Olhar Crítico

A morte - em 20/01/21

Caros amigos e leitores, quero no presente artigo apenas tentar poetizar a dor da saudade. As vezes dizemos estou com "saudades", principalmente agora nessa pandemia quando muitos se foram, mas para mim, claro que quando morre alguém a saudade dói, sinto muito mais saudades das pessoas que não vejo a algum tempo, e que representam muito. A morte nada mais é do que uma passagem. A passagem de um mundo que conhecemos bem, para outro totalmente desconhecido. E, por isso, amedronta e traz dor...Por isso, os monges beneditinos jamais falam de morte e sim de passagem.

Passamos por esta vida, como um grande presente de amor que deus nos deu... Nosso nascimento certamente trouxe muitas felicidades e amor aos nossos pais e, vendo assim, como uma passagem, podemos imaginar que o que nos espera, na outra etapa, na outra passagem... É algo muito melhor. Nada mais natural que a morte! E, tenho certeza que um dia todos nos encontraremos: a vida é um mistério maravilhoso!

Escrevo o presente com a dor da saudade pela partida vitimas dessa pandemia de muitos amigos e amigas, exatamente a meia noite e dez minutos, no maior silêncio, mas o silêncio é uma granada escutada na fuga da alma. Eu sento diante do birô noturno da vida para escrever o instante. As palavras fogem. E apenas há ressonâncias sinalizando a eventualidade das sílabas nos lábios. Sinto ser apenas de carne e sonho, sangue e esperanças vagas possibilidades de ecos nas odisseias cavalgadas. Catalogo lembranças que cedo me queda o riso do inicio da madrugada. Entro nas labaredas do alvorecer, catando linguagem. Silencio.

Vejo a ciranda das horas passar. Dedos pesados de chumbo. Sacrifício inconcluso no calendário. Como se a lâmina resoluta cortasse rajada, seus dias e vocabulário. Tinem rajadas e folhas longilíneas no traçado da missão anunciada. A paisagem é este estandarte florido, berço acústico no imaginário da tarde dos encontros e das palavras. Pulsam partituras de festim nas cordas serenas do indivisível do coração que se despoja no cavalete das pinturas envelhecidas.

A palavra é o espelho, e a poesia é um vidro quebrado. Há de ser distorcida a palavra para tirar dela a essência e a cor crucial de sua plasticidade. Trabalhar com elas é um risco permanente de se tonar luz, ou cadafalso, o caminho do mundo. ser um verdadeiro lavrador da metáfora e do sentimento. Os versos podem ser pesados ou leves conforme os aviões. E tem-se que confiar em seu rumo quando se embarca numa dessas aeronaves sem nunca se ter visto o piloto. De repente, pode um voo libertar ou aprisionar. Um voo do gavião certeiro, que não sai do chão sem a presa em plena mira. Ou um ultraleve, que sobrevoa os açudes e, de repente, encontra o oceano. Das cores a correr no meio-fio do amanhecer da ilusão humana.

Tento as vezes ser poeta, o poeta é filho da linguagem. Poemas são lavras que consomem por dentro o coração. A leitura dos versos deve ser o olhar penetrante da medusa, que transforma curiosidades em granitos. O sonho é um poema incontrolável. Talvez por isso mesmo os poetas sejam considerados lunáticos. A lua, certamente, sempre foi o astro principal da constelação da lírica. Plangente. Esta a palavra que exprime a situação, inesperadamente vivida, nestes últimos dias em Manaus.

Abro o computador e todo dia fico dividido entre o martírio e o taciturno. Notícia súbita de que um amigo ou amiga, partira sem a mínima chance de um olhar ou um aceno a lhe transmitir o adeus. Não estava mais entre os vivos. Havia atendido ou não um chamado lá do alto. Doloroso saber que não havia sequer quatro pessoas para lhe segurar a alça do caixão. Pela pandemia não pode ter mais de duas ou três pessoas para acompanhar o velório.

Recordo as passagens que tive com muitos deles. A ânsia de perscrutar o absoluto me invade. Acho o cemitério sinistro como é redundante dizê-lo. A morte, então, para mim, não chegará para me levar vestida de outra cor senão a rubra. Um tipo crepuscular, igual a uma paisagem que chega pincelada de vermelho. O corpo nunca adoece antes da alma. Passamos a vida adiando o agora. Quantos acenos inconclusos, quando beijos adiados, quantos abraços esquecidos, quanta ternura poupada por conta da máxima cruel de nossa época: "não tive tempo"?

É o jantar recusado à amada, a presença-ausente do Dia das Mães, o esquecimento sintomático do aniversário de um amigo. São questionamentos que me acompanham ao transitar, contrito, e somente pelas ideias, já que não vou a cemitério, por entre a selva de mortos nesse mar de catacumbas ou uma cidade de prédios guardando a insônia inquieta dos solitários. Não adianta adiar o mapa do coração, dizer que amanhã é possível, ou talvez quem sabe. Estamos assim desprezando a arte de viver e o encanto que as belezas, inapercebidas por deformação profissional, trazem. Se não o fazemos para que adiantou respirar ou transitar nesse mundo sublunar?

De fato, quem tem a certeza de amar e ser amado não precisa de uma justificativa material para traduzir seu sentimento. Um gesto basta. No planeta Terra não cabe solidão. A essência do abraço não está no outro. Está em nós. Abrace o outro para ser feliz.

Voltando ao eixo do quotidiano, tenho a impressão de enxergar as coisas por outro prisma. Um diamante, por mais belo que seja, precisa ser lapidado para se tornar uma joia. Observemos o sândalo que perfuma o machado que o fere. Nosso ofício de escrever deve nos levar a uma reflexão profunda da alma humana, de suas dignidades e limitações.

As ações mais singelas são as que frequentemente preenchem nossos dias. Orná-las de um significado maior, valorizando detalhes, lembrando gestos, nos previnem de uma despedida invisível. Somos responsáveis pelo nosso viver e morrer. Não podemos colher camélias se plantamos rosas. Temos de enfrentar as dificuldades do dia-a-dia sem a parcimônia do afeto, sem a sobreposição material de nossos carinhos. E deixemos que os mortos enterrem seus mortos, Jesus!

Os acontecimentos, próprios da existência, interpretamos mais como tragédias do que como dádivas, e assim passa despercebida a riqueza da vida, do sonho e do tempo, tal como Shakespeare filosofou ao dizer: "Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco com o muito que temos".


O Estado leniente - em 13/01/21

Existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência. Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nossos dias e que deixou marcas. Marcas como a que estamos sentindo agora com a perda de muitos amigos, amigas, parentes, pela leniência do Estado brasileiro.

Um país que perde mil vidas por dia em razão da pandemia, está em guerra cruenta. O número é estarrecedor. Somos o segundo país de uma macabra estatística, computados já os que estão em guerra ou em paz com os demais. Sequer estamos a falar das mortes nos desastres no trânsito, outra tragédia nacional, decorrente do horrendo conúbio entre a imprudência e as péssimas condições de nossas rodovias.

Não queremos saber que nível da Federação é responsável pela existência das mortes. Para a população, são todos: União, estados e municípios. Contudo, causa espécie que o governo federal, em que a maré montante do mortes por coronavírus cresceu assustadoramente, não tenha coordenado com determinação e método um plano nacional de combate a este tipo de pandemia, nem tampouco provisionado, juntamente com estados e municípios, os recursos necessários à manutenção da ordem.

Uma guerra como essa implica pesquisa, metodologia, recursos adequados e ações positivas. O caso do bolsa ajuda, por si só, não é suficiente, atua apenas para amenizar os que estavam sofrendo com a perda dos empregos, mesmo assim precariamente. Havia um expert no governo que tinha um plano de ação muito bom, fruto de anos de estatística, pesquisas e trabalho de campo. Foi-se embora, vitima do Covid. De lá pra cá, nada aconteceu de positivo.

Ora, o que desejamos é uma política eficaz de prevenção a esta pandemia, e esta não há. A China, está à frente do Brasil. A situação está insustentável. Não ficamos sabendo de um caso aqui outro acolá, de tempos em tempos. Todo dia, um parente, um amigo, o amigo de um parente ou o parente de um amigo que se vai, guardando estatística para mais uma morte. São fatos que se tornaram banais. No entanto, a vida, virou uma banalidade.

Na luta pela sobrevivência, o certo e o errado igualaram-se e o ter superou o ser. Viver é preciso, seja lá como for. É dizer, o caos social venceu a ordem. Aos homens de boa vontade, sejam ricos ou pobres, restam a fé na verdade e a esperança em dias melhores. Precisamos de um Cícero moderno para escarmentar no Senado os poderes da República, sempre a repetir suas catilinárias: "Ó governante leniente e frouxo, até quando abusarás da nossa paciência?"

E nós, brasileiros, sabemos que sentir falta não é o mesmo que sentir saudade. Somos descendentes de povos que mistura saudade dos mais diferentes lugares. Saudade à brasileira deve ser como o banzo do negro escravo: Sente-se. Alimentamos sempre a esperança de que, após o decurso de uma destas unidades de tempo, a existência melhore e o ser humano se engrandeça. Não poderia ser diferente porque não é possível viver sem esperança. Nem que seja para olhar no horizonte azulado o nascimento de um novo dia, mesmo sabendo que ele se juntará aos outros na eterna cadeia do tempo perene e interminável.

A caminhada é a única certeza que temos. Incerto e cheio de dúvidas é o porto aonde chegaremos na viagem que todos temos de fazer e terminar. Para os racionalistas, este porto é a extinção de tudo. Para os que têm fé, ele é o começo da vida definitiva. Mas a ambos falecem elementos objetivos para comprovar a certeza das duas expectativas. Enquanto isto, o barco desliza inexoravelmente pela superfície da existência, navegando para o destino final, cuja hora a ninguém é dado saber.

Diante de tantas incertezas vale a pena viver? Terá um sentido maior a vida humana, além das dificuldades por que todos temos de passar? Não é fácil a resposta e sobre ela se interrogam e sempre se interrogam os filósofos de todos os tempos e escolas. De onde viemos, para onde vamos e qual o sentido de tanto esforço? A razão e a fé jamais deram uma resposta a estas inquietações que satisfizesse a todos os mortais. Porém uma coisa é certa. O ato de viver nos traz a obrigação de lutar para aperfeiçoamento do mundo no momento em que vivemos.

Assim agiram os homens de bem em todos os tempos e em todas as épocas. Também é certo que, com atitudes éticas e solidárias, podemos melhorar a vida de nossos semelhantes e aperfeiçoar as desigualdades sociais, que dão mais a uns do que a outros. E receber do próximo o suprimento das carências que nos afligem. Não podemos fazer uma justiça perfeita, mas podemos realizar com certeza uma justiça possível em nossa passagem pela terra. Apesar do estado leniente, temos que ter fé que temos o pesado fardo de conduzir a existência. Enfim, que a vacina chegue e acabe com esse sofrimento.



PARA DAVID ALMEIDA- em 06/01/21

Caro David Almeida,

Todos nós estamos felizes com tua vitória e tua posse, teus compromissos -- exequíveis por sinal--, fizeram com que tua campanha fosse vitoriosa. Tenho algumas sugestões, simples, sem precisar de muito dinheiro e fáceis de serem executadas. Só precisará de modéstia para examiná-las e torná-las factíveis. Muitas vezes o simples é tão óbvio, que chega a ser ululante.

É preciso que a Prefeitura de Manaus e Governo do Estado passem a agir com maturidade, bom senso e equilíbrio. Governador e Prefeito são prepostos da população e a ela devem satisfação, e a soma de esforços para erradicar os habitantes das áreas de risco, melhorar as condições sanitárias da cidade, equipar os hospitais e definir, seguindo a Constituição, quais as reais áreas de competência do Município e do Estado.

Já que não se pode extinguir, por falta de empregos os flanelinhas, por que não institucionalizar a atividade de "vigilante de veículos", cadastrados, com crachás, fardados e treinados, poderiam ser distinguidos dos marginais mesmo existindo o Zona Azul. E já que falamos de treinamento, por que não preenchemos as lacunas na preparação dos servidores municipais já que estão entre as mais evidentes dificuldades para o funcionamento da prefeitura?

Vítimas das deficiências do sistema de ensino e do imediatismo de muitas administrações, os funcionários municipais raramente encontram oportunidades de se desenvolver como pessoas e profissionais. A prefeitura, por sua vez, perde em eficiência na sua administração e na prestação de serviços. Em última análise, os cidadãos são os maiores prejudicados: os serviços públicos oferecidos são de má qualidade e os recursos são desperdiçados.

Tradicionalmente, as atividades de formação de servidores são apenas para prepará-los para exercer os respectivos cargos. Não se investe na preparação do funcionário como servidor público: treina-se a merendeira apenas para fazer merenda, ou o auxiliar administrativo apenas para utilizar um editor de textos, por exemplo.

É claro que a implantação de um Programa de Formação de Recursos Humanos encontra barreiras, resultantes de longos e complexos processos que atingem não só o funcionalismo, como a sociedade e o Estado brasileiro. A substituição da responsabilidade quanto ao bem-estar público pelos ganhos particulares de curto prazo, a corrupção, a desvalorização do trabalho (presentes também na esfera da iniciativa privada), na administração pública permitiram a privatização do Estado por parte de seus dirigentes e, em escala mais reduzida, pelos próprios servidores públicos. Um programa de formação que se posicione contrariamente a isto com certeza encontrará resistências.

A desmotivação dos servidores, muitas vezes decorrente do descrédito nos sucessivos governos, deve ser enfrentada. Criar mecanismos para que participem ativamente das definições e da execução do programa de formação pode ser útil para a tarefa de transformá-los em parceiros do projeto, mudando suas expectativas.

Caro Prefeito, tenho certeza que motivando o público interno, haverá maior abrangência das ações, melhor qualidade dos serviços oferecidos, eficiência e por via de consequência, fortalecimento da cidadania.

Feliz e profícua gestão.


Reflexões- em 30/12/20

A vida é mesmo assim: tudo flui e sempre, como o dia que vai escurecendo-se com a noite, que se perde ao amanhecer da alvorada do novo dia. Eis o tempo "de novo" ... Existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente - no mais ou menos das vezes? "O tempo tudo tira e tudo dá; tudo se transforma, nada se destrói...", sentenciou Giordano Bruno.

O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso... Indubitavelmente que o tempo, como uma dimensão física - segundo os cientistas naturalistas racionais - ou transcendente - vide os metafísicos e filósofos -, ocorre transmutando-se a si mesmo e a todos os seres animados e inanimados, como se fora ele, o Gênesis do grande Universo.

Seria o tempo-ser incomensurável, onipresente e onisciente, o próprio Deus?!

O nascimento, a evolução e a morte de uma estrela - qualquer a sua grandeza - se dá através do tempo... E quanto aos homens... "Nunca existiram grandes homens enquanto vivos estivessem". Um dia, num passado tão perto, um homem do seu tempo mas muito iluminado pelo conhecimento acumulado sobre os ombros de outros gênios, e pelo talento da sua inteligência criativa, articulou os princípios do espaço e da luz e matematicamente demonstrou que eles se inflexionam quando uma velocidade lhes era contraposta num tempo determinado: o universo se curvava em algum espaço futuro... Ou seria no passado?

Albert Einstein acabara de "relativizar" a lei da inexorabilidade do devir, segundo o paradigma: tudo tem o seu tempo... de fruir. E a direção é o futuro...? Revelara-se: o universo tem massa e energia, e se move, se expande... Além do tempo. Mas que tempo? Na efêmera condição humana, apreende-se desde a sua infância mais tenra e vulnerável que o tempo serve, primordialmente, para o crescimento do corpo físico, da aprendizagem do viver, da reprodução da espécie-família, para o envelhecimento e para a morte.

Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor. Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. E que nosso país tão atrasado como o próprio mandatário, consiga vacinar os seres humanos que conseguiram escapar dessa pandemia.

Assim seja.


É Natal- em 23/12/20

O Natal, por si e por suas comemorações, geralmente emana um sentimento triste para o povo - digo povo no sentido geral de recolhimento familiar. É meio estranho, mas a verdade se apresenta em quase todos os lares. Alguém que partiu, essa pandemia nos levou amigos e amigas,  alguns familiares... Saudade daquele amor que passou... O sapato do filho que não foi possível comprar... Vinho na mesa? - nem Dom Bosco sequer... O peru virou pinto anabolizante... A boneca da vitrine não sorri - nem com pilha... Papai Noel não sobe na favela... Natal é festejo, gente!...

Quem acredita no nascimento de Jesus Cristo, deve fazer festa - familiar, é claro, sem aglomerações, infelizmente sem abraços neste ano pela pandemia. Nada de choro nem lamentações. A vida multiplica-se em esperança mesmo com essa pandemia que nos fez perder o ano de 2020, e muitos amigos e amigas. Quando nasce um herdeiro, os pais, avós e tios abrem whisky, cervejas, champagne, pitus... Seja lá o que for. Quando se comemora aniversário de alguém, tem de tudo. Tem canapé, croquete, caviar, amendoim cozido - torrado, croissant, nozes, rabada e rabanete. Brinda-se com tudo.

Festa é comemoração. Por que não exaltarmos o aniversário do nascimento de Jesus? Ele merece sempre, ou não?... Se for contestado por outras religiões, não me importo. O fato, é que todo ano o mundo se manifesta na vontade de todos os povos em dar vivas ao Natal. Reuniões nas casas enfeitadas de árvores luminosas... Pobres ou ricas. Favelados, hoje, somos todos nós, de qualquer maneira. Filhos ingratos. Irmãos distantes. Pais esquecidos. Companheiros apenas para beira de túmulos - choros hipócritas a ruminar velórios.

Amizades já passam ao longe (quem tiver, mesmo que poucas, conservem-nas). Não se faz mais amizade de uma hora para outra - é engodo, falsidade. Forma mais fácil do interesse pessoal predominar nos bares, nas viagens, nos negócios, nas conquistas. É a globalização. É isso mesmo. Morreu, - que se há de fazer? Acabou-se o sentimento? A melhor reflexão da conformação? Nada disso. A lembrança é a maior dádiva de reconhecimento aos queridos que já se foram. Mas não transformemos em tormentos as perdas familiares, justo durante o Natal - não é o melhor momento.

Natal é resignação, é pensar, converter-se à instituição familiar. Soltar rojões de felicidade, transmitir paz aos filhos, netos - não com simples presentes e guloseimas - porém ensejando mensagens de continuidade da fé em Deus (seja lá qual Deus que se tem no coração, menos aquele que pregam na Igreja Universal, usando o santo nome Dele para clientelismo, tomando o dinheiro dos pobres e ignorantes).

Sabem por que o Natal se torna tão triste? Porque a culpa se entranha na consciência da maioria daqueles que não têm coragem de agir. Sim. Agir de verdade. Concitar o vizinho à boa convivência - não, esquecê-lo (ou por ser de outro nível social e econômico - às vezes só um pouquinho abaixo de classe). Incentivá-lo a uma corrente combativa aos larápios que usam esta festa maior da cristandade para sofregar as bestas dos córregos e favelas circunvizinhas a vender tudo e entregar suas últimas economias para uma quadrilha de caras-lisas.

Pensem! E pensem muito bem amanhã na noite de Natal!...Em toda a periferia as crianças esperam um Papai Noel (até na sua casa, não esqueça). Esse velhinho é você - jovem pai, velho tio, conscientes e amadurecidos avós. Joguem fora as encarquilhadas idéias do medo. Façam (ou não) como eu. Rezem (ou não) -, mas encantem o Natal!... Vibrem, congracem, beijem seus queridos próximos.

O mundo é perverso. O Natal é belo. Um Feliz Natal a todos,



Ainda podemos ter orgulho- em 16/12/20

Caros leitores, em que pese todas as nossas mazelas nacionais, como o negacionismo de nosso presidente em relação à pandemia, as bobagens e as mentiras que ele fala, o nosso Supremo Tribunal, se antecipando e legislando, a pobreza, a violência urbana, o tráfico de drogas, a desqualificação de alguns políticos, a insuportável carga tributária e, tantas outras, ainda temos bastantes motivos para comemorarmos o Brasil de hoje.

No âmbito científico, somos exemplo para o mundo no combate à Aids. Somos o único país do hemisfério sul que participa do Projeto Genoma. Tivemos agora em Manaus, com o projeto Ressignificando vivências de uma educação integral em tempos de pandemia" a escola municipal Sergio Alfredo Pessoa Figueiredo, que ficou em primeiro lugar no Prêmio Gestão Escolar (PGE) 2020, e conquistou o título de escola de Referência Estadual". Em julho deste ano, a professora Lucia Cristina Cortez de Barros Santos da Escola Municipal Professor Waldir Garcia, foi uma das vencedoras do prêmio Educador Nota 10, isso tudo em Manaus.

Poucos sabem, mas a Paraíba alcançou o primeiro lugar no ranking de oferta dos serviços digitais no Grupo de Transformação Digital dos Estados, uma rede nacional que reúne especialistas em transformação digital dos governos estaduais e distrital em todo o País. No desenvolvimento industrial, possuímos um razoável número de fábricas de veículos, inclusive carros com a técnica do biocombustível e agora com os carros elétricos Das empresas brasileiras quase 8.000 delas são detentoras de certificado de qualidade. Nossas exportações, industriais e agrícolas, estão atingindo recordes memoráveis. Apesar de sermos um país em desenvolvimento, os nossos internautas representam uma fatia de 45% do mercado latino americano. O nosso país é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.

No campo político, apesar das rachadinhas da vida e, dos mafiosos das malas, também temos muito que justificar a nossa alegria, pois somos a terceira maior democracia do mundo. Já assistimos o Congresso Nacional punir seus próprios membros com a cassação de senadores e deputados e ainda, a destituição de um presidente da República.

No campo cultural, podemos nos orgulhar que o nosso mercado editorial de livros é maior do que o da Itália. Nossos artistas plásticos têm suas obras muito bem cotadas no mercado mundial das artes. A arquitetura nacional é igualmente reconhecida como a união perfeita entre a técnica e a beleza. Cerca de 97% das crianças e adolescentes com idade entre sete e quatorze anos, excetuando esse ano da pandemia, estão nas escolas. As agencias de publicidade brasileiras, ganham os melhores prêmios internacionais.

Apesar das repetidas greves, possuímos o mais moderno sistema bancário do Planeta. O nosso sistema eleitoral se encontra informatizado em todo o território nacional, sendo exemplo para outros países. Nessa ultima eleição municipal, a apuração dos votos foi concluída, com toda a segurança, em menos de 12 horas. Por isso, várias nações, inclusive os Estados Unidos, enviaram técnicos especializados para a verificação desse modelo.

A par disso tudo, somos um povo alegre, solidário e que, enfrenta os dissabores da vida, sambando e jogando futebol. Portanto, necessitamos modificar os nossos conceitos, aumentar o nosso sentimento cívico e, deixar o vício de falar mal do nosso país, pois, apesar de tudo, temos muito do que nos orgulhar! Para o inferno os ladrões da nação, do patrimônio alheio, das ideias, da cidadania, dos sonhos alimentados pelos esquecidos da sociedade, da vontade do povo bom. Ainda temos o que comemorar. E isso sem falar no Rio de Janeiro, modéstia a parte, a cidade mais linda do mundo.


Mês da esperança - em 09/12/20

Segundo artigo de dezembro, acredito que ao longo destes vinte e um anos escrevendo em jornais, posso ser repetitivo, e até exteriorizar o mesmo pensamento em alguns artigos natalinos, mas estou perdoado e talvez por ser este o mês da esperança, dos aconchegos, de abraços de perdão das mangas açucaradas dos quintais e bosques, fico um pouco "poeta".

Tempo do calor predecessor de chuvas aliviantes. De pensamentos recicláveis. Das boas lembranças de outros dezembros de muitos Natais. De um ano dourado qualquer daqueles da década de sessenta ou setenta. Dourados, mais acentuadamente, para uma geração de jovens corajosos que liam e abordavam o futuro do país com a destreza dos sábios e a alegria sem documentos.

Cada um de nós cultiva seus dezembros, e este especificamente rezemos às nossas certezas e incertezas. Esqueçamos, pelo menos em razão da paz, as discórdias do ano que não passaram de meros equívocos da ilusão. Tranquemos o desnecessário ódio que porventura nos tenha atormentado, por momentos, na última gaveta do baú do esquecimento.

Foi lindo ver essa semana a primeira vacina em uma senhora de noventa anos contra a pandemia, é uma luz que esperamos que chegue logo ao Brasil. Que se danem os atropelos dos irrefletidos; os lenços lavados de lágrimas; as provações do destino; as atrocidades desmedidas dos idiotas; as incoerências dos "manés" incapacitados; os lamentáveis descumprimentos dos direitos humanos; os ventos poluentes da hipócrita política que nos suga a credibilidade de sua prática cotidiana, os intelectuais confeitados.

Para o inferno os ladrões da nação, do patrimônio alheio, das ideias, da cidadania, dos sonhos alimentados pelos esquecidos da sociedade, da vontade do povo bom. Que repudiemos o desrespeito às crianças solitárias e carentes de amor paternal, despejadas pelas vielas do abandono estatal. Festejemos o Senhor, em qualquer religião, desde o seu nascimento. Para os que não acreditam na Sua invisível presença entre nós, injetemos o que lhes resta - a fé em si mesmos, a esperança.

Lembremo-nos dos saudosos dezembros. Dos irrequietos tempos de infância. Das férias escolares, para nós amazonenses e manauaras, da antiga Lobrás, do canto do fuxico, do esperado Natal dos presentes - do lendário Papai Noel -, das meias penduradas nas janelas, destoando dos menos apaniguados à espera do nada. Reflitamos, com antecedência, como terminaremos o ano. Uma boa prece, a gosto preferido, conforta-nos pela boa saúde, por uma boa convivência com o nosso próximo.

Cá estou eu, erudito, macaqueando a sintaxe lusíada. Melhor encarar nosso dezembro assim: natalino, risonho, nunca choroso - é preciso acabar com essa mania de transformar este mês em tristeza e solidão -, pois o mais extasiante momento deve ser o de congraçamento e afeto entre todos os seres.

Mensagens ruidosamente exclamadas não tocam o verdadeiro espírito de dezembro, solícito à troca de amabilidades sinceras e pessoais, mesmo em tempo de pandemia podemos ser mais presentes. Tempo de atentarmos para tempos de períodos modificados por novos tempos que advirão pela magia do calendário da imaginação.

