, capaz de revelar a alegria embutida na alma. Para sorrir, o homem precisa estar na condição de sensibilizado.

Ultimamente, o brasileiro - com as exceções costumeiras -, se está sorrindo, o está fazendo sem a espontaneidade que lhe é peculiar. Tantas são as decepções, que o amarelo virou mesmo a cor oficial do sorriso do nosso povo, que, de humor negro, anda mais que cheio. Sua credulidade no que deveria lhe cair positivo está à deriva, no meio de uma tempestade de mentiras, de falsos testemunhos e afirmações, de escândalos, notícias de corrupção, medidas impensadas e de impunidades materializadas.

O primeiro sorriso do homem ocorre geralmente aos três meses de vida, um ato intencional diante de um rosto humano. Afora as crianças, na sua fase mais tenra, o brasileiro não vem tendo motivos para sorrir com espontaneidade, pois está sendo violentado no mais sagrado de seus direitos, o de saber, com a devida clareza, de quem o governa, qual a real situação do País em que vive, trabalha, paga impostos, cria seus filhos e convive com familiares, colegas e amigos.

O brasileiro, além de estar sorrindo mais que amarelo, maltratado que se encontra ante aos desvios administrativas, possivelmente, nos próximos dias, não terá nem mais o direito de sorrir amarelo, pois, no escuro, sua manifestação nem cor terá. Aliás, em algumas situações, o sentimento que expressará será o de pavor, não do escuro em si, mas diante das consequências que os possíveis apagões poderão trazer às populações, especialmente dos grandes centros do País.

Um sorriso revitaliza qualquer ambiente, tanto para quem sorri quanto para aqueles que estão à sua volta, o que pode reduzir níveis de tensões e mal-estar que possam ter surgido em um grupo. O sorriso é o sinal maior da expansão da aura humana, tornando o homem mais atrativo e receptivo, o que pode e deve ser usado para derrotar suas preocupações em momentos de dificuldade. Na atual quadra brasileira, em sã consciência, qual o cidadão deste País que está tranquilo com tudo que vem lhe acontecendo?

Políticos duvidosos, falcatruas em profusão, golpes de toda natureza, trambiqueiros dando volta nos quarteirões, violência explícita a céu aberto, ex-banqueiros golpistas soltos e empanturrados de dinheiro, juros escorchantes, enfim, uma saraivada de reveses que o brasileiro vem conquistando, que nocaute seria pouco para denotar a lona psíquica a que foi remetido. Sorri quem está em harmonia com a vida, com as forças do mundo exterior e interior, diriam os pensadores. Os olhos são as janelas da alma , disse o escritor norte-americano Edgard Allan Poe (1809/1849). Por extensão, o sorriso é também a sua porta, que, quando entreaberta, revela o que temos nos aposentos mais íntimos do nosso interior. Uma pergunta então se faz: o brasileiro pode sorrir espontaneamente pela alegria de estar simplesmente vivendo num País onde a natureza é pródiga de belezas singulares; de ser um povo miscigenado e dono de um jogo de cintura sem igual, capaz de engolir cobras e lagartos todos os dias, em nome da paz; por estar numa terra sem vulcões, terremotos e afins? Voltemos a Addison, defensor do riso como o inimigo maior da preocupação. Contudo, são tantas as

preocupações do brasileiro que, por mais que possa sorrir, seu gesto não abafa a incidência elevada das adversárias. O seu riso, quando sai, está acanhado, fosco, ofuscado por tantas decepções, incertezas... Agora, querem apagar as luzes. Para o velório do sorriso, mais que amarelado, do povo brasileiro, só faltam as velas.


Apocalipse - Em 05/09/2018

Prever com exatidão em que tempo o apocalipse vai acontecer é impossível. As profecias, apesar de precisas, são, contudo, imprevisíveis. Perdido nestas reflexões, ontem a noite concluí que o tempo do apocalipse chegou, e isto porque: mães abandonam recém-nascidos e filhos exterminam pais. Governantes enganam o povo; e o povo desmoraliza governantes. Jovens criminosos são protegidos por leis, enquanto as vítimas tratadas como criminosas. Funcionários pagam, a tempo certo e antecipadamente pela aposentadoria, mas ao se aposentarem têm que pagá-la até morrer. Seres eram feitos individualmente, pelo amor; agora, em série e pela tecnologia. Políticos submetiam-se às doutrinas dos Partidos; hoje, cada político faz a doutrina de seu Partido particular. Valores morais primavam na sociedade, hoje, a primazia é dos valores econômicos. A educação era nacionalista e visava a ética, a moral, o patriotismo, a liberdade; hoje, até a educação é globalizada e subordinada aos ditames do FMI. A saúde, direito existencial, era confiada aos médicos de família; hoje, o povo morre nos umbrais das Casas de Saúde, lotadas de médicos. Problemas eram discutidos e solucionados em diálogos serenos, nas salas de visitas; hoje, o direito ao diálogo se transforma em problemas. Músicas exaltavam o amor, o carinho, a afeição, a saudade, enquanto hoje falam de tapas, bundas e bundinhas. A porta da rua, a praia, a avenida e a pracinha eram lugares de lazer; hoje são locais de violência, agressões e marginalidade. A justiça era invocada e ou avocada com respeito, e acatadíssimas eram suas decisões; hoje, rasgam-se lhe as sentenças em frontal desrespeito ao direito nelas proclamado. Dirigentes e funcionários respeitavam o inviolável e sagrado dinheiro público; hoje, transitam, manipulam e despendem esse dinheiro como coisa própria. A dignidade do homem estava no seu trabalho; agora, sem o trabalho não há que se falar em dignidade para muitos. No Grupo Escolar, prevalecia o orgulho de ensinar, o amor ao aluno e do aluno; hoje, muitas Escolas são apenas restaurantes da pobreza, instituições complementares do salário mínimo e os lugares onde se gasta brincando de fazer educação. Paletó não era funcionário público; hoje, paletó é funcionário e o governo o paga seis vezes mais do que a um professor público. O lavrador humilde recebia do patrão as garantias do teto e do alimento; agora, assistimos impassíveis à luta desigual dos sem teto, sem emprego, sem comida, disputando humildemente as calçadas e os lixões. A prática da corrupção, desvio de verbas, vencimentos nababescos para quem não trabalha, semana de trabalho reduzida a apenas três dias de atividades, pagamento de aluguel para proprietários de casas principescas, em outros tempos, levava ao repúdio da sociedade e à prisão; hoje, é prática usual e, ainda que condenada, pouco se faz para extirpá-la. A Pátria, por seus grandes heróis, pugnava pela justiça social, nacionalismo, defesa de ideais coletivos, soberania; hoje, a sociedade aceita a deplorável inversão de direitos e valores, lamuriando apenas, sem a garra daqueles que deram a vida pela transformação da iniquidade em justiça e coragem; da impunidade à exemplar punição; da corrupção em honestidade; da escravidão em liberdade e soberania. Espero só que o povo tenha o discernimento para fazer melhor uso do sagrado direito do voto, mas, se isto de todo não for possível, que o leve à não opção porque pior do que está não há nenhum santo no céu que aguente.


Acorda Brasil - Em 29/08/2018

A sociedade brasileira não é pior nem melhor que as outras, moralmente falando, e, noutros aspectos, diferencia-se para cima. Não temos conflitos étnicos sérios, nem religiosos - sobra-nos tolerância e versatilidade -; somos abertos a inovações e às artes. O brasileiro pobre encheria teatros, óperas e espetáculos musicais eruditos, se lhes fossem oferecidos! Toda vez que concertos, espetáculos de música e dança se fizeram a céu aberto, o sucesso foi estrondoso. O Teatro Municipal do Rio enfrenta filas de quarteirões, o povo quer ver concertos e óperas ao custo de R$ 1. É uma pena vê-lo imbecilizado pelos enlatados norte-americanos ou plantado diante da telinha, a ver programas nem sempre edificantes. Em verdade, falham as elites bem postas na economia, na política e na criminalidade. Refiro-me à corrupção política, à ganância de certos empresários, às propinas, às falsificações odiosas de produtos, de remédios, de combustíveis, de tudo em que se possa pensar, em peso e qualidade. Falham os governos quando tratam os pobres, ora com o caritativismo pequeno burguês, ora com a brutalidade policial do tempo dos capitães do mato. Os mais sofredores são os pobres que vivem nos mocambos e favelas das periferias, tão perto do inferno e tão longe de Deus. A polícia - como se não bastassem a fome, a falta de emprego e a bandidagem infiltrada entre eles - trata-os com casca e tudo. Como nas guerras que vemos na TV, vemos os nossos palestinos e iraquianos civis a levarem tiros por todos os lados. É mais do que evidente que o Estado deve estar presente em favelas e mocambos, com educação, saúde, agências de apoio e proteção, em vez de só mandar bala nos bandidos e neles, os tais efeitos colaterais. Tampouco a corrupção é endêmica, sempre existiu, só que agora está sendo exposta todos os dias, mas não são tomadas as medidas cabíveis, daí uma certa confusão na cabeça das pessoas. Parece que o mundo vai se acabar entre as operações espetaculosas da Polícia Federal, o noticiário da imprensa e a reiteração criminal sem notícia à vista de punição, pouco divulgada, embora ocorram, todo santo dia, sentenças condenatórias Brasil afora. Existem mais de 120 mil mandados de prisão expedidos e incumpridos. Ora falta a captura, ora o bandido; ora a vaga a ele destinada. Para piorar, tem preso bom, que já devia ter saído e continua preso, cumprida a pena, por culpa do Estado. Preso não dá voto. Aí começa o falatório. Uns dizem que a Bíblia previu, o Messias vai chegar, o apocalipse está às portas. No curso da história ocidental, ele já foi previsto dezenas de vezes. Não vai chegar nunca, a menos que toquemos, nós próprios, fogo no mundo. Ou então é o "país que não tem jeito mesmo" - o conformismo dos vencidos e dos inermes. Apesar disso, o Brasil vai em frente. Em verdade, faltam cadeias, inteligência policial (aparato técnico preventivo e repressivo) e ordem na persecução penal. Está na hora de ver o que outros povos já fizeram e agir. Causa-me espanto três estamentos de repressão penal estanques: polícia, Ministério Público (MP) e Justiça criminal. À polícia cabe o inquérito, que se finda num relatório ofertado ao MP federal ou estadual, dependendo do crime, a quem cabe examinar o inquérito, arquivá-lo, devolvê-lo ou aceitá-lo, para oferecer denúncia ao juiz criminal, que poderá rejeitá-la ou dar curso à ação, salvo nos casos de queixa incondicionada. Isso é arcaico, demorado e conflituoso, gerando grande demora na concretização da justiça. Depois da condenação penal irrecorrível, abre-se, ainda, outra etapa nas

varas de execução penal, incumbidas de fazer valer as penas e as suas vicissitudes, sem falar no júri popular, nos crimes contra a vida praticados com dolo, ou seja, os que não decorrem de imprudência, imperícia e negligência, a cargo do juiz singular. É um sistema muito complicado. É preferível o norte-americano, de "salas". A polícia atua ligada a um promotor e grande parte dos crimes vai direto ao magistrado. Oferece-se ao réu uma transação penal. Se assumir a culpa, obtém vantagens e poupam-se delongas processuais. No Brasil, muita vez, em razão da chamada prescrição retroativa da pena em concreto, que começa a fluir da data do ilícito, quando o réu é condenado ou mesmo antes, o crime já prescreveu e o réu se livra solto. Um advogado diligente é tudo de bom! Acorda, Brasil.



O malefício da dúvida - Em 22/08/2018

Uma das características da vida é a sua imprevisibilidade. Não é possível estabelecer sua duração ou definir com exatidão como serão as horas futuras. E são essas possibilidades de diversos desfechos que dão um toque todo especial às boas surpresas e às alegrias. Lamentavelmente, nem sempre os imprevistos são agradáveis e, por essa razão, se desenvolveram as estratégias para minimizar esses desgostos: medidas de segurança, seguros, planejamentos, estratégias de prevenção e tantas outras. Não se pode adivinhar como será o dia seguinte.

Mas é necessário evitar riscos já conhecidos. É imperativo seguir determinadas regras de convivência e de preservação. Existem responsabilidades e responsáveis. Ou não? Torna-se absurdamente leviano minimizar os efeitos da incompetência e da omissão, quando a medida dessa falta de prudência e de capacidade é quantificada em vidas perdidas. E são muitas! Todos os dias! Acidentes de trânsito por condutores imprudentes, embriagados ou drogados, ou por rodovias mal sinalizadas, ou por veículos sem condições de trafegar... "Acidentes" aéreos por ausência de infraestrutura mínima, por negligência dos gestores ou por muito mais... Mortes por doenças evitáveis, por tratamentos dificultados, por falta de acesso a cuidados básicos, por falta de políticas efetivas de saúde, pela escassez de recursos... Crimes em proliferação, pela perda de referenciais de cidadania, pela baixa autoestima dos povos, pela marginalização e exploração, pela desvalorização do indivíduo, pela impunidade...Vidas preciosas são desperdiçadas, em uma quantidade impressionante, pelo desconhecimento e pela ignorância.

São perdas massivas sem aprendizado, pois se repetem os mesmos erros e as mesmas falhas. Os mesmos discursos. O mesmo abandono e a mesma corrupção. Se a incerteza poderia beneficiar a esperança, deixar uma porta para a sorte ou para uma inesperada conquista, em alguns setores ela é desagradável, nociva e perigosa. Não há espaço para amadorismo ou improvisação quando um possível erro repercute em vidas e sonhos interrompidos, multiplicando sofrimentos. Boas doses de competência, responsabilidade, ética, empatia e respeito poderiam transformar cenários trágicos em promissores horizontes.Mas, as dúvidas se tornaram mais do que traidoras. Viraram uma assustadora sombra que pergunta se haverá amanhã. Para quem? Para quantos?


O medo embota a consciência - Em 15/08/2018

A insegurança atingiu índices alarmantes, em Manaus e em todo o Brasil. Imaginem que uma senhora de 61 anos, internada no Hospital Santa Marta, o maior de Niterói no Rio de Janeiro, foi atingida no rosto por uma bala perdida. E o crescimento ocorre desde o furto, pouco mais do que ocasional, ao caco de vidro na mão. Deste, à arma em punho. Em seguida, ao dedo no gatilho. Em tão curto espaço de tempo social, um salto gigantesco foi dado: de trombadinha a latrocida.

No automatismo do ato, o automatismo da vida. Não se encontrando, esta, presa a quase nada, exceto a um tênue fio social que tem se revelado inútil. Corpos esquálidos hiperinflados de si mesmos, sem noção de limites e possuídos por um misto de alucinação e vertigem, saem à cata das suas vítimas pelas ruas e avenidas das cidades. São os meninos-caranguejos, os adolescentes-guabirus, e os adultos jovens-guarás, sempre à espreita da próxima presa, em cada esquina. Uma abordagem repentina, várias ordens de comando, alguns gritos, e escutam-se estampidos. Vidas estão sendo ceifadas a céu aberto.

