Observador Participante

Tudo como dantes - Em 11/05/2019

Pouco a pouco, o Brasil vai voltando às práticas que se anunciaram caminhando para a extinção. Jamais veríamos a repetição do toma-lá-dá-cá enraizado em nosso cenário político. Também a prevalência de um - o Executivo - sobre os demais poderes republicanos seria de vez extirpada de nosso receituário oficial. Muito menos a partilha dos cargos mantidos com a contribuição dos cidadãos permaneceria atrelada aos mais condenáveis interesses. Enfim, foi prometida uma nova era aos milhões de brasileiros que foram às urnas, em outubro passado. Não ficou de fora das promessas a substituição de critérios ideológicos na designação de ocupantes de posições-chaves na administração, por outros, validadores da competência técnica e da conduta proba.

É certo que tais promessas só poderiam repercutir em mentes fortemente vinculadas ao que de pior a ideologia pode proporcionar e oferecer. No mínimo, expectativas favoráveis não teriam como ser sequer admitidas, fossem todos os eleitores suficientemente ou honestamente informados a respeito da realidade brasileira e da trajetória dos agentes políticos ou econômicos em atividade no País.

Não se pode descartar, além disso, a ingenuidade (?) com que muitos embarcam em qualquer canoa, cujos furos sejam obscurecidos pelo desencanto e o desespero. Só ao sabor das ondas ameaçadoras, alguns dos desesperados vão-se dando conta do naufrágio iminente.

É exatamente esse o sentimento que começa a emergir, nesta difícil fase de nossa república e neste momento de incerteza quanto à claudicante democracia de que vínhamos desfrutando.

Ninguém pode governar este país, tenha a qualificação acadêmica que tiver, se for incapaz de perceber a História do Brasil. Menos, ainda, se essa ignorância decorre de opção pessoal, desdenhosa do conhecimento dos fatos e dos meandros que costumam frequentar ambiente minimamente democrático.

A democracia, que Winston Churchill considerava o pior dos regimes salvo todos os demais, tem um preço. Quem se negar a pagá-lo, o mínimo que fará aos cidadãos, ao País e ao futuro, é sacrificar a liberdade, sepultar as esperanças e encaminhar a sociedade por veredas cuja opacidade traz o desassossego a todos.

Os esforços por esconder as verdadeiras razões da (anti)reforma previdenciária, por exemplo, são sinal destes tempos. Mas não os únicos. A eles se juntam as permanentes agressões às instituições sobre as quais repousa o próprio edifício republicano: os poderes Judiciário e Legislativo. Se a crise que os atinge diretamente e dá abrangência institucional ao conflito não foi inaugurada em 01 de janeiro deste ano, a multiplicação dessas agressões e a origem ilegítima de que procedem só servem para complicar o quadro. Pior, ainda, quando pessoas intimamente ligadas ao Poder Executivo tentam restaurar a monarquia, apresentando-se como membros de uma dinastia, como ocorre no regime monárquico.

A promiscuidade entre os poderes, sempre sob o pretexto de alcançar a governabilidade, ganha novos contornos, aproximando-se ainda mais do escambo político tanto e tão repetidamente criticado na campanha eleitoral. O dinheiro público continua a ser desperdiçado em benefício dos dirigentes, não da população carente de educação, saúde, segurança, habitação e tudo quanto caberia ao poder público prover. A falta de argumentos continua a gerar despesas com publicidade, como no passado, remoto ou recente.

A prometida troca de preferência ideológica na designação de profissionais frustra-se, mesmo se ideologia exige a preexistência de ideias. Até quando estas são escassas, preconceitos e fanatismo dão base às escolhas de hoje.

Para piorar tudo, transforma-se o País em um faroeste, pretextando combater a violência com mais violência. Antes, tínhamos algumas pessoas portando armas e concorrendo para fazer do Brasil um dos países mais violentos do mundo. Hoje, às armas junta-se o espírito armado de cidadãos que estão longe das virtudes desejáveis nos que governam



Nós e o tempo - em 04/05/2019

Ninguém escolhe o lugar de nascimento. O vir-ao-mundo é não mais que um acidente para cada indivíduo. Será ato de escolha ou decisão para os que o geraram e promoveram sua chegada à luz. Para o recém-nascido, o cumprimento de uma decisão. Nada mais que isso.

O que vem depois tem sido sempre obra do tempo (ah, sempre ele!), e daquilo que Ortega y Gasset chamou circunstâncias. Do primeiro não se tem certeza de como e quando começou. Pode ter sua origem no que os entendidos chamam big-bang, mas a certeza disso ainda não foi alcançada. Como toda hipótese, poderá um dia ser refutada.

As circunstâncias, moldadas ao longo da trajetória humana, impõem as mutações às quais estão sujeitas aos sujeitos que concorrem para a configuração dos cenários em que se movem. Agente e paciente de tudo o que se constrói e destrói, segue o homem sua caminhada.

Se o ato de nascer, na perspectiva individual, escapa à participação do indivíduo, o mesmo não se pode dizer de sua contribuição à construção da sociedade. Aqui, mais uma vez, e em caráter definitivo, basta o tempo passar. Não se espere que lactente, criança e muito jovem, o ser humano tenha completa percepção do mundo que o recebeu, onde quer que tenha alcançado a condição de tripulante e passageiro da nave Terra. Por isso, é necessário acumular mais vida. Somar mais minutos, horas, dias, anos, décadas à sua individual aventura de existir. Até chegar o momento em que, senhor de sua própria cabeça, dono de seus próprios sonhos, passe a decidir segundo seus próprios valores, suas nem sempre firmes convicções, seus mais próximos interesses.

Alguns baseiam suas escolhas esquecidos de sua condição. Ou porque lhes faltem informações razoáveis, ou pela contemplação obsessiva do próprio umbigo, fundam-nas no egoísmo. Abstraem-se, portanto, de sua condição social, de apenas parte de um todo muito mais amplo e complexo, comumente chamado sociedade.

Outros, cientes dessa condição, orientam-se por valores fundados na solidariedade, no amor mais que no simples respeito ao semelhante. E é no seio de uma sociedade da qual participam uns e outros, todos esses indivíduos, que as decisões são tomadas. Uma delas, a busca de mecanismos capazes de solucionar os conflitos inevitáveis entre seres diferentes. Tantíssimo diferentes, melhor dizer.

Chego a este ponto para tocar em assunto trivial, até ser alcançado o objetivo que identifico em parcela da sociedade de que participo. E que postulo menos desigual, mais solidária e pacífica.

Como tantos aqui acolhidos, nunca vi Manaus como o Eldorado, apto a satisfazer alguma ânsia de enriquecimento material. Pensei-a como a Pasárgada reescrita, em que nem a amizade do rei me bastaria. A liberdade para ser o que sou, como sou e o amor da mulher amada - valem mais que minha conta bancária. O respeito e a justa amizade dos meus contemporâneos é quanto me basta, para ter quase fastio pelas discussões que fundamentarão o pedido de prorrogação sempre em pauta. Prorrogação tantas vezes obtida, como se o mundo não avançasse e trouxesse consigo ameaças ao que envelheceu sem se dar conta disso.

Esquecemos todos de que o tempo nunca passa. Ele veio para ficar. Nós é que passamos por ele, eterno a zombar de nós.


Ventania de palavras - em 27/04/2019

No início dos anos 1970, escrevemos sobre a então infante Zona Franca de Manaus. Referíamo-nos às condições que facilitaram e determinaram sua criação aqui. Louvávamo-nos em estudo feito pelo economista francês ParickTissier, em artigo publicado no periódico especializado de seu país, a Révued'Économie Politique. O economista europeu, interessado em compreender o processo responsável pela criação de mecanismos de integração do mercado global, apontava para os fatores favoráveis à implantação deles em determinados lugares, em comparação a outros.

Minha atenção foi atraída, porque eu punha em dúvida os pretextos para a criação, em território tão afastado dos centros de produção e consumo nacionais, de uma experiência sem precedentes no País. Instigava-me, também, a frustração de outros Estados pretendentes a sediar a zona franca ou similares. Manaus acabou ganhando o páreo.

Segundo o autor francês, a ZFM era a 117ª experiência de modelo implantada no Mundo. Só isso bastaria para comprometer os promotores da decisão traduzida no Decreto-Lei nº 288. À época, sempre que os defensores da criação se manifestavam, davam a impressão de que a capital amazonense logo estaria beneficiada por uma novidade. Atribuía-se à zona franca quase caráter original. No entanto, em praticamente todos os continentes havia algo igual ou semelhante. Portos livres, plataformas de exportação, zonas de livre comércio e quejandos espalhavam-se já pelo mundo inteiro.

A análise das condições políticas e sociais desses lugares levou Patrick Tissier a reconhecer pelo menos três fatores comuns: 1. Todos estavam, quando da criação do mecanismo de incentivo à produção industrial, vivendo experiência autoritária. Os governos instalados tinham resultado de golpes de Estado e os cidadãos sofriam os constrangimentos típicos dessas intervenções. 2. A mão de obra oferecia-se fartamente, face à ausência de empregos que a mantivesse totalmente ((ou perto disso) ocupada. Aquilo que, no linguajar dos economistas, se chama exército de reserva da mão de obra. 3. O escasso sentimento cidadão e de classe, que leva à desorganização dos trabalhadores e os mantêm subordinados aos caprichos, interesses e ganância do patronato.

O Amazonas, e Manaus por consequência, viviam em pleno abandono. A crise experimentada quando a Malásia começou a produzir borracha reapresentou-se, desta vez com maior dose de dramaticidade. Era preciso fazer algo para reverter esse incômodo quadro. Desde o final da Segunda Grande Guerra, assinado o armistício com os países contendores, a Amazônia tinha pouco a oferecer como atrativo, mesmo aos países Aliados. E a economia mundial anunciava a entrada em novo ciclo. De um lado, era preciso restaurar a Europa devastada e promover o reerguimento do Japão. Do outro, poucos benefícios poderiam ser colhidos aqui.

Daí o interesse de algumas lideranças locais, em trazer para cá recursos externos, apostando em que isso teria o dom de superar o desânimo que se abatera sobre a região.

Como e onde fazer isso? Aqui dificilmente se descartará a hipótese de Tissier. Os três fatores acima enunciados eram facilmente identificados entre nós. Com a adição de uma circunstância, que nem por ser vício de origem, perde seu lugar no elenco de pretextos: a distância. Embora dado do problema, fatal como pode ser fatal qualquer fenômeno natural, a inserção da capital amazonense em área distante do oceano ainda hoje tem sido aproveitada para justificar muita decisão oficial. E, como se sabe, nunca faltou o aplauso fácil e o salamaleque subserviente aos que mandam. Sejam quem forem....

Estamos, hoje, enfrentando aquilo que muitos chamam de ameaça. Eu prefiro chamá-la

oportunidade.

O governo federal inclina-se por tornar letra morta o mandamento do artigo 40 das Disposições Transitórias da Constituição de 1988. Nele, assegura-se a manutenção da ZFM. Mas, como disse o Ministro da Economia, nem precisa tocar na Lei Maior, para extinguir a ZFM, ou deixá-la morrer à míngua...

Os motivos para liquidar o modelo aqui implantado podem não estar sendo repetidos, mas os interesses que movem a liquidação provêm dos mesmos setores.

Não precisa ser sequer profundo conhecedor de Economia (talvez até seja melhor nada saber dela), nem conhecer a fundo as potencialidades da região, do Amazonas igualmente.

Dotada da maior floresta tropical do Planeta, contando com a mais ampla bacia hidrográfica da Terra, beneficiando-se de regime de chuvas e insolação inigualáveis e somando reservas minerais ainda por avaliar criteriosamente, talvez sejamos das regiões do Mundo mais aptas a resolverem por si mesmas suas dificuldades.

Para que isso ocorra, contudo, será necessária alteração substancial e profunda na conduta das lideranças locais. Fenômeno pouco esperado, exatamente porque jamais exercitado. Os mais exaltados dos que fingem insatisfação são os mesmos que deixaram FUCAPI, CT-PIM e CBA ao desabrigo. Neles poderia estar a catapulta científica e tecnológica necessária ao aproveitamento de nossas potencialidades. Somadas às universidades públicas e ao INPA, essas instituições dariam a resposta mais adequada aos nossos graves problemas.

Ao contrário, a indiferença das lideranças políticas e empresariais acabou por fortalecer os que sempre conspiraram contra a nossa economia. Só os cegos não veem isso. E os que, porque veem demais, também não precisam enxergar.

O que foi feito quando a arrecadação da SUFRAMA foi transferida para os cofres federais? Quem se esforçou por romper as bem orquestradas divergências entre o MMA, o MDIC e o MCTI, que inviabilizaram o CBA e o condenaram à morte?

Nunca é tarde demais para fazer o mea culpa. É disso que o Brasil está precisando: a renúncia ao exacerbado egoísmo e a superação da costumeira subserviência. Sem isso, não teremos mais que palavras. Estas, o vento leva...



De volta a Montesquieu - Em 20//04/2019

Precisamos voltar à República. Ainda que jamais a tenhamos alcançado em sua plenitude ou logrado oferecer-lhe a robustez desejada, melhor seria preservar a possibilidade de chegar a tanto. Para isso, porém, muito chão há a percorrer, muita poeira há que ser levantada, muito mais há a ser aprendido.

Quando Montesquieu postulou a separação de poderes, já se tinha como certa a sabedoria de deixar claras as funções específicas de cada um dos poderes do Estado. O passado, concentrador de funções nas mãos dos monarcas, tornou-se incompatível com o avanço do conhecimento e as consequências disso sobre a sociedade. Ficou para trás a crença no caráter divino do exercício do poder. A autoridade republicana, laica e mundana, não é atribuída por qualquer dos habitantes do Olimpo ou de outra origem, que não sejam os cidadãos de determinada nação.