Fiz o presente artigo como reflexão a esses tempos, antes do Natal farei outro artigo sobre o nascimento de Jesus e sua influência sobre nós, pois aqueles que privam de minha amizade sabem como gosto desta época, que traduz alegria e felicidade.


Agora é Trabalhar - em 02/12/20

David Almeida é novo Prefeito de Manaus. Os números mesmo não tão eloquentes acabaram por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias. Há bons analistas que neles se respaldam para prever a abertura, pelo sistema, de uma inescrupulosa caixa de maldades contra o candidato do Avante';': quanto mais cresceram os números de David mais se conspirou contra ele. A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um fato forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno. As estratégias se dedicam a burilar imagens, efeitos e "conceitos", quem sabe embalagens. Os conteúdos importam menos. Os números integram-se a isto e passam a ser cotejados sofregamente. Tudo fica assim condicionado. Uma falha de comunicação, uma frase boba, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido da biografia, qualquer bobagem pode jogar tudo ladeira abaixo. Em decorrência, todos tendem a não se afastar muito de um ponto "ótimo" de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um factoide bem plantado vale ouro. É a ante campanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros se combinando com o disfarce de si próprio, as escaramuças moralistas e "imagéticas" ganhando mais peso que o debate democrático. É um alívio saber que acabou a campanha eleitoral. Ninguém de bom siso aguentava mais, de fato, o festival de marketing oco e de discursos presunçosos, de passeatas barulhentas e de ruas emporcalhadas de propaganda sem graça ou ofensiva à beleza da paisagem (onde ainda existe paisagem, evidentemente) que se produzia por aí. Houve na realidade um mau-gosto da fase pré-eleitoral, agora, com tantos meios de comunicação novos à disposição do freguês (e mal utilizados), os motivos se multiplicam para que nos satisfaçamos com menos uma campanha nos próximos dias. Coisa de que, coitadas, não estão isentas as populações de Macapá Se, na campanha recente, faltou mais discussão de ideias e de propostas, o que nos fez escolher candidatos à base mais da crença de que honrarão seus mandatos honrados, aliás, David Almeida cumpre preparar programas de governo consistente e assumir as responsabilidades que lhe foi conferida. Nunca é demais lembrar que o mandato dado pelos eleitores é uma procuração para que o prefeito aja em nome da cidadania. Para alguém zelar pelo bem comum. Para isso, existe o processo da eleição um processo, frise-se, que tem sido aperfeiçoado no Brasil, fazendo com que, hoje, possamos causar inveja aos Estados Unidos. Ali, o sistema é tão confuso que se teme adotar o modelo eletrônico, bem-sucedido entre nós e na Venezuela. Percebem David Almeida e Marcos Rotta melhor os problemas da comunidade. Sabem que precisam, além de mobilização política, da indispensável retaguarda de pessoas qualificadas para executar as tarefas que deles a população espera. E para preencher lacunas no seu desempenho. Na maioria das cidades brasileiras há um certo conformismo associado à ideia de que o futuro trará cidades piores do que as que temos no presente e que tivemos no passado. É preciso acabar com essa ideia e fazer com que nossas cidades avancem no sentido de melhor qualidade de vida, de mais bem-estar humano. Para tanto, é preciso atuar seja no plano do cidadão comum, seja no da defesa de valores ambientais e estéticos, quer do meio natural, quer construído. O importante arquiteto paulista Isay Weinfeld observou recentemente que, para ele, "a estética da favela" é "muito mais rica que a dos prédios milionários em estilo francês. Parte da cara feia da cidade se deve a eles". Trata-se da opinião de alguém que projeta residências e que desenhou um belo edifício, o do Hotel Fasano, em São Paulo. Nesse ponto, Manaus carece de cuidados sensíveis. Precisa-se avaliar alternativas sensatas, e não ficar à mercê de questionáveis interesses especulativos e imobiliários. Está na hora de colocar em discussão, de forma sistemática, o que se pretende para nossas cidades: que qualidade decente de vida garantir para todos.


Políticos e prostitutas (final) - em 25/11/20

Para não ficar mais cansativo, encerro nesta semana a série de artigos que já deu panos para as mangas no cenário local e nacional.

Não poderia finalizar sem comentar a necessidade da reforma política e ainda que os políticos todos, sem distinção, ainda preconizam o financiamento público das respectivas campanhas. Da mesma forma, ninguém pode ser autorizado a votar em causa própria, ou em favor de causas em que tenha interesse direto ou indireto, imediata ou remotamente, como se tornou rotina nas casas legislativas. Sem medidas saneadoras, o Congresso deixará de ser, em mais alguns anos, instrumento democrático de representação política para se transformar naquilo que está correndo o risco de se tornar: um vasto empreendimento comercial, utilizado para promover o enriquecimento dos que estão, cada vez com mais freqüência, abastardando o processo e as práticas da política brasileira.

Não atentamos para o fato de que o Senado baixou ao ponto em que hoje se encontra, com acobertamento ao seu ex-presidente, mas os únicos responsáveis são aqueles que, conhecendo os precedentes hoje tornados públicos, sufragaram o seu nome, apostando na política do quanto pior, melhor. Inclusive os que, hoje, da própria tribuna, apelam por sua renúncia, encenando o papel de Madalena arrependida.

A eleição dos dois últimos presidentes da Câmara custou aos brasileiros, num país em que os servidores públicos mais modestos amargam há oito anos e meio o congelamento de seus salários, com uma perda de 75% de seu poder aquisitivo, um aumento dos benefícios dos deputados de mais de 300% no mesmo período.

O país está mais enfermo política que economicamente e, sem reformas institucionais profundas, será um verdadeiro milagre manter acesa a chama da democracia.
De há muito lutamos por punições rigorosas para todos aqueles detentores de mandatos que, num determinado momento, trocam de partido como quem troca de camisa. Na verdade, não se tem notícia de uma única perda de mandato por esse motivo.

Aliás, estamos chegando às raias do absurdo do "partido" dos sem partido, como querem os filiados que abandonaram suas respectivas legendas. Os que assim pensam devem saber, talvez até melhor do que eu, que partido é parte inseparável da sociedade e que cresce sintonizado sob a égide dos mesmos horizontes ideológicos, de programas e objetivos comuns e, ainda, de linhas e posturas idênticas, remando para o mesmo norte.

Hoje se denomina de corporativismo a esse espírito de defesa grupal. As corporações eram instituições de ofício medievais. Mas a coisa é mais antiga e mais profunda do que isso. Os etnólogos a conheciam por tribalismo e os zoólogos por instinto grupal. Em nenhum grupo humano esse instinto é mais forte do que na manada política. A razão é simples. Zoologicamente eles pertencem à variedade animal dos predadores e, se nesse tipo de bicho não predominar o instinto grupal, sua sobrevivência estará ameaçada. É por isso que lobo não come lobo e os leões vivem em paz entre si. Piranha também não come piranha. Salvo se uma delas for sangrada. Na política, o processo de criar bodes expiatórios é um sistema de preservar a tribo e o próprio bode. Mesmo depois de mortos eles voltam como heróicos ectoplasmas para retomar seu lugar no cocho.



Políticos e prostitutas (parte-1)  - em 11/11/20

Divido o presente artigo em partes, por falta de espaço e para que a leitura não fique enfadonha aos leitores. É comum ouvir dizer que nossos inefáveis representantes do povo constituem o retrato fiel do povo brasileiro, seu verdadeiro espelho. Não é tanto assim. Basta pensar naqueles espelhos deformantes, côncavos ou convexos, que maltratam grotescamente a figura humana.

Pois bem, nossas Casas Legislativas costumam ser o espelho deformante da sociedade brasileira. O povo é e sempre foi melhor do que seus trêfegos representantes nas conchas côncava e convexa das Câmaras Municipais e Federal, das Assembleias Legislativas e do Senado. Não que constituam uma categoria especialmente corrupta, não é por aí. A corruptibilidade do político está inserida num quadro maior que se poderia denominar de inércia constitutiva.

A categoria política, não somente no Brasil, como em todos os tempos e lugares, fornece expressão material à lei física da inércia, assim formulada nos dicionários: "Propriedade que têm os corpos de persistir no estado de repouso ou de movimento enquanto não intervém uma força que altere esse estado." Que ninguém acuse os políticos de inoperância e de acomodação. Esta disposição estática não passa de um aspecto isolado da inércia. Se entrar em ação uma força vinda de fora, veremos que o repouso costumeiro dos políticos dará lugar a uma atividade impressionante. Esta "força vinda de fora" se manifesta como pressão, que em última instância vem a ser a pressão da opinião pública, através dos meios de comunicação.

A questão de saber se, no Brasil, não existem partidos doutrinariamente coerentes porque não há fidelidade partidária, ou se esta não existe porque falta aquela coerência, pode ser tão insolúvel quanto a velha questão da precedência entre o ovo e a galinha. Uma coisa, porém, é certa. Regra geral - porque há sempre as honrosas exceções de praxe, que confirmam a regra -, os ilustres integrantes da classe política, que exercem mandatos conferidos pelo voto popular, têm a plena convicção de que o mandato apenas lhes pertence, independendo assim, inteiramente, da vontade política dos que o outorgaram.

Sabe-se que muitos candidatos encomendam pesquisas às vésperas das eleições, para saber como se situam na preferência dos eleitores de sua região, de seu núcleo social ou de seu colégio eleitoral. Mas quantos serão os que encomendam pesquisas, às vésperas dos prazos finais de filiação partidária, para saber se os que os elegeram desejam ou não que mudem de partido - e, em caso afirmativo, qual o partido preferido por seus eleitores?

O que se vê, na verdade, é a absoluta autonomia com que os detentores de mandato popular participam de uma movimentada dança das cadeiras, ou troca-troca partidário, todas as vezes que se aproximam os períodos eleitorais e, em consequência, os prazos legais de filiação. Tais mudanças podem decorrer da conquista de novos apoios ou da perda de antigos, de alterações de "cacifes" eleitorais - próprios ou de adversários -, de projetos de conquista de mandatos mais ambiciosos ou de quaisquer vantagens oferecidas pelos partidos que se disponham a cooptar políticos concorrentes. Do que não decorrem, certamente, é da vontade dos que, na eleição anterior, escolheram o ora cooptado - ou vira-casaca.

Continua na próxima quarta-feira



Infieis - em 04/11/20

Os parlamentares brasileiros que, semelhantes aos símios, pulam de partido em partido, cometem estelionato eleitoral protegidos pela lei, sempre que não tenham sido eleitos exclusivamente com votos próprios. Todos aqueles que, para poderem conquistar uma cadeira na Casa Legislativa à qual concorreram, tiveram necessidade de suprir a sua insuficiência de votos com os votos do partido e depois levam-nos para uma outra agremiação partidária - não da preferência dos que no partido votaram - desonram a democracia, traem a vontade dos eleitores, desfiguram a representação popular e dão a dolorosa impressão de que o que menos importa é o povo e a única coisa que vale é sua ambição pelo poder. A meu ver, não representam a vontade popular e deveriam ser banidos da vida política nacional.

Quem não sabe ser fiel ao partido que o elegeu, e quem surrupia os votos do partido - que não foram depositados na pessoa do candidato, mas em outros - apropriando-se infielmente do que não lhe pertence, pode não ser punido pela lei, mas deveria ser punido pela sociedade. Coloca-se questão, portanto, de legitimidade e não de legalidade. Os próprios parlamentares é que elaboraram o direito à infidelidade e ao esbulho eleitoral, desvirtuando a democracia e tornando os partidos meros depositários infiéis de votos e conglomerados de ambições eleitorais e não de ideais democráticos.

Para moralizar a democracia, urge uma reforma política. Uma reforma em que os ideais de um partido representem os ideais de parcela da população e não os anseios mesquinhos daqueles que o instrumentalizam para a conquista do poder pelo poder. Para isto a infidelidade partidária deveria ser punida como a infidelidade ao mandato profissional. Se um advogado for infiel a seu cliente e bandear-se para a parte contrária, será punido pela OAB. É que os mandatos profissionais, como os eleitorais, fundam-se na confiança e a confiança não pode ser maculada, sem que reste ferida a dignidade da própria profissão ou representação popular.

Creio que, enquanto não houver fidelidade partidária consagrada em lei elaborada - e para mim, em nível constitucional, ou seja, lei suprema - no interesse do povo e não "pro domo sua", ou seja, no exclusivo interesse dos que a elaboram, não haverá partidos no Brasil. Sem fidelidade, a democracia é um arremedo da vontade popular, pisoteada sempre que um parlamentar "apropria-se" de votos sem tê-los merecido (vale dizer, daqueles votos que pertencem ao partido) para carregá-los, com o mais despudorado e mesquinho intuito, para outra legenda.

Enquanto não houver fidelidade partidária, as siglas partidárias não se distinguirão umas das outras - algumas, inclusive, muito semelhantes, em sua grafia, àquelas que definem bandos inimigos da sociedade. Dir-se-á que os parlamentares não são culpados, que apenas usam de um direito, nada fazendo de ilegal. Que nada fazem de ilegal, estou convencido.

Hart, o grande jus filósofo inglês, já dizia que as leis são feitas para os governantes e para os governados, mas, como são feitas pelos governantes, sempre beneficiam mais os governantes do que os governados (The Concept of Law - Ed. Clarendon, 1961). Este artigo não pretende atingir nenhum parlamentar em especial, mas um sistema carcomido, propiciador de um "ilegítimo turismo partidário" que enxovalha, por "apropriação infiel", todos os eleitores traídos, que não votaram no trânsfuga parlamentar, mas que o auxiliaram a praticar um estelionato eleitoral não punido pela lei. Que por uma questão de cidadania, o povo exija uma reforma eleitoral em que tal aética forma de fazer política seja banida e não mais macule a dignidade nacional.


Malabarismos retóricos - em 28/10/20

Houve um momento em que parecia que o Brasil finalmente deslanchara. Tinha-se tornado a oitava economia do mundo e podia ambicionar voos ainda maiores. Hoje, quatro posições abaixo, o País procura retomar o fio do desenvolvimento acelerado sem conseguir se desvencilhar de vícios arraigados e erros recorrentes. Suas elites dirigentes têm tendido a se esconder dos desafios com malabarismos retóricos e tergiversações ideológicas.

O que preocupa não é apenas o fato de não terem tido continuidade os expressivos avanços alcançados em períodos recentes de nossa história, mas a propensão à inércia, ou ao movimento errático, que acomete protagonistas e coadjuvantes da vida nacional. Da escalada da violência à favelização das grandes cidades, passando pela deterioração dos serviços públicos, é visível que se está lentamente saindo do purgatório em direção ao inferno. E o assustador é o passivismo das autoridades.

Somos uma sociedade que se mantém muito aquém de suas potencialidades. Poderíamos, em todos os níveis, estar fazendo muito mais coisas e com muito mais eficiência. A grande maioria das pessoas permanece subaproveitada, limitando-se a fazer o mínimo indispensável e a executar as tarefas com tédio burocrático. Predomina em toda parte a rotina mecânica que aniquila a criatividade e o espírito de superação. Falta à maioria dos agentes a qualificação e o aguilhão que poderiam levá-los a se aprimorar e a melhorar seu desempenho. Já os preparados e empenhados se defrontam com outro tipo de dificuldade: veem-se obrigados a atuar no âmbito de lojas, empresas, repartições - instituições em geral - marcadas pela ineficiência e pelo boicote sistemático às inovações.

Fica fácil entender a sensação de estagnação que paira no ar quando se percebe que é generalizada a dificuldade em lidar com as limitações individuais e as obstruções institucionais. Não é por acaso que, em comparação com o tamanho de sua economia, nossa sociedade está entre as menos inovadoras. Atualmente, o grande desafio é remover as causas que conspiram contra a evolução pessoal e profissional do cidadão. Só cabe considerar desenvolvida uma sociedade quando oferece um ambiente que proporciona a seus membros as condições propícias à busca e realização de suas potencialidades.

Sem a devida qualificação, as pessoas não sabem do que são capazes e do que poderiam fazer para transpor os obstáculos em que esbarram nos planos individual e coletivo. É triste constatar que muitas potencialidades deixam de se tornar realidade porque estão ausentes as condições internas e externas que favorecem o seu desabrochar. A sociedade permanecerá pobre enquanto seus membros, da elite ao povão, tiverem desempenho muito inferior ao que poderiam ter. E tudo piora quando a fraca performance vem acompanhada de fracassomania lamurienta.

Não bastasse a grande legião de subaproveitados e mal aproveitados, está a sociedade infestada de bandidos e aproveitadores. Daí a urgência de se criar um sistema eficaz de vigilância e punição. Do contrário, se marchará inexoravelmente para a anomia. Diante do quadro geral de subutilização e desperdício de energias pessoais e coletivas, os políticos precisam parar de propor soluções populistas e demagógicas para os graves problemas nacionais.

É errado atribuir exclusivamente à falta de crescimento econômico substantivo o mal-estar que se abate sobre o País. Ao se reduzir o ser humano ao conjunto de suas necessidades materiais, deixa-se de dar a merecida importância ao processo de formação das mentalidades e à capacidade de autotranscedência dos agentes. Uma sociedade é mais que um sistema econômico, é um projeto de vida em comum que, para ser bom, precisa se basear em determinados valores. É o crescimento econômico que depende da existência de um ambiente favorável ao desabrochamento das potencialidades dos agentes. E não o contrário.

Por isso a educação cumpre papel crucial. Só que a pedagogia que libera potencialidades não é a da repetição enfadonha e a da doutrinação ideológica, e sim a que, à maneira de uma maiêutica socrática, vai estimular a criança e o jovem a prospectarem suas potencialidades dentro e fora da realidade em que vivem. Como sugere a evidência histórica, as sociedades que respeitam as iniciativas individuais, criando condições que as estimulam, são as que alcançam melhor padrão de vida. No Brasil, a realidade fica a cada dia mais dura por estar, na maior parte do tempo, impedindo que as potencialidades de cada um se tornem realidade


Ética descartável - em 21/10/20

Vez por outra volta à agenda nacional a discussão em torno do comportamento ético dos homens que exercem cargos ou funções públicas. Aqueles que transitam na esfera que decide a vida dos cidadãos. A questão de fundo diz respeito à troca de valores por essas pessoas. Explicitando melhor: o indivíduo defende, de forma veemente, princípios que diz serem impostergáveis enquanto cidadão comum ou postulante de qualquer cargo, porém muda suas opções fundamentais quando investido nas diversas funções de Poder. Nesse passo, temos o "ético" senador Chico Rodrigues, flagrado com dinheiro que era para a pandemia em suas nádegas. O que me impressiona é o valor mesmo que seja em notas de duzentos reais ( e aqui pra nós o lobo guará devia estar com o nariz tapado), trinta e três mil reais, e depois ainda ficaram duzentos e cinquenta reais, dizem os que fizeram a apreensão muitos sujos, sinal que o senador não prezava pela higiene. O amável leitor, já formulou um juízo a esse respeito? Via-se e ouvia-se nos discursos do senador, que "a ética era fator imprescindível para que este país acabasse com a impunidade e a corrupção". Antes de qualquer coisa, é importante esclarecer que a ética, mesmo não sendo formada por princípios estanques, mas algo aberto e em permanente estado de transformação, é uma realidade que significa adesão a valores fundamentais, com vistas ao bom viver. São diretrizes imprescindíveis, como a da honestidade, o do respeito à vida, à proteção ao meio ambiente, a da solidariedade etc. Kant a esse respeito dizia: "Você deve comportar-se de tal modo que possa dizer a todo mundo: comporte-se como eu". Pois bem, quando falamos que uma pessoa não tem ética, estamos a dizer que ela não age de acordo com os parâmetros do senso comum, como a queremos agindo. Ou seja, aquela pessoa não atua na sociedade de forma coerente e previsível. Ela nega ou simplesmente descumpre os valores fundamentais. Nesse caso, é bem provável que esteja agindo com oportunismo, mediante vantagens que lhe ofereceram ou coisa que o valha. Essa mudança faz colidir a ética com a moral, já que aquela deve ser consequência inevitável desta. Diante disso, forçoso é concluir-se que, das duas uma: ou o exercício do Poder, qualquer que seja ele, é amoral e, pois, justifica o descarte de valores, porque o seu desenrolar exige pragmatismo e utilitarismo no grau máximo e nesse caso até tirar-se dele proveito pessoal estaria plenamente justificado ou, então, essa atitude é traição aos postulados da vida social democrática e, como tal, precisa ser denunciada e combatida, nem que seja com a simples demonstração de indignação. Ou com o humor e a ironia de Millôr Fernandes, que diante de tanta vergonha exclamou: "Parem o Mundo que eu quero descer".



Os netos - em 14/10/20

Nessa pandemia, tivemos que ficar em isolamento, o que deixou a muitos inclusive eu, com depressão. Tudo isso por não ver os que amamos, e participar do dia a dia dos filhos e netos. Lembro que Victor Hugo achou tempo, em meio a suas pendengas com Napoleão III, para escrever "A arte de ser avô", um livro de poemas. Escolho o início de um destes e o traduzo livremente, sem forçar as rimas do original: "Eu, que uma criança me deixa todo bobo/ tenho duas: George e Jeanne; um deles eu tomo por guia / e outra por luz. Corro ao escutar suas vozes / já que George tem dois anos e Jeanne tem dez meses".

Convenhamos, netos fazem até um Victor Hugo escrever maus versos. Afora as derrapadas estéticas, o imortal criador da cigana Esmeralda e de Jean Valjean era um avô adorável, e há uma célebre foto em que ele aparece num canapé, enlaçando seus netos, e com um irradiante olhar de alegria - meio bobo, como ele próprio afirmava. Assim são as coisas.

Certa vez encontrei um amigo no Rio de Janeiro. Era uma tarde de outono na cidade maravilhosa, e o sol iluminava de viés a face do amigo, vincando-lhe injustamente as poucas rugas. Perguntei-lhe como estava passando. A resposta, dita com esperta ironia e após breve reticência, foi: "Vou indo... envelhecendo com a possível dignidade". Ele já era avô, na época. Achei graça, porque eu era novo e não refletia a respeito dessas coisas.

Depois de alguns anos avô de Matheus e Bernardo, vim entender o amigo. Existem aqueles que envelhecem dignamente, e aí podemos incluir os solteiros, os ainda-não-avós, os tios e os comerciantes por atacado. Os avós, esses, não apenas perdem a dignidade, mas a honra, os amigos e, se não se cuidarem, o dinheiro e a roupa do corpo. Suas ocupações, antes tão solenes e regulares, embaralham-se por completo, e avô vive no limiar da criminalidade. Tudo acontece porque nesse inaugural mundo netocêntrico e sem medidas, apaga-se a noção do bem e do mal.

Há os que roubam porque têm fome, há os que roubam para ficarem ricos - e há os que roubam para dar um aparelho de som ao neto. Na verdade, não era para ser assim. As crianças, quando nascem, passam à imediata órbita dos pais, e aos avós são destinadas as sobras. É algo que diz respeito ao necessário e ao supérfluo. Mas sejamos justos: o necessário, como o dormir por fragmentos, dar mamadeiras nas madrugadas, providenciar remédios a cada duas horas, fazer aviãozinho para colheradas de mingau, trocar fraldas, juntar chupetas do chão, lembrar-se das vacinas, isso é um direito sagrado e intocável dos pais. Assim foi estabelecido desde tempos remotos, e assim deve ser: não se contraria a lei natural da vida. Quanto aos avós, eles que se contentem com o supérfluo.

Até hoje ninguém perguntou por que as crianças crescem tão velozmente: ontem nos olhavam com aquela carinha desconfiada, hoje já dão gargalhadinhas, logo mais estarão comendo xis com ovo. Sabem por que isso acontece de modo tão rápido? É para que os avós tenham tempo de vê-los passar por todas as idades. Pensando bem, até que poderia ser menos rápida essa evolução, pois os avós teriam algumas décadas de felicidades a mais. E os netos não retribuem de caso pensado a tantos afagos e dedicações: porque isso de serem bonitos, simpáticos, gordinhos, risonhos, graciosos, inteligentes, fazedores de artes, etc., é apenas da sua natureza. Mesmo ausente por necessidade de saúde, não me conformo em ficar longe deles. Eu amo meus netos.


Estabilidade afetiva - em 07/10/20

Quem estuda ou estudou Administração, conhece muito bem a Teoria de Maslow, psicólogo americano que definiu uma hierarquia para as necessidades humanas, criou uma pirâmide na qual aponta as cinco necessidades básicas do ser humano, por ordem de prioridade: fisiológica, segurança, afeto, autoestima e auto realização. Na área da criança e do adolescente em situação mais vulnerável, que vivem em meio à pobreza, violência e abandono, pode-se dizer que os abrigos tradicionalmente investem nas duas primeiras necessidades apontadas pela pirâmide de Maslow.

Em sua grande maioria, esses espaços asseguram minimamente a saúde física e a proteção dessas crianças e adolescentes afastados de suas famílias. Mas faltam afeto, autoestima e auto realização.
Na realidade, e apesar do amplo trabalho de divulgação que vem sendo realizado, a sociedade ainda não consegue diferenciar quais são as instituições que apoiam a criança e o adolescente e quais funções desempenham. No caso do abrigo, há que se dizer que este não é orfanato e muito menos internato. Enquanto o internato é um local destinado a jovens que cometeram infrações de diversas naturezas, o abrigo é uma instituição de acolhimento para crianças e adolescentes em situação de risco, cujas necessidades básicas não estão sendo supridas. Os abrigos deveriam também ter um caráter provisório e o mais personalizado possível, conforme o artigo 92 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Salvo raríssimas exceções, crianças abrigadas não são órfãs e mais de 70% delas não são abandonadas. Possuem pai, mãe, irmãos e geralmente sofrem com a ausência desse vínculo afetivo. É por essa razão que o grande desafio de uma instituição de abrigo talvez seja o de assegurar a estabilidade afetiva necessária ao desenvolvimento do ser humano, necessidades essas que foram apontadas por Maslow.

Sabe-se o quanto as crianças abrigadas desejam voltar para seus pais biológicos ou encontrar pais adotivos. Numa sociedade adversa como a nossa, o fortalecimento da capacidade dos pais em reassumirem dignamente seus filhos liga-se a projetos de apoio sócio familiar. Tanto que o artigo 90 do ECA aponta como prioridade o investimento em projetos que promovam o acompanhamento psicossocial dos pais com acesso à renda mínima. Esgotadas todas as tentativas de apoio à família de origem e definida a situação de abandono, aí se faz necessário o investimento na adoção mantendo-se sempre seu direito à convivência familiar e comunitária.

