Olhar Crítico

No reino do faz de conta - Em 11/12/2019

Tudo bem, o senhor é um homem honrado e bem-intencionado. E agora está eleito presidente da República. Em sua vida pregressa, que já é de bom tamanho, nada existe em desabono à sua honestidade. Ao contrário, até sobram exemplos de sua inteireza de caráter. Tem mais: todo seu passado demonstra que jamais foi ambicioso, seja por dinheiro, seja por honrarias. O contrário é que é verdadeiro: abundam as provas de que sempre se revelou pessoa desapegada aos bens materiais e discreta. Outros atributos que lhes são justamente conferidos: inteligente, dono de invejáveis conhecimentos sobre economia, direito, sociologia e outras áreas culturais. Quanto ao seu temperamento, o menos que se reconhece é que o senhor é afável, conciliador, alegre, trabalhador incansável e chefe de família exemplar. Ídem um grande patriota, sempre preocupado com os superiores interesses da pátria, e muito sensível aos problemas sociais. Enfim, o senhor é o símbolo do ser superior com o qual Deus deve ter sonhado ao criar a humanidade.

Apesar de todas essas virtudes, a escolha de seu nome para presidente da República foi um consenso quase absoluto.Tudo ótimo. Agora chegou o momento em que, passado um ano quase de empossado, tem necessidade-dever de continuar seu governo; com a escolha de seus colaboradores - ministros e demais integrantes do primeiro, do segundo, terceiro e demais escalões da administração, sem nenhuma mácula. Diante de tal responsabilidade, recolhe-se a seu gabinete, examina a relação e o número desses cargos e começa a fazer sua seleção. Dá tratos à sua memória e vai anotando os nomes das pessoas de sua confiança que preencham os requisitos que lhe parecem indispensáveis para ocupar os cargos de confiança. A tarefa está ficando um pouco árdua, não é mesmo? Não desista, porém.

Não é nada fácil relacionar tantos nomes para preencher tantos cargos em tantos e tão remotos pontos do país - no norte, no sul, no leste, no oeste e no nordeste do país. Do Oiapoque ao Chuí, enfim... Continue pensando e lembrando. Cabeça e memória foram feitas para isso. Está ficando cansado de tanto esforço? Não desanime, porém. E não capitule diante do receio de que, por informações de terceiros, venha a indicar pessoas erradas para funções tão exigentes e de tamanho interesse público. Ainda assim, não desista... Dê seguimento a seu esforço. E, se sentir exausto e mortificado pelas dúvidas, descanse um pouco.

Crente em Deus como é, implore pela inspiração divina. Talvez por aí o senhor, meu caro presidente, consiga o quase milagre de selecionar os nomes certos para os lugares certos. Gente da qual se possa comprar um carro usado, pessoas que não se dediquem ao comércio de vender gatos por lebres. E trate de manter sua convicção de que, a partir de agora, tal como dizia em seus discursos, seus únicos compromissos são com o povo e não com as esdrúxulas coligações partidárias que o fizeram candidato, menos ainda com os mercadores oportunistas que financiaram sua campanha...Como seria bom se isso fosse verdade, mas nosso Presidente nada tem de afável e de conhecedor dos problemas brasileiros, é um boquirroto e tem em seus filhos talvez o maior empecilho de governar.


Outros devaneios - Em 04/12/2019

Eu não me conformo com a humanidade insana, irresponsável e neurótica. Uns querendo engolir os outros. Só interesses pessoais, só vem a nós; ao vosso reino, nada. Os pobres esmagados pela ambição desmedida dos insensíveis, insensatos e insaciáveis. Guerras burras, golpes cretinos, a humanidade estarrecida com tanta brutalidade. As criaturas indo para o trabalho e voltando para casa, indo ao cinema, ao teatro, inseguras e medrosas. Nenhuma reação dos pisados, dos massacrados. Só dor. Dor muda e impotente.

Sinto-me  as vezes estranho no meio daquele bando de gente pacata e medrosa. E, sozinho, sei que não posso fazer nada, além de chorar. Penso no meu país, tão lindo, tão futuroso, cheio de riquezas minerais, vegetais e animais. Tanto céu azul, tanto sol, clima excelente, verão quase o ano todo, um inverno leve, suportável, rios, ribeirões e ribeirinhas, muito ouro, muita pedra preciosa, sem terremotos, vulcões, nenhuma tromba d'água, nem tufões. Mas, sem felicidade, também. Desempregos, assassinatos, sequestros, misérias mil. Toneladas e mais toneladas do ouro e das pedras preciosas, sendo roubadas. A nossa madeira, idem. E o nosso país pagando dívida sem parar.

A desigualdade social, cada vez mais desigual. Fico as vezes no maior enjoo da realidade. Em busca de um intervalo na lucidez, fui visitar um hospital de velhinhos. Segui o avental branco no corredor aceso e esticado como a luz de um farol. Sempre supus que algum lugar me coubesse e me dispensasse a lucidez. Ali eu me senti útil, distribuindo sorriso, carinho e amor para aquela gente tão sofrida, tão desamparada. Dali, da janela, eu olhava o mundo lá fora sem ser visto, sem ser pisado. Aqueles doentes lá dentro do hospital andavam devagar, quase escorriam. Mas, também, pressa de fazer o quê e para quê? Saindo dali, sofreriam menos?

Voltei para casa refletindo sobre a inutilidade das coisas. Do meu quarto, numa noite de chuva, observava o nevoeiro que descia calmo e sonolento na vidraça da sua janela cansada. As figuras mornas e torturadas haviam perdido a forma, agora eram retas e escuras, mas ainda andavam e sonhavam na madrugada cinza. Tive uma visão que mais parecia um sonho: num planeta azul, de um azul tão lindo que enchia os olhos de lágrimas, vi uma humanidade de mãos dadas, solidária, justa, compreensiva e amiga. As crianças, felizes, brincando nos jardins, ou indo para a escola. Os homens, todos honestos e justos, solidários, indo para o trabalho. As mulheres, também nos seus variados locais de trabalho, tranquilas por saberem que os seus filhos estavam seguros a caminho da escola, além de poder frequentar colégios da melhor qualidade, com professores competentes e afetuosos. As casas eram confortáveis, os jardins com flores e as hortas com variadas verduras. Nos parques, além das flores, inúmeras e das mais variadas cores, árvores e árvores repletas de frutas. As avenidas eram limpas e lindas, sem um mendigo. Os rios, caudalosos, de água pura e imaculada.

Tive vontade de me beliscar, mas não tive coragem. Preferi o sonho, à realidade. Estava exausto de realidade. Se pudesse, pediria demissão da vida ali mesmo, naquele instante, para não ter que dessonhar tudo de novo, magoando-me. Devaneios, puros devaneios, mas característicos de quem tem além de insônia, vive muito só, e de quando em vez arrebata sonhos e pensa na finitude da vida.


Os jornais e o seu futuro - Em 28/11/2019

Caros leitores, após dezessete anos escrevendo semanalmente nas paginas do Em Tempo, achei que deveria parar, e dois anos após essa parada eis que Glaucia Chair, agora Diretora de Redação me faz o convite para escrever aos domingos neste matutino. Aceitei, por acreditar na credibilidade de Glaucia e tendo a certeza que os jornais não acabarão. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será?

É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classe A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o fascinante mundo da cultura impressa? Creio que não. O que falta, estou certo, é realismo e qualidade. Os jornais, equivocadamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não são.

Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapacidade para dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade.

Num momento de ênfase no didatismo e na prestação de serviços - estratégias úteis e necessárias -, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões.
Autor do mais famoso livro sobre a história do The New York Times, Gay Talese vê importantes problemas que castigam a imprensa de qualidade. "Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones e gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas." (...) "Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando", conclui Talese.

E o leitor, não duvidemos, capta tudo isso. Um amigo gozador costuma dizer-me que a expressão "jornalismo de qualidade" é, hoje em dia, contraditória em si mesma. Outro dia, quis exemplificar-me essa sua opinião. Veja, dizia, "boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores".

O uso de grampos como material jornalístico, por exemplo, virou ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. De uns tempos para cá, o leitor passou a receber dossiês que, muitas vezes, não se sustentam em pé. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres.

O público, informado e exigente, resiste à mesmice de pautas politicamente corretas. Recentemente, num seminário de imprensa, fui questionado a respeito da qualidade da cobertura da eleição do novo Papa. Ela foi, quantitativamente, magnífica. Do ponto de vista da qualidade, no entanto, ficou bastante aquém do que poderíamos ter feito. Ficaram alguns jornais, infelizmente, reféns de raivosas declarações de reduzidos e conhecidos desafetos do então cardeal Ratzinger.

Criou-se, assim, contra toda a evidência e verdade, uma falsa imagem do novo Papa. Bento XVI seria um eclesiástico duro, quase intratável. Quem o conhece, e a mídia italiana foi correta e profissional na informação que deu aos seus leitores, sabe que se trata de um homem cordial, aberto e de grande capacidade de diálogo.

Não obstante, como prefeito da Congregação da Defesa da Fé, cumpriu o seu dever: defender o núcleo fundamental da doutrina católica. Sem essa defesa, por óbvio, a Igreja perderia sua identidade. Aqui, no entanto, sucumbimos ao politicamente correto, prisioneiros de clichês que, há muito, deveriam ter sido banidos das redações: "conservador", "progressista" etc. Daí o descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. O papado deu um banho de vigor e vitalidade.

É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos arautos de ideologias anacrônicas. É preciso, sobretudo, enfrentar a batalha da isenção. Caso contrário, perderemos o apoio dos leitores mais qualificados. Só uma séria retomada na qualidade informativa garantirá a fidelidade dos antigos leitores e a conquista de novos. Precisamos mostrar, com fatos e com obras, que os jornais continuam sendo úteis, importantes, um guia insubstituível para a navegação na vida real.



BOLERO IMORTAL - Em 21/11/2019

Nos angustiantes momentos da escolha dos temas para a crônica semanal, tal a diversidade deles, fiquei entre escrever sobre a desastrada decisão do STF retomando entendimento de que réu só deve cumprir pena após esgotados os recursos, e a violência em Manaus, com homicídios e chacinas. Contudo, optei por um tema sentimental. Falar sobre uma música da compositora mexicana Consuelo Velásquez, autora do famoso e imortal bolero Besame Mucho, cujos acordes estão até hoje presentes para causar emoção em velhos e novos corações.

Minha geração foi embalada no romantismo despertado pela inolvidável canção. Durante os bailes sabáticos do antigo Diretório Central dos Estudantes (DCE), nos domingos de sol do Cheik Clube e Barés ou no baile domingueiro do mingau do Ideal Clube, nos deixávamos impregnar pela sedução despertada nos boleros e canções em voga naquele tempo. Recordo-me bem da vinda a Manaus do cantor Nelson Gonçalves, exibindo-se no acanhado auditório da antiga Rádio Rio Mar. Uma multidão de adolescentes, balzaquianas, tal como ainda hoje acontece com Roberto Carlos, espremia-se silenciosa, ouvindo o timbre maravilhoso do artista, em cujo repertório não faltava Besame Mucho e a excitante Naquela Mesa.

Ao citá-los, asseguro, estão todos os leitores daquela geração com sua musicalidade bailando dentro da lembrança.

Besame Mucho foi tema musical de um provável romance entre a ex ministra da Economia Zélia Cardoso e nosso Bernardo Cabral aquela época, Ministro da Justiça. É possível até mesmo ensaiar alguns passos de dança ao seu ritmo dolente. Quando ainda funcionava o Ideal Clube, frequentado por Benedito Lyra, Raimundo Cabral, e demais personagens da sociedade baré, outro cantor fazia grande sucesso: Pedro Vargas, cuja belíssima voz encantou gerações no mundo inteiro.

Por aqui passaram, cantando boleros, substituído, com outros estrangeiros, pela presença marcante de Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas e Orlando Silva, com suas canções sempre lembradas. Pouco a pouco, os cantores mexicanos foram cedendo espaço aos nacionais. Mas suas composições continuaram presentes em todos os repertórios.

Quando me recordo dos bailes destinados aos universitários nos salões do antigo DCE, as regras estabelecidas pela direção do diretório eram inflexíveis. Qualquer quebra do protocolo firmado era punida com a expulsão do salão. Nada havia em demasia. Se algum par se excedia no abraço com o rosto colado ou se aventurava a uma carícia mais ousada, lá estava o severo disciplinador, a convidar delicadamente os bailarinos a abandonarem a festa.

Como mudaram os tempos. Hoje, pares rodopiam separados em músicas destituídas de harmonia ou suavidade num tempo marcado pela mais intensa liberdade sexual. Já percebi, nas raras oportunidades em que compareço a festas, o efeito calmante e sedutor quando a música rock barulhenta e ritmada é substituída por boleros e sambas-canções. Há imediata adaptação dos pares na aproximação dos corpos, como se estivessem tangidos pela magia do prazer, que assim o diga Ambrósio Assayag, um pé de valsa como chamávamos antigamente.

Por todas essas recordações e lembranças, despertadas pela notícia de um baile dos Originais antigo Blue Birds, a preferência da crônica semanal. Se você é leitor pertencente àquela geração a que estou me referindo, deve ter penetrado imediatamente no mundo de suas saudades para reviver um curto e breve momento de emoção. Ao contrário, se você pertence a estas nova e novíssima gerações, pare um instante e busque ouvir em silêncio o imortal bolero Besame Mucho e vai sentir, como seus ancestrais viveram, instantes maravilhosos.

Afinal, no mundo apressado de hoje, pedir um beijo como na canção, como se fuera esta noche la ultima vez, equivale a sentir a eternidade do amor, jamais interrompida pela voragem do tempo e a crueldade dos homens. A morte de Consuelo Velásquez fez muitos recordarem o bolero imortal. Mas como dói essa saudade.



MENTIRA - Em 14 de novembro de 2019

Caros leitores, vivemos num país de mentiras onde uns fingem que governam, outros mentem quando dizem que não são fisiológicos, outros vivem o dia da mentira em seus negócios, no seu trabalho, passando sempre uma imagem quando a situação é completamente diferente. Nosso país começou sobre a égide da mentira, com a proclamação da independência por um português e não por um brasileiro. Brasília é o símbolo de um país de mentira. 

Os construtores de Brasília, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, eram inspirados numa corrente de arquitetura internacional, liderada por um belga, que acreditava que um projeto seria capaz de mudar a sociedade. Um exemplo disto era a máscara que tanto o Oscar quanto o Lúcio propunham ao Brasil: um país que tenha Brasília como capital nunca vai ser uma ditadura, e vejam 1964. 

Tudo, mas tudo mesmo na vida humana de hoje está impregnado de mentira. Regimes políticos e profissões, religiões e ciências, artes e literatura, crenças esotéricas e filosofias multifacetadas, nada pôde permanecer livre dela. Vivemos sob o império da mentira. É como se toda a Terra tivesse sido envolta por um único e denso lodaçal repugnante, que fez submergir sem resistência toda a raça humana juntamente com suas obras de que tanto se orgulha, impedindo qualquer um de chegar à tona por mais que se esforce, e muito menos ainda de voltar a ver com clareza e respirar ar puro. Mentem entre si diuturnamente pais e filhos, professores e alunos, patrões e empregados, governantes e governados. 

A mentira é o esteio da vida moderna, a base dos relacionamentos familiares, profissionais e públicos. Muitos dos mentirosos patológicos, não ficam contentes apenas em dizer mentiras. Eles vão um pouco mais além. Transformam suas vidas numa mentira. Em algumas situações, o indivíduo adota uma identidade completamente diferente daquela que realmente possui. Estamos vivenciando neste momento um ex presidente que de tanto mentir que é honesto, acredita piamente que é, quando se sabe que foi um dos arquitetos da grande roubalheira que se praticou nesse país. 

A mentira é como um arquétipo que baixa em todo canto. Imita-se aquilo que se é. Ao invés da verdade a sua versão. Em todos os escaninhos do cotidiano. Nas artes, por exemplo você liga a TV e Roberto Carlos, o cantor, faz um espetáculo - imita Roberto Carlos há 30 anos. Ele não é ele, ele é o que foi. Uma caricatura do que foi. Os mesmos cabelos, o mesmo figurino, as mesmas músicas, o mesmo jeito de pegar o microfone, de cantar, dizer obrigado, jogar flores. Pior, tenta mudar a história: corrige o herege do passado: não cantem mais essa música sacrílega, "que tudo mais vá pro inferno". Ele precisa mostrar que nunca foi um rebelde; e que é um homem santo, enquadrado, tão fiel à mulher que morreu quanto ao que ele foi. Mentira. E olhem que gosto muito do Roberto. Talvez o povo queira isso: esse show de mentiras. Esse espetáculo com canastrões em tudo que é canto. Inclusive, e principalmente, na política. Talvez goste de Rodrigo Maia, com seu ar de autoridade, seu jeito de autoridade, sua cara de gente de respeito anunciando os aumentos dos deputados - imitando ele próprio. Talvez o povo queira Lula porque ele imita um estadista, um cara de respeito, um sujeito que quando abre a boca só sai coisas que o povo entende - imita um Lula que não existe. Mais importante que o fato é a imagem.

A fome por celebridades - verdadeiras ou forjadas - é tanta que por qualquer coisa as pessoas ficam famosas. É só ver o caso de programas como Big Brother. Quando confinar um monte de gente numa casa e ficar filmando a vida deles vira notícia, a ponto de o canal de TV conseguir vender o programa para assinantes que querem acompanhar aquilo por 24 horas, é porque tem algo muito errado com os espectadores, ou seja, o gosto pela mentira. E o pior é que se você não vê o Big Brother e não acompanha a novela da Globo, acaba sem assunto nas reuniões sociais. Fica por fora. Esqueçam, este artigo é uma mentira.  


Luzes e sombras - Em 06/11/2019

Carlos Alberto Di Franco - Professor de ética da comunicação em São Paulo e representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil

Jovens de classe média e média alta têm frequentado o noticiário policial. Crimes, consumo e tráfico de drogas deixaram de ser uma marca registrada das favelas e da periferia das grandes cidades. O novo rosto do crime, perverso e surpreendente, transita nos bares badalados, estuda nos colégios da moda e vive em elegantes condomínios fechados.

O comportamento das gangues bem-nascidas, flagrado em inúmeras matérias, angustia o presente e ensombrece o futuro. O fenômeno, aparentemente incompreensível, é o reflexo lógico de uma montanha de equívocos. O novo mapa da delinquência não é fruto do acaso. É o resultado acabado da crise da família, da educação permissiva e do bombardeio de certa mídia que se empenha em apagar quaisquer vestígios de valores objetivos.

Os pais da geração transgressora têm grande parcela de culpa. Choram os delitos que prosperaram no terreno fertilizado pelo egoísmo e pela omissão. Compensam a ausência com valores materiais. O delito é, frequentemente, um grito de carência afetiva. Algumas teorias no campo da educação, cultivadas em escolas que renunciaram à missão de educar, estão apresentando seus resultados antissociais.

Uma legião de desajustados, crescida à sombra do dogma da educação não-traumatizante, está mostrando sua cara. A despersonalização da culpa e o anonimato da responsabilidade, características da psicologia acovardada, estão gerando mauricinhos do crime.O saldo da educação permissiva é uma geração desnorteada, desfibrada, incapacitada para assumir seu papel na comunidade. A formação do caráter, compatível com um ambiente de tolerância e autêntica liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. É a sístole e a diástole da história. A pena é que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio.

Alguns setores da mídia, sobretudo a televisão, estão na outra ponta do problema. O culto à violência e a apresentação de aberrações num clima de normalidade são um convite diário à transgressão. Algumas matérias de comportamento, carregadas de frivolidade, transmitem uma falsa visão da felicidade. Os conceitos de sacrifício e trabalho, pré-requisitos de uma vida digna, foram sendo substituídos pelo afã desmedido de dinheiro e pela glamourização da malandragem. O inchaço do ego e o emagrecimento da solidariedade estão na raiz de inúmeras patologias comportamentais.

O fecho destas considerações não é pessimista. Os problemas existem, mas não esgotam toda a realidade. Na verdade, outra juventude emerge dos escombros. Toda uma geração, perfilada em dados de várias pesquisas, está percorrendo um itinerário promissor. Notável é o entusiasmo dos adolescentes com inúmeras iniciativas no campo do voluntariado. O engajamento dos jovens na batalha da qualificação profissional é indiscutível.

Há, de fato, um Brasil real que está muito distante da imagem apregoada pelos pessimistas de sempre. Precisamos, não obstante a gravidade dos problemas, recuperar a auto-estima. A imprensa que denuncia cumpre um papel ético. Mas, ao mesmo tempo, não deve confundir independência com incapacidade de dar boas notícias. Nossa função não é anti-nada, mas a favor da informação verdadeira. Por isso, o texto que denuncia a cruel desenvoltura do banditismo bem-nascido é o mesmo que registra o outro lado: o da esperança iluminada.



Universidade Pública - Em 30/10/2019

O termo "universidade pública" comporta muitas realidades. Há nichos de alta competência, concentrados nos Estados mais importantes do País, ao lado de padrões deprimentes de ensino. Comecemos por uma distinção simples: entre as universidades públicas boas e as ruins e, dentro delas, os cursos precários e os que atingem níveis de excelência.

Não é difícil identificar um curso ou uma universidade ruim: seus professores não têm conhecimento do que deveriam ensinar; ou têm, mas o valor econômico e social desse conteúdo é nulo; ou não há didática e condições de ensino; ou tudo isso somado. Identificar uma boa universidade, um bom curso, é mais problemático.

No Brasil, o conceito de excelência no ensino superior está imbricado com um correlato seu: o de excelência em pesquisa. A experiência do aprendizado, inerente ao ensino, e a da descoberta, inerente à pesquisa, convivem na mesma esfera, a do conhecimento. Pesquisa e ensino são coisas correlatas, mas não idênticas. E, dentro de uma mesma instituição, podem tornar-se concorrentes, se o peso de cada uma não for devidamente calibrado.

É o que acontece em algumas das boas universidades públicas, em muitos de seus cursos comumente considerados os melhores. No mundo acadêmico brasileiro, a dedicação à pós-graduação, a participação em projetos de pesquisa, a publicação de artigos em periódicos estrangeiros e a frequência em congressos tendem a ser mais valorizadas do que a dedicação à graduação, à preparação de seminários consistentes e com a abrangência adequada - nem especializados demais nem amplos demais -, à relevância dos conteúdos para a formação dos profissionais e à didática.

A boa universidade pública está mais preocupada em formar bons pesquisadores do que bons profissionais, quando o País precisa de ambos. Teoricamente, não há conflito entre as atividades vinculadas à pós-graduação e à pesquisa, de um lado, e à graduação e ao ensino, de outro. Na prática, no entanto, o conflito é evidente, em termos de carga horária, de recursos, de motivação, enfim, da vocação de instituições que atingem ou buscam o que se considera no Brasil a excelência. A atividade-meio, a pesquisa, acaba prejudicando a atividade-fim, o ensino.

É em parte por causa da dedicação à pesquisa que a média de aulas dos professores das universidades federais é de apenas 10 horas por semana, quando dois terços deles são contratados em regime de dedicação exclusiva, com 40 horas semanais. Outra parte do tempo é consumida no planejamento e correção de trabalhos; nas atividades de extensão, que incluem as polêmicas consultorias privadas; e em outros afazeres que não têm nada a ver com a universidade.

Fica patente, no entanto, que a pesquisa drena tempo, energia e recursos além da conta e atrapalha mais do que ajuda em muitos casos. É desejável que os professores, tanto das áreas das ciências básicas quanto da tecnologia, mantenham contato com o mundo da pesquisa, desde que continuem sendo, essencialmente, professores.

O assunto é quase tabu porque a pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil está praticamente confinada à universidade. A iniciativa privada - sem incentivos do governo, asfixiada pelos juros e os impostos, e sem uma cultura de inovação tecnológica - contrata poucos cientistas e investe pouco em P&D no Brasil, em comparação com outros países "emergentes".

É hora, portanto, de as melhores universidades do País repensarem a correlação entre ensino e pesquisa. E de o País criar espaços para a pesquisa fora das universidades - seja em outras instituições públicas, a exemplo da Embrapa, seja criando condições para a iniciativa privada chamar para si a responsabilidade pela inovação


Briga despolitizada - Em 23/10/2019

As instituições democráticas não estão falidas, mas o não cumprimento da promessa de acabar com as oligarquias, pelo menos no Brasil, tem fomentado um custo social que é a despolitização da sociedade civil. De que adianta instituições democráticas fortes se, ao cabo de tanto esforço, o poder acaba sendo restituído às mesmas bases e fontes oligárquicas?

Só adianta para dizermos que é melhor a pior democracia que o melhor totalitarismo. Isso estamos presenciando agora com a briga dentro do partido do Presidente da Republica. É provável que a responsabilidade recaia sobre os partidos, uma vez que eles lucram com a estabilidade democrática, mas duvido que esse argumento seja de todo capaz de convencer a quem quer que seja.

Os partidos também nunca conseguiram cumprir a promessa de fiéis representantes de causas e programas de transformação da sociedade e não parecem estar comprometidos com a ampliação das instituições representativas. O que temos sempre entre nós, onde houver democracia ou não, é a predominância de personalidades autoritárias coordenando o cenário político e social em nome de uma percepção distinta da realidade. Nada disso parecendo verdadeiro, a ponto de haver uma insatisfação com personalidades, partidos e com o próprio sistema democrático, que passa a ser visto como parte sujeita a manobra pelo Estado e esse controlado pelas oligarquias.

Mesmo partidos que sempre existiram e sustentaram sua existência sob princípios sociais e econômicos em nome da representatividade coletiva se veem olhando para si e praticando, não apenas o culto à personalidade - como necessitam aqueles que se chamam de carismáticos -, mas o culto à personalidade autoritária - como precisam parecer aqueles que querem chegar ao poder executivo. Cultuar personalidades autoritárias, excludentes, é o inverso do que o sistema democrático prometia.

Assim, se a democracia não conseguiu acabar com as oligarquias, se os partidos não conseguiram representar as orientações e expectativas latentes na sociedade, se a sociedade civil não tem o poder de organização, legitimação e reticência ao Estado, se, no fim de todos os processos de escolha democrática, somos levados a decidir por personalidades autoritárias e atribuir a elas poderes divinos ou imperiais, se os próprios candidatos não se veem diferente disso, as promessas de um novo pacto social podem parecer mínimas e distantes.

É por isso que eu gosto da ideia de gestão participativa. Ela pode parecer nova e desajeitada, pode até parecer insignificante diante da necessidade dos técnicos estatais de justificarem a ciência nos assuntos públicos, mas é oxigênio nas instituições democráticas. Não vejo como o Brasil possa entrar numa década de resultados sociais se as instituições democráticas não se estenderem até o cidadão mais simples que nem se aceite ou se reconheça como cidadão.

Antes, precisamos dizer: chegar de marketing. A peleja no horário eleitoral sobre quem vai gerar mais empregos é um espetáculo de encenação desprezível que, tenho de reconhecer, vai dar para aquele que parecer mais convincente o cargo de mandatário. Todo cidadão sabe que políticos prometem. Todos votamos acreditando que a nossa preferência por esse e não por aquele se dá em função de sua capacidade de liderança e controle da situação e dos processos. Não votamos em um grande negociador ou articulador que seja parte de um plano de continuidade democrática portanto, com dias contados -, mas votamos em figuras que são vestidas como czares, imperadores, generais, os redentores.

Eu não sei se todos entre nós sabem, mas não há governo que não seja produtivista, que não prometa solucionar em pouco tempo todos os males e conflitos da sociedade. Quem votaria em gente que diz: vamos com calma, precisamos de tempo e precisamos de sua participação? A sociedade é algo que não para e tem sempre coisa por fazer. Não dá mais para pensar em Estado poderoso e empregos para todos, em soberanias nacionais prepotentes e fechadas, mas os discursos permanecem os mesmos de sempre e ainda há aqueles que querem deixar as necessidades sociais para uma década mais favorável, como se pudéssemos passar mais uma temporada sem alguma coisa de muito importante para todos nós.


O professor e a sociedade - Em 16/10/2019

Ontem foi o dia do Professor e em homenagem a este hoje ainda não valorizado profissional escrevo o presente artigo. Neste quase término de semestre, com os alunos (alguns) correndo para não ter a reprovação em seus históricos, vale a pena repensar o papel do professor em relação a sociedade. Muito se fala da sociedade, muito se publica sobre a escola e a saúde da educação.

Agora fala-se da saúde do professor. Realmente estamos todos muito doentes! Uma nova doença configurou-se nos últimos 7 anos e desastrosamente contagiou todo o magistério. Estamos terrivelmente infectados! A doença é transmitida através do ar; quimicamente pela falta de endorfinas, pelo contato diário da escola, do sistema, da sociedade e governos. Como éramos saudáveis! Cultivávamos flores e as colhíamos. Éramos acolhidos, respeitados, valorizados.

As sucessivas crises ambientais comprometeram o adubo gerando uma esterilidade aguda. Poucos frutos vingaram. Alguns estão em evidência no Congresso e governos. Outros frutos híbridos, como em toda colheita, também nos representam e tendem a renovar o ciclo estéril da terra. O nosso grande e mais ilustre sociólogo deveria ser o primeiro a defender esta boa terra, porém, o adubo usado por ele é extremamente poluidor. O resultado da colheita são frutos estéreis, insípidos e impróprios para o consumo.

Tal resultado compromete ainda mais profundamente a saúde da sociedade. Professores e sociedade necessitam de vacinas com dosagens periódicas e rigorosamente em dia, sendo, para o mestre, em caráter de urgência, pois o doente se encontra agonizante. É preciso salvaguardar a saúde do professor e consequentemente de toda a sociedade e das futuras gerações. Com essa vacina, o professor terá estímulo para o trabalho, autonomia, respeito e principalmente a valorização financeira e profissional contra a falácia do governo.

Há 7 anos estamos com o mesmo teor imunológico que está insuficiente para manter a dignidade da categoria e a recomposição de suas perdas. A outra vacina é destinada à sociedade e, de maneira mais específica, à família, tornando-a saudável, com estabilidade financeira, educacional, física e mental. O objetivo é imunizar a massa social contra os engodos do governo, ou seja, os insignificantes salário mínimo, cesta básica, as miseráveis bolsa-escola, o vale-alimentação, o vale-transporte.

Quem sabe esta vacina livrará a massa desse vale de lágrimas, propiciando-lhe um salário digno, para que esta mesma massa não compareça mais às filas da mendicância?do vale para tudo , uma das moedas correntes (dólar, real, vale-transporte, vale-refeição ). Quanta tristeza ao ver a propaganda do governo referente à educação! Mostra uma quimera.

Enquanto isso, outros países exibem a nossa verdadeira realidade. Em projetos e em propagandas governamentais tudo acontece. Mas nada disso entra na sala de aula. Os vultosos gastos acontecem fora dali. O resultado dessa política é professor e sociedade pobres e doentes, ensino medíocre, decadência cultural, partidos sem ideário, Nação sem projeto.


A senha da corrupção - Em 09/10/2019

Um verbo trivial, quase doméstico, uma palavrinha sem importância usada nas situações mais prosaicas, acaba de se transformar na senha da corrupção nas eleições parlamentares mais corrompidas dos últimos anos. Os diálogos gravitavam inevitavelmente em torno do verbo "fechar". O candidato tal "fechou" com o prefeito da cidade de Manacapuru. Como? Pergunta o interlocutor incrédulo, se o candidato é de um partido e o prefeito é adversário da agremiação em seu município. Qual nada, responde o outro, entrou dinheiro grosso na combinação.

Mais adiante, é o vereador mais votado do município de Santa Isabel do Rio Negro que "fechou" com outro candidato. Dizem as más e as boas línguas que ele recebeu 80 mil para apoiar. Em verdade, por onde se andava no Amazonas e, provavelmente, por todo esse imenso Brasil democrático, foi o que mais se viu e o que mais se ouviu. Todos "fechados" com todos na aposta de quem iria receber mais em troca dos sufrágios dos eleitores. O resultado, com raras exceções, apontou de que lado estava a pecúnia mais farta e abundante.

Nas últimas eleições os "Tião Medonho", acostumados a não ser incomodados em outros pleitos ou punidos pelos excessos praticados, voltaram com renovada disposição para "fechar" acordos espúrios e criminosos em todos os municípios, distritos, povoados ou comunidades. Há reclamação geral entre os políticos desafortunados nas urnas, e mesmo entre os vitoriosos, todos preocupados com o rumo tomado pela deslavada corrupção, cuja senha foi o verbo "fechar".

O velho combatente Ulysses Guimarães, dizia que "a corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção tomba nas mãos dos demagogos que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam". O mais grave nesse melancólico episódio, em que se misturam o silêncio conivente dos plutocratas e a falta de coragem dos democratas para mudar, é que, via de regra e em sua maior parte, o dinheiro utilizado nas campanhas políticas é de fonte não identificada. Sem eufemismo, é dinheiro sujo, roubado dos cofres públicos para manter no poder uma elite descompromissada com o povo.

Todos cantam as vantagens do sistema de voto distrital misto, mas ninguém ousa implantá-lo por receio de perder as chances de estender as asas da corrupção por toda a circunscrição eleitoral. É unânime o desejo de impor aos políticos a fidelidade partidária, com que será posto termo aos chamados "partidos ônibus", em que se entra e desce quando o passageiro deseja. Onde a determinação de impedir essa vergonhosa desfiguração do partido, principal instrumento da vida democrática?

Há esperanças na crescente vigilância da opinião pública começando a atingir os grotões. A prova exuberante foi a expulsão de deputados comprometidos com o escândalo dos salários. É necessário avançar mais. O Brasil não pode prosseguir tendo sobre a cabeça o anátema lançado por Bernanos, de que aqui o "único fundamento do poder é a ilusão dos miseráveis".


Fingimento - Em 02/10/2019

A visão que o público tem da realidade do mundo depende do que lhe chega pela mídia. Conforme a seleção das notícias, tal será o critério popular para distinguir o real do ilusório, o provável do improvável, o verossímil do inverossímil. Goethe foi um dos primeiros a assinalar um dos efeitos mais característicos da ascensão da mídia moderna. Dizia ele: "Assim como em Roma, além dos romanos, há uma outra população de estátuas, assim também existe, ao lado do mundo real, um outro mundo feito de alucinações, quase mais poderoso, no qual está vivendo a maioria das pessoas."

Não há dúvida de que o próprio progresso da mídia, estimulando a variedade de pontos de vista, neutraliza em parte esse efeito, mas volta e meia ele aparece de novo, nas periódicas retomadas dos meios de comunicação por grupos ideologicamente orientados, que impõem sua própria fantasia gremial como a única realidade publicamente admitida. O controle da mídia por uma classe ideologicamente homogênea leva inevitavelmente a opinião popular a viver num mundo falso e a rejeitar como loucura qualquer informação que não combine com o estreito padrão de verossimilhança aprovado pelos detentores do microfone.

Quem são esses detentores? Os jornalistas de esquerda continuam se fazendo de coitadinhos oprimidos pelas empresas jornalísticas. Mas o fato é que hoje nenhuma empresa jornalística, do Brasil, dos EUA ou da Europa, se aventura a tentar controlar o esquerdismo desvairado que impera nas redações. A "ocupação de espaços" pela militância esquerdista cresceu junto com o poder da própria classe jornalística, e hoje ambas, fundidas numa unidade indissolúvel, exercem sobre a opinião pública uma tirania mental que só meia dúzia de inconformados ousa desafiar.

Quando esse estado de coisas dura por tempo suficiente, mesmo aqueles que o criaram já não se lembram mais de que é um produto artificial: vivem no mundo ficcional que criaram e adaptam para as dimensões dele todas as distinções entre realidade e fantasia, tornadas por sua vez pura fantasia. Assim, pois, todos já se esqueceram de que o PT e o PSDB foram essencialmente criações de um mesmo grupo de intelectuais esquerdistas empenhados em aplicar no Brasil o que Lenin chamava "estratégia das tesouras": a partilha do espaço político entre dois partidos de esquerda, um moderado, outro radical, de modo a eliminar toda resistência conservadora ao avanço da hegemonia esquerdista e a desviar para a esquerda o quadro inteiro das possibilidades em disputa.

Tendo-se esquecido disso, interpretam o predomínio temporário da esquerda moderada, que eles próprios instauraram para fins de transição, como um efetivo império do "conservadorismo", e então se sentem - sinceramente - oprimidos e jogados para escanteio no momento mesmo em que sua estratégia triunfa por completo. Ora, chamar de direitista um governo que dissemina a pregação marxista nas escolas, que premia como heróis nacionais os terroristas pró-Cuba da década de 70 e que respalda com verbas milionárias a agitação armada do MST é, evidentemente, alucinação, mas essa alucinação tornou-se o único critério vigente de realidade, impossibilitando a percepção de tudo o mais.

A única coisa que poderia efetivamente distinguir entre a esquerda moderada no governo e a esquerda radical na oposição seria, teoricamente, sua leve diferença no que concerne à política econômica. Mas mesmo essa diferença já está virtualmente anulada pela promessa de Bolsonaro cumprir os compromissos da Nação. A negação obstinada da identidade essencial entre governo bolsonarista e oposição petista só tem, portanto, um fundamento: o desejo de ampliar mais ainda a hegemonia esquerdista, desejo que determinou, na origem, a criação de um e da outra.

O crescimento global da esquerda alimenta-se assim da sua própria negação histérica pela ala radical, complementada dialeticamente pela sua camuflagem "neoliberal". Daí a farsa grotesca da presente eleição.Que sanidade, que instinto da realidade pode sobreviver a um tão completo e perfeito império do fingimento? Na sua corrida para o poder ilimitado, a voracidade esquerdista não se inibe de destruir, de passagem, a alma e a consciência de todo um povo.


Senha para o amor - Em 18/09/2019

José Pereira era funcionário público no interior, mas precisamente em Nova Olinda do Norte. Temperamento alegre e extrovertido, mas pirracento quando se tratava de política, pensava como o personagem de Machado de Assis que a "vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria". Levava a maioria das situações na troça e fazia delas motivo para rir a bandeiras despregadas quando ele mesmo relatava a maioria dos casos em que se envolveu. Casou-se com Jaqueline, uma bonita professora da cidade, donzela recatada, portadora de virtudes e candidez das matronas do conservador mundo interior do Amazonas.

Nos primeiros anos o casamento transcorreu sem maiores incidentes, não obstante Jack assim era chamada Jaqueline na intimidade adverti-lo quanto aos desvios de conduta, prevenindo-o dos riscos em que incorreria e do inconveniente desconforto a que seria submetida pelo palavrório da vizinhança e das colegas da escola onde lecionava. O temperamento costuma ser uma cruz que cada um carrega. Umas mais leves, outras mais pesadas. A cruz de Zé Pereira era mista, conquanto a suportasse somente em assuntos leves. Melhor dizendo, levianos.

Não resistiu aos encantos de Joana, empregada que servia em sua residência, e dos primeiros e distraídos esbarrões para sentir a turgidez de seus seios passou aos discretos beliscões até a bem urdida situação para o ato final da sedução. Teve êxito nas primeiras aventuras até o dia em que Jack, terminadas as aulas mais cedo do que o habitual, regressa à casa e o apanha em plena libidinagem com a serviçal.

Cada leitor será capaz de imaginar o que aconteceu no instante do flagrante e o sucedido após. A rigorosa Jaqueline puniu o transgressor com infindáveis períodos de silêncio e abstinência sexual, jamais permitindo pudesse ele tocá-la ou sequer dirigir-lhe a palavra. Em estado de total beligerância decidiu separar seu gineceu para evitar qualquer contato com o mandrião, instalando um tapume que a protegia do perigo de contatos mais íntimos se tangidos ambos pela irrefreável força da natureza.

Ocorre que o amor tem segredos irrevelados. É uma espécie de divindade a quem todos gostariam de prestar permanente reverência, às vezes contentamento descontente, não raro ferida que dói sem doer, enfim, sentimento poderoso capaz de realizar os mais prodigiosos milagres. E tanto para José Pereira quanto para Jaqueline o reduzido universo interiorano lhes não permitia incursões heterodoxas. A ela, em especial.

Ambos foram, pouco a pouco, sendo vencidos por Afrodite, mesmo afastados pela inconformidade e inflexível resistência de Jack ao ato desassisado do marido. Nosso herói cansado das noites indormidas pela lembrança do corpo jovem e esbelto da esposa a balouçar em seus pensamentos e agitar sua mente, resolve apanhar seu chinelo, atirando-o por sobre o tapume ao leito de Jack. Deu-se o milagre. Jaqueline apanha o seu e o lança em direção contrária.

Foi a senha ansiosamente esperada para o reencontro, vivido na sofreguidão dos beijos e dos abraços saudosos. Continuaram não se falando. Muitas vezes depois os dois chinelos, a senha para amar, cruzaram no ar.


A universidade e a ética - Em 11/09/2019

Alguns alunos e amigos já me perguntaram: O que é a Universidade? Respondo sempre que a universidade é a cabeça da nação, é o seu cérebro, é a sua oficina pensante, é a responsável pelo seu progresso, em suma geradora de líderes tanto na área pública como na privada. É a formadora de futuros governantes, legisladores, juristas, industriais, comerciantes, profissionais liberais etc. Pelo lançamento destes na vida social ela, a universidade, não deixa de ter certa responsabilidade tanto na geração de líderes honrados como corrupto.

