Olhar Crítico

Malvada política - Em 11/07/2018

Mais um ano de eleições e a danada da cachaça política já se arreganha toda para o povo - com suas poucas ideias, sua muita pobreza (agora cada vez maior em desemprego) e sua ignorância. Poderíamos cifrar o malvado político a todo aquele que repete as mesmas frases de efeito, as mesmas mazelas ideológicas, a astuciosa maneira de enumerar seus projetos que nunca vão ser cumpridos, seus sorrisos de anjos de calendário e sua fantástica capacidade de nos fazer de bobos - e aos eleitores menos letrados manifestar a faculdade de se mostrar obliterado.

O que é isso? É fazer com que tudo que já se passou desde a última eleição desapareça pouco a pouco; apagar-lhes da mente seu antigo topete, seu dente de ouro, seu sorriso Colgate, suas carecas reluzentes, enfim, destruir tudo que ouviram em palanques, horários eleitorais televisivos e radiofônicos. Machado de Assis dizia que não só o esquecimento é provável, mas até por certo e constante, se o condutor padecer de moléstia que oblitere a memória. Não gostaria de fazer paralelo com o passado pleito estadual, quando Eduardo Braga foi derrotado por Amazonino Mendes. Apenas ressaltar a briga preliminar entre alianças (para cargo majoritário), bem antes das luzes dos refletores serem acesas quanto a cara de cada um se parecer com Manaus, assim como da verdadeira gana de alguns pré-candidatos a fazerem parte das diversas chapas na qualidade de vice.

Fico lá com meus botões a perguntar-me pra que tanta carreira para se ser vice. Deve ser um senhor cargo, não? E a cadeira de governador? Tem deputado federal e estadual querendo largar seus lugares levados pelo voto popular para disputarem prefeituras em cidades pequenas por este sofrido interior do Amazonas afora. Não é engraçado? Esses encasacados parlamentares se mandando de Brasília - capital das decisões do Brasil - seus luxuosos apartamentos e gabinetes atapetados de mordomias, somente para estarem junto com seu povo esquecido nas embrenhadas do sertão. Muito auspiciosos e louvados esses desejos. Mas, é preciso ter cuidado meus caros leitores eleitores: paturi fora d'água é novidade no poço.


Jogo de cena - Em 04/07/2018

José Américo de Almeida, notável tribuno e honrado político, quando ia pronunciar um dos seus famosos discursos no Senado, anunciava que iria dar "um grito". Eram pronunciamentos de grande repercussão pela consistência da crítica e importância do evento, respeitosamente ouvidos por todos os seus pares. Antes, em 1945, José Américo fora autor de uma entrevista que abalou os alicerces da ditadura e colaborou para a derrubada de Getúlio, reimplantando-se a democracia. Vou dar o meu grito: o país está apodrecido, de norte a sul e a cada dia um novo fato lamentável ocorre.

Até o sacrossanto futebol nacional, sadia alegria do povo, está contaminado pela imoralidade de gente que está transformando o torcedor em otário, porque sai do estádio sem saber se viu um jogo ou uma chanchada. Lamentável o país estar contaminado por uma epidemia de imoralidade, que vai adoecendo todos os setores, com as honrosas exceções do Ministério Público e da Justiça (salvo alguns necrosados indivíduos já identificados).

O Brasil precisa de uma lavagem de moralidade e uma renovação política que imponha costumes mais puros, em uma varredura que reponha o país no clima de moralidade. Não existem mais partidos políticos e sim simples aglomerações, que nada expressam ideologicamente. Neles se agrupam políticos sem afinidades, movidos por um interesse pessoal momentâneo, não por vínculos filosóficos. Não se respeitam programas ou promessas partidárias. Pensa-se apenas em ganhar projeções rendosas seja lá mediante que compromissos assumir.

Condena-se deputado porque teria recebido um mensalão de um fulano qualquer. Porém, em plena CPI, verifica-se que o governo paga R$ 500 milhões para atender a emendas apresentadas por deputados, para que estes sejam simpáticos a determinada candidatura para eleição da mesa. Como se chama isto? Mensalão, mensalinho, que significa essa pipoca jogada no colo dos eleitores do presidente da Câmara?

A próxima eleição é o momento oportuno da desforra do eleitorado. Que tenha a consciência cívica capaz de expurgar do mundo político quem não mereça lá estar. A realidade é uma só: a reeleição é um desserviço à nação, porque o eleito, ao entrar no governo, só pensa no segundo mandato. Foi um desserviço que Fernando Henrique Cardoso prestou ao país, ao incentivá-la - será este o verbo correto? - para renovação do seu período. Veio o novo governo com o seu partido, o PT, pensando na eternidade no poder.

Deveria existir uma emenda constitucional em que seria proibido em nome de Deus e da moralidade que alguém fale nessa malsinada palavra, proscrita do dicionário. Sopraram aos ouvidos de JK e de Itamar Franco esta mesma palavra, que nem aceitaram fosse repetida. Não por acaso, as eleições costumam ser precedidas de tiroteio entre os caciques da politica brasileira. Todos Subitamente se convertem à causa da moralização dos costumes administrativos.

Esse jogo de cena, cada vez mais canhestro, é resultado das denuncias cabeludas serem manipuladas por políticos profissionais ao sabor de seus interesses eleitoreiros. Nenhum deles mostra efetiva preocupação em fortalecer as instituições de forma a evitar que continuem a ser aviltadas e saqueadas. O cidadão está sendo feito de bobo.

As denuncias, como têm sido propaladas, não têm nenhum compromisso com a moralidade pública. O respeitável público só toma conhecimento de falcatruas, quando os membros das quadrilhas se desentendem ou quando estão em questão jogadas de efeito no jogo em que se disputa um naco do poder municipal, estadual ou federal. É triste.


Preguiça - Em 27/06/2018

O brasileiro é preguiçoso. Digo isso com convicção, pois me incluo nesse rol, para minha própria vergonha. A preguiça é a intransponível distância entre saber o que fazer e querer fazer. Ter consciência do que fazer, da potencialidade de algo, e efetivamente mover-se para realizar, são coisas totalmente distintas, que demandam grande vontade. Daí talvez o dito popular: "força de vontade".

Ter vontade não basta, é preciso empurrá-la, com muita força. O brasileiro sabe muito, é comunicativo e troca informações como poucos povos. Não é à toa que em nosso País o uso da internet bate recordes, assim como o consumo de telefones celulares. Todos estão conectados. Trocar informações, apenas, não basta. Ter consciência de grande nação, com recursos naturais infindáveis, temperatura ideal com economia de energia (diferentemente dos países do Norte, dependentes absurdamente de meios de aquecimento no rigor do inverno), e tantos outros atributos, não permitem dizer que o País se move com a qualidade e velocidade necessárias e possíveis.

A nossa preguiça decorre de sabermos a diferença entre o certo e o errado, mas demorarmos para agir. A crise de confiança frente aos políticos é traço nítido de preguiça. Ao invés de optar pela luta, pela conquista de condições melhores de vida para si, deixamos o político "ficar bem", arranjar apoiadores, "cupinxar".

Outra preguiça monumental está na questão dos tributos. Todo brasileiro decente, que deseja pagar impostos e participar efetivamente da vida cidadã, está farto da sangria feita em seu bolso. O problema é que, se chiar, vai ficar malvisto, vai ser um entojo nas rodas sociais, repetitivo, e se sair pelas ruas de bandeira na mão será mais um pelego, um chorão...

Outras preguiças também existem, como as ligadas ao acinte chamado "transposição do São Francisco", e também os tais "finalizar CPI e colocar gente na cadeia", "construir mais presídios", "combater o contrabando", "prender corruptos" e tantos outros.

Assim vai andando o Brasil, de vácuo em vácuo, de Temer em Temer, pelo reino da mediocridade. Parece-nos chegado o momento para que o País alfabetizado e relativamente bem informado sobre as suas principais circunstâncias saia desse tipo de opressão que é a preguiça do exercício do Poder. Exige e reclama o Poder mais discernida discriminação sobretudo na faixa da competência em que atuam o Executivo e o Legislativo.

A vastidão terráquea do País e as manifestas peculiaridades de suas numerosas regiões, essa maravilhosa diversidade que nos parece uma das notas distintivas do povo brasileiro em cotejo com inúmeras conformidades nacionais aborrecidas e monótonas, tudo aconselha um gesto nacional de deixar de preguiça e agir.


Pra não dizer que não falei do futebol - Em 20/06/2018

Esta semana cansei de falar de mensalão, corrupção, sobre enamorados, sobre o Parlamento e na busca de inspiração para a crônica semanal, resolvi falar de nossa seleção canarinho que empatou com a Suiça no primeiro jogo da Copa do Mundo domingo passado. É claro que com apenas um jogo não podemos julgar a seleção como um todo, mas a estreia foi apática, diferentemente dos amistosos que antecederam a Copa, os jogadores, pareciam anestesiados, sem volume de jogo, até o capitão Marcelo, errou 20 passes, coisa que não acontece no seu clube nem na seleção quando é amistoso.

Dos jogadores que atuam na seleção canarinho noventa por cento joga fora do Brasil. Tinha decidido não escrever mais sobre futebol, deixando para os editores do caderno de esportes tal missão, porém o jogo da seleção e o endividamento dos clubes brasileiros não me permitiram cumprir minha decisão. O futebol brasileiro mesmo tendo conquistado pela quinta vez a Copa do Mundo da Fifa, fora do campo continua amadorístico, corrupto e desorganizado, como já denunciava o treinador Flávio Costa nos anos 50. A diferença é que agora também está falido. É o que demonstram os balanços divulgados pelos clubes por força de lei, pela primeira vez em mais de cem anos de História.

O Santos Futebol Clube, campeão nacional tinha R$ 0,02 de ativo por cada R$ 1 de passivo de curto prazo no fim de 2017. No Rio, o Clube de Regatas do Flamengo, com a maior torcida do País (34 milhões de "fanáticos", segundo pesquisa do Ibope para o jornal Lance!), exibia um patrimônio líquido negativo (total da dívida menos todo o patrimônio) de R$ 70,3 milhões. A situação do "mais querido" denuncia o descalabro de gestões que, ao longo dos anos, explorando a paixão das torcidas, malbarataram marcas de valor inestimável nesse negócio que emociona e mobiliza a Nação inteira.

Na verdade, culpa maior deve ser atribuída à chamada "cultura dos cartolas", que frustrou todos os planos das consultorias multinacionais especializadas, que tentaram profissionalizar a gestão do futebol brasileiro e transformá-lo num negócio, além de arte, capaz de ter o quinhão que merece dos US$ 5,5 bilhões que ele gera por ano no mundo. A gestão dos clubes esportivos brasileiros é tão obsoleta que nem sequer se sabe ao certo qual o capital que gira nessa "Pátria em chuteiras". A divulgação dos balanços, um avanço para um setor cujas rendas antes eram segredo de Estado dos dirigentes, ainda não basta para revelar sua verdadeira contabilidade, pois as informações prestadas são imprecisas e de difícil entendimento, mesmo para especialistas.

Esperemos que na sexta feita contra a fraca Costa Rica, o Brasil comece a ganhar terreno, e tentar esperar a Alemanha na outra fase para pelo menos vencer, e não devolver os 7x1, coisa praticamente impossível no futebol que está jogando hoje. Ainda penso no hexa.


Enamorado - Em 13/06/2018

Tenho uma amiga que em uma mensagem pelo WhatsApp, sugeriu-me: no dia dos namorados se curta, se enamore, e fiquei a analisar essa sugestão. Na verdade, quem não tem namorada nesse dia tem que se enamorar mesmo. Seja enamorado! Isso mesmo! Seja enamorado... mostre-se apaixonado, mas não por alguém, por si, pelo mundo, por um motivo além do físico, por pensamentos, palavras, ideais, pela vida! Não há algo mais grandioso e belo que o viver.

Preocupe-se menos nesse dia em planejar que o próximo será acompanhado, não sinta raiva ou desprezo por casais já existentes, não se sinta péssimo pelo término no dia dos namorados, ame e fuja do real significado desta data e preze pelo significado que ela deveria ter, você verá tudo ao seu redor tornar-se mais bonito e prazeroso, até esquecerá que tal dia é o dia dos namorados. Independentemente da data, o conceito e o sentimento envolvidos na comemoração do dia dos namorados são os mesmos em todos os países.

A data é uma bela oportunidade para demonstrações de amor e carinho. Pra alguns, talvez o dia dos namorados seja realmente uma data especial, como o dia dos pais, mães, crianças e todos esse festival de "dias comemorativos" sejam de fato significativos, por um (diversos) momento o comércio conseguiu usar o sentimentalismo ao seu favor para venda de produtos que são correlatos a data: presentes relacionados ao amor e paixão no dia dos namorados e dia das mães; algo "masculino" que exalte essa masculinidade e/ou mais simples no dia dos pais.

Estou aqui para falar exclusivamente do dia dos namorados, mas não a data em si, mas seu significado. Será mesmo que um presente no dia dos namorados agregaria em sua relação, como forma na qual você encoraje seu parceiro(a) pensar que você a reconhece(o). Sorrisos ao andar do shopping, carinhos e abraços nos parques não são sempre provas de amor, por vezes pessoas usam os relacionamentos como âncora para apaziguar seus ânimos e pensamentos que morrerá sozinha ou ficará sozinha, sem ninguém, como se a solidão fosse de fato ruim, precisamos de socialização isso é fato, mas não é uma necessidade vital, não se apegue a isso ou enlouquecerá e será facilmente manipulado por aquele que identificar isso.

Por fim, caso namore, dou-lhe uma dica: use esse dia para mostrar que independente da data, estará lá, durando até o próximo dia ou o fim dos seus dias você será enamorado e não um namorado, pois esse título (quase que nobiliárquico) foi bem estagnado e já não serve necessariamente para uma aliança, que você é enamorado com o mundo, com as pessoas, com a natureza, que amando aos outros, mostrará que sabe amar e mergulharão de cabeça no amor que tens pra dar.


Canalhas - Em 06/06/2018

Os canalhas não têm passado moral a preservar. Não têm igualmente um nome a zelar. Nem muito menos estão preocupados com a opinião da sociedade a seu respeito. São servos de sua própria canalhice. Por isso os canalhas são audaciosos. Não temem ser canalhas, desde que tirem proveito próprio de suas atitudes. E ser canalha populista em cargo público de destaque é ainda mais insidioso.

É, sem dúvida, o incessante fluxo de sofisticadas hipóteses sobre a mente que, segundo a grande filósofa do século 20, a alemã Hannah Arendt, "é a mais ardilosa das propriedades do homem". Apesar dos pesares e dos atuais dissabores internos, com relação aos pecados do Executivo e do Parlamento (crises da República), o Estado brasileiro, no âmbito internacional sempre preparou a sua história cuidadosamente, de maneira a torná-lo respeitado. Mas, em acontecimentos recentes, de modo inesperado e, para o qual não estava preparado, o Brasil se vê às voltas com o populismo político na América Latina. Região da qual é participante de peso, política e economicamente.

Na verdade, as atitudes imprudentes do presidente Michel Temer, ao negociar com os caminhoneiros, acompanhadas de insinuações injuriosas bem comuns aos baixos padrões morais dos que ocupam indevidamente altas posições de modo surpreendente, acompanhada da protetora atmosfera de conivência que envolve outros países sul-americanos já deveriam ter sido consideradas inaceitáveis pelo Brasil. E na sociedade de consentimento o compromisso do cidadão com a lei é o que mais deve ser considerado.

A lamentar em todo o episódio e, mais uma vez, a deficiente atuação do governo brasileiro que, também em matéria diplomática é frustrante e decepcionante. A maneira demagógica como o presidente Temer se comportou e vem se comportando, atinge as raias do risível, da chacota e da gozação, inclusive dos seus próprios pares sul-americanos. A ordem do dia da ética e da moral há muito vem sendo quebrada. A insegurança, o cinismo e a falta de vergonha dos nossos políticos tornam-se cada vez mais insustentáveis à leveza de Kundera - pesada segurança da liberdade.

A escalada de importantes pigmeus dos nossos Três Poderes, corrupto e ladrões, assombra a sociedade. Eles surrupiam o tesouro nacional e, como Antônio Maria, rasgam nossa carta de cidadania e zombam da nossa capacidade de raciocinar - dão asas a uma brevíssima anarquia generalizada no País, molestando os homens de bem e formando quadrilhas de criminosos em todos os segmentos. Isso sem falar nos caixas-dois e na cobertura da turma do cartel das drogas. Ninguém vê sequer uma atitude das autoridades policiais e, pasmem, judiciárias, de cuja cartilha de leis traduzem, pantagruélicos, os julgamentos sérios em gigantescas e já folclóricas pizzas.


Divagações - Em 30/05/2018

Dói-me profundamente assistir a atores se digladiando numa arena onde não se vê circo algum montado. A sociedade rui sem que as pessoas se posicionem em favor de padrões humanos. O Brasil ocupa um lugar de destaque nessa decadência avantajada. O cinismo é a palavra do dia, o fanatismo também.

Fala-se com o intuito de blefar, blefar, blefar... As cartas do jogo de pôquer estão entregues a jogadores habilidosos e maledicentes. Correrei atrás dos campos de girassóis, dessa beleza autônoma que independe da vontade dos homens ou dos seus mecanismos ilusionistas. Afagarei as pétalas, cultivarei as sementes, quero embrenhar-me nas folhas com a finalidade de reabastecer o enorme vácuo que em mim habita.

A caminhada é longa. E estou cansado. Luzes se apagam. Acendo velas para perceber o choro da cera, não me apraz alumiar o ambiente. As palavras perderam o valor da significação. Ouço o que não quero, pululam hipocrisias, os rostos se definem: massa uniforme, desfibrada, espectro de gente. A humanidade se escondeu? Envergonho-me das vozes que se levantam para desvirtuar a verdade em nome de uma saga indigna - os incautos se enredam em eufemismos astutamente construídos.

A letra reduziu-se a um instrumento banalizado, volátil em meio ao estrondo de uma tempestade sem fim. O mar revolto serve para iludir aqueles que não são capazes de compreender a dinâmica dos farsantes. E entre tantos desatinos, a soberba e o autoritarismo alcançam paroxismos. A vida é tão curta - dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe - que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará?

Essa ficará. Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa. Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor.

As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.


Polis sem identificação - Em 23/05/2018

Dois mil e quatrocentos anos antes de Cristo, Aristóteles afirmou: "Os homens se reúnem nas cidades por causa da segurança, permanecem juntos por causa da vida boa." Coitado do grande filósofo! Hoje, ressuscitado, voltaria desesperado para o túmulo diante da tragédia urbana em que foi transformada a cidade, esta notável herança deixada pela luminosa civilização grega.

Resta pouco da Polis. Resta quase nada de um espaço físico capaz de abrigar a complexidade das relações sociais que congregam a convivência, o encontro, a identificação simbólica dos habitantes e a participação cívica da cidadania. De fato, a vida nada tem de "boa", a segurança da comunidade foi destruída pelas múltiplas faces da violência, o espaço público encolheu, as funções clássicas da cidade - habitar, trabalhar, circular e recrear - estão estruturalmente comprometidas.