Ao constituir-se, os Estados modernos, em sua maioria, optaram pela fórmula do pensador francês. Quaisquer que sejam as regras específicas, de uma a outra das Repúblicas modernas, nenhuma delas supera as linhas demarcatórias do modelo proposto por Montesquieu. Se é que alguma chega a efetivá-las satisfatoriamente.

Executivo, Legislativo e Judiciário, onde quer que se tenha implantado o regime republicano, apresentam-se com características próprias, sem rompimento do território delineado na obra clássicade Charles Louis de Secondat. Em termos gerais, ao primeiro desses poderes, o Executivo, corresponde a ação resultante das determinações legais. Estas, obra do Legislativo, delimitam a autoridade dos membros do primeiro poder. Ao Judiciário compete intervir, provocado apenas, sempre que houver divergência entre pessoas, pessoas e autoridades, organizações versus organizações.

No Parlamentarismo, mesmo nele, o conjunto de funções específicas não se desfigura. Apenas o governo obedece, em sua formação e funcionamento, ritual diverso daquele adotado no Presidencialismo. Se, neste, cabe ao Presidente da República dirigir as ações governamentais, naquele tais responsabilidades cabem ao Primeiro-Ministro. Em ambos os casos, o Presidente é eleito pelo povo, diretamente.

Uma primeira diferença entre o papel do Presidente registra-se quando o Parlamentarismo atribui a ele autoridade para nomear o Primeiro-Ministro, o líder da maioria no Parlamento. Dá-se ao Presidente a alternativa de dissolver o corpo legislativo e convocar novas eleições parlamentares.

Busca-se, na fórmula parlamentarista, aumentar o grau de governabilidade, legitimando a gestão dos negócios públicos com a afinação dos executivos coma representação popular. Aqui parece-me estar a mais profunda diferença de ordem prática entre uma e outra das duas formas de funcionamento da República. Mesmo se evidentes os percalços porque têm passado alguns países parlamentaristas, isso não apaga as sucessivas crises por que passam as repúblicas presidencialistas. Parece até demasiado lembrar que muitos países têm convivido com crises desse tipo, sem que se altere o cotidiano dos cidadãos. Há como elevado grau de estabilidade nas ações governamentais, porque a burocracia estatal permanece firme em suas bases. As tendências pessoais autoritárias encontram mais amplas probabilidades de emersão e êxito no sistema presidencialista.

Uma particularidade do parlamentarismo aponta na direção de maior compromisso dos representantes eleitos pelo povo com suas promessas de campanha: a virtualidade de dissolução do Parlamento.

Dificilmente, sob o sistema parlamentar, testemunharíamos o lamentável quiproquó em que se envolvem, agora, o Poder Judiciário e o Ministério Público Federal, feito 4º. poder pela Constituição de 1988. Ê verdade que a ascensão do MPF ao patamar em que o colocou a Constituição-cidadã nada tem a ver com a questão. Seria mais fácil, todavia, observar com maior critério as especificidades dos poderes, se requisitos básicos para a escolha e nomeação dos membros do Poder Judiciário fossem obedecidos. Como está inscrito na Lei Maior.

A bem da verdade, precisa-se responder se a ilibada conduta e o notável saber jurídico estão presentes em todos os atuais membros do STF.

A tentativa de censura partida da mais alta corte de Justiça a um órgão de comunicação dificilmente ocorreria, atendidas as exigências legais no provimento das vagas do STF. Seria menor a probabilidade de envolvimento de algum daqueles magistrados em atos desabonadores. E ninguém lá teria motivo para intervir em causa própria - se não, em ato de ilegítima defesa.

Quem disse melhor sobre essa constrangedora questão, foi mais uma vez o ex-Presidente do STF, Ministro aposentado Aires Brito: poder que investiga não pode julgar, poder que julga não pode investigar.

Inadmissível, no entanto, é agredir o STF como instituição republicana que é. Nele, como em todos os demais poderes e organizações, convivem seres humanos. Como tal, dotados de vícios e virtudes. A contenção dos vícios, sua correção e a manutenção e prosperidade das virtudes é que devem merecer a atenção de todos. Só o aperfeiçoamento das práticas, sob a permanente e rigorosa vigilância da sociedade é cabível, exigível até.

Tanto se tem dito sobre a sabedoria de manter em funcionamento as casas representativas, por piores que elas sejam. A experiência mostra as desvantagens de Parlamento fechado. Nem se descarte a oportunidade que as eleições dão aos cidadãos a oportunidade de corrigirem seus próprios erros. Basta negar a recondução dos maus, trocando-o pelos que esperamos sejam melhores. Tudo isso, sem qualquer certeza de que não voltaremos a errar. Quem conhece a fundo a alma do outro?

De igual forma se há de preservar o funcionamento do Poder Judiciário, em todas as suas instâncias. Que tal reservar ao Supremo as causas que põem em questão aspectos constitucionais? Quem já se terá lembrado de garantir isso, ao mesmo tempo em que tornar férrea a obediência ao preceito que reserva às pessoas de bem - não às de bens - as togas solenes que decidem sobre a vida e a morte de cada um de nós? Pessoas de bem, neste caso, as que têm conduta ilibada e notório saber jurídico.


Gesto que falta - Em 13/04/2019

Criança ainda, ouvi dizer que de boas intenções o inferno está cheio. Na vida privada, tanto quanto na vida pública, jamais será sábio conter-se nas boas intenções e contradita-las com as ações. Uma não opera sem a outra, como se ambas representassem as faces da mesma moeda.

Em um país que construiu e cultiva consenso a respeito da complexidade das relações sociais, a ponto de fazer de sua compreensão um problema que só os experientes e profissionais conseguem deslindar, mais avulta a importância de interpretar a sentença dos nossos maiores.

Tom Jobim disse, certa vez, que o Brasil não é para principiantes. Depois dele, muitos repetiram a frase, em versões individuais. Às vezes, mera troca de palavras, como a que diz não ser o Brasil coisa para amadores. De profissionais, portanto, é que poderão vir as soluções para nossos graves e persistentes problemas.

Ao admitir alguma razoabilidade na exigência de profissionais, somos forçados a conceituar ou reconceituar a própria expressão: o que será um profissional, para muito além da teoria weberiana?

Basta ao indivíduo pertencer à estrutura burocrática, civil ou militar, pública ou privada; ter sua remuneração paga por ela e submeter-se às regras e procedimentos próprios dessa estrutura, para ser considerado profissional?

Os dias que correm estão prenhes do desmentido desses pressupostos. Ameaçam fazer ruir, portanto, o conceito weberiano e trazem de volta a velha discussão entre intenção e ação.

Muitos veem déficit no nível dos que fazem política no País. A isso estão atribuindo a confusão em que se tem constituído o governo nacional, desde o primeiro dia de 2019. A falta de conhecimento e do talento que antigos atores do cenário político revelaram parece subjazer à barafunda institucionalizada.

As decisões confusas, os recuos consequentes; o bater de cabeças entre os membros de uma mesma equipe; a intromissão de agentes ilegítimos nos negócios públicos; a renúncia à altaneria característica de nossas relações com o Mundo - tudo isso faz supor termos entregue o País a diletantes, empenhados em aprender o fazer político quando têm a responsabilidade de, por sua ação, comprovar as intenções proclamadas.

Nem se vê, lê ou ouve qualquer menção à incompatibilidade do conceito emitido pelos governantes, quando décadas de experiência não parecem ter servido para qualquer forma de aprendizado. As intenções anunciadas cada dia mais se mostram distanciar das ações que se esperaria lhes corresponderiam.

È inoportuno qualquer ato que tente diagnosticar a doença que se abate sobre a sociedade, se ela não trouxer a análise criteriosa das causas e ajude a construir hipóteses viáveis de correção. Para isso serve a democracia; disso se nutre a cidadania inspirada pelo interesse coletivo.

Se é importante considerar que as intenções não valem, se para ratifica-las as ações as contradizem, não é menor o interesse que deveríamos devotar à sinceridade com que tais intenções são proclamadas.

Muitos autores atribuem à ideologia um papel ingrato: o de esconder ou falsear a realidade. Discordando, vejo a ideologia como resultante da existência de ideias e ideais nos quais as pessoas acreditam. Pior, se o indivíduo não tem ideias.

Será que as intenções, sobretudo as alardeadas nos períodos eleitorais também não sofrem déficit - o da sinceridade?

Justo que muitos se arrependam do voto dado. Justo, ainda, que outros insistam em sua pregação eleitoral, no sentido contrário. Injusto, porém, que façamos do malogro razão para tripudiar sobre os vencidos, mesmo se pensam ser os vencedores. A história está cheia desses episódios, que Pirro não deixa esquecer.

Há pessoas cujo limite da competência (e aqui tomo emprestado o conceito de Peter Townsend, autor de Todo mundo é incompetente, inclusive você), deveria aconselhar outros caminhos, não o escolhido por elas mesmas. De qualquer maneira, louvemos o reconhecimento da incompetência, mesmo se ela já produziu efeitos maléficos sobre toda uma nação.

Falta, porém, o gesto mais digno, nessas circunstâncias. Que ele venha.


Uma necessidade premente - Em 06/04/2019

Ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, nada produzem em termos de benefício ao povo. A experiência humana tem sido marcada pelo sacrifício dos valores democráticos, e só por exceção se consegue pinçar algum resultado positivo para a coletividade.

Quando se impede os cidadãos de exercerem com plenitude os direitos atribuídos a todo ser humano, dificilmente se conseguirão resultados benéficos ao conjunto deles. Já nem me preocupa incluir neste rol o direito à vida, durante séculos considerado um direito natural. O que significa dizer: nascido, o ser humano não pode ter dificultado o desfrute do direito de viver. Nem pode tolerar qualquer gesto ou ato que prejudique o exercício desse direito.

Até aí, porém, há pouca - se há alguma - diferença entre o ser que se autoproclama superior e os outros animais. Tanto, que o maltrato a cães e gatos (para ficar apenas nos membros da fauna mais próximos de nós) é objeto de normas legais, em todos os países.

O melhor exemplo histórico dessa consideração merecida pelos animais nos foi dado pelo advogado Sobral Pinto, durante a ditadura Vargas. A base do recurso que pôs o líder comunista Luís Carlos Prestes fora das grades, o grande nome da advocacia brasileira foi buscar na Lei de Proteção aos Animais. Porque as ditaduras, onde quer que tenham deixado sua infausta marca, não conseguem distinguir o ser humano dos outros animais da Natureza.

Importa pouco se Joseph Stalin é o nome do ditador. Ou se ele se chama Adolph Hitler. Pode chamar-se, também, Augusto Pinochet, Videla, Franco, Salazar ou Médici. Há como um elo que os torna, independentemente de onde cada um exerceu seu fatídico múnus, irmãos de crença, parceiros de missão, cúmplices da mesma triste aventura que são.

È para isso que todos devemos atentar, se realmente nos interessa perseguir a democracia, resgatando-a onde ela esteja e trazendo-a para o nosso convívio.

Interessa pouco, hoje, discutir passado que não deve cair no esquecimento. Não na busca de reformular conceitos, criar novas palavras ou esconder o que toda a Humanidade já sabe. Interessa, sim, evitar retrocesso cujo interesse só anima os destituídos da mínima condição de entender o mundo, nele situar-se e contribuir para fazê-lo melhor.

Também não há de vingar a resposta comumente encontrada, quando os argumentos a favor da causa de cada um se revelam enfraquecidos: a violência, através do uso da força. Toda vez em que tal ocorre, aí se há de identificar a fragilidade do que a usa, a confissão tácita de seu próprio fracasso - como cidadão e como ser humano.

Se, passados mais de dois séculos da Revolução Burguesa que derrubou a Bastilha, ainda não se logrou criar uma sociedade marcada pela liberdade, a igualdade e a fraternidade, isso não atesta a impossibilidade de fazê-lo. Ao contrário, a frustração deve alimentar as forças que concorrerão para aproximar-nos cada dia mais do sonho dos iluministas, maior que aparente ser a escuridão.

Sem liberdade, impossível alcançar a igualdade que entreteve tantos filósofos e pensadores, em todas as partes do Globo. Tal igualdade, porém, não será produto da prevalência do egoísmo sobre a solidariedade.

Deu-se de dizer que o homem é, sobretudo, egoísta. Alguns até veem no egoísmo uma virtude, não o pior dos vícios. Certo que ele existe, não para fazer-nos reféns. Melhor que seja objeto da humana consideração, porque só assim oferecerá condições de reduzir o grau em que ocorre e tantos males causa à sociedade humana.

As ditaduras jamais lograram isso. Os exemplos, de tão fartos, nem precisam ser mencionados. Salvo se a ignorância seja tamanha, que exige dizer que o sol só aparece durante o dia.

Pode ser que a alguns leitores - reduzidos que sejam - tenha ocorrido de perguntar-se: isso tudo não é se não utopia, pura utopia? Minha resposta: imagine-se o estado do Homem não fosse sua relação estreita com a utopia! Como nos deslocaríamos pelos ares, de um lugar ao outro? Como venceríamos os vírus que ceifam a vida de tantos humanos? Como comprovaríamos serem os mesmos os genes de pais e filhos?

A utopia, portanto, não é apenas o não-lugar, mas o lugar aonde ainda não chegamos. Por que abandonar a caminhada até lá?

As ditaduras são inimigas da utopia, aqui e alhures. Não as podem ter os cavalos, as hienas, os leões. Delas precisam, como precisam do ar e da água, todos os seres que reúnem as condições a que se refere Hanna Arendt.


Nada é ( ou será) mais feio - Em 02/04/2019

Dos que dizem acreditar na democracia não se deve cobrar nem esperar menos que traduzam sua crença ou convicção em ação. Só a atividade pautada pelos valores correspondentes a esse sistema democrático consagrado na expressão de Churchill (a democracia é o pior sistema de governo, à exceção de todos os demais), atesta, ratifica e comprova a alegação.