A formação final destas pessoas começa com o seu ingresso na universidade, pois antes elas tiveram a orientação escolar e familiar mas somente ao entrar na universidade elas terão que optar pela sua profissão. Geralmente, a que lhe propiciar melhor rendimento pecuniário, sem atentar pela sua real vocação que no final das contas lhe renderá também bons rendimentos mas dependerão naturalmente da sua qualidade de serviço. Dos primeiros advém a falta de respeito pelos contribuintes e pelos clientes, na área pública e privada respectivamente. Começamos então a perceber a grande lacuna na ética e na moral dos cidadãos que nos lideram, nas duas áreas, ressalvadas algumas exceções, mas cada vez mais escassas.

A nação assiste estarrecida diante da corrupção generalizada. Onde se originou tanta falta de respeito pelo bem alheio? Na família, na escola primária? Até pode ser, mas onde a cidadã ou o cidadão recebem orientação e resolvem seguir seus caminhos é na universidade. Jovens ainda, ali eles são forjados, cheios de esperanças no futuro, recebem ávidos os ensinamentos básicos de seus mestres para tomar as rédeas da sociedade. Assim, a universidade é responsável pela formação de cidadãos honrados, respeitados, verdadeiros, líderes de grande moral, tomados como verdadeiros arquétipos da cidadania, dignos de serem seguidos.

Não é menos responsável a universidade por lançar na sociedade cidadãos de fácil envolvimento, atraídos pela corrupção desenfreada, surgem os ladrões, mentirosos de alta estirpe, formadores de quadrilhas, vampiros do erário público, modernos gângsteres, enfim pessoas sem caráter e sem a mínima piedade para com os demais, surripiando-lhes as suas esperanças e seus parcos rendimentos. Já não bastam os pobres e marginais deste país e agora já surgem outras castas menos favorecidas emergidas dos efeitos da corrupção, tais como os excluídos e os desvalidos, vítimas incontestes desta maldita máfia que se formou nos altos escalões da república assim compreendido, a União, os Estados e os municípios, inclusive as estatais e na área privada os grandes conglomerados.

Como poderemos pedir a estes menos favorecidos que se comportem como cidadãos dignos, honrados e respeitadores se seus chefes e seus patrões assim não se conduzem? Urge que as cadeiras de ética e moral tenham suas cargas horárias aumentadas significativamente e sua didática revista nas universidades, pois só assim poderemos esperar dias melhores para esta nação. O Ministério da Educação, o corpo docente e discente das universidades, inclusive os centros acadêmicos, deveriam estabelecer profundos debates a respeito, procurando o melhor caminho para que a sociedade brasileira sinta que os futuros formandos serão cidadãos bem-intencionados e não uma nova turma de ameaça à sociedade. Se o grupo de jovens universitários é imbuído de se comportar na vida futura como cidadãos de respeito como tal, germina aí uma certa fiscalização solidária não só durante a vida universitária como também como colegas no exercício de suas futuras profissões. O repto oferecido é contundente, mas não no sentido de penalizar e sim de conscientizar.


Questão ambiental - Em 04/09/2019

A comoção mundial provocada pela ocorrência de incêndios florestais na Amazônia, tem provocado uma avalanche de mensagens sobre a destruição de aéreas verdes e de animais afetados pelo fogo nas redes sociais. A discussão sobre a questão ambiental já não se mostra como uma novidade. Está incorporada aos currículos, às ações de ONGs, está presente nos noticiários... mas aparece, na maioria das vezes, como uma proposta "tradicional", isto é, enfocando apenas as causas ambientais e propondo apenas mudanças culturais.

Precisamos hoje, de uma Educação Ambiental crítica que busque além das raízes, causas e mudanças culturais. A Educação Ambiental hoje deve discutir "ambiente x relações produtivas e mercantis", buscando a transformação social. Sociedade e cultura não podem se opor à natureza mas, enquanto o homem permanecer como detentor dos direitos sobre os recurso naturais, desmatando, contaminando o ambiente com chumbo, os rios com mercúrio e esgotos, não teremos solução para os problemas ambientais.

As raízes da questão ambiental estão longínquas, podemos quiçá relacioná-las com a descoberta do fogo: quando o homem fez sua primeira fogueira estava praticando, seguramente, seu primeiro ato de agressão ao meio ambiente. Mas as causas da crise ambiental tal como ela hoje se apresentam são mais recentes e estão associadas ao ganho de capital, infelizmente ganho de muito poucos em detrimento de uma maioria que de todo o processo só usufrui fumaça, mau cheiro e doenças resultantes da poluição da água, do ar e do solo.

Os segmentos mais marginalizados da sociedade - os trabalhadores pobres, as populações indígenas e negras - são os mais afetados pela crise ambiental, basta observar que lixões e aterros estão sempre próximos às comunidades pobres. O individualismo de uns poucos que se beneficiam da modernidade deve ser substituído pelo coletivismo em prol da natureza. A questão que se coloca então é: como pensar no coletivo sem deixar de "ganhar capital"?

A geração de riquezas a partir dos recursos naturais não passa pela luta pelo equilíbrio social e se torna um risco ecológico principalmente para aqueles que vivem à margem dos benefícios, quer em termos locais como globais, repetindo a histórica divisão entre os que podem e os que não podem, entre os que têm e os que não têm. A natureza, sem a interferência do homem, se mostra equilibrada e assim também deveria se mostrar a sociedade que dela usufrui.

O direito de poluir na maioria das vezes está longe do dever de restaurar o dano causado e resulta que, para benefício de uma minoria, nosso ar, nossos alimentos, nossa água, estão envenenados. Não é de hoje que a matéria está presente nos currículos, mas, os educadores estarão promovendo uma Educação Ambiental que busque uma sociedade ecologicamente sustentável e socialmente justa?

Embora sem dados estatísticos concretos, o que se observa é que a Educação Ambiental ainda enfoca mais a natureza e menos a sociedade, dificultando a percepção de que muitos danos e riscos ambientais estão relacionados também à injustiça social. Desde a ECO-92, o movimento ambiental brasileiro, através de diversas ONGs, tem discutido com diversos segmentos da sociedade temas que envolvem justiça ambiental e social, mas a Educação Ambiental necessita ainda da implementação de uma política pública coerente, "crítica" e "transformadora".


O cafona - Em 28/08/2019

Uso meu espaço de hoje para fazer o que nunca fiz, publicar um artigo in memoriam de Fernanda Young, como memória póstuma.

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de que? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos - a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é Ok, Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas. O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e a brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara. O cafona quer ser autoridade para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo o que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.
Qualquer semelhança com pessoas não é mera coincidência.


Autoritarismo - Em 21/08/2019

Caros leitores, confesso que o sonho de construir uma nova nação com promessas de ressurreição dos pobres e oprimidos, acabou virando um pesadelo. O PT tinha um programa, trabalhado mais de 20 anos, e acabou chegando ao poder, em janeiro de 2003, depois de consagradora vitória nas urnas. O forte apelo de um ex-operário se eleger presidente da República de uma das 15 maiores potências do mundo, em termos de Produto Interno Bruto (PIB), encheu o povo de esperança. Com sua legenda de pureza e respeito àética na política, o governo do PT acabou sufocado por mais um poderoso surto de corrupção, propinas e atos agressivos à moral administrativa.

Primeiro, foram os misteriosos assassinatos dos prefeitos Toninho do PT (Campinas) e Celso Daniel (Santo André), este economista e um dos principais coordenadores da campanha do candidato petista, seguidos, já no governo, do escândalo que envolveu Waldomiro Diniz, assessor do ministro José Dirceu, e pelas denúncias sobre o suposto pagamento do mensalão a parlamentares, para apoiarem projetos do governo e propinas nos Correios e no Instituto Brasileiro de Resseguros (IRB).

Mas depois disso veio a desastrada Dilma, depois colocada pra fora, ficou Temer que também navegava nas mesmas ondas da corrupção. Nossas decepções estão na ordem do dia, algumas de fundo tão parecido com a utopia de oceana que é, de 1656.

É sempre sábio começar pelos clássicos, atentando para o que eles conceberam, escapando das "soluções" meio impensadas dos nossos contemporâneos, às vezes muito tingidas pelas colorações das mesquinharias pouco distanciadas do presente. Perdidos, podemos encontrar e nos encontrar achados nas sugestões destes clássicos que deveriam fazer parte da nossa educação e da nossa cultura humanística.

Nosso Presidente atual, não tem um mínimo de consciência de gestão, e mais o que é ser um Presidente da República. São bobagens em cima de bobagens, quebra de hierarquia, intromissão em assuntos pequenos, quando o Brasil precisa de um gestor que tenha uma visão holística. Na verdade, O campo dos estudos políticos e sociais não existe sem dissonância. Os conceitos que se empregam para interpretar a sociedade, a organização política e os fatos culturais, por serem históricos, são muitas vezes fluídos e fugazes. Costumam pregar peças em autores, leitores e atores.

Pode-se lembrar o que se passa com a palavra democracia. Hoje em dia, não há quem não se diga democrata. Perdemos horas preciosas, em numerosas reuniões, para estabelecer o sentido exato da expressão, que muitas vezes só ganha clareza quando devidamente adjetivada, como se não fosse possível qualquer concordância quanto à substância. Outras vezes, só sabemos do que se trata por oposição à ditadura ou autoritarismo, ou seja, não pelo que a democracia é, mas sim pelo que não é.

Ocorre algo idêntico com o termo liberdade. Consta que Abraham Lincoln afirmou, certa vez, que "nunca se consegue dar uma boa definição para esta palavra. Todos estamos decididamente a favor da liberdade, mas nem sempre pensamos o mesmo quando a palavra sai de nossos lábios". Antes dele, muitos outros já haviam tropeçado no problema.

Inúmeros conceitos da teoria social contemporânea geram controvérsias constantes. Um deles é o de hegemonia. Trata-se de um conceito empregado basicamente para caracterizar a capacidade que um grupo tem de dirigir eticamente e estabelecer um novo campo de liderança. Mas, como a palavra tem uma origem militar, muitos a aproximam da ideia de monopólio ou uso intensivo do poder, quer dizer, veem-na muito mais como sinônimo de força, autoridade, imposição.

O conceito de consenso sofre algo parecido: elaborado para qualificar uma articulação pluralista de ideias e valores, uma unidade na diversidade, acaba sendo reduzido à ausência de dissenso e divergência, uma situação mais de silêncio passivo e unanimidade que de ruído e multiplicidade. Manuseado com este registro, o conceito de consenso perde operacionalidade e se torna um jargão sem maior utilidade. Quando muito, vale para que se demarque uma ou outra posição em termos políticos mais imediatos.

Ocorre algo ainda pior com o conceito de sociedade civil. Ao se disseminar largamente, colando-se ao senso comum, ao imaginário e ao discurso político das sociedades contemporâneas, o conceito perdeu precisão: empregam-no tanto a esquerda histórica quanto as novas esquerdas, tanto o centro liberal quanto a direita fascista. Os vários interlocutores referem-se a coisas distintas, mas empregam a mesma palavra. Inevitável que a confusão prevaleça. A sociedade civil serve para que se faça oposição ao capitalismo e para que se delineiem estratégias de convivência com o mercado, para que se proponham programas democráticos radicais e para que se legitimem propostas de reforma gerencial no campo das políticas públicas. Busca-se apoio na ideia tanto para projetar um Estado efetivamente democrático quanto para se atacar todo e qualquer Estado. É em seu nome que se combate o neoliberalismo e se busca delinear uma estratégia em favor de uma outra globalização, mas é também com base nela que se faz o elogio da atual fase histórica e se minimizam os efeitos das políticas neoliberais.

O apelo ao conceito serve tanto para que se defenda a autonomia dos cidadãos quanto para que se justifiquem programas de ajuste fiscal e desestatização, nos quais a sociedade civil é chamada para compartilhar encargos até então eminentemente estatais. A incorporação da ideia de participação à linguagem do planejamento fez com que a sociedade civil se deslocasse de seu campo principal (o da organização de novas hegemonias) e se convertesse num espaço de cooperação e gestão da crise.

O problema extravasa os ambientes acadêmicos ou jornalísticos. Costumamos assistir a arengas intermináveis ou a embates políticos acalorados que são, no fundo, desentendimentos por falta de clareza conceitual. Atritos onde as falas se opõem e geram animosidades absurdas não porque os interlocutores estejam em campos políticos ou ideológicos distintos, mas porque não estabelecem com rigor os termos com que estão lidando ou em torno dos quais divergem. Com isto, os pequenos interesses se impõem, os gestos e as intenções deixam de contar, a política com P maiúsculo se ausenta. Trata-se de algo em boa medida inevitável. Seus efeitos, porém, podem ser atenuados. Para tanto, além de empenho intelectual, fazem-se necessárias uma boa dose de honestidade, polidez e caráter, bem como uma sincera disposição para o entendimento. Coisas, em suma, que não se acha com facilidade. No presente momento, nada temos que possa caracterizar democracia, mas sim um autoritarismo desmedido e ilógico.


Desemprego e insegurança - Em 14/08/2019

O desemprego afeta a muitos. A insegurança afeta a todos. Na realidade amazonense, mas sobretudo manauara, viver deixou de ser muito perigoso, como assegurava quanto aos sertões Riobaldo, o Tatarana, de Guimarães Rosa. Tornou-se lotérico. Não é preciso sair às ruas: as balas entram pelas janelas. E é impossível saber se vêm de armas de marginais ou da polícia. Também não se sabe se é mais perigoso a polícia ficar guardada na segurança dos quartéis ou sair para a insegurança das ruas. Os próprios delegados de polícia estão inseguros em suas delegacias.

As rebeliões em presídios e retiros de menores fazem parte da rotina cotidiana. Chegam a bi ou tricotidianas, como no caso da Anísio Jobim. Nos anos 30 de Chicago o estardalhaço era maior. Mais pitoresco. Porém menos mortífero para o cidadão comum, a dona de casa, a professora, os alunos das escolas. Sem chegar aos níveis manauaras, há alguns anos Nova York também apresentava índices inaceitáveis de insegurança.

Não pretendemos propor nenhuma reforma ou medida das inúmeras que os especialistas conhecem melhor do que nós. O que estamos enxergando é um enorme espaço político desperdiçado; o vazio da Segurança Pública. É duvidoso que um de 10, 20 ou até 30 cidadãos-eleitores da cidade saiba quem é o secretário da Segurança ou de qualquer outra alta autoridade responsável. Portanto, aí está uma vaga que preenchida por alguém que devolva a segurança à população certamente se tornará um dos nomes mais populares da cidade, o que pode significar uma candidatura imbatível para as próximas eleições. Nesse mesmo espaço, o da segurança, existem outras vagas a serem preenchidas, com semelhante potencial de retorno eleitoral.

Haverá alguém em Nova York que ignore o nome do seu chefe de polícia? Até as eleições há tempo de sobra para tomar medidas que garantam este retorno. Não será necessário investir somas fabulosas em jingles na mídia. Nem gastar com marqueteiros eleitorais. A mídia fará de graça o renome dos que devolverem a garantia de vida aos eleitores amazonenses.

O que se diz a respeito da segurança pode-se repetir a propósito do problema do desemprego. Estamos fartos de assistir a programas de partidos políticos explorando o desemprego e debitando sua existência a outros políticos. Não precisamos que político nenhum nos fale do que esse problema significa. Nem o desempregado tira benefício algum de ter sua dificuldade exposta pela tevê. Não consta que paguem cachê para exibi-la.

O que não vemos é ninguém fazer nada pelo emprego. Não nas dimensões que o problema exige e comporta. Recentemente o governo do Estado anunciou um programa para atacar o problema. O noticiário e as filas superaram o esforço. O governo dedicava ao problema do desemprego 0,4% de seu orçamento e a grande ideia que encontrara fora a das frentes de trabalho usadas há decênios nos Estados mais miseráveis da Federação.

Há sem dúvida um número incontável de organizações oficiais dedicadas a atacar o problema do desemprego, gastando certamente milhões e empregando dezenas ou centenas de tecnoburocratas bem remunerados. Seria muito interessante saber quantos empregos estão gerando e quanto custa a geração de cada um. Massa não inferior de repartições deve existir para auxiliar e promover a criação de médias, pequenas e microempresas. Seria muito curioso, também, conhecer seus índices de custo/benefício e as verbas que gastam em auto mordomias e autopromoção. Também aqui, no problema do emprego, há um imenso espaço vazio que não pode ser preenchido com discursos políticos nem com jingles de publicidade. Um vazio político-eleitoral formidável, capaz de eleger quantas figuras metessem a mão na massa com a criatividade que os recursos modernos proporcionam e com a seriedade e coragem que o problema exige. Mas a vontade de assumir e resolver problemas exige vocação de liderança. E ela não se fabrica mercadologicamente e pouco tem a ver com campanhas eleitorais e fúteis ambições de poder.



Pai - Em 07/08/2019

Mais uma vez o Dia dos Pais, e como sempre faço algum escrito para essa data tão importante embora todo dia seja o dia dos pais. Perdi meu pai, já se passaram 43 anos, e faço como pai e avô uma reflexão de todos estes anos de convivência, ensinamentos e aprendizado; e de esperança em construir um alicerce seguro que possa suportar para sempre, em qualquer época, os solavancos desta vida, para que sejam sólidos de educação, caráter, dignidade, honra, respeito ao próximo e religiosidade. Deste modo, quantas vezes gostaria de ser melhor para vocês e simplesmente não consigo. Por ignorância ou, quem sabe, por temor à incerteza, não questionamos nossos conceitos, ao contrário, tendemos a continuar acreditando no que cremos.

Com relação à questão dos papéis masculino e feminino, parece haver uma recusa das instituições - que nas suas ações manifestam o pensamento da sociedade - em perceber que a imagem de gênero, assim como a de muitas outras, é constituída sobre uma pequena seleção de fatos verdadeiros e falsos, que se expandem com grandeza desmesurada e formam uma estampa que não corresponde à humanidade da mulher e do homem. Explica-se, desta forma, o fato corriqueiro nas situações de separação e divórcio: na imensa maioria dos casos, é dada à mulher, por uma questão de gênero, a guarda dos filhos. Os homens, mesmo que aptos e desejosos de manterem os filhos consigo, também por uma questão do gênero, têm negado este direito que, em tese, lhes é assegurado.

Mas sobre os filhos lembro quantas vezes permaneci acordado até tarde da noite à espera de febre baixar, ou do telefone tocar avisando que a festinha ou o show terminou. Quantas vezes dilacero meu coração ao vê-los chorando por algo que não pude dar, mas aproveito para alertá-los de que na vida nem tudo que se quer se pode ter. Quantas vezes sofro com vocês, quando em alguma esquina da vida trombam de frente com uma decepção ou desilusão. Quantas vezes sou chato por orientá-los insistentemente sobre uma conduta saudável e responsável, ou tento avisá-los de situações de risco, como se pudesse evitar que aprendam doloridamente com os próprios erros. Quantas vezes fui e sou superprotetor, na ilusão de que poderei poupá-los de trafegarem por estradas mal sinalizadas, esburacadas, escorregadias e com curvas perigosas, na inocente pretensão de protegê-los da vida. Quantas vezes, nas dificuldades da vida, deparo-me com situações onde é preciso tomar decisões, e rejeito enveredar pelo caminho mais fácil e lucrativo que põe em prova a integridade de meu caráter, a minha dignidade e honestidade, para assim, reencontrar com vocês com a cabeça erguida, e deste modo olhar fundo nos seus olhos, sem a cortina da vergonha e da culpa a nos separar. Quantas vezes preciso ser firme e colocar limites nestas vidinhas, para ensiná-los que o mundo é infinitamente maior que nosso lar, e que vocês têm que aprender a viver em coletividade, respeitando o próximo e sabendo que não são seus todos os doces da bonboniere. Quantas vezes no ímpeto de protegê-los tomo para mim o leme desta embarcação e passo para vocês a imagem de herói, de que sou o maior, o único que pode mantê-los em segurança; perdendo a oportunidade de ensiná-los que somente em Deus encontraremos infalibilidade, segurança, proteção e forças para resistir. Somente n'Ele que é Pai dos pais, das mães, dos filhos e de toda a humanidade. Quantas vezes poderia ter feito mais! Ter sido mais amigo, entusiasta, confidente, companheiro, cúmplice, disciplinador, participativo, compreensivo. Não importa a idade de nossos filhos, ainda é tempo de recomeçar, arregacemos as mangas e mãos-à-obra.

Sinto-me orgulhoso meus filhos, por ser pai de vocês. E aos meus netos como sinto que também sou pai deles, curti desde o nascimento, até a idade de hoje de 10 anos, sendo um avô que não dispensa falar de sacanagens, mas que adora quando é beijado e abraçado, sentindo-me importante por ser pai do pai deles.

Fernando Pessoa, em O Eu Profundo e Outros Eus, mobiliza nossos sentimentos de compaixão por todos os filhos sem pai e especialmente pelo pequeno Jesus, quando diz: "Nem sequer o deixaram ter pai e mãe como as outras crianças; seu pai era duas pessoas: um velho chamado José, que era carpinteiro e não era pai dele; o outro era uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo porque não era do mundo, nem era pomba..."

FELIZ DIA DOS PAIS.


Agosto - Em 31/07/2019

Agosto, mês do Dia dos Pais, mês de aniversário de meu irmão Lélio, mês que traz para alguns muita alegria e felicidade, mas no jargão popular, agosto é o mês do desgosto - Claro que isso são superstições, mas resolvi escrever sobre o que dizem sobre este oitavo mês do ano. Nos países latinos é o mês das desgraças e das infelicidades.

Agosto, desgosto. Pereira da Costa (Folclore Pernambucano, 116): "agosto é um mês aziago, é um mês de desgostos; e é de mau agouro para casamentos, mudanças de casa e empreendimentos de qualquer negócio de importância". Rafael Jijena Sanchez anota, nas tradições orais argentinas "No lavarse la cabeza en el mes de agosto porque se llama la muerte" (Las Supersticiones, 142, Buenos Aires, 1939).Leonardo Mota (Violeiros do Norte, São Paulo, 1925, 221-222): "Agosto é o mês desmancha-prazeres da humanidade.

A sua primeira segunda-feira é o famigerado dia aziago do ano inteiro. A maior hecatombe dos tempos modernos, essa pavorosa conflagração europeia, que ainda convulsiona vários povos, rebentou precisamente a 1º de agosto de 1914, o que fez com que a musa traquinas dos Pingos e Respingos do Correio da Manhã, do Rio, divulgasse a canção que se popularizou na música da modinha Santos Dumont e começava: Mês terrível, funesto mês de agosto. Mês de desgostos, mês trágico e fatal: Soou pelo espaço o tom de guerra, Corre na terra sangue em caudal! Pobre mês dos lindos luares sugestivos!

O Livro da Bruxa dá-lhe, não um, mas vinte e três dias encaiporados..."O dia mais aziago do ano é 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, quando o diabo se solta do inferno. Pereira da Costa (Folclore Pernambucano): "O diabo aparece furtivamente, iludindo a vigilância dos arcanjos, que o trazem sob as suas vistas, armados de flamejantes espadas; mas, no dia de São Bartolomeu, a 24 de agosto, solta-se licenciadamente, e fica em plena liberdade. Por isso é prudente a gente prevenir-se para não cair nas suas ciladas(...) agosto é um mês aziago, é um mês de desgostos; e é de mau agouro para casamentos, mudança de casas e o empreendimento de qualquer negócio de importância."

A primeira sexta-feira de agosto é dia perigoso para negócio e viagem. João Alfredo de Freitas: "Há uns dias durante o ano, a que chamam aziagos, que trazem sempre um desastre para os pobres viventes. É nesses dias que se soltam as almas. Elas, as prisioneiras que passam a vida tristonha e macambúzia, sentem o maior dos prazeres, em verem-se livres um momento. Um milhão de ideias invadem-lhe o crânio e, então, quantas pilhérias não imaginam fazer aos habitantes do nosso planeta, que as temem em excesso?".

"Em dia de São Bartolomeu tem o demo uma hora de seu." (Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, v. III, 158, Lisboa, 1929).

Do poeta popular Leandro Gomes de Barros, contando a história do Boi Misterioso: "A 24 de agosto, Data esta receosa. Por ser a em que o diabo pode Soltar-se e dar uma prosa, Se deu o famoso parto Da vaca misteriosa".

Leonardo Mota (Violeiros do Norte): "Escreveu o Barão de Studart, num rol de superstições cearenses: "Não se deve empreender viagem, dia de São Bartolomeu (24 de agosto) porque nesse dia o diabo anda solto".

Pois bem: os irmãos Branesse, fugitivos da Penitenciária de Fortaleza e que, aliás, eram dados a superstições, porquanto os seus cadáveres foram encontrados com patuás, empreenderam nesse dia a viagem... da Eternidade, em fatal encontro com o destacamento do capitão Bezerra de Maria. Foi isso exatamente no dia 24 de agosto, o tal dia de São Bartolomeu, em que não se deve empreender viagem.

Essa superstição sobre o 24 de agosto é comum em todo o Nordeste." Só esperamos que com tantas superstições, não tenhamos mais um mês de bobagens e mediocridades no nosso País.


A fábula do macaco - Em 24/07/2019

Desejava, sinceramente, mudar o foco. Mas não consigo. Sou otimista. Por temperamento e convicção. Os pessimistas me aborrecem. São, ordinariamente, preguiçosos. Não suportam o acicate dos sonhos, fogem dos riscos e dos desafios. Preferem olhar para trás e viver de nostalgia. São homens de retrovisor. O Brasil precisa, com urgência, recuperar sua capacidade de empreender e sonhar.

A simples leitura dos jornais oferece um quadro assustador do cinismo delinquente que marca o comportamento dos que estão do lado de lá. Eles são claros. Não se preocupam em apagar as impressões digitais. Tudo é feito às escâncaras. Esbofeteia-se a verdade numa escala sem precedentes. Vejamos, ao acaso, alguns registros da crônica política (ou policial) deste lusco-fusco da cidadania. Então vou contar uma história.

Certa vez, um macaco, desses bem astutos, quis fazer um bolo, mas não tinha os ingredientes. Resolveu comprá-los de alguns vizinhos, comprometendo-se pagar a dívida em 24 horas. Da galinha pegou os ovos; da raposa, o trigo; do cachorro, o açúcar; e da onça, o fermento. Dia seguinte, com intervalos de meia hora, os quatro credores apareceram. A galinha foi a primeira. O macaco esticou a conversa, até ver a raposa apontar na esquina. Mandou a penosa se esconder atrás do armário. A um sinal traidor do macaco, a galinha virou refeição da raposa; o cachorro chegou e devorou a raposa e, por fim, a onça, engoliu o cachorro.

E aí a feroz credora quis receber pelo fermento. Indefeso, mas com fina astúcia, convenceu a onça de que ela tinha na barriga uma galinha, uma raposa e um cachorro, um régio pagamento. O sossego durou um dia. Faminta de novo, a onça espreitou aquele que se achava o mais esperto da Terra e, não recebendo o que ele lhe devia, comeu-o também.

A fábula se encaixa na realidade política do Brasil. Instalam-se governos - vide o do presidente Bolsonaro - e lá vêm as alianças, algumas espúrias. Com um sistema político fragilizado, quem governa tem que fazer compromisso com um sem-número de parlamentares e dirigentes partidários, buscando deles o apoio para garantir a governabilidade.

Às vezes, o governo não quita seu compromisso e acaba virando refém desses aliados, alguns de conduta duvidosa, que têm a goela larga; querem sempre mais. Fazem o papel da onça: vão engolindo um a um daqueles que fraquejam. Quando o governo cai na realidade, há restos e penas para todos os lados.

Até agora, o governo continua fazendo o papel do macaco: tenta, por todos os meios, fingir que nada disso que está acontecendo é com ele.

A onça está rondando a sua casa, tentando minar a resistência do presidente e do seu governo, que se achou forte e arguto, mas que teve de se aliar a uma gente esquisita, que só quer mais e mais comida - leia-se cargos e benesses mil. Ah!, é preciso ter muito cuidado com os travestidos de onça.

O Brasil não merece isso, ser um reino de macacos, raposas, onças, cães, galinhas e outros bichos. Pobre País, onde uns acham que podem chegar ao poder e governar sem atender aos pedidos de lobos, hienas e cascavéis que o assessoram e rodeiam.

O macaco foi para o bucho da onça, traído pela promessa de que sua dívida havia sido quitada. Bolsonaro não pode acreditar em gente que finge ser aliada, mas que na verdade está doida para palitar os dentes após o banquete final.


Se a alma não é pequena - Em 17/07/2019

O homem moderno está adiposo de imagens. No marco da globalização floresce uma "cidadania universal", que supõe novas formas de estar no mundo. Somos espectadores em tempo real de uma sintonia global. Inadvertidamente, ou mesmo imperativamente, somos invadidos por acontecimentos não-programados e inesperados, temidos e trágicos, cujo impacto faz ressoar no sujeito as mais diversas formas de inibição, sintoma e angústia.

A revolução tecnológica que há muito tempo era ciência-ficção, põe em marcha a comunicação - via imagem - num trajeto quase ilimitado. Poder-se-ia mesmo dizer que o olho de Deus está em toda parte, onipresença angustiante. Nessa via especular, nada escapa a algum tipo de registro: as câmeras "por acaso" captam o embate das torres gêmeas, o desencadeamento do tsunami, as barragens de Brumadinho, os lances do futebol olhados pelo VAR, a fúria do Katrina, os assaltos a mão armada e o desenlace com mortos, transformando-os de imediato em imagem global com seus infinitos replays, relançando sob os nossos olhos o viver e o morrer, o pranto e a angústia.

Será nossa época particularmente desastrosa, ou é a globalização que põe tudo, a toda hora, sob nossos olhos, descuidando-se do que é preciso ser velado, e causando horror?

Essa política de visualização inerente à construção do Mundo em que vivemos promove uma atração fatal sobre a imagem que traz à tona uma cadeia de identificações contrastantes, multifacetadas. Os ideais se pulverizam, os laços sociais se horizontalizam.

A questão que se coloca é: como atingir tantos caminhos possíveis?

Tal multiplicidade produz um sujeito angustiado, frente à liberdade de escolhas excessivas que lhe são apresentadas. O esperado é que encontrariam a felicidade por não estarem constrangidos pelos ideais: um dia ser como o pai, como o chefe... Pseudo ilusão! Liberto dos ideais simbólicos, o sujeito contemporâneo escraviza-se à mídia e à publicidade - que sustentam montagens perversas - através das novelas, dos Big Brothers, da televisão em geral, da internet.

Uma vidraça se impõe entre o privado e o público, o ontem e o hoje, o próximo e o distante. O imediatismo, a onipresença, o "direto absoluto" governam.

Como efeito, a angústia, que não mente, instala-se, revelando a impotência do sujeito diante de um vir-a-ver que o surpreende, aterroriza-o.

O perigo está no destino? Na vontade dos deuses? Na força da natureza?

São questões que insistem. No cenário de nossa atualidade, a mostração das reiteradas atrocidades, catástrofes políticas e sociais vale a pena questionar o que pensa o espectador. Não apenas do lugar da indignação, da compaixão, da morbidez, mas também da responsabilidade em responder ao que nos demandam essas imagens ainda que no excesso traumático de sua repetição. "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".


Hino ao tempo - em 10/07/2019

Esclareço novamente que não repito artigos, mas como coincidentemente escrevo as quartas e hoje, apesar de ser o dia da pizza, o dia da libertação dos escravos antes da Lei Aurea, por isso a Rua 10 de Julho, é o meu aniversário, copio alguns trechos de um artigo que fiz a cinco anos. Não sei e ninguém sabe se para o ano estarei neste ou em outro teclado, comentando sobre outros assuntos, porque a vida como eu estou cansado de dizer, é um sopro.

Pergunto-me que tempo é esse que vivi ou qual será o tempo que viverei. Não importando a resposta que possa ter acalento a verdade de que o principal é querer viver. Sinto-me com os mesmos seis anos em que fui estudante do Grupo Escolar Getulio Vargas na Cachoeirinha. Ou com os mesmos 11 de quando ingressei no Instituto de Educação do Amazonas, ou quando aos 15 ingressei no Colégio Estadual do Amazonas. Tenho a mesma vontade de estudar que tinha ao galgar, por muitas vezes, o Quadro de Honra Mensal daquela escola, pelas notas obtidas.

Gosto, hoje, de esportes com a mesma satisfação que tinha quando os praticava. Futebol, me atrai à televisão quando me sinto reintegrado em minha imagem de jogador. Sinto-me bem como aos 17 anos, quando me preparava para o vestibular da Faculdade de Administração, estudando 12 horas por dia e aprovado sem problemas. Venço o tempo enfrentando os desafios. Os mesmos que prometi enfrentar como Administrador, por toda a vida, como professor de Teoria Geral da Administração, Administração Publica, Recursos Humanos, Planejamento Estratégico, Empreendedorismo.

É importante fazer do tempo seu aliado, na experiência que lhe confere. Olhar para os jovens como pessoa que sabe mais do que eles pronto a passar-lhes a grandeza e a força adquiridas. Para poder acordar pensando no que terá de fazer durante um dia de trabalho e nunca num ócio que lhe destruirá rapidamente. Poder sentir o ímpeto de um jovem de 25 anos que foi campeão de um torneio de futebol no Senai. Ter a força e a vibração que me fazia aguardar os domingos pela manhã, para jogar no campo da Santa Rita ou no Parque Amazonense, time dos jogadores da Cachoeirinha que me fez conviver com Heraldo, Arlindo, Marcelo, Yane, Nelson, Clovis meus companheiros de pelada.

Tudo isso, em minha vida, haveria de dar forças para substituir meu pai, após sua morte, na Loja Maçônica cumprindo jornada de felicidade. Para me sentir honrado em ser membro do Conselho Regional de Administração, da Associação de Escritores do Amazonas e de ser articulista de vários blogs e jornais. Tenho os mesmos 22 anos de quando me formei em Administração, dedicando-me, na profissão e mostrando que as técnicas de administração continuam vindo de fora, os novos enfoques dão um sentido mais social ao tratamento das pessoas dentro das empresas e o centro das discussões passou a ser outro. Ou quando terminei meu mestrado em Administração, e também quando fiz o doutorado em Planejamento Governamental.

Enfatizo que nos tempos atuais, não se espera que um administrador moderno conheça apenas as tarefas requeridas no seu trabalho normal e restrita às suas funções. Numa era caracterizada pela globalização, o administrador não deve limitar seus conhecimentos á empresa ou ao seu país, mas sim a tudo que está acontecendo no mundo. Os desafios continuam tão fortes como antes, encontrando-me com a mocidade e a têmpera que o tempo não consegue destruir. Este é um hino que entôo ao tempo, meu amigo e meu conselheiro, que me dá forças e honradez para beijar meus filhos e netos de braços com a dignidade e abraçar meus amigos com a sinceridade que carrego no coração. Que venham os desafios. Estou firme, amparado pelo tempo.


Contaminação - Em 03/07/2019

Quase toda a nossa corte está contaminada de ladroagens, cinismos, omissões, mentiras, e o silêncio inexplicável do mais alto poder de justiça nos espanta. Salvo manifestação em concessões de habeas corpus a bandidos de colarinhos brancos, para que os mesmos, de caras lavadas, gozem das caras sérias de todo brasileiro. Lamentavelmente, estamos perdidos - ainda que irremediavelmente, esperemos. É mensalão em todos os cantos e recantos de nossos poderes - imaginem em outras paragens. É no Executivo, Legislativo e, esperamos, seja dado um sacolejo também no Judiciário. Cadê a abertura da caixa-preta proposta? O que ocorreu no nosso Supremo Tribunal Federal quando do episódio da aprovação da taxação dos inativos, fechando aquela maldita Reforma da Previdência? Os velhinhos aposentados do Brasil inteiro estavam convictos de que teriam a proteção mais do que justíssima do STF - último patamar de esperança de todo cidadão, principalmente o marginalizado. No entanto, coitados, qual nada. Somente comemoraram até quando o placar marcava quatro votos contra a taxação e apenas um a favor. Um ministro pediu vistas do processo e o levou debaixo do braço. Patere legem quam facisti (Respeite a lei que fizeste). Esquisito, não? E logo se trancaram aqueles vestais na mais precisa eutanásia da coragem e personalidade reinantes em suas vidas, gerando para todo povo brasileiro um arrepiante descrédito naquele Poder e, como sequela, um desabonador silêncio para a Nação. Nunca o silêncio dos inocentes, pelo amor de Deus, mas aquele mistificado como resguardo comum a detentores de caras lisas. É bom nem imaginar que o tal mensalão da compra de votos e favores criado nas tapadeiras do PT e nas antessalas do Planalto possa ter atingido as barbas daquela imponente e respeitável instituição. Ou chegaremos ao fundo do poço. E agora? Tem bububu no bobobó também em tudo que é órgão oficial, empresas estatais - economia mista ou fundação, enfim, atingindo todas as veias sociais, populares, sim sinhô. Estoura a crise de safadagem no futebol, especificamente no setor de arbitragem. Quadrilhas de apostadores, eletrônicos ou virtuais, cibernéticos ou robotizados, pouco importa. Juízes comprados para mudar resultados de jogos, fazendo a torcida de boba, jogadores de corpos-moles, técnicos burros, e pior, jogando toda a classe de árbitros à galhofa pública e, de agora em diante, passiva da mínima fiscalização. Embora, é bom lembrar, que essa tal compra de juízes de futebol vem de muito tempo atrás. Dizem os mais velhos - experientes dirigentes de clubes - que essa prática é antiga e os autores eram os próprios dirigentes e até presidentes de federações em ações às vezes comuns aos seus interesses. Por que os clubes do Norte e Nordeste nunca tiveram vez frente aos congêneres do Sul e Sudeste nas decisões nacionais? A verdade é que a gatunagem é incrível no nosso solo pátrio e a corte brasileira está encurralada. Agora com o VAR não acreditem que vai mudar tanto. E, quase esqueço, quanto ao nosso Bolsonaro... Este é indefinível.




O perigo das armas - Em 26/06/2019

O perigo das armas está entrando pela porta da frente das casas e escolas brasileiras, levando medo e insegurança a alunos, professores, diretores e funcionários. A pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) "Cotidiano das escolas: entre violências", realizada em escolas públicas de cinco capitais brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Porto Alegre e Belém), e no Distrito Federal, revela a extensão do porte e do uso de armas no ambiente escolar e como tais violências passaram a integrar o dia-a-dia das escolas. De cada três alunos, um já viu armas circulando na escola. Quase 35% dos alunos (585 mil) e 29% dos professores entrevistados disseram que viram armas. Entre os alunos, 12% (204.696) já viram.

Os números são preocupantes por dois motivos. Primeiro, porque revelam os riscos a que estão sujeitos adolescentes, jovens e membros do corpo técnico-pedagógico. Quando existem pessoas armadas, circulando no espaço escolar, qualquer discussão banal ou briga pode resultar em violências extremas, como ferimentos e mortes. A imposição da força acaba se sobrepondo ao necessário diálogo, na solução de conflitos no ambiente escolar. Outro motivo de preocupação é que a presença de armas nas escolas prejudica a qualidade do ensino. Se estudantes e professores sentem-se ameaçados, é impossível criar o ambiente propício ao ensino e ao aprendizado. Em um clima hostil e de ameaça, não há professor que possa ensinar bem e não há aluno que possa concentrar-se nas aulas.

A violência no ambiente escolar contribui, portanto, para o mau desempenho estudantil, a repetência, a evasão e a desvalorização da escola. É preciso então que toda a sociedade - principalmente a escola - reflita sobre o problema e adote providências para mudar essa realidade. Em primeiro lugar, é importante encarar a situação. De nada adianta fingir que o problema não existe. Também não é solução propor medidas repressivas nem instalar detectores de metais nas escolas. A saída deve passar pela criação de espaços de diálogo e mediação de conflitos dentro da própria escola, nos quais os jovens atuem como mediadores. A abertura de estabelecimentos de ensino nos fins de semana para atividades de esporte, lazer e cultura também tem se mostrado eficaz na redução da violência.

Mas a quantidade de armas nas escolas só diminuirá se houver um trabalho de prevenção nos lares. Adolescentes e jovens que encontram armas disponíveis em casa tendem a usá-las para se defender. Já na pesquisa "Violências nas escolas", a Unesco detectou que entre um terço e um quinto dos estudantes têm contato com armas de fogo na esfera familiar. Tal situação variava entre 32% em Porto Alegre e 18% em Belém. E são os próprios jovens as maiores vítimas dos homicídios por armas de fogo no Brasil. Faz-se necessário ainda restringir a circulação de armas de fogo no Brasil. Um passo importante foi dado com a Campanha Nacional de Desarmamento, que ajudou a diminuir o número de armas nos domicílios e nas ruas.