O clamor é geral. Nem poderia ser diferente. A perda e o luto dilaceram a carne e roem os ossos de quem fica. A sangria afetiva revela-se sem fim. E deixa a todos em estado de estupor permanente, acuados, aterrorizados e perplexos. Exigem-se respostas imediatas e ações efetivas no combate a criminalidade, o que é de se esperar em qualquer sociedade minimamente civilizada. Todavia, a vida em sua dimensão única é seccionada em duas partes distintas: a dos que matam alucinadamente e a dos que se mantêm ainda vivos a prantear os seus mortos. Tudo se torna muito simples e fácil de explicar. O medo embota a consciência, é sabido. E o pensamento binário se constitui em sua lógica imediata. E igualmente perversa.

De um lado, vidas produtivas embaladas em berço esplêndido ou forjadas pelo esforço próprio. Do outro, dejetos humanos prontos para serem lançados nos esgotos, os seus possíveis lugares de origem. Mas, de lá, eles teimam em voltar. Espalhando medo e gerando pânico. Criaturas desnaturadas, abortos da vida, comenta-se à boca miúda e graúda - verdadeiros monstros, também dizem. Há, ainda, quem abra bem os olhos para um dos lados da questão, é quando falam em inversão de valores, assim como há, também, quem os feche, na mesma proporção, no que concerne ao outro lado da mesma - para esses, a inversão de valores não passa de um arraigado preconceito de classe. O que não remove, nem uns nem outros, do pensamento binário. Mas tão-somente os coloca num beco social e político sem saída.

Para pôr fim a tal binarismo, cujos efeitos são socialmente desastrosos, é preciso que nós nos olhemos mais de perto no espelho. Sem medo e sem pejo do que o mesmo poderá vir a refletir ou a nos dizer: a vida é sempre única, embora existam múltiplas formas de expressão da vida. Em sendo única, todos nós somos co-partícipes do que dela fazemos de melhor e de pior, em termos da sociedade que construímos para nós mesmos. O que exige muito mais do que um simples se ater à esperança quanto ao futuro, imediato ou longínquo. E um bom começo para tal é romper com o pensamento binário e os sentimentos dele decorrentes - quer sejam de amor ou de ódio.


A força da palavra - Em 08/08/2018

Escrita ou oralmente expressa, a palavra tem ampla e significativa importância, por isso de tal forma compromete e responsabiliza quem a profere que, muitas vezes, exige-se a confirmação para não restar a mínima dúvida acerca do que foi publicamente afirmado. O cidadão comum, a autoridade de qualquer natureza, todos respondem de alguma forma pelo que dizem, daí a exigível discrição, a continência da linguagem, especialmente em torno do que se deve expressar quando está em causa o interesse comum, e chega a ser uma forma de sabedoria dizer apenas o necessário, no momento certo. Daqueles que por dever de ofício são quase obrigados a falar em público, muitos evitam o improviso, ou para não omitir fatos e nomes, ou para, medindo as palavras, não cometer excessos, enfim, para preservar a autoridade do cargo no qual estão investidos, imunizando-se a cobranças. O noticiário através da televisão obriga a ouvir, ou o que não se quer, ou o que não se deve, sobretudo quando choca, a ponto de, tão estarrecedora a notícia, preferir-se aguardar o jornal do dia seguinte para uma necessária conferência, para a possível confirmação do que foi dito por determinada autoridade.

Mas fiz essa introdução ara falar sobre o dia dos pais, e mais especificamente sobre meu pai, que se foi aos cinquenta e seis anos de idade. Já fiz artigos escrevendo uma carta a ele que tão precocemente saiu desta vida, quero apenas dizer neste pedaço de escrita que a força da palavra, a escrita essencialmente quando se escreve um artigo deve expressar o sentimento do escriba. Hoje então deixo ao meu pai, o manifesto de minha admiração e meu amor, que no silêncio do amor me deu a vida esperando que um dia eu chegasse a ser alguém, quantos anseios, quantas esperanças, guardados no seu coração, coração que o fez vitima muito cedo.

Pai, você, como jardineiro, cuidou desta plantinha ou melhor de seis plantinhas, regou, alimentou, ajudou a desabrochar, e nesse dia quero lhe desejar toda minha admiração, pelos valores humanos, pelos valores espirituais que você transmitiu, a generosidade, a autenticidade, a vontade de vencer, a confiança na vida, o amor. Pai, as plantinhas, ou seja, seus seis filhos cresceram, amadureceram, e se hoje dão frutos, é pelo que você nos deu, e pelo pai que você foi. Sua imagem reflete amor.

Mais forte e significativo que palavras de estimulo, apoio e carinho, foi seu exemplo de vida e retidão de caráter. Não admitia deslize em termos de corrupção, de desonestidade. Como sofreria se vivesse nos tempos atuais presenciando o espetáculo vergonhoso com que nos "presenteia", sem pudor, a maioria de nossos homens públicos! Sua preocupação com os filhos não se estendia apenas aos dias futuros - era presente nos mínimos gestos. Privava-se do que mais gostaria de ter para que tivéssemos o que ansiávamos possuir. Não sabia jogar futebol, mas adorava o esporte porque os filhos faziam-no bem (modéstia à parte).

Feliz Dia dos Pais a todos.


Ponto escuro - Em 01/08/2018

O que restará, em que resultará o momento que estamos vivendo? Estarrecidos, nauseados, assistimos passivos o banho de lama que adentra nossos lares, diariamente, por várias horas. Somos impingidos a testemunhar sucessivos massacres da verdade, da esperança e confiabilidade. O ponto escuro cresce a cada momento transformando-se numa enorme mancha que ameaça ocupar todo o campo visual. É uma carnificina moral, onde cada um tenta de forma incansável sobreviver lançando em todas as direções mísseis de lastimáveis misérias humanas. Anúncio do Apocalipse?

Como metal exposto ao fogo todos e tudo derrete, desaparece. As normas, leis, regras, acordos, consensos, submergem, atrofiam ante a inércia histórica de sua própria construção. Os consultórios médicos e psicológicos lotam do homem adoecido, enlouquecido! Doenças surgem e ressurgem. Síndromes de pânico, depressões, somatizações diversas assolam fragilizando o todo. O homem doente é a expressão somatizada de que o mundo é que está doente. Por outro lado, a doença também pode ser vista como um sinal de ainda saúde, do debater-se de um organismo ainda vivo que sinaliza, clama e reclama pela invasão, apropriação do paraíso humano.

O homem tem perdido seu referencial vivendo um modelo de educação que se afasta cada vez mais do processo de interiorização, de aprendizagem da busca de seus dados pessoais de satisfação, numa tentativa de globalização e formatização, o que facilita o controle, a robotização e a repetição em série sob o domínio de poucos. A insegurança de um povo, a perda da autoestima, advém de uma educação que cada vez mais acredita e estimula aquilo que "vem de fora", na informação que vem do outro, de uma cultura do que "vem pronto". Esquece-se de estimular e exercitar o diálogo interno quanto ao desejo e ao pensar. Esquece-se de reservar tempo e presença na contemplação da natureza como fonte de aprendizagem dos processos de vida.

Cada vez mais nos afastamos de nossa casa (nosso corpo), criando uma distância e estranheza profunda. Neste não se consultar, o homem desapropria-se de seus sentidos, seus comandos particulares. Sua relação consigo mesmo é de descrença, desamor, desafeto. Há que se refletir sobre uma inteligência que não só crie toda uma tecnologia de ponta, mas que se volte sempre para seu criador e o faça cada vez mais um ser feliz, confortável e pleno de sentido. Se o homem se afasta cada vez mais de tudo que verdadeiramente lhe traz "o melhor", o paraíso de volta, essa inteligência será parte desse lixo humano sob a nossa mesa de refeições diárias.


Hora de pensar - Em 25/07/2018

Caros leitores, neste momento em que não sabemos quem é realmente quem é situação. não sabemos quem é oposição, não sabemos quem governa o País (se é que tem governante ) é chegada a hora de rever nosso País, nossos costumes, nossos filhos e netos, que porventura ainda não vieram, encarando seriamente estes derradeiros dias de pútrida política, descarados comportamentos dos que fazem nossa vida pública - há muito dissecando nossas consciências, dissolvendo nossa identidade, envergonhando o patriotismo e esculhambando nossa cidadania.

O Brasil está sendo corroído pelo cinismo da maioria dos poderes constituídos, intermitentemente terminais em câmara de gás torturante ao penhor da sua nacionalidade - orgulho que deveria ser de toda a nossa gente letrada e a esquecidamente ignorante e marginalizada da sociedade. Não mais adianta cobrarmos punibilidades às autoridades responsáveis - é fatigante. Para que rogarmos, como já fizemos em demasia? De nada nos satisfaz insistirmos para que a justiça nos proteja. Apelarmos para todos os santos, nem pensar. O que nos vale divagar pelas chamas ainda acesas de exemplos da história tirânica de príncipes que usurparam a dignidade e os bens de seus súditos, transcendendo séculos, beneficiando seus descendentes?

Por isso, meus caros leitores, jovens pais e mães de um futuro bem próximo: tratem de repensar os valores da educação doméstica que terão de legar aos seus filhos. Ensine-os o que é liberdade sem libertinagem; a aprender o que é amar a terra onde nasceram e exigir respeito pela sua soberania. Faça-os voltar a amar o prazer de ler. Encaminhem-nos no sentido da verdade, para que não descubram na mentira o prólogo manifestante da hipocrisia, da improbidade. Não os deixem entender que ser inteligente é levar vantagem em tudo. Registrem, mas bem claro mesmo, que furtar e roubar são crimes iguais e tão graves quanto a omissão e a injúria. E, antes que seja muito tarde, indique aos queridos pimpolhos onde ficam o lixeiro e o lavatório, o guardanapo e o papel higiênico; a escola mais próxima, a igreja mais condizente com a crença no Ser supremo; e que só se educa pelo exemplo, de forma carinhosa e firme pelo norteamento da instituição familiar.

Sintam-se, pois, governantes, e mostrem como devem ser os governados, afastando-lhes a ideia de que estão sob a égide de um poder principesco, moldando-lhes a conduta. Vamos todos lembrar o sentimento de educação que hoje cerca esses nossos senhores políticos com mandatos populares que brilham pelo choro e pela cara lisa. Segundo Cícero, Dâmocles estava se imaginando o mais afortunado dos homens quando, em meio ao festim, percebeu, por sobre a cabeça, uma espada nua que Dionísio fizera pendurar ao teto, sustentada por uma simples crina de cavalo.

Que todos os moços deste querido Brasil não permitam, tal Hemingway, que o nosso torrão seja arrastado para o mar como se fosse um promontório - um solar tão íngreme que não mais possamos alcançar com nossos próprios passos. E, "...se alguém perguntar por quem os sinos dobram?" -, que eles não dobrem por nós.


Citações - Em 18/07/2018

Caros leitores, antes de entrar no assunto que me propus para essa semana, quero exteriorizar minha felicidade e alegria de não ter mais que escrever para jornais e explico porque. Escrevi no jornal A Critica, no Diário do Amazonas, no Jornal do Comercio, no Amazonas em Tempo depois Em Tempo, e em todos eles após mil duzentos e vinte e oito artigos, tinha além da obrigatoriedade semanal, sem receber nenhuma contrapartida pecuniária, a obrigatoriedade de seguir o numero de caracteres para poder ser publicado. Tive algumas vezes que fazer o ridículo papel de numerar os artigos, I, II, III e até o IV, isso cansa os leitores e não há necessidade, a não ser que queiramos fazer um pequeno livro, mas era essa a exteriorização que queria fazer.

Tenho em alguns artigos que publico feito algumas citações, e citação é uma coisa perigosa, que necessita de oportunidade e memória. Às vezes, abusamos da oportunidade e, muitas vezes, podemos ter falhas de memória. Por exemplo, as pessoas não devem ter preocupação quando, como constantemente acontece com todos nós, esquecem alguma coisa do tipo de não saber onde colocamos os óculos. Preocupação devemos ter quando não sabemos para que servem os óculos. Nossa memória, com o tempo, fica como queijo suíço, cheia de buraquinhos. Quando se cai num desses buracos, haja preocupação.

Estas coisas me ocorrem quando vejo a imprensa, numa tarefa vigilante, pegar os políticos em citações impróprias ou erradas. Eu gosto de citar. É sempre bom ter uma companhia autorizada para diminuir nossa vaidade e dizer que, antes da gente, alguém pensou assim. Agora, dizem os jornais que Napoleão é a bola da vez, na escolha para citação. Aliás, não é de agora. Sempre Napoleão foi uma sedução para os políticos. O presidente Castello Branco, uma vez, disse a um ministro nomeado: - "Cuidado com a família. Napoleão foi o maior homem do mundo e os irmãos o acabaram".

Depois, descobriram que o presidente Fernando Henrique disse que era de Napoleão a pergunta: - "Quantos fuzis tem o Papa? Se não tem nenhum, é melhor ficar calado". E dona Lúcia Bastos, professora da UERJ, minha colega de mestrado, foi em cima.

Já o presidente Lula colocou Napoleão pelejando na China, onde ele nunca esteve, mal passando do Egito e terminando em Santa Helena, embora o grande escritor francês Alain Peyrefitte tenha escrito um livro famoso, quando a China despertar o mundo tremerá, esta, sim, expressão de Napoleão.

Tenório Cavalcanti, uma vez, na Câmara, invocou uma citação de Rui: - "A locomotiva da honestidade limpará os trilhos da corrupção". Lacerda levantou-se e disse: - "Rui nunca disse isso". Tenório respondeu: - "Se não disse, digo eu". E todos riram.

Para não deixar de citar, sem medo de errar, cito meu finado e saudoso amigo Raimundo Limongi Cabral, figura admirável: - "A situação está tão difícil que estou latindo no quintal, para economizar o cachorro.


Malvada política - Em 11/07/2018

Mais um ano de eleições e a danada da cachaça política já se arreganha toda para o povo - com suas poucas ideias, sua muita pobreza (agora cada vez maior em desemprego) e sua ignorância. Poderíamos cifrar o malvado político a todo aquele que repete as mesmas frases de efeito, as mesmas mazelas ideológicas, a astuciosa maneira de enumerar seus projetos que nunca vão ser cumpridos, seus sorrisos de anjos de calendário e sua fantástica capacidade de nos fazer de bobos - e aos eleitores menos letrados manifestar a faculdade de se mostrar obliterado.

O que é isso? É fazer com que tudo que já se passou desde a última eleição desapareça pouco a pouco; apagar-lhes da mente seu antigo topete, seu dente de ouro, seu sorriso Colgate, suas carecas reluzentes, enfim, destruir tudo que ouviram em palanques, horários eleitorais televisivos e radiofônicos. Machado de Assis dizia que não só o esquecimento é provável, mas até por certo e constante, se o condutor padecer de moléstia que oblitere a memória. Não gostaria de fazer paralelo com o passado pleito estadual, quando Eduardo Braga foi derrotado por Amazonino Mendes. Apenas ressaltar a briga preliminar entre alianças (para cargo majoritário), bem antes das luzes dos refletores serem acesas quanto a cara de cada um se parecer com Manaus, assim como da verdadeira gana de alguns pré-candidatos a fazerem parte das diversas chapas na qualidade de vice.

Fico lá com meus botões a perguntar-me pra que tanta carreira para se ser vice. Deve ser um senhor cargo, não? E a cadeira de governador? Tem deputado federal e estadual querendo largar seus lugares levados pelo voto popular para disputarem prefeituras em cidades pequenas por este sofrido interior do Amazonas afora. Não é engraçado? Esses encasacados parlamentares se mandando de Brasília - capital das decisões do Brasil - seus luxuosos apartamentos e gabinetes atapetados de mordomias, somente para estarem junto com seu povo esquecido nas embrenhadas do sertão. Muito auspiciosos e louvados esses desejos. Mas, é preciso ter cuidado meus caros leitores eleitores: paturi fora d'água é novidade no poço.