Se desejássemos caracterizar o regime democrático, dificilmente encontraríamos papel e tempo suficientes para deixar registrados os elementos que a ele correspondem. Fiquemos, portanto, com a proclamação da Revolução Francesa, cujos objetivos ainda estão por ser alcançados - liberdade, igualdade e fraternidade.

Falar de democracia e alegar apreço por ela exige, no mínimo, a defesa intransigente do direito de todos pensarem segundo mandam seus interesses e sua cabeça. Há, portanto, planos diferentes na convicção democrática, todos imprescindíveis: no plano individual, pesam mais os interesses de cada um. No plano coletivo - e nenhum conceito de democracia é negligente quanto a isso -, não é dessa invenção grega que se trata, quando o egoísmo se sobrepõe à solidariedade.

Uma coisa é o que pensamos; outra, o que fazemos. Proclamar amor à democracia, ao mesmo tempo em que postular a limitação de qualquer dos direitos humanos ou ofender a liberdade individual não é menos que sinal de enlouquecimento,

Onde falte a liberdade de opinião, onde o cidadão tenha amputado o direito de ir-e-vir, onde os ouvidos sejam moucos às palavras do outro, aí não haverá, como jamais ouve e como, desafortunadamente, ainda não há, o menor esgar democrático.

Pior, quando a História revela os resultados do sacrifício da liberdade. Quando perpetrado, tem levado consigo milhões de vidas humanas. Já não bastam os exemplos fornecidos pelas políticas de Stalin, de Hitler, de Mussolini, de Franco, de Salazar, dos governos militares no Brasil de 1964-1985?

Mais grave, ainda, quando o sacrifício da liberdade cumpre a mais ignóbil função a que alguma sociedade é forçada a submeter-se: produzir, manter e defender, a ferro e fogo, a desigualdade social. Uns mais, outros menos, os países têm enfrentado ainda tibiamente os que se aprazem da desigualdade social e dão a ela um caráter natural que só os tolos e ingênuos, se não mal-intencionados ousam admitir. No entanto, era no sentido inverso que apontavam as guilhotinas que ignoraram cetros e palácios, talentos e habilidades pessoais. Luís XVI e Maria Antonieta, Danton e Robespierre são exemplares.

E o que se há de dizer a respeito da fraternidade? Nada menos que foi remetida ao lixo da História, porque incompatível com uma sociedade que faz da exploração de um ser humano por outro (ainda assim, suposta teimosamente tido como semelhante) o móvel de toda ação.

Reduzido à condição de fator de produção, o homem tem para os ideólogos do que está aí, o mesmo que uma folha de papel higiênico. Ou o objeto do uso desse material.

Longe da fraternidade postulada pela Revolução Burguesa, a humanidade vai-se cada dia enredando nas teias que parecem tecidas não pelo fio de Ariadne, nem pelas cordas com que Prometeu pretendia levar ao alto a pedra que lhe foi dado transportar.

Para transformar o mundo, não se há de ser conservador. As coisas boas, aprazíveis aos sentidos do Homem, enobrecedoras de sua presença no Planeta devem ser conservadas. Como conservar, porém, o que destoa da verdadeira condição humana? Ou, se somos criacionistas, como admitir que o Criador determinou a desigualdade e fez dela motivo de enlouquecido culto?

Por isso, impactou-me a leitura de um livro, obra de uma ucraniana, mais tarde laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, 2014. Refiro-me Svetlana Aleksievitch e sua obra As últimas testemunhas.

O livro tem como material nada mais, nada menos, que extratos de depoimentos prestados por pessoas que, na infância, passaram pelos horrores da guerra. A autora refere-se à Segunda Grande Guerra e colhe as impressões, sentimentos e traumas sofridos por contemporâneos infantis daquele conflito armado.

As atrocidades que os soldados do Eixo, os comandados por Adolph Hitler em especial, impunham às populações submetidas só não causam horror àqueles que, destituídos da condição humana (ou, quem sabe, porque humanos são?) dão à vida de seus semelhantes o valor de uma caixa de fósforos. Ou de um caixote de balas.

Hoje, em muitos países, é chocante ver-se quanto a intenção de conservar o que desonra a espécie humana ameaça retroceder aos tempos em que isso parecia louvável. Não basta a esse tipo de pessoas sentir-se bem no ambiente hostil dos nossos dias. É preciso recuar no tempo e de lá trazer de volta a indignidade como selo de qualidade dos homens.

Escrevi um texto, apreciando o que lera em As últimas testemunhas. Não contente, repeti a autora, só que descobrindo Poesia mesmo no horror da guerra. E juntei trechos de cada depoimento, juntando-os segundo as limitações do meu parco talento poético, em capítulos que se referem ao conteúdo do texto: Amor, Horror, Infância, Fome, Compaixão, Memória e Poesia.

É meu tributo a estes dias nada alvissareiros.


Nossos patriotas - Em 23/03/2019

Nestes tempos de globalização, poucos entendem necessário promover a atualização de conceitos e suas respectivas práticas. Quando já distamos algumas décadas da guerra fria que impediu o confronto direto e armado entre as nações hegemônicas em cada lado do Mundo, muitos parecem ignorar as consequências disso. Talvez outros tantos sequer se tenham dado conta do novo clima político e estratégico construído no Planeta. Logo, impossível falar dos efeitos de mudanças que foram - e ainda são - incapazes de perceber.

As fronteiras físicas se dissiparam ou perderam qualquer sentido, quando os capitais ganharam asas e romperam outras fronteiras - as políticas e ideológicas, de preferência. Por isso, a volatilidade desses capitais, que garante seu trânsito acelerado entre os espaços dos antigos mercados nacionais. Porque mesmo esses - talvez a face mais evidente da globalização - impõem enorme dificuldade a quem os pretende situar geograficamente. Melhor explicação não haveria, se não dispuséssemos do surgimento das empresas transnacionais. Delas parece impossível traçar o perfil ou definir a identidade. Pelo menos, a respeito de sua localização e área de atuação. Elas são, na aldeia global, igualmente globais.

Dentre os muitos conceitos ligados ao fenômeno transformador das relações internacionais, os de pátria e soberania atraíram sobre si efeitos ora danosos, ora favoráveis. Ninguém haverá de deplorar a facilidade de comunicação, devida sobretudo às conquistas da tecnologia. Comunicação, diga-se, de bens e pessoas, tanto quanto de informações - e valores e comportamentos, também.

Não são esses, apenas, os âmbitos afetados pela crescente aproximação entre as nações e suas respectivas populações. Enfim, a aldeia global se instalou entre nós, em que pese não haver consciência disso sobre a vida dos seres humanos, onde quer que estejam. Deixa-se, portanto, de aproveitar e generalizar os bons resultados da globalização.

Talvez aí, o medo de superar conceitos tradicionais ou aproximar-se de um globo sem fronteiras e livre da desigualdade impeça aproveitar o que o avanço tecnológico conquistou.

Neste particular aspecto, o Brasil parece tirar de letra. Enquanto muitos posam de patriotas, confessam sua submissão a outras potências. A afirmação de que a soberania nacional deve ser preservada não os impede de aceitar a direta e impositiva intromissão estrangeira em nossas decisões.

Certo que a autodeterminação, como era vista e praticada no passado, já não encontra lugar no mundo. Isso não quer dizer, condenação à situação submissa como uma fatalidade. Menos, ainda, quando se trata de uma nação como o Brasil por todos os títulos assentada sobre uma das maiores áreas territoriais dos antigos Estados nacionais: nossa diversidade climática, biológica, florestal, florística tem tal peso no ambiente, que alterações na Amazônia repercutem em toda a Terra. Nossa rede hidrográfica não é menos importante, nem exauriu o potencial de que é dotada, em especial quanto à pesca, a piscicultura, a produção de energia, para ficar nas mais evidentes vantagens. Nossa população, ainda predominantemente jovem, se favorecida pelo bom ambiente escolar e acadêmico, terá tudo para transformar as potencialidades de que tolo ufanismo tanto fala, em produção de melhor qualidade de vida para todos e não apenas para reduzido segmento populacional.

Nada disso parece objeto da consideração de nossos governantes. Ao contrário, o que se tem visto é absoluto desprezo pelas características apontadas.

Quando, porém, se afirma que o Brasil está acima de tudo, o menos que se poderia esperar é a conduta subserviente e deslumbrada diante dos que se pensam donos do mundo.

Ah, esses nossos patriotas!...


Circunstâncias da tragédia - Em 17/03/2019

Quando a discussão séria e respeitável dos problemas é substituída pelo uso de armas, não são apenas a democracia e seus protagonistas que perdem. Perde toda a humanidade.

A tentativa de superar as dificuldades especialmente se estas resultam da desigualdade, transformando-as em caso de polícia, não conduz a qualquer desfecho positivo. Essas considerações, todavia, passam ao largo não apenas dos que têm sobre os ombros as responsabilidades do Estado. Elas não frequentam, um segundo sequer, as mentes dos que instalaram as autoridades nos gabinetes, a elas atribuindo o poder e, igualmente os deveres inerentes à esfera governamental.

O trágico episódio ocorrido em escola do interior paulista não foi o primeiro, podendo-se apostar que não será o último. A morte de pessoas entregues às suas tarefas diárias - ensinar e aprender, no caso da Escola de Suzano - junta às que morrem de doenças ou ataques repentinos, as vítimas da violência que só a desigualdade sabe produzir. E a desigualdade, sabe o mais ignorante dos animais ditos superiores, não pode ser combatida com armas. Estas só têm validade em casos excepcionais - a guerra, por exemplo, a mais estúpida das iniciativas de que o homem é capaz. Em todos os demais casos, o uso de armas como método de resolução de problemas incide em uma das duas situações: a debilidade dos argumentos ostentados por uma das partes em conflito; ou a confissão clara e contundente da própria incompetência.

Atribuir-se ao governo instalado no Planalto desde 1 de janeiro qualquer culpa pelo ocorrido na cidade paulista, mais que injusto, é tolice intolerável. Imaginar, porém, que os anúncios ventilados desde a Praça dos Três Poderes reduzirão a violência, mais que injusto e tolo, incide em delírio. E, como tal, absolutamente avesso à realidade.

Mais armas levarão à multiplicação de atos como os que interromperam a vida dos alunos e funcionários da escola de Suzano. Ninguém compra e porta uma arma de fogo como quem compra uma imagem do santo de devoção. Ou um quadro pintado a óleo ou aquarela. Se estes servem para os momentos de oração ou de contemplação estética, nem religião nem arte inspiram o uso de um revólver ou pistola. Para ficar nos mais discretos desses instrumentos de guerra e crime.

O mínimo que se pode dizer a respeito da facilitação da compra de armas e de sua detenção pelo cidadão comum é que transfere para cada indivíduo uma responsabilidade do Estado. A este é que cabe garantir a segurança dos habitantes de uma cidade. De qualquer cidade. Para isso, todos pagam impostos (excetuem-se os que tiram dos cofres públicos o que a maioria leva a esses mesmos cofres); para isso a maioria abre mão de parte de seus (predominantemente parcos) salários.

Dentre as funções tipicamente de Estado a prestação de serviços de segurança pública é elencada. Isso significa a impossibilidade de transferi-la a terceiros, mesmo se a prática das milícias e a tolerância em relação às suas atividades às vezes contem com o olhar indiferente das autoridades. Quando não a cumplicidade e a aliança, ostensivas ou não.

Ontem, jovens morreram porque estudavam. Professora e auxiliar da escola morreram quando cumpriam obrigações de interesse de toda a coletividade. Dois jovens, igualmente, morreram, sabe-se lá por que razão. Da mesma forma como se desconhecem as razões que os levaram a reproduzir o exemplo dos Estados Unidos da América do Norte, são ignoradas as razões pelas quais se tornaram amantes de armas e admiradoras de solução tão infausta. Para os seus e para os outros.

Imagine-se o sentimento das famílias dos dois jovens, que certa imprensa vê apenas como assassinos. Sim, eles praticaram um crime. Esse é o fato. É preciso, porém, avançar um pouco nas considerações sobre o acontecimento, sabido que o homem é produto do seu meio.

Tanto quanto pode alterar o meio em que vive, de que a degradação ambiental flagrante é testemunho, o homem sofre a influência do ambiente, social sobretudo.

Não cabem comparações relativas à dor sentida pelos que perderam filhos e parentes, causados pelo ato insano dos dois atacantes. Nem esquecer que os pais destes perderam os seus filhos, também. Pior: depois de cometerem um ato que os terá abalado para o resto da vida. Pais e mães, portanto, estão unidos pelo mesmo sentimento, pela mesma perda e pela irreversibilidade da situação.

Enquanto não atentarmos para o que disse Ortega Y Gassett, a respeito do homem - ele é ele e suas circunstâncias - teremos pouca chance de chegar a bom porto. Restaria apenas abrir mais cemitérios.


Tartamudos e bobos da corte - Em 09/03/2019

Estes tristes tempos que vivemos atribuíram caráter obsessivo à inovação. Toda e qualquer sugestão, para ganhar legitimidade e apoio, arrima-se em jargão a que nem mesmo as autoridades públicas se acham capazes de resistir. É como se a troca de palavras, às vezes o sepultamento de algumas delas, substituísse o fenômeno. O fato sendo apagado pela linguagem. A narrativa do nada.

Pior, porém, quando certa tendência à subserviência e à submissão preponderam. Nesse caso, vocábulos estrangeiros acabam por tentar nomear e definir coisas e relações que são exclusivas do patrimônio histórico e cultural de alguma nação.

Já não bastam os riscos próprios da transformação do Planeta em uma aldeia global, vários são os fatores que se agregam a essa nova tentativa de submeter os povos, distantes que estejam, longínquas as paragens onde se reúnam seus nativos.