Se é verdade que a humanidade nasceu no campo e foi morar nas cidades, é verdade também que, de modo geral, o mundo urbano perdeu seu encanto. E perdeu por conta do fenômeno da violência, efeito devastador do crescimento disforme das cidades.

Nesse panorama, o quadro brasileiro é dramático e nele se insere Manaus, outrora musa dos poetas, do Clube da Madrugada, do Café do Pina hoje, objeto de uma crônica sangrenta. A questão que se põe diante de uma angústia generalizada é se há solução para um problema que gerou a sociedade do medo.

Decerto não há solução mágica, mas há solução, segundo atestam as boas práticas bem-sucedidas em países ricos, emergentes e pobres. É o que se observa na Austrália, Canadá, Bélgica, França, Inglaterra, Nova Zelândia, nas cidades americanas de Fort Worth, Hartford, Denver, Boston e Nova Iorque e nos casos emblemáticos de Bogotá e Medellín, parecidas com nossas cidades.

Em todos os casos, o êxito das políticas públicas de segurança preventiva e repressiva tem, em comum, além de firme decisão política, recursos adequados, articulação institucional e integração operacional, a decisiva participação do poder local, mobilizando e envolvendo a cidadania. No Brasil, essa questão passa ao largo dos poderes locais, como se a responsabilidade de enfrentamento dessa calamidade estivesse subsumida à competência da União e, mais diretamente, à dos Estados. Não raro, uma interpretação canhestra do artigo 144 da Constituição Federal é usada para eximir a esfera municipal.

A partir das referidas experiências e da dimensão que tomou o problema da violência urbana, torna-se imprescindível a efetiva participação dos poderes locais, em especial do Executivo e Legislativo municipal. Não há mais lugar para escapismo e transferência de responsabilidade, a sociedade acuada vive o clima de guerra civil, o caminho é a firme crença na força da cooperação e na capacidade transformadora do poder local.


Perda de tempo - Em 16/05/2018

Este ano de 2018 apesar de ainda estarmos no quinto mês do ano já tive várias perdas, e aí fico a me perguntar: Que lição a vida nos dá através das perdas? Se estivermos com nossos corações e mentes receptivos, sem dúvida alguma, apesar das dores resultantes, teremos grandes oportunidades de ganhos, tanto para o nosso crescimento pessoal quanto espiritual.

A primeira grande lição que aprendemos com as perdas é exatamente sobre a enfermidade da vida. Nossa existência humana é muito frágil, efêmera. Quando perdemos um amigo, perguntamos: quem será o próximo? serei eu? Se a vida é muito efêmera, devemos aproveitá-la muito bem. O tempo de conviver com os amigos, valorizar as pessoas, ampliar as amizades é exatamente agora. Deixar para o amanhã poderá ser tarde demais! A vida é muito curta para adiarmos sempre o tempo de sermos amigos e solidários.

Em segundo lugar, com as perdas, aprendemos sobre o valor real das pessoas. Muitas vezes, nossa vida é circundada por coisas, objetos, imóveis, enfim, vivemos presos ao material, não valorizamos aqueles que nos cercam, os quais passam a ter valor secundário em nossa vida e em nossa escala de valores. É importante nunca esquecer que as coisas foram feitas para serem usadas, e nunca para ocupar, em nosso coração, valor superior. As pessoas é que são importantes. Elas devem ser amadas e o amor vai dando, pouco a pouco, sentido à nossa existência e nos tornando mais dignos da vida e de nós mesmos.

Finalmente, através das perdas, aprendemos muito sobre as surpresas da vida. O dia de amanhã será sempre um mistério onde tudo pode acontecer! Às vezes, acordamos sorrindo e anoitecemos em prantos. Como nós não temos controle sobre o amanhã, devemos viver hoje intensamente o tempo que temos para viver, amando as pessoas, perdoando aqueles que nos prejudicaram ou ofenderam, ajudando aos necessitados, dando carinho especial para a família, dando atenção aos idosos, brincando com os filhos, enfim, tornando a existência mais bonita, nosso tempo menos fútil e nossos valores mais espirituais.

Numa existência tão curta, tão materializada e tão cheia de surpresas, só nos resta uma saída: o amor; viver bem é também aprender com as experiências amargas, é saber ganhar através das perdas, pois elas possuem uma pedagogia própria, e nos ensinam lições preciosas. A única perda irrecuperável é a perda de tempo. Quando se vai ficando velho é preciso reunir as forças que restam para aproveita-las mais viáveis ao romantismo de cantar, escrever, conversar saber do que fez e o que deixou de fazer sem as lamúrias do arrependimento.


O Parlamento - Em 09/05/2018

Já escrevi e comentei sobre o tema corrupção, não sem certo nojo e fastio, mesmo porque sua repetição continuará pelo tempo afora, até quando resolverem aprofundar uma reforma institucional que elimine, ou pelo menos tente reduzir, a influência do poder econômico nas eleições. O dinheiro move o mundo e alimenta a corrupção em seu efeito circular, atingindo a alma das instituições todas as vezes que não sofre controles rígidos da opinião pública.

Mas hoje resolvi escrever sobre a instituição Parlamento.

As instituições não são as pessoas que eventualmente as fazem. As pessoas passam, as instituições ficam, permanecem no tempo como uma necessidade da vida em comum. Elas são o fator de aglutinação, a personificação e materialização da vontade que lhe deu forma para a realização de interesses e valores humanos e coletivos. Assim, há pessoas que integram as instituições e vivem os seus ideais de maneira tão autêntica e legítima que marcam para sempre a sua passagem. Outras, no entanto, assinalam sua passagem de forma negativa, porque distorcem e traem fins e objetivos. Por isso, passam a representar maus exemplos, aquilo que deve ser evitado.

É o que infelizmente está acontecendo com o Parlamento nacional. De tanta tradição e glória, como aquela que tirou de cena dois presidentes da República surpreendidos em graves erros, vive agora uma das mais difíceis fases de sua existência. O Parlamento não é isso que aí está e as graves acusações que fazem a alguns parlamentares não é justo que atinjam a todos. E não é justo igualmente que a cena política seja reduzida ao que se vê, escuta e lê.

Conforme sabemos, a tarefa legislativa é fundamental para qualquer sociedade democrática. É no Legislativo que se devem produzir as leis fundamentais de uma sociedade, as quais precisam ser justas e benéficas ao corpo social. Não é ocioso relembrar a importância que Rousseau, no seu consagrado Contrato Social, dispensava ao Parlamento, considerando o legislador uma pessoa semidivina ou divinamente inspirada, em face da grandiosidade de sua missão, qual seja a de fazer as leis.

O que está havendo, na verdade, é, a um só tempo, abuso de poder e desvio de finalidade por parte de alguns dos envolvidos neste hediondo escândalo político. É ato de verdadeira traição à vontade popular, aos que confiaram em indignos mandatários. Portanto, é uso injusto, ilícito. Destarte, devemos ter esperança de que esta crise vai passar. Precisamos de um Parlamento forte e atuante, sobretudo ele, que no concerto dos Poderes é o único que tem todos os seus membros eleitos pela vontade popular o ideal democrático, exige e supõe cidadãos atentos e informados dos acontecimentos. Que saibam repudiar os que desservem à causa pública. Porém que também saibam separar o joio do trigo, as pessoas das instituições. Isto porque, os príncipes e suas faltas passam, mas os princípios e as instituições ficam.


Desarme-se - Em 02/05/2018

Vamos nos desarmar, não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita. Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco. Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu. Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso. Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo. É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, desarmamento seja o novo nome da paz. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro. Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados. O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos. Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução. O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Isso sem falar que o perigo das armas está entrando pela porta da frente das escolas brasileiras, levando medo e insegurança a alunos, professores, diretores e funcionários



O Pudor - Em 25/04/2018

Em passado recente, um dinamarquês, em cemitério de Copenhagen, ergueu um túmulo como protesto para simbolizar a morte do pudor em seu país, o qual havia liberado (verdadeira "legalização") a pornografia, com base na ingênua e falsa tese de que não sendo "proibida", sendo "permitida" ninguém teria interesse ou motivo mais para praticá-la, pois a tendência da natureza humana é somente fazer o que é proibido, argumentava-se.

Atualmente, com o "liberou geral", com a permissividade sexual - tudo é "natural", "não há nada demais no que se faz" - com o amoralismo dos costumes, a erotização precoce de crianças e adolescentes, com a gravidez cada vez maior entre 14 e 18 anos, conforme as estatísticas, com a transformação do homem e da mulher somente em termos de "macho" e de "fêmea" em uma sociedade moralmente decadente, não haveria estoque de material suficiente para a construção de túmulos de tal espécie ou finalidade em todas as nações pois o pudor está morto e enterrado, "sem choro e sem vela", inteiramente esquecido.

Em geral, hoje não é mais sentido nem eticamente e nem psicologicamente o denominado "senso de pudor" ou "sentimento de pudor" - o "sentir vergonha" da expressão popular -, muitos não sabem sequer o seu significado no vernáculo, ou nunca ouviram falar em tal vocábulo, outros pensam ser o mesmo pertencente a um curioso museu de palavras perdidas no tempo ou é simples termo de gramática histórica...

Fatos que ocorrem em nossos dias são bem expressivos da morte do pudor como (entre inúmeros outros) a pedofilia como fenômeno universal, usado até na internet; os crimes sexuais são mais cometidos dentro de casa, por familiares da vítima que na rua por estranhos, tanto nos países pobres como nos ricos; a apologia do adultério, a sua descriminalização (que é jurídico-penalmente o termo correto e não "discriminação", diferente ainda de "despenalização"), sustentando-se até agora, absurdamente e maliciosamente a existência de um "direito de trair" (ou" a trair"), "direito de infidelidade" (ou "à infidelidade"), no casamento(!) em nome da "liberdade" que se torna assim sinônima de "libertinagem"; o Ministério da Saúde em vez de preocupar-se com a saúde do povo (sem educação e saúde nenhuma nação será desenvolvida), está mais transformado em um verdadeiro "Ministério do Aborto" ao buscar como obsessão legalizá-lo de qualquer modo, ou então em "Ministério do Amor Livre" quando em sua publicidade subliminarmente incentiva os jovens a relações sexuais sem nenhum compromisso desde que usem preservativos.


O País tem jeito - Em 18/04/2018

A teoria do Brasil à beira do abismo é antiga. Faz mais de um século que os pessimistas dizem que este país não tem jeito. É o grupo dos catastrofistas, que usam sua literatura para decretar a nossa incapacidade de consolidar a democracia e reverter a situação de marginalidade da maioria da população.

Do outro lado figuram tipos naquela base do nossos bosques tem mais flores e nosso céu mais estrelas. Os governos costumam bancar a cena otimista e foi com entusiasmo quase juvenil que o presidente Juscelino (1956/1961) conduziu o seu programa de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Gastou-se uma fábula de dinheiro fabricado para financiar um grande volume de obras. Força é reconhecer que naquele tempo havia um clima de discussão aberta. Só que os resultados surtiram efeito negativo nas finanças, com o aumento do endividamento externo e a espiral inflacionária, agravada com a renúncia de Jânio Quadros (agosto de 1961) e a crise que desaguou no golpe de 1964.

Na verdade, otimistas e pessimistas formam o mosaico que mostra o Brasil como um país dualista, que alterna humores divergentes. Somos, como dizia Euclides da Cunha, um povo em formação ainda hoje, quase cem anos depois da primeira edição do livro Os Sertões que sofre influências negativas de políticas que privilegiam os impérios centrais. As ditaduras mais recentes (a de Getúlio Vargas (1937 a 1945) e a dos militares (1964/1985) resultaram na quebra do otimismo, gerando um deformado processo de comportamento. Só mesmo nos grotões, como escreveu recentemente o escritor Antônio Torres (autor de Balada de Infância Perdida ), ainda se encontram professoras e alunos de curso fundamental cantando hinos patrióticos.

As escolas de elite trocaram o preito aos símbolos nacionais por viagens a Disneylândia. Cantar o Hino Nacional para esse tipo de educação soa como coisa de um mundo caduco. Entre as duas posições, há sempre de lembrar que a virtude está no meio. É este o pensamento de um grande brasileiro, o sociólogo e pensador Milton Santos, para quem diante da crise brutal que marginaliza o nosso povo, vale lembrar a França dos tempos da queda da bastilha. O imperador Luiz XVI disse que não havia nada. No dia seguinte explodiu a Revolução Francesa e milhares de cabeças rolaram. A famosa cordialidade do nosso povo pode ter um limite.

A menos que o governo deixe de fazer pose para o mundo exterior e seja convertido a um programa de construção nacional. É um sonho que acalentamos desde os tempos da Inconfidência Mineira. É claro que a violência, a tragédia, a corrupção a crise Ee o comportamento de alguns ministros do nosso Supremo, estão aí na nossa cara, mas é preciso ter pelo menos uma dose de otimismo, senão de nada restará lutar para tirar do comando os delinquentes.


Era dos pulhas - Em 11/04/2018

Vivemos na era dos pulhas os mais diferenciados. Que independem de sistemas econômicos, escolaridade e renda, raça e religião, sexo e ideologia. Ilude-se hoje abertamente, utilizando os mais diferenciados meios e métodos de enganação, da praça pública à televisão a cabo, passando pela internet, ensino superior e organizações não-governamentais, alguns deles já descaradamente neo-governamentais.

Na lista dos pulhas mais destacadas, os histerismos de ideologias que já se descoloriram, religiões que oferecem mundos e fundos e homeopatias e alopatias que prometem levantar até o que amoleceu ad perpetuam rei memoriam. Para não citar o besteirol dos dirigentes da área esportiva. É chegada a hora da parte saudável da sociedade civil brasileira se manifestar, através de intensas pressões democráticas. Pela sobrevivência do nosso amanhã como nação civilizada, nunca sendo olvidada a advertência feita pela jovem Anne Frank, trucidada pelas forças da estupidez: para nós, jovens, é duas vezes mais difícil manter nossas opiniões numa época em que os ideais são estilhaçados e destruídos, quando o pior da natureza humana predomina, quando todo mundo duvida da verdade, da justiça e de Deus.

Recentemente, uma revista de circulação nacional dirigida pelo Mino Carta, através de uma reportagem - O Vulgar Para Todos - destacou a ultrapassagem de alguns limites. E quando a vulgaridade de uma classe média se amplia, perde-se o senso do ridículo, gerando irresponsabilidades sociais dos mais diferenciados calibres, para ter ibope valendo até fotografar-se se arreganhando imitando tocar guitarra. Uma classe média que já não se respeita é sinal evidente de que algo de podre está contaminando tudo, reduzindo as expectativas a um salve-se quem puder autofágico, para Bil metido-a-cavalo-do-cão nenhum botar defeito, pois já não mais se enxerga coisa decente pela frente. Para não falar dos milhões de ouvintes de rádio e televisão que se anestesiam com as infelicidades dos outros, as chifrudagens gravadas sob os olhares "furiosos" do corno fingido, não percebendo todos que tudo é muito bem programado para ampliar o faturamento comercial dos patrocinadores, alienando tudo, a família e os bons costumes. Embora à merda sempre se deva mandar os moralismos idiotas e os faniquitismos nostálgicos.

Busquemos erradicar a mediocridade dos não-pobres. Com tudo o que está acontecendo no País, afirmo que o cidadão brasileiro que não se angustiar com o que está acontecendo, é cínico, cúmplice ou sofre de dislate cívico. Governador preso, ex-Presidente, Prefeito e vice-prefeito sendo enchilindrados por descarada falsificação, bolsa-família beneficiando milhares de não-pobres e nepotismo descaradamente praticado e justificado diante de milhões de brasileiros. São os pulhas sendo desmascarados.


Caráter das elites - Em 04/04/2018

Temos sido convocados, neste nosso país, em seguidas e sucessivas gerações, ao longo de mais de um século, a uma luta incessante, política e institucional, para tentar impedir, quem sabe! um dia derrotar, o abuso, a trapaçaria, a fraude, que se repetem, aqui e ali, no processo eleitoral, impunemente.

Para a organização e ocupação dos poderes do estado todo embuste tem sido possível. Vem de longe essa incapacidade nossa de resistirmos, instituições e homens, à barganha que se instala, voraz, visando à conquista do exercício do poder e do governo. É verdade que demos, vez por outra, alguns passos importantes. Mas, ainda hoje, vivemos, infelizmente, a indignação e a vergonha de constatar que a Nação continua distante da qualidade da representação política, a que aspira, que a honre e a sirva. De tal forma que um abismo enorme se tem criado entre a credibilidade pública e a prática da atividade política.

É como se fora, num caldeirão de mazelas, a mistura irrefreável de interesses, conveniências, e prevaricação, e violência, afastando-nos, permanentemente, do objetivo de ordenar uma sociedade com instituições democráticas, decentes e justas. Esses obstáculos nos acompanham desde o Império e vêm atravessando a República. De um lado, relações sociais, que remanescem, perversas e arcaicas, impondo discriminações civis e econômicas da natureza mesma da velha sociedade escravocrata, ultrapassada; de outro lado, impedimentos que estão no caráter das elites inescrupulosas, dominantes, no coronelismo fanfarrão e atrasado, no aventureirismo ambicioso, sem fronteiras e sem pátria, que logram estabelecer-se na direção da política e dos negócios.

Por isso, a rigor, nunca vivemos a Democracia. No sentido da formação e constituição de uma sociedade de cidadãs e cidadãos, nunca a tivemos. Instituímos, simplesmente, um regime de eleições, mais ou menos complacente, velhaco mesmo, para dar forma e modos ao sistema aparente de sufrágio universal, soberania popular e garantias individuais, que o atual bom tom, da contemporaneidade moderna e global, exige e proclama. Sem compromissos éticos, nem compromissos com as famílias, as pessoas, o ser humano.

O vendaval da história varreu o estilo. Mas ficou, infelizmente, o miolo depravado, licencioso, que permanece envenenando a representação política republicana. A fraude não pode vencer. A ideia de justiça não pode submeter-se, nos tribunais, à liturgia que esconde a verdade eleitoral e tudo ajeita, oportuna, para deixar vingar a contrafação. As instituições judiciais eleitorais não podem, pela omissão, que o atalho do rito processual oco, descomprometido, registra, repetir a façanha suja da "verificação de poderes".

A Nação não quer a mentira, e portanto não quer a passividade, a complacência, ante a corrupção eleitoral, que a avilta. Por que Justiça Eleitoral? Para quê?

A corte contaminada - Em 28/03/2018

Estranhamente, cala-se, de modo ensurdecedor, o Poder Judiciário brasileiro. O que o Supremo Tribunal Federal julgou na ultima semana, dando salvo conduto para que Lula não seja preso até dia 04 de Abril não precisa de mais nada para se desmoralizar. Desmoralizou-se. A Lei Lula acaba de ser criada pelo Supremo Tribunal Federal. Não interessa se provisória ou não, se valerá apenas enquanto os ministros desfrutarem do feriadão da Semana Santa. Mesmo negado pela turma do Tribunal Federal, os últimos recursos. Ela foi criada.