Agora, é chegada a hora de pôr em prática o referendo popular sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição no País. Que a população diga "sim" em favor da paz. É também fundamental aumentar os investimentos em educação, de forma a permitir o financiamento de programas sociais, educacionais e de segurança nas escolas. Uma escola apoiada, protegida e valorizada adquire força e condições para defender melhor nossas crianças e jovens. Sou contra a liberação de armas.


Dizer a verdade - Em 19/06/2019

Há imperativos dos quais não se abre mão por razão alguma. Quando esses imperativos estão ausentes do cotidiano, perde-se o rumo, estabelece-se o caos. Diga a verdade, é um desses imperativos. Um imperativo moral imprescindível. Sua ausência em qualquer circunstância da vida é a perda do alicerce sustentador dos diálogos construtivos, do estabelecimento dos vínculos configuradores da especialidade no relacionamento, da promoção e preservação do bem.

Não dizer a verdade é a fonte grave das situações críticas na sociedade e cultura contemporâneas. Ora, a verdade é a medida de toda pessoa. Ainda que senhores e centro do universo, ninguém está acima de tudo, nem é dono ou árbitro da existência. Todos estão debaixo da verdade. É dela que a vida recebe seu sentido e seu valor. É a verdade que faz a vida, lhe dá sustento e a dirige. Sem a verdade, por exemplo, jamais se conquistará a liberdade.

Não foi por outra razão que o mestre e senhor Jesus, instruindo os seus discípulos no caminho da conquista da liberdade, disse-lhes: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres" (Jo 8, 32). É pura ilusão querer conquistar a liberdade e outros tantos valores abrindo mão da verdade. Não há saída. É impossível. Há de ser uma convicção. Este horizonte incontestável faz saltar aos olhos lembranças de figuras íntegras de histórias familiares, e da memória imorredoura da vida social, política e eclesiástica.

Como faz bem a lembrança dessas pessoas. Na verdade, é mais do que uma simples lembrança factual. É uma lição de todo dia, permanentemente ministrada. O momento primeiro desta sinceridade, pela fidelidade à verdade, é a força geradora e matricial daquilo que os pais plantam no mais fundo do coração dos seus filhos e no mais recôndito de suas consciências. Assim também, os mestres nos seus discípulos, os pastores para com os seus rebanhos, os comandantes para seus comandados, governantes para com o seu povo. O amigo para com o amigo, de coração para cora.

Nada é mais precioso do que este dom do amor à verdade, como fonte de toda inspiração, encontrada só em Deus, Ele mesmo a verdade; e também como adequação para não se viver de enganos, mentiras e subterfúgios que visam tão-somente à conquista dos próprios interesses, a sedução maligna e ilusória de se manter com as rédeas nas mãos, naquela horrorosa pretensão humana de se colocar por cima de tudo e de todos.

O momento segundo e fonte inesgotável da fidelidade à verdade é a alimentação que dela vem, não permitindo que se escorregue, aqui e acolá, comprometendo a integridade pessoal e destruindo os caminhos de uma autêntica vida social e política. Como faz bem, e é tesouro inegociável, sem preço, ter tido um pai que jamais mentiu, enganou ou admitiu o menor gesto ou palavra que pudesse ser passível de consideração como atitude de passar os outros para trás; jamais a sonegação do que, em dados e informações, pudesse comprometer a busca permanente da verdade, a única conquista que não se pode apagar do horizonte da vida de todos os dias, em cada momento, diante de cada pessoa, seja ela quem for.

Assim se constroem estas figuras imortais que não dizem para simplesmente agradar, adotando a demagogia como princípio; quando falam, com o que falam e como falam, edificam, no outro, uma sustentação que não vem de nenhum outro lugar; jamais escondem nada porque se deixam seduzir pelo gosto de uma vida límpida. Não vivem de justificativas do que são e nem do que ajuntaram. Esses merecem a credibilidade dos simples e dos nobres. Os simples são, na sua avaliação, um grande termômetro enquanto confiam, e os poderosos enquanto se deixam incomodar. Assim, os comprometimentos inúmeros das condições atuais nascem, incontestavelmente, do não recebimento referencial de matrizes como essas.

O desvario de comportamentos se explica por essa ausência. O gosto pela verdade fica diluído entre tantos, dando a outros tantos gostos o lugar insubstituível que a verdade tem, por aprendizagem matricial e pelo exercício diário que garante sua conquista e manutenção. Neste turbilhão de corrupções, afetando os andamentos da sociedade, da vida familiar, das relações interpessoais ou das instituições, há uma indicação fundamental, conhecida de todos, para recuperações e retomadas, garantindo os percursos para o coração da verdade. Há de se cultivar a sinceridade. Esta tem força de mudar culturas, reordenar vivências familiares, limpar as sujeiras das instituições e devolver, a cada pessoa, o gosto primeiro de toda hora, o dizer a verdade.

Vale o conselho central da moral paulina: "Portanto, tendo vós todos rompido com a mentira, que cada um diga a verdade ao seu próximo, pois somos membros uns dos outros" (Ef 4, 25). À sinceridade, a presidência da vida


O namoro - Em 12/06/2019

Caríssimos leitores e leitoras, hoje dia dos namorados, poderia escrever uma crônica dedicada aos namorados, sobre o amor, para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como. Os poetas usam a linguagem figurada, plena de metáforas para representar o amor. Tentam encontrar o seu significado através de comparações e imagens, aliás amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC, ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível.

Mas hoje resolvi repetir um artigo que fiz algum tempo atrás, sobre o namoro de dois pássaros. Uma megaoperação doméstica tirou-me da varanda onde escrevo, todas as manhãs, estas mal traçadas impressões (literalmente digitais) de vida. Nesta época do ano, o sol invade a maior parte dos cômodos virados para a nascente e, segundo a meteorologia da casa, os efeitos são irreparáveis sobre o tecido das poltronas e a superfície dos móveis. Em resumo, a esta hora do dia, não se pode abrir as janelas. E, no calor, confesso que não funciono. Exilado na varanda dos fundos, tento reunir as ideias que sobram desse meu pobre e inevitável solstício. Além das ideias que se negam a comparecer ao novo local de trabalho, sou forçado a registrar também uma outra ausência.

Na varanda lá da frente, sempre a esta hora da manhã, recebo a visita de um bem-te-vi, que deixa suas três notinhas no parapeito da varanda, depois, acumpliciado com uma samambaia alcoviteira que se enrosca de parede abaixo, assume um dos ramos mais altos e fica esperando a namorada, que não tarda a chegar. Os dois se bicam, porque não conseguem se beijar. Mas é a única forma que conhecem de dizer que se amam. Enquanto eles se bicam de amor, fico eu catando o grãozinho das ideias que servirão para a próxima crônica. Só não são personagens dos textos que mando diariamente para os jornais porque já trazem a assinatura de Deus, que não é autor de aceitar parceria com ninguém. São uns exibicionistas esses namorados.

Ela, mais afoita e mais ousada, esvoaça por sobre a paixão do outro, que fica saltitando de lá para cá, soletrando suas emoções, já que cantar não sabe direito. Esse, aliás, é o problema dos bem-te-vis. Incapazes de flautear seus amores como os sabiás e os curiós em longas partituras, contentam-se com essas três notinhas que só aos bem-te-vis apaixonados conseguem encantar. Mesmo assim, fazem falta a esta varanda protegida do sol. A bem da verdade, todas as formas de amor fazem falta. Na vida, como na varanda. No texto, como no canto. Muito mais na terra do que no céu. Como este lado da casa, mergulhado na sombra, parece deserto de ideias, acudiu-me a estratégia de transplantar a samambaia de lá para cá. Quem sabe, a presença da alcoviteira não seria capaz de atrair o casal de namorados? Faço isso e me ponho a esperar. Deu certo. Ela apareceu primeiro. Ele em seguida, com o seu adágio: "Bem-te-vi!"

Como todas as fêmeas da Criação, ela era a coqueteria em pessoa. Ou melhor, em plumas. Fingia ignorar a performance do solista apaixonado. Mantinha o olhar perdido na vastidão do céu confinando com os prédios, destino primeiro e último de todas as aves, perdição de todos poetas e de todos os amantes. De repente, o trovador das notas plurais e da paixão singular interrompe o seu gran finale e empreende um voo circular pela orla da floresta atlântica que ainda resta por aqui. Estaria abandonando a cena idílica? Desistira do amor? Não, de jeito nenhum. Era a apoteose. Eis que ela também se alça em movimento gracioso de luxúria e graça, atraída pelo desenho do mesmo voo riscado pelo namorado no azul do céu. E como nada mais vi, posto que se perderam os dois no verde alcoviteiro da floresta silenciosa, voltei à minha crônica desamada. Muito tempo depois, ouvi ecoar bem longe daqui o adágio triunfal: "Bem-te-vi. Bem-te-vi!" Daí porque quase não há crônica hoje, meus caros namorados e namoradas. Não por falta de paixão nesta vida. Mas por falta de namoro na varanda.


Não temos Messias - Em 05/06/2019

Em uma seção do Senado, em 12 de julho de 1841, o senador Nicolau Pereira Vergueiro já diagnosticava com exatidão que uma causa comum aos maiores problemas brasileiros está no fato de nossa organização política preceder a organização social. Diferentemente da história estadunidense, onde desde o princípio a sociedade se autogovernou e se antecipou a sua organização política, tanto que o primeiro esboço formal de uma lei fundamental surgiu apenas em 1620 das mãos dos próprios chefes de família que, ainda embarcados no Mayflower, celebraram o notório Compact; a organização do Estado brasileiro tem sua gênese nas caravelas de Tomé de Souza que em 1549 desembarcou com a completa estrutura do Estado. Tínhamos um governo mesmo que ainda não houvesse uma sociedade ou um território a serem governados.

No Brasil, a sociedade é obra do Estado e não vice-versa. Sendo o povo criatura e não criador, desde nossa fundação é tradição esperar tudo do Estado e do titular do poder: até milagres. Tal cultura é corroborada pelas grandes transformações políticas e sociais que ao longo da história foram dadas de cima para baixo, como a independência, a abolição, a República. Assim, por sobre a cadeira do presidente adere um musgo de magia e majestade. Mesmo com a República, permanece um trono sobre o qual se assenta o chefe de Estado, do governo, da administração...e dele o povo tudo espera.

Não há um centro de poder simples, inteligível, racional, mas um cetro paternalista, um dublê que sempre pretendeu substituir a pessoa e a sociedade no papel do seu próprio desenvolvimento. A cada quatro anos a mística do trono se reacende. Basta voltar a história republicana mais recente. Todos os presidentes eleitos foram recebidos com ramos de oliveiras. Verdadeiros messias responsáveis pela instauração de um Brasil do futuro que nunca chega, são depositários das esperanças mais profundas e até existenciais de alguns. A cada eleição um messias, aquele que abre e fecha a torneira da providência do divino Estado, que há 500 anos retrata uma sociedade tíbia e desorganizada.

Até quando? O fato de um governo garantir a governabilidade contemplando em seu ministério vários partidos, incluindo seu maior adversário, eloquentemente denuncia a necessidade de profundas mudanças em nossas instituições. A primeira delas, dividir o trono em três cadeiras, uma para dirigir a administração pública (que deveria servir a cada cidadão indistintamente), outra para dirigir o governo (dada a um homem de partido, legitimamente ideológica) e uma terceira, neutral, destinada ao chefe de Estado, ponto de unidade e remédio dos grandes antagonismos nacionais. É um remédio insuficiente para todos os males, mas curador da nossa mais grave doença política: a hipertrofia do executivo no Brasil, o trono do Messias. O fato de o atual Presidente conter em seu sobrenome o nome Messias, não significa que ele é o profeta ungido para dar ao nosso Brasil inclusive milagres.


Declarações inoportunas - Em 29/05/2019

As declarações do presidente da República sobre o Poder Legislativo, feitas no contexto das reformas e sob a influência das polêmicas que agitam o país, não podem ser consideradas suficientes para gerar uma crise entre poderes. É evidente que o presidente exagerou ao fazer insinuações sobre "caixa-preta" do Legislativo, e ao generalizar quando o definiu como um poder "que se considera intocável".

Se tais generalizações são condenáveis vindas de qualquer cidadão, delas obrigatoriamente deveria abster-se aquele que detém a condição de chefe de um dos poderes da nação. Quanto a isso, excedeu-se e abriu flanco para respostas igualmente duras, como a do próprio presidente do Congresso, de que o Poder "está perplexo" com o episódio, interpretando as declarações de Bolsonaro como "um desserviço à sociedade".

Por trás dessas manifestações, compreensíveis diante das pressões que envolvem especialmente a reforma da Previdência, não se pode dizer que haja elementos para uma crise. Não há por que transformar algumas frases candentes em mais do que são: exageros de linguagem.

De resto, como todos sabem, tramita no Congresso Nacional um projeto de reforma do Legislativo que representa a oportunidade para o debate e a definição dessas questões, inclusive da que se refere ao controle, externo ou não. Um Poder Legislativo e porque não dizer um Poder Judiciário eficiente, da mesma maneira que as demais instituições de Estado, não pode comportar-se como se fosse representação corporativa ou como um poder distante de qualquer cobrança social. É fundamental para a construção de instituições realmente democráticas que o amadurecimento atinja estágios em que tais questões sejam tão óbvias e tão cristalinas que não mereçam figurar nas preocupações do país.

A ninguém interessa instituições enfraquecidas ou ineficientes. Neste sentido, a cruzada pela reforma e modernização dos poderes deve incluir o debate sobre todos os pontos levantados pelo presidente ou constantes da polêmica que suas manifestações geraram. O ideal de uma justiça democrática, dotada de celeridade e merecedora da confiança da sociedade, é algo ainda por ser atingido. Os poderes não são nem devem ser ilhas. A receita de seu funcionamento está expressa na própria Constituição: devem ser independentes, mas harmônicos.

Os servidores de tais poderes integram uns e outros o mesmo país, servem ao mesmo cidadão e são pagos pelo mesmo contribuinte. Esta igualdade constitui a mais radical e a mais republicana característica das democracias. Os poderes, não sendo ilhas e devendo ser harmônicos entre si, têm a obrigação de cumprir suas funções institucionais levando em conta os interesses gerais da sociedade, mesmo quando estes eventualmente exijam sacrifício.

O termo caixa-preta, que na linguagem da aviação refere-se à aparelhagem que grava dados sobre o funcionamento de uma aeronave, define também "qualquer sistema, instituição, empreendimento etc. cujos mecanismos de funcionamento interno não são claros ou abertos à observação".


A greve dos professores - Em 22/05/2019

Caros leitores e leitoras, sou professor pra começar e sinto como o educador de hoje é maltratado em suas reinvindicações, mas tenho uma opinião contra a greve.

Em todo país civilizado, como se sabe, o direito de greve é garantido por lei, inclusive na Constituição brasileira. Entretanto, na prática, ou por culpa da legislação ordinária incompleta, ou da falta de autoridade do Judiciário, a greve, direito em si mesmo saudável e tipicamente democrático, costuma degenerar, entre nós, em abusos revoltantes, como se acabou de ver, na recente greve dos professores. Os abusos não são punidos nunca e, em consequência, são reiterados, cinicamente, ao arrepio do mais elementar senso de justiça, de humanidade e de respeito ao próximo.

Não obstante, o que se põe em causa no presente artigo não é a greve enquanto abuso, e sim a greve simplesmente, como uso, ainda que consagrado em lei. A cada dia a paralisação coerciva do trabalho revela tudo o que tem de obsoleto como recurso de pressão social. Já é tempo de pensar em outras formas de reivindicação menos toscas, que não corram o risco de sacrificar a população, sobrecarregando-a com sofrimentos e desconfortos que ela não merece suportar, transformada, arbitrariamente, em refém do confronto entre trabalhadores e empregadores. Por mais justa que for a causa dos grevistas, não lhes cabe o direito de imolar todos os estudantes da cidade, já normalmente sacrificada, à pressão cega de seus interesses corporativos.

A greve constitui um desses casos em que o simples uso já se configura como abuso. Afinal, mesmo a greve menos abusiva constitui uma prática de coerção bronca e incivilizada, só compatível com os primórdios da luta entre o capital e o trabalho, ao tempo em que os proletários eram tratados como bestas de carga. As greves dos transportes, da saúde públic da segurança e da educação, provocam, fatalmente, a hostilidade cerrada da população que não pode passar nem um só dia sem ônibus, metrô, trem e postos de saúde, hospitais e proteção policial.

O povo indispõe-se contra os grevistas e lhes nega qualquer apoio. Que tal pensar em outro tipo de protesto, que atraísse a simpatia e o apoio moral de toda a sociedade? Em nossos dias tudo passa pela mídia. Esta tornou-se o foro informal das questões de toda natureza, das dúvidas e dos conflitos mais diversos de interesse, inclusive e principalmente das polêmicas sociais. Se não é possível eliminar de todo a paralisação do trabalho, que esta se reduza ao mínimo, respeitando as cotas de serviço previstas em lei, que não são nunca respeitadas.

Onde se deve investir maciçamente não é nos piquetes, na destruição da propriedade e no vandalismo generalizado, e sim, primordialmente, na campanha publicitária da greve, em jornais, na televisão, no rádio, mediante debates, entrevistas, matérias autorizadas, reportagens exibindo abertamente as chagas da desigualdade e dos desajustes sociais e econômicos, numa militância incansável pela conquista da opinião pública. Para tanto, os sindicatos reservariam um fundo destinado, exclusivamente, à ampla campanha publicitária. Se os trabalhadores tiverem a habilidade de fazer acontecer a greve na mídia, o resultado será muito melhor e mais rápido.

A greve é prática ultrapassada, inscrita no tempo do Ford de bigode, que andava a 60 km/h, do cinema mudo, das mulheres fatais com suas olheiras enormes, dos cavalheiros que dormiam com freio nos bigodes, e dos espartilhos que torturavam a silhueta feminina. Já é tempo de estudar outras opções mais inteligentes, modernas e eficazes para essa prática primitiva que são as paralisações do trabalho, recurso cru com laivos de brutalidade, que lembra as amputações a frio, sem assepsia e sem anestesia, efetuadas pelos cirurgiões do tempo, provocando, quase sempre, a morte do paciente.

Em suma, a greve, tal como é concebida e executada até hoje, não passa de uma atitude de resistência passiva, marcada pelo ressentimento da luta de classes, e pesando, cegamente, sobre a sociedade inteira. Está na hora de a greve evoluir da resistência passiva para uma forma de decisão pró-ativa, capaz de mobilizar a sociedade em seu favor, sem ferir os direitos desta última.


Paradigmas da leniência - em 15/05/2019

Me desculpem os caros leitores amazonenses, mas tenho uma afinidade pelo Rio de Janeiro e costumo dizer que sou amazonense por um acidente geográfico. Sou carioca de coração, e quando você recebe no Rio a conta da Light no seu nome, se sente mais carioca ainda. No Rio políticas equivocadas regadas a paternalismo omisso fizeram com que lacraias virassem serpentes. Nas últimas décadas a criminalidade foi aumentando até assumir proporções de virulência inaudita. Os nefelibatas não se dão conta de que o crime se organizou e passou a ter o poder "paramilitar" de acuar a sociedade. O que era um problema de polícia assumiu contornos de cerco armado à cidade. Não cabe constitucionalmente às Forças Armadas exercer papel de polícia. Mas se o atual quadro não for revertido acabarão convocadas para, com sua competência e prestígio, revogar o toque de recolher imposto pelo crime organizado. A situação em que se encontra a cidade do Rio de Janeiro é resultado de sucessivas administrações desastrosas. Os governos de Brizola foram o paradigma da leniência populista com a ação da bandidagem. Visto como causado pela pobreza, o crime é tratado, independentemente do teor de agressividade que encerre, como um genérico "problema social". Deixa assim de ser enfrentado como um poder capaz de desestruturar a sociedade legal e organizada. Os mais entusiastas chegam a concebê-lo como trampolim para a revolução por ser capaz de minar o sistema desde seus fundamentos. Corre a história, mudam os rumos do mundo e os "revolucionários" vão baixando o nível de suas alianças. O drama carioca é que o combate ao crime precisa ocorrer também dentro das instituições dedicadas a evitá-lo e a puni-lo. Apesar de a impunidade campear, formadores de opinião e ONGs têm doutrinado a sociedade para ser tolerante com os crimes cometidos da periferia para o centro e dura com a corrupção dos poderosos. A sociedade está sendo emparedada por uma minoria armada porque as vozes que se levantam para tantas outras causas menores estão mudas. Se nas décadas de 80 e 90 o crime não tivesse sido incentivado pela ideologia do bandido como "vítima social", por certo não se estaria na iminência de chegar ao estado de guerra interna. É a falta de limites que gera os mais condenáveis comportamentos. Imaginem que ao chegar ao Galeão se o passageiro não tiver agendado com antecedência um aluguel de carro, os taxistas cobram entre R$ 600,00 a 700,00 para atravessar a linha vermelha. Ao se tornar um poder paramilitar, o crime no Rio se capacitou a sitiar a cidade. Grupos armados até os dentes e situados em pontos estratégicos têm a cidade sob sua mira. Com o poder público desmoralizado, a polícia intimidada e o funcionamento das instituições colocado em xeque, o que falta mais acontecer? No Brasil, se joga fora o bebê com a água suja do banho. As instituições não são distinguidas de seus operadores. Justifica-se o grande desapreço por elas invocando a má conduta dos que as representam. Filmes brasileiros, às escancaras ou de forma subliminar, exaltam a bandidagem e vituperam a polícia. Ora, nenhuma sociedade pode ser sadia se suas instituições são achincalhadas. A existência de maus policiais não é razão para se professar o maniqueísmo às avessas. Enquanto prevalecer a postura destrutiva diante das instituições, a crise de autoridade, em suas várias dimensões, se aprofundará. O pensamento de esquerda, hegemônico no Brasil, fortalece a atitude "negativista" quando coloca as forças da ordem a serviço da exploração econômica e da dominação política. Ora, se a repressão ao ilícito tem sempre um viés de classe, então não tem legitimidade. De modo enviesado, essa visão justifica o crime e contribui para seu avanço. Como é produzido pela sociedade injusta, seu combate é duplamente injusto. E assim a barbaria vai se instalando com a piora da situação também sendo creditada ao sistema. E a sociedade, considerada injusta pela forma com que reparte seus frutos, se torna ainda pior: fica refém das balas perdidas e das direcionadas. E o que se consegue com tudo isso é deteriorar ainda mais o que já era ruim. O espantoso não é o problema, mas o tipo de tratamento que se tem a ele dispensado. Vendo seus direitos fundamentais descerem pelo ralo, o cidadão inerme é convocado para inócuas e esquálidas passeatas pela paz. Os grupos de protesto ruidosos nem se mexem. Só entram em cena quando as causas abraçadas acenam com ganhos políticos. Estes são dias de tiros a esmo, de vias expressas, escolas e lojas compulsoriamente fechadas. E isto não pode ser aceito como normal. Estas são noites de ruas esvaziadas e do silêncio cortado à bala. E isto é uma aberração. Uma grande cidade - com uma bela, mas inútil paisagem - quando acuada pelo medo significa que a sociedade perdeu a soberania sobre si mesma.



Mãe - Em 08/05/2019

Todos os amores são vitais e indispensáveis. Se não, como explicar a sensação de morte, quando eles se vão? Mas esses amores, que quando eclodem, mudam nossos referenciais, e na alucinação de cada descoberta nos transformam outra vez em adolescentes inseguros e sonhadores, esses amores são todos condicionais.

Eles dão, mas cobram reciprocidade, e só não pedem comprovante porque ainda não se elaborou um formulário adequado para isso. E cada descumprimento deste contrato não escrito implicará uma sentença oscilando entre a indiferença e o ódio, que só os otimistas e os ingênuos não percebem que é a mesma coisa.

Esse amor por ser assim condicional, e depender da facilidade de seus pobres atores, tem uma escassa chance de ser intenso e duradouro, porque quanto mais intenso, menos espaço concederá ao perdão. Provavelmente por isso, quando os grandes amores terminam, não sobra nada, e podem desconfiar da intensidade de um amor que acabou numa grande amizade. Ou não era amor, ou não era tão grande, ou tem alguém ainda amando em segredo, na expectativa desesperada de que o outro, por favor, perceba isso.

E não vale citar exemplos de amores sobreviventes de muitas brigas, porque o perdão sempre é parcial e fica arquivado para ser ressuscitado inteiro em cada nova rusga, da qual talvez sobreviva outra vez, mas sempre remendado e melancolicamente menor. Nisso tudo contrasta o amor de mãe, que sem ser menos intenso, é o único que não tem vergonha de ser absolutamente incondicional. O único amor que sobrevive intacto à indiferença, ao descaso e à traição, simplesmente porque estando acima dessas miudezas da alma humana, nunca será de fato ameaçado por elas.

Ofenda a sua mãe e ela soluçará como uma namorada, mas quando as lágrimas secarem, ela já estará se sentindo um pouco culpada pelo desamor do filho e buscando um jeito de reconquistá-lo. Esse é o amor padrão da imensa maioria das mães, que idolatram filhos imperfeitos e explicam atitudes inexplicáveis, e são capazes de dar a vida pelos seus filhotes medíocres, mas maravilhosos.

Ser mãe é ficar emocionada com os movimentos anárquicos daquele corpúsculo disforme na ecografia e depois chorar de pura emoção ao receber aquele anteprojeto gosmento e mal-acabado, de cara torta e assustada, e tão lindinho!

Ser mãe é dobrar com carinho as suas roupas de recém-nascido e se estremecer ao lembrar o inesquecível cheiro de bebê que você um dia teve no pescoço, não importa quanto tempo já tenha passado.

Ser mãe é não pregar o olho nas infindáveis madrugadas e depois fingir que dorme placidamente quando você finalmente retorna, barulhento e despreocupado.

Ser mãe é perceber a tristeza do filho por trás do sorriso disfarçado e intuir que alguma coisa está errada quando o machão independente reaparece com cara de filho extremado.

Ser mãe é sublimar o ranço ciumento da nora ou genro para manter o rebento por perto, e suportar em silêncio a repetição dos erros que ela própria cometeu, para não parecer intrometida.

Ser mãe é doar um órgão para salvar o filho doente, e ser operada, e não usar nenhum analgésico, como se a queixa de dor pudesse minimizar o tamanho do seu gesto.

Ser mãe é oferecer um pulmão inteiro para tentar recuperar a filhota linda, e, ao ser informada que isso não seria possível porque colocaria em risco a sua própria vida, perguntar: "E viver para que, sem a minha filha?"

Ser mãe é ser capaz de tudo isso e ainda ter que suportar a ironia dos engraçadinhos que parecem se divertir sugerindo que gostam mais do pai.

Nesse mundo de generosidade ameaçadas, que tal fazer do dia das mães uma homenagem ao amor incondicional? Diga isso à sua mãe neste 12 de maio e receberá dela um sorriso que só uma mãe sabe sorrir. E, quando ela te abraçar agradecida, tenha a certeza que a alegria que ela estará sentindo se misturará generosamente com o doce perdão pela sua derrota em perceber a incondicionalidade do seu amor de mãe.

Se não confiar no discurso, leve também um presentinho, mas não se iluda, quando ela afagar dissimuladamente o pacote, gostaria mesmo de estar acariciando o coração do menino que ela sempre amou mais do que a ela mesma, sem sentir necessidade de confessar para ninguém!


O tempo voa - Em 01/05/2019

Hoje é o primeiro dia do quinto mês de 2019. Como justificar essa pressa toda com a qual os calendários se sucedem, passando-nos a impressão de que, mais do que correr, o tempo voa e, com ele, a vida da gente se esvai? Não é verdade que há bem pouco estávamos envolvidos com as festas de mudança de século?

Eu sei, e muito bem, que essas lembranças só nos tomam de assalto a partir de certa idade. E que antes dessa etapa, quando ainda se é criança, acontece o inverso: entre um Natal e outro o espaço é imenso, o tempo se arrasta em ritmo de tartaruga. Não ignoro igualmente que depois, enquanto se estiver na casa dos "intas", a contagem não interessa: flutua-se, indiferente ao desfolhar do calendário.

A primeira cogitação sobre o assunto geralmente ocorre com o ingresso no território dos "entas", sobre cujos trilhos o tempo começa a ganhar velocidade. Sucedem-se o "enta um", o "enta dois"... o "enta nove" e, de repente, quando menos se espera depara-se o "enta" que nos diz termos chegado à metade de nosso incerto e problemático centenário.. Que horror! - mudemos de assunto - já! - antes que seja demasiado tarde...

O que importa hoje é que já estamos nos acostumando com o corcovos do novo século - algo que para muitos de minha geração parecia demasiado distante, provavelmente um ponto inatingível.

Qualquer um que afirme estar ciente do desenrolar dos acontecimentos mundiais dos próximos doze meses, é provável que esteja conectado com alguma rede mediúnica de antecipação da História.

Em todo caso, convém estar atento para as análises porque, escoradas nos fatos, podem errar feio ou acertar algo. A soma dos fatos e opiniões parece apontar para dias de sobressaltos, insegurança e terror. Mas, diante de tudo que parece inacessível a nós, telespectadores de cenas verdes com pontinhos de luz ao vivo, simulando o entretenimento do videogame e não o horror da guerra, eu imagino que pedir mais clareza de imagens e fatos é pedir mais realidade a um plano de proporções irreais.

Mas cá estamos, sãos e salvos, aleluia, aleluia... Por isto, a palavra de ordem a ser obedecida deve ser esta: enquanto houver música no salão e par disponível convém que dancemos, dancemos, até a última valsa, ainda que lenta, se não der para bailar um forró. Por falar em dança, pobre vizinha Argentina! Para quem a conheceu em seus tempos de abastança, com sua capital ostentando riqueza, cantando e bailando alegremente mesmo seus tangos geralmente nostálgicos, custa e dói sabê-la na situação em que se encontra.

Cada notícia que de lá nos chega me devolve à memória, entre outras, as imagens daquela Calle Corrientes na qual ela refletia sua pujança econômica e o bem- estar de sua gente: uma avenida que não dormia, que atravessava suas noites com seus teatros, cinemas, dancings, confeitarias, restaurantes e congêneres lotados por uma população bem vestida, risonha e orgulhosa de poder se proclamar como sendo habitante da cidade mais civilizada, mais próspera, mais culta e mais europeia da América Latina.. Bem, chega de relembranças que soam nostalgicamente. E para encerrá-las nada melhor do que recordar trecho de um velho tango de Le Pera e Gardel, que este último cantava assim: "Mi Buenos Aires querido / cuando yo te vuelva a ver / no habrá penas ni olvido..." etc.


O amor - Em 24/04/2019

Caros leitores, tenho me dedicado nos últimos artigos a não falar de política, e falar de amor, até o dia das mães irei escrever sobre esse tema tão debatido e discutido entre os homens, sem se chegar a um lugar comum. Estamos vivendo um momento marcado pela insanidade da guerra e pelas incertezas de uma grave crise econômica e também de valores. Insistimos em renovar as nossas esperanças de que o homem, finalmente, descubra a força transformadora do amor, através de ações solidárias para com os seus irmãos.

Descobri que o grande tema da vida é o amor. É possível que, desde então, o meu entendimento sobre a vida, no lugar de ficar resolvido, tenha se tornado um mistério, mas o meu espírito, finalmente, logrou ficar mais próximo da paz. A vida é um grande ato de teimosia e a mente é o portal para que o homem atinja a sua real dimensão cósmica. O caminho é longo e o aprendizado difícil, mas o homem vem resistindo ao longo dos séculos.

Ultimamente, tenho meditado sobre a aventura humana na Terra, a angustiante era de incertezas e contradições em que vivemos e, a cada dia, fica mais claro aos meus olhos, que o tema central da vida é o amor e o desamor. A violência, a injustiça, a fome, as guerras, são diferentes faces ou os vários sinônimos da palavra desamor no mundo. O homem já cruzou oceanos, escalou montanhas, foi a Lua e está se preparando para ir a Marte. Contudo, a verdadeira viagem a ser feita é a interior. Ou seja, em torno de si mesmo, em busca de sua identidade e de um significado para a sua existência.

O homem precisa ter um objetivo, precisa lutar pelos seus sonhos para poder escrever a sua lenda pessoal. O psicanalista Erich Fromm, no seu livro A Arte de Amar, afirma que: "O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana".

O jurista italiano Francesco Carnelutti já dizia que o Direito é um triste substitutivo do amor. Quando o amor e a compreensão entre os homens cessam, nasce o Direito para dirimir os conflitos entre os homens.

O apóstolo Paulo, na Bíblia, em uma das suas Cartas aos Coríntios, intitulada "O Amor é o Dom Supremo" apregoa-nos que: "ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei."

Cristo veio ao mundo, dividiu a História e, essencialmente, pregou o amor entre os homens. Isso tudo pode parecer óbvio, mas é tão difícil de aceitar e aplicar em nossas vidas. Às vezes fico pensando o que move pessoas que acham que precisam passar por cima de tudo e de todos para chegarem aos seus intentos. Penso e pergunto: Como fica a consciência de uma pessoa que um dia fala e escreve uma coisa e noutro apaga tudo, como se fosse algo inoportuno que foi dito e escrito num momento de fraqueza?

Essas pessoas que assim procedem são exatamente aquelas que agem sem sentimento, às vezes vão até contra a racionalidade. Para elas só interessa o fim, não importando os meios. São pessoas que vivem sem poder deitar a cabeça no travesseiro tranquilamente, são pessoas que não conseguem olhar os filhos, sem ter vergonha do que fizeram ou fazem. Vendem a alma ao diabo para chegarem aos seus intentos. São seres tristes e que destilam somente a ânsia do poder, do ter, mesmo que seja através do ódio.


A cegueira do amor - em 17/04/2019

Muitas vezes, ao correr da vida e do teclado, os assuntos ficam atropelados, empenados, quando a vontade de escrever é grande e o tempo é curto. Para tanto, os articulistas do século XIX criaram a forma dos fatos diversos ou, como poderiam dizer, em expressão de hoje, eventos vários, sem fazer colunismo, e alinhá-los em ABC, como assuntos de interesse geral, assim suponho. Hoje resolvi escrever sobre o amor.

Alguém já disse que Amor é uma palavra de quatro letras, duas vogais, duas consoantes e dois idiotas. Para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como. Os poetas usam a linguagem figurada, plena de metáforas para representar o amor. Tentam encontrar o seu significado através de comparações e imagens. A Teologia diz que junto com o livre arbítrio e a inteligência, a capacidade para amar é inerente à criatura, é herança do Criador. Uma herança em potencial, que, ao longo da vida, é nossa tarefa de criaturas administrar, desenvolver.

O assunto é vasto e complexo, mas vamos abordar nesta reflexão a capacidade para amar, que é o tema central. A capacidade para amar é como se fosse uma semente plantada. Regar, cuidar, colher e replantar "mudinhas" é tarefa e responsabilidade de cada um de nós. É da maneira como se desempenha esta tarefa que se origina a diversidade das "maneiras de ser", a singularidade e estilo das pessoas, de modo que não existe uma igual à outra dentro deste processo contínuo de ser pessoa.

Como são muitas as possibilidades, não existem "receitas". Existe sim - o que é próprio do amor - a construção gradual do estilo e da personalidade de cada um. O amor então, repito, não se conhece por uma definição ou conceito, mas por seus efeitos. Se nos relacionamentos nos sentimos estimulados a desenvolver potencialidades e recursos internos, podemos dizer que aí existe amor. Mas este estímulo nem sempre é uma aprovação, ou reprovação indiscriminada do comportamento de alguém.

Precisamos fugir da noção simplista e "açucarada" do amor, ou seja, da ideia equivocada de que quem ama sempre aprova as atitudes do ser amado. Quem ama aceita o outro enquanto pessoa única em sua subjetividade e jeito de ser. Para responder ao título do artigo digo, não, o amor não é cego. Ao contrário, abre os olhos. Nós é que às vezes não queremos enxergar a realidade, e assim reconhecer a necessidade de fazer mudanças, reorganizar a "bagunça" física e emocional da nossa vida. Parece que fica mais fácil acomodar-se a um esquema onde se reclama muito, e pouco se questiona.

Sou um apaixonado pela vida, por suas vicissitudes, por seus descaminhos, por seus desencontros, pelo lado árido, pelo lado doce e por sua imprevisibilidade. Parece estranho alguém que escreve sobre educação, política e governo, fazer devaneios sobre o amor, principalmente na Semana Santa, mas como no inicio do artigo citei, há fatos vários e dentre estes o amor, hoje tão solicitado pela necessidade da paz, mas cego perante a vaidade, ganância e falta de espiritualidade entre os homens. Este artigo vai dedicado a muitas das que me pediam um artigo sobre o amor, cita-las seria desencadear ciúmes, já escrevi sobre paixão, e hoje dedico a quem sabe que me pediu um artigo sobre a cegueira do amor. Feliz Pascoa a todos

Os 100 dias - Em 10/04/2019

A numerologia política transformou o número de 100 - cem dias de Governo - num fetiche. Hoje 10 de Abril faz exatamente cem dias que assumiu o governo Bolsonaro e outros governos da Federação. Não é criação brasileira, mas adoção nacional do ideário político forâneo. Deu-se aos primeiros dias de uma administração o prestígio de um número mágico, a relevância de um ponto de inflexão que tenham porventura a força de uma tendência.

Embora falsa a ilação, é usual ver nos êxitos da lua de mel governamental a chave-mestra que o futuro administrativo utilizará a partir de então para abrir todas as portas, vale dizer, para superar as dificuldades que surjam pela frente. Os três primeiros meses e dias da administração Bolsonaro não fugiram ao trivial variado de outros 100 primeiros dias. Altos e baixos foram vistos, uns salientados pela visão dos meios de comunicação, outros diluídos nas horas de mesmice da política nacional. Foi necessário que se fizesse uma síntese oral e escrita de quanto se passou no período, foi oportuno apreciar a análise do primeiro mandatário e também a do vice-presidente Mourão, para ver se a lua de mel governamental produziu algum sinal consistente para o próximo futuro do País.

O presidente Bolsonaro depois de varias caneladas teve a dignidade de admitir a ocorrência de falhas em inúmeras iniciativas praticadas talvez no afogadilho da estreia, fazendo menção às medidas tachadas de amargas que foi compelido a tomar, em coerência com a reaquisição da estabilidade econômica, em janeiro de certa forma comprometida pela inquietude dos mercados. Também admitiu que o novo salário mínimo não é aquele com que sonhavam os trabalhadores assalariados do País, mas o salário que a economia poderá pagar sem novos traumas.

Os tropeços iniciais do programa foram reconhecidos com a ponderação de que coisa tão vasta jamais foi anteriormente tentada neste País. As reformas previdenciária e tributária foram outra vez enfatizadas como um desses compromissos que o Governo assume de modo irrevogável. Obras paralisadas terão prioridade sobre novas obras. A segurança pública assumiu, de fato, no Governo entrante, a prioridade que todos estavam a exigir. O presidente da República encerrou o depoimento dizendo-se otimista com o futuro do País e convencido, hoje, mais do que nunca, de que tem escolhido até aqui as opções certas nos momentos oportunos há opiniões para todos os gostos.

A oposição, ao elogiar apenas a condução econômica, deu aos 100 primeiros dias de Governo a nota de "sofrível", 5,5 numa escala de 0 a 10. Valeram as opiniões como barômetro para a medida da pressão socioeconômica do momento vivido pelo País, nas circunstâncias peculiares do novo Governo. No plano estadual, não se pode fazer uma avaliação boa, a expectativa é inclusive que o governo estadual não chegue aos seis meses de mandato pela robustez de provas, que existem de compra de votos e achaques.


Falácias - Em 03/04/2019

A taxa de desemprego no Brasil aumentou para 12% no trimestre móvel encerrado em janeiro, atingindo 12,7 milhões de pessoas, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (27) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como professor de matérias como Planejamento Estratégico e Atividade Empresarial, tenho que passar aos meus alunos, o incentivo ao espírito empreendedor através de instrumentos de gestão, sem poder esconder entretanto, que a propaganda oficial de que o Brasil é um país de empreendedores e que, está entre os mais empreendedores do Mundo, esconde as armadilhas fiscais/tributárias e burocráticas de quem quer ter ou tem empresa.

Muda o governo e o discurso permanece o mesmo. Por uma razão simples, durante as campanhas prometem gerar milhões de empregos e uma vez no poder, diante das tantas impossibilidades que as empresas constituídas encontram até mesmo para permanecer existindo, não podem ser criados. Sentido faz. Todo mundo quer trabalhar. Por menor a renda e por menor a oportunidade é sempre melhor que não estar fazendo nada. Para o Estado, melhor ainda: é bem provável que as taxas de marginalidade e violência decaiam nas comunidades onde haja mais empregos e mais oportunidades de empregos. Mesmo para aqueles bolsões urbanos de jovens, à margem da sociedade, que acreditam ser melhor ganhar dinheiro fazendo coisas ilícitas a trabalhar oito, dez horas por dia, sempre que há empregos, não há dúvidas: o emprego é muito bem-vindo, dá identidade, personalidade, cidadania.