Jogo de cena - Em 04/07/2018

José Américo de Almeida, notável tribuno e honrado político, quando ia pronunciar um dos seus famosos discursos no Senado, anunciava que iria dar "um grito". Eram pronunciamentos de grande repercussão pela consistência da crítica e importância do evento, respeitosamente ouvidos por todos os seus pares. Antes, em 1945, José Américo fora autor de uma entrevista que abalou os alicerces da ditadura e colaborou para a derrubada de Getúlio, reimplantando-se a democracia. Vou dar o meu grito: o país está apodrecido, de norte a sul e a cada dia um novo fato lamentável ocorre.

Até o sacrossanto futebol nacional, sadia alegria do povo, está contaminado pela imoralidade de gente que está transformando o torcedor em otário, porque sai do estádio sem saber se viu um jogo ou uma chanchada. Lamentável o país estar contaminado por uma epidemia de imoralidade, que vai adoecendo todos os setores, com as honrosas exceções do Ministério Público e da Justiça (salvo alguns necrosados indivíduos já identificados).

O Brasil precisa de uma lavagem de moralidade e uma renovação política que imponha costumes mais puros, em uma varredura que reponha o país no clima de moralidade. Não existem mais partidos políticos e sim simples aglomerações, que nada expressam ideologicamente. Neles se agrupam políticos sem afinidades, movidos por um interesse pessoal momentâneo, não por vínculos filosóficos. Não se respeitam programas ou promessas partidárias. Pensa-se apenas em ganhar projeções rendosas seja lá mediante que compromissos assumir.

Condena-se deputado porque teria recebido um mensalão de um fulano qualquer. Porém, em plena CPI, verifica-se que o governo paga R$ 500 milhões para atender a emendas apresentadas por deputados, para que estes sejam simpáticos a determinada candidatura para eleição da mesa. Como se chama isto? Mensalão, mensalinho, que significa essa pipoca jogada no colo dos eleitores do presidente da Câmara?

A próxima eleição é o momento oportuno da desforra do eleitorado. Que tenha a consciência cívica capaz de expurgar do mundo político quem não mereça lá estar. A realidade é uma só: a reeleição é um desserviço à nação, porque o eleito, ao entrar no governo, só pensa no segundo mandato. Foi um desserviço que Fernando Henrique Cardoso prestou ao país, ao incentivá-la - será este o verbo correto? - para renovação do seu período. Veio o novo governo com o seu partido, o PT, pensando na eternidade no poder.

Deveria existir uma emenda constitucional em que seria proibido em nome de Deus e da moralidade que alguém fale nessa malsinada palavra, proscrita do dicionário. Sopraram aos ouvidos de JK e de Itamar Franco esta mesma palavra, que nem aceitaram fosse repetida. Não por acaso, as eleições costumam ser precedidas de tiroteio entre os caciques da politica brasileira. Todos Subitamente se convertem à causa da moralização dos costumes administrativos.

Esse jogo de cena, cada vez mais canhestro, é resultado das denuncias cabeludas serem manipuladas por políticos profissionais ao sabor de seus interesses eleitoreiros. Nenhum deles mostra efetiva preocupação em fortalecer as instituições de forma a evitar que continuem a ser aviltadas e saqueadas. O cidadão está sendo feito de bobo.

As denuncias, como têm sido propaladas, não têm nenhum compromisso com a moralidade pública. O respeitável público só toma conhecimento de falcatruas, quando os membros das quadrilhas se desentendem ou quando estão em questão jogadas de efeito no jogo em que se disputa um naco do poder municipal, estadual ou federal. É triste.


Preguiça - Em 27/06/2018

O brasileiro é preguiçoso. Digo isso com convicção, pois me incluo nesse rol, para minha própria vergonha. A preguiça é a intransponível distância entre saber o que fazer e querer fazer. Ter consciência do que fazer, da potencialidade de algo, e efetivamente mover-se para realizar, são coisas totalmente distintas, que demandam grande vontade. Daí talvez o dito popular: "força de vontade".

Ter vontade não basta, é preciso empurrá-la, com muita força. O brasileiro sabe muito, é comunicativo e troca informações como poucos povos. Não é à toa que em nosso País o uso da internet bate recordes, assim como o consumo de telefones celulares. Todos estão conectados. Trocar informações, apenas, não basta. Ter consciência de grande nação, com recursos naturais infindáveis, temperatura ideal com economia de energia (diferentemente dos países do Norte, dependentes absurdamente de meios de aquecimento no rigor do inverno), e tantos outros atributos, não permitem dizer que o País se move com a qualidade e velocidade necessárias e possíveis.

A nossa preguiça decorre de sabermos a diferença entre o certo e o errado, mas demorarmos para agir. A crise de confiança frente aos políticos é traço nítido de preguiça. Ao invés de optar pela luta, pela conquista de condições melhores de vida para si, deixamos o político "ficar bem", arranjar apoiadores, "cupinxar".

Outra preguiça monumental está na questão dos tributos. Todo brasileiro decente, que deseja pagar impostos e participar efetivamente da vida cidadã, está farto da sangria feita em seu bolso. O problema é que, se chiar, vai ficar malvisto, vai ser um entojo nas rodas sociais, repetitivo, e se sair pelas ruas de bandeira na mão será mais um pelego, um chorão...

Outras preguiças também existem, como as ligadas ao acinte chamado "transposição do São Francisco", e também os tais "finalizar CPI e colocar gente na cadeia", "construir mais presídios", "combater o contrabando", "prender corruptos" e tantos outros.

Assim vai andando o Brasil, de vácuo em vácuo, de Temer em Temer, pelo reino da mediocridade. Parece-nos chegado o momento para que o País alfabetizado e relativamente bem informado sobre as suas principais circunstâncias saia desse tipo de opressão que é a preguiça do exercício do Poder. Exige e reclama o Poder mais discernida discriminação sobretudo na faixa da competência em que atuam o Executivo e o Legislativo.

A vastidão terráquea do País e as manifestas peculiaridades de suas numerosas regiões, essa maravilhosa diversidade que nos parece uma das notas distintivas do povo brasileiro em cotejo com inúmeras conformidades nacionais aborrecidas e monótonas, tudo aconselha um gesto nacional de deixar de preguiça e agir.


Pra não dizer que não falei do futebol - Em 20/06/2018

Esta semana cansei de falar de mensalão, corrupção, sobre enamorados, sobre o Parlamento e na busca de inspiração para a crônica semanal, resolvi falar de nossa seleção canarinho que empatou com a Suiça no primeiro jogo da Copa do Mundo domingo passado. É claro que com apenas um jogo não podemos julgar a seleção como um todo, mas a estreia foi apática, diferentemente dos amistosos que antecederam a Copa, os jogadores, pareciam anestesiados, sem volume de jogo, até o capitão Marcelo, errou 20 passes, coisa que não acontece no seu clube nem na seleção quando é amistoso.

Dos jogadores que atuam na seleção canarinho noventa por cento joga fora do Brasil. Tinha decidido não escrever mais sobre futebol, deixando para os editores do caderno de esportes tal missão, porém o jogo da seleção e o endividamento dos clubes brasileiros não me permitiram cumprir minha decisão. O futebol brasileiro mesmo tendo conquistado pela quinta vez a Copa do Mundo da Fifa, fora do campo continua amadorístico, corrupto e desorganizado, como já denunciava o treinador Flávio Costa nos anos 50. A diferença é que agora também está falido. É o que demonstram os balanços divulgados pelos clubes por força de lei, pela primeira vez em mais de cem anos de História.

O Santos Futebol Clube, campeão nacional tinha R$ 0,02 de ativo por cada R$ 1 de passivo de curto prazo no fim de 2017. No Rio, o Clube de Regatas do Flamengo, com a maior torcida do País (34 milhões de "fanáticos", segundo pesquisa do Ibope para o jornal Lance!), exibia um patrimônio líquido negativo (total da dívida menos todo o patrimônio) de R$ 70,3 milhões. A situação do "mais querido" denuncia o descalabro de gestões que, ao longo dos anos, explorando a paixão das torcidas, malbarataram marcas de valor inestimável nesse negócio que emociona e mobiliza a Nação inteira.

Na verdade, culpa maior deve ser atribuída à chamada "cultura dos cartolas", que frustrou todos os planos das consultorias multinacionais especializadas, que tentaram profissionalizar a gestão do futebol brasileiro e transformá-lo num negócio, além de arte, capaz de ter o quinhão que merece dos US$ 5,5 bilhões que ele gera por ano no mundo. A gestão dos clubes esportivos brasileiros é tão obsoleta que nem sequer se sabe ao certo qual o capital que gira nessa "Pátria em chuteiras". A divulgação dos balanços, um avanço para um setor cujas rendas antes eram segredo de Estado dos dirigentes, ainda não basta para revelar sua verdadeira contabilidade, pois as informações prestadas são imprecisas e de difícil entendimento, mesmo para especialistas.

Esperemos que na sexta feita contra a fraca Costa Rica, o Brasil comece a ganhar terreno, e tentar esperar a Alemanha na outra fase para pelo menos vencer, e não devolver os 7x1, coisa praticamente impossível no futebol que está jogando hoje. Ainda penso no hexa.


Enamorado - Em 13/06/2018

Tenho uma amiga que em uma mensagem pelo WhatsApp, sugeriu-me: no dia dos namorados se curta, se enamore, e fiquei a analisar essa sugestão. Na verdade, quem não tem namorada nesse dia tem que se enamorar mesmo. Seja enamorado! Isso mesmo! Seja enamorado... mostre-se apaixonado, mas não por alguém, por si, pelo mundo, por um motivo além do físico, por pensamentos, palavras, ideais, pela vida! Não há algo mais grandioso e belo que o viver.

Preocupe-se menos nesse dia em planejar que o próximo será acompanhado, não sinta raiva ou desprezo por casais já existentes, não se sinta péssimo pelo término no dia dos namorados, ame e fuja do real significado desta data e preze pelo significado que ela deveria ter, você verá tudo ao seu redor tornar-se mais bonito e prazeroso, até esquecerá que tal dia é o dia dos namorados. Independentemente da data, o conceito e o sentimento envolvidos na comemoração do dia dos namorados são os mesmos em todos os países.

A data é uma bela oportunidade para demonstrações de amor e carinho. Pra alguns, talvez o dia dos namorados seja realmente uma data especial, como o dia dos pais, mães, crianças e todos esse festival de "dias comemorativos" sejam de fato significativos, por um (diversos) momento o comércio conseguiu usar o sentimentalismo ao seu favor para venda de produtos que são correlatos a data: presentes relacionados ao amor e paixão no dia dos namorados e dia das mães; algo "masculino" que exalte essa masculinidade e/ou mais simples no dia dos pais.

Estou aqui para falar exclusivamente do dia dos namorados, mas não a data em si, mas seu significado. Será mesmo que um presente no dia dos namorados agregaria em sua relação, como forma na qual você encoraje seu parceiro(a) pensar que você a reconhece(o). Sorrisos ao andar do shopping, carinhos e abraços nos parques não são sempre provas de amor, por vezes pessoas usam os relacionamentos como âncora para apaziguar seus ânimos e pensamentos que morrerá sozinha ou ficará sozinha, sem ninguém, como se a solidão fosse de fato ruim, precisamos de socialização isso é fato, mas não é uma necessidade vital, não se apegue a isso ou enlouquecerá e será facilmente manipulado por aquele que identificar isso.

Por fim, caso namore, dou-lhe uma dica: use esse dia para mostrar que independente da data, estará lá, durando até o próximo dia ou o fim dos seus dias você será enamorado e não um namorado, pois esse título (quase que nobiliárquico) foi bem estagnado e já não serve necessariamente para uma aliança, que você é enamorado com o mundo, com as pessoas, com a natureza, que amando aos outros, mostrará que sabe amar e mergulharão de cabeça no amor que tens pra dar.


Canalhas - Em 06/06/2018

Os canalhas não têm passado moral a preservar. Não têm igualmente um nome a zelar. Nem muito menos estão preocupados com a opinião da sociedade a seu respeito. São servos de sua própria canalhice. Por isso os canalhas são audaciosos. Não temem ser canalhas, desde que tirem proveito próprio de suas atitudes. E ser canalha populista em cargo público de destaque é ainda mais insidioso.

É, sem dúvida, o incessante fluxo de sofisticadas hipóteses sobre a mente que, segundo a grande filósofa do século 20, a alemã Hannah Arendt, "é a mais ardilosa das propriedades do homem". Apesar dos pesares e dos atuais dissabores internos, com relação aos pecados do Executivo e do Parlamento (crises da República), o Estado brasileiro, no âmbito internacional sempre preparou a sua história cuidadosamente, de maneira a torná-lo respeitado. Mas, em acontecimentos recentes, de modo inesperado e, para o qual não estava preparado, o Brasil se vê às voltas com o populismo político na América Latina. Região da qual é participante de peso, política e economicamente.

Na verdade, as atitudes imprudentes do presidente Michel Temer, ao negociar com os caminhoneiros, acompanhadas de insinuações injuriosas bem comuns aos baixos padrões morais dos que ocupam indevidamente altas posições de modo surpreendente, acompanhada da protetora atmosfera de conivência que envolve outros países sul-americanos já deveriam ter sido consideradas inaceitáveis pelo Brasil. E na sociedade de consentimento o compromisso do cidadão com a lei é o que mais deve ser considerado.

A lamentar em todo o episódio e, mais uma vez, a deficiente atuação do governo brasileiro que, também em matéria diplomática é frustrante e decepcionante. A maneira demagógica como o presidente Temer se comportou e vem se comportando, atinge as raias do risível, da chacota e da gozação, inclusive dos seus próprios pares sul-americanos. A ordem do dia da ética e da moral há muito vem sendo quebrada. A insegurança, o cinismo e a falta de vergonha dos nossos políticos tornam-se cada vez mais insustentáveis à leveza de Kundera - pesada segurança da liberdade.

A escalada de importantes pigmeus dos nossos Três Poderes, corrupto e ladrões, assombra a sociedade. Eles surrupiam o tesouro nacional e, como Antônio Maria, rasgam nossa carta de cidadania e zombam da nossa capacidade de raciocinar - dão asas a uma brevíssima anarquia generalizada no País, molestando os homens de bem e formando quadrilhas de criminosos em todos os segmentos. Isso sem falar nos caixas-dois e na cobertura da turma do cartel das drogas. Ninguém vê sequer uma atitude das autoridades policiais e, pasmem, judiciárias, de cuja cartilha de leis traduzem, pantagruélicos, os julgamentos sérios em gigantescas e já folclóricas pizzas.


Divagações - Em 30/05/2018

Dói-me profundamente assistir a atores se digladiando numa arena onde não se vê circo algum montado. A sociedade rui sem que as pessoas se posicionem em favor de padrões humanos. O Brasil ocupa um lugar de destaque nessa decadência avantajada. O cinismo é a palavra do dia, o fanatismo também.