Há mais de dois anos desfilam nos principais jornais, rádios e televisões do País denúncias e comprovações de corrupção, as mais variadas e sortidas ramificações em inúmeros e diferentes segmentos da nossa sociedade. Toda a nossa corte está contaminada de ladroagens, cinismos, omissões, mentiras, e o silêncio inexplicável do mais alto poder de justiça nos espanta. Salvo manifestação em concessões de habeas corpus a bandidos de colarinhos brancos, para que os mesmos, de caras lavadas, gozem das caras sérias de todo brasileiro.

É mensalão em todos os cantos e recantos de nossos poderes - imaginem em outras paragens. É no Executivo, Legislativo e, esperamos, seja dado um sacolejo também no Judiciário. O que ocorreu no nosso Supremo Tribunal Federal quando do episódio do julgamento do Habeas Corpus de Lula, foi patético. Patere legem quam facisti (Respeite a lei que fizeste). Esquisito, não? E logo se trancaram aqueles onze vestais na mais precisa eutanásia da coragem e personalidade reinantes em suas vidas, gerando para todo povo brasileiro um arrepiante descrédito naquele Poder e, como sequela, um desabonador silêncio para a Nação.

Nunca o silêncio dos inocentes, mas aquele mistificado como resguardo comum a detentores de caras lisas. É bom nem imaginar que o tal mensalão da compra de votos e favores criado nas tapadeiras do PT e nas ante-salas do Planalto possa ter atingido as barbas daquela imponente e respeitável instituição. Ou chegaremos ao fundo do poço.

E agora? Tem bububu no bobobó também em tudo que é órgão oficial, empresas estatais - economia mista ou fundação, enfim, atingindo todas as veias sociais, populares, sim sinhô. Quadrilhas de apostadores, eletrônicos ou virtuais, cibernéticos ou robotizados, pouco importa. Juízes comprados para mudar resultados de jogos, fazendo a torcida de boba, jogadores de corpos-moles, técnicos burros, e pior, jogando toda a classe de árbitros à galhofa pública e, de agora em diante, passiva da mínima fiscalização. Embora, é bom lembrar, que essa tal compra de juízes de futebol vem de muito tempo atrás.

A verdade é que a gatunagem é incrível no nosso solo pátrio e a corte brasileira está encurralada. E, quase esqueço, quanto ao nosso Melo.. Este é de todos os Ramos.


O medo - Em 21/03/2018

O medo, transformado em pânico, ajudou a destruir Cartago. O medo, transformado em pânico, pode acabar com o que resta de civilização. Se o medo não for derrotado, os terroristas, mesmo que tenham morrido todos, já terão vencido a guerra.

Ao tratar, em um de seus ensaios, do medo que se apossou de Cartago, Montaigne o descreve como "une merveilleuse desolation", uma desolação sobrenatural. Diante do medo, destaca o grande pensador, até a morte é mais suave: para dele fugir, os homens enforcam-se, envenenam-se, afogam-se. Ou buscam o abismo, como, no desespero, acossados pelo fogo, muitos saltaram do alto das torres de Nova York. Atribuem a César (e o que não lhe atribuem?) a frase forte contra o medo, quando o advertiram dos sinais aziagos de seu último dia: o homem de coragem morre uma só vez; o covarde, muitas vezes.

No Brasil, especificamente, a nova fase de modernização capitalista teve impactos consideráveis sobre a vulnerabilidade social urbana. O tráfico territorializado de drogas avançou, criando localidades praticamente fora do controle do Estado. O aumento das desigualdades sociais configurou uma crise de grande envergadura que contribuiu para a deterioração das relações de sociabilidade e de confiança, ampliando a segregação e o medo.

A nós, brasileiros, bastam-nos os nossos próprios e bem instalados medos. Há muitos anos que convivemos com o medo das ruas, o medo da noite, o medo das esquinas, o medo até mesmo de nossos guardiães, oficiais ou privados - além do medo do desemprego, que apavora mais do que a morte (muitos são os desempregados que se suicidam), o medo da fome, o medo da miséria. Em alguma coisa, no entanto, o medo é justo: ele atinge ricos e pobres, embora atinja mais os pobres do que os ricos.

Os pobres não podem pagar seguranças nem erguer altas muralhas em torno de seus barracos; estão impedidos de blindar seus carrinhos, quando os têm; devem enfrentar a viagem nos ônibus sujeitos aos assaltos todos os dias, a caminho do trabalho e de volta a casa. No trabalho dependem do humor de seus capatazes, e amanhecem, a cada dia, sob o medo de receber o aviso prévio de dispensa. Mas os ricos também se apavoram: sua fortuna, sua opulência, sua soberba são também orgulhosas torres, alvos visíveis e atraentes.

O presidente da República ao decretar intervenção federal na area de segurança do Rio de Janeiro, fez mais uma bravata, não será o exercito com tempo determinado que irá acabar com a bandidagem do Rio e consequentemente com o medo da população. Em Manaus, não há um dia sequer em que não haja pelo menos dois homicicios e um numero incalculável de assaltos em ônibus e ruas. Hoje não há quem saia de casa com o medo de não retornar.


Belo sonho de vida - Em 14/03/2018

Posto que a morte é inevitável, como deveria ser a vida, para o homem comum?

Do ponto de vista financeiro, não, claro, a obsessão pela acumulação de bens e riquezas, luxo e ostentações, que ninguém levará consigo quando o dia fatal chegar. Sim, alguma base material para viver uma vida digna e com um recatado conforto, sem grandes atropelos, até com uma pequena folga para se permitir, de vez em quando, um modesto passeio pelas belezas deste mundo.

Do ponto de vista profissional, sobretudo a integridade do comportamento, qualquer que seja a atividade exercida: que ela seja praticada de forma reta, altiva, honesta, sem subserviências desmoralizantes, sem falsidades, sem precisar se vender, sem se corromper, sem "mensalões" ou "mensalinhos".

Quanto à duração, que a existência fosse longeva, avançasse pelos anos, mesmo o corpo ficando encanecido e brancos, os cabelos. E visse, em derredor, a família bem constituída, nutrida de sólidas afeições recíprocas.Tropeços, decepções, quedas, deslizes, atritos, que existência humana poderá se declarar completamente preservada dessas turbulências?

Essencial terá sido a certeza, a cada crise renovada, de que o que os unia era muitíssimo mais forte do que tudo quanto conspirasse para desagregá-los. E ver a fecundidade da vida, não só os filhos brotando, crescendo na alegria e na abnegação de um lar bem estruturado, mas também brotando os filhos dos filhos, e até filhos dos filhos dos filhos, todos com alguma segurança, não só a relativa, material e financeira, mas sobretudo a fundamental, emocional e afetiva, pela presença e apoio de uniões igualmente consistentes e entrosadas.

E chegar a tal idade avançada, com os achaques inevitáveis, é claro, mas com razoável lucidez, com a capacidade de ainda discernir, em torno, o generalizado júbilo, e sentir, em todos, a gratidão e o carinho - tais e tantos e tamanhos que seria competição absolutamente impossível querer identificar entre os netos - todos já integralmente criados, quase senhores absolutos dos próprios narizes - qual o mais presente ou qual o que mais o amava.

À noite, dormindo, sem nenhum aviso prévio, exatamente como ele mesmo desejava, e integralmente realizado o sonho da vida longeva e vivida com simplicidade e retidão, respeitado e amado pelos filhos, idolatrado pelos netos e bisnetos, - aos sobreviventes que ficarem, por mais desolados que estejam (como não poderia deixar de ser), só restará reconhecer que aquela foi uma vida abençoada, foi uma graça de Deus, graça a poucos, a muito poucos concedida. E desconfiar, no mínimo, que ganharam no céu mais um intercessor, porque, entre esses familiares felizes, "a separação é impossível", seja aqui seja além, "o amor é infinito" e "os laços que os unem são indestrutíveis".


Mulher - Em 07/03/2018

Durante mais de vinte anos escrevendo em jornais de nossa cidade seria natural coincidir escrever, no dia Internacional de Mulher. Já fiz vários artigos enaltecendo a mulher, mas hoje queria antes de homenagea-las, lembrar como precisamos da nossa afetividade com as mulheres e com o mundo, para que possamos ver os tons do arco-íris, o som da chuva, a poética da lua, a vida nos olhos do outro, a generosidade da flor que se abriu, a dor do irmão que sofre, a carência do filho que chora. A vida tem pressa e ontem já se foi.

As mulheres desse século terão uma vida média de 75 anos. Até o século 19 a média de vida das mulheres era de 40 anos de idade. A mulher, em sua evolução, não perdeu a sua característica de concha, de afeto, de carinho, de porto seguro tão necessária no relacionamento humano. No Dia Internacional da Mulher quero, ficticiamente, implantar uma lei que representa a modernidade da nova mulher... "As mulheres que completarem 50 anos ou mais no século 21 terão direito, sob o ponto de vista biopsicossocial, a um abatimento de 20% na idade cronológica". Cumpra-se.

Mas, eu quero ainda neste momento, falar-lhes de uma mulher muito especial. De uma mulher que tem os predicados e virtudes das mulheres bíblicas. De uma mulher que tem o coração bondoso como o de Catarine. De uma mulher que tem oportunidades fantásticas na vida. De uma mulher bonita interior e exteriormente. Sua beleza é diferente de todas as outras. Ela é admirada e elogiada. De uma mulher que venceu com dores especiais para ser uma vencedora nas batalhas da vida. De uma mulher muito talentosa, que tem oportunidades de a cada dia desenvolvê-las no lar e na sociedade.

Eu quero falar desta mulher, porque sua vida me empolga. Sua vida é um presente de Deus. É uma mulher de fibra de garra, lutadora, que também sofre e muitas vezes chora, mas tem sentido no seu dia a dia o conforto de Deus. Uma mulher que na jornada até aqui, tem convicção de que Deus a carregou nos seus poderosos braços para poder superar os traumas de infância.

Caras leitoras, realmente esta mulher, você irá conhecê-la lendo este artigo que está em suas mãos. E neste artigo você irá ver a fotografia desta mulher. Esta mulher é você! Esta mulher de oração e ação que foi criada a imagem de Deus. Minhas caras, olhe para você mesma, faça uma auto-análise de sua vida, veja que linda história, existe em você, o quanto poderá ainda fazer e o quanto Deus tem feito por você. Muitas coisas maravilhosas já fizeste, mas muito mais ainda poderá fazer. Parabéns a todas as mulheres pelo seu dia.


Sina inevitável - Em 28/02/2018

Os sequestros e suas torturantes modalidades; homicídios em linha desafiadoramente ascendente; "clonagem" de cartão de crédito; quadrilhas especializadas em saques eletrônicos e fraudes afins; corrupção em todos os níveis nos poderes públicos: o cenário social brasileiro é de pura desesperança, dada a onipresença do fenômeno do crime a demandar prementes soluções políticas para a sua erradicação ou, ao menos, para obrigatória diminuição. A vitimização diuturna imposta a toda uma apavorada sociedade retira, lamentavelmente, o caráter de excepcionalidade do fato delituoso, para convertê-lo em mero lugar-comum nas relações sociais do cotidiano, tudo pela sua continuidade apavorante que impõe a todos um pseudo estado fleumático, mais de medo e perplexidade, ressalte-se, do que complacência. Parece que conviver com o espectro do crime a rondar os mais comezinhos hábitos da população tornou-se a sina inevitável das pessoas: fomos ou seremos as próximas vítimas. Assombrosas e apocalípticas estatísticas criminais revelam o recrudescimento desmesurado da violência nas metrópoles, como também em longínquos e pacatos distritos interioranos, onde outrora e raramente a quietude do lugar era surpreendida por um delito isolado, no mais das vezes de natureza passional. É patente que os finais de semana e feriados transformaram-se em autêntica guerra civil, face aos morticínios e avalanches de roubos. Os inúmeros programas televisivos unicamente voltados para a temática do crime atingem grande audiência, mormente quando veiculados em "horário nobre", e alguns, como que substituindo a obrigação estatal de persecução de periculosos delinquentes, contam com a interação e o concurso dos cidadãos espectadores para um ofício de ordem eminentemente público: identificar, através de fotos repetidamente mostradas, o paradeiro daqueles que o Estado policial já perdeu de vista. Conduta juridicamente punível, fato é que o crime está se tornando um episódio banal em nossas vidas, dada a repetição de sua prática por um rol de homo violens dos mais diversos estratos sociais, importando no correspondente descrédito do povo quanto aos mecanismos institucionais de sua prevenção, controle e punição, sendo certo residir neste intrigante aspecto a grande problemática da sua erradicação, pela desproporção mesma da adoção de políticas e investimentos públicos específicos sempre aquém do mínimo tecnicamente necessário, daí o florescimento e multiplicação de empresas particulares de segurança. E não adianta criar Ministério de Segurança Pública, porque os criminosos não estão preocupados com estrutura hierárquica.


Acomodados e esperançosos - Em 21/02/2018

O escritor Artur da Távola lembra que o brasileiro traduz o resultado da mistura de acomodação com esperança. Os ingredientes que compõem a alma nacional já foram decantados em prosa e verso, constituindo-se uma permanente característica de nosso povo. Em princípio, não devemos lastimar nosso espírito pacífico e nem a vocação para a esperança. Decorrentes de herança cultural e da indecisão em construir o verdadeiro destino da Nação. Avaliar as contradições existentes parecer ser o melhor caminho para um dia poder superá-las. Em contrapartida, possuímos o privilégio de ser um povo alegre. Uma capacidade imensa de esquecer problemas e de vivenciar as sugestões do momento, colocando em segundo plano as angústias permanentes e os desafios que nos aguardam. Prevalecem as lições da sabedoria - procurar desfrutar dos ocasionais motivos de alegrias e das boas emoções que acontecem sem avisos. Despertando em cada um a arte e a consciência de que tudo passa e o tempo apaga todos os fugidios valores. Já se tornou didática a recomendação de que sem o autoengano a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Daí a necessidade de se criar sempre ilusões. Os realistas enxergam a gravidade dos fatos, medem as angústias e se desesperam pela falta das soluções. As ações do governo decepcionam a população. Fabricam mentiras, exigem sacrifícios e deixam de fazer a sua parte. Menosprezam o entendimento da sociedade e contam com a certeza de que logo as injustiças serão esquecidas. Superadas por novos assuntos ou pelas novas tragédias. A imoralidade do teto salarial que permite a acumulação de altos vencimentos estabelece privilégios inaceitáveis. Agride o imenso contingente de funcionários e trabalhadores que amargam um período de cinco anos, de dificuldades e congelamento de salários. O valor do salário mínimo não desperta nas autoridades o mesmo ânimo de interesse. O Ministério da Previdência expõe reflexos em seu orçamento. No entanto, o INSS não declara que paga apenas parcialmente a maioria das aposentadorias, não obedecendo à proporção do teto das contribuições recolhidas. O escritor Antônio Maria legendariamente registrou - brasileiro, profissão esperança. Os detentores do poder exploram a boa fé dos cidadãos e acham que tudo podem fazer e enganar. Inclusive a condenável manipulação das verbas públicas. O governo atua fortemente para não atualizar o salário do trabalhador nem recuperar as perdas dos vencimentos do funcionalismo. Mas, não penaliza as ambições das lideranças políticas que desviam recursos e desfalcam o patrimônio moral da Nação.


Carnaval e costumes - Em 14/02/2018

O que escrever numa quarta feira de cinzas, nada a não ser sobre carnaval. Confesso que este ano fiquei alheio a todas as bandas e blocos, mas vi pela televisão. O carnaval que hoje faz a gente imaginar não sejamos, na realidade, principalmente pela sua causa, considerados por muitos como país da libidinagem, para não dizer país por certos períodos do ano endemicamente devasso. Não se pode negar que nesses dias destinados ao império do rei momo, não se observe que realmente confundimos a liberdade de comportamento com a mais inescrupulosa licenciosidade nos costumes, nas expressões, e nas manifestações lúdicas.

A prática apelativa e escancarada do fluir dos instintos desregrados toma, agora, o lugar da espontaneidade admirável que caracterizava a manifestação festiva dos grupos humanos dos anos 50 e 60 por exemplo. Por volta dessa época, sem dúvida se externavam padrões de dignidade carnavalesca muito menos ostensivos, muito menos vergonhosos e sem o nível de baixaria como hoje se veem. Ora, acho que naqueles tempos, acreditava-se não ser normal nem lícito o uso de liberdade do instinto lascivo em detrimento, ou com acinte, aos princípios da moralidade pública universalmente aceitos. Os costumes calcados em tal pseuda liberalidade, ainda que seguidos por maiorias nacionais, não significam que possam ser justificáveis. Na verdade todo e qualquer hábito ou costume somente tem livre trânsito, em termos de viabilidade de existência, desde que tenha ele por concessão da sociedade soberana o seu respectivo salvo-conduto da decência. As referências a nossa nação, maldosas e arrogantemente dúvidas no exterior, debochando de nosso país como o país do carnaval e do futebol, teriam de ser rechaçadas, contestadas com argumentos defensivos e esclarecedores. É de nossa obrigação fazer oposição e abjurar tal infâmia, não exercer atitudes de completa indiferença, através do silêncio comprometedor e desdenhoso. O carnaval e o futebol afinal são manifestações comuns aos povos de grande número de nações, consequentemente não seria por isso que se fundamentariam críticas como se, por sermos adeptos de tais práticas, com tanto fervor, seríamos povo menos digno da civilização.

Enfim, o que não nos recomenda, apesar de ser direito democrático, é essa liberação abusiva, de um ano após o outro dessa demonstração de verdadeira lascívia, durante os três ou quatro dias em que a orgia toma conta dos costumes. Se a exposição fosse apenas de corpos nus ou seminus não seria nada, tolerar-se-ia, mas a ostentação de libidinagem, sem nenhum outro intuito que não para provocar o instinto sexual, não se vê absolutamente viabilidade de com isso a gente contemporizar. Parece que sob o impulso de tal estado de ânimo perde a vez qualquer tentativa de refreio das paixões.


Que tiro foi esse? Em 07/02/2018

Desanima o escritor saber que a maioria das pessoas, independentemente do nível socioeconômico, nada lê e que no universo dos leitores ativos poucos se debruçam sobre textos de boa qualidade. Até na universidade é expressivo o número dos que lêem sem conseguir entender textos de pouca complexidade expositiva e argumentativa. Bombardeados por apelos visuais irresistíveis, crianças e adolescentes resistem cada vez mais à leitura e começam a ouvir péssimas músicas. O insinuado, o dedutível, o que vai além do literal banal, fica mergulhado nas sombras da incompreensão. Por conseguir detectar no texto apenas o pouco que já sabe, o leitor deixa de com ele aprender alguma coisa. Daí a leitura despontar como algo tedioso, uma sopa de palavras sem encanto e sem a dimensão de um espaço de reflexão capaz de ensejar uma fecunda interação entre o autor e o receptor.