Um dos termos que praticamente as gerações mais jovens ignoram é a palavra tatibitate. O dicionarista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira o define como : 1. Que ou aquele que fala trocando certas consoantes. 2. Gago ou tartamudo. 3. Muito acanhado, apatetado, inhenho. (Editora Nova Fronteira, 1ª edição, 15ª impressão, p. 1.357). Gago ninguém desconhece o que significa. Tartamudo, porém, não desfruta da mesma popularidade. Para o mesmo dicionarista, é aquele que pronuncia as palavras a custo, entaramelado. É preciso, pois, esclarecer ainda mais o conceito, para deixar claro o que significam entaramelado e inhenho, constante da primeira citação acima.

Comecemos por inhenho, do qual se diz ser indivíduo muito acanhado, palerma, imbecil, pateta, decrépito. Já o entaramelado é o que embaraça a fala, a língua; titubeia, emaranha-se, enleia-se. O dicionarista sequer faz referência à pobreza vocabular do tartamudo, que agravaria ainda mais o tatibitear (o verbo também dicionarizado) do orador.

Conhecem-se pessoas cujo universo vocabular talvez não reúna mais que 500 palavras. Nesse universo, muitos profissionais das comunicações podem ser incluídos.

Do homem público, pela natureza e importância da função que exerce e por ter relação com a sociedade, o mínimo que se pode exigir é o uso da língua nacional e de linguagem a que todos tenham acesso, letrados ou analfabetos. Às vezes, é mais educativo manter silêncio que disseminar termos e formas de expressão incompatíveis - primeiro, com a realidade da situação retratada; depois, com a dignidade da audiência. O silêncio, neste caso, se não atesta a honestidade de propósitos, pelo menos dá sinal de alguma inteligência do falante. (Ou não-falante).

Não é à toa que muitos líderes políticos, empresariais e científicos dedicam-se ao estudo da língua nativa e de línguas estrangeiras. Sabem eles quanto isso ajuda na construção de conceito positivo a respeito deles e do país onde nasceram. Talvez o sentimento de patriotismo devesse começar por aí, respeitadas as restrições que o processo de globalização opõe às concepções e a conceitos avelhantados.

Quanto menos bem dita seja a palavra, mais confusão se há de estabelecer no seio da sociedade. A experiência o tem revelado e os exemplos, em que pese a advertência dos societários, são mais frequentes do que os avanços tecnológicos e as técnicas educacionais justificariam.

O resultado dessa absoluta incompetência para dizer o que supostamente se desejaria dizer é a descrença até dos mais fervorosos apoiadores de qualquer pessoa aspirante à legítima e respeitável liderança.

O resto é o arbítrio, a imposição de verdade única, sustentada à distância de saudáveis relações sociais e de clima que leve ao respeito do líder. Ao final, reconhecido apenas como um impostor ou um bobo da corte.


Barbárie - Em 01/03/2019

Mais se aprofunda o processo de globalização, menos o fenômeno é entendido. Mesmo nos ambientes acadêmicos e em outros supostamente bem-informados, permanecem vivos valores e condutas repelidas pelas novas formas de relacionamento entre os países e as comunidades respectivas. Prestes a ingressar na segunda década do terceiro milênio, a aldeia global enfrenta resistências impossíveis de imaginar, quando a explosão da informática apenas começava.

O resultado é que os problemas parecem ter-se multiplicado e agravado. O ser humano dos tempos atuais parece ter apagado tudo quanto veio antes dele, como se não houvesse uma trajetória histórica a observar.

Nesse particular aspecto, as duas grandes guerras, o colonialismo, a utilização da geografia como certificado de propriedade de extensas regiões, a guerra fria e o desfazimento da chamada "cortina de ferro" tendem a ser esquecidas. Propositalmente, diga-se, a bem da verdade.

Os mesmos que saudaram a derrubada do muro de Berlim fazem coro aos que tentam construir um muro entre o México e os Estados Unidos da América do Norte.

Avaliar os males causados à sociedade humana por aqueles - e não só eles! - fenômenos tende a ser uma probabilidade permanente. Por isso, os arranjos políticos e a conduta ofensiva ao direito dos povos continuam a perpetrar-se, deixando transparente o descompasso em que se vive.

A divisão do globo terrestre entre as nações mais poderosas, em que pese a aparente eliminação do colonialismo, levou-nos à guerra fria. Os dois polos de poder trataram de preservar suas colônias, seja qual for o nome dado às relações de subordinação em que mantiveram seus satélites (supostamente) nacionais.

De que terá adiantado a alguns países da África superar seu estatuto colonial, se outras formas de dominação surgiram? Para que terá servido o sangue derramado nas duas guerras, se é vergonhosa por suas dimensões, a fome que grassa no mundo?

Pior: quando se pode imaginar o triunfo de uma organização capaz de pôr em prática o ideal da Terra como pátria de todos, os manda-chuvas oficiais enveredam por caminhos absolutamente indesejáveis. Pelo menos, para os bilhões de famintos e para outros que, sem sentir fome, julgam o ser humano diferente dos animais chamados inferiores.

O fracasso da Liga das Nações e da Organização das Nações Unidas muitas vezes tem desanimado mesmo os bem-intencionados. Como a dar razão ao velho e conhecido aforismo: de boas intenções o inferno está cheio.

Nem por isso, todavia, o melhor será insistir nas causas desse fracasso ou desdenhar da melhor hipótese: uma globalização que não se ponha exclusivamente a serviço do lucro e do enriquecimento que sacrifica a maioria.

No início do século XX, o cineasta Charles Chaplin afirmava que a sociedade humana estava carente, muito mais de sentimentos que de tecnologia. Se esta é capaz de resolver muitos dos problemas com que se defronta a sociedade dos homens (e mulheres, acrescentaria um escriba pouco versado na língua de Camões e Saramago), não tem a mesma eficácia, quando se trata de subordinar-se às carências de todos, não apenas dos que a detêm e controlam.

Assim, mais se avança na criação de réplicas eletrônicas do homo sapiens, mais se impõem sacrifícios ao homem comum. Aquele que, portando sonhos e aspirações como todos os demais, não tem sequer a oportunidade de tentar realizá-los. Ao contrário, o cotidiano revela sempre e em movimento ascendente, sua exploração.

A promessa de substituir o trabalho humano pelo uso de máquinas eficientes e oferecer oportunidade de satisfação pessoal e crescimento intelectual e cultural das pessoas produziu, mais que tudo, o número de desempregados registrado em quase todos os países. Não só nos países que cumprem o papel de reserva de riqueza para os mais fortes. Os ricos também são afetados pelo fenômeno, não raro alimentador da violência generalizada.

Claro que a alguns parecerá utopia (e é bom que o seja) desejar um mundo em paz, não a paz construída segundo a máxima de César - vis pax para bellum - mas aquela que repousa no respeito ao direito à vida e a todos os demais direitos que justificaram o derramamento de sangue nos campos e montanhas da Europa.

Nunca ficou tão clara a exigência de uma decisão. Individual quanto social. A barbárie ou um mundo em paz - eis o dilema.

Conceitos em discussão - Em 23/02/2019

A globalização, ao mesmo tempo que aturde os observadores, tem comprometido seu discernimento. Se, por um lado, significa a tentativa de arrebentar fronteiras entre nações, aproximando-as e levando à consideração da oportunidade de um governo igualmente global, traz consigo o acirramento de divergências e a produção de ideias absolutamente avessas ao dito processo civilizatório. Este o outro lado da questão.

Não é apenas a ampliação no volume e no ritmo dos negócios que se registra. Aparentes mais que os outros fenômenos, os negócios parecem tomar todo o interesse dos protagonistas e dos observadores do processo. A tal ponto, que somente essa dimensão é contemplada pela análise nem sempre inteligente da questão.

Vejo a necessidade de alargar a perspectiva da qual a globalização vem sendo observada. Não basta determo-nos nas novas formas de relações econômicas e comerciais entre nações e empresas. Neste aspecto particular, tornou-se difícil até dizer da nacionalidade deste ou daquele grupo econômico, esta mesma entidade que parece ter definitivamente substituído a mercearia de uma esquina ou a quitanda da outra esquina.

Não é só nisso que a globalização interfere. Nem é inteligente imaginar que o movimento por ela desencadeado se circunscreva ao ambiente dos negócios.

As políticas públicas e aquilo que se tem chamado de governança também são afetados pelo que os franceses chamam mundialização. Talvez até esse desfazimento de fronteiras tenha sua compreensão mais facilmente captada, se atentar primeiro para o que repercute nas formas de conduzir as nações e seus respectivos povos. Conceitos também merecem a atenção dos analistas.

Desse ponto de vista, portanto, deve ser avaliado o papel da soberania. Como qualificá-la com o adjetivo nacional, se é irreversível a derrubada de fronteiras econômico-financeiras entre os estados antes ditos nacionais? Como admitir a prevalência dos interesses de um povo e governo específicos, se suficientemente comprovada a impossibilidade de autarquização total?

Já não se trata de discutir o conceito de soberania como até poucas décadas antes. Não se espere que, de um dia para o outro, uma nação decida invadir território vizinho, ferindo aquilo a que se deu o nome de soberania.

Não será com armas, em consequência, que se anulará a interferência de uma nação em outra ou de um Estado em outro. A força das armas não consegue impedir o capital na sua busca cada dia mais agressiva por lucros em outros territórios fora do seu próprio. Isso já não basta. A rigor, mostra-se absolutamente inócua a resposta militar. A não ser que os governos correspondentes detenham armas atômicas. Os resultados de um confronto em tal paridade, simplesmente elidem o problema mencionado - a globalização - como tudo igualmente que a sociedade humana construiu. Por isso, não cabe comentar o que deixará de existir.

Como evitar essa como a única saída é o de que devem tratar os que se interessam pela vida. A de cada ser humano, como a de toda sociedade, seja qual for a latitude e a longitude onde esteja instalada. Pois é sobre essas medidas que reflete o processo que nos transformou em uma aldeia global.

Como nos inserirmos no processo avassalador é a inevitável - talvez a única ou a mais importante - pergunta a ser feita. Podemos fazê-lo de forma inferior, subserviente, acovardada; ou resistir à pior das consequências - a situação colonizada um dia experimentada.


A joia e o joio - Em 16/02/2019

A pólvora foi de novo descoberta: o crime cometido em Brumadinho pela Vale ocorreu porque a empresa estava interessada em manter sua lucratividade. Dito assim, aos incautos parecerá tratar-se da primeira tragédia envolvendo a gigante brasileira da mineração. Mas não é!

A declaração nada original ocorria quase ao mesmo tempo em que um porta-voz da empresa atribuía caráter acidental ao desastre que matou número ainda não reconhecido pelas autoridades. Se depender dos dirigentes da Vale, as vítimas diretas seriam pouco mais de trezentas, 147 das quais têm morte confirmada. Mais de 160 permanecem desaparecidas. Tais números, todavia, são contestados por pessoas que conhecem a empresa e sabem do contingente de profissionais vinculados a empresas prestadoras de serviços à mineradora. Os números podem alcançar mais de setecentas vítimas, segundo essas fontes.

Há, ainda, os que alegam ter a Vale promovido estudos e levantamentos recentes, relativos aos riscos ligados às suas atividades em Brumadinho. Não há como evitar o raciocínio: somente a iminência de um "acidente" motivaria o que alguns chamam de preocupação da companhia. Não a preocupação com a vida de tantos brasileiros, muitos dos quais trabalhando para fazer a Vale ainda mais rica. E seus acionistas, repetirem os ganhos que os de sua classe sempre conseguem. Mesmo que para isso tenham que sepultar sob a lama tantos pais e mães de família, tantas mulheres, tantos jovens que se dispuseram a tornar a empresa e seus acionistas orgulhosos dos resultados.

Séculos depois de os chineses produzirem a pólvora, eis cérebros brasileiros chegando à conclusão de que o lucro a qualquer custo responde por mais esse assassinato em massa. Como se não passassem de ficção os "acidentes" ocorridos em Mariana, na mesma Minas Gerais; e em Barcarena, no Pará. Sem falar em muitos outros, agora que se ganha o direito de suspeitar que muito mais joio está misturado ao trigo, nesses empreendimentos que somam à predação da natureza o sacrifício de vidas humanas. Quase sempre, às centenas...

Foi o mesmo graduado da Vale quem insinuou a absoluta inconveniência de serem aplicadas à empresa que lhe paga o salário (jamais próximo da remuneração dos que pagaram com a própria vida a aposta na seriedade de seus patrões), as penas cabíveis. Tudo porque, ao juízo do representante da mineradora, esta é uma joia da economia brasileira. O sangue dos que morreram, portanto, vale menos que a lama que os sepultou. Sequer serve para lavar a joia que o graduado deseja preservar e pôr acima da Lei.

Pena que não se possa assegurar que outros acidentes como o de Brumadinho jamais ocorrerão. A lama, ao que tudo indica, veio para ficar e levar consigo a esperança de tanta gente...

O que é a vida humana, diante da oportunidade de ganhar mais dinheiro?


Interpretação simplória - Em 09/02/2019

É demasiado simplória a atribuição de culpa ao Presidente Jair Bolsonaro pelas tragédias registradas nos últimos dias no País. No máximo, podemos dizer dele assemelhar-se ao roqueiro Mick Jagger, conhecido pé frio.

O mar de lama que destruiu a cidade de Brumadinho, a tempestade caída sobre o Rio de Janeiro e o incêndio no Ninho do Urubu podem ser explicados, menos por sua coincidência cronológica. Em menos de 45 dias decorridos, o último ano da segunda década do século XXI, o primeiro de novo milênio, vamos acumulando motivos para achar que o que é ruim sempre pode piorar.

Não são de hoje, nem atribuíveis a este ou àquele partido, a este ou àquele governo os problemas que se acumulam. Nem parece razoável vincular nossas atuais dificuldades exclusivamente ao patrimonialismo herdado desde a carta de Pero Vaz de Caminha. Se 519 anos não podem ser comparados aos milênios contados por outros povos, é necessário lembrar quanto a sociedade resulta da vontade e da ação dos que a constituem. E quanto, hoje, o que se passa no resto do mundo tem a ver com a realidade dos países, qualquer a latitude e a longitude em que se localizem.