Então, quase que esse tipo de artigo se repete, porque, na essência, quer dizer a mesma coisa: não há empregos para todos e, é claro, não há Estado que tenha coragem de dizer isso e não propor uma solução assistencialista cara. Mesmo aquelas pessoas que têm um discurso bem arrumadinho na cabeça, tão logo se faz lembrar que a manutenção de um programa de bem-estar e assistencial a milhões de pessoas que estão sem emprego - ou que se veem numa sociedade incapaz de gerar empregos na proporção da sua população -, mesmo essas pessoas, ao saber quem teriam de pagar mais e mais impostos, acabam declinando sua opinião de responsabilidade. Porque mais imposto não é exatamente o que as pessoas entendem como prosperidade e porque pagar imposto, em uma sociedade como a brasileira, não quer dizer muita coisa para os cidadãos.

Não há Estado que declare que a existência de emprego para todos e até mesmo o pleno emprego são duas utopias inscritas em outras utopias ainda maiores - o mercado livre e o Estado absoluto. Seria impossível ouvir de qualquer governante que a sociedade na qual vivemos não tem capacidade de proporcionar emprego para todos, tampouco estabilidade para quem está trabalhando. Os brasileiros têm uma sociedade com um potencial de emprego bem maior que o que temos. Se há quem não facilite as coisas, esse alguém é o Estado, com seus programas fiscais/tributários e sua burocracia autofágica.

Para compensar a incapacidade de fazer fluir a geração de empregos no Brasil se, lançam-se programas de incentivo ao empreendedorismo. São falsos e poderiam ser melhores se o Estado abrisse mão do seu interesse sem limite de enquadrar a todos em um programa de tributos em que só o Estado é beneficiado e não é capaz de gerar os benefícios esperados pela sociedade, criando uma troca desigual e desnecessária, porque impede a sociedade de evoluir.

Não vejo a sociedade civil se rebelar contra as propagandas oficiais enganosas, especialmente a do incentivo ao empreendedorismo. Ao contrário. Parece entusiasmada, acreditando que a geração de mais e mais empreendimentos de micro e pequeno porte é a saída para um Brasil economicamente viável, portador de presente e futuro. Tudo que o Estado tem feito neste sentido é, simplesmente, propaganda enganosa, colocando em risco milhares de pessoas que transformarão as suas poucas economias em dívidas ativas com a União em pouco espaço de tempo.


Onomástica brasileira - Em 27/03/2019

Caros leitores, aqueles que tiveram e têm o privilegio de lecionar, verificam a maior quantidade de nomes próprios de alunos que as vezes causam espanto pelo tipo de escrita ou de pronuncia. A onomástica brasileira é variadíssima. Onomástica, relembrando, é a relação dos nomes próprios ou prenomes.

Apesar de Portugal falar o mesmo idioma do Brasil, seus nomes de batismo diferem dos nossos. Existem nomes no nosso país, que jamais seriam escolhidos pelos reinóis. Os nomes podem variar de época para época, de região para região e de classe social. Sobre o assunto, o folclorista Mario Souto Maior publicou livro Nomes próprios poucos comuns, que deve ser lido por quem estiver interessado em nomes brasileiros estranhos ou diferentes.

Os nomes dizem muito. Mais que simplesmente identificar pessoas, eles carregam inúmeras conotações. Shakespeare sabia muito bem disso e lançou a frase célebre, "O que há num nome?" Nomes de além significarem, por exemplo, perpetuação de tradições, fidelidade religiosa, etnias ou nacionalidade, querem dizer, também, anseios de mobilidade social, diferenciação, desejo de sucesso, homenagens e outros casos.

Foram muitos comuns nomes terminados em on e de origem estrangeira como Wellington e Robson e para mulher com y no final como Meiry ou Mery. Foi mania tupiniquim a utilização de sobrenomes estrangeiros, de personalidades famosas como prenomes. São o caso de Wilson, Washington, Wellinton, Hindenburg ou Mozart, personagens que tiveram seus nomes de batismo, pela ordem: Tomás, Jorge, Artur, Paulo e João.

Para se constatar a importância dos nomes, o compositor Mozart, na Europa do século XVIII, teve seus nomes modificados três vezes: "seu nome completo de batismo era "Joannes Chrysostumus Wolfang Theophilus. O pai transformou Theophilus em Gottlied, que alatinado deu Amadeu. Mozart usou também nos primeiros tempos o seu nome de confirmação que era Sigimundus".

Os nomes bíblicos eram fortíssimos e não só identificavam como marcavam os destinos e as ações de seus portadores. Por exemplo, Abraão: quer dizer pai da multidão; Davi: amado de Deus; Eva: vida; Jesus: salvador; Cristo: ungido ou messias; Nazareno: consagrado etc. Noutras palavras, os prenomes já diziam tudo sobre o nome.

É assim também em várias culturas indígenas, onde os nomes também dizem tudo. No Brasil, além dos nomes da moda, alguns representam a junção do nome do pai com o da mãe, como Julimar e outras variações. De modo geral, quanto mais alta a classe social, maior a tendência de nomes simples, descendo para nomes mais complexos, por classe com mais usos de ipsilons, de eles dobrados e de dáblios.

Segundo empresa de consultoria que pesquisou em cartórios, os nomes mais registrados no Brasil hoje, são para homens: João, Gabriel, Lucas, Pedro, Mateus, Luís, Victor, Kauan, Guilherme e Vinicius. Para mulher: Ana, Maria, Júlia, Giovanna, Beatriz, Vitória, Letícia, Gabriela, Larissa, e Isabela. O uso de Maria antes ou após o nome de batismo continua no País e muitos nomes apresentam variações diversas, principalmente os alienígenas. O caso de Stefania que se apresenta como: Stefany, Stefane, Sthephany, Estefani, Esteffani, Sthefanny e outras.

A tradição indígena é representada na nossa onomástica com Darcys, Jacys, Jaciras, Kauan etc. A contribuição afro é menos presente nos nomes do Brasil, porém existem prenomes lusos mais frequentes para afrodescendentes. Vejam que Bolsonaro como exemplo não é um nome comum, principalmente para um Presidente da República, embora seja sobrenome.


Anedota - Em 20/03/2019

Certamente um dos poucos desafios que os estudiosos da sociologia e da história da cultura não podem oferecer boas descrições seja aquele que se refere ao da gênese autoral das anedotas. Ou seja , formulando a questão de forma bem direta e simples: quem inventou, quem criou tal ou qual anedota? Desdobrando ainda mais este verdadeiro enigma: desde quando tal ou qual anedota existe? O enigma da datação não é tão complicado assim de resolver. Nem tampouco é difícil localizar no espaço, em uma espécie de geografia do anedotário, onde surgem e permanecem ou não um certo repertório de anedotas.

No Brasil, por exemplo, piadas envolvendo portugueses só caberiam a partir do contexto histórico dos finais do Segundo Império e com o aparecimento da República, vindo até os nossos dias atuais, declinando. Origina-se da diferenciação das nacionalidades e da existência de tensões só compreendidas no bojo dos movimentos pela independência da colônia e posteriormente pela extinção da monarquia. Semelhantemente, entende-se como há um anedotário que parte da percepção das diferenciações étnicas. Seriam as anedotas, por exemplo, sobre judeus e turcos.

Anedota é fundamentalmente um fato da cultura oral, predominantemente urbano e é hiperinformalizada. Não se sabe quem enunciou pela primeira vez uma anedota; não há registros sobre autoria de anedota. Sob este aspecto a anedota é um enigma mais desconhecido do que a origem do universo. Não existe para o anedotário teorias como a do big bang ou do buraco negro. Quem riu pela primeira vez em que uma determinada anedota, criada por quem, foi contada?

Somos talvez irremediavelmente incapazes de formular um mínimo de diretrizes para uma sociologia genética do anedotário, considerando a questão da autoria.Sabemos, mesmo assim, que o anedotário é extremamente dinâmico e, a partir de determinado ponto, ele entra no circuito da criação coletiva em sucessão. Sabemos localizar com mais ou menos precisão o tempo e uma geografia dos anedotários. Ainda bem não somos tão ignorantes assim. Mas sabemos muito pouco sobre o anedotário do ponto de vista comparativo.

Participando alguns anos atrás de um seminário internacional realizado em Brasília, alguém da plateia encaminhou a seguinte pergunta aos participantes da mesa: "Todas as sociedades possuem anedotários, como nós aqui no Brasil possuímos o nosso? É plausível comparar anedotas, vamos supor, chinesas do século vinte, com anedotas brasileiras do mesmo período? Ou não existe anedotário em alguns outros povos, em algumas outras sociedades?

Lembro-me que não respondemos lá muito bem a estas indagações. Há idiossincrasias das sociedades, para complicar ainda mais, entramos aí no terreno das possibilidades da recepção, dos códigos culturais e simbólicos do contador e do ouvinte da anedota. Uma anedota contada e ouvida por duas pessoas do Uzbequistão, será entendida dentro dos códigos do humor e do cômico de um brasileiro? Ou de um espanhol?

Tal como a dinâmica linguística, onde os vocábulos, as palavras - as faladas, principalmente - mudam como que misteriosamente, as anedotas resistem a certas investigações. A história e a sociologia da cultura vão ter de se resignar a conviver sem sentimentos de derrota e de humilhação com o eterno enigma, capricho deste fato fascinante que é o do pensamento e o da comunicação dentro das sociedades.

Nós não estudamos asteróides nem gatos, nem aves migratórias. Estudamos gente, pessoas sociais, sistemas culturais e simbólicos. E, no caso das anedotas, estudamos as heranças das falas e dos ouvidos. Fascinante e não é fácil. Freud estudou o chiste; mas ficou restrito à sua teoria mais geral do inconsciente. Não é suficiente nem um pouco para nós da área das ciências sociais. Vamos ter de ficar mesmo na penumbra enigmática das anedotas e dos seus autores.


Deformação - Em 13/03/2019

Caros leitores, vejo com tristeza o atual Ministro da Educação de nosso país, tomar medidas desnecessárias e depois voltar atrás como se nada tivesse sido feito. Não quero discutir aqui o cantar do Hino Nacional nas escolas, não quero discutir aqui a volta da matéria Moral e Cívica, e muito menos mostrar que o guru do Presidente o filósofo Olavo de Carvalho, é quem manda no Ministério de Educação. O que quero mostrar é que o ensino formal no Brasil vive grave situação de precariedade.

As lamentáveis características negativas que apresenta constituem verdadeiro cemitério e assinalam a morte cultural de sucessivas gerações. São os índices de exclusão do ensino básico de crianças de sete a 14 anos, que deixam as salas de aula para engrossar uma das vergonhas nacionais, a população dos chamados "meninos de rua", e pior ainda aqueles recrutados pelo narcotráfico. É a repetência contumaz, notoriamente, uma das fortes causas do êxodo escolar. É a insuficiência de professores nas salas de aula, deixando centenas de crianças longe das escolas, soltas, livres, ao alcance de todas as seduções da criminalidade. Em resumo, é o mau aproveitamento escolar generalizado, cuja principal consequência é o número assustador de delinquentes infantis e o elevado percentual de adultos analfabetos ou semialfabetizados.

Esse é o quadro gritantemente real que as pesquisas sociais e as estatísticas nos apresentam, refletindo as deformações educacionais do nosso cotidiano, mas sem identificar os fatores agravantes da crise. Fatores menos tangíveis, é verdade, mas ativos, que atingem em cheio, e de forma devastadora, principalmente aquela população iletrada. São os contingentes oriundos do aprendizado informal, aquele traduzido nos fatos diários divulgados pelos jornais e por certos programas de rádio e televisão. É o ensino aspeado, que mascara insidiosamente a mensagem que penetra pelos poros, pelo ar, no ambiente doméstico, através das palavras sedutoras de ídolos que se exibem a distância, mas que a rigor não são vistos em suas privacidades, que não mostram seus valores morais. Entram em nossas casas mesmo sem convite. São simpáticos, belos, galantes, admiráveis, talentosos, quase semideuses, conquistando o público mesmo quando desempenham papéis maldosos. Aparecem nas revistas especializadas, expondo não raros bens valiosos, além de familiares, namorados ou namoradas, e amigos. Frequentam as telinhas das TVs, incorporando personagens que nos encantam, que nos emocionam, mas que se esvaem, ao fim do programa, deixando no ar, para nossa ansiedade, apenas as cenas capitais de um próximo capítulo. São heróis e/ou vilões da ficção, mas que marcam o telespectador no seu dia-a-dia como se fossem corpóreos.

E se é verdade que, enquanto seres adultos e bem-formados, podemos distinguir a ficção da realidade, enquanto seres por completar, estamos sujeitos às mais perigosas mensagens desses heróis e/ou vilões, cujos conteúdos são claramente danosos, sobretudo à estruturação das crianças. Grande e legítima - quase sempre cômoda - é a cobrança que fazem os veículos de comunicação ao setor público e à rede privada pela deficiência do ensino. No entanto, esses veículos parecem esquecer o próprio potencial de eficácia para participar do esforço educacional, potencial que muitas vezes dirigem para o boicote arrasante ao penoso trabalho do educador.

Também é cômodo, embora falacioso e até mesmo irresponsável, atribuir-se aos pais o poder de polícia na seleção de programas e horários aconselháveis a cada faixa etária. Como se a classe média, desdobrando-se, às vezes, em dois, três empregos, tivesse a disponibilidade de controlar, dia e noite, o que as crianças veem na TV... Ao longo dos últimos anos tenho afirmado, em artigos, que alguns desses programas estão arranhando a simetria moral do País.

Basta que se mostre o exemplo de jovens atores e atrizes, alguns recém-saídos da puberdade, que confundem eles próprios fantasia com realismo, protagonizando tragédias, dramas e até comédias passionais, que só a ausência de parâmetros éticos, confiáveis e coerentes pode explicar. São atos e fatos estimulantes para aqueles que chamei de "seres por completar". Atos e fatos que despertam nos adolescentes o desejo incontido de imitar os figurantes imaginários, isto é, de fazer o mesmo que eles, sem noção, por ignorância, por inexperiência, por deficiente formação doméstica e escolar, dos males que descarrega em si mesmo.

Não desconheço que todos os meios de comunicação dispõem de quadros competentes para fazer reportagens de alto nível. No caso das televisões, existem programas muito bem feitos, de interesse didático e científico, nas áreas do meio ambiente, da saúde, da informação agrícola, da tecnologia, entre outras. Cite-se o telejornalismo como um dos pontos exponenciais do que há de mais destacável nos nossos horários televisivos. E não tenho dúvida de que os líderes das grandes redes, os escritores e produtores das emissoras de rádio e TV têm talento e capacidade suficientes para redirecionar suas programações, para se tornarem poderosos instrumentos de revigoramento moral da infância e adolescência. Todos os profissionais envolvidos nas diversas etapas de produção de rádio e TV podem estar seguros de que qualquer iniciativa que venham a tomar nessa direção receberá aplausos. Sem contar com a satisfação pessoal que deve ser a consciência de assim contribuírem para a constituição ou o restabelecimento de valores básicos saudáveis para a família brasileira. De estar educando.


Esperança iluminada - Em 06/03/2019

Passado o carnaval escrevo nesta quarta feia de cinzas, e faço uma reflexão sobre os crimes que estão acontecendo em Manaus e no país inteiro. Jovens de classe média e média alta têm frequentado o noticiário policial. Crimes, consumo e tráfico de drogas deixaram de ser uma marca registrada das favelas e da periferia das grandes cidades.

O novo rosto crime, perverso e surpreendente, transita nos bares badalados, estuda nos colégios da moda e vive em elegantes condomínios fechados. O comportamento das gangues bem-nascidas, flagrado em inúmeras matérias, angustia o presente e ensombrece o futuro. O fenômeno, aparentemente incompreensível, é o reflexo lógico de uma montanha de equívocos.

O novo mapa da delinquência não é fruto do acaso. É o resultado acabado da crise da família, da educação permissiva e do bombardeio de certa mídia que se empenha em apagar quaisquer vestígios de valores objetivos. Os pais da geração transgressora têm grande parcela de culpa. Choram os delitos que prosperaram no terreno fertilizado pelo egoísmo e pela omissão. Compensam a ausência com valores materiais. O delito é, frequentemente, um grito de carência afetiva.

Algumas teorias no campo da educação, cultivadas em escolas que renunciaram à missão de educar, estão apresentando seus resultados antissociais. Uma legião de desajustados, crescida à sombra do dogma da educação não-traumatizante, está mostrando sua cara. A despersonalização da culpa e o anonimato da responsabilidade, características da psicologia acovardada, estão gerando mauricinhos do crime.

O saldo da educação permissiva é uma geração desnorteada, desfibrada, incapacitada para assumir seu papel na comunidade. A formação do caráter, compatível com um ambiente de tolerância e autêntica liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. É a sístole e a diástole da história. A pena é que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio.

Alguns setores da mídia, sobretudo a televisão, estão na outra ponta do problema. O culto à violência e a apresentação de aberrações num clima de normalidade são um convite diário à transgressão. Algumas matérias de comportamento, carregadas de frivolidade, transmitem uma falsa visão da felicidade. Os conceitos de sacrifício e trabalho, pré-requisitos de uma vida digna, foram sendo substituídos pelo afã desmedido de dinheiro e pela glamourização da malandragem. O inchaço do ego e o emagrecimento da solidariedade estão na raiz de inúmeras patologias comportamentais.

O fecho destas considerações não é pessimista. Os problemas existem, mas não esgotam toda a realidade. Na verdade, outra juventude emerge dos escombros. Toda uma geração, perfilada em dados de várias pesquisas, está percorrendo um itinerário promissor. Notável é o entusiasmo dos adolescentes com inúmeras iniciativas no campo do voluntariado. O engajamento dos jovens na batalha da qualificação profissional é indiscutível.

Há, de fato, um Brasil real que está muito distante da imagem apregoada pelos pessimistas de sempre. Precisamos, não obstante a gravidade dos problemas, recuperar a autoestima. A imprensa que denuncia cumpre um papel ético. Mas, ao mesmo tempo, não deve confundir independência com incapacidade de dar boas notícias. Nossa função não é antinada, mas a favor da informação verdadeira. Por isso, o texto que denuncia a cruel desenvoltura do banditismo bem-nascido é o mesmo que registra o outro lado: o da esperança iluminada.


Carnaval - Em 27/02/2019

Eis que chega o Carnaval (em boa hora), ocasião em que o "povão", com muita fantasia, sensualidade e androginia, cria um clima de alegria contagiante, com o fascínio dos sons e das cores, esquecendo as mazelas da vida.

O Carnaval é, em síntese, o culto ao belo. E, como disse o sociólogo italiano Domenico de Masi, referindo-se à festa brasileira: "Durante o carnaval, os pobres oferecem aos privilegiados a sua música, as suas cores e a sua alegria, contagiando-os com a explosão de beleza e de prazer. Um povo pobre de recursos materiais, mas riquíssimo de cultura, disposto a acolher toda a diversidade, a fazer conviverem pacificamente todas as raças da terra e todos os deuses do céu".

Penso como os estrangeiros que visitam nosso país neste mês de fevereiro devem estar se perguntando como é possível que um povo com tantas dificuldades econômicas e sociais - que enfrenta cotidianamente a miséria, o aumento de tarifas públicas, o desemprego, a dengue, o apagão, a violência e a corrupção - seja capaz de produzir e promover de forma tão competente o maior espetáculo da Terra.

Goste-se ou não do Carnaval, é impositivo reconhecer que nada se compara à festa que paralisa o país durante quatro dias e leva para as ruas das grandes cidades não apenas a espontaneidade dos foliões, mas também o profissionalismo, a criar sonhos tão belos, por que não seremos capazes de construir uma realidade melhor?

Os artesãos de Parintins mostram na Sapucaí sua arte mesmo sabendo que as grandes escolas do Rio de Janeiro sempre causam impacto pelo gigantismo e pela inventividade. Arregimentados em todas as camadas da população, os sambistas desfilam solidários e integrados, numa organização de dar inveja até mesmo aos mais disciplinados exércitos. O Sambódromo se transforma num imenso palco, no qual são encenadas verdadeiras obras-primas da cultura nacional, inspiradas nas lendas, nos personagens e nos fatos pitorescos de nossa história. O Carnaval é uma festa, mas é também uma competição que exige muito trabalho e muito planejamento.

A imaginação voa. E os carnavalescos também. Já vimos uma escola carioca fazer um astronauta equipado pela NASA pairar sobre a avenida, agora com uma simbólica fantasia de papagaio. Mais do que isso, duas outras competidoras elegeram "o sonho de voar" como enredo e uma delas apresentou um carro alegórico exemplar para estes tempos de guerras e atentados: o Avião da Paz, tripulado por crianças de várias nacionalidades.

Poderia haver mensagem mais adequada? Há, portanto, sob as fantasias luxuosas, um Brasil capaz e consciente, que sabe transmitir o seu recado. Não se pode ter a pretensão de achar que o Carnaval é um modelo infalível de eficiência: alguns carros alegóricos quebram, adereços se desmancham no meio do desfile, às vezes a bateria desafina e os sambistas erram o passo. Também há deformações lamentáveis em torno da grande festa, crimes, acidentes de trânsito e outros excessos.

Porém estas falhas e mazelas indicam apenas que o grande espetáculo é feito por seres humanos - representativos, nos seus defeitos e nas suas virtudes, da sociedade brasileira. O essencial é que estes brasileiros, os que fazem o Carnaval e também os que não ligam para o samba, têm potencial inquestionável para construir um país digno, justo e feliz. Bom carnaval a todos.


Doutoramento em bandalheira - Em 20/02/2019

Como professor passando décadas dentro de sala de aula, sendo paraninfo de turma, nome de turma, dando aula da saudade, venho com a devida vênia dos meus sofridos e heroicos concidadãos, esperando que esta mal alinhada carta não os encontre nas mesmas dúvidas e sobressaltos que me afligem ultimamente.

Efetivamente, há algum tempo venho constatando, através de pesquisas cuidadosas (e observações cotidianas), além de estudos minuciosos e compilação rigorosa dos fatos científicos, que o Brasil ostenta um acervo tecnológico dos mais avançados em corrupção, bandalheira e incompetência. Na realidade, o estágio alcançado configura pós-graduação em nível de doutoramento, fruto do ingente esforço de um grupo bem selecionado de especialistas.

Entretanto, a referida atroz dúvida se divide em duas semidúvidas: a primeira, como deve reagir o meu exacerbado sentimento nacionalista, ante tão brilhante e reconhecido acervo. A segunda, não menos angustiante, é que os ilustres e impertéritos diplomados não são chamados para receber os respectivos pergaminhos ou, ao menos, nominados para as famosas embora desacreditadas, devidas providências.

Hão de concordar comigo os caros compatriotas, no mínimo esses que ainda têm vergonha na cara e moral para se encarar de frente no espelho, que a diplomação dessa gente é tarefa urgente. Quando não para satisfazer a elementares exigências legais, ao menos como respeito aos, sistematicamente, esbulhados patrícios, cujos impostos, taxas, tributos e demais emolumentos vêm sustentando a alta especialização dos bandalhos.

Talvez o cidadão comum, esse Dom Quixote do dia-a-dia, do aperto orçamentário, da insegurança incorporada ao cotidiano, enfim, do trágico balé da sobrevivência, não se tenha inteirado dos detalhes das doutas teses, surgidas dessa evoluída pós-graduação. Seria pretensão de minha parte, simples mortal da rotina diária, professor de muitas gerações e profissional do tipo retilíneo, desses que insistentemente lembram a seus alunos a existência de um conceito fundamental chamado ética, recomendar o manuseio e a análise de tais teses.

Entretanto, como esta desalinhada missiva é aberta parece-me altamente conveniente colaborar para o aprimoramento dos conhecimentos gerais, sugerindo a leitura de edificantes contribuições técnico-científicas, a exemplo dos bancos e financeiras falidos fraudulentamente, das obras faraônicas inacabadas, das negociatas e desvios do dinheiro público, das construções superfaturadas, das concorrências dirigidas, da alienação do patrimônio público, da propaganda enganosa e da mentira sistemática. Isso tudo, além do rendoso e promissor tráfico de drogas, a cujo crédito deve-se a destruição e morte de milhares de jovens e tem como prêmio a proteção corporativista e a impunidade.

Sem dúvida, as lições daí advindas são indiscutivelmente proveitosas, mesmo que seja para refutar algumas maldosas calúnias e eventuais fofocas, quem sabe frutos até da intriga do povão contra tão ínclitos varões. Fossem outros os temos, seria o caso de pensar na ação de "solertes comunistas" (uma expressão ridícula na atual conjuntura), tal é a extensão do falatório reinante por aí. Afinal, há de concordar comigo o paciente leitor que essa história de bancos suíços, ou de paraísos fiscais, pode ser bisbilhotice de desocupados, tanto quanto os demais cochichos que pairam nos ares.

Por sua vez, teses de somenos importância, como o achatamento salarial, o arrocho dos empresários, a violência urbana, o desemprego endêmico e epidêmico, prestações e juros escorchantes, ficam a cargo de "nós, o povo", desde que só rendem sufocos, úlceras e enfartes.

Enfim, para encerrar esta epístola e, assim, abreviar o tédio de quem teve a pachorra de lê-la até aqui, tenho a convicção de que o inverno de nossa desesperança (com o perdão de Steinbeck), não será longo demais. Há, neste querido Brasil, instituições em que você e eu temos de acreditar, pelo inegável papel histórico que representam. Há inúmeros outros varões, com dignidade, senso de responsabilidade, boa vontade e desejo de lutar contra uma situação que envergonha, deprime e degrada uma pátria que desejamos nobre, altiva e independente.

No mais, sem piada, formulo meu desejo de saúde e prosperidade aos irmãos, fazendo sinceros votos que aquele triste acervo seja metamorfoseado em trabalho sério e honesto, no trato do suado e surrado dinheiro público.


Bestialização - Em 13/02/2019

Caros leitores, parece que sempre bato no mesmo tema, mas hoje quero falar da bestialização. A palavra tradição significa "ato de transmitir ou entregar"; e seu emprego pode gerar certo grau de preconceito nos mais desavisados. Não é raro ouvirmos em nossos dias pessoas dizendo que não aceitam ou não gostam das tradições. Mas a tradição a que me refiro é a tradição saudável, a tradição da família como núcleo primário de uma sociedade sã. A tradição que transmite aos mais novos conceitos de hombridade, dignidade, caráter, solidariedade, honestidade.

Infelizmente para se passar estas virtudes para nossos filhos necessitamos um dia tê-las recebido, ou se as recebemos, tê-las cravejadas em nosso caráter e em nosso coração. Em muitas situações do nosso cotidiano observamos o quanto estes conceitos estão esquecidos ou são lembrados de maneira deturpada. Tomemos como exemplo a televisão com suas novelas que insistem em mostrar para milhões de lares que a vida humana é composta tão somente de várias formas de desajustes. Personagens drogados, alcoólatras, adúlteros, filhos desajustados, pais ausentes, temas de homossexualismo, ou de sexo envolvendo adolescentes.

Tudo isso, abordado de uma maneira superficial e sem os cuidados necessários. E o que nos oferecem nas tardes de domingo, onde na TV nada de aproveitável se vê? Outro exemplo são as músicas difundidas de forma massificada. Pior que não terem conteúdo, propagam conceitos negativos, fazendo verdadeiras apologias ao sexo irresponsável e às drogas. Músicas que deseducam! Temos muitos outros exemplos para citar, como as propagandas com cenas sensuais descabidas, as revistas onde só se mostra as imbecilidades dos famosos. Ninguém pensa algo relevante, apenas se exibem... pessoas muitas vezes extremamente infelizes, mas na vitrine da hipocrisia sorriem e vivem toda a vida como se estivessem sempre encenando.

Tudo por dinheiro! E é isto que vem, já há algum tempo, alimentando nosso povo; povo que cada dia mais rasteja no pântano da ignorância e da futilidade. Uma sociedade desinformada, bestializada. Povo que é transportado através da telinha e vive a novela como se o seu papel nesta vida não fosse real. Esta alienação está muito viva de várias formas entre nós. Ainda nesta linha de raciocínio vejamos a postura de alguns cidadãos frente a algumas situações do dia-a-dia. Pessoas que facilmente se escandalizam com a corrupção de nossa classe política, mas que aqui, no andar de baixo, não hesitam em levar vantagem em tudo que fazem.

E o comportamento inadequado está tão enraizado no leito familiar que já passa depai para filho com naturalidade. A criança tem que ser "esperta", tem que ser a primeira. Crianças violentadas em sua natureza infantil quando são incentivadas, pelos próprios pais, a dançar uma coreografia pornográfica, estimulando nelas uma irrupção de erotismo sem precedentes. A quem interessa o caos? E se neste instante você está achando que este tema está sendo tratado com exagero, e que o que foi tratado até este momento não é nada demais, reflita com cuidado, dialogue com sua família, seus professores, os professores de seus filhos. Por acharmos que "não é bem assim", é que a permissividade se apossou da sociedade e pior, mora dentro de muitos lares.

Precisamos formar cidadãos do bem. Indivíduos que além de educados, no mais amplo sentido que esta palavra possa ter, sejam também informados, possibilitando assim que vislumbremos uma luz neste tempo de penumbra, tempo em que domina a agenesia de respeito ao próximo e a nós mesmos, agenesia de moral, de ética, de pudor, de honestidade, de humildade, de nobreza de caráter e de religiosidade.

A cada dia que passa de uma coisa eu tenho mais e mais convicção, uma sociedade que está decidida em alicerçar-se sobre os preceitos cristãos, é sem dúvidas uma sociedade diferente. É uma sociedade perfeita? Claro que não! Seria ignorância pensar desta forma. Mas seria sem dúvidas uma sociedade mais preocupada em não transgredir as normas de conduta, onde o servir é mais importante que o usufruir; uma sociedade que não obstante os defeitos comuns de seus cidadãos, está preocupada com o bem-estar do próximo, preocupada em não errar - apesar dos erros cometidos.


Vândalos - Em 06/02/2019

As cortinas se abriram para o grande espetáculo. Os candeeiros de "luzes néon" clareiam a esperança do povão brasileiro num enfeite eufórico, era a posse e eleição dos novos dirigentes do Senado Federal. A votação para definir o presidente da 56ª legislatura do Senado Federal do Brasil. Foi uma verdadeira aula de pré-primário, com os senadores se comportando como crianças. Abriram votação para decidir se a escolha do presidente do Senado seria por voto aberto (ou seja, cada senador declarando em quem votaria) ou fechado. Chegaram à conclusão de que o voto seria aberto, por 50 votos a 2. Discutiram por discordar da votação. Adiaram a votação para o dia seguinte Recorreram ao STF, que definiu que a votação seria fechada. Ignoraram a definição do STF e declararam em quem votavam ainda assim Finalmente iniciaram a votação Ao contar, viram que havia 82 votos, sendo que há 81 senadores Tiveram que votar novamente Viram um dos favoritos na disputa se irritar com o voto aberto e desistir de concorrer. Jorge Kajuru discursava sobre o compromisso dos parlamentares quando fechou sua fala cantando um clássico de Ivan Lins: "Depende de nós, que este mundo ainda tem jeito, apesar do que o homem tem feito, que a justiça sobreviverá".

Caros leitores, não é fácil conciliar a livre busca do interesse individual com o respeito a exigências comunitárias fundamentais. Num mundo marcado pela total impessoalidade, a retórica da probidade é mais lucrativa que a prática solitária da virtude. Só que na sociedade brasileira exagera-se na teatralização. Por aqui, a irrefreável tendência a tirar vantagem das situações é encenada, sobretudo pelos políticos profissionais, como indignação contra os desmandos administrativos e a corrupção endêmica. Como a consciência ética é seletiva, irregularidades só são apontadas quando convêm aos que disputam fatias do Poder. Neste país, projetos individuais se sobrepõem acintosamente às instituições. Como é fácil driblar as regras fundamentais do jogo social, a elite se sente sempre tentada a perseguir de forma selvagem seus interesses. Por mimetismo, a classe média e o povão justificam o crescente recurso a expedientes ilegais como imperativo de sobrevivência na selva dos grandes centros urbanos. Enquanto nefelibatas acreditam que expurgos ideológicos podem livrar a sociedade de suas velhas nódoas, os maquiavélicos transformam a lama, própria e alheia, na água benta que os batizará para o exercício do poder. As sociedades que mais estiveram à mercê de surtos de autoritarismo são rotineiramente abaladas por escândalos escabrosos. A vulnerabilidade institucional que outrora ensejou a implantação de regimes discricionários hoje propicia a roubalheira sistemática. Com a aposentadoria dos caudilhos e generais, os ladrões engravatados se profissionalizaram. Na origem do autoritarismo e da ladroagem encontramos uma mesma causa: a debilidade institucional. Se o perigo das recaídas ditatoriais parece mais distante, a fraqueza das instituições dá azo à insegurança generalizada e aos saques programados do Erário. Infelizmente, a sociedade brasileira ainda acredita que seus problemas poderão ser minorados se der a sorte de escolher pessoas honestas para postos-chave. É fraca a consciência da urgência de se criarem dispositivos que fortaleçam as instituições de modo a dificultar as ações dos que desejam manipulá-las em benefício próprio. É interessante notar que se, por um lado, as instituições são débeis a ponto de se deixarem manobrar por interesses pessoais, por outro, o indivíduo delas não recebe a proteção básica a seus direitos fundamentais. O que torna nossa sociedade perversa é o fato de a vulnerabilidade institucional ser benéfica aos poderosos e madrasta para o cidadão comum. Das práticas mais comezinhas do cotidiano às decisões dos mais altos escalões administrativos é patente que as instituições não conseguem impor funcionalidades impessoais. Não servem à coletividade porque funcionam mal e porque se ajustam aos projetos de seus dirigentes circunstanciais. Num certo sentido, continuamos reféns da mentalidade do colonizador. No subconsciente das classes dirigentes ainda subsiste muito do velho desejo de "descobrir ouro" para fazer fortuna e cegar as massas com o ouro de tolo das promessas a fim de manobrá-las. Para os destituídos de "sabedoria", sobra o trabalho duro. O extrativismo econômico se transforma, deslocado para o campo das mentalidades, na atitude de que é preciso tirar vantagem das situações. Por essa razão, pouco se veste a camisa da coletividade. A busca míope de objetivos pessoais e grupais desconsidera os imperativos globais.

Com isso, vão as instituições se afastando dos princípios para a realização dos quais foram projetadas. Como os desvios de conduta não são esporádicos e localizados, difunde-se a sensação de decadência coletiva. Não por acaso, essa eleição do Senado foi precedida de tiroteio entre os caciques da política brasileira. Todos subitamente se convertem à causa da moralização dos costumes. É uma pena, não poderia a casa de Ruy Barbosa, ter mostrado ao Brasil que seus integrantes são garotos marotos de adolescência madura e maquiavélicos.


Dignidade - Em 30/01/2019

O movimento denominado "acesso à Justiça" apareceu como reforma cultural e, inicialmente, circunscrito a uma alteração de ordem processual. Se todos os conflitos devem ser decididos pelo Judiciário, este se torna desaguadouro natural de milhões de processos. Nem todos têm acesso a essa fonte de solução de controvérsias. São conhecidos os obstáculos postos a quem procura pela Justiça. Vasta parcela da população desconhece os seus direitos, não tem acesso à informação. Para discutir suas carências em juízo, há necessidade de intermediação de um profissional que é o único provido de condições para se dirigir pessoalmente ao juiz. A capacidade postulatória afasta milhões do equipamento justiça, pese embora a previsão constitucional da assistência jurídica integral. O processo convencional ainda é formalista e hermético. Litigar custa dinheiro. As lides perduram uma eternidade. Tudo isso torna a Justiça distante e gera descrença e desalento. Outra vertente do acesso à Justiça considera reducionista a tese do acesso ao processo. Acesso à Justiça deveria ser traduzido como acesso à ordem jurídica justa.

Esse enfoque parte do pressuposto de que o Estado de Direito é o Estado da Lei. Vive-se um Estado formal de Direito. A Constituição da República é principiológica e dirigente. Contém mandamentos os mais avançados dentre os prestigiados pelo Primeiro Mundo jurídico. Também não faltam leis. Ao contrário, constata-se uma verdadeira inflação legislativa. Há lei para tudo. Só que a lei já não é a expressão da vontade geral nem pode ser definida como relação necessária extraída da natureza das coisas. As leis, na complexidade do mundo moderno, passam a ser respostas conjunturais, tópicas e muito fluidas, para interesses bem localizados. A lei na pós-modernidade é o fruto do compromisso possível entre múltiplos interesses conflitantes. Por isso, o produto do Parlamento é necessariamente ambíguo. É uma obra semi-acabada, que virá a ser suprida pela ação do Poder Judiciário.

Dessa missão de complementar a tarefa do Legislativo, resulta muito da incompreensão a que o juiz contemporâneo está sujeito. Como encarar, daqui por diante, o movimento do acesso à Justiça? Para encaminhar as questões do acesso ao Judiciário seria importante ultimar a profunda reforma estrutural que tanto se apregoa e a cujo termo não se chega. A proposta de emenda à Constituição que reforma o Judiciário está em discussão há mais de 15 anos! Enquanto não se altera o texto constitucional, nada impede se invista na linha da simplificação, com incremento na informatização, reforço da primeira instância e redução do rol de recursos que fazem perenizar o processo. Acatar-se o duplo grau de jurisdição é diferente de se instaurar a possibilidade de se consagrar um sistema em que existe um verdadeiro quádruplo grau de jurisdição, com inúmeras variantes de percurso recursal. Também se deve buscar a eficiência, princípio da administração pública a que o Judiciário também se submete, estimular-se a adoção de alternativas de resolução de disputas e a criatividade dos operadores do direito. Se possível, com o envolvimento de toda a sociedade. Pois a Justiça existe para o povo e este precisa ser consultado e opinar sobre que tipo de Justiça é a mais conveniente para uma nação com os problemas e a diversidade do Brasil.

Na busca da ordem jurídica justa é mister o fortalecimento da cidadania. Não é por acaso que a Constituição de 1988, tão criticada, se cognominou "Cidadã". O Estado de Direito deveria ser o Estado dos cidadãos. E como se aprimora a cidadania, que é o direito a ter direitos? Mediante a educação e o estímulo à participação. O constituinte quis uma democracia participativa, não meramente representativa. A participação é que retroalimenta a vivência democrática. Já existem mecanismos postos pelo constituinte para favorecer o exercício de uma democracia quase direta, qual a iniciativa popular. O cidadão pode aperfeiçoar a ordem jurídica, tornando-a mais justa, se vier a se valer das Comissões de Participação Legislativa.

Com isso, poder-se-á caminhar mais no movimento do acesso à Justiça, para que ele seja um verdadeiro acesso à dignidade. A vida humana só vale a pena se for uma vida digna. E a exclusão impede que milhões de brasileiros exerçam o seu status civitatis.

Aqui, o caminho é a restauração da ética. Em todos os setores, mas não a retórica ou o discurso vazio. A vivência da ética da compaixão, a ética da solidariedade, a ética da inclusão. O verdadeiro progresso não se mede por índices materiais, mas por aqueles que permitem identificar o êxito moral. O prestígio dos valores, dos sentimentos, da sensibilidade. A muitos bastaria o reconhecimento de sua condição integral de criatura humana, independentemente da mera facilitação ao processo. Abreviar a conquista do acesso à dignidade trará, por acréscimo, o acesso à ordem jurídica justa e, finalmente, o acesso à verdadeira justiça.




Somos o que somos - Em 23/01/2019

Em conversa com alguns amigos, o tema foi o envelhecimento. Amadurecer, envelhecer deveria ser visto como coisa natural, do mesmo modo como vemos, o crescer na infância e o adolescer na juventude. É a vida avançando no tempo. Nenhuma etapa do desenvolvimento gera tanta inquietação como o envelhecer. Essa etapa, mais que as outras, revela a finitude em nós, fonte de angústia e inquietação existencial.

O medo de envelhecer nos reenvia à certeza da morte. Mas os estágios da maturidade e da velhice inquietam, sobretudo, porque são vistos, como um tempo só de perdas, retrocessos, doenças e limitações. Onde ficam as ampliações do ser, que conquistamos até a idade adulta e o envelhecer? Não contam a experiência acumulada, a sabedoria conquistada, o brilho que vem de dentro, a capacidade de compreender, a bondade para com os outros, a dignidade no existir?

Nem sempre os idosos revelam essa face bonita em seu existir, seja porque descuidaram dessa construção em seu tempo, seja por condições adversas que os impediram de viver a alegria de ser quem são. Somos nossa própria história, a cada etapa em que vivemos. O que vamos experienciar mais adiante, depende da história que escrevermos em nosso tempo. Por isso o tempo é agora. É preciso amar o presente e o que foi construído, para que se possa aceitar como natural o que é natural, acolher bem o que não pode ser modificado e viver do melhor modo possível, o que há para ser vivido.

A Sociedade do Espetáculo, com a qual convivemos, não chama a atenção para o brilho que vem de dentro das pessoas maduras, enfoca, ao contrário, a falta de brilho da pele, os sinais da aparência modificada pelo tempo, o corpo marcado pelo peso dos anos vividos. Nessa sociedade não aprendemos a ver beleza nas marcas que o tempo inscreve em nosso corpo. "Hoje trago em meu corpo as marcas do meu tempo", cantava Taiguara. Porque essas marcas teriam de ser vistas como feias? Elas compõem nossa história.