Se formos falar de referência também da música, aí é que a coisa pega. Se lembrarmos cantoras como Elis Regina, Maria Betânia, Carmem Miranda, Gal Costa, Ângela Maria, Nara Leão, Clara Nunes, Maysa, Beth Carvalho, Simone, Ana Carolina, Elza Soares, Dalva de Oliveira, Zizi Possi, Zélia Duncan, Maria Rita, Emilinha Borba, Isaurinha Garcia, pra ficar em apenas algumas, tínhamos letras e músicas maravilhosas. Mas aqui pra nós, colocar a cantora Anita como símbolo sexual do Brasil e chamá-la para ser a cantora com mais capacidade para representar nosso país, passa da exploração sexual para a idiotização.

Dizer que isso é letra de musica: Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, an an Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, an an Tá pedindo, an, an Se prepara, vou dançar, presta atenção An, an tutudum an, an Cê aguenta an, an Se eu te olhar Descer, quicar até o chão", é brincar com a musica brasileira, jogando seus vômitos para uma população que não tem senso crítico, uma população medíocre que escuta estas baboseiras só porque todo mundo escuta.

Chega disso!

Vamos aprender a filtrar o que a gente escuta por aí e apreciar as músicas boas! Vamos deixar essa mediocridade apenas para os que insistem em ser medíocres! A sensibilidade artística é algo que está se tornando artigo do luxo no mundo de hoje. Por isso que estamos vivendo essa decadência da música. Quase todos só querem ouvir músicas internacionais. Não estou condenando as músicas internacionais, não é isso. Eu também escuto muitas. Eu estou questionando aqueles indivíduos medíocres que pensam que as únicas músicas boas são as internacionais. Eu fico muito triste ao ver tanta gente que não se abre para conhecer melhor as músicas nacionais. É uma pena. Essas pessoas estão deixando de apreciar uma beleza magnífica.

Epa, que tiro foi esse?


A temida prova - Em 31/01/2018

Estão vivos em nossa memória os absurdos que, em outros tempos, se cometiam nas provas de concursos públicos, em nosso país. Nelas, nada havia o que pudéssemos definir como politicamente correto, pois, na verdade, eram arapucas apelidadas de provas. Muitos candidatos, coitados, preparavam-se à exaustão para a maratona de Português e Matemática, davam-se bem nas duas disciplinas, e depois morriam na praia. É que um bicho-papão, assustador e indomável, já os espreitava de longe, pronto para sugar-lhes os pescoços. Era a temida prova de datilografia, capaz de humilhar o mais competente dos candidatos, dado o natural nervosismo do momento. É fácil avaliar a estupidez do esquema então em voga. Ora, se o concorrente vencera etapas difíceis nas duas provas consideradas pesos pesados, é porque possuía razoável bagagem de conhecimento específicos. Além disso, como exigir datilografia como prova eliminatória, se uma percentagem ínfima dos aprovados seria escalada para esse setor? Mas ninguém reclamava, ninguém protestava; alguns até achavam aquela trapalhada um charme... Já imaginaram quantos talentos tiveram sufocados seus projetos de vida profissional por obra e graça desse desqualificado sistema? E quantas boas cabeças o serviço público terá perdido? Quanto à prova de Língua Portuguesa, propunham-se questões que hoje soariam como verdadeiras piadas. Ficaram para a posteridade algumas charadas de pontuação, lúdicas e chamativas, a exemplo do hilariante um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro , ou do não menos terrível Maria sua mãe grita ela traga-me a toalha . Extravagâncias desse calibre, aliadas à pífia exigência de se saber o gentílico de Quebec, Beirute, Jerusalém etc., costumavam pregar uma peça em excelentes candidatos e jogá-los na rua da amargura. Nem tudo estava perdido. Depois, o barco singrou águas serenas até certo tempo, pois nasceu uma lógica para a elaboração das provas. Eis que, desgraçadamente, surgiram as ondas revoltas do contra-senso. Os conhecimentos lingüísticos ficaram à deriva ou foram sumariamente arremessados à praia como excrescências. Instalou-se o império da interpretação/intelecção (êta palavra bonita!) de textos. Examinando gabaritos de concursos, tenho encontrado coisas do arco-da-velha. Nas questões relativas ao texto, não são raras as perguntas capciosas, aquelas que sugerem até três opções corretas. Também é possível flagrar sandices como: Em que estaria pensando o autor quando, no parágrafo tal, ele afirma que... Vejam só: em que estaria pensando o autor ! Pode haver incoerência maior num teste em que estão empenhados a competência e os conhecimentos de um candidato? E o desentrosamento das unidades exigidas pelo programa das provas? E as agressões ao português... no programa de Português?...



O que é ser velho - Em 24/01/2018

Outro dia fui abordado por um amigo de longas datas, com esta pergunta: Você se considera um velho? Pasmei por alguns instantes e o respondi que não, visto que a vida é linda e a velhice não é coisa inesperada é o resultado das mais diversas fases da sua existência desde o nascimento, crescimento, até chegar à idade adulta, mesmo se notando na nossa face, todas as manhãs, sinais inexoráveis da marcha do tempo refletido através de um espelho. No meu conceito de velhice, assim me expresso: "Você é velho quando se renova a cada dia, quando tem projetos e olhos postos no horizonte, quando seu calendário tem manhãs e quando tem as rugas marcadas pelo sorriso".

Velho e velhice, são palavras de conteúdo e peso psicológico terríveis sobre a mente humana, em particular do idoso que se acostumou a vê-la, ouvir e chegar. Envelhecido e sem condições físicas de desfrutar na sua totalidade da recompensa, já se considera velho, e essa velhice cria-lhe problemas diuturnos e crescentes.

Assistimos, nos dias atuais, ao homem que, no maior dos desafios, civilizou-se, e, pela evolução do seu saber, conhece a si mesmo. Dentro dos seus conhecimentos, conseguiu dominar os fenômenos da natureza, culminando com a conquista do espaço sideral, controle das doenças após estudos das mais diversas áreas do corpo humano, chegando a um limiar, onde transplantes de órgãos têm salvado muitas vidas.

A descoberta do genoma humano é o máximo dessas descobertas, quando é possível se conhecer o que passa no interior das células que formam nosso universo corporal. Mesmo assim, esse homem sábio de conhecimento, desgraçadamente ainda sofre ao invés de regozijar-se na última fase da vida cheia de problemas diários pelo estresse que é acometido, vivendo um calvário de tensão imposto por uma sociedade mercantilista, ao inverso dos nosso antepassados que formavam populações isoladas e que sobreviviam por meio de hábitos saudáveis e por isso viviam mais esperando a morte dentro de um limiar de tolerância e não culminando com estado mórbido, como se vê na geração nossa.

Enfim, viver é envelhecer. A cada instante insensível e irreversivelmente à ação do tempo vai se fazendo sentir sobre o organismo humano, construído na época da concepção, do crescimento e do desenvolvimento. O tempo passa pela ação deletéria a partir de certa idade. O efeito é o encurtamento da existência a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, se não para evitar tal desfecho, pelo menos para ampliar a expectativa de vida. Tenho por hábito dizer que a vida é um sopro.



Reflexão sem televisão - Em 17/01/2018

Queria propor às pessoas peo menos de Manaus e do Brasil, que desliguem as suas televisões por uma semana no ano e tentem refletir sobre a vida ansiosa e apressada que vivem. Uma semana inteira sem notícia, novela, reality show, futebol, propaganda, nada. Esqueçam-se, que a televisão existe e promete colocá-los a par com o Mundo a todo instante durante todo o dia. Acredito que uma semana sem televisão pode mudar a vida das pessoas, revelando a elas outras formas de viver e, nos casos mais dolorosos, o quanto a vida tornou-se vazia e enfadonha com as tantas horas de televisão que aceitamos, submetidos à ditadura da imediaticidade.

Não estou convencido que poderemos refletir sobre a vida, mas concordo que uma semana sem televisão pode levar as pessoas a uma reflexão sobre o que fazer com o tempo disponível. Há uma pesquisa do professor Jeffrey Johnson, da Universidade de Colúmbia, publicada na Science, em que mostra a acentuada relação entre a programação da televisão e o comportamento violento de quem a assiste, crianças e adultos. Antes de falar da programação da televisão, ou condenar a televisão como meio de comunicação perverso, manipulador e invasor de privacidades, imaginei que há por trás desse plano de agonizar as mentes e colocá-las merce da propagação de idéias desagregadoras, um componente ideológico, ditado pelo mercado: a audiência.

Tudo é medido pela quantidade de gente que está vendo e pouco se discute sobre o que é visto. Se muita gente está assistindo, então continua, e imagina-se que, justo porque muita gente está assistindo, deve haver uma razão de identificação. Só me pergunto o que leva um povo, considerado cordial e humilde, a querer ver tanta violência, imersão na privacidade alheia e mergulhar em provas de desafios onde prevalecem o grotesco e a animalidade. A primeira resposta me parece conhecida: estar na mídia implica ser cultuado como celebridade e esta condição leva à riqueza. Só me pergunto se os produtores populistas, captadores do desejo e dos anseios populares, no uso de suas arbitrárias intuições do que tanto quer ver o povo, não poderiam tentar algo menos próximo das necessidades básicas do ser humano.

Desligar a televisão por uma semana é fazer a audiência cair, é colocar uma chaga de contestação nas programações. Mas, espere aí, por favor: na programação da televisão também há momentos de entendimento do mundo onde vivemos de uma maneira menos caótica. Talvez não precisemos desligar a televisão, mas escolher o que queremos ou não ver e decidir o quanto necessitamos estar vidrados por dia, colocando em xeque "Madame Audiência". Quem sabe, desligando por uma semana, dê para arrumar a cabeça.



Faltam vozes altivas - em 10/01/2018

Há uma crise abalando os alicerces da Nação. É tempo de instaurar um diálogo construtivo entre os partidos políticos e a sociedade e sair das brumas de um entardecer para despertar um bom-dia brasileiro. Os grandes intérpretes da vida nacional sempre disseram que o mal do nosso País é o marginalismo das elites dominantes, que vivem submissas ao mundo exterior, limitando-se a copiar leis e instituições alienígenas. O copismo legiferante produziu um país injusto. Os guias da nacionalidade são conhecidos. A lição dos jesuítas nos primórdios da terra de Vera Cruz e a epopéia dos bandeirantes (Raposo Tavares, Garcia Paes, Bartolomeu Bueno e Fernão Dias) demarcaram os limites do Brasil, tornando letra morta o Tratado de Tordesilhas. Mas não deu para transformar em realidade os sonhos de Frei Caneca e Tiradentes. O clarim da independência não frutificou em justiça social. A única saída é retomar os princípios fundamentais da nossa história. Se olharmos à nossa volta, veremos que faltam vozes altivas e competentes, como ouvimos de Bernardo Pereira de Vasconcelos e Honório Hermeto Carneiro Leão, e a presença marcante de um novo Mauá na luta pela emancipação econômica. Tampouco temos a visão de um Rio Branco na política externa. Falta-nos um ideário nacional. Nossos eldorados são coisas do passado. O ouro de Minas foi carreado para um dos países que lançou as bases do turbocapitalismo neoliberal. Sérgio Buarque de Holanda, em seu notável livro Visão do Paraíso, lembra esquecida página de Caio Prado Júnior: Na realidade nos constituímos para fornecer açúcar e tabaco, mais tarde ouro e diamantes, em seguida algodão e café para a metrópole européia. Não mudou muito. Uma nova etapa está em andamento e terá seu epílogo no grande comício eleitoral de outubro. Já passou da hora de conhecer os planos dos candidatos presidenciais. Aqui e ali há trechos com o evidente propósito de abrandar um choque com as forças que dominam o mercado, ao dizer que alterações na proteção à produção nacional não implicam, contudo, o fechamento da economia, nem tampouco devem promover a ampliação do grau de monopólio e de margens de lucro das empresas instaladas no país. Lembro agora uma frase de Joaquim Nabuco: Se dos moderados não se podem esperar decisões supremas, dos exaltados não se podem esperar decisões seguras. Mudaram apenas os personagens, mas a situação é idêntica. Em que pese os avanços sociais e se diga que vivemos em um Estado Democrático de Direito, continuamos sem a tão sonhada liberdade. Se no passado, como os militares, não tínhamos vez e voz, agora no presente, quem nos silencia são os bandidos. As favelas do Rio (sempre o Rio!) são exemplos vivos de que o cidadão nada pode quando o Estado-traficante não permite. Jacarezinho, Vidigal, Providência, são lugares com mais de meio milhão de habitantes dominados e aterrorizados ao ponto deles não saírem de casa ou irem à escola se o tráfico não permite. Aqui no outro Rio, o do Norte, a cidade passou horas e horas em poder de bandidos que, ao final pegos alguns, foram soltos pela Justiça. Sem contar que nos dois Rios (de Janeiro e do Norte) tem policiais à beça envolvidos no mundo do crime. Para não ficar só nesses dois Estados, no Espírito Santo, a maior quadrilha é dirigida pelo presidente da Assembléia Legislativa e por um coronel da Polícia Militar. E Em Manaus? Basta ver quem está preso.


Fábulas e verdades - Em 03/01/2018

Algumas pessoas pensam que nasceram para serem admiradas. Querem, a todo custo, serem notadas pelas virtudes que têm ou pensam ter. No livro "O Pequeno Príncipe", um dos personagens que aparece é o vaidoso. Ao receber o Príncipe, não se faz de rogado e ordena logo os aplausos para si. Mesmo não existindo mais ninguém no planeta, além dele, quer ser o mais bonito, o mais inteligente, o mais rico... Decepcionado, com tal recepção, o Pequeno Príncipe foi se embora. Não estava disposto a aplaudir apenas para satisfazer o ego alheio.

Na mitologia grega, todos conhecem, a estória de Narciso. De tão encantado, com a própria beleza refletida no lago, acabou se afogando. Ao ler a estória, a gente pensa: que pena! Um jovem tão bonito e uma morte tão feia... Infelizmente, esta parece ser a sorte reservada aos vaidosos. Algumas pessoas não conseguem ver nada mais, além de si mesmas. Não conseguem trabalhar em equipe, nem colaborar com os outros. Sobre o pedestal onde se postam, só querem o perfume do incenso alheio.

Jean de la Fontaine, em uma de suas fábulas, relata-nos a estória da raposa e do urubu. Após comer um bife, "bem passado", o urubu segurava um grande pedaço de queijo no bico, enquanto descansava no alto de uma árvore. Uma sábia raposa, entretanto, aproximou-se dele dizendo: Estou sabendo! Disseram-me que você tem o canto mais lindo da floresta! Pena que ainda não tive o prazer de ouvi-lo, completou com olhar de aparente tristeza. Diante de tal elogio, o urubu estufou o peito e começou a cantar desajeitado. O pedaço de queijo caiu direto na boca da raposa que saiu correndo pela floresta.

Hoje, muita gente, ainda perde o queijo por causa da vaidade excessiva. Quantos profissionais deixam de crescer e se especializar pensando que já sabem tudo. A vaidade, nesse caso, leva à morte do profissional. Um mercado competitivo, como o nosso, não tolera muito os urubus...

Outra fábula que li, quando criança, dizia que o pavão era a ave mais vaidosa da floresta. As penas de sua cauda, quando agitadas, provocavam um espetáculo de rara beleza. Mas, como nada é perfeito, o que sobrou em seu rabo, faltou em seus pés. Os pés do pavão causava escândalo de tanta feiura. Por causa disso, o pavão levantava o rabo, não tanto para mostrar sua beleza, mas para esconder a feiura dos próprios pés.

O vaidoso, ao que parece, quer muita atenção sobre si, também para esconder as lacunas de sua personalidade e a miséria real na qual se encontra. Numa organização, o "sucesso pessoal", quase sempre é resultado de um esforço coletivo. Para que o piloto vença a corrida, não podemos ignorar o papel do mecânico, ainda que ele não apareça. Os salvadores da Pátria, há muito caíram de moda. O pódio poderá ceder lugar ao túmulo, se um simples mecânico deixar de colocar o parafuso no lugar certo. Se o barco afundar, a morte não será reservada somente ao piloto, mas a toda a tripulação.


2018 - Em 27/12/2017

A cada ano parece que o tempo passa mais rápido, lembro bem depois desses mais de mil e duzentos artigos, que já escreví sobre o final de mais um ano mais de trinta vezes, mas a vida é mesmo assim: tudo flui e sempre, como o dia que vai escurecendo-se com a noite, que perde-se ao amanhecer da alvorada do novo dia. Eis o tempo "de novo"...

Existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente - no mais ou menos das vezes? "O tempo tudo tira e tudo dá; tudo se transforma, nada se destrói...", sentenciou Giordano Bruno.

O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso... Indubitavelmente que o tempo, como uma dimensão física - segundo os cientistas naturalistas racionais - ou transcendente - vide os metafísicos e filósofos -, ocorre transmutando-se a si mesmo e a todos os seres animados e inanimados, como se fora ele, o Gênesis do grande Universo. Seria o tempo-ser incomensurável, onipresente e onisciente, o próprio Deus?!

O nascimento, a evolução e a morte de uma estrela - qualquer a sua grandeza - se dá através do tempo... E quanto aos homens... "Nunca existiram grandes homens enquanto vivos estivessem. É a posteridade que os cria", observou, no seu tempo, Gustave Flaubert.

Um dia, num passado tão perto, um homem do seu tempo mas muito iluminado pelo conhecimento acumulado sobre os ombros de outros gênios, e pelo talento da sua inteligência criativa, articulou os princípios do espaço e da luz e matematicamente demonstrou que eles se inflexionam quando uma velocidade lhes era contraposta num tempo determinado: o universo se curvava em algum espaço futuro... Ou seria no passado?

Albert Einstein acabara de "relativizar" a lei da inexorabilidade do devir, segundo o paradigma: tudo tem o seu tempo... de fruir. E a direção é o futuro...? Revelara-se: o universo tem massa e energia, e se move, se expande... Além do tempo. Mas que tempo? Na efêmera condição humana, apreende-se desde a sua infância mais tenra e vulnerável que o tempo serve, primordialmente, para o crescimento do corpo físico, da aprendizagem do viver, da reprodução da espécie-família, para o envelhecimento e para a morte.

"Nada do que é grande surge repentinamente, nem mesmo a uva. Se me dizes: "Quero um figo", respondo-te. "É preciso tempo". Antes... deixa virem as flores, depois.... os frutos e que amadureçam", filosofou o grego Epicteto.

Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor.

Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. Assim seja. Feliz 2018 para todos os leitores.


Então é Natal - Em 20/12/2017

Domingo é Natal, e sempre que a data máxima da cristandade de aproxima, sou naturalmente levado a pensar nos mistérios da vida e especialmente no que significou para a humanidade o nascimento de Jesus, o sentimento de sua existência, de seus padecimentos e da brutalidade de sua morte. É quando chego mesmo ao extremo de indagar se o cruel sacrifício a que Deus submeteu seu Filho, ao enviá-lo à terra na tentativa de salvar os homens - esses ingratos -, teria valido a pena.