Talvez ninguém melhor que Geraldo Vandré soube dize-lo: quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Quando há omissão, nada ocorre se não como acidente.

Sempre que os societários se omitem, dão a impressão de isolamento. Ditada por timidez, indiferença, exagerado egoísmo ou seja lá por que motivo, tal conduta acaba por punir-nos, todos. Uns pagam com a própria vida. Outros perdem parentes, amigos, colegas ou conhecidos. Mesmo os que a princípio se pensam imunes à dor geral, um dia perceberão a cumplicidade em que incidiram. Quando nada mais há a fazer. A não ser chorar os mortos, recolher a lama e esquecer os fatos.

Aí, no esquecimento dos fatos repousa grande parte das tragédias que nos têm afligido. O perdão, nem sempre justo, não pode levar ao esquecimento, como se estivéssemos diante de cena de ficção. Ao contrário, cada fato, ocorra onde ocorrer, seja ou não objeto da historiografia, sempre será História. E influi nos tempos mais à frente.

Se esquecermos do extermínio dos judeus, pelos nazistas; se olvidarmos a crucificação de Jesus; se não tivermos olhos para ver o sofrimento imposto aos negros, aos indígenas, aos homossexuais, às mulheres e aos trabalhadores brasileiros - dificilmente seremos levados a bom porto.

Não basta, contudo, termos informações de boa fonte sobre essas questões. Desse conhecimento há de resultar uma tomada de posição, como a coroar o que pensava Aristóteles acerca da Política. Esse lugar onde se manifesta o traço definitivo de nossa condição humana: a vontade.

Assim, se nossos olhos têm que estar voltados para o futuro, construção dependente de nossa vontade e de nossa conduta, o passado nos terá deixado lições das quais cumpre jamais desdenhar.

Importa pouco mencionar que tragédias ocorrem também em outros países. Mais interessante parece determo-nos em identificar as causas e buscar comparações que permitam compreender porque as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem.

O mundo, a aldeia identificada por Mc-Luhan, tem sido varrida por tragédias, muitas delas preveníveis. Por que não se as tem evitado?

Sucedem-se planos e programas oficiais, sem que algum deles tenha conseguido reduzir a desigualdade no Planeta. Repetem-se as tragédias, sem que diminuam a violência, a fome e o desemprego.

Quem sabe não chegou a hora de nos provarmos humanos?


Enlameados - Em 04/01/2019

Pieguice, demagogia, tecnicalidades, nada disso minora o sofrimento dos que perderam parentes e amigos na tragédia de Brumadinho. Muito menos, devolve rá aos seus familiares aqueles que a incúria, a ganância, a perversidade feitas lama tirou do convívio humano. Nem menos desumano e ofensivo é o gesto da maior empresa mineradora do País, tentando cobrar o silêncio dos que ficaram.

Faz poucos dias, os investidores e aqueles que lhes dão guarda-chuvas e pavimentam o confortável tapete por onde transitam sua ganância e seu menosprezo pelo ser humano, festejavam os lucros da Vale. Quase vinte bilhões de reais- essa a monumental montanha de dinheiro lucrado, enquanto a lama formava o caudal que acabou por levar a vida de centenas de brasileiros. Não brasileiros iguais aos que os assassinaram, mas dos que ainda restam com emprego, a troco das esperanças que se esvaem. Cada dia mais - e de formas tão solertes.

O que aconteceu na cidade mineira difere em localização geográfica apenas, se comparado à anterior tragédia de Mariana. Ambas, e oxalá outras não estejam para acontecer, respondem às mesmas causas e só não trazem iguais consequências, porque a cada uma que advém, maior a agressão aos valores que se podem considerar humanos e ao ambiente de que os humanos precisam para sobreviver.

Isto tudo acontece quando a promessa de tornar mais frouxa a fiscalização das condições em que operam as mineradoras (mas não somente elas) e mais célere o licenciamento para empreendimentos inspirados pelos mesmos interesses e orientados pelos mesmos valores, desenha o cenário das próximas tragédias.

Some-se a essas tragédias que muitos ainda atribuem aos fenômenos naturais o tiroteio que tomará conta das ruas brasileiras, quando todos puderem ganhar a coragem pessoal que uma arma de fogo assegura aos tíbios de caráter e de moral. Ninguém de boa fé pode acreditar na hipótese de alguém armar-se e deixar sua arma em casa, porque se trata de posse, não de porte. Com sentido inverso no sinal, seria ignorar que milhões de veículos automotores são dirigidos por pessoas que não portam o documento de habilitação.

Quantos alegam, sempre em defesa de seus próprios maus atos, que a carteira de habilitação é menos importante que a suposta e auto-atribuída perícia para conduzir os veículos? Por que imaginar que seria diferente, em relação à posse da arma?

Nada, porém, seria mais simbólico que a enxurrada de lama de Brumadinho. Nem o cenário, o ambiente de exploração minerária, seria tão emblemático.

A lama penetra por toda parte, leva consigo as esperanças de um povo e faz a festa daqueles para quem o País sempre foi verdadeira mina. De todos os lugares brotam indícios de que a lavra ainda está por fazer-se. E haja lama!


O meu guri - Em 27/01/2019

Há muito alimento a suspeita de que os filhos são, sobretudo, produto dos pais. Não, não me refiro ao encontro dos gametas, do qual resulta um novo ser. Minha suspeita leva em conta, mais que o ser biológico, aquela entidade social, ontológica, sujeita ao processo que acaba por torná-la um ser humano.

Convenço-me, todo dia um pouco mais, de que não nascemos humanos. Ao longo de nossa existência é que vamos adquirindo a condição humana. Para isso concorre um mecanismo social a que damos o nome de socialização. (Já aqui tenho que me desculpar diante dos que abjuram tal expressão. Lamento apenas não ser a hora de tirá-los da caverna onde se hospeda toda ignorância).

Penso que o lar é o lugar em que tem início o processo humanizante. Lá são estabelecidos os primeiros contatos do novo ser com seus semelhantes e com o mundo. Lá são aprendidas as primeiras práticas e incutidas em sua mente os valores que acompanharão a criança, nas sucessivas fases de sua vida.

A cada uma dessas fases correspondem experiências substancialmente diferentes. A vizinhança, a escola, os grupos de amigos, os colegas de profissão, os companheiros de trabalho, todos esses conjuntos de semelhantes acrescentam ao ser humano percepções distintas do mundo. De suas gentes e de sua forma de ser, igualmente.

É na primeira infância, dizem os entendidos, que se firmam no pequeno ser os valores que orientarão sua conduta, quase sempre para o resto da vida. Isso não quer assegurar validade universal ou generalizada ao aforismo "tal pai, tal filho". Nem se garantirá que, em todos os casos, "filho de peixe, peixinho é". Se, do ponto de vista biológico, pode-se apostar todas as fichas em que da ova nascerá um peixe, rematada tolice é esperar que um casal de cientistas gerará uma prole de cientistas.

É certo que o convívio com pessoas diferentes propicia a recepção de informações e conhecimentos diferentes daqueles recebidos e experimentados no recesso do lar. Amplia-se, portanto, o repertório de alternativas postas diante da observação da pessoa. O bom e o mau, o feio e o belo, a audácia e a covardia, o bem e o mal - enfim, os valores que subjazem nos fenômenos observados, quando levados à interpretação do observador, se deixam influenciar pelos valores que a experiência da infância registrou. E, mais que mera marca na memória, sedimentou-se e ganhou permanência.

Há, portanto, frequente probabilidade de alteração no juízo dos adultos, sobretudo quando ele é exposto a situações diferentes das que ele terá visto representadas no palco de sua própria vida. O livre arbítrio de que é portador leva o indivíduo a escolher os valores que falam melhor à sua lembrança: os aprendidos desde o lar ou aqueles adquiridos no convívio com outros grupos sociais.

Nada disso, todavia, anula o amor de pai para filho. A probabilidade de a recíproca não ser verdadeira, é enorme. Daí ter Chico Buarque, em uma de suas mais tocantes poesias musicadas, criado a peça que dá título a este despretensioso texto.

Para um pai será sempre difícil admitir um facínora naquele corpo que um dia ele pôs no colo e que dele terá ouvido: a bênção, paizinho! Quanta dor deve ocupar o coração desse pai, confrontado com o produto que pode ter resultado de seus próprios exemplos! Admita ou não sua casa como o primeiro palco da socialização daquele que guarda identidade e semelhança com ele mesmo.


Ceticismo e cinismo - Em 19/01/2019

Há quem pense dispensável a filosofia. Afinal, nunca ninguém viu um cachorro (ou um pato) discutir sua vinda ao mundo e o fato de estar no mundo. Muito menos conjeturar a respeito da própria origem e do destino de cada um, pato ou cachorro.

Os que veem diferença entre o homem e os outros animais, no entanto, teimam e atribuir importância à Filosofia. Para esses, não terá sido vão o esforço de pensadores conhecidos desde a mais remota Antiguidade. É certo que muitos desconhecem que Sócrates, Platão e Aristóteles são apenas alguns, e dos mais importantes filósofos com que a Grécia Antiga premiou a sociedade humana.

Ouve-se muito, mesmo em ambientes onde o pensamento é escasso, referência ao célebre preceito socrático "eu só sei que nada sei". Quando essa sentença é repetida pelos que realmente podem ostentá-la sem nenhum risco de mentir, pode-se medir o tamanho da ignorância de alguém. Exatamente aqueles desdenhosos de outra afirmação de Sócrates - "conhece-te a ti mesmo" -, incapazes de conhecer seja o que for, muito menos o que está obscuro em suas mentes. (Quando o que têm sobre o pescoço sequer se sabe se contém neurônios ativos).

Os que apostam na sabedoria filosófica, porém, podem valer-se de alguns dos ensinamentos dos pensadores, sobretudo dos antigos. E deles extrair alguns conselhos e orientações para a vida. Sobretudo quando a vida parece recheada de fenômenos surreais, para cuja compreensão é exigido mais que o conhecimento vulgar.

Nos tempos ora vivenciados, há quem vá tirar nos cínicos e nos céticos as bússolas que orientarão sua conduta.

Na corrente fundada por Antístenes (sec.V a.c.), o cinismo, e na que teve em Pirro (sec.IV a.c.) sua mais conhecida representação, o ceticismo, podem estar linhas adequadas à orientação nestes tempos tão difíceis.

De tanto vermos a contradição entre o discurso e a prática, ninguém melhor que Pirro para orientar a apreciação dos fatos. Trata-se de questionar permanentemente tudo que é posto sob nossa observação, qualquer o sentido aplicado. Assim, o que ouvimos (sobretudo, isso), vemos ou de que tomamos conhecimento, primeiro deve ser tido como questionável. Evidências provadas têm que se apresentadas, do mesmo modo como Descartes exigia, para considerar verdade a proposição científica.

Nenhuma verdade o é, sem que provas sobejas sejam reveladas. Tudo a quanto falte esse requisito, deve ser objeto de dúvida.

Da mesma forma, a contribuição de Antístenes e seus adeptos, todos discípulos de Sócrates, considera virtuosa a vida, quando ela corresponde à sabedoria da natureza. Assim, melhor seria desprezar as convenções sociais, escarnecer de tudo e a toda hora e, no extremo, pôr em questão a bondade, a do próprio observador e a de todos os demais indivíduos.

Segundo consigo entender (se é que o alcanço) o significado das duas correntes filosóficas mencionadas, a saúde mental, em dias tão turbulentos e sombrios, depende em especial de sabermos interpretar os fatos obedientes a alguns dos preceitos ensinados por Antístenes e Pirro. Deste, deixando de acreditar em tudo quanto se ouve. Nas fake News, menos ainda.

Do cinismo, pode-se recomendar que seja usado com parcimônia, tanta quanta baste para não deixar o juízo apodrecer. Fingir que se acredita, mesmo quando a mentira é agressiva. Ou, talvez, o fingimento deve ter a mesma dimensão da mentira apresentada.

Em épocas como a de agora, cínicos e céticos são os únicos a assegurar a absoluta dispensabilidade de tratamento psiquiátrico.

Talvez possam ser considerados loucos pelo senso comum. Aí, não há como evitar a repetição de go dito acima, pela metade: a loucura é o sol que não deixa o juízo apodrecer. Em tempos tão podres, já é alguma coisa que o ser humano não pode dispensar.


Lágrimas e pragas - Em 12/01/2019

Se o passar dos anos traz com ele achaques jamais sentidos nas primeiras décadas de vida, não se hão de desprezar algumas vantagens atribuídas aos que têm a idade avançada. Não falo da proteção piegas concedida aos pertencentes àquela categoria que a hipocrisia chama melhor idade. O conteúdo contraditório da expressão finge ignorar as restrições à prática desportiva de algumas modalidades, tanto quanto impõe regras alimentares nem sempre agradáveis aos idosos. Velhos costumam perder gradativamente alguns dos sentidos, não sendo rara a perda decorrente de males dos quais juventude costuma escapar.

Animais da natureza, fazemo-nos humanos, mas não conseguimos fugir a muitas das condenações naturais. Uma delas, acrescentar sabedoria, desde que para tanto aproveitemos certos dons, naturais alguns, adquiridos ao longo da vida, outros. Nesse caso, o longo ou curto aprendizado concorre para que nos tornemos mais tolerantes e serenos, seja na apreciação dos fatos e fenômenos com os quais nos defrontamos, sejana conduta pessoal.

Reporto-me a esse fato corriqueiro, ao verificar a multiplicação dos antes ardorosos defensores da candidatura de Jair Bolsonaro, e sua reação, mal vencidos os primeiros dez dias de seu governo.