Hoje há meios e técnicas plurais para o cuidado com a beleza externa, mesmo assim não conseguimos ser mais felizes. Nossa civilização não vê seus idosos com olhos da alma, da inteligência, do coração da emoção. Vê-se apenas a textura da pele, a silhueta, a idade e o visual. Detalhe apenas, não a pessoa. Veem aparências, o lado de fora, passos vacilantes, corpos em involução. Cada sociedade vê o que pode ver. Precisamos ter um olhar próprio, saber que é possível envelhecer com alegria, elegância, dignidade e vitalidade.

Há idosos que participam desse modo preconceituoso de ver a velhice. Envelhecer pode ser grande, se acreditarmos e acalentarmos, projetos próprios de bem-estar. Estamos vivos e interessantes, enquanto somos interessados, criamos, elaboramos e nos apropriamos de nosso destino. Existir no seu tempo é a arte por excelência de nosso desenvolvimento como pessoas, em todas as fases. O tempo, em cada estágio da vida, tem seus encantos e desencantos. A velhice pode ser um tempo de encanto, serenidade, mistério, confiança, sedução, elegância diante dos fatos. Um tempo sem a urgência das relações, onde se pode viver mais apoiado na própria construção interna que foi feita.

Sexo não é tudo, há muitas outras coisas importantes e prazerosas na vida. Pode-se aprender a amar a própria companhia e a dos outros, mas não se pode fazer do outro um cabide para os próprios sonhos, ou para a felicidade. "Quem se subestima precisa de alguém ao lado para confirmar sua validade como pessoa", lembra Lya Luft. Envelhecimento é tempo de perdas sim, e a força para enfrentá-las terá de vir de nós mesmos. Encorajamento, fortaleza e confiança perante a vida, resultam de uma construção pessoal no transcorrer do existir.

Começa cedo o trabalho por um envelhecimento com qualidade. Supõe o sentido do que fizemos a nós mesmos, aos outros e ao mundo. Supõe que se consolide nosso ser pessoas, satisfeitas com a vida e a passagem do tempo. O sentido do que fazemos, é encanto para a existência. Ele dá graça, sabor e sustentação à nossa história. O vazio de sentido, é capaz de proporcionar uma velhice angustiada. Integrando, amando a própria história, teremos razões para sentir bem-estar no envelhecer. Seremos a história que conseguirmos escrever nas páginas do tempo em que vivemos. Ela pode ser tecida de coisas simples ou grandiosas, mas que significam.


Queixas - Em 16/01/2019

Depois que se vulgarizaram as técnicas de avaliação do comportamento de eleitores e consumidores no País, ficou de fato mais difícil a vida dos candidatos a postos eletivos, gestores públicos em atividade e prestadores de serviços diretos às comunidades. Tudo hoje se avalia, nada escapa ao tirocínio da pesquisa de opinião, é raro o produto, mercadoria e serviço ficar à deriva da investigação minuciosa desses profissionais capazes de indagar mais do que os próprios agentes da segurança pública.

Daí que vez em quando saem matérias jornalísticas nos meios sociais de comunicação, informando a posição deste ou daquele produto, desta ou daquela opinião popular sobre os serviços recebidos diretamente pela população, ora oferecidos e prestados pelos órgãos do poder Público, ora pelas empresas e firmas do circuito privado e particular. Nada escapa, conforme apontamos acima, à visão da pesquisa, ao crivo da estatística de ocasião, momentânea. É claro que se trata, na maioria dos casos, de levantamentos fortuitos, ligeiros, feitos num abrir e fechar d'olhos, e de resultados avulsos, muitos deles sem o menor compromisso com a permanência e a duração. Hoje é uma coisa, amanhã já é outra.

Malgrado estas circunstâncias caracterizadoras da pesquisa de opinião, ela funciona como a verdade de um curto momento, serve como a fotografia da ocasião, não deixando, pois, de dizer alguma coisa, de emitir algum sinal de informação. Órgãos e entidades que mais diretamente convivem de modo assíduo e mesmo obrigatório com a população - dada a natureza da atividade a que se dedicam - passam a alvo preferencial do sistema de coleta de opiniões. Se sofrem com isto, é claro que sofrem, mas, tudo é consequência do estilo de funcionamento e da natureza do produto que oferecem.

Ainda agora final do ano, saiu o inventário das queixas da população, as reclamações dos clientes de dezenas de serviços públicos e particulares que têm a ver com a satisfação coletiva. Nesse rol, o setor que em Manaus mais terá acumulado queixas anotadas na Procuradoria de Defesa do Consumidor (Procon) é o que abriga os Planos de Saúde. A clientela se diz insatisfeita porque as entidades do setor praticam aumentos abusivos na mensalidade por faixa etária e também porque não se tornou satisfatória a oferta para a migração do segurado de um para outro plano ou programa.

A exigência de reembolso da parte dos profissionais da medicina é outro ponto que motiva o surgimento de sem-número de reclamações. Nada menos que dezesseis empresas prestadoras do serviço complementar de saúde foram objeto de queixas generalizadas e veementes da parte da respectiva clientela. A lista do Procon coloca em segundo lugar a distribuição da energia elétrica, mas, a razão principal das queixas não diz respeito à qualidade propriamente dita do serviço, mas, à anulação do benefício tarifário de vários grupos dos consumidores de baixa renda. É de ressaltar que nisto a decisão não é da concessionária local, sim, das autoridades com assento na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Reclamações contra o corte do fornecimento por inadimplência não têm consistência nem legal nem ética. A telefonia móvel ficou em terceiro lugar nesse ranking desprimoroso. As queixas aí se concentram na falta de pormenorização das contas mensais e na contagem defeituosa de pulsos medidos pela franquia. Os serviços d'água e esgoto e os cartões de crédito situaram-se depois como atividades que igualmente geraram número inusitado de reclamações ao longo do exercício.


Paradoxal -  em 09/01/2019

Mamilos à mostra, mesmo que aconteça em meio a corpos seminus, nas praias e piscinas, geram bate-boca. E piadas. E assobios marotos. E mesmo brigas. E podem destruir reputações. Cá no Brasil, já deram até prisão. Juntamente com a genitália (que é, como esclarece o Aurélio, o "conjunto do órgão copulador e anexos nos artrópodes"), eles, os mamilos, são o patinho feio do corpo feminino. Assim sendo, não devem ser exibidos em público. Ao contrário, cumpre que sejam mantidos longe dos olhos alheios. Essa norma é um imperativo da moral e dos costumes vigentes neste país tropical. Se ela resulta igualmente de dispositivo legal ou não, é matéria controversa que não cabe discutir aqui.

Suponho que o eventual leitor desta crônica esteja imaginando que este introito vá desembocar numa acusação ou defesa do topless. Esclareço-o logo: nem uma coisa nem outra. Meu intento é apenas o de divulgar o resultado de um levantamento que fiz à beira-mar, durante o verão que pouco a pouco, e infelizmente, vai se encaminhando para seu encerramento oficial. Trabalho sério, embora realizado na base do "olhômetro" atento e imparcial. Sua conclusão - a qual de certa forma já antecipei de início - foi esta: ao contrário do que se costuma dizer, ler e ouvir, não são exatamente os seios desnudos que sofrem restrição e até punição no Brasil.

Contra a exibição de seu formato, de suas cores, de sua rigidez ou flacidez nenhuma reprovação se faz sentir. Eles por aí andam à mostra, não só nas praias e nas piscinas, mas também nas ruas, nos salões e até nos templos religiosos. A olho nu, contanto que os mamilos estejam discretamente cobertos, podem ser vistos e dimensionados com extrema facilidade, graças aos cada vez mais generosos decotes dos vestidos, blusas, sutiãs e maiôs de uma ou duas peças - todas elas partes de um vestuário feminino a cada dia, a cada verão, mais e mais sumários e transparentes como os céus dos mais belos dias de outono...

Lembrado isso, volto aos mamilos. É através de sua exibição ou não que se costuma avaliar o maior ou menor grau da pudicícia das mulheres de hoje. Se os mantiver cobertos, ainda que, como hoje se observa no litoral e nas piscinas, com uma simples tirazinha à guisa de sutiã, tudo bem, muito a contemplar, nada a reclamar...Postas estas considerações, resta-me compor um final que as justifique, livrando-as de qualquer conotação picaresca passível de má interpretação.

E o que me ocorre é esta lembrança que põe a descoberto este paradoxo: por incrível que pareça, o mamilo é justamente a primeira parte do corpo feminino com o qual o homem visualiza e toma contato, não sem antes reclamá-lo aos prantos... Apesar disso, o topless, por mostrar o que mostra, a muitos de nós escandaliza. Já quanto às nádegas femininas, bem mais carnudas do que os seios, só por não terem mamilos, nenhuma restrição visual. Enfim...


Diálogo - Em 02/01/2019

Janeiro é mês importante para que se faça a programação do ano. Para inicio de conversa, vale lembrar que já para o exercício da cidadania em geral, há um preparo que poderia ser desenvolvido pela população. Refiro-me à prática do diálogo intencional (isto é, não do ''papo furado'' ou da ''conversa de mesa de bar''), da reflexão sobre processos de disputa de poder nos mais diversos ambientes, da prática da assertividade.

Somos, ao contrário, um povo habituado, o mais das vezes, a transformar as coisas mais graves em jocosidade, o que se acredita ser virtude, sinal de bom humor e de saber viver. Se o riso é um dos mecanismos mais efetivos para corroer práticas autoritárias, manifestando-se, por exemplo, em humor refinado ou ironia elegante, o uso exacerbado e sem critério leva a atitudes que a tudo vulgarizam, banalizando o que é nobre e digno, muitas vezes ridicularizando-o, ou menosprezando conquistas importantes, inviabilizando-as. Ou, o que é pior, a exposição se faz pela incompreensão, acarretando constrangimento, fazendo com que o alvo da banalização do momento (como gente valorosa demais, que acaba sendo chamada de ''uma gracinha'') até sinta desejo profundo de sumir, invisibilizando-se.

Gente que leva as coisas a sério pode ser chamada de mal-humorado, soturno, enquanto quem faz o tipo ''alegria da festa'' pode ter a popularidade máxima - ainda que na ética seja lamentável, mas pelo menos ''como é divertido''. Vale relembrar aspectos menos encantadores do louvado jeitinho brasileiro (também responsável pela burla a leis, em nome do ''jogo de cintura'') para buscar compreender as cenas grotescas a que assistimos, no ano que passou, entre membros do Poder Legislativo, nas diversas esferas, em diferentes pontos do território nacional, em diferentes momentos.

É certo que também assistimos a processos inéditos, que levaram à retirada, da cena oficial, de figuras que anteriormente ocuparam lugares destacados, tudo provocado por comportamentos inaceitáveis, antirregimentais, ilegais. Discussão franca e abertura pública dos procedimentos - facilitada em boa parte pela presença correta da mídia - propiciaram o início de novos ares para a democracia tenra que se constrói no Brasil.

Lamentavelmente, não deixaram de continuar havendo sopapos e troca de insultos entre outros representantes eleitos pelo povo para representá-lo na defesa da cidadania e não na cópia das características que mais o fragilizam, porém o início de transformação é evidente. É por isso que vale a pena que as autoridades, por exemplo, do Poder Legislativo, pensem alternativas para a formação dos políticos, que haverá de redundar em benefícios para a população como um todo, tanto em termos de ser mais bem representados quanto em relação à possibilidade de transformação de mentalidade.

Processo característico do tempo de longa duração, é evidente que o Brasil tem, dentro de si, a convivência de vários brasis, não só na óbvia diversidade étnica, racial, cultural, religiosa - e já é difícil adjetivar, tão diversa é - como também na multiplicidade de modos de mentalidades, que se combinam com a diversidade. Não se trata de refletir sobre a heterogeneidade de, por exemplo, posições políticas que convivem no interior de cada uma das diferentes manifestações da diversidade. Trata-se de algo diferente, que torna o quadro mais complexo, impossibilitando previsões. Assim como não se pode falar de ''identidade nacional'' sem referir à construção cotidiana do Brasil que se compõe e recompõe na diversidade, não se pode falar de ''mentalidade nacional sem encarar uma miríade de interseções e desdobramentos.


Tempo de concórdia - Em 26/12/2018

Novamente quedo-me a esta quadra privilegiada do ano. Fase de aliviar a tristeza, dar trégua à amargura, tolerar o erro, conviver com a fraqueza, sepultar o ressentimento e, especialmente, avivar expectativas por mais tênues que sejam. Instante de aceitar, aproximar, perdoar, esquecer os agravos, renovar as esperanças. Esperanças que se anunciam como possibilidades de superação dos problemas e probabilidades de concretização de planos, projetos, desejos e sonhos. Tudo isto porque de esperança vive o homem, que nela busca amenizar a aridez do cotidiano e espera a realização de incontáveis probabilidades. Daí o interesse de mantê-las sempre vivas, mesmo diante da perspectiva de um possível fracasso, pois são elas que sustentam o ânimo, contribuindo para a vitória sobre o desencanto.

Tempo de novo Ano é tempo de concórdia, em que as divergências tendem a ser superadas e o homem, submetido às celebrações do momento, sente a necessidade de irmanar-se, confraternizar-se e acolher o próximo. É tempo de ter fé e de acreditar na capacidade de o homem transformar o mundo, mediante a prática do amor e da solidariedade, promovendo, ademais, o abrolhar do sentimento que a todos irmana - a fraternidade. Temos que pensar (e é isso que faço sempre) que existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência.

Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nossos dias e que deixou marcas. Poderá ser uma música, quem sabe um livro, talvez uma poesia, uma carta, um Natal, uma viagem, uma frase que alguém tenha nos dito num momento certo. Quem sabe uma amizade incomparável, um sol que foi alcançado após muita luta, algo que deixou de existir por puro fracasso. Pode ser simplesmente um instante, um olhar, um sorriso, um perfume, um beijo.

Para o resto de nossas vidas levaremos pessoas e até animais (como minha Mona) guardadas dentro de nós. Umas porque nos dedicaram um carinho enorme, outras porque foram o objetivo de nosso amor, outras ainda, por terem nos magoado profundamente. Lá na frente é que poderemos realmente saber a qualidade de vida que tivemos. Bem lá na frente é que poderemos avaliar do que exatamente foi feita a nossa vida, se de amor ou de rancor, se de alegrias ou tristezas, se de vitórias ou derrotas, se de ilusões ou de realidades. Penso sempre que hoje, apesar de entardecer a vida é só o começo de tudo, que se houver algo errado ainda está em tempo de ser mudado e que o resto da vida, de certa forma, ainda está em minha mão.

Nesta época ficamos mais emotivos, mais humanos, porque o ano que se avizinha é promessa de esperança e símbolo de renascimento. Ninguém é capaz de esquecer, como disseram alguns sábios, que o Sermão da Montanha resume um código que, se observado ao pé da letra, seria bastante para estabelecer a concórdia entre todos. Que este Ano Novo seja um convite a reconciliação e uma luz capaz de superar as trevas que surgem no horizonte, e ainda, que este ano seja uma prece para apaziguar os irmãos separados, tirar o ódio dos corações e realizar a paz que Ele nos prometeu.

Um 2019 venturoso para todos.


A árvore de Natal - Em 19/12/2018

O catolicismo herdou do império romano não só o latim mas o gosto pela magnificência pública, amando a arquitetura grandiosa, a estatuária e a pintura mural. Os imensos estádios do romanos, como o Coliseu - templo erguido ao divertimento cruel -, foram substituídos por catedrais gigantescas cujas torres ambicionavam alcançar os céus, local de êxtase e de veneração a Deus. Enquanto o papa assumia as vezes do imperador, as procissões religiosas, tendo o bispo à frente, apagaram para sempre as marchas triunfais dos cônsules e dos generais romanos de outrora. O espaço todo das igrejas, das abadias e dos mosteiros, foi entregue a artistas de gênio para que os preenchessem com santos e santas, como os afrescos de Cimabue e Giotto na Basílica da Assis, ou com passagens bíblicas como a Santa Ceia de Leonardo da Vinci ou a Criação do Mundo que Miguel Ângelo celebrou nos altos da Capela Sixtina.

O catolicismo ganhava os seus conversos pelo catecismo, sim, mas também pela imponência dos seus cortejos e cerimônias litúrgicas, pela exuberância da sua arte pública, por colocar o talento de um Brunelleschi, de Bramante ou de Alberti ao seu serviço, ação que fez da Itália o lugar com a maior concentração de obras-primas que se conhece no mundo todo. Ao adentrar-se numa nave de uma igreja ou de uma catedral, inundada nos dias de sol pelos reflexos multicoloridos dos vitrais, tendo ao fundo o som harmônico de um soberbo coral de monges, ao sentir-se aquele êxtase, onde o construtor, o pintor e o cantor deram o melhor de si para torná-la um recinto divino, como não acreditar que o próprio Deus não estava ali presente? Como o monge Martim Lutero ousou desafiar aquilo tudo?

Pois foi exatamente aquela suntuosidade herdada do império que o teólogo alemão acreditou ser insuportável aos que se diziam seguir Jesus Cristo marceneiro. Para Lutero, o cristianismo fora uma notável revolução dos cordeiros, da gente humilde da antigüidade que se insurgira contra as injustiças do mundo pagão. Porém, com o passar do tempo, ainda que vitoriosos, eles viram-se usurpados pela casta sacerdotal, sucessora da burocracia imperial em decadência, ocasião em que o pároco substituiu o pretor romano.

Concentrando toda a autoridade no trono papal, os altos eclesiastas, descendentes do antigo patriciado romano, esvaziaram as comunidades cristãs da sua primitiva autonomia, inclusive do direito de escolherem seus próprios pastores, como os cristãos faziam antes, nos primórdios, elegendo bispos Agostinho e Ambrósio. Pior ainda, como ele expôs no Manifesto à Nobreza Alemã, de 24 de julho de 1520, fizeram do papa "Senhor do Mundo", quando o próprio Jesus Cristo insistira que o seu reino era o Reino do Outro Mundo.

Aquele riqueza artística que se concentrava em Roma, a monumental Igreja de São Pedro que se erguia naquele momento, era, no entender dele, fruto ilegítimo das arrecadações que o papado ordenara extrair da Alemanha em troca de favores a serem alcançados no mundo sobrenatural. Era com o ouro das Indulgências, surripiado dos beatos alemães por negociantes e clérigos espertos, que erguiam-se os templos e mantinha-se o luxo em Roma. Os cristãos, portanto, com a Reforma por ele liderada, deviam retomar o que era seu, reconquistar o seu império perdido. Para tanto, ele tratou pessoalmente de traduzir a Bíblia para o alemão a fim de que os crentes pudessem saber quais eram os ensinamentos de Deus, bem como novos hinos deviam ser cantados, compostos pelo povo mesmo.

Rompido com Roma, deixando o celibato, casou-se e fez do seu lar uma celebração diária a Deus. Cada um deveria seguir caminho igual, compor seus próprios oratórios, tornar o seu recanto uma capela, fazer da sua família um coral, rejubilando-se pela boa vida e pela liberdade alcançada. Por toda a Alemanha surgiram músicos, organistas ou pianistas, consagrando a vida às partituras e aos instrumentos. É Lutero, pois, quem está por detrás de Bach, de Haendel, de Haydin, de Mozart, e de Beethoven. Seguindo seus próprios conselhos, ele casou-se em junho de 1525 com Katharina von Bora, uma freira que, desertando do convento de Nimbsch, procurara refúgio em Wittemberg. Teve seis filhos com ela.

O lar para Lutero, o privado, passou a ser a verdadeiro templo do cristão reformado. Era ali que davam-se as Tischreden, as conversas ao redor da mesa entre os pais e os filhos que fazia as vezes da comunhão. Faltava-lhe ainda algo que pudesse celebrar de uma maneira mais íntima e festiva o Natal. Certa vez, numa daqueles noites geladas da Alemanha, nas proximidades do Natal, ao retornar para casa Lutero encantou-se com a paisagem. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam a trilha, viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores.

Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida uns papeluchos coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Pronto, era aquilo que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Nascia assim a árvore de Natal. Feliz Natal a todos.


Divagações - Em 12/12/2018

Caros leitores, novamente me pego escrevendo divagações. É fácil escrever sobre o que acontece no dia a dia, mormente quando o nosso Estado e o Brasil mudam de governantes e a perspectiva é grande, mas frustrante também. Mas a vida é tão curta - dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe - que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará? Essa ficará. Há pouco o que fazer num palco de enunciados apócrifos. É hora de levantar os braços e pedir clemência. Talvez reste apenas a prece da súplica. Em silêncio absoluto, com a vela acesa, chorando pingos de parafina, flambando as poucas esperanças que sobram, peço paz para os homens de boa-vontade. Não encontro os campos de girassóis. Que direção tomar? Exaurido da procura, refugio-me no claustro, lendo, escutando música erudita, meditando sobre as razões que me tornam cada vez mais frágil, cada vez mais impaciente, cada vez mais vulnerável... Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa. Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor. Acabo sempre em fuga, aceitando a condição de monge. E regalo-me com a escolha. As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu-lugar. Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.


Tiros e sussurros - Em 05/12/2018

Não há mais sono no Brasil. As noites e os dias são longos. Em cada estado, em cada cidade, cada rua, cada casa, a respiração calma do sono foi cortada, como se noite de estio pesada e sufocante incendiasse a atmosfera e confundisse os sentidos. As pessoas, aqui e ali, que outrora navegavam suavemente no barco escuro do sono, ouvem agora o caminhar dos relógios e sentem dentro de si o verme da inquietação e os corações machucados. Uma humanidade inteira se consome na febre, noite e dia, em perene vigília através dos sentidos excitados de milhões.

O destino penetra invisível por janelas e portas, e afugenta o sono e o esquecimento de cada leito. São tempos perigosos esses que vivemos, com cada um espreitando a distância longe de si. Há o temor do desemprego, das balas perdidas, da bandidagem negociando com o governo, com a insegurança afugentando as multidões solitárias que povoam as ruas em busca de trabalho. A tibieza, a fraqueza com que o governo enfrenta a bandidagem mostram que o país vive uma guerra civil, que Brasília não reconhece, por motivos políticos.

Não há emprego, as pessoas se temem; não há perspectivas do amanhã nesses dramas sociais que aterrorizam trabalhadores, empresários e a polícia. É assim em São Paulo, Rio, Recife, Belo Horizonte e Manaus, onde viver e trabalhar já foram atos mais generosos. Não podemos perdoar essas ofensas.
A guerra civil, que encontra especialistas para explicar por que a bandidagem está irritada, faz vítimas que a imprensa internacional mostra, sem piedade com este país infeliz, povoado por desempregados, congressistas corruptos, governo fraco e um presidente que não sabe o que diz.

Nessa transformação da vida, todos estamos atrelados aos acontecimentos, ninguém permanece frio diante do terror da violência que se espalha, forçando a conclusão de que o Iraque e o Haiti não são muito diferentes da realidade que vivemos, uma espécie de febre do mundo. O que se pretende é transformar o drama em tema eleitoreiro.

Esses fatos não são uma visita aos despreocupados, à comunidade agonizante de esperanças de nosso país. Pela visão crítica dos jornalistas desfilam homens e mulheres, símbolos vigorosos da vida a temer pelos filhos que se atrasam nas noites violentas, com expectativas de impressionante agudeza e gravidade. São dias perigosos que se somam a noites aterrorizantes.

No discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1972, Alexander Soljenitsin disse que a violência não existe e não pode existir por si só. Ela está invariavelmente entrelaçada com a mentira. E assim ocorre.


Desarmar e não armar - Em 28/11/2018

Dentre as medidas que o futuro Presidente Bolsonaro, prevê em colocar em prática, é a tolerância as armas de fogo para que o brasileiro possa comprar e ter, Sou radicalmente contra e essa é a minha opinião, não me venham depois nos comentários, discordar me acusando, repito essa é a minha opinião. Não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita. Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco. Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal-Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu. Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso. Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo. É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, "desarmamento seja o novo nome da paz" como disse o desembargador Paulo Gadelha no Diário em 9 de outubro. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro. Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados. O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos. Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução. Otávio Paz avalia: "O ocaso de nossa imagem do amor seria uma catástrofe maior que a derrubada de nossos sistemas econômicos e políticos: seria o fim de nossa civilização". O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Restrepo diz que isso deve ser adquirido "no terreno amoroso, do produtivo e do político, arrebatando territórios em que dominam há séculos os valores da vingança, da sujeição e da conquista". O amor e a sexualidade devem nos desarmar. Por isso compartilharemos as alegrias e a saúde emocional que uma boa vivência da sexualidade possibilita ao cidadão. As reflexões que fizermos poderão facilitar desarmamentos. Assim, nossa mão poderá estender-se para o afago e a solidariedade não para a violência. O amor e a paz não serão possíveis se estivermos blindados afetivamente.


Deformação administrativa - Em 21/11/2018

Começa um novo governo, estadual e Federal, há uma dificuldade de preenchimento de cargos públicos pela meritocracia, não há continuidade como ocorre em países desenvolvidos onde a máquina pública é permanente e imune à alternância no poder.

No Governo Federal o Presidente tem que prover cerca de 22 mil cargos na administração federal. A inexistência de limitações precisas entre os cargos de natureza política e os de natureza técnica é uma porta aberta para o clientelismo em nosso país. São tantos os cargos comissionados que a administração pública, em todos os seus níveis, acaba sendo contaminada por um elevado grau de politização, com prejuízo do mérito e da eficiência.

O poder de nomear e de exonerar assegura aos governantes e aos ocupantes dos postos mais elevados uma arma imbatível no jogo político. Tal é a liberalidade do comando político no provimento de cargos comissionados que a profissionalização acaba sendo desestimulada.

O mais grave, porém, é a utilização deste poder como instrumento de barganha política. Não são poucos os governantes que se valem da estratégia das nomeações para conquistar apoio político nos parlamentos, fazendo dos cargos públicos uma moeda de troca. É uma prática corruptora e danosa para o contribuinte, que acaba tendo que sustentar o nepotismo, a ineficiência e o apadrinhamento de políticos muitas vezes rejeitados pelo voto.

Ora, é evidente que o cargo público não é propriedade de quem dele dispõe para a livre nomeação. Já está mais do que na hora, de o Brasil substituir o sistema de apadrinhamento pelo sistema do mérito, de modo a valorizar a profissionalização e os planos de carreira. A redução de espaço para nomeações políticas certamente contribuirá para o aumento da eficácia administrativa, além de reduzir a margem do clientelismo e da corrupção.

O empreguismo tolerado na administração federal multiplica-se pelos demais estamentos da federação, incluindo todos os poderes, tornando a máquina burocrática permeável à vontade política dos governantes de plantão. Trata-se de uma deformação histórica que precisa ser corrigida pelo incentivo à carreira e à profissionalização, sem que os servidores profissionais fiquem isentos do necessário controle da sociedade.

Cumpre apontar um paradoxo que persiste à evidência: como podem ideias e conceitos colocados à prova da realidade permanecer em voga, não obstante tenham apresentado resultados práticos muito aquém daqueles propugnados pelos seus defensores?

Refiro-me a políticas de planejamento central, controles burocráticos e regulamentação estatal, tendo sempre como pano de fundo a demagógica supremacia do interesse do burocrata (dito coletivo) sobre a escolha dos indivíduos. Tem-se a impressão de que uma cortina de fumaça, levantada por ideologias plasmadas pelo credo quase religioso e, portanto, à prova de qualquer crítica, continua a fazer com que as pessoas não queiram enxergar, seja por fé cega, seja por interesse próprio. Com isso, acabam por virar as costas à realidade, comprovando a antiga sentença de que as convicções são mais inimigas da verdade que as mentiras.


Jazigos - Em 14/11/2018

Passado do Dia de Finados, ouso comentar alguns escritos em túmulos, mesmo que não vá ao cemitério. Alguns diálogos, entre médicos e pacientes, acabaram famosos. Como aquele, registrado por Manuel Bandeira (Pneumotórax), em que um doente com "febre, hemoptíase, dispnéia e suores noturnos" pergunta: "Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?", ouvindo, como resposta: "Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."

Outro desses diálogos aconteceu agora, com o querido amigo Joaquim. Francamente, Joaquim não é modelo de vida saudável. Até criou uma dissidência nos Alcoólicos Anônimos - em que ele, e seu grupo, se consideram liberados para consumir Bacardi com Coca-Cola, em dias de festas. O problema é que, para Joaquim, todo dia é uma festa. E assim viveu a vida até quando sua santa mulher, Leticia, conseguiu lhe levar a um médico. Com os exames na mão. Finda a leitura do mapa de seus lipídios e colesteróis (muitos), disse o doutor: "Posso lhe fazer uma pergunta?" Ao que Joaquim, educado como sempre, respondeu: "Estou aqui para isso." E o médico: "Dr. Joaquim, o senhor por acaso já comprou um jazigo no cemitério?"

Esse problema não tenho. Temos o hábito em reuniões de confraria, perguntarmos perante todos quem irá primeiro, e aí surgem a apostas, eu digo sempre que irei a missa de sétimo dia de alguns. Não vou a cemitério, uma vez fui ao enterro de minha tia e passei mal, acho que é porque está longe o dia em que irei ser enterrado. Saudade grande dos que foram como meu pai e alguns amigos, mas já ouvi algumas inscrições que levam para os túmulos, e acabo anotando porque tem algumas curiosas. Dentre outras: "Coragem, adversidade, honradez nos compromissos, aversão às maledicências. Foram os ensinamentos que o teu exemplo ofereceu aos filhos, que por ti foram ilimitadamente amados." "A saudade que dela sentimos seja suavizada pela esperança de um dia nos encontrarmos no céu." "As virtudes e os exemplos dos que aqui estão servem de consolo aos que choram a sua ausência." "Que os nossos descendentes se ajoelhem sempre neste túmulo que guarda os despojos de uma vida que foi a nossa vida." "Tudo que fiz foi em nome da liberdade." "Aqui também mora o amor." "Viver no coração dos que ficam, não é partir." "Deus nos deu. Deus a tomou. Bendito seja o nome do senhor." "Tombe dos teus lábios sob o que passou, cantando-te a beleza efêmera e o misterioso gênio." "Os preceitos acalmei-os as vãs, grandezas renunciei-as, a piedade foi o meu punhal." "Fui altivo, fui bom e fui modesto." Mas nenhuma inscrição intrigou tanto quanto uma do início do século passado, próxima ao jazigo de meu pai, que diz: "Aqui descansa Euphrosina ..., assassinada aos 12 anos. Lembrança do Foro e admiradores." Esse "Foro", provavelmente, deva a ser o tabelião seu pai. "Senhorita" também estranha, na lousa fria. Talvez se escreveu assim porque, apesar de sua tenra idade, já teria no corpo os primeiros sinais de mulher. Tanto que tinha "admiradores", e não amigos. Mas não é comum assassinar pessoas tão jovens, com só 12 anos. Vingança ou paixão, imagino. Dinheiro ou algum amor perdido, apesar de tão jovem. Morrendo, a pobre criança, sem sequer conhecer as alegrias, as dores e os mistérios do amor e da vida. Descanse em paz.

P.S. Se algum leitor amigo tiver lembrança de antepassado com esse nome tão pouco comum - Euphrosina, por favor dê notícias



Manaus da mentira - Em 07/11/2018

Consta que numa das tantas lendas que correm sobre o Diabo, lembrada pelo padre Vieira, aquele, saindo dos infernos, teria desabado por sobre a Europa. Partiu-se, porém, em pedaços que se espalharam por todos os lados. A cabeça, chifre e tudo, caiu na Espanha, daí os espanhóis terem os miolos quentes, os seus pés caprinos foram parar na França, entendendo-se assim lá gostarem de dançar e de se agitar, enquanto que o ventre satânico foi dar na Alemanha, o que aclarava o porquê da gula daquele povo, sempre embeiçado atrás das partes do porco, cozidas ou assadas, tanto faz. E a língua do demo, indagou o padre Vieira, onde teria ela ido parar? Supôs que em Portugal. Por isso, da Vila do Castelo à Vilamoura, aquela mania do falatório, da maledicência, do fuxico e da intriga. Tão prodigiosa era a fartura de palavras ruins em português que um tal de Drexelio, com elas, preparou um Abecedário dos Vícios da Língua.

E o que encontraríamos nele se consultássemos, por exemplo, o verbete dedicado à letra "M", o M de Manaus? Ora, respondeu o padre categórico: "M de murmurar, M de motejar, M de maldizer, M de malsinar, M de mexerico" e, sobretudo, concluiu o pregador, "M de mentir". Bastou estar um pouco mais de um ano naquela parte do Novo Mundo, saído um tanto desterrado de Portugal, para que o padre Vieira entendesse que a costa de Manaus era um refúgio da mentira.

Em 1652, seus inimigos, afastando-o das proximidades do trono português, conseguiram empurrá-lo para dentro de uma nau despachando-o para o outro lado do Atlântico, para os quadrantes da vila de São José da Barra. O Estado do Amazonas daqueles tempos, a parte do resto do Brasil desde 1621, diga-se, era a Sibéria do Reino Lusitano. Um litoral imenso, pouco desbravado, que se estendia do Ceará à bocarra do Rio Amazonas, cheio de areia, mato fechado e desolação. Pouquíssima gente branca o habitava, mas muito nativo cor de cobre andava por aqueles sertões.

Vieira desembarcou num caldeirão. O lugar era um vespeiro no qual os jesuítas enfrentavam diariamente os colonos. O padre Vieira logo constatou que os chamados "forasteiros", isto é, os brancos que vinham da metrópole tentar a vida por aqueles lados não queriam saber de converter ao cristianismo a boa alma de ninguém. Muito menos a dos tapuias. Que ficassem pagãos. Queriam, isso sim, era o corpo dos índios. Estando eles, os reinóis que governavam a província, bem longe das vistas do rei, tudo sujeitavam e em tudo botavam a mão, pois não faltavam ofícios onde se podia furtar.

A hora do padre - furioso, magoado com as rixas constantes - de acertar-se com aquela gente deu-se na Quinta Dominga da Quaresma, em abril do ano de 1654, momento quando, no final da missa, o grande homem, subindo ao púlpito, reservou-lhes um sermão purgativo. Manaus, para ele, tornara-se "o reino da mentira", com corte estabelecida na própria cidade. Como no fundo dos mares, ali não havia solidariedade nenhuma. Tal como entre os crustáceos e os peixes, imperava o canibalismo. Lá os olhos mentiam de dia, quanto mais à noite.

Mas por que era assim? Vieira disse que era o clima. A inconstância de tudo era tamanha, que o litoral de Manaus era o único no mundo inteiro onde até o sol, tão certeiro em outras latitudes, enganava os pilotos. Olhando o astrolábio, ora ele indicava um grau, ora dois, o resultado era que muitos barcos encalhavam por lá. O que o fez concluir que "até o céu mentia em Manaus!" Muito sol, além de quebrar os laços de solidariedade, gerava preguiça e o ócio. Este, ao prostrar as gentes, excitava-lhes a imaginação, mãe da mentira. Entre eles, mesmo que pelas duas orelhas escutassem uma verdade, perdida está no caracol do ouvido, terminavam expelindo uma mentira pela boca.

Tudo bem que em outras partes também se mentia. Lisboa, por exemplo. Mas ela era capital de um império, podendo exportar suas mentiras para outros cantos do mundo, para Veneza ou para Calicute. Manaus, por ser pequenina, não. Naquela vila, a mentira não tendo para onde ir alimentava ainda mais outras inverdades. Lá a mentira dançava de roda. Nesta campanha eleitoral o que mais vimos foram mentiras, promessas vãs e improváveis. Caros leitores isso é uma lenda na verdade nem sei se Padre Vieira passou por essas terras, mas que vale uma reflexão vale.


Fadiga política - em 31/10/2018

Teve fim nesta capital, no último domingo dia 28 de outubro, vitimado por falência múltipla dos órgãos, após prolongada agonia e pertinaz resistência, a agremiação política conhecida pelo nome de amazonismo. Quem derrotou Amazonino não foi seu adversário, foi o próprio Amazonino que na busca pelo poder tentou mais uma vez ser governador.

Poderia ter saído, após colocar o Estado em condições de governabilidade como prometeu nesses quatorze meses. Alguns incautos e muitos hipócritas divulgam a versão de que o amazonismo não morreu; pelo contrário, saiu mais forte depois da derrota. De fato, alguns analistas apressados e superficiais, impressionados com os 40,41% de votos do PDT no segundo turno, estão vendendo a ideia de que Amazonino entrou perdendo e saiu ganhando na disputa estadual, e que tem futuro garantido para concorrer em 2020, para Prefeito.

Semelhante visão das coisas é muito parada. Projeta no futuro a situação presente, como se o cenário político fosse estático. Os incautos e os hipócritas não querem se dar conta de que, para começo de conversa, o desempenho vitorioso do PSL em âmbito nacional deve provocar alterações marcantes no quadro político do País. E isso não porque o PSL possa crescer em ritmo continuado e progressivo, vindo a dominar o cenário nacional nos próximos anos. Esta doce ilusão que embala os sonhos de um Bolsonaro talvez não se concretize. Em compensação, uma coisa é certa - o sucesso do PSL em tão larga escala deve produzir reações na vida política e no seio da sociedade, atuando como um choque salutar que desperte o governo e nossa própria coletividade do marasmo e do imobilismo em que estamos mergulhados até o pescoço, incluindo aí os Estados como o nosso por exemplo.

O impacto eleitoral decadente do PT assusta (assusta até os próprios petistas) e o susto veio em hora certa, para gerar reações que possam neutralizar os ganhos da oposição e reequilibrar o jogo de forças até 2020. Amazonino Mendes ocupará o posto que já tem reservado ao lado dos bons companheiros Cabral e Garotinho, representantes de uma ideologia anacrônica e de uma prática política caduca e pouco idônea.

Amazonino Mendes foi um ganhador, que até em seu derradeiro suspiro encontra forças para agradecer a boa fé doa amazonenses. O certo é que os que buscam o poder são extremamente vaidosos. Para alcançarem o poder, valem-se de qualquer método: corrompem e são corrompidos, ameaçam, criam intrigas, unem-se a antigos desafetos e açoitam companheiros que ousem contrariar os seus interesses. Não possuem meias-medidas e perto deles, Maquiavel nem era tão maquiavélico assim. São os gananciosos pelo poder. Sua personalidade ilustra bem a tese de Octavio Paz que vale para toda a América Latina: "Movimentamo-nos dentro da mentira com naturalidade." O maior inimigo de Amazonino não é o PT, nem o PSDB, nem os homens de bem deste Estado. O maior inimigo dele é o tempo. Como é sabido, os aviões têm idade-limite para voar pelo desgaste natural dos metais de que se compõe sua fuselagem. É o que se chama de fadiga dos metais. Tanto tempo na vida pública, que chega a ter inapetência, e carência de aptidão nas relações da administração do quotidiano da vida política, que não é exagero afirmar que também ele está a padecer do mesmo mal.


Deixem de pavulagem - Em 24/10/2018

Havia razões, subjetivas e objetivas, para eu não tratar deste tema. Não é do meu recorte e da minha formação intelectual trabalhar mentalmente roçando os fatos (já disse o poeta francês, "os fatos, ah, os fatos me aborrecem") que não possuam uma escala de temporalidade mais alongada. Sinto-me melhor trabalhando com tendências mais ou menos já assentadas no tempo e com possibilidades de realizar comparatividades com outras sociedades e outras culturas.

Por outro lado, objetivamente, esta crise política atual já vai completando muito tempo de intensíssima cobertura por todas as formas de Imprensa e em todos os segmentos dos meios de comunicação de massa. Por intensidade e por extensividade, a esta altura, as várias audiências e os vários públicos já estão meio como que saturados de tanta cobertura informativa e analítica e de tanta exposição ao tema. Sei que tem de ser assim, inclusive por que para cada dito há um desmentido, e o noticiário e as análises têm de acompanhar o ritmo dos acontecimentos.

Estava tentando não desperdiçar este meu espaço aqui com este tema, e cuidando daquilo de que me sinto mais apropriado para escrever. Além do mais, nunca possuí vocação para ser o cidadão indignado, aquele de carteirinha, ou, mesmo, menos que tal. Hoje, no entanto, rendo-me a um fato de momento, que é a necessidade historicamente crucial de se falar com clareza e seriedade em vez de ficar declarando vagas miudezas, fragmentos de sabão.

Faz-se necessário um pronunciamento - no sentido brasileiro do termo, e não na terrível acepção hispânica. Candidato: como diz um brincalhão conhecido meu, "ou é, ou deixa de é". Ou, afirmando de modo erudito e acadêmico, citando um dos mais importantes sociólogos em atividade no mundo, o novaiorquino Immanuel Wallerstein: "O mundo moderno tem sido, ao longo de maior parte da sua história, prisioneiro da doutrina aristotélica do terceiro excluído. Uma coisa é A ou é não-A. Não existe uma terceira possibilidade."