Como vêem, o Natal para mim não representa apenas tempo para montar árvores coloridas e fazer troca de presentes. Ao contrário, é época de recolhimento, de reflexões, de pensar nas profundezas do significado e dos mistérios da data. Está no Velho Testamento que no princípio era o caos, que Deus criou a terra e os céus. E, não contente com obras tão grandiosas, criou o primeiro homem, ao qual, vendo-o tristemente solitário, brindou com a companhia de uma mulher. E deu no que deu. O casal tanto se multiplicou que o cenário terreno se transformou neste imenso complexo do qual temporariamente fazemos parte, ora rindo, ora chorando.

Ao menos para mim, um diplomado em ignorância sobre esses assuntos, o que ainda não ficou bem claro foi a intenção com que a Divindade realizou tamanho feito. Por vezes me questiono se essa obra corresponderia a uma necessidade divina. Estaria ela se sentido enfadada, atormentada pela solidão? A criação dos homens teria como justificativa a falta de servos para que a amassem e servissem - como reza meu velho catecismo? Onisciente e onipresente como era (e certamente assim continuará sendo "per omnia saecula saeculorum"), não era igualmente auto-suficiente? Claro que sim, não é mesmo? Quanto à decisão de conceder às suas criaturas a faculdade do livre arbítrio como entendê-la? Porventura seu provável mau uso não figurou nas cogitações do onisciente Criador?

Nesta altura deste mal lançado texto é muito provável, para não dizer certo, que o leitor deve estar se perguntando sobre os motivos que me levaram a esses questionamentos iniciais. Minha explicação é singela: como frisei no inicio é o efeito natalino. Vou aproveitar o momento e explicar a quem dos meus leitores não sabe, como nasceu a arvore de Natal. Certa vez, numa daqueles noites geladas da Alemanha, nas proximidades do Natal, ao retornar para casa o monge Martim Lutero, encantou-se com a paisagem. Para Lutero, o cristianismo fora uma notável revolução dos cordeiros, da gente humilde da antiguidade que se insurgira contra as injustiças do mundo pagão. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam a trilha, viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida uns papeluchos coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Pronto, era aquilo que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Nascia assim a árvore de Natal.

Feliz Natal a todos.


Pena de morte - Em 13/12/2017

Sou leitor contumaz da seção de cartas de leitores dirigidas aos jornais. E tenho visto com frequência algumas de pessoas que voltam a defender a pena de morte. Isso me assusta, embora compreenda a revolta de muitos contra o atual estado de coisas: violência e morte em grau jamais alcançado entre nós.

O bandido mata. A sociedade mata o bandido. Os bandidos passam a matar dobrado. A sociedade, por seu lado, duplica as matanças de bandidos. Se o ato de matar é que nos é repugnante, como legalizar o assassinato, revivendo e consagrando o velho ''olho por olho, dente por dente''? Bem, pede-se exceção para os crimes hediondos, tantos que não vale nem a pena citar. São hediondos, sim. Mas teremos então que repetir o gesto hediondo, imolando ritualmente os criminosos?.

Deus que dá a vida, até mesmo aos bebês de proveta, porque para fecundar o óvulo ''in vitro'' precisava existir a centelha inicial de vida, quer no óvulo fecundado, quer no espermatozóide fecundador. E essa centelha misteriosa continua nas mãos de Deus, ou da força criadora, como a chamem, se quiserem; misteriosa, imponderável, fora totalmente do alcance do homem e das suas artes.

Não vamos pensar em pena de morte. E atentar contra as leis da vida é querer tomar na mão o privilégio de Deus. Sua eficácia como elemento dissuasório nunca foi comprovada. Punição bárbara, primitiva, de feroz crueldade. Não adianta modernizá-la, usando cadeira elétrica, injeção letal, câmara de gás. E o julgamento, a sentença, a data marcada, a última refeição, o último cigarro, as últimas palavras compõem um ritual de sadismo inexcedível. E cuja ferocidade fria se iguala à dos crimes que pretende castigar.

O dever da nossa sociedade, assolada por uma onda de violência absolutamente intolerável, ninguém o nega, é aperfeiçoar o processo judiciário, proporcionar as penas de acordo com o delito. Não criar tantas e extraordinárias facilidades para os chamados réus primários. Há casos de ladrões contumazes que, devido ao seu longo prontuário, são condenados a penas severíssimas; enquanto que um matador, por mais hediondo, tem direito a inúmeras saídas, desculpas, portas abertas, concessões. As próprias penas existentes no código atual teriam alguma eficácia se não fossem tão permeadas de concessões.

Um jovem juiz não achou por bem pôr em liberdade o matador da própria noiva, apesar de réu confesso, por crime executado com requintes de crueldade - tortura, morte lenta por afogamento, e tudo por motivo fútil? Mas quem errou não foi o juiz, foi a lei de malhas largas a que ele se julgou obrigado a obedecer; afinal, juiz existe para cumprir a lei.

Se queremos punir um criminoso hediondo, não o libertemos pela morte; e, muito menos, não o liberemos por ''bom comportamento'' na prisão, ou porque cumpriu um terço da pena, ou porque não há mais lugar para ele nas penitenciárias superlotadas. Sentença é feita para ser cumprida. E sentença perpétua tem que haver, sim.

Se o criminoso hediondo se regenerar na prisão, como se imagina possível que exerça a sua sociabilidade readquirida dentro dos limites do seu confinamento, que pode ser até em ambiente rural, mas sem contato direto com a sociedade que ele tão brutalmente agrediu? Seja professor, enfermeiro, advogado, pregador - mas lá dentro, sem perigo de reincidência. E se não se recuperou, já está lá dentro que é o lugar certo.


Violência - em 05/12/2017

Se a um transeunte você indagar qual o maior problema da sociedade nos dias de hoje, a violência estará entre os primeiros. Nenhuma novidade, pois a mídia, em especial o rádio e a tv que fazem a cabeça das massas , esmera-se, ao requinte e sem reproche, em sua descrição. Trata-se de uma torrente cotidiana de informações eivadas de sensacionalismo, em que é claro o incitamento à depravação dos costumes, à criminalidade, à barbárie e à impunidade, numa demonstração inequívoca de desrespeito à Constituição, que garante os valores éticos e sociais da pessoa humana.

Se se indagar desses caminhantes, que modalidades de violências mais os assustam, a resposta abarcará um enorme leque de infortúnios. E todos eles ora se intrometem com sutilezas ou sem elas permissivamente no domicílio via tv, ora são dramas vividos e sofridos no dia-a-dia pelo cidadão: a banalização do sexo, a tolerância às drogas e o indulgente combate ao seu tráfico, a insegurança no domicílio, o seqüestro, a ousadia de bandidos e de servidores públicos de sua igualha, o ostensivo poder paralelo dos presídios, a guerrilha urbana e tantas outras não-merecidas desditas a intranquilizarem a sociedade e a afrontar o poder público.

Ao me colocar na condição desse transeunte, sob a ótica de minha profissão, a resposta é imediata, posto já a ter fixado em várias oportunidades: para mim, constitui violência inominável a pobreza e a miséria.. Sensível como é à causa do homem, a violência encontra-se intimamente dependente da perversa distribuição de renda, da injustiça social e da impunidade. E tudo isso medra daninhamente nos centros do poder, constituindo o fator patogênico mais importante e mais indigno em todo o mundo subdesenvolvido. E para esta sociopatia falecem ao médico, com sua ciência e arte, remédios capazes de, no mínimo, tangenciar o problema real, que é anterior e mistifica a doença; esta, na realidade, uma indignidade menor e transfigurada, que leva milhares de infelizes a engrossarem as filas dos ambulatórios, em busca da saúde perdida.

Se é impotente o médico, mais ainda o são os governantes que, movidos por solavancos de solidariedade humana, só enxergam a adoção de terapêuticas paliativas e protelatórias. Pobres visionários: ignoram ou fingem não ver que a solução racional, antes de tudo, reclama que se reponha ordem na sociedade! Melhor ainda, reclama se restaure a justiça porque se ela desaparece, escreve Kant, é coisa sem valor o fato de os homens viverem na Terra. E ordem na sociedade é o mesmo que a saúde para o indivíduo. Desafortunadamente, a sociedade e o indivíduo só se lembram de uma e de outra quando já não mais as possuem.

Ao encarar a violência em meu redor, sempre a confronto com sua matriz: a pobreza e a miséria. Embora uma pessoa marcada por violências torpes e imundas, minha coragem é serena e racional; mais racional do que serena, para resignar-me, contrafeito, com o fato de termos sido delas vítimas minhas extensões mais próximas e eu. É difícil conter a indignação pela resignação e pela esperança em uma sociedade ordenada e justa. Assim, acato a advertência de Malraux: Um só homem não pode erguer mais do que dois ombros . A plebe é mais impaciente do que o indivíduo e anseia por soluções definitivas e justas. No século XVIII, a sociedade francesa conseguiu-as após uma sangrenta revolução de costumes e de idéias.


Ali Babá - Em 29/11/2017

No reino de Ali Babá não havia peemedebistas tucanos e coligados, mas havia 40 ladrões. Longe de mim estar insinuando que Temer e sua coligação no poder representam em nosso país tropical o herói e seu bando das mil e uma noites de Sherazade. Apenas associei as duas imagens, ao constatar a quantidade de políticos e assessores, que, à sombra do Planalto, se envolveram em corrupção no atual governo e até hoje continuam impunes.

Por alto fiz um levantamento em que contei, de lembrança, mais de duas dúzias de nomes sob suspeita e acusação. Curiosamente, como Ali Babá, também Temer é poupado de pechas e acusações. Daí decorre a segunda razão de aproximar, para contrastar, os dois contextos: o da lenda e o da realidade política. É que Ali Babá e seus ladrões eram transparentes. Assumiam o que eram e faziam. Estranhamente as pessoas vinculadas diretamente a Temer indiciadas ou apontadas pelo noticiário, não têm a mesma postura. Usam de todos os recursos e erguem com a maior desenvoltura uma cortina de fumaça negra e densa em torno deles mesmos e de seus atos, para evitar que a opinião pública saiba a verdade do que tem acontecido nos bastidores do governo. Operações de abafa, rolo compressor, respostas sarcásticas, ataques verbais são o mínimo apresentado como autodefesa e barreira à averiguação pública.

Basta simples suspeição que logo se levantam para praticar a velha máxima de que a melhor defesa é o ataque. Antes que sejam destruídos, ainda que em nome da verdade e da justiça, Temer, Gedel e comparsas tudo fazem para destruir os adversários. Para mostrar que é superior e acima de qualquer suspeita, Temer usou e abusou de expressões como o Brasil está crescendo, caiu o desemprego e pretensas frases aparentemente d ésprit, mas na verdade de uma pobreza intelectual de causar dó! A revelar sempre o propósito de agredir para não ser atacado.

Agora seu assaz contestado candidato à sucessão demonstra que copiou o grande chefe . Mal começaram as graves denúncias que o envolveram com as falcatruas de Elizeu Padilha, tenta ironizar: tudo não passa de tititi e trololó . Temendo que os ventos soprem a poeira para sua janela, Temer vem a público declarar que se trata de acusações requentadas , quando para advogados de renome e respeitados políticos sua omissão e leniência, à época da ocorrência dos fatos, podem culpá-lo de improbidade administrativa.

Temer, Elizeu e assessores pousam de impolutas vestais da República. Ao contrário de Ali Babá e seu bando, em vez de se esconder em cavernas, à espera do Abre-te Sézamo , procuram trancar a corte a sete chaves. Será que pensam que todos nós temos que engolir calados? Será que de tititi e trololó, com tropeços aqui e ali, sem o ar e a luz que paradoxalmente sobram nas cavernas de Ali Babá, mas tanto faltam nos subterrâneos do Planalto, chegaremos a eleger, sem continuidade, nem continuísmo, o sucessor de Temer, e apurar tudo o que foi feito?


A força do desejo - Em 22/11/2017

Nunca o desejo de bem-estar foi tão forte. Pessoas e sociedades sonham cada vez mais com avanços e redenções. Só que na vida real a felicidade parece cada vez mais difícil de ser alcançada. Ninguém se compraz por muito tempo com o alívio causado pela superação de algumas dificuldades. Por isso, o desafio é determinar o que fazer para aperfeiçoar de modo constante e sustentável o estado material e espiritual da Humanidade.

O problema é que não basta querer; é preciso também saber como chegar a melhores resultados. Não adianta imaginar perfeições paradisíacas sem saber como conquistá-las. Igualmente inútil é conhecer o caminho sem ter a tenacidade para trilhá-lo enfrentando seus percalços. As sociedades só conseguem se aperfeiçoar quando suas instituições, preocupadas em gerar um todo harmonioso, oferecem aos indivíduos condições propícias ao desabrochamento e à realização de suas potencialidades. Como o entendimento é precário e os desejos, ilimitados, o ideal está crescentemente se descolando da realidade.

Todos temos, independentemente de grau de instrução, diminuta compreensão do mundo e de nós mesmos. E, no entanto, nos sentimos capazes de controlar as situações e ditar o rumo dos acontecimentos. Falamos como se tivéssemos perfeito conhecimento dos fenômenos psicológicos e sociais. E agimos sem ciência como mãos tateantes que procuram objetos no escuro. A falta de saber tira da ação o poder de perseguir com eficiência melhores resultados.

A busca do ideal deve se basear nas potencialidades que o real oferece, não em sua negação. A pseudo-sabedoria estimula a expansão da vontade cega que atropela os objetivos na ânsia de atingi-los. Brandindo a mais reles teoria da conspiração, todo mundo se acha em condições de proclamar verdades sobre as mais intrincadas matérias.

Nas lutas pelo poder se explora, de forma cada vez mais cínica, o abismo entre os desejos e o entendimento do homem comum. Mesmo sem saber como funciona a máquina do mundo, os demagogos aproveitam-se do infortúnio alheio apresentando-se como semideuses capazes de tudo mudar. Prometem, para ter (mais) poder, um mundo melhor sem saber o que faz a dura realidade ser o que é. Manipulando as massas, ocultam o vazio intelectual com a retórica genérica de que um outro mundo é possível.

As decisões fundamentais continuam sendo tomadas por governantes despreparados que nem sequer têm noção de quão complexas são as situações corriqueiras que administram. E para piorar registra-se a fragmentação da "vontade geral" com a ênfase recaindo cada vez mais sobre os grupos de interesse. Os fins da política se deslocam, de modo alarmante, dos indivíduos para os grupos e as etnias. E isto aumenta a distância entre as pessoas a ponto de impedir que haja um acordo fundamental em torno dos direitos e dos deveres de todos.

Estamos todos, indivíduos e sociedades, atrás de desejos que não sabemos como realizar. Vivemos acima de nossas possibilidades porque agimos sem a devida compreensão de nós mesmos e dos outros; e aquém de nossas possibilidades, porque estamos longe de tornar realidade nossos mais caros desejos. Os desejos são luzes que, bruxuleantes na imensidão, estimulam o pensamento a descobrir novos caminhos em continuação aos conhecidos ou na direção contrária dos percorridos.


Pobre país - Em 15/11/2017

A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista do governo no Brasil. Bem que poderíamos ter outra proclamação, retirando todos os políticos e dando uma nova forma ao governo deste nosso pobre país. O noticiário político da mídia impressa e eletrônica brasileira comprova que andamos quase todos, incluindo ela própria, despreocupados em processar corretamente fatos, objeto de comentários incongruentes, quase sempre em benefício dos interesses do Executivo federal e do seu grupo partidário. Dessa forma, contribui para manter-nos alienados, sem percepção de contradições significativas, presentes na condução da vida política nacional. Vou fixar-me em quatro exemplos atualíssimos, concluindo com elenco de contra-sensos cometidos por quem precisa e, normalmente, tem de ser comedido, mas não consegue conter-se:

1. De uns tempos para hoje, as conveniências da situação passaram a defender a necessidade de apoio parlamentar majoritário ao Executivo, em nome da governabilidade do País. Chega-se a criticar dissidências pontuais contingentes, justificáveis, absolutamente legítimas no sistema de governo que praticamos, como gestos de traição impatriótica. E, no entanto, defende-se a manutenção do presidencialismo, sob cujos princípios o fato de o Executivo ser minoritário no Congresso não constitui anormalidade. Observe-se o modelo original norte-americano.

2. O PSDB foi constituído por inspiração de um grupo de peemedebistas de São Paulo, tendo como motivo fundamental afastar-se da associação com políticos malvistos com influência na legenda. O que se observa nestes dias desmente a circunstância, já que os tucanos só se entendem com a chamada banda podre do PMDB.

3. O Executivo tenta forçar a reforma da Previdência, dizendo que não pode arcar mais com o pagamento dos aposentados. Contudo, não lhe parece criticáveis ônus financeiros eventuais bem superiores, resultantes da política de juros do Banco Central.

4. No episódio desabonador de seus ministros mais próximos não se considera que os desrespeitos ao devido processo legal mais de um , faltas até mais graves, porque envolvem agressões à mecânica da ordem jurídica, exigem que se enquadrem gregos e troianos . Por fim, é incompreensível que, em vez de manter-se afastado, para conter a desagregação, o presidente Temer procure o centro da ribalta de microfone em punho, a fazer provocações, talvez pensando que os desconsiderados por ele, com os quais conviveu proximamente nos últimos sete anos, são invertebrados: tempestade em copo d´água ; eleger-se-ia sem eles ; promotores de tricas e futricas contra o interesse nacional. Nenhuma substancialmente verdadeira. Pobre País.


FALTA DE APEGO - Em 08/11/2017

São muitas as ameaças que rondam o desamparado indivíduo. Razões não faltam para que se diga a toda hora indignado. É cômodo, no entanto, ver-se como simples vítima de uma realidade perversa para assim livrar-se de qualquer responsabilidade. Além do mais, a postura de sofredor impotente em nada contribui para a melhoria da vida pessoal e coletiva. Há motivos de sobra para que o cidadão se diga revoltado com impostos excessivos, governos perdulários e ineficientes, serviços públicos de má qualidade, caos urbano, violência generalizada.

Ocorre, porém, que esse quadro desalentador é resultado da soma da ação de todos. Não é porque há tantas coisas erradas que se justifica uma manifesta falta de envolvimento afetivo com o País. Não deixa de ser oportunista, expressão apenas de um espírito festeiro, o amor fácil aos símbolos pátrios durante copas do mundo em que nos consideramos favoritos. Não há desgoverno e "problemas sociais" que justifiquem o flagrante desamor às cidades, aos bairros e às ruas. Infelizmente, o que se vê por toda parte é um enorme fosso entre o indivíduo e a comunidade. É inevitável que com a violência comendo solta o brasileiro se sinta sitiado, ameaçado em cada esquina, e perca muito da alegria de estar com os outros nos espaços públicos.