Talvez seja a hora de refletirmos sobre amor e afeto, não apenas como sentimentos básicos para a organização do indivíduo, mas como atitudes necessárias a uma sociedade consciente e participativa em seus projetos sociais, capaz de pensar globalmente e agir localmente. Que cada um faça a sua parte, adotando um filho, um projeto, uma ideia, uma atitude cidadã e vivendo o dia da adoção como o dia do compromisso.

E por falar em filho, Sempre achei interessante um trecho da música "Pais e Filhos", escrita por Renato Russo: "Sou uma gota d'água / Sou um grão de areia / Você me diz que seus pais não lhe entendem / Mas você não entende seus pais / Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser / Quando você crescer?" Ela nos faz perceber que nós, filhos hoje, somos os pais do futuro e, como tal, devemos buscar compreender mais nossos pais: Felizes, pois, os filhos que ainda têm seus pais e podem participar dessa troca de experiências formidáveis.


Bem comum- em 30/09/20

Em virtude da maleabilidade da arte usada em quaisquer segmentos, a primeira exigência para repormos a atividade política no patamar mais alto, onde ela sempre deveria estar, é que ela traduza, através de seus operadores, uma ação consciente e fundamental na vida de um povo como um todo, e não apenas de uma classe restrita - a elite econômica e financeira que infelizmente rege o País. Em seguida, que se estabeleçam bases sólidas (ou pelo menos quase críveis) dessa atividade para que brotem objetivos planejamentos e diretrizes respeitadas.

Entretanto, o que vemos constantemente nessas ações - ilações costumeiras transformadas em promessas vãs pelo imenso naco dos políticos brasileiros - são as influências burguesas como concepções próprias da vida, defeitos herdados dos erros do passado e o caráter duvidoso convenientemente emprenhado em grande parte no consciente de nossos homens públicos. Pois que tudo que se planeja é arranjado por acordos, ideias ou doutrinas, geralmente em benefício dos mesmos e seus áulicos. Por vezes, estendem um pouco das sobras do que deveria ser do bem comum para dividir com o pobre povo marginalizado que só acredita em Deus, nas aflições de fé e nos passeios contritos em filas comportadas das procissões de suas oportunas padroeiras.

Portanto, parece-me que o problema político exige uma reposição primordial, concordando em significativa parcela de entendimento com o mestre Alberto Tôrres, em suas bases ideológicas, contundentemente doutrinárias, para que as atitudes práticas não sejam simplesmente utilitárias, mas ditadas com consideração filosófica. O crucial problema, tanto político como de seus acessórios relevantes para com a governabilidade de um país, tais o econômico ou o pedagógico, só será resolvido quando seus seguidores práticos esbanjarem um mínimo de dignidade em seus atos pelos quais lutam ou postulam na vida em geral - sobretudo na pública.

O Estado deveria não só promover como reger a sociedade no caminho desse ilusório bem-comum. Essa alusão do Estado como regente da sociedade presta-se a um entendimento estatista, em contradição aos princípios da doutrina e prática da política. Lembramos que J. Gredt, em sua obra, onde põe suas teses sobre os elementos filosóficos aristotélico-tomistas, pelos idos de 1929, defendia a sociedade como "a união moral de muitos em busca do bem comum".

O Estado não pode mandar o povo fazer o que ele manda. Agora, o povo, leia-se sociedade consciente em todas as suas classes, sim! Pela manifestação eleitoral é que pode ditar suas necessidades, promovendo acentuada exigência na gerência do seu dinheiro arrecadado pelos governantes - o tesouro nacional e suas reservas patrimoniais. O Estado, pois, nada mais é do que delegado do povo e seus eleitos dirigentes e asseclas são funcionários pagos pelo povo. O poder de autoridade é fixado nos limites da Lei Eterna e da Lei Natural, seguindo o catecismo filosófico de Santo Tomás de Aquino.

Aí surgiu, silencioso, um liberalismo soberano que deu força ao povo, embora combatido por intelectuais católicos, visivelmente inseridos como tema prioritário de má campanha insone de Jackson de Figueiredo, desde o tempo em que o liberalismo individualista tinha abafado os próprios germes do cristianismo de sua geração, na reação fascista contra o comunismo soviético, visto então como uma sadia afirmação do bom senso político.

A vontade geral foi desprezada, antes pelo getulismo, depois pelo militarismo, e hoje com o advento do neoliberalismo, argamassada de vez pelo petismo stalinista. Não caiu bem a nova ofensiva do presidente de criar um programa social com sua assinatura para substituir o Bolsa Família, uma forte marca das gestões petistas. Rebatizado de Renda Cidadã, o programa que o Governo tentará aprovar no Congresso nos próximos meses servirá como uma espécie de continuação do auxílio emergencial, dirigido aos mais afetados pela pandemia.


Ladrões do erário - em 23/09/20

O Rio de Janeiro parece ter uma praga jogada pelos antigos desbravadores portugueses, em termos de ter gestores ladrões do erário. Em quatro anos, todos os cinco governadores que foram eleitos e estão vivos já foram presos - Moreira Franco, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Rosinha Garotinho e Anthony Garotinho, sobre esses dois o Rio sofreu muito, Garotinho é um populista, um homem de visão limitada. Em 7 anos e 3 meses (contando com o governo da Rosinha) construiu só 2 estações de metrô. O emissário da Barra ficou se estragando. Nada fez na educação, nada fez na área da saúde, acha que governar é dar "vale cesta básica". Todos respondem em liberdade, exceto Cabral -- o único que admite os crimes.

Eis que o povo carioca entre a escolher um jogador de futebol senador, como Romário, que também não tinha capacidade de gestão nenhuma, mas talvez não fosse roubar, escolhe o novo, um juiz federal que vinha com seu discurso contra a corrupção e baseado em sua vida que agora sabemos que também como juiz era ladrão. Lembro do beijo da senhora Helena Witzel em seu marido ao fim da cerimônia de sua posse como governador do Rio de Janeiro, parecia um daqueles ósculos entre mafiosos que tanto podem significar apreço e boa sorte quanto podem representar uma forma carinhosa de dar adeus a um condenado.

Há muito me dei conta de que a maioria dos candidatos a cargos eletivos no Brasil não tem inteira consciência das dimensões da tarefa que faz tanta questão de assumir. Quando Witzel disputava com afinco a eleição para o governo fluminense e liderava as pesquisas, muitas vezes me perguntei se ela, aparentemente honesta em seus objetivos, avaliara com realismo o tamanho do desafio que propunha a si mesma. E o mesmo tipo de consideração fazia a propósito do candidato a presidente da República Jair Bolsonaro, que me parecia despreparado para governar o país. A nomeação dele para aquele que deve ser o cargo público mais complicado e espinhoso do Brasil atual confirma minhas suspeitas tanto sobre um quanto sobre outro: nem o governador Witzel alcançara em sua trágica profundidade toda a extensão da criminalidade fluminense, nem o Presidente Bolsonaro teria condições de bem governar uma nação das dimensões e da complexidade do Brasil ainda mais que se confirmam quando se dispõe a enfrentar o maior núcleo do crime organizado do país, do que agora já se sabe ele faia parte como líder de uma quadrilha.

Em resumo, tanto o meteórico Witzel e sua esposa, tem suas ambições eleitorais comprometidas por um extenso período. Os primeiros pronunciamentos de Witzel após sua eleição para o cargo, feitos em tom de bravata, não foram dos mais estimulantes. Combatida num quadro de vigência democrática, a criminalidade brasileira, acima de tudo aquela que se arraigou nos guetos miseráveis de Rio e São Paulo, só cederá mediante iniciativas conjuntas e intensivas que reduzam a miséria e o desemprego e melhorem os padrões de educação do povo. É preciso gerar com urgência ocupação para as parcelas das novas gerações que perambulam entre o vazio e o nada, sem saber o que fazer da vida. Tornar a atividade policial e prisional mais eficiente é importante, mas não reduzirá de maneira permanente a violência que se alimenta da falta de perspectiva e de esperança. A raiz de onde emergiram vícios hodiernos como clientelismo, nepotismo, corrupção (que parte da confusão entre público e privado), espírito orçamentívoro (que considera o Tesouro da Nação butim a ser distribuído entre amigos e apaniguados). A atualidade do diagnóstico feito sobre os nossos vícios sociais indica-nos que a estrutura patrimonial do Estado ainda está para ser superada.


Passagem para o perdão - em 16/09/20

Não sou de repetir artigos, no máximo quando repito algumas passagens é porque é pertinente o momento. Mas hoje em razão de vários acontecimentos familiares e de amizade resolvi dar uma rebuscada em artigo anteriormente feito que falasse sobre o perdão, essa palavra mágica que nem sempre é utilizada por nós mortais.

Na verdade, perdoar é verbo pouco conjugado no contexto de nossa cultura narcisisticamente movida a competição, a mania de grandeza, a banalização de valores, a desconsideração da importância dos outros. Perdoar, tornou-se babaca, valor obsoleto, coisa de gente fraca, no estilo dessa cultura tonificada pela mania de revidar, de ser vencedor, de ter que sobrepujar, de passar por cima, de destituir o outro, de ser herói. Perdoar tornou-se palavrão, coisa pejorativa, justificativa de gente sem coragem para a desforra.

Mágoas, ressentimentos são frequentes na experiência mais guardada das pessoas. Quem já não teve seus motivos de guardar uma dor, um sentimento rebentado, uma raiva por desejos frustrados, ou até ódio por uma situação transtornada, humilhante ou injustiçada? Eu já tive, e de quando em vez tenho uma recaída. Somos todos muito capazes sim, desses sentimentos raivosos. Eles compõem a nossa realidade humana.

Contudo, é bom lembrar que nossas mágoas não resolvidas promovem sequelas muito sérias, quando as mantemos nutridas e realimentadas dentro de nós. Torna-se possível então, uma imensa produção de destruições em nós mesmos. A qualidade da vida interna, a saúde emocional, ficam prejudicadas nesse território amargurado, onde não sobra espaço para a alegria, a leveza, a partilha cordial, o afeto.

Talvez, tenhamos construído a ideia de que o perdão é uma fragilidade diante do outro que nos ofendeu. Talvez imaginemos que se trata de um fechar os olhos para a falta do outro, de desculpar seu mau comportamento ou esquecer a dor que ele nos causou. O que não percebemos, contudo, é que perdoar é útil sobretudo a nós mesmos, à nossa própria saúde. Perdoar tem mais a ver conosco do que com o outro.

O perdão nos libera do peso da raiva, da mágoa ou ressentimento que nos impedem de ficar bem. Essa é uma bagagem muito pesada para nossa saúde emocional. Se não nos livrarmos dela, adoeceremos por dentro. Neste sentido, perdoar é uma escolha que fazemos, para viver livre dos fantasmas destrutivos. Não se trata de minimizar ou negar a própria dor, os sentimentos, mas de redimensioná-los.

Quando nos impedimos de perdoar, nos impedimos também de crescer, de nos desembaraçar-nos, de sermos nós mesmos. Enquanto não perdoamos, concedemos muito poder ao outro de continuar nos afetando. Temos o direito de ficar irados quando nos maltratam, mas perdoamos para continuar a viver com qualidade. Perdoamos para ter condições de controlar nossas emoções, para preservarmos o bom senso e resgatar em nós, a experiência de paz que pode ser sentida.

Mas não perdoamos por um ato de decisão apenas. Faz-se necessário o exercício cotidiano de desculpar, de tolerar, de cascavilhar menos as faltas do outro, de perdoá-lo nos pequenos deslizes. Se isto parecer muito difícil, vale a pena lembrar o que Cristo falou aos fariseus, reconhecendo o quanto eles eram hipócritas: "Atire a primeira pedra quem não tiver pecado".

Que ensaiemos, portanto, passar do estado de raiva, de ódio, de intolerância, para um estado de compreensão do humano, em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio. Cabe-nos dar destino ao que somos. Cabe nos apropriarmos do que queremos ser e fazer. Perdoar é abrir mão do ódio e permitir que a vida continue.


Relações promíscuas - em 09/09/20

Como observa Platão, revoluções só acontecem quando as elites se dividem. O crime só aumenta exponencialmente quando as autoridades se mostram transigentes. Quando combatido com honestidade e eficiência, o comboio do crime não tem como dominar faixas cada vez maiores do território legal. Quanto mais atrasada é uma sociedade, mais precisa de elites valorosas. Só que menos está preparada para formá-las. O desafio reside em quebrar o círculo vicioso. O fato de as elites se mostrarem eticamente indignas e tecnicamente ineptas não é castigo dos céus, é fruto de processos sociais viciados. A única forma de melhorar as qualidades morais e intelectuais das elites é aprimorar as instituições que as formam e a proficiência das que as controlam.

A fronteira entre o legal e ilegal está ficando cada vez mais borrada. Certas elites regionais não sentem constrangimento em fazer acordos, tácitos ou abertos, com grupos marginais ou criminosos às expensas do interesse público. Governantes têm permitido uma fieira de ilicitudes para ter popularidade junto a setores organizados da sociedade. Tendo de decidir entre tomar medidas desagradáveis ou desastrosas, fogem da responsabilidade paparicando de modo cada vez mais escancarado os fora-da-lei.

Do transporte clandestino à ocupação irregular do solo, passando pela comercialização de produtos roubados ou contrabandeados a céu aberto, o poder público pactua com os infratores. Sempre com a desculpa cômoda de que é movido por razões sociais. O mercado que precisa de regulação urgente é o político. Em nome da conquista do eleitorado prevalece o vale-tudo. Como a opinião pública não tem o menor controle sobre os porões da administração, autoridades fazem acordos espúrios com os senhores do crime traindo a "sociedade legal".

Em que consiste o "pacto tácito"? As elites podres entregam o espaço público a diferentes formas de ilicitude e, em contrapartida, recebem a regalia de ocupar os palácios. A população ordeira, encurralada e indefesa, perde o direito de circular com segurança pelo espaço público, mas continua obrigada a pagar a conta salgada dos impostos. As relações promíscuas entre determinadas autoridades e os negócios criminosos estão levando as grandes cidades para o abismo e deixando o poder oficial sem condições morais de exercer papel fiscalizador e repressor.

Quando o Estado, por omissão dos governantes, renuncia a empregar o monopólio do uso da força na defesa do cidadão, reprimindo e punindo ilegalidades, se mostra incapaz de exercer sua principal missão. Já há casos em que o poder começa a ser dividido entre os donos informais das ruas e os senhores formais dos palácios. E este é um pacto contra a sociedade. É preciso conter no nascedouro a aliança entre a elite política e o crime organizado. Do contrário, se chegará à total desmoralização do poder público, resultado da incorporação das irregularidades ao cotidiano da sociedade e à crescente indistinção entre o mundo legal e o ilegal.

Chega de invocar o desejo de minorar os problemas sociais como justificativa para a falta de autoridade acumpliciada. Se os governantes não assumirem suas mais espinhosas responsabilidades, algumas cidades brasileiras serão "colombianizadas". O populismo romântico já é coisa do passado. Hoje, os governantes não ficam desconfortáveis em se mostrar lenientes, por interesse e não por qualquer sentimento humanitário, com o crime. Esse "laissez-faire" cínico e cruel ocorre porque, em muitos casos, o poder legal e o paralelo se complementam. Na prática, é feita a mais perversa divisão: os maiorais ficam com os palácios e aos marginais são entregues as ruas. E o cidadão a tudo assiste como um filme que o aterroriza.


O silêncio - em 26/08/20

Nessa pandemia, tenho observado em alguns momentos, até pelo isolamento necessário, como as pessoas estão mais caladas. E daí em algumas ocasiões vem o silêncio. O silêncio é uma granada escutada na fuga da alma. O homem senta-se ante do birô noturno da vida para escrever o instante. As palavras fogem. E apenas há ressonâncias sinalizando a eventualidade das sílabas nos lábios. Sente ser apenas de carne e sonho, sangue e esperanças vagas possibilidades de ecos nas odisseias cavalgadas. Cataloga lembranças que cedo lhe queda o riso do arvoredo à beira-mar. Entra nas labaredas do alvorecer, catando linguagem. Silencia. Vê a ciranda das horas passar. Dedos pesados de chumbo. Livros e livros sobre a mesa. Sacrifício inconcluso no calendário. Como se a lâmina resoluta cortasse rajada, seus dias e vocabulário. A varanda em penumbra anuncia sua nostalgia. Tinem rajadas e folhas longilíneas no traçado da missão anunciada. De espanto se faz o caminho-ribeirinha dos afogados. A paisagem é este estandarte florido, berço acústico no imaginário da tarde dos encontros e das palavras. Pulsam partituras de festim nas cordas serenas do indivisível do coração que se despoja no cavalete das pinturas envelhecidas.

Assim como as palmeiras guardam em seu mistério secular o gorjeio das aves, os crepúsculos frondosos de buscas também suportam o camuflar silencioso das horas incontáveis na ampulheta dos braços incontidos e indizíveis. A palavra é o espelho, e a poesia é um vidro quebrado. Há de ser distorcida a palavra para tirar dela a essência e a cor crucial de sua plasticidade. Trabalhar com elas é um risco permanente de se tonar luz, ou cadafalso, o caminho do mundo. ser um verdadeiro lavrador da metáfora e do sentimento. Os versos podem ser pesados ou leves conforme os aviões. E tem-se que confiar em seu rumo quando se embarca numa dessas aeronaves sem nunca se ter visto o piloto. De repente, pode um voo libertar ou aprisionar. Um voo do gavião certeiro, que não sai do chão sem a presa em plena mira. Ou um ultraleve, que sobrevoa os açudes e, de repente, encontra o oceano. Das cores a correr no meio-fio do amanhecer da ilusão humana.

Às vezes considera, porém, esse ofício desmerecido. Talvez ser topógrafo, projetando traçados de ruas ou avenidas. Ou a terra, que sempre extrai da semente um sabor novo. No entanto, suas construções são palácios suntuosos como sonetos, os tercetos. Ou designers pós-modernos dos versos livres. Sua alquimia é o elixir insondável da transubstanciação, renovando os sentidos da verve. O poeta é filho da linguagem. Poemas são lavras que consomem por dentro o coração. A leitura dos versos deve ser o olhar penetrante da medusa, que transforma curiosidades em granitos. O sonho, Ledo Ivo, é um poema incontrolável. Talvez por isso mesmo os poetas sejam considerados lunáticos. A lua, certamente, sempre foi o astro principal da constelação da lírica. Não quer que o conheçam como poeta da dor ou do amor, mas, como poeta da revolução. Tapete de sangue a se estender no caminho de luta da humanidade.

Que a poesia possa despertar nos leitores a ânsia da liberdade. Liberdade não somente de formas, mas de conceitos, de comportamentos sociopolíticos. A boa política da participação, do estar com os pés no mundo e o semblante mirando o futuro. É preciso ter sempre o coração no lugar certo. Também, o silêncio. Não se deixar perder da missão da vida pelo secundário que a assedia. E como angústia ter que responder, com imagens a sentimentos! Palavras podem vir despojadas de afeto como os homens. Temos de revesti-las de significado como uma boneca nua. Palavras, Myriam Fraga, são tatuagens a quatro mãos. As pernas só são estiletes, quando de cruzam para cortar a carne e multiplicar o mundo. E não a ansiedade, mas a alegria que separa os dedos numa alegoria de frenesis sem fim. Onde as mãos são instrumentos de dedilhar a pele e incandescer o relaxar do riso e do encanto escancarados. Desvincula-se, súbito, do papel. Já não tem medo de sua opulência. Coloca o assento neste cavalo indomado. E cavalga neste crepúsculo, tendo as nuvens como estrada e a sombra da moça desconhecida como retrovisor.


Perdas - em 19/08/20

A história é um relato das relações humanas. Suas conquistas, seus triunfos, as batalhas ganhas, no relacionamento social, empresarial ou político. Mas também as batalhas perdidas. Pequenas e grandes perdas do cotidiano. As que nem são percebidas, ou nem são consideradas perdas efetivas, como, por exemplo, o próprio tempo vivido. Por outro lado, a submissão econômica, a opressão e a irracionalidade social, sendo sempre endêmicas na história são causadoras de tantas perdas e, das mais variadas consequências, principalmente agora com essa pandemia. 

Perdi vários amigos e amigas. Quantos de nós trocamos por remunerações, muitas vezes irrisórias, os nossos anos mais floridos e as horas mais coloridas dos nossos dias? As vicissitudes da própria condição humana levam os homens, de um modo geral, a se preocupar com as relações entre a felicidade e a virtude, a liberdade e a justiça, a fé e a consciência, o bem e o mal e, inserindo nesses conceitos as perdas do dia a dia. Alguém já disse que não morremos de uma vez. Morremos ao poucos, a cada dia, com o enfrentamento das pequenas decepções, desenganos, dissabores, das perdas, mesmo que banais. Um amor incompreendido. A morte de parentes, de grandes amigos ou mesmo um mero desconhecido da via pública, vítima da belicosidade do homem dos nossos tempos. 

Em confronto com isso tudo e, nos entregando à passividade do silêncio, chegamos à perda maior de todas elas. A derradeira. A definitiva, como paradigma do absoluto: a nossa própria morte. Como dizia Kafka: "Não a morte gloriosa dos deuses, dos santos ou dos heróis, mas a morte cotidiana, banal, burocrática, médico-legal". A que nos faz ficar fitando o vazio! A que não tem retorno e que, de resto, somente nos cabe o cultivo da esperança da ressurreição, muito embora sempre com o medo do incumprido. 

Para quem me conhece mais amiúde sabe que além de ser um doador sou um admirador da organização humanitária internacional criada em 1971, na França, por jovens médicos e jornalistas, Médico sem Fronteiras, toda vez que escuto a musica Fix You com Coldplay, eu choro, choro por lembrar dos pequenos sendo pesados em pesos que talvez não deem 3 quilos, Para George Steiner; "Todas as dicotomias que determinam a condição humana, como a vida e a morte ou a luz e as trevas, podem ser compreendidas como representações específicas, embora difusas, da dualidade absolutamente estabelecida da presença e da ausência". Já Heidegger, que era agnóstico, fez com que a consciência da morte fosse determinante para a compreensão do significado da vida. Para ele, "apenas a consciência de nossa mortalidade torna a nossa existência preciosa. Se não morrêssemos, tudo perderia o sentido. Tudo o que fazemos hoje, poderíamos deixar para amanhã".

Finalmente com o apoio e fundamento na crença religiosa, de qualquer culto que seja, nas grandes perdas há de se fazer a ligação ainda mais íntima com o Ser Superior no aguardo da passagem para a espiritualidade plena. É nessa ocasião que nos entregamos à solidão pela iminência da presença de Deus. Às vezes parece que economizamos nossos sentimentos, seja consciente ou inconscientemente. Somos levados pela maré do comodismo nos relacionamentos e arrastados pela onda do corre-corre da vida contemporânea. Ficamos inertes em palavras e gestos com aqueles que amamos, incluindo ai, infelizmente, nossos próprios pais. Por vezes, permanecemos à espera, quiçá, do dia dos pais para dar um presente, nem sempre agregado a um cartão que expresse nossos sentimentos e muito menos junto a um "Eu te amo". Com relação às mães a história não muda muito. Não que seja uma obrigação. Muito pelo contrário, a demonstração de nosso amor deve ser considerada, pura e simplesmente, um prazer. Eu achava com toda a sinceridade que durante e após essa pandemia e pelas inúmeras perdas que a cada dia sobem mais, o ser humano seria mais humano na expressão exata da palavra e seus sinônimos como compreensivo, bondoso, bom, benevolente, benévolo, humanitário, sensível, generoso, caridoso, piedoso, misericordioso, afável, compassivo, condolente, clemente, caritativo, indulgente. Ledo engano, mas a vida continua.Fico a refletir e pergunto-me. Onde estão as pessoas de bem? por que pessoas más se unem com tanta facilidade e nós que nos consideramos de bem não nos unimos também?

É o que temos assistido de braços cruzados e olhar assombrado, o império do crime, o domínio da marginalidade, a força da bandidagem; atenção ao criminoso, o direito estabelecido ao delinqüente, reconhecido e protegido, pela omissão do próprio Estado maior responsável por tudo de errado que assistimos por aí. Vivemos uma guerra. E o pior estamos em sociedade perdendo essa luta. O inimigo já não se encontra em nossas fronteiras já o vemos em nossas trincheiras.

Se considerarmos o estado tendo o governo como responsável maior, não nos esqueçamos que governo somos todos nós , sociedade organizada ou desorganizada como a nossa. Daí aquela expressão alemã: governo bom é aquele que governa pouco; quem deve governar é a sociedade judiciosa. O japonês, outro povo a frente cinqüenta anos de nós vai mais além nas suas elucubrações: quanto menos governo nas coisas melhor ante sociedades capacitadas a dirigir-se e administrar-se.Lógico que governo aqui citado é o oficial, burocrático, delegado pelas "gentes" promotor e cumpridor das leis minimamente organizadas ante o poder maior, o plenário em que toda população tem cadeira cativa.';'Com todo este poder, onde estamos nós cidadãos? ausentes do campo de batalha, omissos considerada a omissão o maior dos pecados; assim não chegaremos jamais na formação de uma sociedade organizada, saudável.


A Lapa - em 12/08/20

Já fiz dois artigos sobre o Bar Garota de Ipanema no Rio de Janeiro, e um falando das belezas de um modo geral da cidade maravilhosa, pela qual eu tenho encantamento e me traz energia. Hoje escreverei sobre um bairro boêmio que já frequentei muitas vezes - e ainda frequento - quando estou na cidade mais linda do planeta no tocante a natureza. Falo sobre a Lapa, lugar de inúmeros bares e de vários inícios e términos de relacionamento, motivo de letra de música. Dentro do ideário ilusionista do milagre econômico que a ditadura civil-militar nos enfiava goela abaixo, transformações, não só espaciais, eram arbitrariamente impostas. Como Satã, Aguinaldo também experimentou um desterro político e não mais voltou ao bairro como morador.