Fala-se com o intuito de blefar, blefar, blefar... As cartas do jogo de pôquer estão entregues a jogadores habilidosos e maledicentes. Correrei atrás dos campos de girassóis, dessa beleza autônoma que independe da vontade dos homens ou dos seus mecanismos ilusionistas. Afagarei as pétalas, cultivarei as sementes, quero embrenhar-me nas folhas com a finalidade de reabastecer o enorme vácuo que em mim habita.

A caminhada é longa. E estou cansado. Luzes se apagam. Acendo velas para perceber o choro da cera, não me apraz alumiar o ambiente. As palavras perderam o valor da significação. Ouço o que não quero, pululam hipocrisias, os rostos se definem: massa uniforme, desfibrada, espectro de gente. A humanidade se escondeu? Envergonho-me das vozes que se levantam para desvirtuar a verdade em nome de uma saga indigna - os incautos se enredam em eufemismos astutamente construídos.

A letra reduziu-se a um instrumento banalizado, volátil em meio ao estrondo de uma tempestade sem fim. O mar revolto serve para iludir aqueles que não são capazes de compreender a dinâmica dos farsantes. E entre tantos desatinos, a soberba e o autoritarismo alcançam paroxismos. A vida é tão curta - dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe - que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará?

Essa ficará. Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa. Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor.

As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.


Polis sem identificação - Em 23/05/2018

Dois mil e quatrocentos anos antes de Cristo, Aristóteles afirmou: "Os homens se reúnem nas cidades por causa da segurança, permanecem juntos por causa da vida boa." Coitado do grande filósofo! Hoje, ressuscitado, voltaria desesperado para o túmulo diante da tragédia urbana em que foi transformada a cidade, esta notável herança deixada pela luminosa civilização grega.

Resta pouco da Polis. Resta quase nada de um espaço físico capaz de abrigar a complexidade das relações sociais que congregam a convivência, o encontro, a identificação simbólica dos habitantes e a participação cívica da cidadania. De fato, a vida nada tem de "boa", a segurança da comunidade foi destruída pelas múltiplas faces da violência, o espaço público encolheu, as funções clássicas da cidade - habitar, trabalhar, circular e recrear - estão estruturalmente comprometidas.

Se é verdade que a humanidade nasceu no campo e foi morar nas cidades, é verdade também que, de modo geral, o mundo urbano perdeu seu encanto. E perdeu por conta do fenômeno da violência, efeito devastador do crescimento disforme das cidades.

Nesse panorama, o quadro brasileiro é dramático e nele se insere Manaus, outrora musa dos poetas, do Clube da Madrugada, do Café do Pina hoje, objeto de uma crônica sangrenta. A questão que se põe diante de uma angústia generalizada é se há solução para um problema que gerou a sociedade do medo.

Decerto não há solução mágica, mas há solução, segundo atestam as boas práticas bem-sucedidas em países ricos, emergentes e pobres. É o que se observa na Austrália, Canadá, Bélgica, França, Inglaterra, Nova Zelândia, nas cidades americanas de Fort Worth, Hartford, Denver, Boston e Nova Iorque e nos casos emblemáticos de Bogotá e Medellín, parecidas com nossas cidades.

Em todos os casos, o êxito das políticas públicas de segurança preventiva e repressiva tem, em comum, além de firme decisão política, recursos adequados, articulação institucional e integração operacional, a decisiva participação do poder local, mobilizando e envolvendo a cidadania. No Brasil, essa questão passa ao largo dos poderes locais, como se a responsabilidade de enfrentamento dessa calamidade estivesse subsumida à competência da União e, mais diretamente, à dos Estados. Não raro, uma interpretação canhestra do artigo 144 da Constituição Federal é usada para eximir a esfera municipal.

A partir das referidas experiências e da dimensão que tomou o problema da violência urbana, torna-se imprescindível a efetiva participação dos poderes locais, em especial do Executivo e Legislativo municipal. Não há mais lugar para escapismo e transferência de responsabilidade, a sociedade acuada vive o clima de guerra civil, o caminho é a firme crença na força da cooperação e na capacidade transformadora do poder local.


Perda de tempo - Em 16/05/2018

Este ano de 2018 apesar de ainda estarmos no quinto mês do ano já tive várias perdas, e aí fico a me perguntar: Que lição a vida nos dá através das perdas? Se estivermos com nossos corações e mentes receptivos, sem dúvida alguma, apesar das dores resultantes, teremos grandes oportunidades de ganhos, tanto para o nosso crescimento pessoal quanto espiritual.

A primeira grande lição que aprendemos com as perdas é exatamente sobre a enfermidade da vida. Nossa existência humana é muito frágil, efêmera. Quando perdemos um amigo, perguntamos: quem será o próximo? serei eu? Se a vida é muito efêmera, devemos aproveitá-la muito bem. O tempo de conviver com os amigos, valorizar as pessoas, ampliar as amizades é exatamente agora. Deixar para o amanhã poderá ser tarde demais! A vida é muito curta para adiarmos sempre o tempo de sermos amigos e solidários.

Em segundo lugar, com as perdas, aprendemos sobre o valor real das pessoas. Muitas vezes, nossa vida é circundada por coisas, objetos, imóveis, enfim, vivemos presos ao material, não valorizamos aqueles que nos cercam, os quais passam a ter valor secundário em nossa vida e em nossa escala de valores. É importante nunca esquecer que as coisas foram feitas para serem usadas, e nunca para ocupar, em nosso coração, valor superior. As pessoas é que são importantes. Elas devem ser amadas e o amor vai dando, pouco a pouco, sentido à nossa existência e nos tornando mais dignos da vida e de nós mesmos.

Finalmente, através das perdas, aprendemos muito sobre as surpresas da vida. O dia de amanhã será sempre um mistério onde tudo pode acontecer! Às vezes, acordamos sorrindo e anoitecemos em prantos. Como nós não temos controle sobre o amanhã, devemos viver hoje intensamente o tempo que temos para viver, amando as pessoas, perdoando aqueles que nos prejudicaram ou ofenderam, ajudando aos necessitados, dando carinho especial para a família, dando atenção aos idosos, brincando com os filhos, enfim, tornando a existência mais bonita, nosso tempo menos fútil e nossos valores mais espirituais.

Numa existência tão curta, tão materializada e tão cheia de surpresas, só nos resta uma saída: o amor; viver bem é também aprender com as experiências amargas, é saber ganhar através das perdas, pois elas possuem uma pedagogia própria, e nos ensinam lições preciosas. A única perda irrecuperável é a perda de tempo. Quando se vai ficando velho é preciso reunir as forças que restam para aproveita-las mais viáveis ao romantismo de cantar, escrever, conversar saber do que fez e o que deixou de fazer sem as lamúrias do arrependimento.


O Parlamento - Em 09/05/2018

Já escrevi e comentei sobre o tema corrupção, não sem certo nojo e fastio, mesmo porque sua repetição continuará pelo tempo afora, até quando resolverem aprofundar uma reforma institucional que elimine, ou pelo menos tente reduzir, a influência do poder econômico nas eleições. O dinheiro move o mundo e alimenta a corrupção em seu efeito circular, atingindo a alma das instituições todas as vezes que não sofre controles rígidos da opinião pública.

Mas hoje resolvi escrever sobre a instituição Parlamento.

As instituições não são as pessoas que eventualmente as fazem. As pessoas passam, as instituições ficam, permanecem no tempo como uma necessidade da vida em comum. Elas são o fator de aglutinação, a personificação e materialização da vontade que lhe deu forma para a realização de interesses e valores humanos e coletivos. Assim, há pessoas que integram as instituições e vivem os seus ideais de maneira tão autêntica e legítima que marcam para sempre a sua passagem. Outras, no entanto, assinalam sua passagem de forma negativa, porque distorcem e traem fins e objetivos. Por isso, passam a representar maus exemplos, aquilo que deve ser evitado.

É o que infelizmente está acontecendo com o Parlamento nacional. De tanta tradição e glória, como aquela que tirou de cena dois presidentes da República surpreendidos em graves erros, vive agora uma das mais difíceis fases de sua existência. O Parlamento não é isso que aí está e as graves acusações que fazem a alguns parlamentares não é justo que atinjam a todos. E não é justo igualmente que a cena política seja reduzida ao que se vê, escuta e lê.

Conforme sabemos, a tarefa legislativa é fundamental para qualquer sociedade democrática. É no Legislativo que se devem produzir as leis fundamentais de uma sociedade, as quais precisam ser justas e benéficas ao corpo social. Não é ocioso relembrar a importância que Rousseau, no seu consagrado Contrato Social, dispensava ao Parlamento, considerando o legislador uma pessoa semidivina ou divinamente inspirada, em face da grandiosidade de sua missão, qual seja a de fazer as leis.

O que está havendo, na verdade, é, a um só tempo, abuso de poder e desvio de finalidade por parte de alguns dos envolvidos neste hediondo escândalo político. É ato de verdadeira traição à vontade popular, aos que confiaram em indignos mandatários. Portanto, é uso injusto, ilícito. Destarte, devemos ter esperança de que esta crise vai passar. Precisamos de um Parlamento forte e atuante, sobretudo ele, que no concerto dos Poderes é o único que tem todos os seus membros eleitos pela vontade popular o ideal democrático, exige e supõe cidadãos atentos e informados dos acontecimentos. Que saibam repudiar os que desservem à causa pública. Porém que também saibam separar o joio do trigo, as pessoas das instituições. Isto porque, os príncipes e suas faltas passam, mas os princípios e as instituições ficam.


Desarme-se - Em 02/05/2018

Vamos nos desarmar, não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita. Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco. Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu. Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso. Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo. É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, desarmamento seja o novo nome da paz. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro. Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados. O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos. Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução. O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Isso sem falar que o perigo das armas está entrando pela porta da frente das escolas brasileiras, levando medo e insegurança a alunos, professores, diretores e funcionários



O Pudor - Em 25/04/2018

Em passado recente, um dinamarquês, em cemitério de Copenhagen, ergueu um túmulo como protesto para simbolizar a morte do pudor em seu país, o qual havia liberado (verdadeira "legalização") a pornografia, com base na ingênua e falsa tese de que não sendo "proibida", sendo "permitida" ninguém teria interesse ou motivo mais para praticá-la, pois a tendência da natureza humana é somente fazer o que é proibido, argumentava-se.

Atualmente, com o "liberou geral", com a permissividade sexual - tudo é "natural", "não há nada demais no que se faz" - com o amoralismo dos costumes, a erotização precoce de crianças e adolescentes, com a gravidez cada vez maior entre 14 e 18 anos, conforme as estatísticas, com a transformação do homem e da mulher somente em termos de "macho" e de "fêmea" em uma sociedade moralmente decadente, não haveria estoque de material suficiente para a construção de túmulos de tal espécie ou finalidade em todas as nações pois o pudor está morto e enterrado, "sem choro e sem vela", inteiramente esquecido.

Em geral, hoje não é mais sentido nem eticamente e nem psicologicamente o denominado "senso de pudor" ou "sentimento de pudor" - o "sentir vergonha" da expressão popular -, muitos não sabem sequer o seu significado no vernáculo, ou nunca ouviram falar em tal vocábulo, outros pensam ser o mesmo pertencente a um curioso museu de palavras perdidas no tempo ou é simples termo de gramática histórica...

Fatos que ocorrem em nossos dias são bem expressivos da morte do pudor como (entre inúmeros outros) a pedofilia como fenômeno universal, usado até na internet; os crimes sexuais são mais cometidos dentro de casa, por familiares da vítima que na rua por estranhos, tanto nos países pobres como nos ricos; a apologia do adultério, a sua descriminalização (que é jurídico-penalmente o termo correto e não "discriminação", diferente ainda de "despenalização"), sustentando-se até agora, absurdamente e maliciosamente a existência de um "direito de trair" (ou" a trair"), "direito de infidelidade" (ou "à infidelidade"), no casamento(!) em nome da "liberdade" que se torna assim sinônima de "libertinagem"; o Ministério da Saúde em vez de preocupar-se com a saúde do povo (sem educação e saúde nenhuma nação será desenvolvida), está mais transformado em um verdadeiro "Ministério do Aborto" ao buscar como obsessão legalizá-lo de qualquer modo, ou então em "Ministério do Amor Livre" quando em sua publicidade subliminarmente incentiva os jovens a relações sexuais sem nenhum compromisso desde que usem preservativos.


O País tem jeito - Em 18/04/2018

A teoria do Brasil à beira do abismo é antiga. Faz mais de um século que os pessimistas dizem que este país não tem jeito. É o grupo dos catastrofistas, que usam sua literatura para decretar a nossa incapacidade de consolidar a democracia e reverter a situação de marginalidade da maioria da população.

Do outro lado figuram tipos naquela base do nossos bosques tem mais flores e nosso céu mais estrelas. Os governos costumam bancar a cena otimista e foi com entusiasmo quase juvenil que o presidente Juscelino (1956/1961) conduziu o seu programa de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Gastou-se uma fábula de dinheiro fabricado para financiar um grande volume de obras. Força é reconhecer que naquele tempo havia um clima de discussão aberta. Só que os resultados surtiram efeito negativo nas finanças, com o aumento do endividamento externo e a espiral inflacionária, agravada com a renúncia de Jânio Quadros (agosto de 1961) e a crise que desaguou no golpe de 1964.

Na verdade, otimistas e pessimistas formam o mosaico que mostra o Brasil como um país dualista, que alterna humores divergentes. Somos, como dizia Euclides da Cunha, um povo em formação ainda hoje, quase cem anos depois da primeira edição do livro Os Sertões que sofre influências negativas de políticas que privilegiam os impérios centrais. As ditaduras mais recentes (a de Getúlio Vargas (1937 a 1945) e a dos militares (1964/1985) resultaram na quebra do otimismo, gerando um deformado processo de comportamento. Só mesmo nos grotões, como escreveu recentemente o escritor Antônio Torres (autor de Balada de Infância Perdida ), ainda se encontram professoras e alunos de curso fundamental cantando hinos patrióticos.

As escolas de elite trocaram o preito aos símbolos nacionais por viagens a Disneylândia. Cantar o Hino Nacional para esse tipo de educação soa como coisa de um mundo caduco. Entre as duas posições, há sempre de lembrar que a virtude está no meio. É este o pensamento de um grande brasileiro, o sociólogo e pensador Milton Santos, para quem diante da crise brutal que marginaliza o nosso povo, vale lembrar a França dos tempos da queda da bastilha. O imperador Luiz XVI disse que não havia nada. No dia seguinte explodiu a Revolução Francesa e milhares de cabeças rolaram. A famosa cordialidade do nosso povo pode ter um limite.

A menos que o governo deixe de fazer pose para o mundo exterior e seja convertido a um programa de construção nacional. É um sonho que acalentamos desde os tempos da Inconfidência Mineira. É claro que a violência, a tragédia, a corrupção a crise Ee o comportamento de alguns ministros do nosso Supremo, estão aí na nossa cara, mas é preciso ter pelo menos uma dose de otimismo, senão de nada restará lutar para tirar do comando os delinquentes.


Era dos pulhas - Em 11/04/2018

Vivemos na era dos pulhas os mais diferenciados. Que independem de sistemas econômicos, escolaridade e renda, raça e religião, sexo e ideologia. Ilude-se hoje abertamente, utilizando os mais diferenciados meios e métodos de enganação, da praça pública à televisão a cabo, passando pela internet, ensino superior e organizações não-governamentais, alguns deles já descaradamente neo-governamentais.