Nada disso, porém, explica a indiferença cívica que caracteriza as relações dos brasileiros com suas instituições e organizações. Salta aos olhos que não conseguimos nos afeiçoar minimamente às coisas a ponto de nos empenharmos por elas, de procurarmos crescer com elas. Aplicássemos às coisas miúdas de nosso dia-a-dia coletivo um pouco da paixão que devotamos à Seleção Brasileira de futebol e seríamos uma sociedade muito mais coesa e participativa. Mas por que não temos ou perdemos o sentimento de vinculação ao outro e ao todo?

Não aprendemos até hoje a lição de que a defesa dos interesses individuais obriga também cada um a se preocupar com o que é comum. Talvez o processo de nossa formação social explique por que o brasileiro não se envolve afetivamente com suas instituições. Cobra delas desempenho sem se sentir participando de sua construção. Enxerga-as como se fossem máquinas defeituosas e não como construções sociais resultantes das ações de cada cidadão. Se comemorações fossem suspensas sempre que as coisas não vão muito bem, o mundo mergulharia numa tristeza funérea.

O fato é que os manipuladores da consciência coletiva invocam as imperfeições, os problemas sociais, como justificativas para um mal pior: a falta de "amor social". Os cidadãos precisam se ver como construtores do País e de suas instituições. Do contrário, permanecerão na cômoda posição de se indignar e esperar que o bom caia do céu. O mau funcionamento do País e das cidades não deve servir de pretexto para que fiquem na confortável posição de crítica sem participação. Uma sociedade é edificada com crenças, símbolos, instituições e ações. Falta por aqui uma saudável dose de apego aos símbolos que definem nossa existência compartilhada.

Somos de um pragmatismo destrutivo: se não funciona bem não nos envolvemos. Mas o problema é que se não nos envolvemos não tem como funcionar bem. Este é o dilema.

O PERDÃO - Em 01/11/2017

Nesta véspera do dia de Finados, nada melhor do que falar do perdão, principalmente para aqueles que se foram o ficaram sem perdoar seus desafetos. Perdoar é verbo pouco conjugado no contexto de nossa cultura narcisisticamente movida a competição, a mania de grandeza, a banalização de valores, a desconsideração da importância dos outros.

Perdoar, tornou-se babaca, valor obsoleto, coisa de gente fraca, no estilo dessa cultura tolificada pela mania de revidar, de ser vencedor, de ter que sobrepujar, de passar por cima, de destituir o outro, de ser herói. Perdoar tornou-se palavrão, coisa pejorativa, justificativa de gente sem coragem para a desforra. Mágoas, ressentimentos são freqüentes na experiência mais guardada das pessoas.

Quem já não teve seus motivos de guardar uma dor, um sentimento rebentado, uma raiva por desejos frustrados, ou até ódio por uma situação transtornada, humilhante ou injustiçada? Eu já tive, e de quando em vez tenho uma recaída. Somos todos muito capazes sim, desses sentimentos raivosos. Eles compõem a nossa realidade humana. Contudo, é bom lembrar que nossas mágoas não resolvidas promovem sequelas muito sérias, quando as mantemos nutridas e realimentadas dentro de nós. Torna-se póssível então, uma imensa produção de destruições em nós mesmos.

A qualidade da vida interna, a saúde emocional, ficam prejudicadas nesse território amargurado, onde não sobra espaço para a alegria, a leveza, a partilha cordial, o afeto. Talvez tenhamos construído a idéia de que o perdão é uma fragilidade diante do outro que nos ofendeu. Talvez imaginemos que se trata de um fechar os olhos para a falta do outro, de desculpar seu mau comportamento ou esquecer a dor que ele nos causou.

O que não percebemos contudo, é que perdoar é útil sobretudo a nós mesmos, à nossa própria saúde. Perdoar tem mais a ver conosco do que com o outro. O perdão nos libera do peso da raiva, da mágoa ou ressentimento que nos impedem de ficar bem. Essa é uma bagagem muito pesada para nossa saúde emocional. Se não nos livrarmos dela, adoeceremos por dentro. Neste sentido, perdoar é uma escolha que fazemos, para viver livre dos fantasmas destrutivos. Não se trata de minimizar ou negar a própria dor, os sentimentos, mas de redimensioná-los.

Quando nos impedimos de perdoar, nos impedimos também de crescer, de nos desembaraçar-nos, de sermos nós mesmos. Enquanto não perdoamos, concedemos muito poder ao outro de continuar nos afetando. Temos o direito de ficar irados quando nos maltratam, mas perdoamos para continuar a viver com qualidade. Perdoamos para ter condições de controlar nossas emoções, para preservarmos o bom senso e resgatar em nós, a experiência de paz que pode ser sentida.

Mas não perdoamos por um ato de decisão apenas. Faz-se necessário o exercício cotidiano de desculpar, de tolerar, de cascavilhar menos as faltas do outro, de perdoá-lo nos pequenos deslizes. Se isto parecer muito difícil, vale a pena lembrar o que Cristo falou aos fariseus, rconhecendo o quanto eles eram hipócritas: "Atire a primeira pedra quem não tiver pecado". Que ensaiemos portanto, passar do estado de raiva, de ódio, de intolerância, para um estado de compreensão do humano, em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio.


EXTINÇÃO DOS POLÍTICOS - Em 25/2017

Caros leitores e leitoras, bem que eu queria continuar com meus artigos falando sobre a vida e sobre as relações interpessoais, mas os políticos não querem e não deixam. O mar de lama que se instalou nos gabinetes e a política, tomada em significado de governo, direção e administração do poder público, sob a forma do estado, faliu, tornou-se sem sentido, não funciona mais. No Brasil e no mundo.

O bem comum embutido na palavra logrou o fracasso. O homem não aprende muito com a história. Todos os regimes políticos tornaram-se arremedo de sua invenção grega original. Uma falácia em nome da isonomia democrática, da tal politika praticada por homens sem ética, res publica em causa própria. O estado de miséria decorre das políticas públicas; os políticos alimentam-se de pobres. O poder que emana do povo é contra o povo: com a classe política, nenhum problema é resolvido.

A sacralização dos políticos resulta de sua contraditoriedade: elege-se político para nada. Pela Constituição, os políticos são legisladores. Nenhuma lei, porém, se lhes corta privilégios. Ao longo dos séculos, política deixou de ser um valor e de ter um sentido para a vida humana. Desde a Idade do Ouro, quando os homens começaram a se organizar socialmente, à pós-modernidade, a política é responsável pelo fato de a humanidade ser infeliz.

Em nome da lei, do estado ou de Deus, tudo é permitido e permissivo. A política é um castigo como o mito de Prometeu. Ela opõe-se por conveniência a todos os conceitos de decência, seja pela injustiça comunitária, pelo lastro irrefutável da corrupção, ou em oposição à virtude oriunda da Themis - lei divina incidente no universo, a physis, a ordem do mundo, ou nomos e a dike - justiça entre os homens e as coisas. O caos é político. A crise é política. A esculhambação é política. Todo corpo de leis reconhecido tem origem política, portanto, não funciona. A política é um presente grego.

A política, além de corromper, mente, rouba, deturpa, mata e nunca, mas nunca mesmo muda para melhor a situação social e econômica. É razoável questionar por que então manter-se a classe política? Quem afirma serem necessários 570 deputados? Os políticos. E se a classe política desse um tempo deixasse de existir por pelo menos uma década e permitisse à sociedade se organizar em torno de um novo paradigma que não tivesse o vírus da política nem dos políticos? Quem pode afirmar que não, se nada foi tentado? E se os políticos não fossem mais escolhidos pelo voto, mas pelo veto e durante o (longo, espera-se) período de hibernação, lhes fosse imposta uma radical reciclagem que incluísse o fim de todos os seus privilégios, como salários altos, imunidade parlamentar, nepotismo, pagamento de despesas extras? Sem relevar números ao pé da letra, e se em vez de 570 fossem apenas 135, uma média de cinco por estado? O mundo, o Brasil está a exigir um novo modelo político. O que acontece atualmente no País, ainda que haja precedentes planetários, é indigno, mas tem de servir para promover mudanças.


A VIDA É UM SOPRO - Em 18/10/2017

Este ano que ainda não findou, tive a tristeza de perder alguns amigos, e aí fico me perguntando o que é a morte, mesmo com ideias e conhecimento espirituais, e chego a conclusão que a morte nada mais é do que uma passagem. A passagem de um mundo que conhecemos bem, para outro totalmente desconhecido. E, por isso, amedronta e traz dor...

Essa era a sensação de dois fetos gêmeos dentro do útero da mãe, que percebiam que chegava a hora de nascer. Um perguntou ao outro: E aí, você acredita na vida após o parto? E o irmão respondeu: Não, ninguém voltou para contar. Nascer, para eles, seria passar de um mundo conhecido para o desconhecido...Aquele mundo imenso fora dos limites do útero materno.

Quantas vezes nós também olhamos para a nossa vida com a mesma limitação? Pois igual aos fetos, cremos que o mundo se reduz ao que conhecemos, ao que nos parece familiar, ao que podemos perceber com os nossos sentidos. Os dois gêmeos, estavam familiarizados com o quentinho da bolsa, as batidas do coração da mãe e o alimento que chegavam fácil por um tubo... Assustados, conversavam sobre aquele momento traumático. Como seria o mundo lá fora? Escuro? Frio? Ameaçador? Estavam prestes a ser expelidos daquela penumbra repousante para um mundo de luz, cores, cheiros e ruídos... Eles sentiam medo de sair dali... As contrações começaram, o mundo em torno se fechava e eles estavam sendo forçados de lá para fora.

Ao nascer, o impacto dos pulmões se enchendo de ar pela primeira vez causou um impacto tão violento que até a memória da vida intrauterina se extinguiu... E o que eles tinham à frente era nada mais do que a vida... A vida num mundo, até então desconhecido onde eles iriam crescer, se formar, ter descendentes, envelhecer e novamente se preparar para uma nova passagem... Por isso, os monges beneditinos jamais falam de morte e sim de passagem.

Passamos por esta vida, como um grande presente de amor que deus nos deu... Nosso nascimento, "o nascimento desses fetos", certamente trará muita felicidade e amor aos seus pais e, vendo assim, como uma passagem, podemos imaginar que o que nos espera, na outra etapa, na outra passagem... É algo muito melhor.

Nada mais natural que a morte! As vezes fazemos a passagem muito jovens, não mais velhos, aliás velho e velhice são palavras de conteúdo e peso psicológico terríveis, sobre a mente humana, em particular do idoso que se acostumou a vê-la, ouvir e chegar. Envelhecido e sem condições físicas de desfrutar na sua totalidade da recompensa, já se considera velho, e essa velhice cria-lhe problemas diuturnos e crescentes.

Outro dia fui abordado por um amigo de longas datas, com esta pergunta: Você se considera um velho? Pasmei por alguns instantes e o respondi que não, visto que a vida é linda e a velhice não é coisa inesperada é o resultado das mais diversas fases da sua existência desde o nascimento, crescimento, até chegar à idade adulta, mesmo se notando na nossa face, todas as manhãs, sinais inexoráveis da marcha do tempo refletido através de um espelho.

O tempo passa pela ação deletéria a partir de certa idade. O efeito é o encurtamento da existência a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, se não para evitar tal desfecho, pelo menos para ampliar a expectativa de vida. E, tenho certeza que um dia todos nos encontraremos: a vida é um mistério maravilhoso! Mas continuo com meu velho jargão: A vida é um sopro.

RECADOS DA VIDA  - Em 11/10/2017

Quem escreve semanalmente como eu com mais de mil e quatrocentos artigos e ensaios, fica com o ego massageado quando se recebe ou por e-mail ou por mensagem do facebook, mensagens como "seu artigo lavou-me a alma, me fez rir, me comoveu, me fez dizer "É isto mesmo". Sinalizam que não estou sozinho em meus modos de perceber e de pensar.

Também sou construtivamente marcado pelos que discordam e criticam, pois me ajudam a manter a mente aberta. Inspirados em indignações ou encantamentos, meus artigos refletem a marca de valores legados pelos construtores da minha bagagem em seus "recados de vida": Ignorância gera besteira ou desgraça. Pode ser melhor, sim. Desconfie sempre do governo e não confie demais na oposição.

Discurso é ação e o autor deve ser responsabilizado por suas palavras. O preço das decisões é para ser pago sem queixas. Imoral é enganar os outros. O bem que fizeres retorna a ti, o mal também. Sede assim, qualquer coisa, serena, isenta, fiel. Quem merece de Deus os dias e as noites, merece de nós bom dia, desculpe e obrigado.

Faz vinte e cinco anos que comecei a escrever diariamente no Jornal O Jornal e também no Diário da Tarde onde o velho Ajuricaba e a própria D.Lourdes Archer Pinto me davam incentivos para escrever, e olha que era coluna social, com pseudônimo. Depois fui escrever no Jornal A Critica, onde levava meu artigo para o velho Martins Diretor de Redação ainda na Lobo DÁlmada, e ele era o meu censor.

Entre pesadas máquinas de escrever Olivetti, na velha redação do Jornal do Comercio, tive a atenção fraterna do proprietário e já experiente Guilherme Aluísio, cujo bom humor e coleguismo são inesquecíveis. Depois de outros tantos anos como docente eis-me colaborador da página de Opinião, onde publiquei mais de 1.200 matérias.

Falei de mazelas sociais, desmantelos urbanos, amor, ética, política, religião, causos e causos verdadeiros ou não ( a maioria foram verdadeiros), sobre um lado de sandália deixado na Djalma Batista, artigo que me trouxe muitos elogios, e até futebol. Com profissionalismo, respeitei rigorosamente o limite determinado para o tamanho dos textos, apurando forçosamente um estilo enxuto que parece agradar à minha vintena de leitores.

Após todos esses anos, não abandono a causa do respeito às diferenças nem o sonho de melhora da cidade de Manaus e do Mundo. O labor e a responsabilidade de expressar ideias esculpindo textos são para mim, também curtição. Sou grato aos leitores, que me motivaram, e vou prosseguir de olho no mundo, de coração nos afetos, de alma na trilha da paz.

Continuo como artesão de textos em outros contextos, nutrindo a humilde esperança de marcar um pouco os outros com minha visão de mundo e ser por eles marcada. Grato a todos os leitores e leitoras que me acompanham e que tecem comentários sobre as matérias geradas as vezes no raiar do dia da quarta feira, dia que escrevo.

O PODER - Em 04/10/2017

Fazendo uma análise do instituto da reeleição esta excrescência admitida em nosso sistema político, fiquei a pensar sobre o porque da briga para voltar ao cargo que exercia. Só há uma resposta. O Poder. O exercício do poder é sem dúvida, o sentimento mais forte e o que exerce maior fascínio sobre o homem. Chega a ser mais forte do que o do sexo. Ainda que seja o poder político ou o poder econômico. E, lamentavelmente, a principal força que afeta a insensatez política é a ambição do poder, definida por Tácito como "a mais flagrante de todas as paixões".

A ideia do Poder está, por assim dizer, intimamente ligada à noção de glória. A glória chega a ser uma paixão consequente do Poder e que se transforma no prazer inebriante de existir além de si, a preencher o mundo com o seu nome. Mas, nenhum homem pode ter uma vida inteiramente dominada pela ânsia do poder, eis que, mais cedo ou mais tarde, depara-se com obstáculos impossíveis de superar. E é por isso que se afirma: a insensatez política é filha do poder.

Aliás, a tendência da humanidade sempre se concentrou em dois aspectos - economia e política ou, melhor dizendo; riqueza e poder. A esse respeito já disse Bertrand Russel: "O megalômano é diferente do narcisista, eis que prefere ser poderoso a encantador, temido a amado. E a este tipo pertencem os lunáticos e a maioria dos grandes homens da historia".

A Revolução Francesa, por exemplo, foi sem dúvida o primeiro movimento de ideias importantes na Europa do Século XIX. Apesar disso, tão logo atingida a vitória, Robespierre começou a admitir que só consolidaria o seu Poder Político, com a exclusão sumária de Danton que dividia com ele a liderança dentre os revolucionários. E logo Danton, talvez o mais puro revolucionário e que mais sinceramente desejou a ascensão do povo francês, no desfrutar do decantado tripartido simbolismo do ideal da Revolução: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. E, a partir da decapitação de Danton, a revolução perdeu seu encanto.

Nos dias atuais, é comum ver-se a todo instante a pretensão da disputa pelo poder, das mais variadas formas. Na seara político/partidária, e ante a aproximação do procedimento eleitoral, viu-se em todo o país, as mudanças de partido político e a quebra de compromissos assumidos e mantidos enquanto auferia-se, individualmente, dividendos eleitorais. É por isso que, apesar desse fascínio, nem sempre o homem se prepara para o exercício do Poder.

É razoável questionar por que então manter-se a classe política? Quem afirma serem necessários 570 deputados? Os políticos. E se a classe política desse um tempo? Deixasse de existir por pelo menos uma década e permitisse à sociedade se organizar em torno de um novo paradigma que não tivesse o vírus da política nem dos políticos? Quem pode afirmar que não, se nada foi tentado? E se os políticos não fossem mais escolhidos pelo voto, mas pelo veto e durante o (longo, espera-se) período de hibernação, lhes fosse imposta uma radical reciclagem que incluísse o fim de todos os seus privilégios, como salários altos, imunidade parlamentar, nepotismo, pagamento de despesas extras? Sem relevar números ao pé da letra, e se em vez de 570 fossem apenas 135, uma média de cinco por estado? O mundo, o Brasil está a exigir um novo modelo político.


INSPIRAÇÃO - Em 27/09/2017

Em conversa com uma amiga, perguntava-me ela como era a inspiração para toda semana escrever sobre assuntos diversos. Minha resposta foi a noção comum que se tem a respeito do escritor é que são pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de outro espírito propriamente dito - fenômeno a que se dá o nome de ''inspiração''.

O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças àquele dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados - mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil. O processo todo é penoso e dolorido - e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico - que se assemelha terrivelmente a uma gestação cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos.

Começa você sentindo vagamente que tem umas coisas para dizer ou uma história para contar. Ou, às vezes, ambas. Fica aquilo lá dentro, meio incômodo, meio inchado (antigamente se dizia como ''uma dor incausada''), quando um belo dia a coisa dá para se mexer. Surgem frases já inteiras, surgem indefinições que, se você for ladino bastante, anota para depois aproveitar; mas se for o contumaz preguiçoso, confia-os à memória e depois os esquece. Dentro da enxurrada de frases e de ideias aparecem, então, as pessoas. Surgem como desencarnados numa sessão espírita - timidamente, imprecisamente. São uma cabeça, uma silhueta, uma voz.

Nesse ponto, junto com as frases, pensamentos e criaturas (e mormente com o cenário, embora ainda não se haja falado nele). Nessa altura, a história já se está arrumando. Você sabe mais ou menos o que contar. Os autores meticulosos, nessa fase dos acontecimentos, já delinearam o que eles costumam chamar ''plano de obras'', ou seja, um esqueleto do enredo. Se é um romance, o esquema será mais amplo - os claros serão facilmente preenchíveis. A história corre a bem dizer por si. Mas se se trata de teatro, o esquema bem linear é imperioso: aquilo tem que ser como um pingue-pongue, ter um crescente constante, uma economia, uma nitidez...