A Lapa, contudo, como uma fênix, passa por uma redescoberta, no final do século XX. Portanto, se toda a ideia de uma vida boêmia ali existente era associada às práticas de uma suposta decadência moral, as tentativas de provocar a derrocada física daquele ambiente, como um polo de criatividade, sobrevoou algumas vezes esse "território do livre". Pela força da caneta, esse espaço do "pecado permitido" foi condenado a desaparecer, pela primeira vez, por uma onda moralista do pós-Segunda Guerra. Apontando essa primeira tentativa de assassinato, de morte da simbologia da Lapa, a narrativa de Antônio Maria, colocada no espaço azul do livro, já quase anunciando os dilemas mais contemporâneos, ao meu juízo a mais instigante -, resumem esse tempo ao sentenciar que

Foram os dois últimos anos da Lapa que marcaram época. Vieram logo depois o fechamento dos prostíbulos e a decretação da ilegalidade do jogo. Os malandros iriam ficar  por ali, esperando o quê? Dispersaram-se, empobreceram, arribaram nos subúrbios, em casas de parentes humildes que os esperavam, cheios de fé, com uma cama por forrar e um prato a mais a pôr na mesa. Nesse sentido, minhas escolhas recaem sobre textos que procuraram apreender o bairro em seus vários momentos de decadência e opulência, trazendo-o à tona pelo signo do abajur lilás, da ''dolorosa visão da borrada maquiagem de véspera no rosto precocemente envelhecido das mulheres'', isto insinua a lembrança de um outro personagem que, mesmo não sendo do local, carregava o estigma da marginalidade - Plínio Marcos, ''o que surge na literatura sobre o bairro não é a malandragem, mas as mulheres de vida fácil, um certo desencanto e um ceticismo crítico''.

Essa bruma de alegria-triste define tanto o encanto pela história da Lapa quanto o seu mistério. Abrigando um espaço criativo e transformador, envolto no signo da decadência, a Lapa está sempre em pauta. Suas transformações arquitetônicas ao longo das décadas espelham as rugas que marcam o rosto dessa Cidade-Metrópole, Cidade-Capital que não perde, felizmente, essa aura da inventividade criadora. Dentro desse espírito de renascimento e transformação, de fim de linha e recomeço eterno, de berço e morte, em 10/4/2002, o jornalista Elio Gaspari, em sua coluna para o jornal O Globo  narrou uma visita que fez ao recém-remodelado bairro da Lapa, que vem recebendo da Prefeitura da cidade obras de saneamento e infraestrutura. Entusiasmado com o encontro do passado que está impresso no casario e nos paralelepípedos das ruas do Lavradio, Inválidos, Moraes e Vale e da avenida Gomes Freire, definiu que "deu-se na Lapa o reencontro das duas cidades que convivem no Rio, a dos pobres e a daqueles que acham que não são pobres. Sempre que essas duas populações se encontram, o Rio floresce. Sempre que elas se separam, a cidade se degrada".

Contaminados por essa aposta na integração de territórios e abandonando um discurso médico-policial tão marcadamente moralista, autoritário e segregador, que dividiu a cidade e seus habitantes por uma moral da boa conduta, é que se percebe que a saída está em não fracionar. Para tal, há que se aproximar os espaços e desconstruir a visão de uma cidade sã versus o lupanar, investindo, portanto, no contato e na mistura. Como também, acreditando que não são os mortos que dominam os vivos e, sim, que há uma tradição e uma cultura vinculadas aos processos de criatividade e não de fossilização.

Para ilustrar e concluir, retorno à sugestão de Gaspari: apostar no diálogo e na integração das "partes da cidade" e, portanto, discordar da percepção, quase um devaneio lunático, de que a cidade, como um corpo, pode ser partida em pedaços, em que cada porção corresponderia a um lugar de saciedade. Para visualizar tal idiossincrasia, fico com as saborosas narrativas de Orestes Barbosa, recuperadas por Lustosa. Esse carioca, jornalista e compositor desenha, com maestria, a história de Alice Cavalo de Pau - uma entre as muitas prostitutas imortalizadas na fantasia da "vida fácil".

No bordel de Alice, na rua Maranguape, a nata da política nacional vivenciava os prazeres da carne, como se em outros espaços contemplassem apenas o regozijo das mentes. Um cliente de renome lhe pede uma moça, mas faz uma ressalva: "Quero dormir com uma mulher inteligente".

Dentro da perspectiva de criar ilusões e "faturar" alguns trocados, algumas prostitutas se faziam passar por francesas e se aproveitavam da febre do culto à cultura europeia.

A cafetina Alice não consegue compreender seu freguês e faz graça de seu pedido. Desejando sintonizar o homem ao lugar onde está e ao que realmente ali há de melhor, soluciona a questão endereçando-o ao que julga ser o local do seu prazer: "O Sr. quer dormir com inteligência? Então não é aqui. É na rua São Clemente, 134. Vá dormir com o Rui Barbosa".



Dia dos pais- em 06/08/20

Mais uma vez o Dia dos Pais. Pode ter sido criado comercialmente ou não, o fato é que sempre faço algum escrito para essa data tão importante embora todo dia seja o dia dos pais. Perdi meu pai, quando ele tinha apenas 56 anos. Se ainda permanecesse conosco, estaria no ano de seu centenário. Só agora, no silêncio e quietude da noite, me dei conta que nunca lhe escrevi uma carta. Se as palavras faladas tivessem consciência do mal que podem fazer - pela ingratidão que fazem - seriam sufocadas de remorso na garganta e a linguagem humana seria toda feita de soluços, como afirmava Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas, e as escritas, mais perigosas e mordazes, porque permanentes, quedar-se-iam imunes ao convite do papel em branco. Aquelas são folhas dançantes para o brinquedo do vento.

Meu filho mais novo, Gabriel, sempre foi dado a escrever bilhetinhos e deixar embaixo da porta de meu quarto, quase sempre era para pedir para ir pro computador, isso me deixava tão alegre, mas não demonstrava, que bobagem minha? Lembro do meu pai que mais forte e significativo que palavras de estimulo, apoio e carinho, foi seu exemplo de vida e retidão de caráter. Não admitia deslize em termos de corrupção, de desonestidade. Como sofreria se vivesse nos tempos atuais presenciando o espetáculo vergonhoso com que nos "presenteia", sem pudor, a maioria de nossos homens públicos! Sua preocupação com os filhos não se estendia apenas aos dias futuros - era presente nos mínimos gestos. Privava-se do que mais gostaria de ter para que tivéssemos o que ansiávamos possuir. Não sabia jogar futebol, mas adorava o esporte porque os filhos faziam-no bem (modéstia à parte). Nas partidas, ficava à margem do campo. Coitado do juiz que anulasse um gol injustamente contra nosso time ou do adversário que nos atingisse violenta e covardemente.

Mas hoje faço uma homenagem como pai e avô, uma reflexão de todos estes anos de convivência, ensinamentos e aprendizado; e de esperança em construir um alicerce seguro que possa suportar para sempre, em qualquer época, os solavancos desta vida, para que sejam sólidos de educação, caráter, dignidade, honra, respeito ao próximo e religiosidade. Deste modo, quantas vezes gostaria de ser melhor para vocês e simplesmente não consigo. Por ignorância ou, quem sabe, por temor à incerteza, não questionamos nossos conceitos, ao contrário, tendemos a continuar acreditando no que cremos.

Com relação à questão dos papéis masculino e feminino, parece haver uma recusa das instituições - que nas suas ações manifestam o pensamento da sociedade - em perceber que a imagem de gênero, assim como a de muitas outras, é constituída sobre uma pequena seleção de fatos verdadeiros e falsos, que se expandem com grandeza desmesurada e formam uma estampa que não corresponde à humanidade da mulher e do homem. Explica-se, desta forma, o fato corriqueiro nas situações de separação e divórcio: na imensa maioria dos casos, é dada à mulher, por uma questão de gênero, a guarda dos filhos. Os homens, mesmo que aptos e desejosos de manterem os filhos consigo, também por uma questão do gênero, têm negado este direito que, em tese, lhes é assegurado.

Mas sobre os filhos lembro quantas vezes permaneci acordado até tarde da noite à espera de febre baixar, ou do telefone tocar avisando que a festinha ou o show terminou. Quantas vezes sofro com vocês, quando em alguma esquina da vida trombam de frente com uma decepção ou desilusão. Quantas vezes sou chato por orientá-los insistentemente sobre uma conduta saudável e responsável, ou tento avisá-los de situações de risco, como se pudesse evitar que aprendam doloridamente com os próprios erros. Quantas vezes fui e sou superprotetor, na ilusão de que poderei poupá-los de trafegarem por estradas mal sinalizadas, esburacadas, escorregadias e com curvas perigosas, na inocente pretensão de protegê-los da vida. Quantas vezes, nas dificuldades da vida, deparo-me com situações onde é preciso tomar decisões, e rejeito enveredar pelo caminho mais fácil e lucrativo que põe em prova a integridade de meu caráter, a minha dignidade e honestidade, para assim, reencontrar com vocês com a cabeça erguida, e deste modo olhar fundo nos seus olhos, sem a cortina da vergonha e da culpa a nos separar. Quantas vezes preciso ser firme e colocar limites nestas vidinhas, para ensiná-los que o mundo é infinitamente maior que nosso lar, e que vocês têm que aprender a viver em coletividade, respeitando o próximo e sabendo que não são seus todos os doces da bonboniere. Quantas vezes no ímpeto de protegê-los tomo para mim o leme desta embarcação e passo para vocês a imagem de herói, de que sou o maior, o único que pode mantê-los em segurança; perdendo a oportunidade de ensiná-los que somente em Deus encontraremos infalibilidade, segurança, proteção e forças para resistir. Somente n'Ele que é Pai dos pais, das mães, dos filhos e de toda a humanidade. Quantas vezes poderia ter feito mais! Ter sido mais amigo, entusiasta, confidente, companheiro, cúmplice, disciplinador, participativo, compreensivo.

Não importa a idade de nossos filhos, ainda é tempo de recomeçar, arregacemos as mangas e mãos-à-obra.

Sinto-me orgulhoso meus filhos, por ser pai de vocês. E aos meus netos como sinto que também sou pai deles, curti desde o nascimento, até a idade de hoje de 13 anos, sendo um avô que não dispensa falar de sacanagens, mas que adora quando é beijado e abraçado, sentindo-me importante por ser pai do pai deles.

Fernando Pessoa, em O Eu Profundo e Outros Eus, mobiliza nossos sentimentos de compaixão por todos os filhos sem pai e especialmente pelo pequeno Jesus, quando diz: "Nem sequer o deixaram ter pai e mãe como as outras crianças; seu pai era duas pessoas: um velho chamado José, que era carpinteiro e não era pai dele; o outro era uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo porque não era do mundo, nem era pomba..."

Para aqueles que perderam seus pais por essa pandemia, ou recentemente ou não,, mas que nunca são esquecidos desejo a todos um FELIZ DIA DOS PAIS.



Citações - em 29/07/20

Hoje resolvi lembrar de alguns e memoráveis filósofos que nos deixaram lições sobre como admirar exemplos, e poderia citar outros vários que estarão incrustados neste artigo, mas basta se não o leitor ficará entediado, embora as lições sejam para sempre. Essa pandemia me fez repensar muitas coisas e já escrevi sobre ressignificância, mas evidente que independente de qualquer coisa há de ter bons exemplos, para que o homem possa se espelhar, e afirmo não é dizendo que a cloroquina é o remédio para a cura da Covid que se dá bons exemplos, pelo contrário.

Vamos acabar com a violência. Ao longo da vida, o homem, seja ele simples ou com poderes nas mãos, deveria sempre se espelhar nos bons exemplos para projetar o que fazer adiante, até os últimos dias por aqui. Mas não é bem assim. "A grande tragédia do mundo é que não se cultiva a memória e, portanto, esquece-se dos mestres", disse Martin Heidegger, filósofo alemão (1889-1976). Melhor ainda: "Feliz aquele que chegou a conhecer as causas das coisas", sentenciou Virgílio, poeta romano, autor de A Eneida (70 a.C.-15 a.C.). O orgulho, a soberba e desonestidade campeiam por aí; o bom senso e o caráter ilibado, em contrapartida, rareiam. Napoleão Bonaparte, general francês (1769-1821), bradou certa vez: "É fácil determo-nos quando subimos; difícil, quando descemos". Nada mais atual, pelo que vem ocorrendo.

O que está faltando a muitos são ideias, boas e exequíveis. A mesmice está saturando o ambiente, deveras malcheiroso; há uma repetição enfadonha de atos políticos, administrativos e pessoais daqueles que figuram como mandantes da vida da gente. Se "a ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente, como defendia Henry Kissinger, ex-secretário de Estado norte-americano (Prêmio Nobel da Paz de 1973), "o problema com as boas ideias é que elas acabam dando muito trabalho", diz Peter Drucker, escritor e consultor administrativo norte-americano. "As ideias são como pulgas, saltam de uns para outros, mas não mordem a todos", relevava George Bernard Shaw, crítico e dramaturgo inglês (1856-1950).

O mundo vive aos sobressaltos: terror, fome, concentração de renda absurda, imperialismo do Norte e guerras inócuas, ali e acolá, para deleite de alguns dos donos das chaves dos sete ou oito cofres que comandam a humanidade. "Olho por olho, e o mundo acabará cego", Mohandas Karamchad Gandhi, o Mahatma, líder da independência da Índia (1869-1948). O Brasil pulga escândalos, trapaças, fraudes e corrupção. Lembremos o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): "Quem quer agradar a todos não agrada a ninguém". Nada mais adequado à nossa realidade. Pena. "Se um homem, superior abandona a virtude, como pode fazer jus a esse nome?", disse Confúcio (mestre chinês, nascido Kung-fu-tzu, 551-479 a.C.). A vaidade de muito está atropelando a sociedade no nosso penoso dia-a-dia. Muita gente a tirar partido do que tem ao alcance das mãos. A classe política, então, dá um banho. "Quem sou eu perto do universo?", dizia sempre Ludwig van Beethoven, compositor alemão (1770-1827).

Há momentos em que a humildade e o recolhimento constroem mais do que os espelhos de Narciso. Como frisava Pablo Picasso, pintor espanhol (1881-1973): "Não se pode fazer nada sem a solidão". A liberdade é sempre questionada: defendida constantemente pela maioria fraca, mas violentada, muitas vezes, pela minoria forte. Como expressava Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos (1909-1865), "o homem nunca encontrou uma definição para a palavra liberdade". Alguns mandatários e muitos que se autoproclamam líderes políticos acham-se donos da verdade, com direito a decretar os rumos da vida dos outros. "É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe", nos ensina Epíteto, filósofo grego (55-135). Em tempos de muitas afirmações, mas também de um mar de mentiras a nos afogar em um porre homérico, é preciso a gente recordar a frase de Henry Wadsworth Longfellow, poeta norte-americano (1807-1882): "No caráter, na conduta, no estilo, em todas as coisas, a simplicidade é a suprema virtude". Mas "a realidade é irracional", como defendia Georg Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo alemão (1770-1831), e o que assistimos e vivemos é uma torrente de trombadas no que deveria ser o certo: governantes limpos e capazes, imbuídos de vontade para defender o interesse coletivo, mesmo que não queiram trabalhar com aquela esperada abnegação. Bertrand Russell, filósofo inglês (1862-1970), disse: "A sábia utilização do ócio é um produto da civilização e da educação". À maioria dos brasileiros, desprovidos de benesses públicas, de emprego, saúde, educação, infraestrutura e afins, um recado de Victor Hugo (1802-1885), escritor, poeta e dramaturgo francês (Os miseráveis, ...): "Os grandes são grandes porque talvez os seus súditos estejam de joelhos".



Literatura- em 23/07/20

Esta semana vou falar de Literatura, e para consolo dos bolsonaristas ou não bolsonaristas, não falarei no nome do presidente, talvez no final dê uma puxada de orelhas em quem comanda a nossa cultura. Antes da República, ou por espírito de oposição ao império católico, ou por influência desse pensamento moderno, eram os intelectuais brasileiros quase todos livres-pensadores, ou pelo menos espíritos de um larguíssimo liberalismo, que roçava pelo livre-pensamento. Este liberalismo foi, aliás, a feição conspícua do espírito brasileiro e da vida pública brasileira durante todo o reinado de D. Pedro II.

Com a República, que não podia falhar à índole ditatorial e despótica do republicanismo latino e aos efeitos da sua educação pelo jacobinismo francês, atenuou-se essa feição e minguou na política, como na inteligência nacional, aquele espírito liberal. Uma escola literária não morre de todo porque outra a substitui, como uma religião não desaparece inteiramente porque outra a suplanta. Também não acontece que um movimento ou manifestação coletiva de ordem intelectual, uma época literária ou artística, seja sempre conforme com o seu princípio e conserve inteira a sua fisionomia e caráter. É, pois, óbvio que aqui, como sucedeu na Europa, ficaram germes ou antes restos do Romantismo, como neste haviam ficado do classicismo.

Misturados com o "cientificismo" do momento ou influídos por ele, esses remanescentes do Romantismo confundiram-se na corrente geral daquele originada, produzindo com outros estímulos e impulsos supervenientes algumas feições diversas na fisionomia literária desta fase. Nenhuma, porém, tão distinta que force a discriminação. A dificuldade geralmente verificada desta discriminação sobe de ponto aqui, onde por inópia da tradição intelectual o nosso pensamento, de si mofino e incerto obedece servil e canhestramente a todos os ventos que nele vêm soprar, e não assume jamais modalidade formal e distinta.

Sob o aspecto filosófico o que é possível notar no pensamento brasileiro, quanto é lícito deste falar, é, mais talvez que a sua pobreza, a sua enfermidade. Esta é também a mais saliente feição da nossa literatura dos anos de 70 para cá. Disfarça-as a ambas, ou as atenua, o íntimo sentimento comum do nosso lirismo, ainda em a nossa prosa manifesto, a sensibilidade fácil, a carência, não obstante o seu ar de melancolia, de profundeza e seriedade, a sensualidade levada até a lascívia, o gosto da retórica e do reluzente. Acrescentem-se como característicos mentais a petulância intelectual substituindo o estudo e a meditação pela improvisação e invencionice, a leviandade em aceitar inspirações desencontradas e a facilidade de entusiasmos irrefletidos por novidades estéticas, filosóficas ou literárias. À falta de outras qualidades, estas emprestam ao nosso pensamento e à sua expressão literária a forma de que, por míngua de melhores virtudes, se reveste. Aquelas revelam mais sentimentalismo que raciocínio, mais impulsos emotivos que consciência esclarecida ou alumiado entendimento, revendo também as deficiências da nossa cultura.

Mas por ora, e a despeito da mencionada reação do espírito científico e do pensamento moderno dele inspirado, somos assim, e a nossa literatura, que é a melhor expressão de nós mesmos, claramente mostra que somos assim. Literatura é arte literária. Somente o escrito com o propósito ou a intuição dessa arte, isto é, com os artifícios de invenção e de composição que a constituem é, a meu ver, literatura. Assim pensando, quiçá erradamente, pois não me presumo de infalível, sistematicamente excluo da história da literatura brasileira quanto a esta luz se não deva considerar literatura. Esta é neste livro sinônimo de boas ou belas letras, conforme a vernácula noção clássica. Nem se me dá da pseudonovidade germânica que no vocábulo literatura compreende tudo o que se escreve num país, poesia lírica e economia política, romance e direito público, teatro e artigos de jornal e até o que se não escreve, discursos parlamentares, cantigas e histórias populares, enfim autores e obras de todo o gênero.

Não se me impõe o conceito com tal grau de certeza que eu me não atreva a opor-lhe a minha heresia, quero dizer a minha humilde opinião. Muitos dos escritores brasileiros, tanto do período colonial como do nacional, conquanto sem qualificações propriamente literárias, tiveram, todavia, uma influência qualquer em a nossa cultura, a fomentaram ou de algum modo a revelam. Bem mereceram, pois, da nossa literatura. Erro fora não os admitisse sequer como subsidiários, a história dessa literatura. Não existe literatura de que apenas há notícia nos repertórios bibliográficos ou quejandos livros de erudição e consulta. Uma literatura, e às modernas de após a imprensa me refiro, só existe pelas obras que vivem, pelo livro lido, de valor efetivo e permanente e não momentâneo e contingente.

A literatura brasileira (como aliás sua mãe, a portuguesa) é uma literatura de livros na máxima parte mortos, e sobretudo de nomes, nomes em penca, insignificantes, sem alguma relação positiva com as obras. Estas, raríssimas são, até entre os letrados, os que ainda as versam. Não pode haver maior argumento da sua desvalia. Respeitador do trabalho alheio, como todo o trabalhador honesto, mas sem confundir esse respeito com a condescendência camaradeira, estreme de animosidades pessoais ou de emulações profissionais, com o mínimo dos infalíveis preconceitos literários ou com a força de os dominar, desconfiado de sistemas e assertos categóricos, suficientemente instruído nas cousas literárias e uma visão própria, talvez demasiadamente pessoal, mas por isso mesmo interessante da vida, ninguém mais do que ele podia ter sido o crítico cuja falta lastimou como um dos maiores males da nossa literatura. Em compensação deixou-lhe um incomparável modelo numa obra de criação que ficará como o mais perfeito exemplar do nosso engenho nesse domínio.


Autoritarismo - em 15/07/20

Caros leitores, confesso que o sonho de construir uma nova nação com promessas de ressurreição dos pobres e oprimidos, acabou virando um pesadelo. O PT tinha um programa, trabalhado mais de 20 anos, e acabou chegando ao poder, em janeiro de 2003, depois de consagradora vitória nas urnas. O forte apelo de um ex-operário se eleger presidente da República de uma das 15 maiores potências do mundo, em termos de Produto Interno Bruto (PIB), encheu o povo de esperança. Com sua legenda de pureza e respeito à ética na política, o governo do PT acabou sufocado por mais um poderoso surto de corrupção, propinas e atos agressivos à moral administrativa.

Primeiro, foram os misteriosos assassinatos dos prefeitos Toninho do PT (Campinas) e Celso Daniel (Santo André), este economista e um dos principais coordenadores da campanha do candidato petista, seguidos, já no governo, do escândalo que envolveu Waldomiro Diniz, assessor do ministro José Dirceu, e pelas denúncias sobre o suposto pagamento do mensalão a parlamentares, para apoiarem projetos do governo e propinas nos Correios e no Instituto Brasileiro de Resseguros (IRB). Em seguida veio a desastrada Dilma, depois colocada pra fora, ficou Temer que também navegava nas mesmas ondas da corrupção.

Nossas decepções estão na ordem do dia, algumas de fundo tão parecido com a utopia de oceana que é, de 1656. É sempre sábio começar pelos clássicos, atentando para o que eles conceberam, escapando das "soluções" meio impensadas dos nossos contemporâneos, às vezes muito tingidas pelas colorações das mesquinharias pouco distanciadas do presente. Perdidos, podemos encontrar e nos encontrar achados nas sugestões destes clássicos que deveriam fazer parte da nossa educação e da nossa cultura humanística.

Nosso Presidente atual, não tem um mínimo de consciência de gestão, e mais o que é ser um Presidente da República. São bobagens em cima de bobagens, quebra de hierarquia, intromissão em assuntos pequenos, quando o Brasil precisa de um gestor que tenha uma visão holística. Na verdade,o campo dos estudos políticos e sociais não existe sem dissonância. Os conceitos que se empregam para interpretar a sociedade, a organização política e os fatos culturais, por serem históricos, são muitas vezes fluídos e fugazes. Costumam pregar peças em autores, leitores e atores.

Pode-se lembrar o que se passa com a palavra democracia. Hoje em dia, não há quem não se diga democrata. Perdemos horas preciosas, em numerosas reuniões, para estabelecer o sentido exato da expressão, que muitas vezes só ganha clareza quando devidamente adjetivada, como se não fosse possível qualquer concordância quanto à substância. Outras vezes, só sabemos do que se trata por oposição à ditadura ou autoritarismo, ou seja, não pelo que a democracia é, mas sim pelo que não é. Ocorre algo idêntico com o termo liberdade. Consta que Abraham Lincoln afirmou, certa vez, que "nunca se consegue dar uma boa definição para esta palavra. Todos estamos decididamente a favor da liberdade, mas nem sempre pensamos o mesmo quando a palavra sai de nossos lábios".

Antes dele, muitos outros já haviam tropeçado no problema. Inúmeros conceitos da teoria social contemporânea geram controvérsias constantes. Um deles é o de hegemonia. Trata-se de um conceito empregado basicamente para caracterizar a capacidade que um grupo tem de dirigir eticamente e estabelecer um novo campo de liderança. Mas, como a palavra tem uma origem militar, muitos a aproximam da ideia de monopólio ou uso intensivo do poder, quer dizer, veem-na muito mais como sinônimo de força, autoridade, imposição.

O conceito de consenso sofre algo parecido: elaborado para qualificar uma articulação pluralista de ideias e valores, uma unidade na diversidade, acaba sendo reduzido à ausência de dissenso e divergência, uma situação mais de silêncio passivo e unanimidade que de ruído e multiplicidade. Manuseado com este registro, o conceito de consenso perde operacionalidade e se torna um jargão sem maior utilidade. Quando muito, vale para que se demarque uma ou outra posição em termos políticos mais imediatos.

Ocorre algo ainda pior com o conceito de sociedade civil. Ao se disseminar largamente, colando-se ao senso comum, ao imaginário e ao discurso político das sociedades contemporâneas, o conceito perdeu precisão: empregam-no tanto a esquerda histórica quanto as novas esquerdas, tanto o centro liberal quanto a direita fascista. Os vários interlocutores referem-se a coisas distintas, mas empregam a mesma palavra. Inevitável que a confusão prevaleça. A sociedade civil serve para que se faça oposição ao capitalismo e para que se delineiem estratégias de convivência com o mercado, para que se proponham programas democráticos radicais e para que se legitimem propostas de reforma gerencial no campo das políticas públicas. Busca-se apoio na ideia tanto para projetar um Estado efetivamente democrático quanto para se atacar todo e qualquer Estado. É em seu nome que se combate o neoliberalismo e se busca delinear uma estratégia em favor de uma outra globalização, mas é também com base nela que se faz o elogio da atual fase histórica e se minimizam os efeitos das políticas neoliberais.

O apelo ao conceito serve tanto para que se defenda a autonomia dos cidadãos quanto para que se justifiquem programas de ajuste fiscal e desestatização, nos quais a sociedade civil é chamada para compartilhar encargos até então eminentemente estatais. A incorporação da ideia de participação à linguagem do planejamento fez com que a sociedade civil se deslocasse de seu campo principal (o da organização de novas hegemonias) e se convertesse num espaço de cooperação e gestão da crise. O problema extravasa os ambientes acadêmicos ou jornalísticos.