Na lista dos pulhas mais destacadas, os histerismos de ideologias que já se descoloriram, religiões que oferecem mundos e fundos e homeopatias e alopatias que prometem levantar até o que amoleceu ad perpetuam rei memoriam. Para não citar o besteirol dos dirigentes da área esportiva. É chegada a hora da parte saudável da sociedade civil brasileira se manifestar, através de intensas pressões democráticas. Pela sobrevivência do nosso amanhã como nação civilizada, nunca sendo olvidada a advertência feita pela jovem Anne Frank, trucidada pelas forças da estupidez: para nós, jovens, é duas vezes mais difícil manter nossas opiniões numa época em que os ideais são estilhaçados e destruídos, quando o pior da natureza humana predomina, quando todo mundo duvida da verdade, da justiça e de Deus.

Recentemente, uma revista de circulação nacional dirigida pelo Mino Carta, através de uma reportagem - O Vulgar Para Todos - destacou a ultrapassagem de alguns limites. E quando a vulgaridade de uma classe média se amplia, perde-se o senso do ridículo, gerando irresponsabilidades sociais dos mais diferenciados calibres, para ter ibope valendo até fotografar-se se arreganhando imitando tocar guitarra. Uma classe média que já não se respeita é sinal evidente de que algo de podre está contaminando tudo, reduzindo as expectativas a um salve-se quem puder autofágico, para Bil metido-a-cavalo-do-cão nenhum botar defeito, pois já não mais se enxerga coisa decente pela frente. Para não falar dos milhões de ouvintes de rádio e televisão que se anestesiam com as infelicidades dos outros, as chifrudagens gravadas sob os olhares "furiosos" do corno fingido, não percebendo todos que tudo é muito bem programado para ampliar o faturamento comercial dos patrocinadores, alienando tudo, a família e os bons costumes. Embora à merda sempre se deva mandar os moralismos idiotas e os faniquitismos nostálgicos.

Busquemos erradicar a mediocridade dos não-pobres. Com tudo o que está acontecendo no País, afirmo que o cidadão brasileiro que não se angustiar com o que está acontecendo, é cínico, cúmplice ou sofre de dislate cívico. Governador preso, ex-Presidente, Prefeito e vice-prefeito sendo enchilindrados por descarada falsificação, bolsa-família beneficiando milhares de não-pobres e nepotismo descaradamente praticado e justificado diante de milhões de brasileiros. São os pulhas sendo desmascarados.


Caráter das elites - Em 04/04/2018

Temos sido convocados, neste nosso país, em seguidas e sucessivas gerações, ao longo de mais de um século, a uma luta incessante, política e institucional, para tentar impedir, quem sabe! um dia derrotar, o abuso, a trapaçaria, a fraude, que se repetem, aqui e ali, no processo eleitoral, impunemente.

Para a organização e ocupação dos poderes do estado todo embuste tem sido possível. Vem de longe essa incapacidade nossa de resistirmos, instituições e homens, à barganha que se instala, voraz, visando à conquista do exercício do poder e do governo. É verdade que demos, vez por outra, alguns passos importantes. Mas, ainda hoje, vivemos, infelizmente, a indignação e a vergonha de constatar que a Nação continua distante da qualidade da representação política, a que aspira, que a honre e a sirva. De tal forma que um abismo enorme se tem criado entre a credibilidade pública e a prática da atividade política.

É como se fora, num caldeirão de mazelas, a mistura irrefreável de interesses, conveniências, e prevaricação, e violência, afastando-nos, permanentemente, do objetivo de ordenar uma sociedade com instituições democráticas, decentes e justas. Esses obstáculos nos acompanham desde o Império e vêm atravessando a República. De um lado, relações sociais, que remanescem, perversas e arcaicas, impondo discriminações civis e econômicas da natureza mesma da velha sociedade escravocrata, ultrapassada; de outro lado, impedimentos que estão no caráter das elites inescrupulosas, dominantes, no coronelismo fanfarrão e atrasado, no aventureirismo ambicioso, sem fronteiras e sem pátria, que logram estabelecer-se na direção da política e dos negócios.

Por isso, a rigor, nunca vivemos a Democracia. No sentido da formação e constituição de uma sociedade de cidadãs e cidadãos, nunca a tivemos. Instituímos, simplesmente, um regime de eleições, mais ou menos complacente, velhaco mesmo, para dar forma e modos ao sistema aparente de sufrágio universal, soberania popular e garantias individuais, que o atual bom tom, da contemporaneidade moderna e global, exige e proclama. Sem compromissos éticos, nem compromissos com as famílias, as pessoas, o ser humano.

O vendaval da história varreu o estilo. Mas ficou, infelizmente, o miolo depravado, licencioso, que permanece envenenando a representação política republicana. A fraude não pode vencer. A ideia de justiça não pode submeter-se, nos tribunais, à liturgia que esconde a verdade eleitoral e tudo ajeita, oportuna, para deixar vingar a contrafação. As instituições judiciais eleitorais não podem, pela omissão, que o atalho do rito processual oco, descomprometido, registra, repetir a façanha suja da "verificação de poderes".

A Nação não quer a mentira, e portanto não quer a passividade, a complacência, ante a corrupção eleitoral, que a avilta. Por que Justiça Eleitoral? Para quê?

A corte contaminada - Em 28/03/2018

Estranhamente, cala-se, de modo ensurdecedor, o Poder Judiciário brasileiro. O que o Supremo Tribunal Federal julgou na ultima semana, dando salvo conduto para que Lula não seja preso até dia 04 de Abril não precisa de mais nada para se desmoralizar. Desmoralizou-se. A Lei Lula acaba de ser criada pelo Supremo Tribunal Federal. Não interessa se provisória ou não, se valerá apenas enquanto os ministros desfrutarem do feriadão da Semana Santa. Mesmo negado pela turma do Tribunal Federal, os últimos recursos. Ela foi criada.

Há mais de dois anos desfilam nos principais jornais, rádios e televisões do País denúncias e comprovações de corrupção, as mais variadas e sortidas ramificações em inúmeros e diferentes segmentos da nossa sociedade. Toda a nossa corte está contaminada de ladroagens, cinismos, omissões, mentiras, e o silêncio inexplicável do mais alto poder de justiça nos espanta. Salvo manifestação em concessões de habeas corpus a bandidos de colarinhos brancos, para que os mesmos, de caras lavadas, gozem das caras sérias de todo brasileiro.

É mensalão em todos os cantos e recantos de nossos poderes - imaginem em outras paragens. É no Executivo, Legislativo e, esperamos, seja dado um sacolejo também no Judiciário. O que ocorreu no nosso Supremo Tribunal Federal quando do episódio do julgamento do Habeas Corpus de Lula, foi patético. Patere legem quam facisti (Respeite a lei que fizeste). Esquisito, não? E logo se trancaram aqueles onze vestais na mais precisa eutanásia da coragem e personalidade reinantes em suas vidas, gerando para todo povo brasileiro um arrepiante descrédito naquele Poder e, como sequela, um desabonador silêncio para a Nação.

Nunca o silêncio dos inocentes, mas aquele mistificado como resguardo comum a detentores de caras lisas. É bom nem imaginar que o tal mensalão da compra de votos e favores criado nas tapadeiras do PT e nas ante-salas do Planalto possa ter atingido as barbas daquela imponente e respeitável instituição. Ou chegaremos ao fundo do poço.

E agora? Tem bububu no bobobó também em tudo que é órgão oficial, empresas estatais - economia mista ou fundação, enfim, atingindo todas as veias sociais, populares, sim sinhô. Quadrilhas de apostadores, eletrônicos ou virtuais, cibernéticos ou robotizados, pouco importa. Juízes comprados para mudar resultados de jogos, fazendo a torcida de boba, jogadores de corpos-moles, técnicos burros, e pior, jogando toda a classe de árbitros à galhofa pública e, de agora em diante, passiva da mínima fiscalização. Embora, é bom lembrar, que essa tal compra de juízes de futebol vem de muito tempo atrás.

A verdade é que a gatunagem é incrível no nosso solo pátrio e a corte brasileira está encurralada. E, quase esqueço, quanto ao nosso Melo.. Este é de todos os Ramos.


O medo - Em 21/03/2018

O medo, transformado em pânico, ajudou a destruir Cartago. O medo, transformado em pânico, pode acabar com o que resta de civilização. Se o medo não for derrotado, os terroristas, mesmo que tenham morrido todos, já terão vencido a guerra.

Ao tratar, em um de seus ensaios, do medo que se apossou de Cartago, Montaigne o descreve como "une merveilleuse desolation", uma desolação sobrenatural. Diante do medo, destaca o grande pensador, até a morte é mais suave: para dele fugir, os homens enforcam-se, envenenam-se, afogam-se. Ou buscam o abismo, como, no desespero, acossados pelo fogo, muitos saltaram do alto das torres de Nova York. Atribuem a César (e o que não lhe atribuem?) a frase forte contra o medo, quando o advertiram dos sinais aziagos de seu último dia: o homem de coragem morre uma só vez; o covarde, muitas vezes.

No Brasil, especificamente, a nova fase de modernização capitalista teve impactos consideráveis sobre a vulnerabilidade social urbana. O tráfico territorializado de drogas avançou, criando localidades praticamente fora do controle do Estado. O aumento das desigualdades sociais configurou uma crise de grande envergadura que contribuiu para a deterioração das relações de sociabilidade e de confiança, ampliando a segregação e o medo.

A nós, brasileiros, bastam-nos os nossos próprios e bem instalados medos. Há muitos anos que convivemos com o medo das ruas, o medo da noite, o medo das esquinas, o medo até mesmo de nossos guardiães, oficiais ou privados - além do medo do desemprego, que apavora mais do que a morte (muitos são os desempregados que se suicidam), o medo da fome, o medo da miséria. Em alguma coisa, no entanto, o medo é justo: ele atinge ricos e pobres, embora atinja mais os pobres do que os ricos.

Os pobres não podem pagar seguranças nem erguer altas muralhas em torno de seus barracos; estão impedidos de blindar seus carrinhos, quando os têm; devem enfrentar a viagem nos ônibus sujeitos aos assaltos todos os dias, a caminho do trabalho e de volta a casa. No trabalho dependem do humor de seus capatazes, e amanhecem, a cada dia, sob o medo de receber o aviso prévio de dispensa. Mas os ricos também se apavoram: sua fortuna, sua opulência, sua soberba são também orgulhosas torres, alvos visíveis e atraentes.

O presidente da República ao decretar intervenção federal na area de segurança do Rio de Janeiro, fez mais uma bravata, não será o exercito com tempo determinado que irá acabar com a bandidagem do Rio e consequentemente com o medo da população. Em Manaus, não há um dia sequer em que não haja pelo menos dois homicicios e um numero incalculável de assaltos em ônibus e ruas. Hoje não há quem saia de casa com o medo de não retornar.


Belo sonho de vida - Em 14/03/2018

Posto que a morte é inevitável, como deveria ser a vida, para o homem comum?

Do ponto de vista financeiro, não, claro, a obsessão pela acumulação de bens e riquezas, luxo e ostentações, que ninguém levará consigo quando o dia fatal chegar. Sim, alguma base material para viver uma vida digna e com um recatado conforto, sem grandes atropelos, até com uma pequena folga para se permitir, de vez em quando, um modesto passeio pelas belezas deste mundo.

Do ponto de vista profissional, sobretudo a integridade do comportamento, qualquer que seja a atividade exercida: que ela seja praticada de forma reta, altiva, honesta, sem subserviências desmoralizantes, sem falsidades, sem precisar se vender, sem se corromper, sem "mensalões" ou "mensalinhos".

Quanto à duração, que a existência fosse longeva, avançasse pelos anos, mesmo o corpo ficando encanecido e brancos, os cabelos. E visse, em derredor, a família bem constituída, nutrida de sólidas afeições recíprocas.Tropeços, decepções, quedas, deslizes, atritos, que existência humana poderá se declarar completamente preservada dessas turbulências?

Essencial terá sido a certeza, a cada crise renovada, de que o que os unia era muitíssimo mais forte do que tudo quanto conspirasse para desagregá-los. E ver a fecundidade da vida, não só os filhos brotando, crescendo na alegria e na abnegação de um lar bem estruturado, mas também brotando os filhos dos filhos, e até filhos dos filhos dos filhos, todos com alguma segurança, não só a relativa, material e financeira, mas sobretudo a fundamental, emocional e afetiva, pela presença e apoio de uniões igualmente consistentes e entrosadas.

E chegar a tal idade avançada, com os achaques inevitáveis, é claro, mas com razoável lucidez, com a capacidade de ainda discernir, em torno, o generalizado júbilo, e sentir, em todos, a gratidão e o carinho - tais e tantos e tamanhos que seria competição absolutamente impossível querer identificar entre os netos - todos já integralmente criados, quase senhores absolutos dos próprios narizes - qual o mais presente ou qual o que mais o amava.

À noite, dormindo, sem nenhum aviso prévio, exatamente como ele mesmo desejava, e integralmente realizado o sonho da vida longeva e vivida com simplicidade e retidão, respeitado e amado pelos filhos, idolatrado pelos netos e bisnetos, - aos sobreviventes que ficarem, por mais desolados que estejam (como não poderia deixar de ser), só restará reconhecer que aquela foi uma vida abençoada, foi uma graça de Deus, graça a poucos, a muito poucos concedida. E desconfiar, no mínimo, que ganharam no céu mais um intercessor, porque, entre esses familiares felizes, "a separação é impossível", seja aqui seja além, "o amor é infinito" e "os laços que os unem são indestrutíveis".


Mulher - Em 07/03/2018

Durante mais de vinte anos escrevendo em jornais de nossa cidade seria natural coincidir escrever, no dia Internacional de Mulher. Já fiz vários artigos enaltecendo a mulher, mas hoje queria antes de homenagea-las, lembrar como precisamos da nossa afetividade com as mulheres e com o mundo, para que possamos ver os tons do arco-íris, o som da chuva, a poética da lua, a vida nos olhos do outro, a generosidade da flor que se abriu, a dor do irmão que sofre, a carência do filho que chora. A vida tem pressa e ontem já se foi.

As mulheres desse século terão uma vida média de 75 anos. Até o século 19 a média de vida das mulheres era de 40 anos de idade. A mulher, em sua evolução, não perdeu a sua característica de concha, de afeto, de carinho, de porto seguro tão necessária no relacionamento humano. No Dia Internacional da Mulher quero, ficticiamente, implantar uma lei que representa a modernidade da nova mulher... "As mulheres que completarem 50 anos ou mais no século 21 terão direito, sob o ponto de vista biopsicossocial, a um abatimento de 20% na idade cronológica". Cumpra-se.

Mas, eu quero ainda neste momento, falar-lhes de uma mulher muito especial. De uma mulher que tem os predicados e virtudes das mulheres bíblicas. De uma mulher que tem o coração bondoso como o de Catarine. De uma mulher que tem oportunidades fantásticas na vida. De uma mulher bonita interior e exteriormente. Sua beleza é diferente de todas as outras. Ela é admirada e elogiada. De uma mulher que venceu com dores especiais para ser uma vencedora nas batalhas da vida. De uma mulher muito talentosa, que tem oportunidades de a cada dia desenvolvê-las no lar e na sociedade.