E então chega um dos piores momentos nessa fase embrionária da obra por escrever. O autor enguiça. Falta-lhe imaginação para desenrolar o resto da história, falta a centelha necessária para criar a situação única, indispensável, climática, que será como a tônica do trabalho. E a gente fica numa irritabilidade característica, e numa pena enorme de Deus Nosso Senhor, que é obrigado a dirigir as histórias não apenas de um punhado de personagens, mas os milhões de viventes que andam pelo mundo - e se concebe um respeito trêmulo pela divina capacidade de intenção, que tão pouco se repete e tão invariavelmente cria...

Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente. É provável que eles, ao contrário de nós, os terra-a-terra, primeiro imaginem um enredo e depois, segundo as necessidades desse enredo, vão criando os personagens e os situando no tempo e no espaço. Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são os estrelos. A arraia miúda escrevente - ai de nós - é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve. Pronto acabei de fazer mais uma obra.

SALA DE AULA - Em 20/09/2017

Em Conversas com quem gosta de ensinar, Rubem Alves diz: "Educador não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança". Bom que a discussão sobre o ambiente em sala de aula tenha conquistado a opinião pública. Pontos de vistas diferentes têm sido manifestados, e isso é o que realmente precisamos: refletir sobre o ambiente da sala de aula para atingirmos a necessária aprendizagem.

O Brasil tem pressa; temos muito a percorrer para diminuir o fosso educacional que nos separa dos países do Primeiro Mundo. Ignorância, ausência de educação escolar significam pobreza caminhando célere para a miséria; má qualidade de vida, insatisfação, doenças, violência, gastos e mais gastos públicos, má qualificação profissional, desperdícios e carências de toda ordem.


Semana passada no agradabilíssimo local Flor de Lis, discutimos sobre o tema Politica na Escola, tendo como convidados Wendell Garcez, Dr. Mauro Lippi, Dra. Francilane Mendes, Dayana Braga, e alunos da Universidade Estadual do Amazonas. Promover educação significa, em última instância, contribuir para fazer as pessoas mais felizes.

A partir da segunda metade do século 20, mudou o papel do professor, a atitude dos alunos e, consequentemente, a relação professor-aluno. Recomendar a um professor universitário dos idos de 1960 que motivasse seus alunos seria considerado um contrassenso, um despautério. Para ele, eram adultas as pessoas que ingressavam numa universidade deveriam, pois, saber o que queriam. Além disso, com todas as dificuldades e esforços que isso acarretava, só procurava uma universidade quem tinha realmente vontade de aprender.

Mas, atualmente, são muitos os motivos que levam as pessoas a procurar um curso superior, assim como são mínimas as dificuldades e exigências de ingresso. Por isso, nossos alunos precisam ser motivados, e o professor que desconsiderar este aspecto, dificilmente conseguirá envolvimento e bons resultados. E, à medida que o aprendizado não é mais, necessariamente, o cerne do interesse do aluno, motivá-lo passa a ser responsabilidade do professor.

O que move as pessoas para a ação varia de pessoa, formação, interesses, objetivos, necessidades, história de vida e outros fatores. Porém, embora pessoal, interna, ela pode ser provocada por fatores externos; assim, para motivar alguém, é preciso saber o que "mexe" com ela, quais são as suas necessidades, o que a faz vibrar, se envolver.

Embora direcionados para o ambiente de trabalho, seus estudos podem ser verificados no ambiente da sala de aula, já que aprender implica uma ação, uma atitude pessoal na direção da construção de um conceito, na criação de uma visão de mundo, na libertação da dúvida para a conquista do conhecimento.

Na educação superior, entretanto, não faz muito sentido pressupor que vibração, excitação, ludicidade sejam condições para ocorrer o aprendizado, mesmo porque, atividades estimulantes, dinâmicas, lúdicas, por si só, não conseguem manter a motivação em alta durante todo o tempo, assim como também não garantem o aprendizado em qualquer nível. muito, para isso.



OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA - 13/09/2017

O ditado popular - a melhor defesa é o ataque - tem sido incorporado pelos envolvidos na Operação Lava Jato que tentam, a todo custo, não se defenderem, mas colocar em descrédito aqueles que o acusam, no caso o Ministério Público Federal ou mesmo o Poder Judiciário quando as decisões são contrárias aos acusados. A campanha de difamação pelas redes sociais, discursos inflamados, sem nenhum cunho jurídico, tornou-se uma prática corriqueira entre os acusados de cometerem ilícitos em desfavor daqueles que possuem a árdua missão de julgar.

O Poder Judiciário, personificado na pessoa do Juiz Sergio Moro por ter condenado vários empresários, políticos, e o ex-presidente Lula, expoente maior do Partido dos Trabalhadores, tem sofrido os maiores ataques. É sabido que não há democracia sem um Judiciário forte e independente, assim como não há sem o respeito às prerrogativas da nobre classe dos advogados, que com a beca sobre os ombros tem a árdua missão de defender seus constituintes, independente da gravidade dos atos praticados.

O ex-presidente Lula, condenado em primeira instância e réu em vários outros processos, tem, sistematicamente, utilizado do ataque ao julgador como forma de se defender perante a opinião pública.
O último ataque de Lula ocorreu na caravana que fez pelo Nordeste, na cidade de João Pessoa, em seu discurso com suas costumeiras bravatas, afirmou que nenhum "canalha" conseguiu apontar nada de errado que ele fez na vida.

A inapropriada adjetivação utilizada pelo ex-presidente tem o endereço certo, eis que, como dito, por diversas vezes tentou desacreditar os membros do Ministério Público e o Juiz Sergio Moro, agora passando à agressão pessoal. O destempero de Lula é acompanhado por seus asseclas, vários deles envolvidos em denúncias da Lava Jato sejam em Curitiba ou no Supremo Tribunal Federal (STF) por questão do foro privilegiado.

A presidente do Partido dos Trabalhadores, Senadora Gleisi Hoffmann, chegou a chamar Moro de "covarde" por ter condenado o ex-presidente Lula e que sua decisão ataca a democracia. Já o senador Lindbergh Farias o chamou de "covarde e fantoche da Rede Globo". A tentativa vã de desmoralizar o Poder Judiciário parece ser orquestrada por aqueles que se sentiam inatingíveis pela lei e, agora, ostenta a condição de réus ou condenados.

Não estou aqui a fazer a defesa de Sergio Moro, tenho críticas pessoais à quantidade de prisões preventivas deferidas, que poderiam ser substituídas por medidas acautelatórias, mas há de reconhecer o trabalho hercúleo que vem desenvolvendo na condução dos processos da Lava Jato, além de seu reconhecido saber jurídico.

Decisões judiciais se combatem com recursos e não com blasfêmias nas redes sociais e do alto de palanque. Por evidente que elas não estão imunes às críticas, sejam da sociedade, da imprensa, de advogados e dos próprios condenados, mas de forma respeitosa e no campo das ideias e não com insultos pessoais.

Apesar de toda tentativa de difamação, importante ressaltar que a maioria das decisões proferidas pelo Juiz Sérgio Moro tem sido confirmada em instância superior, valendo outro ditado popular, "os cães ladram e a caravana passa".


MÃOS - Em 06/09/2017

Os símbolos criam o contraste poético na história dos homens. Dessa vez as mãos assumem um protagonismo especial. Quando D. Pedro desembainhou sua espada com suas mãos e gritou "Independência ou Morte!", estava sendo protagonista da revolta pelo desgaste do sistema econômico, com restrições e altos impostos, exercido pela Coroa Portuguesa no Brasil.

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista: há mãos carregadas de um lirismo ingênuo, há mãos que serpenteiam, gesticulam, criam e falam, há mãos verdadeiras, acolhedoras e reflexivas.

Mas há também mãos cruéis, dominadoras e assassinas fazendo o contraponto com as mãos calejadas pelo trabalho e demasiado sujas com as dores ou desgraças do mundo. Todas as mãos deveriam ser profundamente assépticas. Exatamente como as mãos de um cirurgião no instante em que apanha o bisturi para salvar uma vida.

Afirmou certa vez Charles Péguy que Kant só possuía mãos limpas porque era privado de mãos. Estava errado o poeta. Até porque as mãos assumiram um significado importante na história. Elas servem, por exemplo, para barrar os escândalos, a corrupção ou o nepotismo. Como imaginar um governo com mãos autoritárias, ou, inversamente, com mãos frouxas.

A lassidão permite sentir a vertiginosa sensação de queda e de vazio no poder que acabará por converter a sociedade numa babel. Não a Babel do filme de Alejandro Iñárritu, tão rico quanto a vida nas suas complexas teias, na sua tensão entre o que não interessa, mas a que se dá relevância, entre aquilo que tem natureza de salvação e redenção e o que se perde no discurso, entre a situação limite das diferentes personagens e a imprevisibilidade do nexo causal que não sendo juridicamente adequado é ontologicamente.

Falo aqui de outra Babel igualmente complexa que se faz perceber no levantar coletivo de uma multiplicidade de mãos numa espécie de coreografia de massa. É como se observássemos um espetáculo de balé de sombras. Nessa representação real, as mãos são de todas as cores, idades e formatos.

Agora fechadas - numa situação de protesto - elas exigem direitos constitucionalmente assegurados e reclamam a segurança pelo menos no uso do transporte coletivo sem serem violentadas. Esperam justiça no ressarcimento das suas perdas e a não humilhação que se evidencia numa simples frase: resistir é perigoso e denunciar é inútil.

Novamente as mãos. Mãos agora sitiadas. Mãos que recusam as leis ditadas pelos homens porque eles não representam os verdadeiros interesses e necessidades daqueles que os elegeram. Mãos inoperantes, e esses exemplos de inoperância se fazem ver, por exemplo, na instituição parlamentar, que abre horizontes a cada legislatura sob o signo da mesmice, dando a entender que a representação política nada aprendeu a respeito dos sismos que devastaram a réstia de crença nos que detêm mandato popular.


ESPERAMOS QUE MUDE - Em 30/08/2017

Este é o desejo de muitos amazonenses e não amazonenses que residem no Amazonas, sobretudo dos que acabam de eleger Amazonino pela quarta vez como Governador do Estado. Foi da própria campanha de Amazonino o slogan "Vamor arrumar a casa em 12 meses" Isto significa que estamos sendo convocados pessoalmente a mudar. Esta é uma convocação, ao mesmo tempo, fantástica e amedrontadora.

Fantástica porque ela é a base da compreensão mais cristalina do que somos. "Somos pessoas em processo permanente de aprendizagem", o que quer dizer protagonistas de mudanças drásticas, de tempos em tempos. Mas mudar dá muito medo. Por causa deste medo, muitas vezes nos encolhemos no já batido e experimentado, confortavelmente perigoso.

Precisamos aprender as coisas mais simples, até como ter fome e sono, por incrível que pareça. E o que pensar de outras aprendizagens que são ainda mais complexas e mais exigentes, as quais não conseguimos fazer sem escola, tais como aprender a ler e a escrever, ou a ingressar nas maravilhas da estrutura multiplicativa dos números, quando da iniciação matemática, a qual faz uma falta grande para que a gente se sirva da articulação em rede que preside a maioria dos pensamentos.

Pensar é indispensável para entender, porque às vezes somos felizes e às vezes não, e para nos ajudar a aumentar as chances de nos sentirmos bem. Aprender é, portanto, mudar. Mas mudar tem dois momentos que se alternam, o das mudanças nas bases e o das mudanças em cima de bases assentadas. Há momentos em que mudar é colocar elementos para edificar sobre um alicerce posto. Há outros momentos em que mudar significa mexer nos próprios alicerces.

Em política hoje, impõe-se o segundo momento, o de remexer nos próprios alicerces, para sobre eles conseguir apoiar novas estruturas. Este momento implica remexer nas idéias que animam a prática dos políticos, porque, não há prática sem teoria, isto é, não há ação sem idéia por detrás. E são as idéias que sustentam a prática que demandam mudanças. As idéias vigentes nesta área estão equivocadas e superadas. E de seu equívoco emana uma injustiça detestável - a não-aprendizagem pelas pessoas nascidas em famílias pobres que frequentam nossas escolas públicas, quando eles todos podem aprender.

Fazer esta mudança implica tanta coragem e tanto apoio popular como a mudança na ortodoxia monetarista que domina nosso modelo econômico. Que cada um de nós ajude a promover tal mudança, porque, se você não muda, nada muda. Estamos todos convocados a gritar presente. Com certeza a construção de um contexto de um mundo mais igual e fraterno só será possível através da consciência individual, na busca por valores de cidadania e de justiça social.

Até agora nenhuma sociedade alcançou a democracia sendo fiel a todos os seus princípios e valores até mesmo na Grécia Antiga onde esse sistema surgiu, boa parte da população era excluída das relações sociais, através da escravidão, da marginalização e da exploração do trabalho. Ainda hoje isso acontece. Não existem mais escravos, contudo as pessoas vivem muito em função de seu trabalho e levam um vida material, esquecendo as questões sociais e outros aspectos essenciais à existência humana. Todos estamos esperando que mude.



UM OLHAR SOBRE A ELEIÇÃO - Em 23/08/2017

Neste próximo Domingo teremos o segundo turno da eleição suplementar para saber quem vai governar nosso Estado nos próximos 15 meses. Há algumas reflexões que merecem destaque. Como forma de olhar a política, as pesquisas eleitorais dizem muito, mas falam pouco. Os números que mostraram Amazonino estourando na dianteira, mais de 30 pontos à frente do segundo colocado deixam evidente que o candidato do PDT está sabendo se valer de trunfos preciosos: sua longa exposição à mídia e seu amadurecimento político, ao passo que Eduardo não teve a capacidade de capturar o difuso espírito oposicionista que parece ter tomado conta da população, ao menos no momento.

Os números sugerem que há muitas dificuldades a partir de agora atormentando a candidatura de Eduardo. Além de ser pouco "simpático", á classe média, de ter fama de gostar demais do poder e de não conseguir resolver seus imbróglios junto a Procuradoria da República, Eduardo não parece estar conseguindo contornar as resistências encarniçadas que se lhe antepõem os setores mais duros do próprio PMDB, ou seja, de sua própria base de sustentação, além da pecha ao seu vice de ter sido seu algoz na eleição passada. Os números mesmo não tão eloquentes acabam por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias.

A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um fato forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno. As estratégias se dedicam a burilar imagens, efeitos e "conceitos", quem sabe embalagens. Os conteúdos importam menos. Os números integram-se a isto e passam a ser cotejados sofregamente. Tudo fica assim condicionado. Uma falha de comunicação, uma frase boba, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido da biografia, qualquer bobagem pode jogar tudo ladeira abaixo.

Em decorrência, todos tendem a não se afastar muito de um ponto "ótimo" de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um factóide bem plantado vale ouro. É a anticampanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros se combinando com o disfarce de si próprio, as escaramuças moralistas e "imagéticas" ganhando mais peso que o debate democrático. Por isto mesmo que cada eleição é novo aprendizado, cada prélio, uma lição que aprimora e aperfeiçoa.

Da mesma forma que na disciplina a que alude o canto décimo de "Os Lusíadas", o democrata não aprende na fantasia, somente sonhando, imaginando e estudando, mas vendo, tratando e pelejando. Este um dos papéis salutares destas eleições. De todas as eleições. Na realidade ficamos com dois candidatos já conhecidos da população por realizações e não realizações, por empáfias e empáfias, os números de votos nulos e brancos vão mostrar o desinteresse do povo em confiar em algum deles.


LEAL DA CUNHA - Em 16/08/2017

Em mais um dia muito triste, lá fui eu, rumo a Funerária. Todo dolorido, coração esbodegado. Uma vez mais, entre tantas outras em tempos diversos. Na cabeça - esta impiedosa registradora de fatos que gostaríamos de esquecer - algo que li, faz tempo, entre as preciosidades machadianas. A ideia era esta: a certa altura da vida, os amigos que nos restam são de data recente; os demais, os mais antigos, já foram estudar a geologia dos campos santos.

Dura realidade essa. Já a amarguei muitas vezes, sofro-a sempre que realizo meus balanços afetivos. Quando isso acontece, me belisco, me agrido, me autoflagelo ao me dar conta de que, por essas distorções e ocupações da vida, desfrutei menos do que devia da companhia dos amigos que já se foram, os fujões involuntários. Foi com esses pesares e com lembranças tais que, no último fim de semana, levei meu silencioso abraço de despedida a um amigo muito querido, benquisto e admirado por quantos com ele privaram, sem falar na imensa torcida do Flamengo, sua grande paixão esportiva, e que a ele ficou devendo os vários campeonatos que lhe proporcionou.

Posto que nesta altura já desnecessariamente, vou escrever seus dois nomes, o genérico e o próprio. O primeiro: amigo; o segundo Leal da Cunha. Amigo mesmo, desses que aparecem nas horas más e que tornam mais deleitáveis nossas horas boas. Poderia ir bem mais longe homenageando o afeto que se foi, eis que o tema é tão rico quando a dor de tê-lo perdido. Fico por aqui, porém. O que faço por esta soberana razão: seu nome não rima com morte. Os que o conheceram de perto sabem do que acabo de falar. Os demais - os que não tiveram a aventura de com ele conviver... Bem, esses não sabem o que perderam.

Tomo emprestado o título do filósofo Sêneca, que em seu livro A brevidade da Vida, presenteia-nos com temas que enriquecem o espírito e arejam a mente através de seu pensamento filosófico. Ele aborda o real significado da vida em relação ao seu rápido transcurso temporal e adverte que o problema não é a velocidade do fluxo vital, fonte de lamentos para muitos, mas sim, a forma como se utiliza o tempo.

Quando se passa por problemas de saúde, e com as reflexões que o momento sugere nos perguntamos: para que, dentre as pessoas, tanta soberba? Tanta vaidade? E os arroubos de poder? E as arrogâncias? O egoísmo? Por que o eu cada vez mais eu e o nós cada vez menos nós? E as ambições? A corrupção e a ética, onde fazem moradas? E o vil metal? Não sabem os que pegam do dinheiro sujo o quanto este se transforma em azinhavre da alma. Por que tantas guerras e o porquê da barbárie que não se desgruda dos que se jactam do poder e da ganância desenfreada?

Passamos com o tempo a emoldurar melhor as ideias do mundo e as definições dele. A vida é um nada neste mundo, mas é bonita e é bonita, como sugere o canto de Gonzaguinha, e o encanto da vida que, por vezes, parece se apagar como a chama de uma vela quando de pequenos sopros, demonstra a nossa fragilidade. Que bom escutar a voz solidária e carinhosa dos familiares e de verdadeiros amigos. Amigo Leal, tenha uma boa morada entre os que passaram por esta vida sem prejudicar ninguém.


PAI - Em 09/08/2017

Neste domingo Dia dos Pais, começo a pensar que existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência. Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nosso dias e que deixou marcas.