Costumamos assistir a arengas intermináveis ou a embates políticos acalorados que são, no fundo, desentendimentos por falta de clareza conceitual. Atritos onde as falas se opõem e geram animosidades absurdas não porque os interlocutores estejam em campos políticos ou ideológicos distintos, mas porque não estabelecem com rigor os termos com que estão lidando ou em torno dos quais divergem.

Com isto, os pequenos interesses se impõem, os gestos e as intenções deixam de contar, a política com P maiúsculo se ausenta. Trata-se de algo em boa medida inevitável. Seus efeitos, porém, podem ser atenuados. Para tanto, além de empenho intelectual, fazem-se necessárias uma boa dose de honestidade, polidez e caráter, bem como uma sincera disposição para o entendimento. Coisas, em suma, que não se acha com facilidade. No presente momento, nada temos que possa caracterizar democracia, mas sim um autoritarismo desmedido e ilógico.


Líder - em 08/07/20

Liderança se aprende em todas as áreas do saber e do viver. Não é fácil, embora alguns ainda não diferenciem a liderança da chefia. Mas, chefe é chefe, é o que é imposto. Manda sem comandar, impõe sem convencer, cobra sem conhecer. Líder é dar um (grande) passo além. Na maioria das vezes, é um trabalho solitário.

A firmeza de propósitos (convicção de espírito), a segurança nas ações (exemplo no fazer) e a motivação para o equilíbrio (harmonia e integração) do grupo são fatores inerentes a qualquer líder. Sem (ou com) a liderança, absolutamente, as histórias dos povos seriam as mesmas. Assim como a inteligência, uma pessoa com liderança numa área não significa que será líder também em outra. Um líder sindical pode ser um fracasso como líder religioso, político ou militar, e vice-versa.

Ninguém é líder porque quer. Liderança exige conhecimento e referencial. Quem nunca ouviu uma música de Glenn Miller ou Miles Davis? Ou ainda de Ray Conniff e sua orquestra? Quem nunca ouviu Ramones, U-2 ou Rolling Stones? E aqui no Brasil, dos Novos Baianos, passando por Barão Vermelho aos Paralamas, Capital Inicial, Kid Abelha ou Engenheiros do Hawaii, só para citar (e incitar) uns poucos!

Se falarmos em Dave Evans ou Ronnie Wood, ou ainda em Paulinho Boca de Cantor, Fernando Magalhães, Bi Ribeiro, Yves Passarell, Jorge Israel, Carlos Maltz, sem associá-los, respectivamente, às oito últimas bandas citadas acima, provavelmente não iríamos identificá-los. Quais os seus instrumentos? Quais as suas participações? Mas, todos conhecem seus band leaders: Bono Vox, Mick Jagger, Moraes Moreira, Cazuza (Frejat, agora), Herbert Vianna, Dinho Ouro Preto, Paula Toller ou Humberto Gessinger, que puxaram para si a responsabilidade do sucesso da equipe, pelo dom ou por terem aprendido mais.

Mesmo para os indiferentes à explosão musical do século XX, apreciadores de outros gêneros de entretenimento como a literatura, artes plásticas ou caratê já sabem qual o maior conjunto de que participaram Ringo Star e George Harrison, sem forçar as imagens de Lennon e McCartney. Se toda regra tem exceções, o importante é considerar que a liderança projetada numa só pessoa, quando ela é ameaçada, desgastada ou comprometida com outros ideais, leva à ruptura de todo o grupo. Isso acontece em times de futebol, grupos religiosos, sindicatos de trabalhadores, bancadas políticas, empresas e bandas musicais.

O ex-jogador Michael Jordan era um fenômeno mundial para o basquete, assim como foi para o futebol, o rei Pelé. Tiveram o dom para jogar bolas, ou quase. O primeiro, ao encerrar a sua carreira de maior cestinha na história do Chicago Bulls, quis se aventurar em outras plagas: o beisebol. Retornou ao basquete (ainda bem) desiludido, por não fazer no campo o que estava acostumado a fazer nas quadras. Já imaginou Pelé como jogador de vôlei ou squash? Será que conseguiria também ser líder? Logo ele, que tinha a sua liderança no agir, e não na braçadeira de capitão. Do dom, eles desdobraram (pela inteligência e aprendizado) de forma dinâmica e objetiva a liderança junto aos colegas, comunidade em que atuavam e público em geral. Algo como atualmente fizeram o jogador Robinho, do Santos, e Kaká, do Milan. Também o fizeram Santos Dumont, os irmãos Villas-Boas, Anésia Pinheiro, Airton Sena e Irmã Dulce, entre outras lideranças de distintas áreas.

Em um voo a 6 mil metros de altitude, ninguém quer questionar a liderança de um piloto sobre a sua equipe ou na final de um campeonato se a comissão técnica tem tática ou estática. Uma vez que são nos momentos decisivos que os líderes se sobressaem, eles devem estar preparados para tal. Como? No controle do desempenho de suas ações com referenciais significativos, procedendo a uma crítica fundamentada para, se necessário, corrigir rumos. É como seguissem fielmente a máxima dos escoteiros: sempre alerta.

Busque a história dos que, algum dia, tiveram liderança e depois caíram no ostracismo: artistas, jogadores, políticos, empresários, músicos ou socialites, ficam cantando Yesterday pelo resto da vida. Só para finalizar, escrevi tudo isso para dizer que líder tem que ter credibilidade, vocês caros leitores acham que o atual Presidente da Republica tem liderança para comandar esse País? A coerência de um político o faz respeitado independentemente de suas convicções. Mas nosso Presidente é incoerente com a pandemia, e agora está com ela ,com sua gestão, com o respeito as instituições, na verdade com tudo que deveria ser coerente.


Não vote! - em 01/07/20

Desprovido de assunto para artigo, pois já escrevi sobre o coronavirus que além de virar pandemia, está mudando os hábitos das pessoas, e tendo em vista a definição das próximas eleições para novembro, resolvi fazer um pedido ao caro leitor/eleitor sendo um ano de eleições municipais.

O pedido é para que não vote em quem oferece o impossível. Não vote em quem usa argumentos difíceis de entender e flexíveis para manipular. Não vote em sorriso fácil. Não vote em abraços que apertam como verdadeiros tentáculos. Não vote em quem ofereça tudo quando não restará mais nada da sua cidade, do seu país, da sua vida. Não vote em candidato sujão - como justificar amor pela cidade se nem os postes, as ruas, o silêncio, as praças são respeitados? Não vote em candidato que se vangloria só de ser experiente - a experiência não precisa ser proclamada, pois se o tempo de atuação da ''celebridade'' foi realmente útil, todos já sabem e não precisam ser lembrados.

As Comunidades Eclesiais de Base da antiga Teologia da Libertação foram as pioneiras nessa meritória tentativa de luta pelo voto consciente. Parece que a semente germinou. Hoje são muitas as organizações civis com cartilhas, corpo-a-corpo e muita atitude para evitar a irresponsável negociata da baixa-democracia: manter o voto no cabresto da religião, ou seita, ou parentesco, ou interesse mesquinho da vantagem. Esta é a grande eleição da encruzilhada paroquial.

Nunca as pressões econômicas estiveram tão claras. Nunca o nivelamento, à força, da ''conduta'' dos candidatos foi tão incisiva para ''evitar pânico'' nos mercados e soar quase como chantagem. Nunca a insegurança e a eminência de ruptura estiveram tão próximas. Daí a emergência do voto preciso e precioso.

Conduzir a escolha de cada um como o convite e a permissão que oferecemos ao candidato. Será ele o gerente da nossa cidade e os vereadores caberá a fiscalização. Será ele o escolhido pela nossa vontade ou imposto pela nossa omissão.

É duro chorar o voto derramado por longos anos. Pior ainda é ser traído na confiança depositada e permitir que tudo aconteça outra vez. Como este voto de agora deverá ser pensado e como nunca foi tão sagrado. Como o papel da mídia poderá ser decisivo se conseguir escapar do show da notícia (ou da burocrática cobertura de agendas, fofocas e baixarias) e ir um pouco além do rasteiro: chegar ao conteúdo mínimo capaz de mostrar caráter e valores humanos fora do discurso.

Não vote na mentira. É só comparar o que o candidato diz e como o candidato vive. É só ficar atento em como o candidato fala e o que o candidato faz. É só não aceitar tudo sem perguntar por quê.

Uma eleição pode parecer um espetáculo e, até seria bem-vinda a festa em um momento de afirmar a cidadania. Mas quem diverte geralmente detesta divergir. Quem entorpece recusa-se a discutir. Ganha no grito. Só o cidadão que se auto elegeu senhor da própria vida pode eleger pessoas livres para uma cidade e um país libertos.

Esta eleição confirmará nosso amadurecimento de escolha ou servirá para referendar que até as liberdades viraram um joguinho emocional de cartas remarcadas. Faça a diferença, não vote em quem dispensa. A verdade é o sal que tempera a ética. Sem este, aquela torna-se insossa e logo se deteriora.

No exercício da política, o desprezo pela verdade é ainda mais grave, pois frustra esperanças coletivas e abala a autoridade pública. Isto sem falar do plano maior, onde a verdade é um dos três frutos da luz divina.

Pense... faça a diferença.


Luzes e sombras - em 24/06/20

Carlos Alberto Di Franco - Professor de ética da comunicação em São Paulo e representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil

Jovens de classe média e média alta têm freqüentado o noticiário policial. Crimes, consumo e tráfico de drogas deixaram de ser uma marca registrada das favelas e da periferia das grandes cidades. O novo rosto crime, perverso e surpreendente, transita nos bares badalados, estuda nos colégios da moda e vive em elegantes condomínios fechados. O comportamento das gangues bem-nascidas, flagrado em inúmeras matérias, angustia o presente e ensombrece o futuro. O fenômeno, aparentemente incompreensível, é o reflexo lógico de uma montanha de equívocos.

O novo mapa da delinqüência não é fruto do acaso. É o resultado acabado da crise da família, da educação permissiva e do bombardeio de certa mídia que se empenha em apagar quaisquer vestígios de valores objetivos.Os pais da geração transgressora têm grande parcela de culpa. Choram os delitos que prosperaram no terreno fertilizado pelo egoísmo e pela omissão. Compensam a ausência com valores materiais. O delito é, frequentemente, um grito de carência afetiva.

Algumas teorias no campo da educação, cultivadas em escolas que renunciaram à missão de educar, estão apresentando seus resultados anti-sociais. Uma legião de desajustados, crescida à sombra do dogma da educação não-traumatizante, está mostrando sua cara. A despersonalização da culpa e o anonimato da responsabilidade, características da psicologia acovardada, estão gerando mauricinhos do crime.O saldo da educação permissiva é uma geração desnorteada, desfibrada, incapacitada para assumir seu papel na comunidade.

A formação do caráter, compatível com um ambiente de tolerância e autêntica liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. É a sístole e a diástole da história. A pena é que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio. Alguns setores da mídia, sobretudo a televisão, estão na outra ponta do problema. O culto à violência e a apresentação de aberrações num clima de normalidade são um convite diário à transgressão. Algumas matérias de comportamento, carregadas de frivolidade, transmitem uma falsa visão da felicidade.

Os conceitos de sacrifício e trabalho, pré-requisitos de uma vida digna, foram sendo substituídos pelo afã desmedido de dinheiro e pela glamourização da malandragem. O inchaço do ego e o emagrecimento da solidariedade estão na raiz de inúmeras patologias comportamentais.O fecho destas considerações não é pessimista. Os problemas existem, mas não esgotam toda a realidade.

Na verdade, outra juventude emerge dos escombros. Toda uma geração, perfilada em dados de várias pesquisas, está percorrendo um itinerário promissor. Notável é o entusiasmo dos adolescentes com inúmeras iniciativas no campo do voluntariado. O engajamento dos jovens na batalha da qualificação profissional é indiscutível. Há, de fato, um Brasil real que está muito distante da imagem apregoada pelos pessimistas de sempre.

Precisamos, não obstante a gravidade dos problemas, recuperar a auto-estima. A imprensa que denuncia cumpre um papel ético. Mas, ao mesmo tempo, não deve confundir independência com incapacidade de dar boas notícias. Nossa função não é antinada, mas a favor da informação verdadeira. Por isso, o texto que denuncia a cruel desenvoltura do banditismo bem-nascido é o mesmo que registra o outro lado: o da esperança iluminada.


Velhice e envelhecimento- em 17/06/20

Palavras de conteúdo e peso psicológico terríveis, sobre a mente humana, em particular do idoso que se acostumou a vê-la, ouvir e chegar. Envelhecido e sem condições físicas de desfrutar na sua totalidade da recompensa, já se considera velho, e essa velhice cria-lhe problemas diuturnos e crescentes.

Outro dia fui abordado por um amigo de longas datas, com esta pergunta: Você se considera um velho? Pasmei por alguns instantes e o respondi que não, visto que a vida é linda e a velhice não é coisa inesperada é o resultado das mais diversas fases da sua existência desde o nascimento, crescimento, até chegar à idade adulta, mesmo se notando na nossa face, todas as manhãs, sinais inexoráveis da marcha do tempo refletido através de um espelho.

No meu conceito de velhice, assim me expresso: "Você é velho quando se renova a cada dia, quando tem projetos e olhos postos no horizonte, quando seu calendário tem manhãs e quando tem as rugas marcadas pelo sorriso".

Assistimos, nos dias atuais, ao homem que, no maior dos desafios, civilizou-se, e, pela evolução do seu saber, conhece a si mesmo. Dentro dos seus conhecimentos, conseguiu dominar os fenômenos da natureza, culminando com a conquista do espaço sideral, controle das doenças após estudos das mais diversas áreas do corpo humano, chegando a um limiar, onde transplantes de órgãos têm salvado muitas vidas.

A descoberta do genoma humano é o máximo dessas descobertas, quando é possível se conhecer o que passa no interior das células que formam nosso universo corporal. Com algumas exceções como o câncer e o novo Coronavirus.

Mesmo assim, esse homem sábio de conhecimento, desgraçadamente ainda sofre ao invés de regozijar-se na última fase da vida cheia de problemas diários pelo estresse que é acometido, vivendo um calvário de tensão imposto por uma sociedade mercantilista, ao inverso dos nosso antepassados que formavam populações isoladas e que sobreviviam por meio de hábitos saudáveis e por isso viviam mais esperando a morte dentro de um limiar de tolerância e não culminando com estado mórbido, como se vê na geração nossa.

Enfim, viver é envelhecer. A cada instante insensível e irreversivelmente à ação do tempo vai se fazendo sentir sobre o organismo humano, construído na época da concepção, do crescimento e do desenvolvimento. O tempo passa pela ação deletéria a partir de certa idade. O efeito é o encurtamento da existência a não ser que medidas preventivas sejam tomadas, se não para evitar tal desfecho, pelo menos para ampliar a expectativa de vida.



Liberdade- em 10/06/20

Nascemos, crescemos e nos tornamos adultos deitados em berço esplêndido - ainda que a testemunhar, parir e gestar um mar de lama que nem esse de agora e de muitos e muitos de tempos. Foram vários esses mares, dois deles, os mais conhecidos e fantásticos, levaram um presidente ao suicídio e outro ao impeachment. Outros foram tragados pelas ondas do mar e pela horda dos capetas.

Até hoje, não vejo nenhum governo que tenha escapado das gozações das CPIs: Sarney escapou de uma, a da corrupção também. Fernando Henrique se atolou na das estatais. Em Minas, Aécio Neves mandou às favas a da saúde. Lula querendo esconder a dos Correios na base da pressão: perdeu no plenário, mas colocou uma apedeuta que nem ele na presidência. Foi isso o que fez outro bobo, o Eduardo Suplicy, a chorar, chorar... Chorou, chorou, mas pediu a investigação. Pra quê?

Ainda não tinham chegado aqui os meus antepassados portugueses e, pra nós, a Coroa já era aquela urupemba: em se plantando, tudo dá; e se tudo dá, de um tudo venha a nós, ao nosso Reino. Claro, em pinico de ouro não se conhece Rei mijando fora. Lembrar nem precisa, podem crer, até padres e santos se arretaram. No púlpito e nos altares cochicharam uns ao ouvido dos outros: "Senhor Deus, misericórdia".

Um dia, está completando mais de 350 anos, a imagem de Nossa Senhora ajeitou na orelha o manto sagrado e esbugalhou os olhos pra melhor ouvir o sermão do quase baiano Antônio Vieira. O famoso padre ocupara a tribuna de Deus numa capela de São Luís do Maranhão pra condenar a corrupção da Corte e os escândalos do governo. Da largura do mar o contrabando de ouro e pau-brasil, mais alto até do que o Pascoal, o monte das safadezas. Essas palavras o levaram ao Tribunal da Santa Inquisição, dois anos e quatro meses de cadeia: "O que se tira do Brasil, tira-se ao Brasil. O Brasil dá, Portugal leva. Nem os Reis poderão ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao Inferno sem levar consigo os Reis. Os seus príncipes são comparsas dos ladrões".

Tão bom e tão santo esse Vieira, chegou ele a propor um acordo com os invasores holandeses: desde que haja paz e não se mate ou esfole mais tanto índio, permaneça Nassau em Pernambuco. Essa, sei direito não, talvez a primeira manifestação separatista brasileira. Pernambuco era quase da Bahia pra cima, até onde findassem as águas do São Francisco. O tal do cearense inventou, faz pouco, transformar em rios terrenos que não davam nada. A não ser falatórios. Ia dizendo, queria o Padre Vieira: Nordeste dos holandeses o resto, lá pra baixo, dos portugueses. Antes vingasse a ira sagrada.

Depois, ocorreu aquele erro de português no latim de Tiradentes, descoberto por Vinicius de Morais. O correto, segundo o poetão brasileiro, seria "Liberta que serás também" em vez de liberdade ainda que tarde. Liberdade, que é bom, quer dizer decência. E o fumo continuou entrando. Seguiram-se os buruçus, duzentos anos de guerra. As margens do Ipiranga, lá em baixo, em São Paulo, o grito de enganação. Há quem tenha escutado melhor, mas a História não conta: o grito deveria ser liberdade e morte. Morte houve, independência que é bom...Uma guerra leva a outras, outras tantas. Liberdade quer dizer decência, mas o fumo entra, entra e nós nada.

Em 1930, escangalhou-se a Velha República, a dos Carcomidos. Disseram, repetindo o padre Vieira: "Os presidentes não irão ao Paraíso sem levar consigo os ladrões. Nem os ladrões chegarão ao Inferno sem levar consigo os presidentes". O caminho que dá pro céu pode levar ao inferno, mas o fumo entrando.As CPIs da Câmara chegarão ao Paraíso levando os presidentes de agora e os que já se foram? E a máfia ao inferno carregando os denunciantes? Domingo, eu conto mais uns restinhos de outras sacanagens, inclusive a de Lula, eleito pelo Greenpeace como "Prêmio Motosserra de Ouro", dado à personalidade brasileira cujo talento, ação ou inação, foram decisivos para acelerar a destruição da Amazônia.



O que a Covid-19 trouxe - em 03/06/20

Desde que este mundo é mundo, que vivemos um cotidiano dos contrastes. É o mundo do silêncio e do som, da luz e da escuridão, do bonito e do feio, da fartura e da escassez, do sim e do não. O mundo das alegrias e das tristezas. Em uma sociedade de fast things, onde o que importa é a praticidade e os resultados, as coisas têm que acontecer de qualquer maneira; sendo irrelevante o indivíduo; com suas carências, frustrações, derrotas, castelos desmantelados, angústias, tristezas, vitórias, sonhos, alegrias... A sociedade cobra resultados, o indivíduo tem que vencer, tem Desde que parecer. O indivíduo tem que ter. Com todo este redemoinho, ao longo da rodovida, muitas coisas vão ficando no acostamento, e assim, são deixadas para trás.

Em nossos dias, vivenciamos uma triste e perigosa banalização dos sentimentos, mesmo com essa pandemia. As relações são efêmeras, voláteis. Todo mundo sorri, canta, pula, bebe, festeja. As pessoas parecem ser alegres. Fundamentam sua alegria em algumas poucas horas de divertimento, em posição social, em bens materiais, em conta bancária e futilidades. Alegria alicerçada em gesso, deste modo, sob a menor pressão, finda em completo desmoronamento e em uma profunda tristeza. Alegria é definida no Aurélio como "qualidade ou estado de quem tem prazer de viver." Então, a questão a ser respondida é: em que está fundamentado o meu prazer de viver? Em que está fundamentada a minha alegria? No novo emprego que arranjei? No carro bonito que enfim pude adquirir? No apartamento mais amplo que tanto lutei para comprar? Na casa de praia ou de campo? Em ter conseguido enfim, fazer parte da "high society"? Em uma conta bancária, fruto de anos de juntar, juntar e juntar? Em poder beber todas no final de semana com aqueles amigos de copo e de sempre?

Fala-se que ao invés de Produto Interno Bruto (PIB), uma nação que se preze deveria estar preocupada com a Felicidade Interna Bruta (FIB). Este índice mede "portanto, a quantidade diária de sorrisos..." que as pessoas conseguem cometer. Vivenciamos pessoas que sobrevivem na futilidade. Indivíduo inconsistentes, sem profundidade. Quando aqueles momentos pseudo-felizes  , com essa pandemia, escorrerem entre os dedos do tempo, ouvir-se-á bater à porta do coração a angústia, a tristeza, o vazio, a alma combalida e até a depressão. E os sintomas apareceram com o passar do tempo, uma indescritível sensação do não construído, do equívoco vivido.

Deste modo, assistimos a uma sociedade doente, manca, apodrecida; marcada por perspectivas obscuras e valores inconsistentes. Despojados do que temos, livremo-nos de sentimentos fúteis que em nada contribuem para nosso processo de crescimento como ser humano e como cidadão. Como disse a poeta "Se soubesse compor uma ode, seria à alegria, pois ela tem um dom maravilhoso que é o de multiplicar-se ao ser dividida". "O direito a uma morte digna não pode significar o direito de dispor total e absolutamente da vida humana, até porque esse arbítrio contribuiria para difundir na sociedade uma cultura da morte". Assim, a ação ou a omissão com que se entrega a morte um ser humano inocente, com o objetivo de eliminar o sofrimento será sempre, até certo ponto, inaceitável.


Insanidade governamental - Em 27/05/20

Caros leitores, vejo as manifestações pro e contra Bolsonaro. O que mais me impressionou na reunião que foi mostrada no vídeo, foi o conjunto da obra. Palavrões e delírios de ministros, escárnio e desrespeito com a Pátria, no momento que o país atravessa o pior momento da pandemia. Em nenhum momento o Presidente fala no número de infectados e de mortos. Falas coléricas, querendo salvar somente sua pele e de sua família. Confesso que sou totalmente contra o Presidente, e cada um tem o direito de manifestar seu desagrado ou aplauso ao governante de plantão. Certamente, jamais será pelo mecanismo criado pelos institutos de pesquisa, cujos questionários são às vezes tão herméticos e confusos a impedir o inquirido de uma resposta satisfatória.

A vaia não tem regente, o som brota da alma do povo. O governante ou líder político que tem formação democrática tem obrigação de receber estas manifestações, tanto as de desagrado quando as de regozijo, com o espírito aberto para poder retirar delas as lições a que se referiu Mirabeau. O panelaço que é feito em todo o Brasil contra o Presidente temos que ir nos acostumando pela sua repetição quase automática em qualquer situação em que o mandatário faz suas infelizes declarações.

Quando é apanhado de surpresa pelo insólito da manifestação popular, gravada com o timbre da espontaneidade e até mesmo do deboche que sua sensibilidade deve ter acusado, o presidente reage mal-humorado, em demonstração própria de seu estilo autoritário e não liberal. O presidente é homem de estrela brilhante e dotado de mediana inteligência e gosto pelo poder. Acostumado aos aplausos de claques organizadas as manifestações "fora Bolsonaro" reproduzem o que está latente no inconsciente coletivo com relação ao descuido do governo com aspectos moralizadores da administração, às recorrentes manifestações de desleixo e desatenção presidencial para com repetidas lesões à ética e sobretudo ao autoritarismo com que vem caminhando sua gestão.

Tudo isto foi se assentando vagarosamente no espírito de cada cidadão, especialmente naqueles nascidos na formosa e irredenta terra carioca, tão irreverente na crítica quanto generosa no aplauso. Seria o tempo e a hora de permitir-lhe profundas reflexões sobre o rumo de seu governo, do qual precisa urgentemente desvencilhar-se do autoritarismo e da ideia de que um Presidente da República manda tudo e em todos, sob pena de ter que amargar um processo de afastamento do governo.

Os políticos brasileiros, de uma maneira geral, estão decaídos na estima pública. Não será necessário gastar tinta em dizer o porquê desta grave crise que assola o Congresso, os partidos e os governantes em geral. Tal e qual para Bolsonaro, a vaia e o panelaço, é a grande lição dos políticos e governantes. Que todos saibam retirar dela os preciosos ensinamentos que tão generosamente lhes foram ofertados.

Mas por fim, precisamos dar um basta nessa insanidade governamental que se mistura com o ativismo fanatizado da extrema direita e com o silêncio dos democratas, ouso dizer que a retirada desse Presidente é necessária para que se evite o abismo.



Ressignificar - em 20/05/2020

Sempre gostei dessa palavra, principalmente quando ela quer dizer dar novo sentido a algo já existente. Há momentos na vida em que é preciso começar tudo do zero. Em contrapartida, há outros nos quais basta um olhar apurado para ressignificar aquilo que já existe e ganhar novos sentidos e possibilidades. Em meio a várias reflexões sobre o impacto de uma pandemia (totalmente inédita em minha geração) e os resultados emocionais secundários a ela na população geral, me foi recomendado uma leitura bastante interessante, que veio a complementar e ampliar o leque de possibilidades e reações manifestadas no atual momento.

Falo por mim, vivo sozinho em um apartamento sem cachorro e sem ninguém para conversar, não saio, e aproveito para ler e ver filmes. Dentro de leituras que fiz sobre essa pandemia me chamou atenção o texto de Jennifer Cleland, nomeado "Resilience or resistance: A personal responsável pelo COVID-19", aborda a escrita autobiográfica com um dos recursos para expor e validar vivências incompreensíveis a nível consciente, ampliando o contato do autor e do leitor com conteúdos significativos, porém não racionalizados durante a vivência em si. A partir desta proposta, seria possível entrar em contato com nossos próprios mecanismos de defesa, e olhar de frente pensamentos, comportamentos e decisões durante essa fase tão caótica, de modo mais refletido e coerente, ressignificando e redirecionando nossas ações.