Antes, viam-se famílias esfacelarem-se, como produto da intolerância e do discurso malfazejo que a inspirava. Registram-se incidentes capazes de afastar parentes próximos e até então estimáveis, tudo porque uns deles admitiam seriedade e responsabilidade nas palavras do candidato afinal eleito. De nada adiantaram as advertências, quase todas baseadas nas indicações e previsões do que seria o País, uma vez governado pelo capitão excluído do Exército Brasileiro.

A reação de muitos de nós, cedo convencidos do equívoco a que a maioria se entregou, quando sábia, tomou o rumo da distância. Melhor ficar de fora do ambiente em que a mentira passa a ser tida como a verdade; a demagogia e o silêncio obstruem a análise criteriosa e a discussão sadia. Assim - e só assim - seríamos preservados de participar de uma aventura sem par na história. Do Brasil e sei lá de quantos mais países.

Hoje, testemunhamos o mea culpa envergonhado, quando o arrependido mostra não ter perdido todo o bom senso com que cada homem, em porções diferentes, é aquinhoado. Pela natureza, menos que pelo convívio sadio com seus semelhantes.

Pelo menos se há de reconhecer certa dose de honestidade pessoal, diferente da malícia e da desonestidade que o terão influenciado antes.

Admito, pois, repetido com grande parte dos eleitores de Jair Bolsonaro, certo fenômeno que levou Luís Inácio Lula da Silva ao mesmo cargo da hierarquia pública brasileira.

Posso até dar meu próprio exemplo, como sei ter sido igual o que milhões de outros eleitores sentiram, na primeira eleição de Lula. O desespero - e era isso o que sentíamos, eu e tantos milhões de eleitores - é dos piores conselheiros. Só ele transforma uma folha de papel flutuando sobre as águas do mar em segura boia, capaz de levar-nos à margem. Não fora assim, por que haveríamos de eleger Luís Inácio Lula da Silva Presidente do Brasil, desde seu ato de rendição, a Carta ao Povo Brasileiro?

Pode ter acontecido o mesmo com os eleitores ora arrependidos e envergonhados. Certa ou errada, sua escolha terá fundamento no desespero e no medo de serem praticadas por outro político, saído do mesmo ambiente em que Lula reina como o imperador do carnaval, por sua exclusividade e sua alegria, as irregularidades de que o ex-metalúrgico é acusado.

Até a esperança, portanto, traz consigo ameaças de que é bom fugir. Por esperar, acabamos distraindo-nos da cena principal. Emprestamos importância a aspectos desprezíveis, sobretudo tendo a atenção dedicada a manifestações individuais, nem sempre coerentes com os objetivos sociais, coletivos, da função política. Esquecemos, muita vez, quão afeitos às luzes das gambiarras dos teatros e tão acostumados à encenação, mais que à verdade, atuam os políticos como os conhecemos.

Ainda bem que o mundo não acaba, toda vez em que um mandato se esgota. Sempre será melhor, ainda que muita água role dos olhos dos enganados e muita praga inútil saia dos lábios que antes só encontravam palavras de louvor.


Feliz Ano Novo (se possível) - Em 28/12/2018

Quando o Presidente eleito Jair Bolsonaro pretendia fundir os Ministérios do Meio Ambiente e o da Agricultura, as primeiras vozes a rejeitar a decisão tinham em mente a perda de prestígio do setor a que se vinculavam. Ambientalistas e ruralistas acharam-se do mesmo lado, embora por motivos diferentes. Pelo menos, um dos motivos era comum aos interessados na manutenção autônoma das duas pastas: a inevitável perda de prestígio de ambos os setores.

Se, de um lado - o dos defensores do ambiente - havia a suspeita de que mais difícil ainda seria sua luta pelo respeito à natureza e a prevenção dos riscos devidos aos maus tratos a ela imputados, o outro lado atentava para a manutenção do poder de fogo que concorre para a poluição ambiental e assegura ganhos exagerados aos que promovem o intenso desmatamento. E, óbvio, promovem o acirramento da luta no campo.

A decisão final, agradando aparentemente às duas partes, não chegou a surpreender. Embora a outra parte, a mais fraca, saiba que maiores serão suas agruras, mais graves as disputas que enfrentará.

Os ruralistas, mais uma vez atendidos, ganham espaços ainda maiores que os de que desfrutam há muito tempo. Conhecendo o pensamento do Presidente e de alguns dos seus mais influentes auxiliares, sentem-se à vontade para impor os rumos da política agrária.

Aos ambientalistas, que já viam com desconfiança os propósitos manifestos do Presidente em vias de subir a rampa do Planalto, resta preparar-se para tempos ainda mais duros.

Aos trabalhadores do campo, as perspectivas não se mostram alvissareiras. Ao contrário, a pulverização sofrida pelo Ministério do Trabalho e Emprego indica o aprofundamento da crise no campo, onde o trabalho assemelhado ao do escravo já indica situação trágica. Poucas são as esperanças de que o camponês brasileiro experimentará dias auspiciosos.

A liquidação do MTE representa, mais que tudo, a visão ainda cultivada sobre os problemas sociais do País. Antes de serem avaliadas as desigualdades marcantes em nossa sociedade, tudo se reduziu a uma questão de polícia. Ou de segurança.

As contradições manifestas no pensamento e no ideário de Jair Bolsonaro só tem servido para destacar o quanto estamos flertando com soluções autoritárias. Também revela quanto o jargão de propalado patriotismo se presta a mostrar nossa inclinação pela condição de colonizado.

Se, antes, Juracy Magalhães dizia ser bom para o Brasil tudo quanto fosse bom para os Estados Unidos, hoje se observa ser Trump o grande inspirador do Presidente que se instalará no Planalto, a partir de 1º de janeiro do próximo ano.

Feliz Ano Novo são meus votos, que espero não serem tomados por ironia ou brincadeira de mau gosto.


O messias e a história - Em 21/12/2018

O messianismo é fenômeno tão velho quanto a própria humanidade. Em todas as épocas, aqui e acolá surgiram indivíduos imbuídos das melhores intenções, mesmo que elas não tivessem a sustentá-las a criteriosa avaliação das condições que poderiam facilitar a missão dos que se diziam predestinados. É quase certo que o fenômeno ocorreu a partir de quando o homem se deu conta de sua presença no mundo e das necessidades que enfrentaria em seu cotidiano.

Ou seja, o que se chamou História ainda não se iniciara, quando terão passado pela Terra missionários dispostos a purgar todos os pecados do mundo, e fazer a felicidade dos que encontravam em suas erráticas andanças.

O mais importante deles, porque teve quem contasse sua trajetória, terá sido o filho do carpinteiro José com a doméstica Maria. Tudo quanto disseram os autores dos evangelhos, se não corresponde à verdade que os cientistas julgam ter produzido, tem sua credibilidade respaldada pela fé. Já disse em texto anterior, que importa pouco discutir a verdade, quando se está diante de realidade revigorante da crença. É o caso de Jesus, que se não terá existido ou cuja descrição e testemunho não corresponderiam à verdade dos cientistas, existe no coração e na mente de boa parte dos nossos contemporâneos.

Dele se diz ter sido um messias, enviado pelo ser superior ao qual se deu o nome de Deus. Deuses, como se sabe, conhecem-se faz muito tempo. O estudo dos povos mais distantes e mais longevos o diz.

A promessa de interceder junto aos credores da fidelidade e reverência dos povos, cobrindo a Terra do maná que a todos alimentará e da restauração do Paraíso onde reinará a justiça e onde todos serão iguais tem alimentado o surgimento dos demiurgos. Assim ontem, como hoje.

Nem por isso, qualquer deles logrou realizar a missão que tanto os animou, animando tantos seguidores.

A Terra, longe de dirigir-se para a situação edênica tão buscada, cada dia mergulha mais na desigualdade e na violência. Agrava-se mais ainda a tragédia vivida pelos contemporâneos, quando fracassam as tentativas de cumprir o que o mais festejado dos messias a todos prometeu.

Nem por isso se há de esquecer a pregação de Jesus, cujos sonhos não realizados devem ter o fracasso atribuído aos que dele se afastaram, com ouvidos de mercador.



Sem Quixote - Em 14/12/2018

Um dos aspectos mais fascinantes da vida humana e da Política, por consequência, é o conteúdo simbólico embutido em toda ação praticada. Seja o mais simples gesto, tanto quanto a mais extravagante postura corporal pod dizer mais que enciclopédias inteiras.

A linguagem, assim, não reside apenas na combinação de símbolos gráficos e fonéticos, eis que pode ser encontrada sob outras formas, de que dá conta o acervo artístico acumulado pelos povos.

Seja na literatura, na pintura, na música, na escultura ou em qualquer outra forma de expressar-se, o ser humano põe-se a nu, mesmo quando utiliza disfarces. A preocupação por esconder, mais que explicitar sentimentos, crenças rui diante da observação atenta e a perspicácia dos contemporâneos.

Na Política, que atribui ao ser humano a superioridade sobre os demais seres vivos, identificada por Aristóteles, esse simbolismo nem sempre resulta do uso consciente das possibilidades do cérebro. Outras vezes, vem à tona pela ocorrência do que os psicólogos chamam ato falho.

Presente no inconsciente do homem, ocorre de expressar-se, ainda quando o agente disso não se dá conta. Aí, então, a vontade mais íntima, a crença mais abjeta e esconsa, o propósito mais vergonhoso, vêm à superfície, ajudando os contemporâneos a entender os desvãos da alma, os ocultos interesses e os pecados escondidos à sombra dos que os praticam.

O gesto às vezes aparentemente espontâne de simular com os dedos a posse de uma arma de fogo quer dizer muito mais do que poderia supor nossa vã e desatenta filosofia. No entanto, as mesmas mãos que podem afagar a cabeleira farta de uma criança podem ser as mesmas que comprimem o gatilho de um revólver. Ao afago pode suceder o disparo.

Quase sempre, o gesto mais descuidado traz consigo significado tão vigoroso, que prevalece contra a palavra empenhada, o valor proclamado, o compromisso supostamente assumido.

Reflito aqui sobre o que tenho visto e ouvido, toda vez em que os jornalistas tentam ouvir alguma palavra de paz do Presidente eleito. Difícil encontrar nelas as promessas de que o País será pacificado, sepultará as divergências acirradas durante a campanha eleitoral, encaminhando-se-pela bússola do entendimento, da concórdia e do trabalho fraterno e produtivo.

Cervantes, em sua jamais suficientemente louvada obra, pôs em certo cavaleiro da Mancha as virtudes e as fraquezas de que é dotado todo ser humano. Foi além. Mostrou quantos todos somos detentores de virtudes e vícios, boas e más qualidades. Sem o que, faleceria nossa mais frágil pretensão à humanidade.

Pois bem. Aparentemente derrotado, o cavaleiro que nunca considerarei de triste figura ainda não foi superado, quanto à busca da justiça, da solidariedade que só elas constroem com amor. Talvez porque o amor seja algo repelido nestes tempos tão sombrios, há que evitar demonstrá-lo. Fazer isso corresponderia a tornar-se frágil. A despeito de apenas isso elevar-nos à condição de humanidade tão reivindicada e proclamada.

Mas não vivemos na época de Cervantes, muito menos de Quixote. Dcontentarmos-nos com os valores traduzidos em Sancho Pança.

A mediocridade e o pragmatismo de que se recheia dão o tom de nossos tempos nada quixotescos.


Levanta, Lázaro - e anda! Em 07/12/2018

As esquerdas brasileiras têm sido acusadas de manter o pé no passado. O pensamento conservador atribui a elas todos os males que afligem o País e o mundo. Proposital e cuidadosamente esquecidas de que a queda do muro de Berlim e a implosão da antiga União Soviética levaram com elas a iminência de realizar o sonho socialista, teimam em buscar no passado os argumentos com que se pretendem proclamar arautos de novidades.

Não passa pela cabeça dos ideólogos conservadores, nem pelas de seu rebanho de seguidores, ter o mundo chegado aos problemas ora enfrentados sem que a um só esquerdista possa ser imputada a menor culpa. Desde quando se pôs fim à guerra fria, desapareceu o equilíbrio político entre as duas porções do mundo - o Ocidente e o Oriente.

As decisões impostas às nações emanaram da mesma fonte, aquela que segue exigindo sacrifícios dos povos, encontrem-se eles onde quer que estejam. Mesmo a suposta ameaça do gigante amarelo não chega a preocupar.

Transformada em um sistema econômico moldado segundo os padrões capitalistas, a China já não dá conta - nem se interessa por - rejeitar o capitalismo, chamemo-lo por esse nome ou se o ponha a trajar as vestes do neoliberalismo.

Só os cegos ou irresponsáveis poderão ver algo de comunista na China - ou em qualquer outra parte do Mundo. Mesmo os que admitem discordância vinda da Coréia do Norte, o que lhes resta de honestidade não desmentirá o papel auxiliar dessa nação, relativamente à gigante do rio Amarelo.

Isso quer dizer que, em última análise, toda análise fundada na antiga divisão do mundo, e gerida pela dinâmica da guerra fria tende a limitar-se a inócuo exercício de imaginação.

O processo de globalização e a submissão de todas as relações sociais aos negócios do mercado não podem ser ignorados. Muito menos esquecidos, quando se busca a resolução dos problemas que, anteriores à queda do muro e ao desfazimento da URSS, permanecem afetando a maior parte dos habitantes do Globo.

Assim, ao que nos interessa como habitantes desse pedaço distante dos centros de decisão, torna-se forçoso adquirir novas percepções e refletir sobre as mudanças operadas no Mundo, desde o longínquo ano de 1967.

Refiro-me, especialmente, à tolice em que se constitui reiterar gestões (até grotescas) que determinem o prolongamento da agonia da Zona Franca.

Passados mais de 50 anos de sua instalação, o que mais pode a ZFM oferecer, em termos de desenvolvimento? Nada, rigorosamente nada. Concedam-se as indulgências devidas, se um dia se admitiu, com sanidade mental e honestidade intelectual, que ela fosse de fato uma tentativa de desenvolvimento. Nunca o foi.