Eu quero falar desta mulher, porque sua vida me empolga. Sua vida é um presente de Deus. É uma mulher de fibra de garra, lutadora, que também sofre e muitas vezes chora, mas tem sentido no seu dia a dia o conforto de Deus. Uma mulher que na jornada até aqui, tem convicção de que Deus a carregou nos seus poderosos braços para poder superar os traumas de infância.

Caras leitoras, realmente esta mulher, você irá conhecê-la lendo este artigo que está em suas mãos. E neste artigo você irá ver a fotografia desta mulher. Esta mulher é você! Esta mulher de oração e ação que foi criada a imagem de Deus. Minhas caras, olhe para você mesma, faça uma auto-análise de sua vida, veja que linda história, existe em você, o quanto poderá ainda fazer e o quanto Deus tem feito por você. Muitas coisas maravilhosas já fizeste, mas muito mais ainda poderá fazer. Parabéns a todas as mulheres pelo seu dia.


Sina inevitável - Em 28/02/2018

Os sequestros e suas torturantes modalidades; homicídios em linha desafiadoramente ascendente; "clonagem" de cartão de crédito; quadrilhas especializadas em saques eletrônicos e fraudes afins; corrupção em todos os níveis nos poderes públicos: o cenário social brasileiro é de pura desesperança, dada a onipresença do fenômeno do crime a demandar prementes soluções políticas para a sua erradicação ou, ao menos, para obrigatória diminuição. A vitimização diuturna imposta a toda uma apavorada sociedade retira, lamentavelmente, o caráter de excepcionalidade do fato delituoso, para convertê-lo em mero lugar-comum nas relações sociais do cotidiano, tudo pela sua continuidade apavorante que impõe a todos um pseudo estado fleumático, mais de medo e perplexidade, ressalte-se, do que complacência. Parece que conviver com o espectro do crime a rondar os mais comezinhos hábitos da população tornou-se a sina inevitável das pessoas: fomos ou seremos as próximas vítimas. Assombrosas e apocalípticas estatísticas criminais revelam o recrudescimento desmesurado da violência nas metrópoles, como também em longínquos e pacatos distritos interioranos, onde outrora e raramente a quietude do lugar era surpreendida por um delito isolado, no mais das vezes de natureza passional. É patente que os finais de semana e feriados transformaram-se em autêntica guerra civil, face aos morticínios e avalanches de roubos. Os inúmeros programas televisivos unicamente voltados para a temática do crime atingem grande audiência, mormente quando veiculados em "horário nobre", e alguns, como que substituindo a obrigação estatal de persecução de periculosos delinquentes, contam com a interação e o concurso dos cidadãos espectadores para um ofício de ordem eminentemente público: identificar, através de fotos repetidamente mostradas, o paradeiro daqueles que o Estado policial já perdeu de vista. Conduta juridicamente punível, fato é que o crime está se tornando um episódio banal em nossas vidas, dada a repetição de sua prática por um rol de homo violens dos mais diversos estratos sociais, importando no correspondente descrédito do povo quanto aos mecanismos institucionais de sua prevenção, controle e punição, sendo certo residir neste intrigante aspecto a grande problemática da sua erradicação, pela desproporção mesma da adoção de políticas e investimentos públicos específicos sempre aquém do mínimo tecnicamente necessário, daí o florescimento e multiplicação de empresas particulares de segurança. E não adianta criar Ministério de Segurança Pública, porque os criminosos não estão preocupados com estrutura hierárquica.


Acomodados e esperançosos - Em 21/02/2018

O escritor Artur da Távola lembra que o brasileiro traduz o resultado da mistura de acomodação com esperança. Os ingredientes que compõem a alma nacional já foram decantados em prosa e verso, constituindo-se uma permanente característica de nosso povo. Em princípio, não devemos lastimar nosso espírito pacífico e nem a vocação para a esperança. Decorrentes de herança cultural e da indecisão em construir o verdadeiro destino da Nação. Avaliar as contradições existentes parecer ser o melhor caminho para um dia poder superá-las. Em contrapartida, possuímos o privilégio de ser um povo alegre. Uma capacidade imensa de esquecer problemas e de vivenciar as sugestões do momento, colocando em segundo plano as angústias permanentes e os desafios que nos aguardam. Prevalecem as lições da sabedoria - procurar desfrutar dos ocasionais motivos de alegrias e das boas emoções que acontecem sem avisos. Despertando em cada um a arte e a consciência de que tudo passa e o tempo apaga todos os fugidios valores. Já se tornou didática a recomendação de que sem o autoengano a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Daí a necessidade de se criar sempre ilusões. Os realistas enxergam a gravidade dos fatos, medem as angústias e se desesperam pela falta das soluções. As ações do governo decepcionam a população. Fabricam mentiras, exigem sacrifícios e deixam de fazer a sua parte. Menosprezam o entendimento da sociedade e contam com a certeza de que logo as injustiças serão esquecidas. Superadas por novos assuntos ou pelas novas tragédias. A imoralidade do teto salarial que permite a acumulação de altos vencimentos estabelece privilégios inaceitáveis. Agride o imenso contingente de funcionários e trabalhadores que amargam um período de cinco anos, de dificuldades e congelamento de salários. O valor do salário mínimo não desperta nas autoridades o mesmo ânimo de interesse. O Ministério da Previdência expõe reflexos em seu orçamento. No entanto, o INSS não declara que paga apenas parcialmente a maioria das aposentadorias, não obedecendo à proporção do teto das contribuições recolhidas. O escritor Antônio Maria legendariamente registrou - brasileiro, profissão esperança. Os detentores do poder exploram a boa fé dos cidadãos e acham que tudo podem fazer e enganar. Inclusive a condenável manipulação das verbas públicas. O governo atua fortemente para não atualizar o salário do trabalhador nem recuperar as perdas dos vencimentos do funcionalismo. Mas, não penaliza as ambições das lideranças políticas que desviam recursos e desfalcam o patrimônio moral da Nação.


Carnaval e costumes - Em 14/02/2018

O que escrever numa quarta feira de cinzas, nada a não ser sobre carnaval. Confesso que este ano fiquei alheio a todas as bandas e blocos, mas vi pela televisão. O carnaval que hoje faz a gente imaginar não sejamos, na realidade, principalmente pela sua causa, considerados por muitos como país da libidinagem, para não dizer país por certos períodos do ano endemicamente devasso. Não se pode negar que nesses dias destinados ao império do rei momo, não se observe que realmente confundimos a liberdade de comportamento com a mais inescrupulosa licenciosidade nos costumes, nas expressões, e nas manifestações lúdicas.

A prática apelativa e escancarada do fluir dos instintos desregrados toma, agora, o lugar da espontaneidade admirável que caracterizava a manifestação festiva dos grupos humanos dos anos 50 e 60 por exemplo. Por volta dessa época, sem dúvida se externavam padrões de dignidade carnavalesca muito menos ostensivos, muito menos vergonhosos e sem o nível de baixaria como hoje se veem. Ora, acho que naqueles tempos, acreditava-se não ser normal nem lícito o uso de liberdade do instinto lascivo em detrimento, ou com acinte, aos princípios da moralidade pública universalmente aceitos. Os costumes calcados em tal pseuda liberalidade, ainda que seguidos por maiorias nacionais, não significam que possam ser justificáveis. Na verdade todo e qualquer hábito ou costume somente tem livre trânsito, em termos de viabilidade de existência, desde que tenha ele por concessão da sociedade soberana o seu respectivo salvo-conduto da decência. As referências a nossa nação, maldosas e arrogantemente dúvidas no exterior, debochando de nosso país como o país do carnaval e do futebol, teriam de ser rechaçadas, contestadas com argumentos defensivos e esclarecedores. É de nossa obrigação fazer oposição e abjurar tal infâmia, não exercer atitudes de completa indiferença, através do silêncio comprometedor e desdenhoso. O carnaval e o futebol afinal são manifestações comuns aos povos de grande número de nações, consequentemente não seria por isso que se fundamentariam críticas como se, por sermos adeptos de tais práticas, com tanto fervor, seríamos povo menos digno da civilização.

Enfim, o que não nos recomenda, apesar de ser direito democrático, é essa liberação abusiva, de um ano após o outro dessa demonstração de verdadeira lascívia, durante os três ou quatro dias em que a orgia toma conta dos costumes. Se a exposição fosse apenas de corpos nus ou seminus não seria nada, tolerar-se-ia, mas a ostentação de libidinagem, sem nenhum outro intuito que não para provocar o instinto sexual, não se vê absolutamente viabilidade de com isso a gente contemporizar. Parece que sob o impulso de tal estado de ânimo perde a vez qualquer tentativa de refreio das paixões.


Que tiro foi esse? Em 07/02/2018

Desanima o escritor saber que a maioria das pessoas, independentemente do nível socioeconômico, nada lê e que no universo dos leitores ativos poucos se debruçam sobre textos de boa qualidade. Até na universidade é expressivo o número dos que lêem sem conseguir entender textos de pouca complexidade expositiva e argumentativa. Bombardeados por apelos visuais irresistíveis, crianças e adolescentes resistem cada vez mais à leitura e começam a ouvir péssimas músicas. O insinuado, o dedutível, o que vai além do literal banal, fica mergulhado nas sombras da incompreensão. Por conseguir detectar no texto apenas o pouco que já sabe, o leitor deixa de com ele aprender alguma coisa. Daí a leitura despontar como algo tedioso, uma sopa de palavras sem encanto e sem a dimensão de um espaço de reflexão capaz de ensejar uma fecunda interação entre o autor e o receptor.

Se formos falar de referência também da música, aí é que a coisa pega. Se lembrarmos cantoras como Elis Regina, Maria Betânia, Carmem Miranda, Gal Costa, Ângela Maria, Nara Leão, Clara Nunes, Maysa, Beth Carvalho, Simone, Ana Carolina, Elza Soares, Dalva de Oliveira, Zizi Possi, Zélia Duncan, Maria Rita, Emilinha Borba, Isaurinha Garcia, pra ficar em apenas algumas, tínhamos letras e músicas maravilhosas. Mas aqui pra nós, colocar a cantora Anita como símbolo sexual do Brasil e chamá-la para ser a cantora com mais capacidade para representar nosso país, passa da exploração sexual para a idiotização.

Dizer que isso é letra de musica: Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, an an Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, an an Tá pedindo, an, an Se prepara, vou dançar, presta atenção An, an tutudum an, an Cê aguenta an, an Se eu te olhar Descer, quicar até o chão", é brincar com a musica brasileira, jogando seus vômitos para uma população que não tem senso crítico, uma população medíocre que escuta estas baboseiras só porque todo mundo escuta.

Chega disso!

Vamos aprender a filtrar o que a gente escuta por aí e apreciar as músicas boas! Vamos deixar essa mediocridade apenas para os que insistem em ser medíocres! A sensibilidade artística é algo que está se tornando artigo do luxo no mundo de hoje. Por isso que estamos vivendo essa decadência da música. Quase todos só querem ouvir músicas internacionais. Não estou condenando as músicas internacionais, não é isso. Eu também escuto muitas. Eu estou questionando aqueles indivíduos medíocres que pensam que as únicas músicas boas são as internacionais. Eu fico muito triste ao ver tanta gente que não se abre para conhecer melhor as músicas nacionais. É uma pena. Essas pessoas estão deixando de apreciar uma beleza magnífica.

Epa, que tiro foi esse?


A temida prova - Em 31/01/2018

Estão vivos em nossa memória os absurdos que, em outros tempos, se cometiam nas provas de concursos públicos, em nosso país. Nelas, nada havia o que pudéssemos definir como politicamente correto, pois, na verdade, eram arapucas apelidadas de provas. Muitos candidatos, coitados, preparavam-se à exaustão para a maratona de Português e Matemática, davam-se bem nas duas disciplinas, e depois morriam na praia. É que um bicho-papão, assustador e indomável, já os espreitava de longe, pronto para sugar-lhes os pescoços. Era a temida prova de datilografia, capaz de humilhar o mais competente dos candidatos, dado o natural nervosismo do momento. É fácil avaliar a estupidez do esquema então em voga. Ora, se o concorrente vencera etapas difíceis nas duas provas consideradas pesos pesados, é porque possuía razoável bagagem de conhecimento específicos. Além disso, como exigir datilografia como prova eliminatória, se uma percentagem ínfima dos aprovados seria escalada para esse setor? Mas ninguém reclamava, ninguém protestava; alguns até achavam aquela trapalhada um charme... Já imaginaram quantos talentos tiveram sufocados seus projetos de vida profissional por obra e graça desse desqualificado sistema? E quantas boas cabeças o serviço público terá perdido? Quanto à prova de Língua Portuguesa, propunham-se questões que hoje soariam como verdadeiras piadas. Ficaram para a posteridade algumas charadas de pontuação, lúdicas e chamativas, a exemplo do hilariante um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro , ou do não menos terrível Maria sua mãe grita ela traga-me a toalha . Extravagâncias desse calibre, aliadas à pífia exigência de se saber o gentílico de Quebec, Beirute, Jerusalém etc., costumavam pregar uma peça em excelentes candidatos e jogá-los na rua da amargura. Nem tudo estava perdido. Depois, o barco singrou águas serenas até certo tempo, pois nasceu uma lógica para a elaboração das provas. Eis que, desgraçadamente, surgiram as ondas revoltas do contra-senso. Os conhecimentos lingüísticos ficaram à deriva ou foram sumariamente arremessados à praia como excrescências. Instalou-se o império da interpretação/intelecção (êta palavra bonita!) de textos. Examinando gabaritos de concursos, tenho encontrado coisas do arco-da-velha. Nas questões relativas ao texto, não são raras as perguntas capciosas, aquelas que sugerem até três opções corretas. Também é possível flagrar sandices como: Em que estaria pensando o autor quando, no parágrafo tal, ele afirma que... Vejam só: em que estaria pensando o autor ! Pode haver incoerência maior num teste em que estão empenhados a competência e os conhecimentos de um candidato? E o desentrosamento das unidades exigidas pelo programa das provas? E as agressões ao português... no programa de Português?...



O que é ser velho - Em 24/01/2018

Outro dia fui abordado por um amigo de longas datas, com esta pergunta: Você se considera um velho? Pasmei por alguns instantes e o respondi que não, visto que a vida é linda e a velhice não é coisa inesperada é o resultado das mais diversas fases da sua existência desde o nascimento, crescimento, até chegar à idade adulta, mesmo se notando na nossa face, todas as manhãs, sinais inexoráveis da marcha do tempo refletido através de um espelho. No meu conceito de velhice, assim me expresso: "Você é velho quando se renova a cada dia, quando tem projetos e olhos postos no horizonte, quando seu calendário tem manhãs e quando tem as rugas marcadas pelo sorriso".

Velho e velhice, são palavras de conteúdo e peso psicológico terríveis sobre a mente humana, em particular do idoso que se acostumou a vê-la, ouvir e chegar. Envelhecido e sem condições físicas de desfrutar na sua totalidade da recompensa, já se considera velho, e essa velhice cria-lhe problemas diuturnos e crescentes.

Assistimos, nos dias atuais, ao homem que, no maior dos desafios, civilizou-se, e, pela evolução do seu saber, conhece a si mesmo. Dentro dos seus conhecimentos, conseguiu dominar os fenômenos da natureza, culminando com a conquista do espaço sideral, controle das doenças após estudos das mais diversas áreas do corpo humano, chegando a um limiar, onde transplantes de órgãos têm salvado muitas vidas.