Todo esse processo vem de encontro à realidade vivida por cada um de nós desde o início da pandemia de Covid-19, que tirou da zona de conforto a sociedade dos cinco continentes do planeta. Apesar de todos os mecanismos de defesa disponíveis em nossa psiqué, neste momento é totalmente impossível não se sentir atingido ou influenciado por uma situação que coloca em cheque nossa saúde física, mental, economia mundial e sobrevivência.

Abordando de modo mais simples e minucioso as reações psíquicas neste cenário, inicialmente poderíamos citar a negação, mecanismo de defesa básico e primitivo presente em qualquer circunstância que ameace a homeostase mental do ser humano. A própria autora do texto supracitado, menciona seu comportamento inicialmente evitativo, de não buscar e nem se apropriar de informações a respeito da situação mundial. Tal comportamento inconsciente advém de nossa necessidade de manter o distanciamento emocional de uma situação ameaçadora. É como desligássemos a televisão na hora que vai passar o numero de infectados e de óbitos naquele dia e o acumulado. Sabemos que ela existe, mas nos mantemos distantes afetivamente para que não se torne de fato "real" e presente em nossas vidas.

Infelizmente, a negação, assim como a esquiva não conseguem perdurar por longos períodos, ainda mais quando somos alvejados insistentemente com informações sobre o fato que se tenta ignorar. Tanto a imposição social do assunto como as consequências ocasionadas por ele, confrontam em tempo real os indivíduos, exigindo condutas mais racionais e adaptativas. No caso dos profissionais da saúde, de modo ainda mais pessoal, a negação deixa de se sustentar, a partir do momento que algum evento pessoalmente significativo confronta a realidade. Um bom exemplo, é a chegada dos primeiros pacientes, a morte decorrente da doença, a internação de colegas de trabalho contaminados com o vírus... enfim, não há como se sustentar na negação quando os efeitos da realidade estão por toda parte.

O caminho psíquico mais comum quando a negação não nos é mais possível, é a revolta. Entramos em contato com a realidade imposta, porém de modo a nos enraivecer frente às perdas secundárias a ela. Perdemos a liberdade, a autonomia, a segurança fictícia que fantasiamos durante toda a vida. Perdemos o equilíbrio financeiro independentemente de nossa condição social, perdemos nossa "certeza" ilusória de controlar nossas próprias vidas, perdemos inclusive a zona de conforto de nossas funções profissionais, atualmente adaptadas à pandemia. A revolta, é a nossa primeira constatação da realidade imposta, e de suas consequências iniciais em nossas vidas. É o período inicial de quebra da homeostase habitual, que nos leva a enxergar predominantemente o aspecto negativo, as perdas, incitando ainda sentimentos de culpa e medo, externalizados de modo irrefletido e pouco adaptativo.

Mais a frente, em um período mais maduro do processo de assimilação e enfrentamento da realidade, a revolta vai perdendo sua utilidade. O extravasamento de emoções negativas e raiva já não aliviam mais. A consciência dos fatos vai tornando-se mais plena, e abre-se espaço para a vivência emocional do caos.

Chega-se o tempo de introspecção, manifestação da tristeza, vivência de humor mais deprimido, e isso é confundido por muitas pessoas com quadros de depressão ou desistência. A fase depressiva na vivência da Covid-19, não só é esperada, como necessária. Entretanto é essencial compreender que cada um de nós a viverá por um motivo, e com uma visão de problema diferente.


Pichelingues - em 13/05/2020

Não se assustem caros e caras leitoras, hoje estou para esculhambar, em termos de oração. Não aguento mais essa corja de corruptos que tiram dinheiro até de quem está morrendo. Então malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, trampistas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a pandemia vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, marandubas, fraudes, lérias e aldravices se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarreias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, prostitutas, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira. Malditos sejais, ladrões, gatunos, pichelingues, unhantes, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo. Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e contaminem com as mais escabrosas doenças e repugnantes furúnculos! Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas barbas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas como a do Marinho, naquele gesto eternizado na TV, até essa doença nacional chamada Brasília, onde vos enquistais há quarenta anos, no revezamento sinistro de negociarrões com empresas fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem de todas os mínimos picuás dos miseráveis. Malditas sejam as caras-de-pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que os protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão por vossa ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca-do-boi de nossas prisões! Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina pública, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o país de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos! Malditas sejam também as "consciências virginais", as mentes "puras"; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não-culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se "escandalizam" com os horrores, mas nada fazem. Maldita seja também a indiferença narcisista de Bolsonaro, déspota que vive da herança bendita que recebeu como Presidente, e não mete a cara para mudar a legislação das licitações, das concorrências públicas, criando métodos de transparência legal à vista da população, pois ele não quer fazer nem reformas nem marola e perder seu sossego. Que gordas sanguessugas e carrapatos carcomam seus bonés, barretes, toucas e infectem sua barriga furada estadista deslumbrado.

Só nos resta isso: maldizer. Portanto: que a pandemia vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre.


A escolha de Sofia - em 06/05/2020

Caros leitores, volto a insistir em tema já tão debatido complexo e comentado por mim mesmo neste espaço, sobre a decisão de um médico ao ter que optar por um idoso ou um jovem para dar o aparelho que salvará a vida de um somente, nesta pandemia. O meu amigo Antônio Vilela, já fez uma abordagem preciosa sobre o tema, bem como muitos neste país e neste mundo afora já se manifestaram sobre o caso.

Queria lembrar que o fato gerador do título do artigo, para quem não viu o filme nem leu o livro A escolha de Sofia, é um filme que parece narrar o Nazismo, uma vez que Sofia foi levada ao campo de concentração e, após as cenas iniciais, a narrativa volta-se ao Nazismo. A escolha de Sofia se dá no campo de concentração nazista, onde ela tem que optar pela vida de um dos seus filhos. O filme não fala necessariamente sobre a escolha, mas sobre a culpa e a profundidade exigida de cada ato, mesmo os impensáveis.

No caso presente da pandemia não parece ser que a idade seja um critério legal ou moral admissível para decidir quem vive ou quem morre. Em 14 de março passado, o jornal inglês The Telegraph veiculou a seguinte matéria: "Italianos com mais de 80 anos 'serão deixados para morrer' em meio ao surto de coronavírus no país ".

O Departamento de Proteção Civil da região do Piemonte, uma das mais afetadas, elaborou um documento determinando que pacientes com mais de 80 anos ou com a saúde muito debilitada não serão levados às UTIs, já sobrecarregadas. Com isso, não terão acesso a um ventilador mecânico, ficando à própria sorte ou a cuidados paliativos. A justificativa é que o crescimento desenfreado da epidemia levou a um desequilíbrio entre as necessidades clínicas das vítimas do COVID-19 e os recursos disponíveis.

Segundo o documento, nessa situação excepcional "os hospitais serão forçados a focar nos casos em que a razão custo/benefício é mais favorável ao tratamento clínico ". Ou seja, quando houver maior chance de sobrevivência. Um típico argumento de reserva do possível e da melhor alocação de recursos escassos em uma crise.

Há chance de vivermos algo assim no Brasil? Em outras palavras, se chegarmos a esse ponto, o SUS poderá escolher entre "quem vive e quem morre" exclusivamente com base na idade? E mais: o argumento da reserva do possível é uma boa justificativa para assumir a idade como critério explícito de admissão (ou não) em unidades de terapia intensiva? Spoiler: não é.

A saúde é direito de todos e dever do Poder Público, segundo os artigos 6º e 196 da Constituição Federal. Ainda, o serviço de saúde oferecido pelo ente público deve assegurar "atendimento integral", o que inclui o tratamento intensivo, conforme o artigo 198, inciso II, da Constituição. Então como os médicos intensivistas do SUS escolherão quem vai para UTI ou não? Existe mais de um modelo de escolha no mundo hoje. Ou seja, quanto maior a probabilidade de recuperação do paciente, maior prioridade ele terá. Porém, a resolução não diz como calcular essa probabilidade. Ou melhor, não indica quais variáveis devem ser levadas em conta para calculá-la, deixando a critério do médico.

Assim como a maioria dos fenômenos biológicos, as taxas de sobrevida são afetadas pela idade. Nesse caso, a idade é o que os estatísticos chamam de proxy: uma variável que não é em si diretamente relevante, mas que serve no lugar de uma variável mais difícil de mensurar. Presume-se que a idade guarda relação de pertinência com certo estado de saúde, o que por sua vez pode indicar a probabilidade de recuperação. Porém, a idade é uma variável constitutiva, mas não determinante dessa probabilidade.

Não são só os idosos que estão no grupo de risco do COVID-19. Também estão diabéticos, hipertensos, quem tem insuficiência renal crônica, doença respiratória crônica ou doença cardiovascular. Esses fatores podem ser proxys mais precisos do que a idade em si para calcular a probabilidade de recuperação. Pode ser que um idoso saudável tenha mais chances de recuperação do que um jovem cardíaco ou diabético. Com o que chegamos à nossa resposta: se a crise do COVID-19 piorar, o SUS não poderá deixar de tratar alguém nas UTIs apenas com base na idade. Outros fatores deverão ser levados em conta na triagem. Tanto é assim que o artigo 9º da resolução do CFM dispõe que as decisões sobre admissão em UTI deverão ser feitas de forma explícita, sem discriminação por questões de idade.

Resta a questão de fundo: se a lei permitir a adoção exclusiva e explícita da idade como critério de admissão ou não nas UTIs, seria aceitável? Não, não seria. Mesmo que "legal" segundo a lei vigente, esse critério seria discriminatório no pior sentido do termo. Eis o princípio básico: todas as pessoas têm o mesmo valor intrínseco e assim temos de tratá-las com igual respeito e consideração. Esse valor não varia de acordo com suas características, tais como idade, gênero e raça, porque a dignidade não vem em graus.

Tratar pessoas de modo diferente passa a ser problemático quando, em determinados contextos sociais, atenta contra a condição dessas pessoas enquanto dignas de igual respeito. É o processo de estigmatização, por exemplo: pessoas idosas como mais próximas da morte, mais fracas, menos importantes. Aqui surge o problema. A idade não é um critério legal ou moral admissível para decidir entre quem vive e quem morre. O critério adotado hoje pelo SUS é internacionalmente reconhecido e obedece a reserva do possível. Decidir prioridades com base em critérios clínicos em princípio não configura uma discriminação degradante.

Não há tratamento intensivo para todos, será inevitável fazer escolhas. Mas a idade não poderá ser adotada de forma explícita e exclusiva, como na região do Piemonte na Itália, pois assim proíbe a nossa lei. A pessoa não perde seu valor com a idade. Seja qual for o cenário brasileiro nos próximos dias, o SUS não poderá realizar a escolha de Sofia. Se você não pegou a referência, aproveite a quarentena e veja o filme. Sem sair de casa, claro.


Boquirrotos - Em 29/04/20

As palavras ditas por Sergio Moro na coletiva de saída do Ministério da Justiça, e logo depois as palavras proferidas por Jair Bolsonaro, retrucando o que Sergio Moro havia dito e acrescentando que Moro havia negociado sua ida para o STF são motivo de investigação. Escrita ou oralmente expressa, a palavra tem ampla e significativa importância, por isso de tal forma compromete e responsabiliza quem a profere que, muitas vezes, exige-se a confirmação para não restar a mínima dúvida acerca do que foi publicamente afirmado.

O cidadão comum, a autoridade de qualquer natureza , todos respondem de alguma forma pelo que dizem, daí a exigível discrição, a continência da linguagem, especialmente em torno do que se deve expressar quando está em causa o interesse comum, e chega a ser uma forma de sabedoria dizer apenas o necessário, no momento certo. Daqueles que por dever de ofício são quase obrigados a falar em público, muitos evitam o improviso, ou para não omitir fatos e nomes, ou para, medindo as palavras, não cometer excessos, enfim, para preservar a autoridade do cargo no qual estão investidos, imunizando-se a cobranças.

O noticiário através da televisão obriga a ouvir, ou o que não se quer, ou o que não se deve, sobretudo quando choca, a ponto de, tão estarrecedora a notícia, preferir-se aguardar o jornal do dia seguinte para uma necessária conferência, para a possível confirmação do que foi dito por determinada autoridade.

O sr. presidente da República, a afirmar sem medo que ele é a Constituição, que ele é quem nomeia o Diretor da Policia Federal, que ele quer relatórios diários do que está acontecendo na Policia Federal. Está visto que esse destempero, partindo de quem está presidente, compromete e muito, porque, de qualquer ângulo que se queira enxergar, é o reconhecimento público de que o Senhor Presidente não quer ninguém que lhe faça sombra, ou que atue com estrito rigor, a Constituição não é felizmente o Presidente da República, visto que a Constituição é do Brasil e não do governante de plantão.

Os brasileiros orgulham-se de ostentar uma Constituição Federal tão esperada e admirada, a ponto de ser adjetivada de Constituição Cidadã. O Pronunciamento do Senhor Presidente foi uma lástima, falar em "escrotização", colocar para o País inteiro a intimidade de mulheres que moram em seu condomínio no Rio ao dizer que seu filho já pegou metade delas? E que tem parentes que fazem falsificação de documentos?

M as e o senhor Sergio Moro, que de herói não tem nada, basta lembrar que determinou a quebra de sigilo telefônico de algumas pessoas, que ainda estavam garantidas pela Constituição, Moro quis preservar seu capital político, pulou fora do barco não porque o Diretor da PF foi exonerado, mas para não se queimar, jogou as mensagens do Presidente no ventilador, não deixa de ser um traidor, e olhar sua biografia lá na frente como provável sucessor de Bolsonaro.

Evidente que nenhum dos dois tem escrúpulos. Nenhum dos dois respeita a Constituição. Nenhum dos dois tem qualquer pudor de violar normas e o Estado de Direito para satisfazer interesses políticos ou pessoais. São dois boquirrotos. É hora de exigirmos a verdade, se o ex ministro mentiu, que seja punido, em plena crise de uma pandemia que veio não como um vírus qualquer, e sim para talvez recuperar nossos valores básicos, e acabar com os boquirrotos, mentirosos e escroques. Sonhar ainda não é tributável.


Alienados - Em 22/04/20

Caros leitores(a) sou daqueles que acreditam que são as força opostas que impulsionam a roda d'água do universo. Para mim, continuar vivo é manter verde a árvore do apaixonar-se e ter sempre uma brasa de indignação faiscando. Em outras palavras, cultivar o amor e a repulsa, para não usar a palavra ódio, forte demais para nosso imaginário. Quem não se apaixona e nem sente indignação está morto, ou é medíocre, que é uma forma de estar morto sem passar pelos ritos necessários. O medíocre, fingindo conformidade com o curso das coisas, engana a si mesmo e aos outros. É fácil descobri-lo. É aquele sujeito que, mesmo ante a guerra, proclama o inconsistente mote "faz parte". Como se fôssemos condenados a um destino inexorável, ditado por algum exótico poder extra história.

Além do medíocre, existe também outro tipo de morto-vivo. Chamarei de alienado. É aquele que, embora tenha paixão e indignação, é por causa ou personagem alheios, tomados como seus por falta de coragem, ou para comungar da aparente grandeza dos arautos. O tipo alienado sustenta seu discurso no discurso dos outros. "Você viu o que o fulano falou?" "A Revista X defende..." "A moça do telejornal anunciou..." Como se o nome de alguém ou de algo, por si só, avalizasse verdades absolutas para todos os cérebros.

Ante a guerra que travamos no momento contra o Coronavirus, é muito fácil distinguir os homens vivos. Há muitos por aí apaixonados e outros tantos indignados. Há, também, os medíocres, embora em menor número. A guerra é uma situação-limite na qual o amor e a indignação podem ser admirados na transparência de suas contraditórias forças. Na guerra, a vida é a juíza da história. Ao menos, deviam deixá-la no discernimento de todas as crises. Porque a vida é a fundadora de todas as escolhas, condição sine qua non para todo argumento. Sob seu olhar, como quando ingerimos um contraste daqueles para radiografias viscerais, podemos enxergar os homens de grandes causas e diferenciá-los dos medíocres e alienados.

Fico impressionado com a cara de pau de um médico que fez o juramento de Hipócrates, decidir quem vai morrer, se é o velho ou o jovem, se é o pobre ou o rico, e isso foi dito por vários médicos nessa pandemia dentro das UTI's, principalmente pelo novo Ministro da Saúde, quando disse em meio a um discurso: eu tenho duas pessoas um idoso e um adolescente, só que esse adolescente vai ter a vida inteira pela frente e a outra o idoso, pode estar no final da vida, qual vai ser a escolha? Idiota, acha que porque é idoso tem que morrer. Nenhum argumento justificará a morte, pois ela inviabiliza qualquer possibilidade de reavaliação dos rumos escolhidos.

A guerra/morte me causa indignação. A paz/vida me apaixona. Não digam que fiz uma opção por algum povo, por alguma personagem ou por um sistema político-econômico. Minha declaração também não é uma mostra de altruísmo, nem de grandeza de espírito. Sou é muito egoísta. Só estou defendendo aqui minha vida, com ideias, unhas e dentes, sendo "unhas e dentes" apenas força de expressão.

Quero amanhã de manhã, e nas manhãs que se seguirem, poder estar vivo para apaixonar-me pelas estrelas e indignar-me com as péssimas músicas sertanejas que fazem sucesso, coisas triviais. Como sei que vou morrer de qualquer jeito, pretendo seja por causa natural. Causa natural eu chamo aquela que nos incendeia em profunda indignação, mas contra a qual não há nada a ser feito pelos homens. O que não é, absolutamente, o caso dessa guerra.


Sabedoria - Em 15/04/202

Qualquer experiência que se tenha com esse Coronavirus, é valiosa. E hoje não vou escrever sobre o vírus especificamente, mas como a faixa etária foi colocada para a absorção do vírus, cabe uma observação. E não é porque um idoso de 99 anos, o ex-integrante da Força Expedicionária Brasileira (FEB) Ermando Piveta, recebeu alta do Hospital das Forças Armadas (HFA), na capital federal, após internação por covid-19. Ficou explícito que diferentes relações praticadas durante a vida são críticas, em distintas situações.

As estatísticas comprovam que não são só os que têm mais de sessenta anos que estão sujeitos a ficar em estado crítico. No Oriente prevalece a sabedoria oriental, segundo a qual o idoso é personagem central da cultura e da sociedade. Responsável pela consolidação da família, contribui fortemente para a formação do jovem. Nos países de tradições inexpugnáveis revelou-se imperiosa a ação governamental estabelecendo diretrizes de bem-estar, acesso a serviços de saúde e combate à discriminação de idade. De modo que as pessoas idosas se mantenham como participantes comuns do desenvolvimento e nunca como espectadores na sociedade em que vivem, à qual dedicaram todas ao invés de considerá-los descortinando novas perspectivas.

Mas os jovens não são algozes. E sim vítimas de uma civilização impiedosa e esmagadora. Eles, no auge da força, beleza física, esperança e ímpeto, vivem um mundo letífero, arriscado e hostil. Somos um país jovem. Estima-se cerca de 40 milhões de adolescentes na faixa de 12 a 20 anos, aproximadamente. Ser jovem é um risco calculado. A proteção e a participação dos pais devem ser estabelecidas mais do que nunca para uma juventude saudável, progressista, inteligente e bem-sucedida.

Demorei muito tempo para ter a certeza de que a paz de espírito não tem preço e que a felicidade plena nada tem a ver com vícios e/ou riquezas. O maior patrimônio que o homem constrói na vida é, sem nenhuma dúvida, o equilíbrio. Sem o equilíbrio pouco ou nada o homem fará na vida. Uma vida equilibrada pode surpreender até os mais céticos quando conseguem chegar a esse estágio. da proposta dos relacionamentos.

Os casais se apaixonam e desapaixonam diversas vezes durante o relacionamento, pois se apaixonados ficassem muito tempo, enlouqueceriam devido à cumplicidade. Esses moços de hoje em dia, possuem visão imediatista, e acabam desperdiçando ótimas oportunidades de construir alicerces para uma vida feliz.

Se pudesse voltar ao tempo, priorizaria infinitamente a busca do equilíbrio a qualquer outra coisa. Queria eu ter lido e escrito essas linhas quando nos meus tempos de moço. E lembrem, moços, essa onda que veio para dizimar alguns seres humanos não escolheu só os mais idosos e mais experientes, mas talvez, aqueles céticos quanto ao mundo que vivemos arriscado e hostil.

Na sociedade ideal, evocada por Simone de Beauvoir, não existiria velhice. Esta seria uma fase da existência diferente da juventude e da maturidade, dotada de equilíbrio próprio ofertando uma ampla gama de possibilidades. No Ocidente, a juventude é superestimada em vários sentidos. Em determinados casos, o jovem não encontra respaldo em si para a solução dos grandes problemas da vida, pois seu ego não está perfeitamente estruturado. Às vezes, indo buscar nas drogas o auxílio ilícito para sua existência.

Os conhecimentos são imensuráveis, frutos de prodigiosa imaginação. Expurgam costumes e conceitos. Contestam os pais, combatem a família. Quiseram criar um mundo próprio, fanático, com regras especiais. Mas tudo isso é para contestar que mesmo com o organismo mais debilitado não são apenas os idosos que estão expostos a essa pandemia, todos estão.


Solidariedade - Em 08/04/2020

Infelizmente não podemos fugir do assunto do coronavirus, mas tentarei neste artigo dar uma outra tonalidade a essa pandemia. Fica claro que ao final de tudo isso, porque tudo passa, o mundo será diferente, se não for pelo menos para saber lavar as mãos, será pela solidariedade muito mais latente. Segundo consagrados especialistas em desenvolvimento profissional, no final das próximas duas décadas só existirão dois tipos de profissionais: os rápidos e os mortos.

Quem deseja manter sua trabalhabilidade afiada reconhece que a permanência, a mutação são contrários inseparáveis, como já apregoava Confúcio, nascido no ano 551 antes de Cristo, que apontava cinco qualidades para quem desejasse ser bom profissional: gentil sem aceitar subornos, trabalhar ao lado do povo sem dar motivos para ressentimentos, possuir ambições sem ser avarento, ter dignidade sem orgulho indevido e inspirar respeito sem exercitar a crueldade. Com tais predicados, todo ser humano deveria, segundo ainda Confúcio, "estudar como se jamais fosse aprender, como se tivesse medo de perder o que deseja aprender".

A era dessa pandemia, é bem verdade, fez emergir energias ocultas, ampliando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperança sadia. Ações levianas e devassas são cometidas pelos que se dizem inclusive cristãos, cada um desejando puxar os óbolos para suas sacolinhas, às escondidas, como se Deus estivesse morto, mortinho da silva.

Como consequência, a evolução tecnológica, fantástica sem ser global, ampliou desesperos regionais, gerando indiferenças dos impérios econômicos, quase já erradicando do cotidiano primeiromundista o vocábulo solidariedade. É preciso que um a um todos os indivíduos acordem para que juntos solidifiquem o concreto que substancia a solidariedade, que até então reside unicamente nas idealizações de patamares sociológicos.

Não se trata aqui de caridade ou filantropia, mas de solidariedade pura, complexa, acolhedora da necessária mudança paradigmática dessa exposta realidade doentia. Por meio da consciência da coletividade, sua principal arma, incidirá na mente e no coração do homem a relevância deste enquanto ser social, ou seja, a sua importância enquanto célula fundamentalmente agregável do organismo social.

O que acontece com a busca dos aspiradores artificiais é sintoma que ultrapassa e muito as fronteiras de uma loucura exclusivamente individual. No mais, é introjetar com maior coragem a sabedoria explicitada por Miguel Falabella, ator e dramaturgo da Rede Globo: "De uns tempos para cá, comecei a perceber que há uma geografia fascinante no outro. Sempre. A gente não dá muita atenção, porque não temos tempo, não abrimos mão de certas prioridades, não paramos para olhar no espelho, que dirá o olho do próximo! Mas é, igualmente, um jogo fascinante, esse de descobrir gente e seus universos. Amar as pessoas e suas diferenças - esse é o jogo que venho jogando de uns tempos para cá e, acreditem, tenho gostado cada vez mais das descobertas, porque há gente que são continentes e uma promessa de terra para o navegador solitário".

Assino embaixo, sem pestanejar, e persistirei proclamando a lição do Falabella, bastando-me a carteirinha de Ser Humano, essa categoria tão vilipendiada pela tão já estupefata pós-modernidade. Feliz Páscoa a todos os leitores e leitoras.


Populismo da inépcia - Em 01/04/2020

Caros leitores e leitoras, escrevo em jornais há 20 anos, e nunca fui censurado, principalmente agora no Em Tempo com a Glaucia à frente da redação. O problema é que expresso minha opinião de modo transparente, e, no caso atual, os bolsonaristas sempre questionam minha opinião, que é minha e não devo satisfação de querer adubar quem quer que seja.

O nosso Presidente, no último fim de semana, contrariando seu Ministro da Saúde, e a OMS, foi dar um passeio nas cidades satélites de Brasília, mostrando ou que já teve o coronavírus e está imune ou quer realmente tumultuar um governo que ele não tem condições de exercer. E faço uma pergunta, quem é homem e quem é moleque Senhor Presidente? Moleques, são a OMS, os grandes lideres mundiais, inclusive seu queridinho Trump?, o seu Ministro da Saúde? Todas as Vigilâncias Sanitárias do mundo? Homem é só o senhor.

Ora, ora, pare de apedeutismo.

O cidadão comum, a autoridade de qualquer natureza, todos respondem de alguma forma pelo que dizem, daí a exigível discrição, a continência da linguagem, especialmente em torno do que se deve expressar quando está em causa o interesse comum, e chega a ser uma forma de sabedoria dizer apenas o necessário, no momento certo. Daqueles que por dever de ofício são quase obrigados a falar em público, muitos evitam o improviso, ou para não omitir fatos e nomes, ou para, medindo as palavras, não cometer excessos, enfim, para preservar a autoridade do cargo no qual estão investidos, imunizando-se a cobranças.

O noticiário através da televisão obriga a ouvir, ou o que não se quer, ou o que não se deve, sobretudo quando choca, a ponto de, tão estarrecedora a notícia, preferir-se aguardar o jornal do dia seguinte para uma necessária conferência, para a possível confirmação do que foi dito por determinada autoridade. Está visto que esse destempero, partindo de quem está presidente, compromete e muito, porque, de qualquer ângulo que se queira enxergar, é o reconhecimento público de que existe um Presidente que compromete seu Ministério de Saúde e compromete a ele aos cidadãos que me permitam o termo otariamente, ficam ao seu redor como aconteceu no ultimo final de semana em Brasília.