Não é que se trate de simples objeção à desigualdade por ele agravada. Também não vem ao caso apenas elencar o rol de problemas inexistentes no final da década dos 1960, relativamente aos ora registrados.

Mais honesto será reconhecermos todos quanto a desigualdade aprofundou-se e quanto ela tem parcas oportunidades de ser alterada, mantido o padrão de relações capital-trabalho, região-país-mundo, neste momento da história.

Se trouxermos a pelo a política econômica anunciada para viger a partir do próximo ano, aí então nossa situação se complica.

No passado, a abertura da economia nacional causou abalos capazes de serem enfrentados, inclusive com a manutenção do privilégio dos que tinham em Manaus sua mais rentável fonte de enriquecimento. Hoje, as diferenças decorrentes da globalização e a voracidade com que os investidores nos olham deixam pouca margem ao otimismo.

Quando deveríamos ter buscado caminhos alternativos e complementares, contentamo-nos com participar do banquete dos ganhadores, debaixo da mesa onde se reuniam os comensais. Bastaram-nos os restos acidentalmente caídos da mesa do farto repasto!

E o CBA , como um Lázaro prestes a deixar o leito de morte, continua com todas as suas potencialidades abertas à justa e digna exploração. Não a que vai no rumo da devastação ambiental e na exploração extrativista, mas na que se há de orientar pelo aproveitamento racional de tudo quanto a natureza põe à nossa disposição.

Se, por um lado, nada há de auspicioso nos anúncios até aqui conhecidos, pode-se ainda enxergar a oportunidade de tentar o que deveria ser tentado desde o início da primeira década deste milênio - o funcionamento efetivo do CBA.

Apoio da própria SUFRAMA não faltou, desde o surgimento do Centro de Biotecnologia da Amazônia. Interesses menores, porém, impediram-no de cumprir o objetivo para o qual foi criado.

Oxalá os constrangimentos resultantes do processo de globalização, combinados com a orientação governamental que se espera, determinem a implantação definitiva e sólida do CBA. Sem danos à natureza, nem submissão aos interesses econômicos, políticos e científicos das nações mais poderosas. O que não será tarefa muito fácil.


A melhor aposta (parte-2) Em 24/11/2018

Impossível, agora e sempre, deixar ocultos nos desvãos da memória pessoas e fatos que ajudam a compreender a conjuntura e desaconselham pressa e superficialidade nos prognósticos.

Lembremos, por exemplo, que Jair Bolsonaro iniciou sua vida política sustentado pela rebeldia, não pela identidade própria aos ex-colegas de caserna.

Tal irresignação produziu, inclusive, manifestação de simpatia por Hugo Chávez, o militar hoje responsabilizado pelos que votaram no próximo Presidente brasileiro de tentar implantar na Venezuela o comunismo. Mesmo se o comunismo parece ter ruído com o muro de Berlim.

O tosco militar e político venezuelano ganhou notoriedade quando ainda era Coronel e invadiu o Parlamento na tentativa de dissolve-lo. Depois, deu no que deu...

Também é inevitável buscar onde estão as semelhanças e as diferenças entre Jair Bolsonaro e alguns de seus predecessores, Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello, em especial.

O primeiro, com vassoura simbólica, anunciava a varrição de toda corrupção da vida política e administrativa do País. Sete meses depois, seguia para viver em Londres. Seus opositores até hoje, quase 60 anos passados, não sabem como o professor matogrossense foi buscar recursos financeiros para manter tão civilizado exílio.

Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás, em meio ao mandato passou à posição de caça. Até hoje ainda há espingardas que o têm como alvo.

O recomendável, portanto, é acompanhar a trajetória do Presidente e apostar todas as fichas na manutenção do clima democrático experimentado nos últimos 30 anos. E, respeitadas suas regras, completar o que a chamada Constituição-cidadã ainda não esgotou. As dezenas de normas por complementar dão o testemunho.

Se, ao final, ele tiver posto na cadeia todos os ladrões do dinheiro público, empregado os milhões de brasileiros desempregados, reduzido a violência, estancado a sangria do Erário em direção às contas bancárias de ínfima minoria - aí, então, quem negará o aplauso? O voto está fora, eis que Bolsonaro promete acabar com a reeleição. O grau de sinceridade com que ele o afirma dirá da possibilidade disso.

Às esquerdas têm hoje, mais que os demais segmentos do espectro ideológico, a obrigação de a um só tempo lutar em defesa da democracia e ficar de olho nos que mandam no País. Para tanto, não pode mostrar certa tolerância ou indiferença quanto à corrupção, nem à reiteração de promessas e compromissos verbais com suas bandeiras. É preciso mais.

Erradas estarão, ainda, se fecharem os olhos para o que - por mais improvável que isso seja - poderá beneficiar o povo, vindo do Planalto. Getúlio Vargas, combatido como ditador, recebeu a Presidência das mãos do Marechal Dutra e, antes de completar o mandato, praticou o suicídio. De ditador a ídolo popular foi só um passo. Depois dele, rearranjos nos negócios internacionais conduziram a maioria das nações ao estado em que elas se encontram.

Ao longo do processo, comunistas se tornaram ricos e governaram com mão de ferro, enquanto alguns direitistas se bandearam para o lado do povo.

Os políticos mineiros diriam, repetindo um dos mais conhecidos de Minas Gerais: as nuvens a todo instante se movem. Não são mais o que eram, havia poucos segundos.




A melhor aposta (parte-1) -Em 17/11/2018

Apostar no pior não me parece aconselhável, mesmo se discordamos das ideias e propostas de qualquer mandatário eleito pelo povo. Menos, ainda, quando os eleitores, os favoráveis e os adversários, só agora começam a ser informados de algumas vagas noções que o eleito revela, quanto aos rumos do País.

A rigor, a impressão marcada no espírito não apenas dos críticos, mas também dos analistas, é a de despreparo.

A forma como a candidatura do capitão R/2 foi conduzida não deixou margem à mais simples expectativa em relação ao seu governo. Nem é possível admitir o pretexto de que a fuga ao debate se deveu às condições de saúde em que se encontrava. Sua presença em entrevistas prestadas em locais que ele escolheu di-lo melhor. Curiosamente, nenhum jornalista ou opositor lembrou da possibilidade de Jair Bolsonaro participar de debates em rede, e á distância. Até reuniões científicas têm usado desse artifício tecnológico. No caso da campanha do Presidente eleito, é mais importante lembrar disso, pelo intenso, extenso - e nem sempre honesto - uso da tecnologia. A consequente influência das fake news fala mais alto.

A realidade de hoje aconselha refletir sobre os riscos que todos corremos, menos pelo evidente despreparo do eleito. Prioritário é cuidar para que não seja interrompida a caminhada democrática há três décadas empreendida.

Não, contudo, sem atentar para as circunstâncias que conformam a atual conjuntura.

O bate-cabeça frequente entre o Presidente eleito e alguns de seus auxiliares anunciados não mostra senão a perplexidade de que foram tomados, ainda no decurso da campanha. Era como se, desacreditado da hipótese de ser eleito, o ex-capitão se tivesse dispensado de aprender mais e discutir, ao longo desse aprendizado, com os que reuniria em torno de si. O que não aprendera em quase trinta anos teria que ser aprendido em poucos meses. O tempo dividido entre o computador ou o telefone, livros e documentos.

Assim, a crescente simpatia por seu nome o teria apanhado de calças curtas. Difícil descartar essa suspeita, face á necessidade frequente de impor o silêncio obsequioso. O general Mourão e o economista Paulo Guedes que o digam.

Também não têm faltado da parte de Jair Bolsonaro recuos que o tornam próximo de Michel Temer. Nem escasseiam sinais de que o padrão moral prometido dificilmente será levado à prática. Basta mencionar que o braço direito do Presidente eleito, Ônix Lorenzonni é praticante confesso do crime de caixa 2. Eliseu Padilha terá sucessor à sua altura.

Até agora, não se sabe quantos e quais serão os ministérios. A luta de bastidores não esconde a conveniência de preservar os postos, pelo que eles representam no mercado político. No caso, o alcance da chamada governabilidade é a sentença máxima.

Isso tudo tem peso relevante na administração, ainda mais quando o Chefe do Poder Executivo assumirá o cargo com experiência zero. Nem por isso, contudo, colocar todas as fichas no malogro do próximo governo é algo positivo. Não houvesse outra razão, pelo simples fato de que ele sai das urnas.

Se o povo que leva Jair Bolsonaro ao Planalto errou, só o futuro dirá. Os erros que por ventura ele cometer refletirão diretamente sobre a vida de cada brasileiro.



Chega de errar - Em 10/11/2018

10 de novembro de 2018. Estamos exatamente há 81 anos, desde que o País iniciou experiência que jamais deveria cair no esquecimento. Naquela tão longínqua quão infeliz data, era dado o golpe de Estado a que a História deu o nome de Ditadura Vargas. O Presidente da República governava após a chamada Revolução de 30, numa simulação de democracia. Simpático ao nazi-fascismo, mal combatera movimento inconsequente de 1935, preparava-se para golpear de morte o que restava de democracia no País.

A proteção paternalista ao trabalhador (exemplo dado por Mussolini), a desenvoltura com que operavam os órgãos repressores e outras medidas de caráter sobretudo nacionalista (o nazismo também fez isso) ameaçavam o Brasil de participar do Eixo. (Para lembrar os que sabem e abrir os olhos dos que não sabem). Se dependesse de Getúlio Vargas, acolitado por Felinto Muller e outros irmãos ideológicos, as glórias militares hoje festejadas seriam feitas à moda do fürher.

Para desfazer-se dos opositores, o ditador contou com os serviços de seu então Ministro da Guerra, general Góis Monteiro. Este, por sua vez, teve em um capitão - que, general, desencadeou o golpe de 1964 - decisivo e oportuno contribuinte. Ao capitão Olympio Mourão Filho foi atribuído, sem contestação assaz persuasiva, o Plano Cohen. Os que leram algum livro da história do Brasil contemporâneo sabem do que escrevo. Os que não o sabem podem procurar em bons livros, que os há em abundância.

Pois bem. Instaurado o Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, dela adveio a "constituição", logo popularizada como "polaca" Menos pela inspiração, que pelas práticas das mulheres que se dizia terem nascido naquele país europeu.

Jamais houvera, antes, regime tão ofensivo aos direitos humanos. O ódio contra os pobres, a discriminação dos dissidentes, a perseguição aos críticos, a opressão da imprensa, o cerceamento do direito de defesa - tudo isso ocorreu, como soe ocorrer quando as liberdades da democracia burguesa são eliminadas.

A união de todas as forças que execram a ditadura e rendem homenagens, e as associam, à conduta democrática, acabou por forçar a queda do então ditador. Daí veio a imposição ao governo de aliar-se às forças que lutavam contra o Eixo.

Ganha a guerra pelas forças aliadas, ganhou o Brasil: a ditadura foi posta a correr. O marechal Dutra foi eleito em eleições livres, a despeito das restrições da legislação eleitoral.

O sangue derramado pelos soldados brasileiros, contudo, dera vida aos movimentos sociais, que acabaram por derrubar Getúlio Vargas.

Vive-se hoje no mundo uma nova onda de ameaças nazifascistas. A direita ocupa cada dia mais espaço, e não apenas em países fracos ou pobres. Em grande medida, pelos erros em que reincidiram partidos, lideranças e intelectuais que se pensam de esquerda. Nem por isso, têm aprendido a combater o bom combate. Ao invés, muitos preferem embarcar nas canoas furadas dos que têm os olhos postos apenas no poder. E. em lá chegando, tratam de pôr em prática o velho e condenável ditado: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Esquecem-se esses de que, neste país tão bem aquinhoado, jamais a farinha será pouca. E que, quando aparenta ser, não é por outra razão, se não a voracidade com que ínfima minoria dotada de infinito egoísmo suga tudo e todos, para auto- beneficiar-se.

Também pesa nos mais recentes fracassos das esquerdas a amplitude com que tal conceito é classificado. Primeiro, porque não se exige de cada um dos protagonistas, líderes ou suas respectivas agremiações, compromisso expresso com a causa maior, a democracia. Depois, porque à guisa de revelar tolerância, admitimos existir companheirismo em quem não vê mais que a oportunidade de atender a seus interesses pessoais. Uma terceira, talvez o pior dos ingredientes, a incapacidade de exercermos permanente autocrítica. Daí a crítica também malfeita, ao ponto de entregar ao adversário algumas das bandeiras tão duramente erguidas.

Oitenta e um anos depois da instauração do Estado Novo - ainda é admissível errarmos tanto?


O preço - Em 03/11/2018

Sabe qualquer calouro do curso de Economia: o mercado é aquele ambiente em que oferta e procura se encontram para estabelecer o preço. Das coisas, originalmente, pois coisas são o objeto desse encontro, melhor chamado transação ou operação comercial.


Daí decorre a lei de ouro da sociedade em que o mercado ocupa todos os espaços: maior a oferta da coisa ou produto, menor o preço; maior o preço, se menos produtos sejam oferecidos.

Às sociedades em que essa norma predomina sobre todas as demais, mesmo as regras constitucionais, dá-se o nome de sociedade de mercado. Ou, ainda mais para revelar o HOMO ECONOMICUS submetendo o HOMO SAPIENS, economia de mercado.

Como a coisa mais importante de um mercado são os produtos, os artigos, os bens oferecidos para venda, tudo o mais a eles é assemelhado. Daí decorre o aforismo presente em toda forma de avaliação, tudo reduzido ao resultado do encontro procura-oferta - o preço: todo homem tem seu preço.

Ora, se também o ser humano, nada importando tudo quanto o faz diferente, tem seu preço, por que exclui-lo do mercado? Por que limitar sua participação nessa troca ao papel de consumidor ou usuário?