A descoberta do genoma humano é o máximo dessas descobertas, quando é possível se conhecer o que passa no interior das células que formam nosso universo corporal. Mesmo assim, esse homem sábio de conhecimento, desgraçadamente ainda sofre ao invés de regozijar-se na última fase da vida cheia de problemas diários pelo estresse que é acometido, vivendo um calvário de tensão imposto por uma sociedade mercantilista, ao inverso dos nosso antepassados que formavam populações isoladas e que sobreviviam por meio de hábitos saudáveis e por isso viviam mais esperando a morte dentro de um limiar de tolerância e não culminando com estado mórbido, como se vê na geração nossa.

Enfim, viver é envelhecer. A cada instante insensível e irreversivelmente à ação do tempo vai se fazendo sentir sobre o organismo humano, construído na época da concepção, do crescimento e do desenvolvimento. O tempo passa pela ação deletéria a partir de certa idade. O efeito é o encurtamento da existência a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, se não para evitar tal desfecho, pelo menos para ampliar a expectativa de vida. Tenho por hábito dizer que a vida é um sopro.



Reflexão sem televisão - Em 17/01/2018

Queria propor às pessoas peo menos de Manaus e do Brasil, que desliguem as suas televisões por uma semana no ano e tentem refletir sobre a vida ansiosa e apressada que vivem. Uma semana inteira sem notícia, novela, reality show, futebol, propaganda, nada. Esqueçam-se, que a televisão existe e promete colocá-los a par com o Mundo a todo instante durante todo o dia. Acredito que uma semana sem televisão pode mudar a vida das pessoas, revelando a elas outras formas de viver e, nos casos mais dolorosos, o quanto a vida tornou-se vazia e enfadonha com as tantas horas de televisão que aceitamos, submetidos à ditadura da imediaticidade.

Não estou convencido que poderemos refletir sobre a vida, mas concordo que uma semana sem televisão pode levar as pessoas a uma reflexão sobre o que fazer com o tempo disponível. Há uma pesquisa do professor Jeffrey Johnson, da Universidade de Colúmbia, publicada na Science, em que mostra a acentuada relação entre a programação da televisão e o comportamento violento de quem a assiste, crianças e adultos. Antes de falar da programação da televisão, ou condenar a televisão como meio de comunicação perverso, manipulador e invasor de privacidades, imaginei que há por trás desse plano de agonizar as mentes e colocá-las merce da propagação de idéias desagregadoras, um componente ideológico, ditado pelo mercado: a audiência.

Tudo é medido pela quantidade de gente que está vendo e pouco se discute sobre o que é visto. Se muita gente está assistindo, então continua, e imagina-se que, justo porque muita gente está assistindo, deve haver uma razão de identificação. Só me pergunto o que leva um povo, considerado cordial e humilde, a querer ver tanta violência, imersão na privacidade alheia e mergulhar em provas de desafios onde prevalecem o grotesco e a animalidade. A primeira resposta me parece conhecida: estar na mídia implica ser cultuado como celebridade e esta condição leva à riqueza. Só me pergunto se os produtores populistas, captadores do desejo e dos anseios populares, no uso de suas arbitrárias intuições do que tanto quer ver o povo, não poderiam tentar algo menos próximo das necessidades básicas do ser humano.

Desligar a televisão por uma semana é fazer a audiência cair, é colocar uma chaga de contestação nas programações. Mas, espere aí, por favor: na programação da televisão também há momentos de entendimento do mundo onde vivemos de uma maneira menos caótica. Talvez não precisemos desligar a televisão, mas escolher o que queremos ou não ver e decidir o quanto necessitamos estar vidrados por dia, colocando em xeque "Madame Audiência". Quem sabe, desligando por uma semana, dê para arrumar a cabeça.



Faltam vozes altivas - em 10/01/2018

Há uma crise abalando os alicerces da Nação. É tempo de instaurar um diálogo construtivo entre os partidos políticos e a sociedade e sair das brumas de um entardecer para despertar um bom-dia brasileiro. Os grandes intérpretes da vida nacional sempre disseram que o mal do nosso País é o marginalismo das elites dominantes, que vivem submissas ao mundo exterior, limitando-se a copiar leis e instituições alienígenas. O copismo legiferante produziu um país injusto. Os guias da nacionalidade são conhecidos. A lição dos jesuítas nos primórdios da terra de Vera Cruz e a epopéia dos bandeirantes (Raposo Tavares, Garcia Paes, Bartolomeu Bueno e Fernão Dias) demarcaram os limites do Brasil, tornando letra morta o Tratado de Tordesilhas. Mas não deu para transformar em realidade os sonhos de Frei Caneca e Tiradentes. O clarim da independência não frutificou em justiça social. A única saída é retomar os princípios fundamentais da nossa história. Se olharmos à nossa volta, veremos que faltam vozes altivas e competentes, como ouvimos de Bernardo Pereira de Vasconcelos e Honório Hermeto Carneiro Leão, e a presença marcante de um novo Mauá na luta pela emancipação econômica. Tampouco temos a visão de um Rio Branco na política externa. Falta-nos um ideário nacional. Nossos eldorados são coisas do passado. O ouro de Minas foi carreado para um dos países que lançou as bases do turbocapitalismo neoliberal. Sérgio Buarque de Holanda, em seu notável livro Visão do Paraíso, lembra esquecida página de Caio Prado Júnior: Na realidade nos constituímos para fornecer açúcar e tabaco, mais tarde ouro e diamantes, em seguida algodão e café para a metrópole européia. Não mudou muito. Uma nova etapa está em andamento e terá seu epílogo no grande comício eleitoral de outubro. Já passou da hora de conhecer os planos dos candidatos presidenciais. Aqui e ali há trechos com o evidente propósito de abrandar um choque com as forças que dominam o mercado, ao dizer que alterações na proteção à produção nacional não implicam, contudo, o fechamento da economia, nem tampouco devem promover a ampliação do grau de monopólio e de margens de lucro das empresas instaladas no país. Lembro agora uma frase de Joaquim Nabuco: Se dos moderados não se podem esperar decisões supremas, dos exaltados não se podem esperar decisões seguras. Mudaram apenas os personagens, mas a situação é idêntica. Em que pese os avanços sociais e se diga que vivemos em um Estado Democrático de Direito, continuamos sem a tão sonhada liberdade. Se no passado, como os militares, não tínhamos vez e voz, agora no presente, quem nos silencia são os bandidos. As favelas do Rio (sempre o Rio!) são exemplos vivos de que o cidadão nada pode quando o Estado-traficante não permite. Jacarezinho, Vidigal, Providência, são lugares com mais de meio milhão de habitantes dominados e aterrorizados ao ponto deles não saírem de casa ou irem à escola se o tráfico não permite. Aqui no outro Rio, o do Norte, a cidade passou horas e horas em poder de bandidos que, ao final pegos alguns, foram soltos pela Justiça. Sem contar que nos dois Rios (de Janeiro e do Norte) tem policiais à beça envolvidos no mundo do crime. Para não ficar só nesses dois Estados, no Espírito Santo, a maior quadrilha é dirigida pelo presidente da Assembléia Legislativa e por um coronel da Polícia Militar. E Em Manaus? Basta ver quem está preso.


Fábulas e verdades - Em 03/01/2018

Algumas pessoas pensam que nasceram para serem admiradas. Querem, a todo custo, serem notadas pelas virtudes que têm ou pensam ter. No livro "O Pequeno Príncipe", um dos personagens que aparece é o vaidoso. Ao receber o Príncipe, não se faz de rogado e ordena logo os aplausos para si. Mesmo não existindo mais ninguém no planeta, além dele, quer ser o mais bonito, o mais inteligente, o mais rico... Decepcionado, com tal recepção, o Pequeno Príncipe foi se embora. Não estava disposto a aplaudir apenas para satisfazer o ego alheio.

Na mitologia grega, todos conhecem, a estória de Narciso. De tão encantado, com a própria beleza refletida no lago, acabou se afogando. Ao ler a estória, a gente pensa: que pena! Um jovem tão bonito e uma morte tão feia... Infelizmente, esta parece ser a sorte reservada aos vaidosos. Algumas pessoas não conseguem ver nada mais, além de si mesmas. Não conseguem trabalhar em equipe, nem colaborar com os outros. Sobre o pedestal onde se postam, só querem o perfume do incenso alheio.

Jean de la Fontaine, em uma de suas fábulas, relata-nos a estória da raposa e do urubu. Após comer um bife, "bem passado", o urubu segurava um grande pedaço de queijo no bico, enquanto descansava no alto de uma árvore. Uma sábia raposa, entretanto, aproximou-se dele dizendo: Estou sabendo! Disseram-me que você tem o canto mais lindo da floresta! Pena que ainda não tive o prazer de ouvi-lo, completou com olhar de aparente tristeza. Diante de tal elogio, o urubu estufou o peito e começou a cantar desajeitado. O pedaço de queijo caiu direto na boca da raposa que saiu correndo pela floresta.

Hoje, muita gente, ainda perde o queijo por causa da vaidade excessiva. Quantos profissionais deixam de crescer e se especializar pensando que já sabem tudo. A vaidade, nesse caso, leva à morte do profissional. Um mercado competitivo, como o nosso, não tolera muito os urubus...

Outra fábula que li, quando criança, dizia que o pavão era a ave mais vaidosa da floresta. As penas de sua cauda, quando agitadas, provocavam um espetáculo de rara beleza. Mas, como nada é perfeito, o que sobrou em seu rabo, faltou em seus pés. Os pés do pavão causava escândalo de tanta feiura. Por causa disso, o pavão levantava o rabo, não tanto para mostrar sua beleza, mas para esconder a feiura dos próprios pés.

O vaidoso, ao que parece, quer muita atenção sobre si, também para esconder as lacunas de sua personalidade e a miséria real na qual se encontra. Numa organização, o "sucesso pessoal", quase sempre é resultado de um esforço coletivo. Para que o piloto vença a corrida, não podemos ignorar o papel do mecânico, ainda que ele não apareça. Os salvadores da Pátria, há muito caíram de moda. O pódio poderá ceder lugar ao túmulo, se um simples mecânico deixar de colocar o parafuso no lugar certo. Se o barco afundar, a morte não será reservada somente ao piloto, mas a toda a tripulação.


2018 - Em 27/12/2017

A cada ano parece que o tempo passa mais rápido, lembro bem depois desses mais de mil e duzentos artigos, que já escreví sobre o final de mais um ano mais de trinta vezes, mas a vida é mesmo assim: tudo flui e sempre, como o dia que vai escurecendo-se com a noite, que perde-se ao amanhecer da alvorada do novo dia. Eis o tempo "de novo"...

Existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente - no mais ou menos das vezes? "O tempo tudo tira e tudo dá; tudo se transforma, nada se destrói...", sentenciou Giordano Bruno.

O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso... Indubitavelmente que o tempo, como uma dimensão física - segundo os cientistas naturalistas racionais - ou transcendente - vide os metafísicos e filósofos -, ocorre transmutando-se a si mesmo e a todos os seres animados e inanimados, como se fora ele, o Gênesis do grande Universo. Seria o tempo-ser incomensurável, onipresente e onisciente, o próprio Deus?!

O nascimento, a evolução e a morte de uma estrela - qualquer a sua grandeza - se dá através do tempo... E quanto aos homens... "Nunca existiram grandes homens enquanto vivos estivessem. É a posteridade que os cria", observou, no seu tempo, Gustave Flaubert.

Um dia, num passado tão perto, um homem do seu tempo mas muito iluminado pelo conhecimento acumulado sobre os ombros de outros gênios, e pelo talento da sua inteligência criativa, articulou os princípios do espaço e da luz e matematicamente demonstrou que eles se inflexionam quando uma velocidade lhes era contraposta num tempo determinado: o universo se curvava em algum espaço futuro... Ou seria no passado?

Albert Einstein acabara de "relativizar" a lei da inexorabilidade do devir, segundo o paradigma: tudo tem o seu tempo... de fruir. E a direção é o futuro...? Revelara-se: o universo tem massa e energia, e se move, se expande... Além do tempo. Mas que tempo? Na efêmera condição humana, apreende-se desde a sua infância mais tenra e vulnerável que o tempo serve, primordialmente, para o crescimento do corpo físico, da aprendizagem do viver, da reprodução da espécie-família, para o envelhecimento e para a morte.

"Nada do que é grande surge repentinamente, nem mesmo a uva. Se me dizes: "Quero um figo", respondo-te. "É preciso tempo". Antes... deixa virem as flores, depois.... os frutos e que amadureçam", filosofou o grego Epicteto.

Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor.

Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. Assim seja. Feliz 2018 para todos os leitores.


Então é Natal - Em 20/12/2017

Domingo é Natal, e sempre que a data máxima da cristandade de aproxima, sou naturalmente levado a pensar nos mistérios da vida e especialmente no que significou para a humanidade o nascimento de Jesus, o sentimento de sua existência, de seus padecimentos e da brutalidade de sua morte. É quando chego mesmo ao extremo de indagar se o cruel sacrifício a que Deus submeteu seu Filho, ao enviá-lo à terra na tentativa de salvar os homens - esses ingratos -, teria valido a pena.

Como vêem, o Natal para mim não representa apenas tempo para montar árvores coloridas e fazer troca de presentes. Ao contrário, é época de recolhimento, de reflexões, de pensar nas profundezas do significado e dos mistérios da data. Está no Velho Testamento que no princípio era o caos, que Deus criou a terra e os céus. E, não contente com obras tão grandiosas, criou o primeiro homem, ao qual, vendo-o tristemente solitário, brindou com a companhia de uma mulher. E deu no que deu. O casal tanto se multiplicou que o cenário terreno se transformou neste imenso complexo do qual temporariamente fazemos parte, ora rindo, ora chorando.

Ao menos para mim, um diplomado em ignorância sobre esses assuntos, o que ainda não ficou bem claro foi a intenção com que a Divindade realizou tamanho feito. Por vezes me questiono se essa obra corresponderia a uma necessidade divina. Estaria ela se sentido enfadada, atormentada pela solidão? A criação dos homens teria como justificativa a falta de servos para que a amassem e servissem - como reza meu velho catecismo? Onisciente e onipresente como era (e certamente assim continuará sendo "per omnia saecula saeculorum"), não era igualmente auto-suficiente? Claro que sim, não é mesmo? Quanto à decisão de conceder às suas criaturas a faculdade do livre arbítrio como entendê-la? Porventura seu provável mau uso não figurou nas cogitações do onisciente Criador?

Nesta altura deste mal lançado texto é muito provável, para não dizer certo, que o leitor deve estar se perguntando sobre os motivos que me levaram a esses questionamentos iniciais. Minha explicação é singela: como frisei no inicio é o efeito natalino. Vou aproveitar o momento e explicar a quem dos meus leitores não sabe, como nasceu a arvore de Natal. Certa vez, numa daqueles noites geladas da Alemanha, nas proximidades do Natal, ao retornar para casa o monge Martim Lutero, encantou-se com a paisagem. Para Lutero, o cristianismo fora uma notável revolução dos cordeiros, da gente humilde da antiguidade que se insurgira contra as injustiças do mundo pagão. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam a trilha, viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida uns papeluchos coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Pronto, era aquilo que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Nascia assim a árvore de Natal.

Feliz Natal a todos.