Inadmissível, no entanto, é o maior representante do Estado afirmar em rede nacional de informação, que tem que se parar com o isolamento, e não só falar, mas dar o exemplo de que se deve andar na rua sim, francamente, convenhamos que estamos muito perto mesmo da desesperança total. Resta a concretização de um acalentado sonho com uma autêntica liderança, valente, altaneira, criativa, atuante, contida, austera, respeitável, enfim, compromissada sobretudo e especialmente com a saúde e os fundamentos da República: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana. Sonhar ainda não é tributável.


A liberdade de imprensa - Em 26/03/2020


Apesar de não ter feito Direito, e mesmo como administrador me socorri de Rui Barbosa em busca de inspiração para a construção de alguma luz jurídica. O grande brasileiro era o luzeiro guia de nossas vidas e para ele me voltava sempre que algum direito estava colocado diante de perigo iminente. De quantos ensinamentos foram bebidos nas páginas imortais do notável tribuno e jurista, nos prélios estudantis e nas lutas pelas liberdades cívicas sempre ressumavam conceitos a respeito da liberdade de imprensa, a "rainha das liberdades", segundo Thomaz Jefferson, os olhos da nação, por intermédio dos quais ela fica sabendo o que se passa em seu redor, devassa aquilo que lhe ocultam, expõe ao pelourinho do julgamento popular os corruptos e corruptores.

De todas as liberdades, não há nenhuma mais conspícua e mais necessária. Se tais conceitos e definições ganharam foros de verdades definitivas, não menos verdadeiro é que a liberdade de imprensa no mundo vem sofrendo a agressão de aprendizes de tiranos, a pressão dos endinheirados e a intolerância dos liberticidas. Abatem-se sobre ela as mais variadas tentativas de garroteamento, desde a força bruta até os blandiciosos acenos da pecúnia com os quais governos fracos e incompetentes tentam embair a opinião pública.

Se as pressões econômicas e financeiras são desfiguradoras do verdadeiro papel da imprensa livre, não menos verdade é que o engajamento político-ideológico da mídia constitui, nos dias de hoje, espécie de câncer capaz de fragilizá-la até a morte. Nesses estamentos radicais concentra-se o grande perigo a ameaçá-la. Tanto à esquerda quanto à direita montam acampamento os verdadeiros inimigos da verdadeira liberdade de imprensa. Ambos se alimentam de preconceitos, nada mais nada menos de velhos ranços autoritários. Por paradoxal que possa parecer, outorgam-se a condição de defensores da liberdade para poder mais facilmente esmagá-la. Não faz parte do cardápio dos tiranetes, quando no exercício do poder, permitir excesso de liberdade de imprensa, salvo quando ela se transforma em turibularia para o cantochão das louvaminhas estereotipadas.

O nosso atual Presidente da República, é um dos que assume o autoritarismo político, culpando sempre a imprensa pelos desmandos e até pelo coronavirus. É o mesmo padrão de prosélitos de José Saramago, para quem "a democracia é uma santa coberta de chagas, cheira mal e, ainda por cima, é surda. E mente quantos dentes tem na boca".

Quando verdadeiros democratas, entendidos aqueles por convicção e formação, não por ocasião ou oportunismo político, são atingidos por verdades no exercício da verdadeira liberdade de imprensa, sua reação é assinalada pela tolerância e a crença na superioridade da verdade. A democracia, que, no conceito de Saramago, "cheira mal", foi o remédio simples e nobre que restaurou a dignidade da liberdade que representa todas as outras.

A triste constatação de que esse modo autoritário de governar vai, aos poucos, transformando o país numa republiqueta em que valores que deveriam ser tratados como pilares da democracia - a liberdade de imprensa por exemplo - estão sujeitos à variação de humor do mandatário, numa clara submissão do conceito de nação - tantas vezes evocado pelos poucos que tentaram defender o governo -à figura do governante.


Pesadelo - Em 19/03/2020

Escrever sobre o que o Coronavirus já causou no mundo e no nosso país é difícil, até mesmo aos especialistas. É que os fatos se entrelaçam, causas e consequências se confundem. Seja no campo da desinformação, seja nos desencontros e contrassensos; na desordem administrativa. Não bastasse tudo isso, vem a crise econômica. Depois disso, nunca mais o Brasil será o mesmo! Aliás, não há outra reflexão diante da atual realidade. Quando a realidade supera a ficção não há como fugir da sensação de angústia. Angústia indefinível, informe, sem limites. Um pesadelo que padecemos de olhos abertos, impondo-nos silêncio, privando-nos da capacidade de raciocinar, de entender o que estamos vendo e sentindo. E se mostra de tal forma envolvente e invasora que, como num passe de mágica, já não mais somos meros espectadores, mas sim personagens e vítimas da tragédia que as imagens instantâneas de televisão põem diante de nossos olhos.

Em vários momentos do trágico desfile dos fatos que estão em curso - ao vivo e em cores -, deles tentamos tomar distância, mas o esforço fracassa. É a força do inusitado, é a atração do surpreendente, do horror mesmo, que nos detém. E nosso sofrimento se alonga. Esfria-nos o corpo, sufoca-nos, emudece-nos. É assim que me sinto ainda agora, ao tentar juntar as palavras para compor esta coluna, dividindo o olhar entre o teclado do computador e as imagens da TV. São 8 horas desta quinta feira 19 de Março de 2020, meu prazo para entregar estas linhas está terminando e minhas dificuldades para pô-las no papel se agravam mais e mais. Em vão tento comparar o que aconteceu e segue acontecendo no mundo com o que de mais surpreendente, trágico e emblemático ocorreu na história dos povos ao longo de todos os tempos. Nenhum paralelo me ocorre. Porque o episódio a que estou assistindo, e do qual em verdade sou partícipe, me atordoa, me comove, me revolta e me faz temer pelas consequências que ele poderá ter para a humanidade neste mundo ao mesmo tempo tão mais dividido quanto mais globalizado se diz ele ser.

Mas o pior de tudo, é que o Presidente da Republica do Brasil, em ato inconsequente e de quem não tem o juízo perfeito, acha que é uma histeria a pandemia já propagada pela Organização Mundial de Saúde. Quando se vê tornadas sombrias também as expectativas de analistas e jornalistas. Onda de instabilidade, aprofundamento da recessão, inevitabilidade de uma crise mundial muito mais profunda e duradoura, o fim da esperança de recuperação, perdas incalculáveis para a economia planetária são algumas das previsões que puderam ser lidas na mídia nacional e internacional nos últimos dias. E o nosso presidente, desdenhando do vírus. Perguntaram certa vez a um sábio árabe como ele entendia o ser humano. Ele respondeu sem meias palavras: é um ser animal que se constitui de cinco elementos, a vaidade, o egoísmo, o desamor, a ambição e a falta de moral. Se disse tudo não sei. Porém algumas formas da afirmação existem, na exaltação do ego, na busca do dinheiro, na falta de solidariedade, no sentimento da própria eternidade. Traduz o que é o nosso atual mandatário. Resumindo e encerrando, rogo aos leitores que me perdoem pelo que disse até aqui. Procurem compreender meu estado de confusão mental e emocional. No momento, estou sem saber controlar o pânico que me domina e sem poder prever o que poderá vir a acontecer a partir deste trágico e definitivamente histórico ano de 2020.


Pôr do sol  - Em 12/03/2020

Ontem, no final de tarde olhei para o firmamento diferente do que diariamente olho e vi no horizonte a policromia tomando conta da natureza, enfeitando-a com mesclas de vermelho, raios laranja iluminados, tons de cinza sisudo, e traços lilases. É bonito de se ver este quadro em meio ao qual o sol se despede. Deslizando para o outro lado da Terra, deixava a impressão de seu dever cumprido: havia iluminado o dia. A paisagem rapidamente se desfez e guardou o sol no manto da noite. É generoso o espetáculo que o entardecer proporciona. Sensibilidade, serenidade e intimidade, nos possibilitam descortinar a beleza do fim do dia, como também perceber as faces encantadas do final de um percurso. O pôr-do-sol é bonito, porque é efêmero. Se fosse permanente nos cansaria. Nada permanece belo definitivamente. Tudo pede para terminar, até mesmo um beijo ardente. A vida pulsa em direção ao fim. Imaginemos por um instante, que o sol jamais vai se pôr, ou que nossa vida jamais terminará. Como nos comportaríamos, como nos sentiríamos em relação a este dia e-t-e-r-n-o e em relação à vida sem fim? O que neles poderíamos apreciar em sua definitiva repetição? É a alternância que nos possibilita tanto o amanhecer como o anoitecer. Assim também é a vida. Ela é bela em sua diversidade e temporalidade. É nessa provisoriedade que nos esforçamos para lhe dar sentido e estética. A vida também entardece. Inevitavelmente caminhamos todos nessa direção, e, como o sol, nos guardaremos no manto da noite. A sombra que avança para a noite nos dá notícia do tempo; do tempo que passou e do tempo que está aí, diante de nós. Descobrir esse tempo tem algo de medo, mas também de parto, de nascimento. É no tempo que dispomos que teremos de construir sentido para nosso estar-no-mundo. Não importa quanto tempo teremos, importa torná-lo precioso. Isso se faz renascendo em direções cada vez mais humanizadas e significativas. O pôr-do-sol tem cheiro de saudade, sim, mas é um privilégio ter do que sentir saudade. "O que a memória ama, fica eterno" diz Adélia Prado. Fica eternizado em nossa memória, aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir. Convivemos com o mito da "eterna juventude". Esse mito nos aliena quando nos submetemos aos imperativos da cultura que superestimam o visual, o lado de fora, o padrão teen de ter um corpo jovem e bonito. Mas haverá uma "eterna juventude" interior se mantivermos uma atitude aberta para a vida, se renovarmos nosso gestual humano, se atualizarmos o gozo de estar vivos, se ressignificarmos sempre nossa presença no mundo. É infinita a possibilidade de se rever os próprios gestos e crescer em sabedoria. Assim, o corpo pode estar maduro e portar uma alma menina. Essa vida interna é nutrida pelo encontrar-se e encontrar os outros, pelo produzir e participar da vida em sua diversidade. Como o pôr do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos. A construção que fizermos nessa passagem pela vida, é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa, a gente constrói desde a infância, porque não há alegria do nada, mas do saldo de uma construção cuidadosa do sentido de nossa vida. Os valores que alicerçamos, darão policrômicos com os quais poderemos colorir o envelhecer. Isso não significa ausência de sofrimentos e inquietações no trajeto do existir. No cenário do entardecer, o pôr do sol fica mais bonito quando há nuvens a transpor, o que lhe proporciona uma beleza inédita. Quanto mais nuvens, maior a beleza. As nuvens são como nossas angústias, elas apenas tentam anuviar nossa alegria, mas se tentarmos compreendê-las, se pudermos acolhê-las, se soubermos lidar com elas, aprenderemos a encontrar força e confiança para a experiência única e fantástica de estarmos no mundo, de forma bonita, corajosa e construtiva. Acho que esta manifestação seja talvez a visão mais amadurecida, ou quem sabe, a certeza da chegada do entardecer.


A escalada  das drogas - Em 05/03/2020

Matéria de capa do ultimo domingo no Em Tempo "Tráfico nas bocas de Luxo de Manaus", mostra que ao contrário de lança-perfume, maconha ou cocaína, as drogas do momento não estão nas mãos dos traficantes. Elas podem ser compradas em qualquer esquina, porque os barões do tráfico têm seus representantes.

Recente reportagem em um jornal de S. Paulo denunciou o combustível que está incendiando a juventude paulistana. O gás butano, por exemplo, é encontrado em isqueiros e cornetas vendidas em barracas de camelôs e lojas de brinquedos. Fitas cassete e de vídeo, pilhas e radiografias, artigos aparentemente inofensivos, podem ser o estopim da curtição adolescente. Altamente tóxicas, essas substâncias químicas se tornam drogas perigosas nas mãos dos jovens. Algumas são inaladas ou ingeridas em sua composição original. Como estão contidas em diversos produtos, passam despercebidas e o seu uso consegue driblar a vigilância da polícia. Usamos na sala de aula mesmo. A gente derrama o líquido na manga da blusa e os professores não percebem. A sensação é igual à do lança-perfume, você fica tonto e meio aéreo. Só que o efeito é pior, parece que toma a cabeça, diz Marcos à reportagem do jornal (o nome é fictício), de 16 anos, estudante do 3º ano do ensino médio, que comprava com dois colegas 240 mililitros de cola para acrílico (conhecida como B-25).

Segundo a reportagem, os três vestiam o uniforme de um dos colégios mais tradicionais da cidade, perto da Avenida Paulista. A reportagem confirma os indícios de uma escalada no consumo de drogas no meio estudantil. Xaropes, colírios, anestésicos de uso veterinário, bebidas energéticas, calmantes e anfetaminas consumidos puros ou misturados com bebidas alcoólicas, estão fazendo a cabeça da juventude. Segundo especialistas, o efeito a longo prazo é devastador: danos irreversíveis ao cérebro, alterações no comportamento, depressão e morte. Ao buscar o barato nessas substâncias, o usuário entra no atalho para o uso das drogas pesadas. E é aí que o inferno começa.

O hediondo mercado das drogas está dizimando a juventude. Ele avança e vai ceifando vidas nos barracos da periferia abandonada de Manaus e no trágico auê dos bares e boates frequentados pela juventude bem-nascida. Movimenta muito dinheiro. Seu poder corruptor anula, na prática, estratégias meramente repressivas. Por isso, a prevenção e a recuperação, únicas armas eficazes a médio e longo prazos, reclamam apoio mais efetivo do governo e da iniciativa privada às instituições sérias e aos grupos de autoajuda que lutam pela reabilitação de dependentes.

Tenho acompanhado o excelente trabalho realizado por alguns serviços especializados. Admirável tem sido a atividade promovida pelos grupos de Narcóticos Anônimos (NA) e Amor-Exigente e a bem-sucedida estratégia adotada pelas comunidades terapêuticas. Sem uso de medicamentos e apostando num conjunto de providências que vão às causas profundas da dependência, essas comunidades têm obtido bons índices de recuperação.

Impressionou-me, por exemplo, a seriedade do trabalho desenvolvido pela Comunidade Terapêutica Horto de Deus, em Taquaritinga, no interior de São Paulo. Os internos, tratados com dignidade e carinho, estão lá voluntariamente. Aliás, o desejo explícito de deixar as drogas é um pré-requisito para ingressar na comunidade terapêutica. As internações compulsórias, em clínicas caras e sofisticadas, frequentemente acabam na amargura da recaída.

A Secretaria Nacional Antidrogas está desenvolvendo uma estratégia de qualificação e credenciamento das comunidades terapêuticas. Faz bem. O governo tem o dever de fechar as arapucas, mas, ao mesmo tempo, precisa apoiar e prestigiar as instituições idôneas que estão aí. É preciso apertar, mas sem burocratizar ou inviabilizar. Impõe-se, sobretudo, que a regulamentação do funcionamento dessas instituições não seja o resultado de uma decisão de gabinete. Convém conhecer o dia-a-dia dos centros de recuperação. Só então, com conhecimento direto das coisas, será possível separar o joio do trigo.

A escalada das drogas é um fato alarmante. A dependência química não admite decisões autistas. Reclama, sim, seriedade e realismo.



Violência banalizada - Em 27/02/2020

Matéria de capa dos nossos jornais: Homicídios em Manaus atingem o maior índice de todos os tempos. Estamos assistindo a uma verdadeira guerra sendo travada no nosso estado. Os pais andam assustados, pois os nossos filhos estão em perigo nas ruas. Já virou rotina o assassinato de jovens por motivos banais. As pessoas parecem ter perdido a noção da gravidade da situação que vivemos. As notícias dos jornais relacionadas com a violência já se constituem uma rotina, um assunto normal, como economia, política, cultura, etc. É a banalização da violência.

A sociedade fica chocada com os crimes, se mobiliza temporariamente, no entanto, nada de concreto é feito para coibir a matança. As emergências dos hospitais da rede pública estão lotadas de casos intimamente relacionados à violência e uma população crescente de jovens inativos, vítimas da brutalidade vêm crescendo diariamente, ocasionando imensos gastos à previdência social. Atualmente, homicídio é a maior causa de morte entre os jovens no Brasil. Os programas de TV, do gênero investigativo, estão ficando cômicos. Grande parte de nossa população não mais se surpreende com as reportagens sobre estupros, violência doméstica, sequestros, roubos, homicídios e outros mais. Estes programas que deveriam ser uma fonte de protesto, estão se transformando num novo capítulo de uma novela. É a sociedade anestesiada, não reagindo mais aos estímulos nocivos.

Nas ruas e principalmente nos semáforos das principais vias de Manaus, assistimos ao descaso do Estado. Uma verdadeira mistura de circo e feira ao ar livre. Um circo, onde os artistas nos entristecem, em vez de nos alegrar. Uma feira, onde tudo se vende, entretanto, nada se lucra. Uma verdadeira tragédia, onde meninas grávidas, drogadas, desamparadas, convivem aos nossos olhos, sem nenhuma perspectiva de uma vida digna. Onde meninos, talvez em pior situação, são vítimas da violência cotidiana, encerrando sua vida em plena adolescência. Crianças que deveriam estar nas escolas, aprendendo a ser cidadãos, estão nas ruas aprendendo a ser marginais. E na classe média alta, os jovens dirigem seus carros de sexta para sábado e de sábado para domingo, totalmente embriagados, quem quiser ver o abuso do álcool no volante, é só comparecer ao Posto da esquina da Paraíba com o V-8, lá pelas cinco ou seis da manhã.

Alguns professores de escolas públicas me dizem que a situação nunca foi tão sofrível como agora, pois a violência dentro das escolas também é uma realidade. É uma situação triste, desanimadora, que a cada dia se repete e nós ficamos passivos, enclausurados em nossas casas, ou seja, em verdadeiras prisões domiciliares. Uma significativa parcela dos nossos salários tem de ser obrigatoriamente gastos em segurança. Mesmo assim, não estamos imunes à violência. Se nada for feito, estaremos diante de um caos social. E nós que pagamos os impostos, altíssimos impostos, assistimos passivamente a este filme que parece nunca ter fim.


Carta aos concidadãos - Em 20/02/2020

Com a devida vênia dos meus sofridos e heroicos concidadãos, em pleno Carnaval resolvo fazer uma carta tipo irônica mas esperançosa, e, espero que esta mal alinha carta não os encontre nas mesmas dúvidas e sobressaltos que me afligem ultimamente. Efetivamente, há algum tempo venho constatando, através de pesquisas cuidadosas (e observações cotidianas), além de estudos minuciosos e compilação rigorosa dos fatos científicos, que o Brasil vem adquirindo um acervo tecnológico dos mais avançados em corrupção, bandalheira e incompetência.

Na realidade, o estágio alcançado configura pós-graduação em nível de doutoramento, fruto do ingente esforço de um grupo bem selecionado de especialistas. Entretanto, a referida atroz dúvida se divide em duas semidúvidas: a primeira, como deve reagir o meu exacerbado sentimento nacionalista, ante tão brilhante e reconhecido acervo. A segunda, não menos angustiante, é que os ilustres e impertérritos diplomados não são chamados para receber os respectivos pergaminhos ou, ao menos, nominados para as famosas embora desacreditadas, devidas providências.

Hão de concordar comigo os caros compatriotas, no mínimo esses que ainda têm vergonha na cara e moral para se encarar de frente no espelho, que a diplomação dessa gente é tarefa urgente. Quando não para satisfazer a elementares exigências legais, ao menos como respeito aos, sistematicamente, esbulhados patrícios, cujos impostos, taxas, tributos e demais emolumentos vêm sustentando a alta especialização dos bandalhos.

Talvez o cidadão comum, esse Dom Quixote do dia-a-dia, do aperto orçamentário, da insegurança incorporada ao cotidiano, enfim, do trágico balé da sobrevivência, não se tenha inteirado dos detalhes das doutas teses, surgidas dessa evoluída pós-graduação. Seria pretensão de minha parte, simples mortal da rotina diária, professor de muitas gerações e profissional do tipo retilíneo, desses que insistentemente lembram a seus alunos a existência de um conceito fundamental chamado ética, recomendar o manuseio e a análise de tais teses.

Entretanto, como esta desalinhada missiva é aberta parece-me altamente conveniente colaborar para o aprimoramento dos conhecimentos gerais, sugerindo a leitura de edificantes contribuições técnico-científicas, a exemplo dos bancos e financeiras falidos fraudulentamente, das obras faraônicas inacabadas, das negociatas e desvios do dinheiro público, das construções superfaturadas, das concorrências dirigidas, da alienação do patrimônio público, da propaganda enganosa e da mentira sistemática. Isso tudo, além do rendoso e promissor tráfico de drogas, a cujo crédito deve-se a destruição e morte de milhares de jovens e tem como prêmio a proteção corporativista e a impunidade.

Sem dúvida, as lições daí advindas são indiscutivelmente proveitosas, mesmo que seja para refutar algumas maldosas calúnias e eventuais fofocas, quem sabe frutos até da intriga do povão contra tão ínclitos varões. Fossem outros os tempos, seria o caso de pensar na ação de "solertes comunistas" (uma expressão ridícula na atual conjuntura), tal é a extensão do falatório reinante por aí. Afinal, há de concordar comigo o paciente leitor que essa história de bancos suíços, ou de paraísos fiscais, pode ser bisbilhotice de desocupados, tanto quanto os demais cochichos que pairam nos ares.

Por sua vez, teses de somenos importância, como o achatamento salarial, o arrocho dos empresários, a violência urbana, (Manaus nunca esteve tão violenta), o desemprego endêmico e epidêmico, prestações e juros escorchantes, ficam a cargo de "nós o povo", desde que só rendem sufocos, úlceras e enfartes.

Enfim, para encerrar esta epístola e, assim, abreviar o tédio de quem teve a pachorra de lê-la até aqui, tenho a convicção de que o inverno de nossa desesperança (com o perdão de Steinbeck), não será longo demais. Há, neste querido Brasil, instituições em que você e eu temos de acreditar, pelo inegável papel histórico que representam. Há inúmeros outros varões, com dignidade, senso de responsabilidade, boa vontade e desejo de lutar contra uma situação que envergonha, deprime e degrada uma pátria que desejamos nobre, altiva e independente.

No mais, sem piada, formulo meu desejo de saúde e prosperidade aos irmãos, fazendo sinceros votos que aquele triste acervo seja metamorfoseado em trabalho sério e honesto, no trato do suado e surrado dinheiro público.


Os cães ladram - em 13/02/2020

"Os cães ladram enquanto a caravana passa..." é bom adágio para retratar a postura do governo Bolsonaro, até o momento, perante o País. O provérbio é utilizado pelas pessoas para descartar críticas, delas desdenhando como se fossem ganidos de cães desgarrados nos campos, ao mesmo tempo que conferem às suas obras, iniciativas ou às próprias personalidades o grandioso status de caravanas. Uma caravana, como símbolo psicológico, representa bem a imagem que o presidente Bolsonaro tem de seu governo, não sendo à toa o estilo caravanístico que adotou em campanhas, no início da gestão e ainda mantém.

Para além de significados políticos atuais, em que caravanas servem de escola de fim de semana para ministros ou como marchas de militantes, uma caravana significa travessia, transposição de fronteiras, busca de novos territórios, esforço concentrado de muitas pessoas em união projetando esperanças em novos destinos, partindo rumo ao desconhecido. Travessias em caravana em geral são feitas para percorrer terrenos perigosos. Mas quem usa o provérbio "os cães ladram enquanto a caravana passa..." raramente se refere a uma caravana propriamente dita. A pessoa compara-se a si mesma a uma caravana, atribuindo às suas ações e história pessoal o sentido épico dos peregrinos. Ao personificar o símbolo, a pessoa abandona também a noção de perigo que se associa à ideia de caravana porque imagina corporificar poderes para sozinha enfrentar quaisquer adversidades.

A partir deste ponto, poderíamos explicitar melhor o sentido dessa fala, de forma mais rude que Bolsonaro em seus discursos, se isto fosse possível, sendo este um direito que nos cabe, uma vez que, ao contrário do presidente, não precisamos ser tão cuidadosos com o que falamos como ele deveria ser e não está sendo. Quem lança mão desse aforismo sobre caravanas e cães está dizendo: "Eu sou mais eu" (os outros e suas opiniões não contam) ou "o que vem de baixo não me atinge", porque não se conhecem casos de caravanas que mudem o seu curso por conta do latido de cães desgarrados.

Essa é a interpretação que se pode atribuir ao bordão "estou vacinado contra vaias". Resta saber se vaia é uma forma legítima de crítica ao presidente da República em cerimônias formais porque se este não for o caso poderíamos entender que tais críticas se desqualificariam já pela forma. Mas a pergunta parece prejudicada - o presidente quebra todas as formalidades e esta é uma das razões por que está sujeito a vaias, dubiamente legitimadas por ele mesmo, que as estimula ao mesmo tempo que declara desconsiderá-las. Mais atenção ao protocolo ajudaria na manutenção da majestade do cargo e na preservação de sua figura pessoal.

Na esteira do presidente, luminares bolsonaristas vêm construindo absurda doutrina em relação a este tipo de manifestação. Esses ouvidos desafinados precisam se dar conta que tais vaias são apenas símbolos, incipientes, de volumoso cabedal de críticas, originadas de todos os lados, que o governo federal vem acumulando simultaneamente à manutenção dos altos índices de popularidade do presidente. Quando FHC, de forma politicamente oportuna, ou oportunista como dizem alguns, colocou o PSDB na avenida, tirando as mangas de fora para vaiar também, no exato momento em que havia convergência de críticas originadas de políticos de quase todos os partidos, inclusive maciçamente do PT, de empresários, economistas, magistrados, sindicalistas, sem-terra e outros mais - o presidente destemperou-se. Respondeu iradamente ao antecessor, embaraçou a primeira-dama e pecou no jogo político, passando recibo e mostrando o flanco. Demorando a se recuperar, dias depois, gerou desconforto nacional, em novo destempero, ao referir-se ao Judiciário e ao Legislativo de forma não condizente com o seu cargo.