Marcas... Umas serão mais profundas, outras superficiais, porém todas com algum significado. Serão detalhes que guardaremos dentro de nós e que se contarmos para outros talvez não tenha a menor importância, pois só nós saberemos o quanto foi incrível vivê-los. Poderá ser uma música, quem sabe um livro, talvez uma poesia, uma carta, um Natal, uma viagem, uma frase que alguém tenha nos dito num momento certo. Quem sabe uma amizade incomparável, um sol que foi alcançado após muita luta, algo que deixou de existir por puro fracasso. Pode ser simplesmente um instante, um olhar, um sorriso, um perfume, um beijo. Para o resto de nossas vidas levaremos pessoas guardadas dentro de nós.

Umas porque nos dedicaram um carinho enorme, outras porque foram o objetivo do nosso amor. Outras ainda por terem nos magoado profundamente. Mas o nosso pai vivo ou morto levaremos para sempre a sua lembrança. Já escrevi uma vez em artigo dedicado aos pais, mas falando aos meus filhos, que mais do que presentes e almoço, o que queria mesmo era dizer algumas palavras aos amados filhos. Palavras que não soem como desculpas, mas sim como uma reflexão que faço de todos estes anos de convivência, ensinamentos e aprendizado; e de esperança em construir em vocês um alicerce seguro que possa suportar para sempre, em qualquer época, os solavancos desta vida, para que vocês sejam sólidos de educação, caráter, dignidade, honra, respeito ao próximo e religiosidade, gratidão.

Quanto um filho é grato aos pais pela vida? Quantos têm gratidão ao benfeitor que aparece sempre nas horas mais difíceis? Penso que o mundo seria muito melhor se as pessoas abrissem o coração e falassem o que realmente estão sentindo. Deste modo, quantas vezes gostaria de ser melhor para vocês e simplesmente não consigo. Quantas vezes digo não, mesmo que este "não" seja penoso, me deixe triste; é o não da razão que vive sob constante ameaça do "sim" que vive lá no fundo do coração. Quantas vezes sou chato por orientá-los insistentemente sobre uma conduta saudável e responsável, ou tento avisá-los de situações de risco, como se pudesse evitar que aprendam doloridamente com os próprios erros. Quantas vezes superprotejo, na ilusão de que poderei poupá-los de trafegarem por estradas mal sinalizadas, esburacadas, escorregadias e com curvas perigosas, na inocente pretensão de protegê-los da vida. Quantas vezes poderia ter feito mais! Ter sido mais amigo, entusiasta, confidente, companheiro, cúmplice, disciplinador, participativo, compreensivo.

Não importa a idade de nossos filhos, ainda é tempo de recomeçar, arregacemos as mangas e mãos-à-obra. Sinto-me orgulhoso meus filhos, por ser pai de vocês. E a todos os pais, Feliz Dia dos Pais.


ELEIÇÕES - 02/08/2017

Domingo teremos eleição para o governo do Estado, para completar o mandato do ex governador que foi cassado. Temos os mais diversos institutos de pesquisa dando como certo segundo turno. O que nos preocupa é que nosso estado está falido, e a primeira coisa que o eleito deve fazer é uma ação consciente e fundamental na vida de um povo como um todo, e não apenas de uma classe restrita - a elite econômica e financeira que infelizmente rege o País. Em seguida, que se estabeleçam bases sólidas (ou pelo menos quase críveis) dessa atividade para que brotem objetivos planejamentos e diretrizes respeitadas. Entretanto, o que vemos constantemente nessas ações - ilações costumeiras transformadas em promessas vãs pelo imenso naco dos políticos brasileiros - são as influências burguesas como concepções próprias da vida, defeitos herdados dos erros do passado e o caráter duvidoso convenientemente emprenhado em grande parte no consciente de nossos homens públicos. Pois que tudo que se planeja é arranjado por acordos, ideias ou doutrinas, geralmente em benefício dos mesmos e seus áulicos. Por vezes, estendem um pouco das sobras do que deveria ser do bem comum para dividir com o pobre povo marginalizado que só acredita em Deus, nas aflições de fé e nos passeios contritos em filas comportadas das procissões de suas oportunas padroeiras. O crucial problema, tanto político como de seus acessórios relevantes para com a governabilidade de um país, tais o econômico ou o pedagógico, só será resolvido quando seus seguidores práticos esbanjarem um mínimo de dignidade em seus atos pelos quais lutam ou postulam na vida em geral - sobretudo na pública. O Estado deveria não só promover como reger a sociedade no caminho desse ilusório bem-comum. Essa alusão do Estado como regente da sociedade presta-se a um entendimento estatista, em contradição aos princípios da doutrina e prática da política. O Estado não pode mandar o povo fazer o que ele manda. Agora, o povo, leia-se sociedade consciente em todas as suas classes, sim! Pela manifestação eleitoral é que pode ditar suas necessidades, promovendo acentuada exigência na gerência do seu dinheiro arrecadado pelos governantes - o tesouro nacional e suas reservas patrimoniais. O Estado, pois, nada mais é do que delegado do povo e seus eleitos dirigentes e asseclas são funcionários pagos pelo povo. O poder de autoridade é fixado nos limites da Lei Eterna e da Lei Natural, seguindo o catecismo filosófico de Santo Tomás de Aquino. Aí surgiu, silencioso, um liberalismo soberano que deu força ao povo, embora combatido por intelectuais católicos, visivelmente inseridos como tema prioritário de má campanha insone de Jackson de Figueiredo, desde o tempo em que o liberalismo individualista tinha abafado os próprios germes do cristianismo de sua geração, na reação fascista contra o comunismo soviético, visto então como uma sadia afirmação do bom senso político. A vontade geral foi desprezada, antes pelo getulismo, depois pelo militarismo, e hoje com o advento do neoliberalismo, argamassada de vez pelo petismo stalinista. Enquanto outros só vivem na cantiga de Lula. Sabem por quê? Foi o único que não deixou os pobres na mão - todo mês tem Bolsa-Família e ninguém se esforça mais atrás dos empregos. Votemos com consciência caros eleitores por mais que pareça apenas quinze meses, tem a famigerada reeleição que com certeza vai ser objeto de cobiça do eleito no domingo. 


O ESTIGMA DA CORRUPÇÃO - Em 26/07/2017

O Poder Legislativo, escreveu Rousseau, é o coração do Estado e o Poder Executivo é o cérebro que dá movimento a todas as partes, para concluir, de forma arrasadora: "O cérebro pode paralisar-se e o indivíduo continuar a viver. Um homem torna-se imbecil e vive, mas, desde que o coração deixa de funcionar, o animal morre."

A imagem é forte, mas os malfeitos sob o patrocínio do parlamento sugerem que, há um bom tempo, vem ele desvanecendo na cinza moral que cobriu formidável parcela de suas decisões no decorrer da onda de baixarias que o País vivenciou e que, pelo visto, ganha passaporte para continuar.

Mais que o Executivo, o Poder Legislativo, por força do simbolismo, constitui o vetor de mudanças e aperfeiçoamento da institucionalização e da democracia. Aos políticos se impõe enterrar de vez o ciclo originado no ventre da ditadura, que nasceu com a concessão autoritária para existência de partidos e se desenvolveu com um oposicionismo monitorado, descambando, mais tarde, neste modelo de tutela de parlamentares, pagamento na boca do caixa, prostituição partidária, adensamento do patrimonialismo, inexistência de ideias e escrúpulos e, coroando o processo, a criação de um (esdrúxulo) parlamentarismo às avessas, caracterizado pela extravagante condição a que se permite o Executivo, qual seja, aplicar leis que ele mesmo institui por meio do abuso de medidas provisórias.

Este é o arcabouço que carece de mudança. Se não se criar novo paradigma para a política, o País verá ampliadas as possibilidades de consumar o crime de viver sob o estigma de eterna corrupção. A independência do Legislativo em relação ao Executivo, meta indeclinável de um conjunto de atores que substitui o poder das ideias pela disputa entre nomes, se estrutura sobre a qualidade partidária, que, por sua vez, depende de estatutos como a cláusula de barreira, abortada pelo Judiciário por inadequação constitucional. A chave do cofre do Palácio do Planalto manterá os parlamentares de pires na mão enquanto se mantiver o orçamento autorizativo, pelo qual o Legislativo apenas autoriza a realização de gastos pelo governo e este segue ou não o rito. O orçamento deve ser impositivo. Nos Estados Unidos, o Executivo fica a reboque, pois o orçamento é uma peça impositiva de gastos.

Estatuto mais que urgente é o da fidelidade partidária. O tempo de filiação de um deputado deve preencher o período eleitoral para o qual foi eleito (quatro anos), sujeitando-se o aventureiro que trocar de sigla a ficar fora do pleito seguinte. Para ganhar a confiança do eleitor, o representante precisa estar mais próximo a ele, e isso se consegue com a mudança do sistema de voto. Cerca de 80% dos eleitores não se recordam do voto dado ao deputado nas últimas eleições.

O ideal seria uma combinação entre os métodos proporcional e majoritário de listas. E por que não se pensar na possibilidade de o eleitor, indignado diante de eventual traição a compromissos, ganhar competência para destituí-lo por meio de representação (recall legislativo) junto à mesa diretora da Câmara? Se Rodrigo Maia e Eunicio Oliveira pensam algo sobre essa pauta, ninguém sabe. Fazem lembrar um pequeno conto: duas pessoas estão presas numa cela que tem apenas pequena abertura para o mundo exterior. Uma vê estrelas, outra só o reflexo delas na lama. O que enxergam os nossos representantes?


ODE AO PAPEL - Em 19/07/2017

Se eu fosse poeta escreveria uma ode ao papel para homenagear esse humilíssimo suporte de toda a sabedoria do mundo. Ninguém se lembra, nunca, de agradecê-lo virtualmente pelos serviços que vem prestando há pelo menos 500 anos, desde a invenção da imprensa, que permitiu a multiplicação de exemplares.

Perecível, mas resistente ao tempo e ao maltrato, ele veio se especializando à medida que foi preciso estender mais o seu emprego na evolução de artes e ofícios. Todas as ideias, as descobertas, as invenções, os acontecimentos históricos e as necessidades emocionais que levam o homem a externar suas paixões e seus sentimentos estão lá, repousando nas superfícies silenciosas de páginas inseridas nos milhões de livros que já foram produzidos no mundo.

E nos documentos de toda espécie e tamanho, desde os privados até os públicos, usando os mais variados processos de escrita e reprodução de imagens. Glorioso. Glorioso papel, inerte e obediente que, até ontem, supria todas as necessidades de registro a serem guardadas na nossa memória ou enviadas para memórias distantes. Glorioso papel, cuja morte iminente foi preconizada com o surgimento da fabulosa mágica da informática, cujos poderes e dinâmica despachariam o inocente neto do papiro para a idade da pedra.

Mas, por enquanto não aconteceu quase nada disso. Digo quase porque a produção de impressos sobre papel se vale bastante, hoje, dos recursos comandados pelos teclados dos computadores e pela transferência de imagens. Mas o humilde e centenário papel continua silencioso e, ao que parece, usado agora em maior quantidade, dando conta das nossas exigências.

Até quando? Talvez até o dia - pode-se esperar de tudo da criatividade humana - em que não haverá mais necessidade de ler e escrever. Uma comunicação direta entre neurônios dispensará qualquer outro sistema de comunicação. E os papéis com assinaturas e carimbos, que conviveram com a história inicial da comunicação eletrônica já serão peças de museu (virtual, obviamente).

Por enquanto você precisa ainda de um pedaço de papel que diga que você nasceu e, outro, que você morreu, senão você não existiu na face da Terra. Glorioso papel, que já foi um dos primeiros recursos para a criação do veículo chamado jornal. Um tímido suporte que se prestou, desde a fase embrionária, a gravar em suas superfícies as informações e as opiniões que alimentaram e eram alimentadas pela sucessão de fatos e ideias que desenharam a história do mundo. Um veículo que resistiu a todas as ameaças de extinção. Talvez porque tenha o charme irresistível de uma bela mulher, que não envelhece e nunca perde seus encantos.

Mas todos nós sabemos - eu, você leitor, e um monte de gente que nos circunda - que somos viciados, dependentes do nosso exemplar matutino, que nos predispõe para atravessar o dia. Se, por ventura, você estiver lendo esta crônica, cujo berço é um pedaço de papel, talvez fique curioso por saber como ela se ajeitou neste espaço. É muito simples (ou milagroso?): eu escrevi o texto digitando em um computador, daí, pelo éter, com a velocidade do pensamento, foi transferido para um computador dos blogs, do face e do Em Tempo, entrando no processo de produção que imprimiu o exemplar que está na sua mão.


Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

CHIQUEIRO - Em 12/07/2017

Parece brincadeira, mas o que aconteceu ontem no Senado da República com as senadoras Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Grazziotin (PcdoB-AM), Fátima Bezerra (PT-RN) e Regina Souza (PT-PI) ocupando por mais de cinco horas a Mesa do plenário do Senado, sendo o Presidente do Senado obrigado a desligar as luzes e os microfones.

Há algum tempo, a revista inglesa The Economist, com ampla circulação mundial, publicou matéria em que classificava o Congresso brasileiro de "chiqueiro", lembrando que as duas casas do Poder Legislativo estão tão desmoralizadas que imaginar que os parlamentares votarão reforma política é o mesmo que atribuir aos perus, no Natal, a administração de seus pescoços. Claro que deputados e senadores se sentiram profundamente insultados, embora devessem estar acostumados, já que o assunto é tratado diariamente pela imprensa nacional.

As pesquisas de opinião revelam o que pensa o povo brasileiro sobre o Congresso, e a imprensa não esconde nada, mesmo tendo que conviver com a sucessão de escândalos que insistem em confundir o país com uma cloaca. Diante do insulto da revista inglesa, os congressistas têm duas alternativas: desafiar o jornalista para um duelo ou romper relações diplomáticas com a Inglaterra. Como nada disso, naturalmente, não será feito, talvez eles possam aproveitar a dura metáfora e admitir que deram inúmeros motivos para a redação de matéria tão áspera e tão feroz.

Na verdade, o que a revista inglesa fez, refletindo a imprensa brasileira, foi mostrar que o Congresso não cumpre seu papel como deveria. A publicação levou ao mundo inteiro a triste e lamentável imagem de corrupção que prospera entre os congressistas e que toda as semanas se repete, seja na predação de recursos públicos, seja no escandaloso desvio de verbas que deveriam atender as necessidades de hospitais e escolas, além de ambulâncias e merenda escolar. Como não há limites para a imoralidade pública, os congressistas passam os dias a se explicar, prejudicando sensivelmente a confiança do povo nas instituições.

Pode-se dizer que The Economist poderia cuidar, com igual fervor, do Congresso britânico, mas até nisso os senadores e deputados brasileiros estariam equivocados, já que Parlamento inglês foi literalmente devassado pela revista e por todos os tabloides que circulam no país. Nada lhes escapa, de escândalos sexuais e ocorrências medonhas de pedofilia, passando por desvios de recursos públicos. Como se vê, competência para mexer em pântanos não lhe falta. A revista está certa de que os congressistas brasileiros não farão qualquer reforma política, para não perder privilégios.

A verdade é que o Congresso está desmoralizado e só se recuperará quando o Orçamento da União for deixado de lado e se der prioridade aos recursos da educação, dos aposentados e pensionistas, das grandes causas sociais e da precária e revoltante infraestrutura que se transforma em gargalo para o desenvolvimento do conjunto da economia. Há uma guerra civil diária nas ruas do Rio de Janeiro e na periferia de São Paulo, que domina o imaginário brasileiro e que alguns jornais, com ou sem maldade, dizem ser manifestação da população diante dos exemplos que vêm de Brasília. Assim, o Congresso, que não funciona como deveria, dá sua generosa contribuição para que o noticiário seja quase todo sobre criminalidade.


Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

O CONTO DOS DIFERENTES - Em 05/07/2017

Em meio a essa enxurrada de casos de desvios de dinheiros, envolvendo, principalmente, políticos de diversas origens partidárias e doutrinárias, observo as mais variadas opiniões, na TV, nas conversas, nas cartas de leitores e mesmo em artigos e editoriais. Uns, céticos, dizem que o Brasil não tem jeito. Os revoltados asseguram que não votam mais em ninguém.

Não tenho o exagerado otimismo do Dr. Pangloss, nem navego o meu barco num mar-de-rosas. Entretanto, recolho alguns aspectos positivos nas dores que estamos todos sofrendo, nesse parto monstruoso. Acho que os partidos estão dando à sociedade brasileira, neste momento de triste história, o que espero venha a ser a última comprovação da falência do conto dos diferentes, alimentado por aqueles que se arvoram em salvadores da pátria e guardiões exclusivos da moralidade e da ética.

Pelo menos nos últimos 50 anos, para não ir mais longe na História, o Brasil passou da esperança para a decepção, quando algumas corporações, cada uma ao seu modo, impuseram, ou venderam, o sonho da salvação nacional, da pureza moral e da retidão ética. Os militares, em 64, comandaram o País, orquestrando o bordão Brasil, ame-o ou deixe-o, sob o qual se escondia a falaciosa mensagem maniqueísta: fiquem os bons; os maus se retirem (ou desapareçam). O fim gradual dessa prolongada experiência foi melancólico.

Anos depois, o colorido Caçador de Marajás renovou esperanças de grandeza moral e de soluções épicas, reprisando o estilo Indiana Jones, mas sem final feliz. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, durante os últimos 25 anos, conquistou, paulatinamente, os brasileiros, combatendo o autoritarismo, denunciando a corrupção e anunciando um novo estilo de governar. Afirmavam os seus ativistas que o PT era diferente. No exercício do poder, lamentavelmente, não foi diferente.

Temos aí lições sofridas, mas preciosas, que nos ensinam a não mais marcharmos, patrioticamente, ao lado do autoritarismo discricionário; não ficarmos embevecidos e esperando milagres de pretensos salvadores da pátria e não aceitarmos, por hipótese alguma, que os fins justificam os meios. Se assim julgava o núcleo duro do PT, talvez, até, com o distante assentimento do Presidente, inebriado com o seu Sonho de Poder, na prática, deu no que estamos, melancólica e democraticamente, presenciando... Uma velha advertência cabe ser sempre lembrada: a ocasião faz o ladrão!

O que devemos fazer, doravante, depois dessa quase mortal infecção generalizada, é fecharmos as portas para as ocasiões tentadoras. E isso, conquanto não seja alcançado, do-dia-pra-noite, deve constituir o objetivo perene a ser perseguido, tendo como viga-mestra instituições harmônicas, sadias e independentes, assentadas em robustos pilares democráticos.

Vamos tirar o Estado da execução e aprimorar as suas funções de planejamento integrado, supervisão e controle. Vamos eleger a educação, em sentido amplo, a maior prioridade nacional. A liberdade de imprensa responsável é um exemplo dessas forças catalisadoras. É a sua prática que vem nos permitindo assistir, em tempo real, o desmonte de patifarias e falcatruas que, em outras épocas, de menor transparência, proliferavam, impunemente.


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Professor Flávio Lauria