Pena de morte - Em 13/12/2017

Sou leitor contumaz da seção de cartas de leitores dirigidas aos jornais. E tenho visto com frequência algumas de pessoas que voltam a defender a pena de morte. Isso me assusta, embora compreenda a revolta de muitos contra o atual estado de coisas: violência e morte em grau jamais alcançado entre nós.

O bandido mata. A sociedade mata o bandido. Os bandidos passam a matar dobrado. A sociedade, por seu lado, duplica as matanças de bandidos. Se o ato de matar é que nos é repugnante, como legalizar o assassinato, revivendo e consagrando o velho ''olho por olho, dente por dente''? Bem, pede-se exceção para os crimes hediondos, tantos que não vale nem a pena citar. São hediondos, sim. Mas teremos então que repetir o gesto hediondo, imolando ritualmente os criminosos?.

Deus que dá a vida, até mesmo aos bebês de proveta, porque para fecundar o óvulo ''in vitro'' precisava existir a centelha inicial de vida, quer no óvulo fecundado, quer no espermatozóide fecundador. E essa centelha misteriosa continua nas mãos de Deus, ou da força criadora, como a chamem, se quiserem; misteriosa, imponderável, fora totalmente do alcance do homem e das suas artes.

Não vamos pensar em pena de morte. E atentar contra as leis da vida é querer tomar na mão o privilégio de Deus. Sua eficácia como elemento dissuasório nunca foi comprovada. Punição bárbara, primitiva, de feroz crueldade. Não adianta modernizá-la, usando cadeira elétrica, injeção letal, câmara de gás. E o julgamento, a sentença, a data marcada, a última refeição, o último cigarro, as últimas palavras compõem um ritual de sadismo inexcedível. E cuja ferocidade fria se iguala à dos crimes que pretende castigar.

O dever da nossa sociedade, assolada por uma onda de violência absolutamente intolerável, ninguém o nega, é aperfeiçoar o processo judiciário, proporcionar as penas de acordo com o delito. Não criar tantas e extraordinárias facilidades para os chamados réus primários. Há casos de ladrões contumazes que, devido ao seu longo prontuário, são condenados a penas severíssimas; enquanto que um matador, por mais hediondo, tem direito a inúmeras saídas, desculpas, portas abertas, concessões. As próprias penas existentes no código atual teriam alguma eficácia se não fossem tão permeadas de concessões.

Um jovem juiz não achou por bem pôr em liberdade o matador da própria noiva, apesar de réu confesso, por crime executado com requintes de crueldade - tortura, morte lenta por afogamento, e tudo por motivo fútil? Mas quem errou não foi o juiz, foi a lei de malhas largas a que ele se julgou obrigado a obedecer; afinal, juiz existe para cumprir a lei.

Se queremos punir um criminoso hediondo, não o libertemos pela morte; e, muito menos, não o liberemos por ''bom comportamento'' na prisão, ou porque cumpriu um terço da pena, ou porque não há mais lugar para ele nas penitenciárias superlotadas. Sentença é feita para ser cumprida. E sentença perpétua tem que haver, sim.

Se o criminoso hediondo se regenerar na prisão, como se imagina possível que exerça a sua sociabilidade readquirida dentro dos limites do seu confinamento, que pode ser até em ambiente rural, mas sem contato direto com a sociedade que ele tão brutalmente agrediu? Seja professor, enfermeiro, advogado, pregador - mas lá dentro, sem perigo de reincidência. E se não se recuperou, já está lá dentro que é o lugar certo.


Violência - em 05/12/2017

Se a um transeunte você indagar qual o maior problema da sociedade nos dias de hoje, a violência estará entre os primeiros. Nenhuma novidade, pois a mídia, em especial o rádio e a tv que fazem a cabeça das massas , esmera-se, ao requinte e sem reproche, em sua descrição. Trata-se de uma torrente cotidiana de informações eivadas de sensacionalismo, em que é claro o incitamento à depravação dos costumes, à criminalidade, à barbárie e à impunidade, numa demonstração inequívoca de desrespeito à Constituição, que garante os valores éticos e sociais da pessoa humana.

Se se indagar desses caminhantes, que modalidades de violências mais os assustam, a resposta abarcará um enorme leque de infortúnios. E todos eles ora se intrometem com sutilezas ou sem elas permissivamente no domicílio via tv, ora são dramas vividos e sofridos no dia-a-dia pelo cidadão: a banalização do sexo, a tolerância às drogas e o indulgente combate ao seu tráfico, a insegurança no domicílio, o seqüestro, a ousadia de bandidos e de servidores públicos de sua igualha, o ostensivo poder paralelo dos presídios, a guerrilha urbana e tantas outras não-merecidas desditas a intranquilizarem a sociedade e a afrontar o poder público.

Ao me colocar na condição desse transeunte, sob a ótica de minha profissão, a resposta é imediata, posto já a ter fixado em várias oportunidades: para mim, constitui violência inominável a pobreza e a miséria.. Sensível como é à causa do homem, a violência encontra-se intimamente dependente da perversa distribuição de renda, da injustiça social e da impunidade. E tudo isso medra daninhamente nos centros do poder, constituindo o fator patogênico mais importante e mais indigno em todo o mundo subdesenvolvido. E para esta sociopatia falecem ao médico, com sua ciência e arte, remédios capazes de, no mínimo, tangenciar o problema real, que é anterior e mistifica a doença; esta, na realidade, uma indignidade menor e transfigurada, que leva milhares de infelizes a engrossarem as filas dos ambulatórios, em busca da saúde perdida.

Se é impotente o médico, mais ainda o são os governantes que, movidos por solavancos de solidariedade humana, só enxergam a adoção de terapêuticas paliativas e protelatórias. Pobres visionários: ignoram ou fingem não ver que a solução racional, antes de tudo, reclama que se reponha ordem na sociedade! Melhor ainda, reclama se restaure a justiça porque se ela desaparece, escreve Kant, é coisa sem valor o fato de os homens viverem na Terra. E ordem na sociedade é o mesmo que a saúde para o indivíduo. Desafortunadamente, a sociedade e o indivíduo só se lembram de uma e de outra quando já não mais as possuem.

Ao encarar a violência em meu redor, sempre a confronto com sua matriz: a pobreza e a miséria. Embora uma pessoa marcada por violências torpes e imundas, minha coragem é serena e racional; mais racional do que serena, para resignar-me, contrafeito, com o fato de termos sido delas vítimas minhas extensões mais próximas e eu. É difícil conter a indignação pela resignação e pela esperança em uma sociedade ordenada e justa. Assim, acato a advertência de Malraux: Um só homem não pode erguer mais do que dois ombros . A plebe é mais impaciente do que o indivíduo e anseia por soluções definitivas e justas. No século XVIII, a sociedade francesa conseguiu-as após uma sangrenta revolução de costumes e de idéias.


Ali Babá - Em 29/11/2017

No reino de Ali Babá não havia peemedebistas tucanos e coligados, mas havia 40 ladrões. Longe de mim estar insinuando que Temer e sua coligação no poder representam em nosso país tropical o herói e seu bando das mil e uma noites de Sherazade. Apenas associei as duas imagens, ao constatar a quantidade de políticos e assessores, que, à sombra do Planalto, se envolveram em corrupção no atual governo e até hoje continuam impunes.

Por alto fiz um levantamento em que contei, de lembrança, mais de duas dúzias de nomes sob suspeita e acusação. Curiosamente, como Ali Babá, também Temer é poupado de pechas e acusações. Daí decorre a segunda razão de aproximar, para contrastar, os dois contextos: o da lenda e o da realidade política. É que Ali Babá e seus ladrões eram transparentes. Assumiam o que eram e faziam. Estranhamente as pessoas vinculadas diretamente a Temer indiciadas ou apontadas pelo noticiário, não têm a mesma postura. Usam de todos os recursos e erguem com a maior desenvoltura uma cortina de fumaça negra e densa em torno deles mesmos e de seus atos, para evitar que a opinião pública saiba a verdade do que tem acontecido nos bastidores do governo. Operações de abafa, rolo compressor, respostas sarcásticas, ataques verbais são o mínimo apresentado como autodefesa e barreira à averiguação pública.

Basta simples suspeição que logo se levantam para praticar a velha máxima de que a melhor defesa é o ataque. Antes que sejam destruídos, ainda que em nome da verdade e da justiça, Temer, Gedel e comparsas tudo fazem para destruir os adversários. Para mostrar que é superior e acima de qualquer suspeita, Temer usou e abusou de expressões como o Brasil está crescendo, caiu o desemprego e pretensas frases aparentemente d ésprit, mas na verdade de uma pobreza intelectual de causar dó! A revelar sempre o propósito de agredir para não ser atacado.

Agora seu assaz contestado candidato à sucessão demonstra que copiou o grande chefe . Mal começaram as graves denúncias que o envolveram com as falcatruas de Elizeu Padilha, tenta ironizar: tudo não passa de tititi e trololó . Temendo que os ventos soprem a poeira para sua janela, Temer vem a público declarar que se trata de acusações requentadas , quando para advogados de renome e respeitados políticos sua omissão e leniência, à época da ocorrência dos fatos, podem culpá-lo de improbidade administrativa.

Temer, Elizeu e assessores pousam de impolutas vestais da República. Ao contrário de Ali Babá e seu bando, em vez de se esconder em cavernas, à espera do Abre-te Sézamo , procuram trancar a corte a sete chaves. Será que pensam que todos nós temos que engolir calados? Será que de tititi e trololó, com tropeços aqui e ali, sem o ar e a luz que paradoxalmente sobram nas cavernas de Ali Babá, mas tanto faltam nos subterrâneos do Planalto, chegaremos a eleger, sem continuidade, nem continuísmo, o sucessor de Temer, e apurar tudo o que foi feito?


A força do desejo - Em 22/11/2017

Nunca o desejo de bem-estar foi tão forte. Pessoas e sociedades sonham cada vez mais com avanços e redenções. Só que na vida real a felicidade parece cada vez mais difícil de ser alcançada. Ninguém se compraz por muito tempo com o alívio causado pela superação de algumas dificuldades. Por isso, o desafio é determinar o que fazer para aperfeiçoar de modo constante e sustentável o estado material e espiritual da Humanidade.

O problema é que não basta querer; é preciso também saber como chegar a melhores resultados. Não adianta imaginar perfeições paradisíacas sem saber como conquistá-las. Igualmente inútil é conhecer o caminho sem ter a tenacidade para trilhá-lo enfrentando seus percalços. As sociedades só conseguem se aperfeiçoar quando suas instituições, preocupadas em gerar um todo harmonioso, oferecem aos indivíduos condições propícias ao desabrochamento e à realização de suas potencialidades. Como o entendimento é precário e os desejos, ilimitados, o ideal está crescentemente se descolando da realidade.

Todos temos, independentemente de grau de instrução, diminuta compreensão do mundo e de nós mesmos. E, no entanto, nos sentimos capazes de controlar as situações e ditar o rumo dos acontecimentos. Falamos como se tivéssemos perfeito conhecimento dos fenômenos psicológicos e sociais. E agimos sem ciência como mãos tateantes que procuram objetos no escuro. A falta de saber tira da ação o poder de perseguir com eficiência melhores resultados.

A busca do ideal deve se basear nas potencialidades que o real oferece, não em sua negação. A pseudo-sabedoria estimula a expansão da vontade cega que atropela os objetivos na ânsia de atingi-los. Brandindo a mais reles teoria da conspiração, todo mundo se acha em condições de proclamar verdades sobre as mais intrincadas matérias.

Nas lutas pelo poder se explora, de forma cada vez mais cínica, o abismo entre os desejos e o entendimento do homem comum. Mesmo sem saber como funciona a máquina do mundo, os demagogos aproveitam-se do infortúnio alheio apresentando-se como semideuses capazes de tudo mudar. Prometem, para ter (mais) poder, um mundo melhor sem saber o que faz a dura realidade ser o que é. Manipulando as massas, ocultam o vazio intelectual com a retórica genérica de que um outro mundo é possível.

As decisões fundamentais continuam sendo tomadas por governantes despreparados que nem sequer têm noção de quão complexas são as situações corriqueiras que administram. E para piorar registra-se a fragmentação da "vontade geral" com a ênfase recaindo cada vez mais sobre os grupos de interesse. Os fins da política se deslocam, de modo alarmante, dos indivíduos para os grupos e as etnias. E isto aumenta a distância entre as pessoas a ponto de impedir que haja um acordo fundamental em torno dos direitos e dos deveres de todos.

Estamos todos, indivíduos e sociedades, atrás de desejos que não sabemos como realizar. Vivemos acima de nossas possibilidades porque agimos sem a devida compreensão de nós mesmos e dos outros; e aquém de nossas possibilidades, porque estamos longe de tornar realidade nossos mais caros desejos. Os desejos são luzes que, bruxuleantes na imensidão, estimulam o pensamento a descobrir novos caminhos em continuação aos conhecidos ou na direção contrária dos percorridos.


Pobre país - Em 15/11/2017

A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista do governo no Brasil. Bem que poderíamos ter outra proclamação, retirando todos os políticos e dando uma nova forma ao governo deste nosso pobre país. O noticiário político da mídia impressa e eletrônica brasileira comprova que andamos quase todos, incluindo ela própria, despreocupados em processar corretamente fatos, objeto de comentários incongruentes, quase sempre em benefício dos interesses do Executivo federal e do seu grupo partidário. Dessa forma, contribui para manter-nos alienados, sem percepção de contradições significativas, presentes na condução da vida política nacional. Vou fixar-me em quatro exemplos atualíssimos, concluindo com elenco de contra-sensos cometidos por quem precisa e, normalmente, tem de ser comedido, mas não consegue conter-se:

1. De uns tempos para hoje, as conveniências da situação passaram a defender a necessidade de apoio parlamentar majoritário ao Executivo, em nome da governabilidade do País. Chega-se a criticar dissidências pontuais contingentes, justificáveis, absolutamente legítimas no sistema de governo que praticamos, como gestos de traição impatriótica. E, no entanto, defende-se a manutenção do presidencialismo, sob cujos princípios o fato de o Executivo ser minoritário no Congresso não constitui anormalidade. Observe-se o modelo original norte-americano.

2. O PSDB foi constituído por inspiração de um grupo de peemedebistas de São Paulo, tendo como motivo fundamental afastar-se da associação com políticos malvistos com influência na legenda. O que se observa nestes dias desmente a circunstância, já que os tucanos só se entendem com a chamada banda podre do PMDB.

3. O Executivo tenta forçar a reforma da Previdência, dizendo que não pode arcar mais com o pagamento dos aposentados. Contudo, não lhe parece criticáveis ônus financeiros eventuais bem superiores, resultantes da política de juros do Banco Central.

4. No episódio desabonador de seus ministros mais próximos não se considera que os desrespeitos ao devido processo legal mais de um , faltas até mais graves, porque envolvem agressões à mecânica da ordem jurídica, exigem que se enquadrem gregos e troianos . Por fim, é incompreensível que, em vez de manter-se afastado, para conter a desagregação, o presidente Temer procure o centro da ribalta de microfone em punho, a fazer provocações, talvez pensando que os desconsiderados por ele, com os quais conviveu proximamente nos últimos sete anos, são invertebrados: tempestade em copo d´água ; eleger-se-ia sem eles ; promotores de tricas e futricas contra o interesse nacional. Nenhuma substancialmente verdadeira. Pobre País.


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