A base da sociedade brasileira está repleta de graves conflitos. O País precisa do presidente atuando na construção da harmonia e não para gerar conflitos desnecessários na cúpula. Confiamos que Bolsonaro não esqueça que os que são tratados como cães desgarrados também podem se agrupar em matilhas e morder - coisa que ninguém deseja.


Manto da hipocrisia - Em 06/02/2020

O Brasil e suas patentes criadas sob o manto do ridículo e da hipocrisia. Só aqui se criam tantos heróis, estadistas, intelectuais, reis, donos - de qualquer coisa, mitos - de todas as espécies, autoridades - até de seguranças de bordéis, sempre forjados por abilolamentos de puxa-sacos de ocasião. Isso não é de agora há pouco, num instantinho de nada, não. Faz muito tempo. E nesse espicha e encolhe, tudo vai sendo levado adiante, confundindo desde a maioria dos escolares de maternais às centenas de empertigados universitários sem preparo, saídos de um sem número de novos colégios, cursinhos e faculdades particulares fundados, afundando de dinheiro os cofrinhos de seus respectivos empresários do ensino.

De heróis não se tem conta. Para se ter um exemplo, um jogador de futebol que faz um gol nos minutos finais e o seu time empata ou ganha uma partida - vai ter a glória do fim de semana, mas será constantemente lembrado quando outro repetir a mesma façanha. São heróis de toda qualidade. Foi Caramuru e cia, Zumbi, Lampião, Anita Garibaldi, Almirante Tamandaré, general Mourão, o bispo Sardinha, João Pessoa, Mascarenhas de Morais, Luís Carlos Prestes, Marighela, Antônio Conselheiro e uma porção de outros.

Estadistas - desses nem é bom falar - tem uma ruma num rol de rolar máquina de calcular. Já me falaram de 148 - o 149º provavelmente vai ser o nosso Bolsonaro lá, de cá - grandões, principalmente quando morrem. Quando vivo, todo político se embasbaca todinho quando algum colega, correligionário, parceiro, áulico ou jornalista anuncia que o dito é "um verdadeiro estadista". Não há quem aguente tanto chaleirismo. Para não deixar de citar nomes, ouvi falar em Pinheiro Machado, Borges de Medeiros, Floriano Peixoto, Agamenon Magalhães, o governador Valadares, Otávio Mangabeira, Castelo Branco, Sarney, ACM, Paes de Andrade, Fernando Collor e FHC - para ficar por aqui, pois o Barão de Rio Branco, Getúlio Vargas e Juscelino, que poucos mencionam, talvez fossem os únicos que realmente merecessem o título. Intelectuais - até briga de foices e vaidades familiares.

Todo mundo quer ser ou apenas chamado de intelectual, sem lembrar que são contados nos dedos - se brincar, de uma só mão - os brilhantes literatos de tão grau de qualidade cultural, capitaneados por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Os reis, então com toda vênia, são excelências de majestades em todos os segmentos nacionais - viraram produtos. É rei ou rainha do brega, do futebol, do rock, do boxe e do mangue, dos baixinhos, do rap, do baião, do rebolado e do bumbum, da televisão, da jovem-guarda, dos golpes etc. Somente o de Momo, na realidade, é que vale.
Quanto aos mitos - uns políticos, é claro - que geralmente fizeram ou fazem o tipo, lá se vem o Padre Cícero, Chiquinha Gonzaga, Miguel Arraes, Carmem Miranda, Gregório Bezerra, Frei Damião, Luz Del Fuego, Tenório Cavalcanti e Madame Satã e outros às pampas. No quesito donos - é quem a "elite" elege - são gordos e sacanas. E na lista de autoridades, paciência, há anos estamos carentes.


Motoqueiros - Em 30/01/2020

O problema dos motoqueiros em Manaus, vem se agravando continuamente, sem que as autoridades consigam encontrar uma solução. O resultado é que o número de motoqueiros mortos em acidentes na capital, apurado em diferentes pesquisas, não deixa dúvida de que estamos diante de uma verdadeira tragédia. A média de mortes é de uma por dia. Mas como esse cálculo inclui apenas os que morrem nos locais dos acidentes, a estatística mais realista consta de pesquisa feita em 2019, 15 motociclistas sofrem acidentes todos os dias, sendo que um morre na hora e, dos dois outros que são internados em hospitais, em média um não sobrevive.

Este é apenas um dos lados do problema, pois é preciso considerar que as mortes resultam de acidentes provocados pelo comportamento irresponsável dos motoqueiros no trânsito. Andando em alta velocidade, realizando a todo instante manobras arriscadas entre os carros, sem respeitar a sinalização e as outras regras de trânsito, eles próprios criam todas as condições para os acidentes de que são vítimas. As outras vítimas de suas corridas desenfreadas são os motoristas de carro que, se não lhes abrem caminho imediatamente - o que em geral não é possível -, sofrem represálias de todo tipo. Os espelhos laterais de seus carros são destruídos a pontapés e, se têm a infelicidade de se envolver em acidentes com um deles, são logo cercados por uma multidão de outros motoqueiros dispostos a um linchamento.

Os motoqueiros - cujo número segundo as últimas estatísticas é de 50 mil na capital - alegam, com razão, que as empresas para as quais a maioria trabalha são as principais responsáveis por tudo isso, na medida em que exigem deles extrema rapidez nas entregas de que são encarregados. É por elas, portanto, que a Prefeitura deve começar obrigando-as a respeitar um certo número de regras para obter licença de funcionamento - entre elas a obrigatoriedade de que os motoqueiros usem uniformes que permitam sua rápida identificação - cujo descumprimento acarretaria penalidades administrativas.

As autoridades encarregadas do trânsito, por sua vez, precisam fiscalizar com muito maior rigor do que vêm fazendo o comportamento irresponsável dos motoqueiros. Se seu habitual desprezo pelas mais elementares regras de trânsito fosse punido exemplarmente, isto já seria uma grande contribuição. Querer resolver o problema, atacando-o quase exclusivamente pelo lado dos motoqueiros, não levou e não levará a nada. Só uma ação firme e conjugada de fiscalização sobre as empresas e os motoqueiros será capaz de produzir bons resultados.




Importância da leitura - Em 23/01/2020

Poucos brasileiros entendem o que leem. Não passam de 25% segundo pesquisa recente do Ibope. Vale dizer que a maioria da população se mantém nos limites de uma deficiência instrumental que torna sombrio o prognóstico quanto ao futuro da nação.  A leitura é um dos últimos recantos da liberdade intelectual.

Quem lê cria tanto ou mais que o autor. Com a imaginação solta, o leitor elabora mentalmente os cenários, compõe o perfil dos personagens, interpreta diálogos, identifica afinidades pessoais e vive, a seu modo, o prazer e a infinitude das emoções potencialmente contidas no texto. Quem lê não recebe imagens prontas, coloridas, acabadas. Tem de construí-las pelo processo do entendimento e interpretação.

O leitor nunca é passivo. Exercita, o tempo todo, os mecanismos psicodinâmicos que fundamentam, estruturam e aperfeiçoam a consciência. Por isso, desenvolve a criatividade, refina a percepção, aprimora o senso crítico e fica imune às manipulações que a comunicação pela imagem veicula como ingredientes de dominação.

A leitura é problematizadora, induz a reflexão, suscita hipóteses, faz pensar. Já a comunicação pela imagem, ao ser utilizada como ferramenta de controle da opinião pública, é a negação do pensamento. Não passa de show visual cheio de efeitos especiais que despertam a sensação do fantástico, do extraordinário, do instantâneo e promovem a preguiça mental do expectador por meio do deslumbramento programado. E o deslumbrado não pensa, admira. Não critica, assimila. Não forma sua opinião, repete a que recebe. Não reage, absorve. Não cria, consome. Não resiste, deixa-se aculturar. Não se afirma, submete-se.

Não por acaso, as sociedades menos desenvolvidas e mais dominadas são justamente as que menos leem. São aquelas que admitem o analfabetismo com naturalidade, se é que suas elites não o perpetuam deliberadamente. Aliás, um dos indicadores de desenvolvimento usados na atualidade é o número de televisores difundidos pelo país. Não é o número de livros publicados ou lidos pelo cidadão.

Os grupos dominantes sabem muito bem que a palavra escrita é incontrolável e, portanto, libertadora, enquanto a imagem pode ser cientificamente ''editada'' para inibir a liberdade de pensamento. Nesse sentido, a palavra pertence à sintaxe da revolução, enquanto a imagem é a fonte da ilusão conservadora. A Santa Inquisição não queimava apenas as ''bruxas'' e os hereges. Incinerava montanhas de livros em praça pública para que não fossem lidos.

Da mesma forma, em nosso país, agentes dos governos militares invadiam casas de ''subversivos'', apreendiam e destruíam livros cujos títulos e autores integravam a lista dos proscritos do regime. Os jornais escritos foram duramente censurados, quando não empastelados. Em vez de criarem escolas para alfabetização e estímulo à leitura, optaram pela rede de televisão concebida como monopólio destinado a subjugar o povo, impondo-lhe novos padrões de consumo e dependência externa.

Nos primeiros momentos houve necessidade de recurso às tropas para sufocar a resistência das gerações ainda formadas pela leitura. Mas, com o passar dos anos, a estratégia de controle pela mídia eletrônica produziu os resultados projetados. As gerações educadas pelos shows domingueiros e pela Xuxa de todas as manhãs foram se distanciando do hábito de ler e se desinteressando da palavra, do pensamento crítico, do vernáculo.

A invasão cultural não tardou a nos americanizar, transformando-nos em consumidores da Disney, da violência enlatada, ou dos Big-Macs que já têm o sabor dos novos tempos. A comunicação pela imagem eletrônica é a tropa de ocupação dos tempos modernos. Sua eficiência é indiscutível. O império mais violento da história da humanidade é mantido e ampliado por meio das imagens cuidadosamente montadas que nos chegam via satélite. O último recanto da liberdade intelectual vai sendo assim tomado de assalto pela ditadura eletrônica.

O pensamento humano tornou-se prisioneiro de telas e cabos. Contudo, nos piores momentos de repressão, nunca se deixou de escrever e ler. Ainda que clandestinamente. E foi, quase sempre, na clandestinidade que se produziram os textos e leituras que transformaram a história do homem. O escritor e o leitor dos dias atuais não são espécies em extinção, mas militantes da resistência libertária empurrados para a clandestinidade. Vivem nas catacumbas do atual império, mantendo, com a palavra escrita e a leitura, a réstia de luz transformadora que emana do ato de pensar para iluminar os rumos do futuro


Expressões e seus sentidos - Em 16/01/2020

Caros leitores, existem frases e palavras que as vezes são discutíveis, porque possuem diversas origens etimológicas, algumas discutíveis. Em etimologia isso se repete muito, como você verá nesta coluna ao longo do tempo. É assunto para briga de filólogos e estudiosos, discussão puramente acadêmica que, além do bom papo, promove a degustação dos melhores vinhos. Por isso, havendo dúvida em alguma palavra, frase ou expressão nesta coluna, escreva, proteste, discuta, argumente, ensine.

Vamos viver e aprender, não é mesmo?

Um caso desses: a expressão cor de burro quando foge, tão popular por estes brasis afora. Para muitos, o correto é corra de burro quando foge, ou seja, quando o animal está furioso é perigoso chegar ou ficar perto dele. Melhor fugir, correr. Lógico, até porque não existe, realmente, na escala cromática, uma estranhíssima cor de burro quando foge. Vale o fato ou a versão? Você decide.

Dito isso, vamos às palavras de hoje.

Aquário ou piscina - Aquário vem do latim aquarium, tanque, reservatório de água, bebedouro para o gado. A origem é a palavra latina aqua, água. Já piscina, viveiro de peixes, vem do latim piscis, peixe. No português, ambas tiveram o sentido trocado: hoje aquário é um viveiro de peixes, e piscina um reservatório de água.

Amazonas - Vem do grego mastós, que significa mama. Seu cognato é mazos, que, também em grego, significa seio. Como o prefixo a ou an quer dizer privação, falta de (Anador, por exemplo, quer dizer sem dor), amazona, em sua origem era a mulher sem seio. As amazonas eram guerreiras que teriam habitado a Turquia, e que, para facilitar o uso do arco, queimavam ou cortavam o seio direito. Foi a partir dessa lenda (olha aí o fato e a versão ...) que os colonizadores assim chamaram as mulheres armadas de arco e flecha que encontraram na região banhada pelo Amazonas - rio das amazonas.

Canguru - Quando os conquistadores chegaram à Austrália, assustaram-se ao ver estranhos animais que davam saltos incríveis. Chamaram um nativo e lhe perguntaram qual o nome daquele bicho. O aborígene ficou repetindo Kan Ghu Ru. Os britânicos assimilaram a palavra em seu idioma como kanguroo. Depois de pesquisas locais, veio a revelação: os indígenas, ao serem indagados, simplesmente queriam dizem não te entendo!

Concordar - É o que acontece quando duas pessoas se unem de coração: cum + cordis, duas palavras latinas. Quem discorda é porque seu coração não bate junto com o do outro.

Robô - Palavra nos chegou pelo francês robot que, por sua vez, veio da língua tcheca, em que robota significa trabalho forçado. Como se sabe, robô é um mecanismo programado para trabalhar ininterruptamente. Sem férias, domingos, feriados, FGTS, TPM, pedidos de aumento de salário, perfeito e incansável colaborador. O ideal de qualquer empresário...

Salamaleque - Palavra originada da saudação árabe as-salam'alaika, a paz esteja contigo! Entre nós, além de gesto respeitoso, é o símbolo do puxassaquismo nacional, de gente que se curva na babação a algum figurão - "e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais...".

E, por fim, a palavra Furunfar, que conforme a poeta Giselle Serejo," tudo o que é prazer, é divino. Só é baixo, só é vil o que não nos faz vibrar de um gozo qualquer", ou seja, a definição de manter relação sexual ela poetiza.


A verdade - Em 09/01/2020

O tempo conduz a verdade pela mão, diziam os romanos. O que é a verdade, perguntou Pilatos a Jesus quando o Rabi lhe disse sou a verdade e a vida. Filha do tempo, tem recebido ao longo dos anos grande vassalagem, apesar de encontrar-se em terreno muito próximo à falsidade, com limites às vezes imperceptíveis e imprecisos. 

Dos evangelistas mereceu especiais referências. Lucas (8,17): não há coisa oculta que não acabe por se manifestar, nem verdade que não venha a ser descoberta, conceito repetido no capítulo 12, versículo 2. Pela mesma forma Mateus (10,26): nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber. 

Nos Brasil, anos recentes, a verdade tem sido maltratada e vilipendiada. É vítima de deformações ostensivas ou sub-reptícias, manipulada ao sabor de interesses políticos ou ideológicos, quando não a serviço dos poderosos do dia ou filha espúria do poder econômico. As ações armadas da esquerda brasileira não devem ser mitificadas. Nem para um lado nem para o outro. 

Não compartilho a lenda de que, no fim dos anos 60 e no início dos 70, nós fomos o braço armado de uma resistência democrática. Acho isso um mito surgido durante a campanha da anistia. E, de suas palavras, brota a verdade inconsútil: ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial.

Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. E ainda, cada vez mais explícito. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento de resistência democrática. Assinala ainda que nenhuma delas defendia o terror indiscriminado ou ações que pudessem matar pessoas. 

A força da verdade desse depoimento faz cair a máscara de muitos pretendentes a líderes democratas que usam e abusam das falsidades históricas para colocar sobre suas cabeças a imaculada coroa da verdadeira democracia. Tomara não recaiam na síndrome do escorpião se lhes for dada oportunidade, principalmente aqueles que desconhecem a fatalidade de incorrerem nos mesmos equívocos por não terem aprendido a lição da história. 

Outra verdade que salta aos olhos, uma decorrência da desassisada atitude de muitos parlamentares e políticos, é a que exprime a total falência dos partidos brasileiros, mera estação de embarque e desembarque de passageiros com muito mais sede de glória do que de virtudes. É triste e vergonhoso o espetáculo que os parlamentares oferecem ao Brasil, essa revoada insana em busca de vantagens fisiológicas ou de um pouco que lhes traga mais vantagens no momento da disputa eleitoral ou a garantia de rendosa sinecura. São eles oportunistas, indignos de merecerem o voto e a confiança do povo. Eis a verdade, com toda sua poderosa e mágica força.   


O que é democracia - 02/01/2020

Primeiro artigo do ano, e resolvi tentar exteriorizar aos meus leitores, talvez didaticamente, o que de fato é democracia, no meu entender. Durante muito tempo o silêncio foi o maior companheiro do povo. Um povo que não podia se expressar. Só podia sentir. E o que era sentido era uma grande frustração por ser apenas um observador da própria história. Mas isso é passado. Conquistamos a nossa liberdade, a nossa voz. Agora podemos participar, agir, falar. Agora é democracia". 

Esta bela expressão, coletada num belo cartaz produzido e jogado no lixo deve mobilizar um Movimento de Conscientização da Cidadania-, que congrega diversas instituições e pessoas que objetivam a construção de um Pacto Social. Vivemos uma época de contrastes. A globalização e o desenvolvimento tecnológico asseguram liberdade e homogeneidade a diferentes povos e nacionalidades distintas, possibilitando um rico e dinâmico intercâmbio cultural e intelectual. Simultaneamente, esse mesmo aparato técnico-científico atua como um instrumento de isolamento e segregação, ao passo que acaba por marginalizar as culturas mais frágeis e mais primitivas. 

Diante dessa conjuntura, observa-se um impasse entre a criação de uma cultura global e a preservação das diversas identidades locais e regionais. Em suma, o que ocorre é um conflito entre um mundo globalizado e único e a individualidade de cada um enquanto ser humano. É preciso visualizar um mecanismo político capaz de assegurar o contínuo avanço da moderna sociedade e garantir as vontades e liberdades individuais de cada um de seus integrantes. É aí que entra a questão da democracia. 

Atualmente, utiliza-se bastante este termo para designar governo do povo, onde há liberdade, a igualdade e o respeito a cada indivíduo imperam. Entretanto, na prática, não é bem isso que acontece. O aumento das discrepâncias sociais e o benefício das elites em detrimento das classes menos favorecidas é algo notável mesmo nos governos ditos democratas. Mediante esse contexto, como é possível falar em democracia como instrumento de melhoria social e de respeito às peculiaridades de cada cidadão, especialmente nós brasileiros que vivemos em um país dito democrata, todavia extremamente injusto e desigual? 

Com certeza a construção de um contexto de um mundo mais igual e fraterno só será possível através da consciência individual, na busca por valores de cidadania e de justiça social. Até agora nenhuma sociedade alcançou a democracia sendo fiel a todos os seus princípios e valores até mesmo na Grécia Antiga onde esse sistema surgiu, boa parte da população era excluída das relações sociais, através da escravidão, da marginalização e da exploração do trabalho. Ainda hoje isso acontece. Não existem mais escravos, contudo, as pessoas vivem muito em função de seu trabalho e levam uma vida material, esquecendo as questões sociais e outros aspectos essenciais à existência humana. 

Na verdade, quanto mais o homem avança em termos de tecnologia e ciência, menos utiliza valores de solidariedade, igualdade, fraternidade e justiça. E é por esse motivo que o Mundo está um caos. A violência urbana, o desrespeito às individualidades, a miséria e a pobreza são frutos de um sistema elitista e autoritário. Só será possível falar em democracia no dia em que cada cidadão seja respeitado e valorizado na sua condição de ser humano porque ser democrata não é apenas diminuir as desigualdades sociais. É muito mais do que isso. 

Ser democrata é fazer o bem e praticar o bem. É acreditar que os problemas sociais podem ser minimizados ou resolvidos. É lutar por uma conjuntura mais digna e sensata. É se sensibilizar com uma criança abandonada e tomar algumas atitudes, ao invés de permanecer inerte. É se preocupar com a política do seu país e querer participar dela. Ir às ruas reivindicar direitos e o cumprimento das obrigações governamentais. É saber que se cada indivíduo se acomodar e achar que não pode modificar a conjuntura atual, o mundo estará partido. É acima de tudo acreditar que cada ser humano é único e que a individualidade e as particularidades de cada um são essenciais à criação de um contexto mais abrangente, capaz de respeitar e valorizar cada cidadão. 


A paz sonhada - Em 26/12/2019

Imaginemos um dia em que multidões alegres cheguem de toda parte, com o nascer do sol, trazendo enfeitadas cestas de boa comida, fartas marmitas e farnéis recheados de manjares que desejam compartir com todos os que forem encontrando no caminho. E que, de forma descontraída, se reúnam em todas as praças do planeta, ainda mais floridas que o normal para essa ocasião. Seria algo como, digamos, um milhão de pessoas na Praça Vermelha, em Moscou; trezentas mil na Praça de São Pedro, no Vaticano; mais de dois milhões no Central Park, em Nova York; passando das oitocentas mil no ensolarado Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro; cerca de dez mil no Pau Pombo, em Garanhuns; um milhão no Parque Palermo, em Buenos Aires; três milhões na Praça da Paz Celestial, a Tianamen, de triste memória, em Beijing.

Na verdade, milhares, milhões o que couber nas praças de cidades, vilas, povoados, lugarejos. Algo incomum faria com que as multidões chegassem, todas, ao amanhecer desse mesmo dia - dia frio e cinzento aqui, claro e estival ali, indefinido e morno acolá, fresco e suave, barulhento e fervilhante no Parque dos Bilhares, em Manaus. O mesmo dia. A mesma expectativa. As mesmas vozes de esperança, cantando, dançando, confraternizando. Como se todo mundo comemorasse simultaneamente, em cada canto, uma vitória definitiva de Copa do Mundo ou o campeonato nacional de seu clube preferido. O momento é singular. Velhos fatigados, arrastando antigos sofrimentos, sustentam expressões de espanto. Jovens bailam, dão-se mãos e lábios, abraçam-se e consumam suavemente o amor. Mulheres e homens, ainda sob o manto da desconfiança, entreolham-se, veem-se em novas expressões. E também se amam. As crianças reafirmam de maneira álacre suas ancestrais inocências.

Percebe-se que alto-falantes fazem proclamações felizes numa miríade de línguas conhecidas e desconhecidas e que locutores barulhentos anunciam eventos incomuns, como, por exemplo, a derrubada de todos os muros da vergonha, os literais e os não reconhecidos, e a derrota de todos os apartheids. Há uma exibição generalizada de artistas amáveis em palanques, onde cantam, sapateiam e bailam. A atmosfera é de excitação vibrante, à maneira de um magnífico Woodstock universal. Muita gente, inclusive truculentos machões empedernidos, enfeita de flores coloridas seus cabelos.

O dia avança e as multidões não param de chegar, mesmo onde, devido à estação do ano, o frio aumenta e o dia já começa a escurecer. Os mais cautelosos temem pela segurança da reunião concomitante de multidões tão espessas. O clima, porém, é de surpreendente ordem. Como em um vasto, imenso, colossal domingo de Carnaval em Olinda. Como se na rua amantes da folia desfilassem em muitas troças do tipo da Ceroula, com orquestras magníficas e um frenesi de animação, dispensando governo, polícia e toda repressão. Há batuques, palmas e cânticos renovados. Tocam guitarras, violões, acordeões, trompetes, violinos, flautas e tambores. Há sorrisos, lágrimas, mas nenhuma dor. De repente, a hora sendo a mesma e uma só em toda parte, as pessoas dão-se as mãos e como que envolvem a Terra em um abraço. É quando se lhes informa que esse dia, esse momento compartilhado de paz universal não é um sonho. E durará para sempre.

É óbvio que uma apoteose dessa natureza não sobreviria em um mundo como o nosso dominado pelo dinheiro, em um mundo que se quer governado pelas forças brutas do mercado, em um mundo caracterizado pela exagerada desigualdade na repartição da renda e da riqueza, pela ganância impiedosa e por estruturas poderosas que agem para que tudo continue assim. Daí por que, na véspera da comemoração do Ano Novo não há como deixar de desejar que, ao contrário, por algum milagre, prevaleçam em nosso meio os valores da concórdia, da solidariedade, da sobriedade, da justiça plena, do amor. Da paz sonhada, enfim, por todas as pessoas verdadeiramente de boa vontade.


Perdão Jesus - Em 19/12/2019

De acordo com a tradição cristã, o dia 25 de dezembro deve ser considerado a mais festiva de todas as datas. Afinal, foi nela que, há pouco mais de 2 mil anos, nasceu lá longe, numa singela manjedoura, nem mais nem menos do que o Filho de Deus. Em verdade, segundo a mesma tradição, o próprio Deus feito homem. 

Ao longo de minha vida tenho feito intimamente reparos à crença de que o nascimento de Cristo seja motivo para comemorações, entre as quais a de se matar perus para enriquecer nossas ceias natalinas e trocar presentes. Sempre que penso no nascimento de Jesus, no começo de sua peregrinação pela terra, não me liberto da lembrança do que lhe aconteceu dali para diante e como seu desfecho foi tão dramático. 

A meu juízo, o nascimento do menino nazareno marcou o início de uma das mais penosas existências de que a humanidade tem notícia. E, por mais que me empenhe em contrário, não consigo vislumbrar no princípio de uma história tão penosa, tão trágica, algo que possa ensejar qualquer motivo para festejos. Ao contrário penso. O acontecimento deveria ser lembrado com um silêncio geral, envergonhado, com um ato de contrição universal que pudesse traduzir ao menos em parte nossa reprovação aos crimes que nossos longínquos antepassados cometeram contra aquela sublime figura que legou à humanidade as mais sábias lições, os mais comoventes exemplos e as mais tocantes palavras de amor, de concórdia, de solidariedade, de fraternidade que conhecemos. Etc. 

É mais ou menos isso o que me ocorreu escrever para hoje, numa tentativa de esconder outros pensamentos e emoções que me assaltam a cada passagem do Natal. E sobre o assunto vou ficando por aqui, embora veja que ainda me restam mais algumas linhas para preencher este espaço, o que me impõe este dilema: o que fazer dele? Pedir perdão a leitores que eventualmente discordem do que disse até aqui ou tentar encontrar e reproduzir um belo trecho de louvor natalino produzido por autor de muito engenho e formosa arte? 

Na dúvida, faço uma pausa constrangedora para mim. E o único questionamento que me ocorre no momento é este que me atormenta desde há muito: com quais intenções Deus criou os homens, sabendo de antemão que, depois, na tentativa de tirá-los do mau caminho, teria de enviar seu próprio filho à terra para ser tratado, morto e crucificado como foi?...

Perdão, Jesus. E feliz Natal. 


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