Intelectualmente e existencialmente eu fujo deste aristotelismo extremamente limitador, tendo já de muito tempo absorvido a ideia de que as coisas e as pessoas podem ser duas coisas diferentes ao mesmo tempo, ou pelo menos podem ser medidas e avaliadas de duas formas diferentes. Quem já leu Marcel Proust entenderá muito bem o que eu estou dizendo. Mas neste momento, angustiante até, de uma crise brasileira, tem de se impor aos dois candidatos a presidência a doutrina do terceiro excluído. Ocorreram determinados fatos, ou não ocorreram; se existiram traidores, dê os seus nomes, desqualifique-os eticamente e de maneira rápida e contundente, e mande-os para aquele lugar.

Um candidato, se é realmente honesto e não tem rabo de palha, desvencilha-se de um escroque com duas ou três palavras. A coisa toda é muito chocante para comportar nuances de tratamento. A sucessão de ditos e de desmentidos já se tornou insuportável para a (in)compreensão da população brasileira. Lembrem-se candidatos de um pequeno poema da Gertrude Stein que diz: "Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa." E pronto. O resto não é silêncio (muito menos dos intelectuais).

Então candidatos deixem de pavulagem, domingo é a eleição e quem tiver mais votos ganhará naturalmente.


As interpretações do voto  - Em 17/10/2018

O objetivo deste artigo é o de apresentar, brevemente, duas interpretações sobre o papel do voto numa democracia. O voto não equivale à democracia. Somente quando o voto facilita as escolhas dos indivíduos é democrático. O voto é uma condição necessária para a democracia, mas não é suficiente. Para torná-la equivalente, a votação deve estar associada a outras instituições, tais como partidos políticos, liberdade de imprensa e expressão e a justiça eleitoral, as quais organizarão a votação em escolhas sociais.

Na visão liberal do voto (madisoniana), a sua função é simplesmente a de controlar os executivos que estão no poder, e nada mais do que isto. Para James Madison, o perigo da liberdade está em que os burocratas governamentais possam reduzir a liberdade dos cidadãos e reduzir a participação dos agentes. Em ambos os casos, o remédio liberal é a próxima eleição. Isto é tudo o que é requerido para proteger a liberdade: uma eleição e um mandato limitado.

A troca de governantes é, na visão liberal, o único instrumento disponível para proteger a liberdade dos indivíduos. Na visão liberal, o voto é então um método de controlar os governantes, sujeitando-os a eleições periódicas com um mandato fixo. Devemos destacar, também, que na visão liberal não é assumido que o eleitorado está certo. Este é um pressuposto que caracteriza o populismo. O liberal não assume a competência popular, mas somente que o eleitorado pode mudar os governantes se os indivíduos não estão satisfeitos ou esperam um melhor desempenho.

Para os liberais, o voto gera liberdade devido ao fato de que restringe os governantes pela eleição e pelo mandato limitado e não há necessidade de se vangloriar o produto do governo como um bem precioso para a liberdade. Já para os populistas (rousseaunianos), a liberdade e, portanto, o autocontrole através da participação é obtidos pela incorporação da "vontade das pessoas" nas ações do governante. Para estes, a liberdade individual é a participação dos cidadãos no Estado. Para os populistas, a participação na elaboração das regras é uma condição necessária para a liberdade. Para eles, a votação gera liberdade pela participação. O produto do governo deve ser precioso, pois este produto é a liberdade.

Na interpretação populista do voto, a opinião da maioria deve ser correta e deve ser respeitada porque a vontade das pessoas é a liberdade das pessoas. Já para o liberal, não há esta identificação mágica. O resultado de uma votação é somente uma decisão e não tem nenhum caráter moral especial.

O ponto importante a destacar nestas duas concepções é que os populistas podem justificar moralmente a tirania, supondo que incorporaram a vontade popular, e podem justificar sob este resultado um controle social, tal como os ditadores socialistas.

Contudo, acreditamos que os valores liberais com relação ao voto numa democracia, como defendidos por Madison, são os que garantam a liberdade para os indivíduos, para que eles próprios busquem sua felicidade e não estejam sujeitos à "vontade do povo" e nem seja imposto um "controle social" sobre os meios para buscá-la.


Cachaça ou candidato - Em 10/10/2018

Como público alvo de propagandas, sou osso duro de roer. Se ligo o piloto da analista de discurso, detecto argumentos mal-ajambrados, déficit de informação, excesso de apelos, humor desastrado ou empulhações acolchoadas. Quando o desligo, desligo-me e tampouco reajo como a consumidor dos sonhos dos anunciantes. Diante das mais deslumbrantes ou abiloladas peças publicitárias, meu Q.I. diminui.

Na agitação pictórica e sonora dos anúncios de TV, não capto o que a história tem a ver com o produto. Na voz alarmante e veloz dos comerciais de rádio, perco o essencial dos verbos "vá, compre, ligue, peça". Ir para onde? Pedir o quê? Nos outdoors, noto os despautérios. Poluem a paisagem e são perigosos para os motoristas. Levo nota zero em recall do produto. Só recordo a imagem da beleza feminina, com seu torso bronzeado e olhar de mormaço. O que é mesmo que a boazuda queria que eu comprasse?

Em um shopping-center, encontrei numerosas faixas e tabuletas onde se lia "biglio". Perguntei a um vendedor: que produto é este, anunciado em todas as lojas? Ele me olhou como se respondesse a um E.T.: "É big liq - grande liquidação". O rabinho do Q, estilizado e sunítico, era ilegível. Genialidade de arte gráfica. Mesmo reconhecendo o termo inglês "big", não saberia dizer de que língua vinha a palavra "liq". Além de um glossário de publicites, preciso de um dicionário de lógica publicitária.

Com a propaganda política, meus neurônios dão um nó. Atrapalho-me com os apelos dos concorrentes no mercado eleitoral. Misturo os macetes marqueteiros - tudo igual. Sem maldade, interpreto mensagens pelo seu sentido obtuso, o mais temido pelos comunicadores, segundo tipologia de Roland Barthes. P.ex., minha vista decodifica aqueles panos hasteados nos postes com nomes de candidatos, como bandeiras a meio pau - soturnas em seu simbolismo de luto. Mas muito pior seria se, em vez de vários nomes, fossem bandeiras repetidas com a mesma esfígie de um ditador.

Ouvi no rádio um jingle rimando com "31". Lá vem besteira de "vote no melhor", pensei e desliguei. Somente na terceira escuta, percebi tratar-se de anúncio de empresa telefônica. Em tempo de eleição, fica difícil saber se os brados e berros de 21, 22, 23, 31, em carro de som, radio e TV são comunicação política ou telecomunicações. O mesmo com a "boa idéia" 51, que me confunde: será a caninha ou um candidato? Juram-me que não existe partido de número 51 nem 24. Mas anunciam uma nova aguardente 21. Como posso distinguir se designa o porre do político ou "a danada da cachaça"?

Apesar dos pesares, anúncios comerciais e políticos são transparentes em suas metas: todos querem nos induzir a aceitar o que oferecem. Mas minha análise de discurso silencia diante desta avaliação de um cidadão desempregado: "É muita potoca nessas propagândias (sic), seu Flávio.


Chegou a hora - Em 03/10/2018

Pronto meus caros leitores, chegou a hora, domingo vamos escolher o próximo mandatário do país, os novos governadores, senadores e deputados federais e estaduais, tirando os senadores e deputados federais e estaduais, podemos ter outra eleição em segundo turno. Somos pessoas em processo permanente de aprendizagem, o que quer dizer protagonistas de mudanças drásticas, de tempos em tempos. Mas mudar assusta também, porque denuncia inexoravelmente o novo, o qual, por ser desconhecido, dá muito medo. Por causa deste medo, muitas vezes nos encolhemos no velho, confortavelmente perigoso.

O velho é perigoso porque é ameaça de morte, é ausência de vida, é falta de tesão e de energia, mas é confortável na falsa serenidade que oferece. Gente não nasce sabendo como sobreviver. Precisa aprender as coisas mais simples, até como ter fome e sono, por incrível que pareça. E o que pensar de outras aprendizagens que são ainda mais complexas e mais exigentes, as quais não conseguimos fazer sem escola, tais como aprender a ler e a escrever, ou a ingressar nas maravilhas da estrutura multiplicativa dos números, quando da iniciação matemática, a qual faz uma falta grande para que a gente se sirva da articulação em rede que preside a maioria dos pensamentos. Pensar é indispensável para entender, porque às vezes somos felizes e às vezes não, e para nos ajudar a aumentar as chances de nos sentirmos bem.

Aprender é, portanto, mudar. Mas mudar tem dois momentos que se alternam, o das mudanças nas bases e o das mudanças em cima de bases assentadas. Há momentos em que mudar é colocar elementos para edificar sobre um alicerce posto. Há outros momentos em que mudar significa mexer nos próprios alicerces. Em educação, hoje, impõe-se o segundo momento, o de remexer nos próprios alicerces, para sobre eles conseguir apoiar novas estruturas. Este momento implica remexer nas ideias que animam a prática dos professores, porque, conforme tão bem assinalou Paulo Freire, não há prática sem teoria, isto é, não há ação sem ideia por detrás. E são as ideias que sustentam a prática escolar que demandam mudanças.

As ideias vigentes nesta área estão equivocadas e superadas. E de seu equívoco emana uma injustiça detestável - a não-aprendizagem pelos alunos nascidos em famílias pobres que frequentam nossas escolas públicas, quando eles todos podem aprender. Fazer esta mudança implica tanta coragem e tanto apoio popular como a mudança na ortodoxia monetarista que domina nosso modelo econômico. Que cada um de nós ajude a promover tal mudança, porque, se você não muda, o Brasil não muda. Estamos todos convocados a gritar presente.

Esta "festa da democracia", portanto, é ainda uma caricatura do que se espera de uma verdadeira democracia, aquela onde se possa realmente escolher entre fins substantivos, onde a eleição seja apenas o momento de escolher os nossos representantes, onde as ações de todos os poderes de governo sejam orientadas apenas pelo bem comum, e onde as pessoas possam fazer política sendo apenas elas mesmas.

Talvez isso seja só uma utopia (creio que sim), talvez a nossa infante democracia se justifique mesmo, apesar dos seus vícios, apenas pelo fato das alternativas a ela serem todas inconcebíveis, e talvez esta ambiguidade seja mesmo uma natureza indelével da democracia, ou talvez a gente até chegue lá; de qualquer forma, como dizia Paulo Freire, não se pode alcançar o outro lado da rua sem atravessá-la.


Golpe baixo - Em 26/09/2018

Faltando pouco mais de dez dias para a eleição, começam a surgir os golpes baixos contra candidatos que estão bem nas pesquisas, mas isso não é coisa nova. Desde a redemocratização, não houve eleição no Brasil sem que algum candidato tivesse patrocinado ou sofrido golpe baixo. A novela começou em 1985, na esteira da derrota da emenda Dante de Oliveira e do movimento Diretas Já. Mário Juruna, cacique dos xavantes em Mato Grosso e deputado federal pelo PDT, convocou a imprensa e, sob os olhos atônitos dos repórteres, desovou de uma pasta trinta milhões de cruzeiros. Seria dinheiro de suborno, segundo Juruna. Fora pago pelo candidato do PDS, Paulo Maluf, em troca de voto no colégio eleitoral.

Na eleição seguinte, em 1989, o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu o país e levou a candidatura presidencial do PT ao segundo turno. O adversário, Fernando Collor de Mello, exibiu no programa eleitoral gratuito o depoimento de Míriam Cordeiro, com quem Lula tivera uma filha. Míriam acusou Lula de ter lhe pedido para abortar. Nascida a criança - a menina Lurian -, a mãe disse que o petista não a reconheceu como filha legítima. Os dois casos guardam semelhanças indissociáveis. A candidatura presidencial de Maluf na eleição indireta de 1985 foi ferida de morte. Assim como a de Lula em 1989. Em ambos os casos, porém, o escândalo propriamente dito concentrou-se na esfera eleitoral. Não houve processo cível ou criminal de uma parte ou de outra. O jogo sujo aconteceu com naturalidade desconcertante.

As eleições seguintes mantiveram a mácula. Em 1994, o senador gaúcho José Paulo Bisol, então filiado ao PSB, foi linchado publicamente. Incluiu uma emenda no Orçamento da União beneficiando a cidade de Buritis, em Minas Gerais, onde tinha uma fazenda. Renunciou à vaga de vice na chapa de Lula. Processou sete empresas de comunicação por difamação. A Justiça deu-lhe ganho de causa em dois casos. Os outros estão em julgamento.

Quatro anos depois, o pleito foi marcado por um misterioso dossiê. O documento revelava a existência de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Caymann. A empresa administraria fundos ilegais pertencentes ao presidente Fernando Henrique Cardoso, aos ministros José Serra e Sérgio Motta e ao governador Mário Covas. Todos do PSDB. O dossiê revelou-se uma farsa. Hoje, é peça fundamental de um inquérito contra seus mentores.

O mar de lama, entretanto, já chegou. Agora recheado de grampos, desvio de dinheiro público, espionagem. É preciso limpar de vez a democracia brasileira. Tornar os governos mais transparentes. E impedir que, a cada troca de gestores públicos, a sociedade tenha que fazer sua escolha incomodada com o odor dos subterrâneos do poder. Mas ainda vão aparecer muitos golpes baixos, sejam verdadeiros ou não, vamos esperar pra ver.


Candidatos e programas - Em 19/09/2018

Tinha prometido não falar de política nem eleição até o final no segundo turno, mas vendo os programas dos candidatos ao governo do Amazonas, verifiquei que são ocas e sem conteúdo, e lembro que na conhecida peça de Pirandello, tratava-se de seis personagens à procura de um autor. No nosso caso, parece que se trata de seis candidatos à procura de um programa.

O que há até o momento em matéria de propostas não passa de afirmações vagas e genéricas, mais o reino da indefinição do que da determinação, mais o âmbito da inocência do que do compromisso. Por isso mesmo, têm sido vistas como equivalentes. Temos, por um lado, a continuidade sem continuísmo, por outro, a descontinuidade sem descontinuísmo.

Em outros termos, lá, continuidade com descontinuidade; aqui, descontinuidade com continuidade. Ou será o contrário? Em suma, tudo se assemelha a um giro ou a uma revolução de 360 graus. Com uma grande desvantagem para quem pretenda efetivamente mudar: se os discursos se confundem dessa maneira, se as palavras se misturam de todas as maneiras, por que apostar na mudança/continuidade do lado de cá, com toda a incerteza do imprevisível, se disponível a continuidade/mudança do lado de lá, com toda a segurança do previsível?

Nesse terreno fértil e propício, crescem naturalmente em importância as técnicas de marketing político. A indefinição ou a indeterminação das propostas faz com que se sobreponha a forma ao conteúdo, o pouco ao muito. Podem alguns pensar que permanece de qualquer maneira a possibilidade de uma vez alguém vitorioso, tirar ele da cartola a solução nunca sugerida ou expressa, embora sempre pensada. Além da ilusão, reflete atitude ou omissão muito conveniente para o establishment, já que qualquer política de mudanças consistentes e sérias exige apoio social manifesto, antes de tudo no próprio processo eleitoral.

Entretanto, como explicitar apoio se não se formulam efetivamente as propostas, como ouvir e responder se não se fala? Os mais otimistas podem observar que a carência de programas, o acento na imagem dos candidatos, a ênfase nas técnicas de marketing político, entre outras coisas, decorre da tradição de personalização da vida política nacional e da característica imperial de nosso presidencialismo. Mas esquecem que esse desprezo pelo eleitor e pelo cidadão resultante da falta de propostas claras e objetivas pode ter como resultado o desinteresse ou a desafeição para com a política, terminando por deslegitimar os partidos, de direita ou de esquerda, e o próprio sistema político.

Eis aí refletido o desencanto de cidadãos cujo voto é a mais legítima expressão da soberania popular. Não é difícil apontar a causa de tal desapontamento. Ocorre que os aspirantes ao poder deveriam pautar sua conduta pela maturidade atingida pela sociedade brasileira e pelo vigor com que se resguarda nesta nação o Estado de direito tão arduamente conquistado. Em suma, deveriam desde já travar um debate elevado sobre os grandes desafios econômicos e sociais do Brasil e as suas propostas para superá-los.

Deveriam expor com lealdade seus programas e suas metas, os projetos que acalentam para que este se transforme em um país mais próspero e mais justo.

Deveriam defender o ideário de seus partidos e a filosofia de ação que os norteia.

Deveriam, assim, permitir que a escolha dos votantes não se desse em função de dossiês, de jogadas de marketing, de brilhaturas efêmeras, mas em razão do conhecimento adquirido dos disputantes e de sua identificação com o que pregam. Que então os candidatos lancem suas cartas na mesa que o eleitor paga para ver!


O velório do sorriso - Em 12/09/2018

Li num folheto da Associação Britânica de Saúde Mental: O verdadeiro inimigo da preocupação é o riso. As pessoas que não sabem rir de si mesmas, usualmente levam-se muito a sério, ou então sofrem de uma inadaptabilidade por recusar admitir que estão sendo postas em ridículo ou estão em erro. Um sentido de humor adequado é a maior ajuda para enfrentar dificuldades ou preocupações, que, quando excessivas ou desproporcionais, revelam-se como sintomas comuns de pessoas neuróticas.

O sorriso faz dupla com a linguagem como formas fundamentais da comunicação humana, o que nos faz lembrar o escritor e político inglês Joseph Addison (1672/1719): O homem é diferente de todos os outros seres, porque é o único que possui a faculdade do sorriso. Mas o sorriso só tem valor quando encerra plena espontaneidade, capaz de revelar a alegria embutida na alma. Para sorrir, o homem precisa estar na condição de sensibilizado.

Ultimamente, o brasileiro - com as exceções costumeiras -, se está sorrindo, o está fazendo sem a espontaneidade que lhe é peculiar. Tantas são as decepções, que o amarelo virou mesmo a cor oficial do sorriso do nosso povo, que, de humor negro, anda mais que cheio. Sua credulidade no que deveria lhe cair positivo está à deriva, no meio de uma tempestade de mentiras, de falsos testemunhos e afirmações, de escândalos, notícias de corrupção, medidas impensadas e de impunidades materializadas.

O primeiro sorriso do homem ocorre geralmente aos três meses de vida, um ato intencional diante de um rosto humano. Afora as crianças, na sua fase mais tenra, o brasileiro não vem tendo motivos para sorrir com espontaneidade, pois está sendo violentado no mais sagrado de seus direitos, o de saber, com a devida clareza, de quem o governa, qual a real situação do País em que vive, trabalha, paga impostos, cria seus filhos e convive com familiares, colegas e amigos.

O brasileiro, além de estar sorrindo mais que amarelo, maltratado que se encontra ante aos desvios administrativas, possivelmente, nos próximos dias, não terá nem mais o direito de sorrir amarelo, pois, no escuro, sua manifestação nem cor terá. Aliás, em algumas situações, o sentimento que expressará será o de pavor, não do escuro em si, mas diante das consequências que os possíveis apagões poderão trazer às populações, especialmente dos grandes centros do País.

Um sorriso revitaliza qualquer ambiente, tanto para quem sorri quanto para aqueles que estão à sua volta, o que pode reduzir níveis de tensões e mal-estar que possam ter surgido em um grupo. O sorriso é o sinal maior da expansão da aura humana, tornando o homem mais atrativo e receptivo, o que pode e deve ser usado para derrotar suas preocupações em momentos de dificuldade. Na atual quadra brasileira, em sã consciência, qual o cidadão deste País que está tranquilo com tudo que vem lhe acontecendo?

Políticos duvidosos, falcatruas em profusão, golpes de toda natureza, trambiqueiros dando volta nos quarteirões, violência explícita a céu aberto, ex-banqueiros golpistas soltos e empanturrados de dinheiro, juros escorchantes, enfim, uma saraivada de reveses que o brasileiro vem conquistando, que nocaute seria pouco para denotar a lona psíquica a que foi remetido. Sorri quem está em harmonia com a vida, com as forças do mundo exterior e interior, diriam os pensadores. Os olhos são as janelas da alma , disse o escritor norte-americano Edgard Allan Poe (1809/1849). Por extensão, o sorriso é também a sua porta, que, quando entreaberta, revela o que temos nos aposentos mais íntimos do nosso interior. Uma pergunta então se faz: o brasileiro pode sorrir espontaneamente pela alegria de estar simplesmente vivendo num País onde a natureza é pródiga de belezas singulares; de ser um povo miscigenado e dono de um jogo de cintura sem igual, capaz de engolir cobras e lagartos todos os dias, em nome da paz; por estar numa terra sem vulcões, terremotos e afins? Voltemos a Addison, defensor do riso como o inimigo maior da preocupação. Contudo, são tantas as

preocupações do brasileiro que, por mais que possa sorrir, seu gesto não abafa a incidência elevada das adversárias. O seu riso, quando sai, está acanhado, fosco, ofuscado por tantas decepções, incertezas... Agora, querem apagar as luzes. Para o velório do sorriso, mais que amarelado, do povo brasileiro, só faltam as velas.


Apocalipse - Em 05/09/2018

Prever com exatidão em que tempo o apocalipse vai acontecer é impossível. As profecias, apesar de precisas, são, contudo, imprevisíveis. Perdido nestas reflexões, ontem a noite concluí que o tempo do apocalipse chegou, e isto porque: mães abandonam recém-nascidos e filhos exterminam pais. Governantes enganam o povo; e o povo desmoraliza governantes. Jovens criminosos são protegidos por leis, enquanto as vítimas tratadas como criminosas. Funcionários pagam, a tempo certo e antecipadamente pela aposentadoria, mas ao se aposentarem têm que pagá-la até morrer. Seres eram feitos individualmente, pelo amor; agora, em série e pela tecnologia. Políticos submetiam-se às doutrinas dos Partidos; hoje, cada político faz a doutrina de seu Partido particular. Valores morais primavam na sociedade, hoje, a primazia é dos valores econômicos. A educação era nacionalista e visava a ética, a moral, o patriotismo, a liberdade; hoje, até a educação é globalizada e subordinada aos ditames do FMI. A saúde, direito existencial, era confiada aos médicos de família; hoje, o povo morre nos umbrais das Casas de Saúde, lotadas de médicos. Problemas eram discutidos e solucionados em diálogos serenos, nas salas de visitas; hoje, o direito ao diálogo se transforma em problemas. Músicas exaltavam o amor, o carinho, a afeição, a saudade, enquanto hoje falam de tapas, bundas e bundinhas. A porta da rua, a praia, a avenida e a pracinha eram lugares de lazer; hoje são locais de violência, agressões e marginalidade. A justiça era invocada e ou avocada com respeito, e acatadíssimas eram suas decisões; hoje, rasgam-se lhe as sentenças em frontal desrespeito ao direito nelas proclamado. Dirigentes e funcionários respeitavam o inviolável e sagrado dinheiro público; hoje, transitam, manipulam e despendem esse dinheiro como coisa própria. A dignidade do homem estava no seu trabalho; agora, sem o trabalho não há que se falar em dignidade para muitos. No Grupo Escolar, prevalecia o orgulho de ensinar, o amor ao aluno e do aluno; hoje, muitas Escolas são apenas restaurantes da pobreza, instituições complementares do salário mínimo e os lugares onde se gasta brincando de fazer educação. Paletó não era funcionário público; hoje, paletó é funcionário e o governo o paga seis vezes mais do que a um professor público. O lavrador humilde recebia do patrão as garantias do teto e do alimento; agora, assistimos impassíveis à luta desigual dos sem teto, sem emprego, sem comida, disputando humildemente as calçadas e os lixões. A prática da corrupção, desvio de verbas, vencimentos nababescos para quem não trabalha, semana de trabalho reduzida a apenas três dias de atividades, pagamento de aluguel para proprietários de casas principescas, em outros tempos, levava ao repúdio da sociedade e à prisão; hoje, é prática usual e, ainda que condenada, pouco se faz para extirpá-la. A Pátria, por seus grandes heróis, pugnava pela justiça social, nacionalismo, defesa de ideais coletivos, soberania; hoje, a sociedade aceita a deplorável inversão de direitos e valores, lamuriando apenas, sem a garra daqueles que deram a vida pela transformação da iniquidade em justiça e coragem; da impunidade à exemplar punição; da corrupção em honestidade; da escravidão em liberdade e soberania. Espero só que o povo tenha o discernimento para fazer melhor uso do sagrado direito do voto, mas, se isto de todo não for possível, que o leve à não opção porque pior do que está não há nenhum santo no céu que aguente.


Acorda Brasil - Em 29/08/2018

A sociedade brasileira não é pior nem melhor que as outras, moralmente falando, e, noutros aspectos, diferencia-se para cima. Não temos conflitos étnicos sérios, nem religiosos - sobra-nos tolerância e versatilidade -; somos abertos a inovações e às artes. O brasileiro pobre encheria teatros, óperas e espetáculos musicais eruditos, se lhes fossem oferecidos! Toda vez que concertos, espetáculos de música e dança se fizeram a céu aberto, o sucesso foi estrondoso. O Teatro Municipal do Rio enfrenta filas de quarteirões, o povo quer ver concertos e óperas ao custo de R$ 1. É uma pena vê-lo imbecilizado pelos enlatados norte-americanos ou plantado diante da telinha, a ver programas nem sempre edificantes. Em verdade, falham as elites bem postas na economia, na política e na criminalidade. Refiro-me à corrupção política, à ganância de certos empresários, às propinas, às falsificações odiosas de produtos, de remédios, de combustíveis, de tudo em que se possa pensar, em peso e qualidade. Falham os governos quando tratam os pobres, ora com o caritativismo pequeno burguês, ora com a brutalidade policial do tempo dos capitães do mato. Os mais sofredores são os pobres que vivem nos mocambos e favelas das periferias, tão perto do inferno e tão longe de Deus. A polícia - como se não bastassem a fome, a falta de emprego e a bandidagem infiltrada entre eles - trata-os com casca e tudo. Como nas guerras que vemos na TV, vemos os nossos palestinos e iraquianos civis a levarem tiros por todos os lados. É mais do que evidente que o Estado deve estar presente em favelas e mocambos, com educação, saúde, agências de apoio e proteção, em vez de só mandar bala nos bandidos e neles, os tais efeitos colaterais. Tampouco a corrupção é endêmica, sempre existiu, só que agora está sendo exposta todos os dias, mas não são tomadas as medidas cabíveis, daí uma certa confusão na cabeça das pessoas. Parece que o mundo vai se acabar entre as operações espetaculosas da Polícia Federal, o noticiário da imprensa e a reiteração criminal sem notícia à vista de punição, pouco divulgada, embora ocorram, todo santo dia, sentenças condenatórias Brasil afora. Existem mais de 120 mil mandados de prisão expedidos e incumpridos. Ora falta a captura, ora o bandido; ora a vaga a ele destinada. Para piorar, tem preso bom, que já devia ter saído e continua preso, cumprida a pena, por culpa do Estado. Preso não dá voto. Aí começa o falatório. Uns dizem que a Bíblia previu, o Messias vai chegar, o apocalipse está às portas. No curso da história ocidental, ele já foi previsto dezenas de vezes. Não vai chegar nunca, a menos que toquemos, nós próprios, fogo no mundo. Ou então é o "país que não tem jeito mesmo" - o conformismo dos vencidos e dos inermes. Apesar disso, o Brasil vai em frente. Em verdade, faltam cadeias, inteligência policial (aparato técnico preventivo e repressivo) e ordem na persecução penal. Está na hora de ver o que outros povos já fizeram e agir. Causa-me espanto três estamentos de repressão penal estanques: polícia, Ministério Público (MP) e Justiça criminal. À polícia cabe o inquérito, que se finda num relatório ofertado ao MP federal ou estadual, dependendo do crime, a quem cabe examinar o inquérito, arquivá-lo, devolvê-lo ou aceitá-lo, para oferecer denúncia ao juiz criminal, que poderá rejeitá-la ou dar curso à ação, salvo nos casos de queixa incondicionada. Isso é arcaico, demorado e conflituoso, gerando grande demora na concretização da justiça. Depois da condenação penal irrecorrível, abre-se, ainda, outra etapa nas

varas de execução penal, incumbidas de fazer valer as penas e as suas vicissitudes, sem falar no júri popular, nos crimes contra a vida praticados com dolo, ou seja, os que não decorrem de imprudência, imperícia e negligência, a cargo do juiz singular. É um sistema muito complicado. É preferível o norte-americano, de "salas". A polícia atua ligada a um promotor e grande parte dos crimes vai direto ao magistrado. Oferece-se ao réu uma transação penal. Se assumir a culpa, obtém vantagens e poupam-se delongas processuais. No Brasil, muita vez, em razão da chamada prescrição retroativa da pena em concreto, que começa a fluir da data do ilícito, quando o réu é condenado ou mesmo antes, o crime já prescreveu e o réu se livra solto. Um advogado diligente é tudo de bom! Acorda, Brasil.



O malefício da dúvida - Em 22/08/2018

Uma das características da vida é a sua imprevisibilidade. Não é possível estabelecer sua duração ou definir com exatidão como serão as horas futuras. E são essas possibilidades de diversos desfechos que dão um toque todo especial às boas surpresas e às alegrias. Lamentavelmente, nem sempre os imprevistos são agradáveis e, por essa razão, se desenvolveram as estratégias para minimizar esses desgostos: medidas de segurança, seguros, planejamentos, estratégias de prevenção e tantas outras. Não se pode adivinhar como será o dia seguinte.

Mas é necessário evitar riscos já conhecidos. É imperativo seguir determinadas regras de convivência e de preservação. Existem responsabilidades e responsáveis. Ou não? Torna-se absurdamente leviano minimizar os efeitos da incompetência e da omissão, quando a medida dessa falta de prudência e de capacidade é quantificada em vidas perdidas. E são muitas! Todos os dias! Acidentes de trânsito por condutores imprudentes, embriagados ou drogados, ou por rodovias mal sinalizadas, ou por veículos sem condições de trafegar... "Acidentes" aéreos por ausência de infraestrutura mínima, por negligência dos gestores ou por muito mais... Mortes por doenças evitáveis, por tratamentos dificultados, por falta de acesso a cuidados básicos, por falta de políticas efetivas de saúde, pela escassez de recursos... Crimes em proliferação, pela perda de referenciais de cidadania, pela baixa autoestima dos povos, pela marginalização e exploração, pela desvalorização do indivíduo, pela impunidade...Vidas preciosas são desperdiçadas, em uma quantidade impressionante, pelo desconhecimento e pela ignorância.

São perdas massivas sem aprendizado, pois se repetem os mesmos erros e as mesmas falhas. Os mesmos discursos. O mesmo abandono e a mesma corrupção. Se a incerteza poderia beneficiar a esperança, deixar uma porta para a sorte ou para uma inesperada conquista, em alguns setores ela é desagradável, nociva e perigosa. Não há espaço para amadorismo ou improvisação quando um possível erro repercute em vidas e sonhos interrompidos, multiplicando sofrimentos. Boas doses de competência, responsabilidade, ética, empatia e respeito poderiam transformar cenários trágicos em promissores horizontes.Mas, as dúvidas se tornaram mais do que traidoras. Viraram uma assustadora sombra que pergunta se haverá amanhã. Para quem? Para quantos?


O medo embota a consciência - Em 15/08/2018

A insegurança atingiu índices alarmantes, em Manaus e em todo o Brasil. Imaginem que uma senhora de 61 anos, internada no Hospital Santa Marta, o maior de Niterói no Rio de Janeiro, foi atingida no rosto por uma bala perdida. E o crescimento ocorre desde o furto, pouco mais do que ocasional, ao caco de vidro na mão. Deste, à arma em punho. Em seguida, ao dedo no gatilho. Em tão curto espaço de tempo social, um salto gigantesco foi dado: de trombadinha a latrocida.

No automatismo do ato, o automatismo da vida. Não se encontrando, esta, presa a quase nada, exceto a um tênue fio social que tem se revelado inútil. Corpos esquálidos hiperinflados de si mesmos, sem noção de limites e possuídos por um misto de alucinação e vertigem, saem à cata das suas vítimas pelas ruas e avenidas das cidades. São os meninos-caranguejos, os adolescentes-guabirus, e os adultos jovens-guarás, sempre à espreita da próxima presa, em cada esquina. Uma abordagem repentina, várias ordens de comando, alguns gritos, e escutam-se estampidos. Vidas estão sendo ceifadas a céu aberto.

O clamor é geral. Nem poderia ser diferente. A perda e o luto dilaceram a carne e roem os ossos de quem fica. A sangria afetiva revela-se sem fim. E deixa a todos em estado de estupor permanente, acuados, aterrorizados e perplexos. Exigem-se respostas imediatas e ações efetivas no combate a criminalidade, o que é de se esperar em qualquer sociedade minimamente civilizada. Todavia, a vida em sua dimensão única é seccionada em duas partes distintas: a dos que matam alucinadamente e a dos que se mantêm ainda vivos a prantear os seus mortos. Tudo se torna muito simples e fácil de explicar. O medo embota a consciência, é sabido. E o pensamento binário se constitui em sua lógica imediata. E igualmente perversa.

De um lado, vidas produtivas embaladas em berço esplêndido ou forjadas pelo esforço próprio. Do outro, dejetos humanos prontos para serem lançados nos esgotos, os seus possíveis lugares de origem. Mas, de lá, eles teimam em voltar. Espalhando medo e gerando pânico. Criaturas desnaturadas, abortos da vida, comenta-se à boca miúda e graúda - verdadeiros monstros, também dizem. Há, ainda, quem abra bem os olhos para um dos lados da questão, é quando falam em inversão de valores, assim como há, também, quem os feche, na mesma proporção, no que concerne ao outro lado da mesma - para esses, a inversão de valores não passa de um arraigado preconceito de classe. O que não remove, nem uns nem outros, do pensamento binário. Mas tão-somente os coloca num beco social e político sem saída.

Para pôr fim a tal binarismo, cujos efeitos são socialmente desastrosos, é preciso que nós nos olhemos mais de perto no espelho. Sem medo e sem pejo do que o mesmo poderá vir a refletir ou a nos dizer: a vida é sempre única, embora existam múltiplas formas de expressão da vida. Em sendo única, todos nós somos co-partícipes do que dela fazemos de melhor e de pior, em termos da sociedade que construímos para nós mesmos. O que exige muito mais do que um simples se ater à esperança quanto ao futuro, imediato ou longínquo. E um bom começo para tal é romper com o pensamento binário e os sentimentos dele decorrentes - quer sejam de amor ou de ódio.


A força da palavra - Em 08/08/2018

Escrita ou oralmente expressa, a palavra tem ampla e significativa importância, por isso de tal forma compromete e responsabiliza quem a profere que, muitas vezes, exige-se a confirmação para não restar a mínima dúvida acerca do que foi publicamente afirmado. O cidadão comum, a autoridade de qualquer natureza, todos respondem de alguma forma pelo que dizem, daí a exigível discrição, a continência da linguagem, especialmente em torno do que se deve expressar quando está em causa o interesse comum, e chega a ser uma forma de sabedoria dizer apenas o necessário, no momento certo. Daqueles que por dever de ofício são quase obrigados a falar em público, muitos evitam o improviso, ou para não omitir fatos e nomes, ou para, medindo as palavras, não cometer excessos, enfim, para preservar a autoridade do cargo no qual estão investidos, imunizando-se a cobranças. O noticiário através da televisão obriga a ouvir, ou o que não se quer, ou o que não se deve, sobretudo quando choca, a ponto de, tão estarrecedora a notícia, preferir-se aguardar o jornal do dia seguinte para uma necessária conferência, para a possível confirmação do que foi dito por determinada autoridade.

Mas fiz essa introdução ara falar sobre o dia dos pais, e mais especificamente sobre meu pai, que se foi aos cinquenta e seis anos de idade. Já fiz artigos escrevendo uma carta a ele que tão precocemente saiu desta vida, quero apenas dizer neste pedaço de escrita que a força da palavra, a escrita essencialmente quando se escreve um artigo deve expressar o sentimento do escriba. Hoje então deixo ao meu pai, o manifesto de minha admiração e meu amor, que no silêncio do amor me deu a vida esperando que um dia eu chegasse a ser alguém, quantos anseios, quantas esperanças, guardados no seu coração, coração que o fez vitima muito cedo.

Pai, você, como jardineiro, cuidou desta plantinha ou melhor de seis plantinhas, regou, alimentou, ajudou a desabrochar, e nesse dia quero lhe desejar toda minha admiração, pelos valores humanos, pelos valores espirituais que você transmitiu, a generosidade, a autenticidade, a vontade de vencer, a confiança na vida, o amor. Pai, as plantinhas, ou seja, seus seis filhos cresceram, amadureceram, e se hoje dão frutos, é pelo que você nos deu, e pelo pai que você foi. Sua imagem reflete amor.

Mais forte e significativo que palavras de estimulo, apoio e carinho, foi seu exemplo de vida e retidão de caráter. Não admitia deslize em termos de corrupção, de desonestidade. Como sofreria se vivesse nos tempos atuais presenciando o espetáculo vergonhoso com que nos "presenteia", sem pudor, a maioria de nossos homens públicos! Sua preocupação com os filhos não se estendia apenas aos dias futuros - era presente nos mínimos gestos. Privava-se do que mais gostaria de ter para que tivéssemos o que ansiávamos possuir. Não sabia jogar futebol, mas adorava o esporte porque os filhos faziam-no bem (modéstia à parte).

Feliz Dia dos Pais a todos.


Ponto escuro - Em 01/08/2018

O que restará, em que resultará o momento que estamos vivendo? Estarrecidos, nauseados, assistimos passivos o banho de lama que adentra nossos lares, diariamente, por várias horas. Somos impingidos a testemunhar sucessivos massacres da verdade, da esperança e confiabilidade. O ponto escuro cresce a cada momento transformando-se numa enorme mancha que ameaça ocupar todo o campo visual. É uma carnificina moral, onde cada um tenta de forma incansável sobreviver lançando em todas as direções mísseis de lastimáveis misérias humanas. Anúncio do Apocalipse?

Como metal exposto ao fogo todos e tudo derrete, desaparece. As normas, leis, regras, acordos, consensos, submergem, atrofiam ante a inércia histórica de sua própria construção. Os consultórios médicos e psicológicos lotam do homem adoecido, enlouquecido! Doenças surgem e ressurgem. Síndromes de pânico, depressões, somatizações diversas assolam fragilizando o todo. O homem doente é a expressão somatizada de que o mundo é que está doente. Por outro lado, a doença também pode ser vista como um sinal de ainda saúde, do debater-se de um organismo ainda vivo que sinaliza, clama e reclama pela invasão, apropriação do paraíso humano.

O homem tem perdido seu referencial vivendo um modelo de educação que se afasta cada vez mais do processo de interiorização, de aprendizagem da busca de seus dados pessoais de satisfação, numa tentativa de globalização e formatização, o que facilita o controle, a robotização e a repetição em série sob o domínio de poucos. A insegurança de um povo, a perda da autoestima, advém de uma educação que cada vez mais acredita e estimula aquilo que "vem de fora", na informação que vem do outro, de uma cultura do que "vem pronto". Esquece-se de estimular e exercitar o diálogo interno quanto ao desejo e ao pensar. Esquece-se de reservar tempo e presença na contemplação da natureza como fonte de aprendizagem dos processos de vida.

Cada vez mais nos afastamos de nossa casa (nosso corpo), criando uma distância e estranheza profunda. Neste não se consultar, o homem desapropria-se de seus sentidos, seus comandos particulares. Sua relação consigo mesmo é de descrença, desamor, desafeto. Há que se refletir sobre uma inteligência que não só crie toda uma tecnologia de ponta, mas que se volte sempre para seu criador e o faça cada vez mais um ser feliz, confortável e pleno de sentido. Se o homem se afasta cada vez mais de tudo que verdadeiramente lhe traz "o melhor", o paraíso de volta, essa inteligência será parte desse lixo humano sob a nossa mesa de refeições diárias.


Hora de pensar - Em 25/07/2018

Caros leitores, neste momento em que não sabemos quem é realmente quem é situação. não sabemos quem é oposição, não sabemos quem governa o País (se é que tem governante ) é chegada a hora de rever nosso País, nossos costumes, nossos filhos e netos, que porventura ainda não vieram, encarando seriamente estes derradeiros dias de pútrida política, descarados comportamentos dos que fazem nossa vida pública - há muito dissecando nossas consciências, dissolvendo nossa identidade, envergonhando o patriotismo e esculhambando nossa cidadania.

O Brasil está sendo corroído pelo cinismo da maioria dos poderes constituídos, intermitentemente terminais em câmara de gás torturante ao penhor da sua nacionalidade - orgulho que deveria ser de toda a nossa gente letrada e a esquecidamente ignorante e marginalizada da sociedade. Não mais adianta cobrarmos punibilidades às autoridades responsáveis - é fatigante. Para que rogarmos, como já fizemos em demasia? De nada nos satisfaz insistirmos para que a justiça nos proteja. Apelarmos para todos os santos, nem pensar. O que nos vale divagar pelas chamas ainda acesas de exemplos da história tirânica de príncipes que usurparam a dignidade e os bens de seus súditos, transcendendo séculos, beneficiando seus descendentes?

Por isso, meus caros leitores, jovens pais e mães de um futuro bem próximo: tratem de repensar os valores da educação doméstica que terão de legar aos seus filhos. Ensine-os o que é liberdade sem libertinagem; a aprender o que é amar a terra onde nasceram e exigir respeito pela sua soberania. Faça-os voltar a amar o prazer de ler. Encaminhem-nos no sentido da verdade, para que não descubram na mentira o prólogo manifestante da hipocrisia, da improbidade. Não os deixem entender que ser inteligente é levar vantagem em tudo. Registrem, mas bem claro mesmo, que furtar e roubar são crimes iguais e tão graves quanto a omissão e a injúria. E, antes que seja muito tarde, indique aos queridos pimpolhos onde ficam o lixeiro e o lavatório, o guardanapo e o papel higiênico; a escola mais próxima, a igreja mais condizente com a crença no Ser supremo; e que só se educa pelo exemplo, de forma carinhosa e firme pelo norteamento da instituição familiar.

Sintam-se, pois, governantes, e mostrem como devem ser os governados, afastando-lhes a ideia de que estão sob a égide de um poder principesco, moldando-lhes a conduta. Vamos todos lembrar o sentimento de educação que hoje cerca esses nossos senhores políticos com mandatos populares que brilham pelo choro e pela cara lisa. Segundo Cícero, Dâmocles estava se imaginando o mais afortunado dos homens quando, em meio ao festim, percebeu, por sobre a cabeça, uma espada nua que Dionísio fizera pendurar ao teto, sustentada por uma simples crina de cavalo.

Que todos os moços deste querido Brasil não permitam, tal Hemingway, que o nosso torrão seja arrastado para o mar como se fosse um promontório - um solar tão íngreme que não mais possamos alcançar com nossos próprios passos. E, "...se alguém perguntar por quem os sinos dobram?" -, que eles não dobrem por nós.


Citações - Em 18/07/2018

Caros leitores, antes de entrar no assunto que me propus para essa semana, quero exteriorizar minha felicidade e alegria de não ter mais que escrever para jornais e explico porque. Escrevi no jornal A Critica, no Diário do Amazonas, no Jornal do Comercio, no Amazonas em Tempo depois Em Tempo, e em todos eles após mil duzentos e vinte e oito artigos, tinha além da obrigatoriedade semanal, sem receber nenhuma contrapartida pecuniária, a obrigatoriedade de seguir o numero de caracteres para poder ser publicado. Tive algumas vezes que fazer o ridículo papel de numerar os artigos, I, II, III e até o IV, isso cansa os leitores e não há necessidade, a não ser que queiramos fazer um pequeno livro, mas era essa a exteriorização que queria fazer.

Tenho em alguns artigos que publico feito algumas citações, e citação é uma coisa perigosa, que necessita de oportunidade e memória. Às vezes, abusamos da oportunidade e, muitas vezes, podemos ter falhas de memória. Por exemplo, as pessoas não devem ter preocupação quando, como constantemente acontece com todos nós, esquecem alguma coisa do tipo de não saber onde colocamos os óculos. Preocupação devemos ter quando não sabemos para que servem os óculos. Nossa memória, com o tempo, fica como queijo suíço, cheia de buraquinhos. Quando se cai num desses buracos, haja preocupação.

Estas coisas me ocorrem quando vejo a imprensa, numa tarefa vigilante, pegar os políticos em citações impróprias ou erradas. Eu gosto de citar. É sempre bom ter uma companhia autorizada para diminuir nossa vaidade e dizer que, antes da gente, alguém pensou assim. Agora, dizem os jornais que Napoleão é a bola da vez, na escolha para citação. Aliás, não é de agora. Sempre Napoleão foi uma sedução para os políticos. O presidente Castello Branco, uma vez, disse a um ministro nomeado: - "Cuidado com a família. Napoleão foi o maior homem do mundo e os irmãos o acabaram".

Depois, descobriram que o presidente Fernando Henrique disse que era de Napoleão a pergunta: - "Quantos fuzis tem o Papa? Se não tem nenhum, é melhor ficar calado". E dona Lúcia Bastos, professora da UERJ, minha colega de mestrado, foi em cima.

Já o presidente Lula colocou Napoleão pelejando na China, onde ele nunca esteve, mal passando do Egito e terminando em Santa Helena, embora o grande escritor francês Alain Peyrefitte tenha escrito um livro famoso, quando a China despertar o mundo tremerá, esta, sim, expressão de Napoleão.

Tenório Cavalcanti, uma vez, na Câmara, invocou uma citação de Rui: - "A locomotiva da honestidade limpará os trilhos da corrupção". Lacerda levantou-se e disse: - "Rui nunca disse isso". Tenório respondeu: - "Se não disse, digo eu". E todos riram.

Para não deixar de citar, sem medo de errar, cito meu finado e saudoso amigo Raimundo Limongi Cabral, figura admirável: - "A situação está tão difícil que estou latindo no quintal, para economizar o cachorro.


Malvada política - Em 11/07/2018

Mais um ano de eleições e a danada da cachaça política já se arreganha toda para o povo - com suas poucas ideias, sua muita pobreza (agora cada vez maior em desemprego) e sua ignorância. Poderíamos cifrar o malvado político a todo aquele que repete as mesmas frases de efeito, as mesmas mazelas ideológicas, a astuciosa maneira de enumerar seus projetos que nunca vão ser cumpridos, seus sorrisos de anjos de calendário e sua fantástica capacidade de nos fazer de bobos - e aos eleitores menos letrados manifestar a faculdade de se mostrar obliterado.

O que é isso? É fazer com que tudo que já se passou desde a última eleição desapareça pouco a pouco; apagar-lhes da mente seu antigo topete, seu dente de ouro, seu sorriso Colgate, suas carecas reluzentes, enfim, destruir tudo que ouviram em palanques, horários eleitorais televisivos e radiofônicos. Machado de Assis dizia que não só o esquecimento é provável, mas até por certo e constante, se o condutor padecer de moléstia que oblitere a memória. Não gostaria de fazer paralelo com o passado pleito estadual, quando Eduardo Braga foi derrotado por Amazonino Mendes. Apenas ressaltar a briga preliminar entre alianças (para cargo majoritário), bem antes das luzes dos refletores serem acesas quanto a cara de cada um se parecer com Manaus, assim como da verdadeira gana de alguns pré-candidatos a fazerem parte das diversas chapas na qualidade de vice.

Fico lá com meus botões a perguntar-me pra que tanta carreira para se ser vice. Deve ser um senhor cargo, não? E a cadeira de governador? Tem deputado federal e estadual querendo largar seus lugares levados pelo voto popular para disputarem prefeituras em cidades pequenas por este sofrido interior do Amazonas afora. Não é engraçado? Esses encasacados parlamentares se mandando de Brasília - capital das decisões do Brasil - seus luxuosos apartamentos e gabinetes atapetados de mordomias, somente para estarem junto com seu povo esquecido nas embrenhadas do sertão. Muito auspiciosos e louvados esses desejos. Mas, é preciso ter cuidado meus caros leitores eleitores: paturi fora d'água é novidade no poço.


Jogo de cena - Em 04/07/2018

José Américo de Almeida, notável tribuno e honrado político, quando ia pronunciar um dos seus famosos discursos no Senado, anunciava que iria dar "um grito". Eram pronunciamentos de grande repercussão pela consistência da crítica e importância do evento, respeitosamente ouvidos por todos os seus pares. Antes, em 1945, José Américo fora autor de uma entrevista que abalou os alicerces da ditadura e colaborou para a derrubada de Getúlio, reimplantando-se a democracia. Vou dar o meu grito: o país está apodrecido, de norte a sul e a cada dia um novo fato lamentável ocorre.

Até o sacrossanto futebol nacional, sadia alegria do povo, está contaminado pela imoralidade de gente que está transformando o torcedor em otário, porque sai do estádio sem saber se viu um jogo ou uma chanchada. Lamentável o país estar contaminado por uma epidemia de imoralidade, que vai adoecendo todos os setores, com as honrosas exceções do Ministério Público e da Justiça (salvo alguns necrosados indivíduos já identificados).

O Brasil precisa de uma lavagem de moralidade e uma renovação política que imponha costumes mais puros, em uma varredura que reponha o país no clima de moralidade. Não existem mais partidos políticos e sim simples aglomerações, que nada expressam ideologicamente. Neles se agrupam políticos sem afinidades, movidos por um interesse pessoal momentâneo, não por vínculos filosóficos. Não se respeitam programas ou promessas partidárias. Pensa-se apenas em ganhar projeções rendosas seja lá mediante que compromissos assumir.

Condena-se deputado porque teria recebido um mensalão de um fulano qualquer. Porém, em plena CPI, verifica-se que o governo paga R$ 500 milhões para atender a emendas apresentadas por deputados, para que estes sejam simpáticos a determinada candidatura para eleição da mesa. Como se chama isto? Mensalão, mensalinho, que significa essa pipoca jogada no colo dos eleitores do presidente da Câmara?

A próxima eleição é o momento oportuno da desforra do eleitorado. Que tenha a consciência cívica capaz de expurgar do mundo político quem não mereça lá estar. A realidade é uma só: a reeleição é um desserviço à nação, porque o eleito, ao entrar no governo, só pensa no segundo mandato. Foi um desserviço que Fernando Henrique Cardoso prestou ao país, ao incentivá-la - será este o verbo correto? - para renovação do seu período. Veio o novo governo com o seu partido, o PT, pensando na eternidade no poder.

Deveria existir uma emenda constitucional em que seria proibido em nome de Deus e da moralidade que alguém fale nessa malsinada palavra, proscrita do dicionário. Sopraram aos ouvidos de JK e de Itamar Franco esta mesma palavra, que nem aceitaram fosse repetida. Não por acaso, as eleições costumam ser precedidas de tiroteio entre os caciques da politica brasileira. Todos Subitamente se convertem à causa da moralização dos costumes administrativos.

Esse jogo de cena, cada vez mais canhestro, é resultado das denuncias cabeludas serem manipuladas por políticos profissionais ao sabor de seus interesses eleitoreiros. Nenhum deles mostra efetiva preocupação em fortalecer as instituições de forma a evitar que continuem a ser aviltadas e saqueadas. O cidadão está sendo feito de bobo.

As denuncias, como têm sido propaladas, não têm nenhum compromisso com a moralidade pública. O respeitável público só toma conhecimento de falcatruas, quando os membros das quadrilhas se desentendem ou quando estão em questão jogadas de efeito no jogo em que se disputa um naco do poder municipal, estadual ou federal. É triste.


Preguiça - Em 27/06/2018

O brasileiro é preguiçoso. Digo isso com convicção, pois me incluo nesse rol, para minha própria vergonha. A preguiça é a intransponível distância entre saber o que fazer e querer fazer. Ter consciência do que fazer, da potencialidade de algo, e efetivamente mover-se para realizar, são coisas totalmente distintas, que demandam grande vontade. Daí talvez o dito popular: "força de vontade".

Ter vontade não basta, é preciso empurrá-la, com muita força. O brasileiro sabe muito, é comunicativo e troca informações como poucos povos. Não é à toa que em nosso País o uso da internet bate recordes, assim como o consumo de telefones celulares. Todos estão conectados. Trocar informações, apenas, não basta. Ter consciência de grande nação, com recursos naturais infindáveis, temperatura ideal com economia de energia (diferentemente dos países do Norte, dependentes absurdamente de meios de aquecimento no rigor do inverno), e tantos outros atributos, não permitem dizer que o País se move com a qualidade e velocidade necessárias e possíveis.

A nossa preguiça decorre de sabermos a diferença entre o certo e o errado, mas demorarmos para agir. A crise de confiança frente aos políticos é traço nítido de preguiça. Ao invés de optar pela luta, pela conquista de condições melhores de vida para si, deixamos o político "ficar bem", arranjar apoiadores, "cupinxar".

Outra preguiça monumental está na questão dos tributos. Todo brasileiro decente, que deseja pagar impostos e participar efetivamente da vida cidadã, está farto da sangria feita em seu bolso. O problema é que, se chiar, vai ficar malvisto, vai ser um entojo nas rodas sociais, repetitivo, e se sair pelas ruas de bandeira na mão será mais um pelego, um chorão...

Outras preguiças também existem, como as ligadas ao acinte chamado "transposição do São Francisco", e também os tais "finalizar CPI e colocar gente na cadeia", "construir mais presídios", "combater o contrabando", "prender corruptos" e tantos outros.

Assim vai andando o Brasil, de vácuo em vácuo, de Temer em Temer, pelo reino da mediocridade. Parece-nos chegado o momento para que o País alfabetizado e relativamente bem informado sobre as suas principais circunstâncias saia desse tipo de opressão que é a preguiça do exercício do Poder. Exige e reclama o Poder mais discernida discriminação sobretudo na faixa da competência em que atuam o Executivo e o Legislativo.

A vastidão terráquea do País e as manifestas peculiaridades de suas numerosas regiões, essa maravilhosa diversidade que nos parece uma das notas distintivas do povo brasileiro em cotejo com inúmeras conformidades nacionais aborrecidas e monótonas, tudo aconselha um gesto nacional de deixar de preguiça e agir.


Pra não dizer que não falei do futebol - Em 20/06/2018

Esta semana cansei de falar de mensalão, corrupção, sobre enamorados, sobre o Parlamento e na busca de inspiração para a crônica semanal, resolvi falar de nossa seleção canarinho que empatou com a Suiça no primeiro jogo da Copa do Mundo domingo passado. É claro que com apenas um jogo não podemos julgar a seleção como um todo, mas a estreia foi apática, diferentemente dos amistosos que antecederam a Copa, os jogadores, pareciam anestesiados, sem volume de jogo, até o capitão Marcelo, errou 20 passes, coisa que não acontece no seu clube nem na seleção quando é amistoso.

Dos jogadores que atuam na seleção canarinho noventa por cento joga fora do Brasil. Tinha decidido não escrever mais sobre futebol, deixando para os editores do caderno de esportes tal missão, porém o jogo da seleção e o endividamento dos clubes brasileiros não me permitiram cumprir minha decisão. O futebol brasileiro mesmo tendo conquistado pela quinta vez a Copa do Mundo da Fifa, fora do campo continua amadorístico, corrupto e desorganizado, como já denunciava o treinador Flávio Costa nos anos 50. A diferença é que agora também está falido. É o que demonstram os balanços divulgados pelos clubes por força de lei, pela primeira vez em mais de cem anos de História.

O Santos Futebol Clube, campeão nacional tinha R$ 0,02 de ativo por cada R$ 1 de passivo de curto prazo no fim de 2017. No Rio, o Clube de Regatas do Flamengo, com a maior torcida do País (34 milhões de "fanáticos", segundo pesquisa do Ibope para o jornal Lance!), exibia um patrimônio líquido negativo (total da dívida menos todo o patrimônio) de R$ 70,3 milhões. A situação do "mais querido" denuncia o descalabro de gestões que, ao longo dos anos, explorando a paixão das torcidas, malbarataram marcas de valor inestimável nesse negócio que emociona e mobiliza a Nação inteira.

Na verdade, culpa maior deve ser atribuída à chamada "cultura dos cartolas", que frustrou todos os planos das consultorias multinacionais especializadas, que tentaram profissionalizar a gestão do futebol brasileiro e transformá-lo num negócio, além de arte, capaz de ter o quinhão que merece dos US$ 5,5 bilhões que ele gera por ano no mundo. A gestão dos clubes esportivos brasileiros é tão obsoleta que nem sequer se sabe ao certo qual o capital que gira nessa "Pátria em chuteiras". A divulgação dos balanços, um avanço para um setor cujas rendas antes eram segredo de Estado dos dirigentes, ainda não basta para revelar sua verdadeira contabilidade, pois as informações prestadas são imprecisas e de difícil entendimento, mesmo para especialistas.

Esperemos que na sexta feita contra a fraca Costa Rica, o Brasil comece a ganhar terreno, e tentar esperar a Alemanha na outra fase para pelo menos vencer, e não devolver os 7x1, coisa praticamente impossível no futebol que está jogando hoje. Ainda penso no hexa.


Enamorado - Em 13/06/2018

Tenho uma amiga que em uma mensagem pelo WhatsApp, sugeriu-me: no dia dos namorados se curta, se enamore, e fiquei a analisar essa sugestão. Na verdade, quem não tem namorada nesse dia tem que se enamorar mesmo. Seja enamorado! Isso mesmo! Seja enamorado... mostre-se apaixonado, mas não por alguém, por si, pelo mundo, por um motivo além do físico, por pensamentos, palavras, ideais, pela vida! Não há algo mais grandioso e belo que o viver.

Preocupe-se menos nesse dia em planejar que o próximo será acompanhado, não sinta raiva ou desprezo por casais já existentes, não se sinta péssimo pelo término no dia dos namorados, ame e fuja do real significado desta data e preze pelo significado que ela deveria ter, você verá tudo ao seu redor tornar-se mais bonito e prazeroso, até esquecerá que tal dia é o dia dos namorados. Independentemente da data, o conceito e o sentimento envolvidos na comemoração do dia dos namorados são os mesmos em todos os países.

A data é uma bela oportunidade para demonstrações de amor e carinho. Pra alguns, talvez o dia dos namorados seja realmente uma data especial, como o dia dos pais, mães, crianças e todos esse festival de "dias comemorativos" sejam de fato significativos, por um (diversos) momento o comércio conseguiu usar o sentimentalismo ao seu favor para venda de produtos que são correlatos a data: presentes relacionados ao amor e paixão no dia dos namorados e dia das mães; algo "masculino" que exalte essa masculinidade e/ou mais simples no dia dos pais.

Estou aqui para falar exclusivamente do dia dos namorados, mas não a data em si, mas seu significado. Será mesmo que um presente no dia dos namorados agregaria em sua relação, como forma na qual você encoraje seu parceiro(a) pensar que você a reconhece(o). Sorrisos ao andar do shopping, carinhos e abraços nos parques não são sempre provas de amor, por vezes pessoas usam os relacionamentos como âncora para apaziguar seus ânimos e pensamentos que morrerá sozinha ou ficará sozinha, sem ninguém, como se a solidão fosse de fato ruim, precisamos de socialização isso é fato, mas não é uma necessidade vital, não se apegue a isso ou enlouquecerá e será facilmente manipulado por aquele que identificar isso.

Por fim, caso namore, dou-lhe uma dica: use esse dia para mostrar que independente da data, estará lá, durando até o próximo dia ou o fim dos seus dias você será enamorado e não um namorado, pois esse título (quase que nobiliárquico) foi bem estagnado e já não serve necessariamente para uma aliança, que você é enamorado com o mundo, com as pessoas, com a natureza, que amando aos outros, mostrará que sabe amar e mergulharão de cabeça no amor que tens pra dar.


Canalhas - Em 06/06/2018

Os canalhas não têm passado moral a preservar. Não têm igualmente um nome a zelar. Nem muito menos estão preocupados com a opinião da sociedade a seu respeito. São servos de sua própria canalhice. Por isso os canalhas são audaciosos. Não temem ser canalhas, desde que tirem proveito próprio de suas atitudes. E ser canalha populista em cargo público de destaque é ainda mais insidioso.

É, sem dúvida, o incessante fluxo de sofisticadas hipóteses sobre a mente que, segundo a grande filósofa do século 20, a alemã Hannah Arendt, "é a mais ardilosa das propriedades do homem". Apesar dos pesares e dos atuais dissabores internos, com relação aos pecados do Executivo e do Parlamento (crises da República), o Estado brasileiro, no âmbito internacional sempre preparou a sua história cuidadosamente, de maneira a torná-lo respeitado. Mas, em acontecimentos recentes, de modo inesperado e, para o qual não estava preparado, o Brasil se vê às voltas com o populismo político na América Latina. Região da qual é participante de peso, política e economicamente.

Na verdade, as atitudes imprudentes do presidente Michel Temer, ao negociar com os caminhoneiros, acompanhadas de insinuações injuriosas bem comuns aos baixos padrões morais dos que ocupam indevidamente altas posições de modo surpreendente, acompanhada da protetora atmosfera de conivência que envolve outros países sul-americanos já deveriam ter sido consideradas inaceitáveis pelo Brasil. E na sociedade de consentimento o compromisso do cidadão com a lei é o que mais deve ser considerado.

A lamentar em todo o episódio e, mais uma vez, a deficiente atuação do governo brasileiro que, também em matéria diplomática é frustrante e decepcionante. A maneira demagógica como o presidente Temer se comportou e vem se comportando, atinge as raias do risível, da chacota e da gozação, inclusive dos seus próprios pares sul-americanos. A ordem do dia da ética e da moral há muito vem sendo quebrada. A insegurança, o cinismo e a falta de vergonha dos nossos políticos tornam-se cada vez mais insustentáveis à leveza de Kundera - pesada segurança da liberdade.

A escalada de importantes pigmeus dos nossos Três Poderes, corrupto e ladrões, assombra a sociedade. Eles surrupiam o tesouro nacional e, como Antônio Maria, rasgam nossa carta de cidadania e zombam da nossa capacidade de raciocinar - dão asas a uma brevíssima anarquia generalizada no País, molestando os homens de bem e formando quadrilhas de criminosos em todos os segmentos. Isso sem falar nos caixas-dois e na cobertura da turma do cartel das drogas. Ninguém vê sequer uma atitude das autoridades policiais e, pasmem, judiciárias, de cuja cartilha de leis traduzem, pantagruélicos, os julgamentos sérios em gigantescas e já folclóricas pizzas.


Divagações - Em 30/05/2018

Dói-me profundamente assistir a atores se digladiando numa arena onde não se vê circo algum montado. A sociedade rui sem que as pessoas se posicionem em favor de padrões humanos. O Brasil ocupa um lugar de destaque nessa decadência avantajada. O cinismo é a palavra do dia, o fanatismo também.

Fala-se com o intuito de blefar, blefar, blefar... As cartas do jogo de pôquer estão entregues a jogadores habilidosos e maledicentes. Correrei atrás dos campos de girassóis, dessa beleza autônoma que independe da vontade dos homens ou dos seus mecanismos ilusionistas. Afagarei as pétalas, cultivarei as sementes, quero embrenhar-me nas folhas com a finalidade de reabastecer o enorme vácuo que em mim habita.

A caminhada é longa. E estou cansado. Luzes se apagam. Acendo velas para perceber o choro da cera, não me apraz alumiar o ambiente. As palavras perderam o valor da significação. Ouço o que não quero, pululam hipocrisias, os rostos se definem: massa uniforme, desfibrada, espectro de gente. A humanidade se escondeu? Envergonho-me das vozes que se levantam para desvirtuar a verdade em nome de uma saga indigna - os incautos se enredam em eufemismos astutamente construídos.

A letra reduziu-se a um instrumento banalizado, volátil em meio ao estrondo de uma tempestade sem fim. O mar revolto serve para iludir aqueles que não são capazes de compreender a dinâmica dos farsantes. E entre tantos desatinos, a soberba e o autoritarismo alcançam paroxismos. A vida é tão curta - dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe - que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará?

Essa ficará. Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa. Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor.

As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.


Polis sem identificação - Em 23/05/2018

Dois mil e quatrocentos anos antes de Cristo, Aristóteles afirmou: "Os homens se reúnem nas cidades por causa da segurança, permanecem juntos por causa da vida boa." Coitado do grande filósofo! Hoje, ressuscitado, voltaria desesperado para o túmulo diante da tragédia urbana em que foi transformada a cidade, esta notável herança deixada pela luminosa civilização grega.

Resta pouco da Polis. Resta quase nada de um espaço físico capaz de abrigar a complexidade das relações sociais que congregam a convivência, o encontro, a identificação simbólica dos habitantes e a participação cívica da cidadania. De fato, a vida nada tem de "boa", a segurança da comunidade foi destruída pelas múltiplas faces da violência, o espaço público encolheu, as funções clássicas da cidade - habitar, trabalhar, circular e recrear - estão estruturalmente comprometidas.

Se é verdade que a humanidade nasceu no campo e foi morar nas cidades, é verdade também que, de modo geral, o mundo urbano perdeu seu encanto. E perdeu por conta do fenômeno da violência, efeito devastador do crescimento disforme das cidades.

Nesse panorama, o quadro brasileiro é dramático e nele se insere Manaus, outrora musa dos poetas, do Clube da Madrugada, do Café do Pina hoje, objeto de uma crônica sangrenta. A questão que se põe diante de uma angústia generalizada é se há solução para um problema que gerou a sociedade do medo.

Decerto não há solução mágica, mas há solução, segundo atestam as boas práticas bem-sucedidas em países ricos, emergentes e pobres. É o que se observa na Austrália, Canadá, Bélgica, França, Inglaterra, Nova Zelândia, nas cidades americanas de Fort Worth, Hartford, Denver, Boston e Nova Iorque e nos casos emblemáticos de Bogotá e Medellín, parecidas com nossas cidades.

Em todos os casos, o êxito das políticas públicas de segurança preventiva e repressiva tem, em comum, além de firme decisão política, recursos adequados, articulação institucional e integração operacional, a decisiva participação do poder local, mobilizando e envolvendo a cidadania. No Brasil, essa questão passa ao largo dos poderes locais, como se a responsabilidade de enfrentamento dessa calamidade estivesse subsumida à competência da União e, mais diretamente, à dos Estados. Não raro, uma interpretação canhestra do artigo 144 da Constituição Federal é usada para eximir a esfera municipal.

A partir das referidas experiências e da dimensão que tomou o problema da violência urbana, torna-se imprescindível a efetiva participação dos poderes locais, em especial do Executivo e Legislativo municipal. Não há mais lugar para escapismo e transferência de responsabilidade, a sociedade acuada vive o clima de guerra civil, o caminho é a firme crença na força da cooperação e na capacidade transformadora do poder local.


Perda de tempo - Em 16/05/2018

Este ano de 2018 apesar de ainda estarmos no quinto mês do ano já tive várias perdas, e aí fico a me perguntar: Que lição a vida nos dá através das perdas? Se estivermos com nossos corações e mentes receptivos, sem dúvida alguma, apesar das dores resultantes, teremos grandes oportunidades de ganhos, tanto para o nosso crescimento pessoal quanto espiritual.

A primeira grande lição que aprendemos com as perdas é exatamente sobre a enfermidade da vida. Nossa existência humana é muito frágil, efêmera. Quando perdemos um amigo, perguntamos: quem será o próximo? serei eu? Se a vida é muito efêmera, devemos aproveitá-la muito bem. O tempo de conviver com os amigos, valorizar as pessoas, ampliar as amizades é exatamente agora. Deixar para o amanhã poderá ser tarde demais! A vida é muito curta para adiarmos sempre o tempo de sermos amigos e solidários.

Em segundo lugar, com as perdas, aprendemos sobre o valor real das pessoas. Muitas vezes, nossa vida é circundada por coisas, objetos, imóveis, enfim, vivemos presos ao material, não valorizamos aqueles que nos cercam, os quais passam a ter valor secundário em nossa vida e em nossa escala de valores. É importante nunca esquecer que as coisas foram feitas para serem usadas, e nunca para ocupar, em nosso coração, valor superior. As pessoas é que são importantes. Elas devem ser amadas e o amor vai dando, pouco a pouco, sentido à nossa existência e nos tornando mais dignos da vida e de nós mesmos.

Finalmente, através das perdas, aprendemos muito sobre as surpresas da vida. O dia de amanhã será sempre um mistério onde tudo pode acontecer! Às vezes, acordamos sorrindo e anoitecemos em prantos. Como nós não temos controle sobre o amanhã, devemos viver hoje intensamente o tempo que temos para viver, amando as pessoas, perdoando aqueles que nos prejudicaram ou ofenderam, ajudando aos necessitados, dando carinho especial para a família, dando atenção aos idosos, brincando com os filhos, enfim, tornando a existência mais bonita, nosso tempo menos fútil e nossos valores mais espirituais.

Numa existência tão curta, tão materializada e tão cheia de surpresas, só nos resta uma saída: o amor; viver bem é também aprender com as experiências amargas, é saber ganhar através das perdas, pois elas possuem uma pedagogia própria, e nos ensinam lições preciosas. A única perda irrecuperável é a perda de tempo. Quando se vai ficando velho é preciso reunir as forças que restam para aproveita-las mais viáveis ao romantismo de cantar, escrever, conversar saber do que fez e o que deixou de fazer sem as lamúrias do arrependimento.


O Parlamento - Em 09/05/2018

Já escrevi e comentei sobre o tema corrupção, não sem certo nojo e fastio, mesmo porque sua repetição continuará pelo tempo afora, até quando resolverem aprofundar uma reforma institucional que elimine, ou pelo menos tente reduzir, a influência do poder econômico nas eleições. O dinheiro move o mundo e alimenta a corrupção em seu efeito circular, atingindo a alma das instituições todas as vezes que não sofre controles rígidos da opinião pública.

Mas hoje resolvi escrever sobre a instituição Parlamento.

As instituições não são as pessoas que eventualmente as fazem. As pessoas passam, as instituições ficam, permanecem no tempo como uma necessidade da vida em comum. Elas são o fator de aglutinação, a personificação e materialização da vontade que lhe deu forma para a realização de interesses e valores humanos e coletivos. Assim, há pessoas que integram as instituições e vivem os seus ideais de maneira tão autêntica e legítima que marcam para sempre a sua passagem. Outras, no entanto, assinalam sua passagem de forma negativa, porque distorcem e traem fins e objetivos. Por isso, passam a representar maus exemplos, aquilo que deve ser evitado.

É o que infelizmente está acontecendo com o Parlamento nacional. De tanta tradição e glória, como aquela que tirou de cena dois presidentes da República surpreendidos em graves erros, vive agora uma das mais difíceis fases de sua existência. O Parlamento não é isso que aí está e as graves acusações que fazem a alguns parlamentares não é justo que atinjam a todos. E não é justo igualmente que a cena política seja reduzida ao que se vê, escuta e lê.

Conforme sabemos, a tarefa legislativa é fundamental para qualquer sociedade democrática. É no Legislativo que se devem produzir as leis fundamentais de uma sociedade, as quais precisam ser justas e benéficas ao corpo social. Não é ocioso relembrar a importância que Rousseau, no seu consagrado Contrato Social, dispensava ao Parlamento, considerando o legislador uma pessoa semidivina ou divinamente inspirada, em face da grandiosidade de sua missão, qual seja a de fazer as leis.

O que está havendo, na verdade, é, a um só tempo, abuso de poder e desvio de finalidade por parte de alguns dos envolvidos neste hediondo escândalo político. É ato de verdadeira traição à vontade popular, aos que confiaram em indignos mandatários. Portanto, é uso injusto, ilícito. Destarte, devemos ter esperança de que esta crise vai passar. Precisamos de um Parlamento forte e atuante, sobretudo ele, que no concerto dos Poderes é o único que tem todos os seus membros eleitos pela vontade popular o ideal democrático, exige e supõe cidadãos atentos e informados dos acontecimentos. Que saibam repudiar os que desservem à causa pública. Porém que também saibam separar o joio do trigo, as pessoas das instituições. Isto porque, os príncipes e suas faltas passam, mas os princípios e as instituições ficam.


Desarme-se - Em 02/05/2018

Vamos nos desarmar, não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita. Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco. Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu. Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso. Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo. É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, desarmamento seja o novo nome da paz. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro. Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados. O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos. Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução. O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Isso sem falar que o perigo das armas está entrando pela porta da frente das escolas brasileiras, levando medo e insegurança a alunos, professores, diretores e funcionários



O Pudor - Em 25/04/2018

Em passado recente, um dinamarquês, em cemitério de Copenhagen, ergueu um túmulo como protesto para simbolizar a morte do pudor em seu país, o qual havia liberado (verdadeira "legalização") a pornografia, com base na ingênua e falsa tese de que não sendo "proibida", sendo "permitida" ninguém teria interesse ou motivo mais para praticá-la, pois a tendência da natureza humana é somente fazer o que é proibido, argumentava-se.

Atualmente, com o "liberou geral", com a permissividade sexual - tudo é "natural", "não há nada demais no que se faz" - com o amoralismo dos costumes, a erotização precoce de crianças e adolescentes, com a gravidez cada vez maior entre 14 e 18 anos, conforme as estatísticas, com a transformação do homem e da mulher somente em termos de "macho" e de "fêmea" em uma sociedade moralmente decadente, não haveria estoque de material suficiente para a construção de túmulos de tal espécie ou finalidade em todas as nações pois o pudor está morto e enterrado, "sem choro e sem vela", inteiramente esquecido.

Em geral, hoje não é mais sentido nem eticamente e nem psicologicamente o denominado "senso de pudor" ou "sentimento de pudor" - o "sentir vergonha" da expressão popular -, muitos não sabem sequer o seu significado no vernáculo, ou nunca ouviram falar em tal vocábulo, outros pensam ser o mesmo pertencente a um curioso museu de palavras perdidas no tempo ou é simples termo de gramática histórica...

Fatos que ocorrem em nossos dias são bem expressivos da morte do pudor como (entre inúmeros outros) a pedofilia como fenômeno universal, usado até na internet; os crimes sexuais são mais cometidos dentro de casa, por familiares da vítima que na rua por estranhos, tanto nos países pobres como nos ricos; a apologia do adultério, a sua descriminalização (que é jurídico-penalmente o termo correto e não "discriminação", diferente ainda de "despenalização"), sustentando-se até agora, absurdamente e maliciosamente a existência de um "direito de trair" (ou" a trair"), "direito de infidelidade" (ou "à infidelidade"), no casamento(!) em nome da "liberdade" que se torna assim sinônima de "libertinagem"; o Ministério da Saúde em vez de preocupar-se com a saúde do povo (sem educação e saúde nenhuma nação será desenvolvida), está mais transformado em um verdadeiro "Ministério do Aborto" ao buscar como obsessão legalizá-lo de qualquer modo, ou então em "Ministério do Amor Livre" quando em sua publicidade subliminarmente incentiva os jovens a relações sexuais sem nenhum compromisso desde que usem preservativos.


O País tem jeito - Em 18/04/2018

A teoria do Brasil à beira do abismo é antiga. Faz mais de um século que os pessimistas dizem que este país não tem jeito. É o grupo dos catastrofistas, que usam sua literatura para decretar a nossa incapacidade de consolidar a democracia e reverter a situação de marginalidade da maioria da população.

Do outro lado figuram tipos naquela base do nossos bosques tem mais flores e nosso céu mais estrelas. Os governos costumam bancar a cena otimista e foi com entusiasmo quase juvenil que o presidente Juscelino (1956/1961) conduziu o seu programa de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Gastou-se uma fábula de dinheiro fabricado para financiar um grande volume de obras. Força é reconhecer que naquele tempo havia um clima de discussão aberta. Só que os resultados surtiram efeito negativo nas finanças, com o aumento do endividamento externo e a espiral inflacionária, agravada com a renúncia de Jânio Quadros (agosto de 1961) e a crise que desaguou no golpe de 1964.

Na verdade, otimistas e pessimistas formam o mosaico que mostra o Brasil como um país dualista, que alterna humores divergentes. Somos, como dizia Euclides da Cunha, um povo em formação ainda hoje, quase cem anos depois da primeira edição do livro Os Sertões que sofre influências negativas de políticas que privilegiam os impérios centrais. As ditaduras mais recentes (a de Getúlio Vargas (1937 a 1945) e a dos militares (1964/1985) resultaram na quebra do otimismo, gerando um deformado processo de comportamento. Só mesmo nos grotões, como escreveu recentemente o escritor Antônio Torres (autor de Balada de Infância Perdida ), ainda se encontram professoras e alunos de curso fundamental cantando hinos patrióticos.

As escolas de elite trocaram o preito aos símbolos nacionais por viagens a Disneylândia. Cantar o Hino Nacional para esse tipo de educação soa como coisa de um mundo caduco. Entre as duas posições, há sempre de lembrar que a virtude está no meio. É este o pensamento de um grande brasileiro, o sociólogo e pensador Milton Santos, para quem diante da crise brutal que marginaliza o nosso povo, vale lembrar a França dos tempos da queda da bastilha. O imperador Luiz XVI disse que não havia nada. No dia seguinte explodiu a Revolução Francesa e milhares de cabeças rolaram. A famosa cordialidade do nosso povo pode ter um limite.

A menos que o governo deixe de fazer pose para o mundo exterior e seja convertido a um programa de construção nacional. É um sonho que acalentamos desde os tempos da Inconfidência Mineira. É claro que a violência, a tragédia, a corrupção a crise Ee o comportamento de alguns ministros do nosso Supremo, estão aí na nossa cara, mas é preciso ter pelo menos uma dose de otimismo, senão de nada restará lutar para tirar do comando os delinquentes.


Era dos pulhas - Em 11/04/2018

Vivemos na era dos pulhas os mais diferenciados. Que independem de sistemas econômicos, escolaridade e renda, raça e religião, sexo e ideologia. Ilude-se hoje abertamente, utilizando os mais diferenciados meios e métodos de enganação, da praça pública à televisão a cabo, passando pela internet, ensino superior e organizações não-governamentais, alguns deles já descaradamente neo-governamentais.

Na lista dos pulhas mais destacadas, os histerismos de ideologias que já se descoloriram, religiões que oferecem mundos e fundos e homeopatias e alopatias que prometem levantar até o que amoleceu ad perpetuam rei memoriam. Para não citar o besteirol dos dirigentes da área esportiva. É chegada a hora da parte saudável da sociedade civil brasileira se manifestar, através de intensas pressões democráticas. Pela sobrevivência do nosso amanhã como nação civilizada, nunca sendo olvidada a advertência feita pela jovem Anne Frank, trucidada pelas forças da estupidez: para nós, jovens, é duas vezes mais difícil manter nossas opiniões numa época em que os ideais são estilhaçados e destruídos, quando o pior da natureza humana predomina, quando todo mundo duvida da verdade, da justiça e de Deus.

Recentemente, uma revista de circulação nacional dirigida pelo Mino Carta, através de uma reportagem - O Vulgar Para Todos - destacou a ultrapassagem de alguns limites. E quando a vulgaridade de uma classe média se amplia, perde-se o senso do ridículo, gerando irresponsabilidades sociais dos mais diferenciados calibres, para ter ibope valendo até fotografar-se se arreganhando imitando tocar guitarra. Uma classe média que já não se respeita é sinal evidente de que algo de podre está contaminando tudo, reduzindo as expectativas a um salve-se quem puder autofágico, para Bil metido-a-cavalo-do-cão nenhum botar defeito, pois já não mais se enxerga coisa decente pela frente. Para não falar dos milhões de ouvintes de rádio e televisão que se anestesiam com as infelicidades dos outros, as chifrudagens gravadas sob os olhares "furiosos" do corno fingido, não percebendo todos que tudo é muito bem programado para ampliar o faturamento comercial dos patrocinadores, alienando tudo, a família e os bons costumes. Embora à merda sempre se deva mandar os moralismos idiotas e os faniquitismos nostálgicos.

Busquemos erradicar a mediocridade dos não-pobres. Com tudo o que está acontecendo no País, afirmo que o cidadão brasileiro que não se angustiar com o que está acontecendo, é cínico, cúmplice ou sofre de dislate cívico. Governador preso, ex-Presidente, Prefeito e vice-prefeito sendo enchilindrados por descarada falsificação, bolsa-família beneficiando milhares de não-pobres e nepotismo descaradamente praticado e justificado diante de milhões de brasileiros. São os pulhas sendo desmascarados.


Caráter das elites - Em 04/04/2018

Temos sido convocados, neste nosso país, em seguidas e sucessivas gerações, ao longo de mais de um século, a uma luta incessante, política e institucional, para tentar impedir, quem sabe! um dia derrotar, o abuso, a trapaçaria, a fraude, que se repetem, aqui e ali, no processo eleitoral, impunemente.

Para a organização e ocupação dos poderes do estado todo embuste tem sido possível. Vem de longe essa incapacidade nossa de resistirmos, instituições e homens, à barganha que se instala, voraz, visando à conquista do exercício do poder e do governo. É verdade que demos, vez por outra, alguns passos importantes. Mas, ainda hoje, vivemos, infelizmente, a indignação e a vergonha de constatar que a Nação continua distante da qualidade da representação política, a que aspira, que a honre e a sirva. De tal forma que um abismo enorme se tem criado entre a credibilidade pública e a prática da atividade política.

É como se fora, num caldeirão de mazelas, a mistura irrefreável de interesses, conveniências, e prevaricação, e violência, afastando-nos, permanentemente, do objetivo de ordenar uma sociedade com instituições democráticas, decentes e justas. Esses obstáculos nos acompanham desde o Império e vêm atravessando a República. De um lado, relações sociais, que remanescem, perversas e arcaicas, impondo discriminações civis e econômicas da natureza mesma da velha sociedade escravocrata, ultrapassada; de outro lado, impedimentos que estão no caráter das elites inescrupulosas, dominantes, no coronelismo fanfarrão e atrasado, no aventureirismo ambicioso, sem fronteiras e sem pátria, que logram estabelecer-se na direção da política e dos negócios.

Por isso, a rigor, nunca vivemos a Democracia. No sentido da formação e constituição de uma sociedade de cidadãs e cidadãos, nunca a tivemos. Instituímos, simplesmente, um regime de eleições, mais ou menos complacente, velhaco mesmo, para dar forma e modos ao sistema aparente de sufrágio universal, soberania popular e garantias individuais, que o atual bom tom, da contemporaneidade moderna e global, exige e proclama. Sem compromissos éticos, nem compromissos com as famílias, as pessoas, o ser humano.

O vendaval da história varreu o estilo. Mas ficou, infelizmente, o miolo depravado, licencioso, que permanece envenenando a representação política republicana. A fraude não pode vencer. A ideia de justiça não pode submeter-se, nos tribunais, à liturgia que esconde a verdade eleitoral e tudo ajeita, oportuna, para deixar vingar a contrafação. As instituições judiciais eleitorais não podem, pela omissão, que o atalho do rito processual oco, descomprometido, registra, repetir a façanha suja da "verificação de poderes".

A Nação não quer a mentira, e portanto não quer a passividade, a complacência, ante a corrupção eleitoral, que a avilta. Por que Justiça Eleitoral? Para quê?

A corte contaminada - Em 28/03/2018

Estranhamente, cala-se, de modo ensurdecedor, o Poder Judiciário brasileiro. O que o Supremo Tribunal Federal julgou na ultima semana, dando salvo conduto para que Lula não seja preso até dia 04 de Abril não precisa de mais nada para se desmoralizar. Desmoralizou-se. A Lei Lula acaba de ser criada pelo Supremo Tribunal Federal. Não interessa se provisória ou não, se valerá apenas enquanto os ministros desfrutarem do feriadão da Semana Santa. Mesmo negado pela turma do Tribunal Federal, os últimos recursos. Ela foi criada.

Há mais de dois anos desfilam nos principais jornais, rádios e televisões do País denúncias e comprovações de corrupção, as mais variadas e sortidas ramificações em inúmeros e diferentes segmentos da nossa sociedade. Toda a nossa corte está contaminada de ladroagens, cinismos, omissões, mentiras, e o silêncio inexplicável do mais alto poder de justiça nos espanta. Salvo manifestação em concessões de habeas corpus a bandidos de colarinhos brancos, para que os mesmos, de caras lavadas, gozem das caras sérias de todo brasileiro.

É mensalão em todos os cantos e recantos de nossos poderes - imaginem em outras paragens. É no Executivo, Legislativo e, esperamos, seja dado um sacolejo também no Judiciário. O que ocorreu no nosso Supremo Tribunal Federal quando do episódio do julgamento do Habeas Corpus de Lula, foi patético. Patere legem quam facisti (Respeite a lei que fizeste). Esquisito, não? E logo se trancaram aqueles onze vestais na mais precisa eutanásia da coragem e personalidade reinantes em suas vidas, gerando para todo povo brasileiro um arrepiante descrédito naquele Poder e, como sequela, um desabonador silêncio para a Nação.

Nunca o silêncio dos inocentes, mas aquele mistificado como resguardo comum a detentores de caras lisas. É bom nem imaginar que o tal mensalão da compra de votos e favores criado nas tapadeiras do PT e nas ante-salas do Planalto possa ter atingido as barbas daquela imponente e respeitável instituição. Ou chegaremos ao fundo do poço.

E agora? Tem bububu no bobobó também em tudo que é órgão oficial, empresas estatais - economia mista ou fundação, enfim, atingindo todas as veias sociais, populares, sim sinhô. Quadrilhas de apostadores, eletrônicos ou virtuais, cibernéticos ou robotizados, pouco importa. Juízes comprados para mudar resultados de jogos, fazendo a torcida de boba, jogadores de corpos-moles, técnicos burros, e pior, jogando toda a classe de árbitros à galhofa pública e, de agora em diante, passiva da mínima fiscalização. Embora, é bom lembrar, que essa tal compra de juízes de futebol vem de muito tempo atrás.

A verdade é que a gatunagem é incrível no nosso solo pátrio e a corte brasileira está encurralada. E, quase esqueço, quanto ao nosso Melo.. Este é de todos os Ramos.


O medo - Em 21/03/2018

O medo, transformado em pânico, ajudou a destruir Cartago. O medo, transformado em pânico, pode acabar com o que resta de civilização. Se o medo não for derrotado, os terroristas, mesmo que tenham morrido todos, já terão vencido a guerra.

Ao tratar, em um de seus ensaios, do medo que se apossou de Cartago, Montaigne o descreve como "une merveilleuse desolation", uma desolação sobrenatural. Diante do medo, destaca o grande pensador, até a morte é mais suave: para dele fugir, os homens enforcam-se, envenenam-se, afogam-se. Ou buscam o abismo, como, no desespero, acossados pelo fogo, muitos saltaram do alto das torres de Nova York. Atribuem a César (e o que não lhe atribuem?) a frase forte contra o medo, quando o advertiram dos sinais aziagos de seu último dia: o homem de coragem morre uma só vez; o covarde, muitas vezes.

No Brasil, especificamente, a nova fase de modernização capitalista teve impactos consideráveis sobre a vulnerabilidade social urbana. O tráfico territorializado de drogas avançou, criando localidades praticamente fora do controle do Estado. O aumento das desigualdades sociais configurou uma crise de grande envergadura que contribuiu para a deterioração das relações de sociabilidade e de confiança, ampliando a segregação e o medo.

A nós, brasileiros, bastam-nos os nossos próprios e bem instalados medos. Há muitos anos que convivemos com o medo das ruas, o medo da noite, o medo das esquinas, o medo até mesmo de nossos guardiães, oficiais ou privados - além do medo do desemprego, que apavora mais do que a morte (muitos são os desempregados que se suicidam), o medo da fome, o medo da miséria. Em alguma coisa, no entanto, o medo é justo: ele atinge ricos e pobres, embora atinja mais os pobres do que os ricos.

Os pobres não podem pagar seguranças nem erguer altas muralhas em torno de seus barracos; estão impedidos de blindar seus carrinhos, quando os têm; devem enfrentar a viagem nos ônibus sujeitos aos assaltos todos os dias, a caminho do trabalho e de volta a casa. No trabalho dependem do humor de seus capatazes, e amanhecem, a cada dia, sob o medo de receber o aviso prévio de dispensa. Mas os ricos também se apavoram: sua fortuna, sua opulência, sua soberba são também orgulhosas torres, alvos visíveis e atraentes.

O presidente da República ao decretar intervenção federal na area de segurança do Rio de Janeiro, fez mais uma bravata, não será o exercito com tempo determinado que irá acabar com a bandidagem do Rio e consequentemente com o medo da população. Em Manaus, não há um dia sequer em que não haja pelo menos dois homicicios e um numero incalculável de assaltos em ônibus e ruas. Hoje não há quem saia de casa com o medo de não retornar.


Belo sonho de vida - Em 14/03/2018

Posto que a morte é inevitável, como deveria ser a vida, para o homem comum?

Do ponto de vista financeiro, não, claro, a obsessão pela acumulação de bens e riquezas, luxo e ostentações, que ninguém levará consigo quando o dia fatal chegar. Sim, alguma base material para viver uma vida digna e com um recatado conforto, sem grandes atropelos, até com uma pequena folga para se permitir, de vez em quando, um modesto passeio pelas belezas deste mundo.

Do ponto de vista profissional, sobretudo a integridade do comportamento, qualquer que seja a atividade exercida: que ela seja praticada de forma reta, altiva, honesta, sem subserviências desmoralizantes, sem falsidades, sem precisar se vender, sem se corromper, sem "mensalões" ou "mensalinhos".

Quanto à duração, que a existência fosse longeva, avançasse pelos anos, mesmo o corpo ficando encanecido e brancos, os cabelos. E visse, em derredor, a família bem constituída, nutrida de sólidas afeições recíprocas.Tropeços, decepções, quedas, deslizes, atritos, que existência humana poderá se declarar completamente preservada dessas turbulências?

Essencial terá sido a certeza, a cada crise renovada, de que o que os unia era muitíssimo mais forte do que tudo quanto conspirasse para desagregá-los. E ver a fecundidade da vida, não só os filhos brotando, crescendo na alegria e na abnegação de um lar bem estruturado, mas também brotando os filhos dos filhos, e até filhos dos filhos dos filhos, todos com alguma segurança, não só a relativa, material e financeira, mas sobretudo a fundamental, emocional e afetiva, pela presença e apoio de uniões igualmente consistentes e entrosadas.

E chegar a tal idade avançada, com os achaques inevitáveis, é claro, mas com razoável lucidez, com a capacidade de ainda discernir, em torno, o generalizado júbilo, e sentir, em todos, a gratidão e o carinho - tais e tantos e tamanhos que seria competição absolutamente impossível querer identificar entre os netos - todos já integralmente criados, quase senhores absolutos dos próprios narizes - qual o mais presente ou qual o que mais o amava.

À noite, dormindo, sem nenhum aviso prévio, exatamente como ele mesmo desejava, e integralmente realizado o sonho da vida longeva e vivida com simplicidade e retidão, respeitado e amado pelos filhos, idolatrado pelos netos e bisnetos, - aos sobreviventes que ficarem, por mais desolados que estejam (como não poderia deixar de ser), só restará reconhecer que aquela foi uma vida abençoada, foi uma graça de Deus, graça a poucos, a muito poucos concedida. E desconfiar, no mínimo, que ganharam no céu mais um intercessor, porque, entre esses familiares felizes, "a separação é impossível", seja aqui seja além, "o amor é infinito" e "os laços que os unem são indestrutíveis".


Mulher - Em 07/03/2018

Durante mais de vinte anos escrevendo em jornais de nossa cidade seria natural coincidir escrever, no dia Internacional de Mulher. Já fiz vários artigos enaltecendo a mulher, mas hoje queria antes de homenagea-las, lembrar como precisamos da nossa afetividade com as mulheres e com o mundo, para que possamos ver os tons do arco-íris, o som da chuva, a poética da lua, a vida nos olhos do outro, a generosidade da flor que se abriu, a dor do irmão que sofre, a carência do filho que chora. A vida tem pressa e ontem já se foi.

As mulheres desse século terão uma vida média de 75 anos. Até o século 19 a média de vida das mulheres era de 40 anos de idade. A mulher, em sua evolução, não perdeu a sua característica de concha, de afeto, de carinho, de porto seguro tão necessária no relacionamento humano. No Dia Internacional da Mulher quero, ficticiamente, implantar uma lei que representa a modernidade da nova mulher... "As mulheres que completarem 50 anos ou mais no século 21 terão direito, sob o ponto de vista biopsicossocial, a um abatimento de 20% na idade cronológica". Cumpra-se.

Mas, eu quero ainda neste momento, falar-lhes de uma mulher muito especial. De uma mulher que tem os predicados e virtudes das mulheres bíblicas. De uma mulher que tem o coração bondoso como o de Catarine. De uma mulher que tem oportunidades fantásticas na vida. De uma mulher bonita interior e exteriormente. Sua beleza é diferente de todas as outras. Ela é admirada e elogiada. De uma mulher que venceu com dores especiais para ser uma vencedora nas batalhas da vida. De uma mulher muito talentosa, que tem oportunidades de a cada dia desenvolvê-las no lar e na sociedade.

Eu quero falar desta mulher, porque sua vida me empolga. Sua vida é um presente de Deus. É uma mulher de fibra de garra, lutadora, que também sofre e muitas vezes chora, mas tem sentido no seu dia a dia o conforto de Deus. Uma mulher que na jornada até aqui, tem convicção de que Deus a carregou nos seus poderosos braços para poder superar os traumas de infância.

Caras leitoras, realmente esta mulher, você irá conhecê-la lendo este artigo que está em suas mãos. E neste artigo você irá ver a fotografia desta mulher. Esta mulher é você! Esta mulher de oração e ação que foi criada a imagem de Deus. Minhas caras, olhe para você mesma, faça uma auto-análise de sua vida, veja que linda história, existe em você, o quanto poderá ainda fazer e o quanto Deus tem feito por você. Muitas coisas maravilhosas já fizeste, mas muito mais ainda poderá fazer. Parabéns a todas as mulheres pelo seu dia.


Sina inevitável - Em 28/02/2018

Os sequestros e suas torturantes modalidades; homicídios em linha desafiadoramente ascendente; "clonagem" de cartão de crédito; quadrilhas especializadas em saques eletrônicos e fraudes afins; corrupção em todos os níveis nos poderes públicos: o cenário social brasileiro é de pura desesperança, dada a onipresença do fenômeno do crime a demandar prementes soluções políticas para a sua erradicação ou, ao menos, para obrigatória diminuição. A vitimização diuturna imposta a toda uma apavorada sociedade retira, lamentavelmente, o caráter de excepcionalidade do fato delituoso, para convertê-lo em mero lugar-comum nas relações sociais do cotidiano, tudo pela sua continuidade apavorante que impõe a todos um pseudo estado fleumático, mais de medo e perplexidade, ressalte-se, do que complacência. Parece que conviver com o espectro do crime a rondar os mais comezinhos hábitos da população tornou-se a sina inevitável das pessoas: fomos ou seremos as próximas vítimas. Assombrosas e apocalípticas estatísticas criminais revelam o recrudescimento desmesurado da violência nas metrópoles, como também em longínquos e pacatos distritos interioranos, onde outrora e raramente a quietude do lugar era surpreendida por um delito isolado, no mais das vezes de natureza passional. É patente que os finais de semana e feriados transformaram-se em autêntica guerra civil, face aos morticínios e avalanches de roubos. Os inúmeros programas televisivos unicamente voltados para a temática do crime atingem grande audiência, mormente quando veiculados em "horário nobre", e alguns, como que substituindo a obrigação estatal de persecução de periculosos delinquentes, contam com a interação e o concurso dos cidadãos espectadores para um ofício de ordem eminentemente público: identificar, através de fotos repetidamente mostradas, o paradeiro daqueles que o Estado policial já perdeu de vista. Conduta juridicamente punível, fato é que o crime está se tornando um episódio banal em nossas vidas, dada a repetição de sua prática por um rol de homo violens dos mais diversos estratos sociais, importando no correspondente descrédito do povo quanto aos mecanismos institucionais de sua prevenção, controle e punição, sendo certo residir neste intrigante aspecto a grande problemática da sua erradicação, pela desproporção mesma da adoção de políticas e investimentos públicos específicos sempre aquém do mínimo tecnicamente necessário, daí o florescimento e multiplicação de empresas particulares de segurança. E não adianta criar Ministério de Segurança Pública, porque os criminosos não estão preocupados com estrutura hierárquica.


Acomodados e esperançosos - Em 21/02/2018

O escritor Artur da Távola lembra que o brasileiro traduz o resultado da mistura de acomodação com esperança. Os ingredientes que compõem a alma nacional já foram decantados em prosa e verso, constituindo-se uma permanente característica de nosso povo. Em princípio, não devemos lastimar nosso espírito pacífico e nem a vocação para a esperança. Decorrentes de herança cultural e da indecisão em construir o verdadeiro destino da Nação. Avaliar as contradições existentes parecer ser o melhor caminho para um dia poder superá-las. Em contrapartida, possuímos o privilégio de ser um povo alegre. Uma capacidade imensa de esquecer problemas e de vivenciar as sugestões do momento, colocando em segundo plano as angústias permanentes e os desafios que nos aguardam. Prevalecem as lições da sabedoria - procurar desfrutar dos ocasionais motivos de alegrias e das boas emoções que acontecem sem avisos. Despertando em cada um a arte e a consciência de que tudo passa e o tempo apaga todos os fugidios valores. Já se tornou didática a recomendação de que sem o autoengano a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Daí a necessidade de se criar sempre ilusões. Os realistas enxergam a gravidade dos fatos, medem as angústias e se desesperam pela falta das soluções. As ações do governo decepcionam a população. Fabricam mentiras, exigem sacrifícios e deixam de fazer a sua parte. Menosprezam o entendimento da sociedade e contam com a certeza de que logo as injustiças serão esquecidas. Superadas por novos assuntos ou pelas novas tragédias. A imoralidade do teto salarial que permite a acumulação de altos vencimentos estabelece privilégios inaceitáveis. Agride o imenso contingente de funcionários e trabalhadores que amargam um período de cinco anos, de dificuldades e congelamento de salários. O valor do salário mínimo não desperta nas autoridades o mesmo ânimo de interesse. O Ministério da Previdência expõe reflexos em seu orçamento. No entanto, o INSS não declara que paga apenas parcialmente a maioria das aposentadorias, não obedecendo à proporção do teto das contribuições recolhidas. O escritor Antônio Maria legendariamente registrou - brasileiro, profissão esperança. Os detentores do poder exploram a boa fé dos cidadãos e acham que tudo podem fazer e enganar. Inclusive a condenável manipulação das verbas públicas. O governo atua fortemente para não atualizar o salário do trabalhador nem recuperar as perdas dos vencimentos do funcionalismo. Mas, não penaliza as ambições das lideranças políticas que desviam recursos e desfalcam o patrimônio moral da Nação.


Carnaval e costumes - Em 14/02/2018

O que escrever numa quarta feira de cinzas, nada a não ser sobre carnaval. Confesso que este ano fiquei alheio a todas as bandas e blocos, mas vi pela televisão. O carnaval que hoje faz a gente imaginar não sejamos, na realidade, principalmente pela sua causa, considerados por muitos como país da libidinagem, para não dizer país por certos períodos do ano endemicamente devasso. Não se pode negar que nesses dias destinados ao império do rei momo, não se observe que realmente confundimos a liberdade de comportamento com a mais inescrupulosa licenciosidade nos costumes, nas expressões, e nas manifestações lúdicas.

A prática apelativa e escancarada do fluir dos instintos desregrados toma, agora, o lugar da espontaneidade admirável que caracterizava a manifestação festiva dos grupos humanos dos anos 50 e 60 por exemplo. Por volta dessa época, sem dúvida se externavam padrões de dignidade carnavalesca muito menos ostensivos, muito menos vergonhosos e sem o nível de baixaria como hoje se veem. Ora, acho que naqueles tempos, acreditava-se não ser normal nem lícito o uso de liberdade do instinto lascivo em detrimento, ou com acinte, aos princípios da moralidade pública universalmente aceitos. Os costumes calcados em tal pseuda liberalidade, ainda que seguidos por maiorias nacionais, não significam que possam ser justificáveis. Na verdade todo e qualquer hábito ou costume somente tem livre trânsito, em termos de viabilidade de existência, desde que tenha ele por concessão da sociedade soberana o seu respectivo salvo-conduto da decência. As referências a nossa nação, maldosas e arrogantemente dúvidas no exterior, debochando de nosso país como o país do carnaval e do futebol, teriam de ser rechaçadas, contestadas com argumentos defensivos e esclarecedores. É de nossa obrigação fazer oposição e abjurar tal infâmia, não exercer atitudes de completa indiferença, através do silêncio comprometedor e desdenhoso. O carnaval e o futebol afinal são manifestações comuns aos povos de grande número de nações, consequentemente não seria por isso que se fundamentariam críticas como se, por sermos adeptos de tais práticas, com tanto fervor, seríamos povo menos digno da civilização.

Enfim, o que não nos recomenda, apesar de ser direito democrático, é essa liberação abusiva, de um ano após o outro dessa demonstração de verdadeira lascívia, durante os três ou quatro dias em que a orgia toma conta dos costumes. Se a exposição fosse apenas de corpos nus ou seminus não seria nada, tolerar-se-ia, mas a ostentação de libidinagem, sem nenhum outro intuito que não para provocar o instinto sexual, não se vê absolutamente viabilidade de com isso a gente contemporizar. Parece que sob o impulso de tal estado de ânimo perde a vez qualquer tentativa de refreio das paixões.


Que tiro foi esse? Em 07/02/2018

Desanima o escritor saber que a maioria das pessoas, independentemente do nível socioeconômico, nada lê e que no universo dos leitores ativos poucos se debruçam sobre textos de boa qualidade. Até na universidade é expressivo o número dos que lêem sem conseguir entender textos de pouca complexidade expositiva e argumentativa. Bombardeados por apelos visuais irresistíveis, crianças e adolescentes resistem cada vez mais à leitura e começam a ouvir péssimas músicas. O insinuado, o dedutível, o que vai além do literal banal, fica mergulhado nas sombras da incompreensão. Por conseguir detectar no texto apenas o pouco que já sabe, o leitor deixa de com ele aprender alguma coisa. Daí a leitura despontar como algo tedioso, uma sopa de palavras sem encanto e sem a dimensão de um espaço de reflexão capaz de ensejar uma fecunda interação entre o autor e o receptor.

Se formos falar de referência também da música, aí é que a coisa pega. Se lembrarmos cantoras como Elis Regina, Maria Betânia, Carmem Miranda, Gal Costa, Ângela Maria, Nara Leão, Clara Nunes, Maysa, Beth Carvalho, Simone, Ana Carolina, Elza Soares, Dalva de Oliveira, Zizi Possi, Zélia Duncan, Maria Rita, Emilinha Borba, Isaurinha Garcia, pra ficar em apenas algumas, tínhamos letras e músicas maravilhosas. Mas aqui pra nós, colocar a cantora Anita como símbolo sexual do Brasil e chamá-la para ser a cantora com mais capacidade para representar nosso país, passa da exploração sexual para a idiotização.

Dizer que isso é letra de musica: Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, an an Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, an an Tá pedindo, an, an Se prepara, vou dançar, presta atenção An, an tutudum an, an Cê aguenta an, an Se eu te olhar Descer, quicar até o chão", é brincar com a musica brasileira, jogando seus vômitos para uma população que não tem senso crítico, uma população medíocre que escuta estas baboseiras só porque todo mundo escuta.

Chega disso!

Vamos aprender a filtrar o que a gente escuta por aí e apreciar as músicas boas! Vamos deixar essa mediocridade apenas para os que insistem em ser medíocres! A sensibilidade artística é algo que está se tornando artigo do luxo no mundo de hoje. Por isso que estamos vivendo essa decadência da música. Quase todos só querem ouvir músicas internacionais. Não estou condenando as músicas internacionais, não é isso. Eu também escuto muitas. Eu estou questionando aqueles indivíduos medíocres que pensam que as únicas músicas boas são as internacionais. Eu fico muito triste ao ver tanta gente que não se abre para conhecer melhor as músicas nacionais. É uma pena. Essas pessoas estão deixando de apreciar uma beleza magnífica.

Epa, que tiro foi esse?


A temida prova - Em 31/01/2018

Estão vivos em nossa memória os absurdos que, em outros tempos, se cometiam nas provas de concursos públicos, em nosso país. Nelas, nada havia o que pudéssemos definir como politicamente correto, pois, na verdade, eram arapucas apelidadas de provas. Muitos candidatos, coitados, preparavam-se à exaustão para a maratona de Português e Matemática, davam-se bem nas duas disciplinas, e depois morriam na praia. É que um bicho-papão, assustador e indomável, já os espreitava de longe, pronto para sugar-lhes os pescoços. Era a temida prova de datilografia, capaz de humilhar o mais competente dos candidatos, dado o natural nervosismo do momento. É fácil avaliar a estupidez do esquema então em voga. Ora, se o concorrente vencera etapas difíceis nas duas provas consideradas pesos pesados, é porque possuía razoável bagagem de conhecimento específicos. Além disso, como exigir datilografia como prova eliminatória, se uma percentagem ínfima dos aprovados seria escalada para esse setor? Mas ninguém reclamava, ninguém protestava; alguns até achavam aquela trapalhada um charme... Já imaginaram quantos talentos tiveram sufocados seus projetos de vida profissional por obra e graça desse desqualificado sistema? E quantas boas cabeças o serviço público terá perdido? Quanto à prova de Língua Portuguesa, propunham-se questões que hoje soariam como verdadeiras piadas. Ficaram para a posteridade algumas charadas de pontuação, lúdicas e chamativas, a exemplo do hilariante um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro , ou do não menos terrível Maria sua mãe grita ela traga-me a toalha . Extravagâncias desse calibre, aliadas à pífia exigência de se saber o gentílico de Quebec, Beirute, Jerusalém etc., costumavam pregar uma peça em excelentes candidatos e jogá-los na rua da amargura. Nem tudo estava perdido. Depois, o barco singrou águas serenas até certo tempo, pois nasceu uma lógica para a elaboração das provas. Eis que, desgraçadamente, surgiram as ondas revoltas do contra-senso. Os conhecimentos lingüísticos ficaram à deriva ou foram sumariamente arremessados à praia como excrescências. Instalou-se o império da interpretação/intelecção (êta palavra bonita!) de textos. Examinando gabaritos de concursos, tenho encontrado coisas do arco-da-velha. Nas questões relativas ao texto, não são raras as perguntas capciosas, aquelas que sugerem até três opções corretas. Também é possível flagrar sandices como: Em que estaria pensando o autor quando, no parágrafo tal, ele afirma que... Vejam só: em que estaria pensando o autor ! Pode haver incoerência maior num teste em que estão empenhados a competência e os conhecimentos de um candidato? E o desentrosamento das unidades exigidas pelo programa das provas? E as agressões ao português... no programa de Português?...



O que é ser velho - Em 24/01/2018

Outro dia fui abordado por um amigo de longas datas, com esta pergunta: Você se considera um velho? Pasmei por alguns instantes e o respondi que não, visto que a vida é linda e a velhice não é coisa inesperada é o resultado das mais diversas fases da sua existência desde o nascimento, crescimento, até chegar à idade adulta, mesmo se notando na nossa face, todas as manhãs, sinais inexoráveis da marcha do tempo refletido através de um espelho. No meu conceito de velhice, assim me expresso: "Você é velho quando se renova a cada dia, quando tem projetos e olhos postos no horizonte, quando seu calendário tem manhãs e quando tem as rugas marcadas pelo sorriso".

Velho e velhice, são palavras de conteúdo e peso psicológico terríveis sobre a mente humana, em particular do idoso que se acostumou a vê-la, ouvir e chegar. Envelhecido e sem condições físicas de desfrutar na sua totalidade da recompensa, já se considera velho, e essa velhice cria-lhe problemas diuturnos e crescentes.

Assistimos, nos dias atuais, ao homem que, no maior dos desafios, civilizou-se, e, pela evolução do seu saber, conhece a si mesmo. Dentro dos seus conhecimentos, conseguiu dominar os fenômenos da natureza, culminando com a conquista do espaço sideral, controle das doenças após estudos das mais diversas áreas do corpo humano, chegando a um limiar, onde transplantes de órgãos têm salvado muitas vidas.

A descoberta do genoma humano é o máximo dessas descobertas, quando é possível se conhecer o que passa no interior das células que formam nosso universo corporal. Mesmo assim, esse homem sábio de conhecimento, desgraçadamente ainda sofre ao invés de regozijar-se na última fase da vida cheia de problemas diários pelo estresse que é acometido, vivendo um calvário de tensão imposto por uma sociedade mercantilista, ao inverso dos nosso antepassados que formavam populações isoladas e que sobreviviam por meio de hábitos saudáveis e por isso viviam mais esperando a morte dentro de um limiar de tolerância e não culminando com estado mórbido, como se vê na geração nossa.

Enfim, viver é envelhecer. A cada instante insensível e irreversivelmente à ação do tempo vai se fazendo sentir sobre o organismo humano, construído na época da concepção, do crescimento e do desenvolvimento. O tempo passa pela ação deletéria a partir de certa idade. O efeito é o encurtamento da existência a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, se não para evitar tal desfecho, pelo menos para ampliar a expectativa de vida. Tenho por hábito dizer que a vida é um sopro.



Reflexão sem televisão - Em 17/01/2018

Queria propor às pessoas peo menos de Manaus e do Brasil, que desliguem as suas televisões por uma semana no ano e tentem refletir sobre a vida ansiosa e apressada que vivem. Uma semana inteira sem notícia, novela, reality show, futebol, propaganda, nada. Esqueçam-se, que a televisão existe e promete colocá-los a par com o Mundo a todo instante durante todo o dia. Acredito que uma semana sem televisão pode mudar a vida das pessoas, revelando a elas outras formas de viver e, nos casos mais dolorosos, o quanto a vida tornou-se vazia e enfadonha com as tantas horas de televisão que aceitamos, submetidos à ditadura da imediaticidade.

Não estou convencido que poderemos refletir sobre a vida, mas concordo que uma semana sem televisão pode levar as pessoas a uma reflexão sobre o que fazer com o tempo disponível. Há uma pesquisa do professor Jeffrey Johnson, da Universidade de Colúmbia, publicada na Science, em que mostra a acentuada relação entre a programação da televisão e o comportamento violento de quem a assiste, crianças e adultos. Antes de falar da programação da televisão, ou condenar a televisão como meio de comunicação perverso, manipulador e invasor de privacidades, imaginei que há por trás desse plano de agonizar as mentes e colocá-las merce da propagação de idéias desagregadoras, um componente ideológico, ditado pelo mercado: a audiência.

Tudo é medido pela quantidade de gente que está vendo e pouco se discute sobre o que é visto. Se muita gente está assistindo, então continua, e imagina-se que, justo porque muita gente está assistindo, deve haver uma razão de identificação. Só me pergunto o que leva um povo, considerado cordial e humilde, a querer ver tanta violência, imersão na privacidade alheia e mergulhar em provas de desafios onde prevalecem o grotesco e a animalidade. A primeira resposta me parece conhecida: estar na mídia implica ser cultuado como celebridade e esta condição leva à riqueza. Só me pergunto se os produtores populistas, captadores do desejo e dos anseios populares, no uso de suas arbitrárias intuições do que tanto quer ver o povo, não poderiam tentar algo menos próximo das necessidades básicas do ser humano.

Desligar a televisão por uma semana é fazer a audiência cair, é colocar uma chaga de contestação nas programações. Mas, espere aí, por favor: na programação da televisão também há momentos de entendimento do mundo onde vivemos de uma maneira menos caótica. Talvez não precisemos desligar a televisão, mas escolher o que queremos ou não ver e decidir o quanto necessitamos estar vidrados por dia, colocando em xeque "Madame Audiência". Quem sabe, desligando por uma semana, dê para arrumar a cabeça.



Faltam vozes altivas - em 10/01/2018

Há uma crise abalando os alicerces da Nação. É tempo de instaurar um diálogo construtivo entre os partidos políticos e a sociedade e sair das brumas de um entardecer para despertar um bom-dia brasileiro. Os grandes intérpretes da vida nacional sempre disseram que o mal do nosso País é o marginalismo das elites dominantes, que vivem submissas ao mundo exterior, limitando-se a copiar leis e instituições alienígenas. O copismo legiferante produziu um país injusto. Os guias da nacionalidade são conhecidos. A lição dos jesuítas nos primórdios da terra de Vera Cruz e a epopéia dos bandeirantes (Raposo Tavares, Garcia Paes, Bartolomeu Bueno e Fernão Dias) demarcaram os limites do Brasil, tornando letra morta o Tratado de Tordesilhas. Mas não deu para transformar em realidade os sonhos de Frei Caneca e Tiradentes. O clarim da independência não frutificou em justiça social. A única saída é retomar os princípios fundamentais da nossa história. Se olharmos à nossa volta, veremos que faltam vozes altivas e competentes, como ouvimos de Bernardo Pereira de Vasconcelos e Honório Hermeto Carneiro Leão, e a presença marcante de um novo Mauá na luta pela emancipação econômica. Tampouco temos a visão de um Rio Branco na política externa. Falta-nos um ideário nacional. Nossos eldorados são coisas do passado. O ouro de Minas foi carreado para um dos países que lançou as bases do turbocapitalismo neoliberal. Sérgio Buarque de Holanda, em seu notável livro Visão do Paraíso, lembra esquecida página de Caio Prado Júnior: Na realidade nos constituímos para fornecer açúcar e tabaco, mais tarde ouro e diamantes, em seguida algodão e café para a metrópole européia. Não mudou muito. Uma nova etapa está em andamento e terá seu epílogo no grande comício eleitoral de outubro. Já passou da hora de conhecer os planos dos candidatos presidenciais. Aqui e ali há trechos com o evidente propósito de abrandar um choque com as forças que dominam o mercado, ao dizer que alterações na proteção à produção nacional não implicam, contudo, o fechamento da economia, nem tampouco devem promover a ampliação do grau de monopólio e de margens de lucro das empresas instaladas no país. Lembro agora uma frase de Joaquim Nabuco: Se dos moderados não se podem esperar decisões supremas, dos exaltados não se podem esperar decisões seguras. Mudaram apenas os personagens, mas a situação é idêntica. Em que pese os avanços sociais e se diga que vivemos em um Estado Democrático de Direito, continuamos sem a tão sonhada liberdade. Se no passado, como os militares, não tínhamos vez e voz, agora no presente, quem nos silencia são os bandidos. As favelas do Rio (sempre o Rio!) são exemplos vivos de que o cidadão nada pode quando o Estado-traficante não permite. Jacarezinho, Vidigal, Providência, são lugares com mais de meio milhão de habitantes dominados e aterrorizados ao ponto deles não saírem de casa ou irem à escola se o tráfico não permite. Aqui no outro Rio, o do Norte, a cidade passou horas e horas em poder de bandidos que, ao final pegos alguns, foram soltos pela Justiça. Sem contar que nos dois Rios (de Janeiro e do Norte) tem policiais à beça envolvidos no mundo do crime. Para não ficar só nesses dois Estados, no Espírito Santo, a maior quadrilha é dirigida pelo presidente da Assembléia Legislativa e por um coronel da Polícia Militar. E Em Manaus? Basta ver quem está preso.


Fábulas e verdades - Em 03/01/2018

Algumas pessoas pensam que nasceram para serem admiradas. Querem, a todo custo, serem notadas pelas virtudes que têm ou pensam ter. No livro "O Pequeno Príncipe", um dos personagens que aparece é o vaidoso. Ao receber o Príncipe, não se faz de rogado e ordena logo os aplausos para si. Mesmo não existindo mais ninguém no planeta, além dele, quer ser o mais bonito, o mais inteligente, o mais rico... Decepcionado, com tal recepção, o Pequeno Príncipe foi se embora. Não estava disposto a aplaudir apenas para satisfazer o ego alheio.

Na mitologia grega, todos conhecem, a estória de Narciso. De tão encantado, com a própria beleza refletida no lago, acabou se afogando. Ao ler a estória, a gente pensa: que pena! Um jovem tão bonito e uma morte tão feia... Infelizmente, esta parece ser a sorte reservada aos vaidosos. Algumas pessoas não conseguem ver nada mais, além de si mesmas. Não conseguem trabalhar em equipe, nem colaborar com os outros. Sobre o pedestal onde se postam, só querem o perfume do incenso alheio.

Jean de la Fontaine, em uma de suas fábulas, relata-nos a estória da raposa e do urubu. Após comer um bife, "bem passado", o urubu segurava um grande pedaço de queijo no bico, enquanto descansava no alto de uma árvore. Uma sábia raposa, entretanto, aproximou-se dele dizendo: Estou sabendo! Disseram-me que você tem o canto mais lindo da floresta! Pena que ainda não tive o prazer de ouvi-lo, completou com olhar de aparente tristeza. Diante de tal elogio, o urubu estufou o peito e começou a cantar desajeitado. O pedaço de queijo caiu direto na boca da raposa que saiu correndo pela floresta.

Hoje, muita gente, ainda perde o queijo por causa da vaidade excessiva. Quantos profissionais deixam de crescer e se especializar pensando que já sabem tudo. A vaidade, nesse caso, leva à morte do profissional. Um mercado competitivo, como o nosso, não tolera muito os urubus...

Outra fábula que li, quando criança, dizia que o pavão era a ave mais vaidosa da floresta. As penas de sua cauda, quando agitadas, provocavam um espetáculo de rara beleza. Mas, como nada é perfeito, o que sobrou em seu rabo, faltou em seus pés. Os pés do pavão causava escândalo de tanta feiura. Por causa disso, o pavão levantava o rabo, não tanto para mostrar sua beleza, mas para esconder a feiura dos próprios pés.

O vaidoso, ao que parece, quer muita atenção sobre si, também para esconder as lacunas de sua personalidade e a miséria real na qual se encontra. Numa organização, o "sucesso pessoal", quase sempre é resultado de um esforço coletivo. Para que o piloto vença a corrida, não podemos ignorar o papel do mecânico, ainda que ele não apareça. Os salvadores da Pátria, há muito caíram de moda. O pódio poderá ceder lugar ao túmulo, se um simples mecânico deixar de colocar o parafuso no lugar certo. Se o barco afundar, a morte não será reservada somente ao piloto, mas a toda a tripulação.


2018 - Em 27/12/2017

A cada ano parece que o tempo passa mais rápido, lembro bem depois desses mais de mil e duzentos artigos, que já escreví sobre o final de mais um ano mais de trinta vezes, mas a vida é mesmo assim: tudo flui e sempre, como o dia que vai escurecendo-se com a noite, que perde-se ao amanhecer da alvorada do novo dia. Eis o tempo "de novo"...

Existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente - no mais ou menos das vezes? "O tempo tudo tira e tudo dá; tudo se transforma, nada se destrói...", sentenciou Giordano Bruno.

O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso... Indubitavelmente que o tempo, como uma dimensão física - segundo os cientistas naturalistas racionais - ou transcendente - vide os metafísicos e filósofos -, ocorre transmutando-se a si mesmo e a todos os seres animados e inanimados, como se fora ele, o Gênesis do grande Universo. Seria o tempo-ser incomensurável, onipresente e onisciente, o próprio Deus?!

O nascimento, a evolução e a morte de uma estrela - qualquer a sua grandeza - se dá através do tempo... E quanto aos homens... "Nunca existiram grandes homens enquanto vivos estivessem. É a posteridade que os cria", observou, no seu tempo, Gustave Flaubert.

Um dia, num passado tão perto, um homem do seu tempo mas muito iluminado pelo conhecimento acumulado sobre os ombros de outros gênios, e pelo talento da sua inteligência criativa, articulou os princípios do espaço e da luz e matematicamente demonstrou que eles se inflexionam quando uma velocidade lhes era contraposta num tempo determinado: o universo se curvava em algum espaço futuro... Ou seria no passado?

Albert Einstein acabara de "relativizar" a lei da inexorabilidade do devir, segundo o paradigma: tudo tem o seu tempo... de fruir. E a direção é o futuro...? Revelara-se: o universo tem massa e energia, e se move, se expande... Além do tempo. Mas que tempo? Na efêmera condição humana, apreende-se desde a sua infância mais tenra e vulnerável que o tempo serve, primordialmente, para o crescimento do corpo físico, da aprendizagem do viver, da reprodução da espécie-família, para o envelhecimento e para a morte.

"Nada do que é grande surge repentinamente, nem mesmo a uva. Se me dizes: "Quero um figo", respondo-te. "É preciso tempo". Antes... deixa virem as flores, depois.... os frutos e que amadureçam", filosofou o grego Epicteto.

Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor.

Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. Assim seja. Feliz 2018 para todos os leitores.


Então é Natal - Em 20/12/2017

Domingo é Natal, e sempre que a data máxima da cristandade de aproxima, sou naturalmente levado a pensar nos mistérios da vida e especialmente no que significou para a humanidade o nascimento de Jesus, o sentimento de sua existência, de seus padecimentos e da brutalidade de sua morte. É quando chego mesmo ao extremo de indagar se o cruel sacrifício a que Deus submeteu seu Filho, ao enviá-lo à terra na tentativa de salvar os homens - esses ingratos -, teria valido a pena.

Como vêem, o Natal para mim não representa apenas tempo para montar árvores coloridas e fazer troca de presentes. Ao contrário, é época de recolhimento, de reflexões, de pensar nas profundezas do significado e dos mistérios da data. Está no Velho Testamento que no princípio era o caos, que Deus criou a terra e os céus. E, não contente com obras tão grandiosas, criou o primeiro homem, ao qual, vendo-o tristemente solitário, brindou com a companhia de uma mulher. E deu no que deu. O casal tanto se multiplicou que o cenário terreno se transformou neste imenso complexo do qual temporariamente fazemos parte, ora rindo, ora chorando.

Ao menos para mim, um diplomado em ignorância sobre esses assuntos, o que ainda não ficou bem claro foi a intenção com que a Divindade realizou tamanho feito. Por vezes me questiono se essa obra corresponderia a uma necessidade divina. Estaria ela se sentido enfadada, atormentada pela solidão? A criação dos homens teria como justificativa a falta de servos para que a amassem e servissem - como reza meu velho catecismo? Onisciente e onipresente como era (e certamente assim continuará sendo "per omnia saecula saeculorum"), não era igualmente auto-suficiente? Claro que sim, não é mesmo? Quanto à decisão de conceder às suas criaturas a faculdade do livre arbítrio como entendê-la? Porventura seu provável mau uso não figurou nas cogitações do onisciente Criador?

Nesta altura deste mal lançado texto é muito provável, para não dizer certo, que o leitor deve estar se perguntando sobre os motivos que me levaram a esses questionamentos iniciais. Minha explicação é singela: como frisei no inicio é o efeito natalino. Vou aproveitar o momento e explicar a quem dos meus leitores não sabe, como nasceu a arvore de Natal. Certa vez, numa daqueles noites geladas da Alemanha, nas proximidades do Natal, ao retornar para casa o monge Martim Lutero, encantou-se com a paisagem. Para Lutero, o cristianismo fora uma notável revolução dos cordeiros, da gente humilde da antiguidade que se insurgira contra as injustiças do mundo pagão. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam a trilha, viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida uns papeluchos coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Pronto, era aquilo que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Nascia assim a árvore de Natal.

Feliz Natal a todos.


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