Se outros conceitos correspondentes à variedade e complexidade de outros papéis são eliminados, resta assemelhar casa ser humano a um objeto submetido à ideologia e às regras a ela referidas: todo indivíduo, como uma saca de feijão, uma cadeira, um caderno, um rolo de papel higiênico, é um produto. Como tal, há de sujeitar-se à lei máxima do mercado e, em consequência, ter um preço.

Decorrem da ideologia que sustenta essa percepção da sociedade muitos acontecimentos, hipócrita ou descuidadamente condenados por grande parte dos defensores da sociedade de mercado. Todos são contra a corrupção, e assim se manifestam, quando o detentor de informação privilegiada vende-a ao especulador. Em nome da família, os apóstolos dessa religião contemporânea verberam contra a mãe que prostitui a própria filha, lançam acusações contra o magistrado que vende sentenças.

Pior, veem em todo crítico da prevalência e da consideração exclusiva das leis do mercado, um inimigo a combater. Por isso a reiterada reverência a um ser por eles mesmos inventado, sempre que seus interesses estão em jogo e se torna necessário apelar para algo indefinido, feito sem carne e sem ossos, sem cérebro e sem coração: é preciso saber o que pensa disso o mercado, dizem os evangelistas desse novo catecismo.

Várias são as moedas usadas para firmar a ideologia subjacente a essa nefasta percepção, do ser humano e da sociedade que ao longo dos milênios ele construiu. Ora é o dinheiro mesmo, a moeda corrente; ora é a oportunidade de realizar rentável negócio; outras vezes é a nomeação para cargo público. Claro que, sendo apenas exemplos, as hipóteses mencionadas não esgotam as possibilidades da criatividade humana, aparentemente mais rica e vigorosa, quanto menos voltada ao interesse público.

O preço, nesses casos, depende da repercussão do ato do ser humano-objeto vendido, e do seu proveito na direção pretendida pelo comprador.


Prioridades - Em 26/10/2018

Na vida pública, como na vida das pessoas e nas famílias, o estabelecimento de prioridades tem sido uma constante. Ora mais, ora menos, dá-se à ponderação dos fatores que interferem na decisão importância maior ou menor. Sem que nunca ela esteja ausente, embora muitas vezes sequer percebida conscientemente pelo tomador da decisão. Em situações críticas, então, a necessidade impõe cuidadosa apreciação daqueles fatores, com as vistas sempre postas nas prováveis consequências determinadas pela escolha.

Talvez nenhum exemplo seja mais ilustrativo que o dilema enfrentado pelos médicos plantonistas de serviço de urgência, frente às numerosas vítimas de um acidente, mesmo tragédias naturais - terremoto, inundação, desabamento, por exemplo.

Nesses casos, mais que um cuidado profissional, a equipe assistencial tem no estabelecimento de prioridades um dever. Para Isso, terão sido ministradas orientações sobre como lidar com tais circunstâncias, agravadas pelo fato de que as consequências da decisão referem-se à vida humana. Tais orientações dizem respeito aos critérios a seguir, no atendimento das vítimas.

Em outras palavras: a análise da situação dá à equipe a prerrogativa de escolher a ordem em que os feridos serão atendidos. Talvez valha a pena lembrar que, nos casos de naufrágio, o comandante da embarcação sinistrada sempre há de ser o último a escapar. O fato de que o comandante italiano do transatlântico naufragado na região da Toscana escafedeu-se antes dos passageiros não anula a regra. Tanto, que processado e julgado, ele foi condenado.

Não é só nos hospitais e nos navios que se enfrentam situações de crise. Há que atentar, portanto, para situações que envolvem o ser humano e a sociedade por ele integrada, na imensa variedade de aspectos em que ela se apresenta.

A política não pode fugir ao âmbito destas considerações, com todas as nuances e complexidade que apresenta. Se o homem é, como disse Aristóteles, essencialmente um animal político, inúmeras e imprevisíveis serão as oportunidades de estabelecer prioridades.

No Brasil de hoje, escolher segundo critérios minimamente razoáveis significa expressar o amor pela liberdade e o direito de todo cidadão aspirar à felicidade. Nem todos a alcançarão, por motivos os mais variados. Nenhum desses motivos, porém, pode ser imposto pelo governante. Ao contrário, a este cabe gerar as oportunidades que satisfarão as necessidades de toda ordem e as aspirações de cada indivíduo.

Como se observa, a exacerbação dos espíritos trouxe-nos a polarização sem precedentes, como se fôssemos membros de hordas inimigas. A sobrevivência de uma exigiria a extinção da outra. Ou seja: a intolerância, o preconceito, o ódio e a agressividade não são ofensivos apenas a indivíduos determinados, senão que agridem o sistema de governo que Churchill considerava o pior, a não ser todos os demais. No momento, e no caso específico do Brasil, a prioridade parece clara: não interromper a trajetória democrática, conquistada não sem sangue ou sacrifício. Até porque, sem democracia a redução significativa da ladroeira generalizada jamais será alcançada. Essa é tentativa feita, entre 1964 e 1985, sem que esse objetivo tenha sido logrado.

Com democracia, no mínimo, as falcatruas podem ser conhecidas e investigadas. E seus responsáveis punidos. Sem democracia, além de os ladrões ficarem à vontade para roubar, será derramado o sangue até dos que, por boa fé, escolheram a prioridade errada.

Quem tiver amor à liberdade e se convencer de que a violência nada resolve ou ainda tiver dúvidas a respeito disso, dê uma olhadinha nos livros sobre a Revolução Francesa. Enquanto as cabeças não começarem a rolar.


Risco do bumerangue - Em 20/10/2018

Característica marcante destas eleições presidenciais, o uso das chamadas redes sociais (que prefiro chamar antissociais) mostrou quanto a tecnologia pode se prestar a interesses desprovidos de qualquer boa intenção. Festejados pela grande maioria das pessoas como a antecipação de tempos de esclarecimento e entendimento, os recursos da informática têm mostrado sua face mais trágica. As mentiras recheadas de agressão aos mais elementares sentimentos humanitários entretiveram verdadeiras multidões de apoiadores, aqui e na metrópole além do rio Grande. Se Donald Trump é uma espécie de criador do deletério e condenável uso das redes, não tardou a que no Brasil surgissem seus imitadores.

Óbvio que a imitação sempre revela as fontes de que se valem o modelo e seus clones. Nem esconde a proximidade entre os valores partilhados por ambos, criador e imitadores.

Apostando na ignorância e na absoluta falta de critérios sensatos, ostentados pela maioria dos participantes assíduos desses grupos de numerosíssimos anônimos, Donald Trump se fez Presidente daquela que os incautos consideram a maior república democrática do Planeta. A mensagem cheia de preconceitos e de ódio do magnata norte-americano reproduz-se entre nós. Pior, com o mesmo vigor e maior dose de risco para a democracia.

Se o primeiro turno das eleições brasileiras acompanhou as desonestas práticas responsáveis pela ascensão de Trump, vem-se observando o agravamento dessas práticas, tão ao gosto de Goebells.

Mais grave ainda, as ofensas à verdade agora se fazem acompanhar da suspeita da prática de crimes eleitorais, de que o uso do caixa dois é o mais frequente. Nele, como em outras oportunidades, a dinheirama investida por empresas e empresários está presente.

Complica o cenário a resposta dos adversários de Bolsonaro, o beneficiário da maléfica atuação das redes, no segundo turno. Tal resposta consiste no uso também intensivo e extensivo das redes, para fazer frente às mentiras divulgadas pelo candidato do PSL.

Sendo impossível - ou, quem sabe, desinteressante - controlar e punir os malfeitores da comunicação, não se pode descartar a disseminação de mentiras, pelo outro lado.

Nesse caso, teremos as redes como verdadeiros bumerangues eleitorais. Eleitores que têm maior sentimento cidadão não se comportam como os ignorantes e mal-intencionados. Pode-se prever, portanto, a frustração de um dos lados, aquele para os quais as práticas de Goebells devem ser condenadas.


Respeito ou chacota? Em 13/10/2018

Em tempos de globalização, imprudente tomar qualquer decisão dentro dos estritos e estreitos limites de uma comunidade aldeã. O que afirmou Mac-Luhan, com a expressão aldeia global, desaconselha ignorar as múltiplas facetas do processo que os franceses chamam mundialização.

Ao mesmo tempo em que o capital transita célere e cupidamente de nação a nação, a opinião pública rompe fronteiras e atinge e mobiliza grupos sociais cujos participantes jamais se encontrarão pessoalmente. Qualquer que seja a razão - um cataclismo, uma tragédia coletiva, uma alteração ambiental -, as facilidades favoráveis à disseminação de informações geraram um certo sentimento cidadão em toda parte do globo terrestre. Para o bem e para o mal, quase todos somos vizinhos dos acontecimentos, ocorram estes à nossa ilharga ou em uma distante Ilha oceânica.

Não é diferente, quando algum país, independente do continente em que se situa, entrega-se à substituição de seus governantes. Às vezes, o casamento de nobres de algumas nações sob a monarquia atrai a atenção de centenas de milhões de pessoas. Outras vezes, um tsunami ou uma erupção vulcânica leva o sentimento de perda e a dor, territórios afora.

Hoje, sabe-se quão atentos estão cidadãos de países da Europa e do continente americano, para o resultado das eleições no Brasil. Lá e nos demais continentes.

Disso dá conta a quantidade de artigos e editoriais dos mais lidos e conhecidos periódicos internacionais. Seja na Argentina e no Chile; seja no Canadá e nos Estados unidos; seja na Alemanha e no Reino Unido; seja na Itália e na França; seja na Turquia, no Egito e em Israel, repetem-se manifestações comprobatórias do interesse pelos destinos do Brasil. De seus mais de 200 milhões de habitantes.

Em passado recente, tínhamos alcançado posição privilegiada, quanto ao prestígio e o respeito dentre os participantes do concerto Internacional. Depois, o escancaramento de práticas ofensivas aos direitos humanos, dentre elas os atos de corrupção e os danos ambientais, fizeram-nos descer alguns degraus na consideração de nossos contemporâneos.

A eleição do novo Presidente da República, oportunidade adequada à superação dos fatores responsáveis pela perda de prestígio e respeito internacionais, parece pouco percebida, pelo menos dentro do próprio País. No máximo, põe nos pratos da balança situação incomoda e constrangedora: de um lado, candidato incapaz de desatrelar-se de um grupo que abandonou as promessas originais; do outro, um vazio de ideias que pretende resolver os problemas ao preço da democracia.

O mundo, assim, continua de olho em nós. Esta eleição, portanto, pode repor o Brasil no lugar em que já o colocara a sociedade Internacional, ou faze-lo afundar de vez no poço da chacota e no anedotário mundial.


Ontem e hoje - como será o amanhã? Em 06/10/2018

A virtual vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do próximo domingo, como o propalam seus eleitores, desencadeou avalanche de comentários nem sempre pautados pela sensatez. Se antes o ambiente político se deixava influenciar por poluição de todo tipo, a posição do capitão-deputado na fase final da campanha estimulou exercícios os mais disparatados. Não encontrei em nenhum deles o menor sinal de apreço pelo que todos reivindicam como bandeira particular - a democracia e o Estado de Direito. Nem do lado do capitão, nem dentre a grei dos outros candidatos.

Como se nossa convicção democrática só valesse quando somos os vencedores, ninguém se esmerou em afirmar que, Bolsonaro ou Haddad, Alckmin ou Marina, Ciro ou Daciolo, Meirelles ou Amoedo, Vera ou Boulos, ou, ainda, João Goulart Filho - qualquer deles que sair vitorioso só o será porque a maioria dos eleitores brasileiros assim o terá querido. Ponto.

Seria essa a única condição para eleger-se qualquer representante popular, em país que se diz e apresenta como democrático. Mais grave, ainda: que diz defender a manutenção do Estado de Direito.

Não li uma só afirmativa nesse sentido, ao menos parecida com isso.

Há unanimidade, quanto às dificuldades que o futuro Presidente encontrará, para satisfazer pelo menos mínima parte do que foi prometido pelos candidatos. Todos, sem exceção. Desde Meirelles, que deixou o País na situação de que todos sabemos, até Alckmin, Ciro, Marina e Haddad, cada um é parte do problemão com que se há o povo brasileiro e se haverá o novo Presidente.

Compreender o quadro político, descrever o cenário em que se movem os agentes - neste caso, não só políticos, mas igualmente os econômicos, acadêmicos, militares e empresariais - é muito importante. Investigar as causas por que se chegou à lamentável situação unanimemente mencionada, também. Isso, porém, parece mais exercício acadêmico. No que estará interessado o novo Presidente, por certo, é como encaminhará seus primeiros dias de governo. Quais as medidas que tornará prioritárias e como, respeitando a Constituição, vencerá as dificuldades é o que de mais importante deverá ocupar sua preocupação. E é, em última análise, o que interessa mais ao povo brasileiro.

O grau de polarização e a fúria ressentida com que muitos revelam fazer política, recomenda expectativa pouco otimista. Como crianças mimadas de quem se tira o brinquedo preferido, a maioria dos que ganham a vida exercendo mandatos populares não se dá conta das responsabilidades que a representação lhes impõe. E a que eles raramente sabem responder com maturidade. Às vezes, honestidade.

Contados e batidos todos os ingredientes, o bolo em que nos metemos não é dos mais digeríveis. O desencanto do povo com a prática política dos que se apresentam como seus representantes; a corrupção deslavada que se instalou em todos os poderes e escalões da República; a voracidade de nossas elites; a cumplicidade dos mais influentes meios de comunicação e lideranças empresariais tidas por respeitáveis; a letargia acadêmica e o aparelhamento dos sindicatos aos partidos - tudo isso compõe o infausto cenário que nos vitima e desestimula. Conhecer como esses fatores se reúnem e se relacionam, para dar na tragédia que todos experimentamos agora será muito bom. De nada valerá, porém, se não passar disso.

Ou desejamos, em plena segunda década do terceiro milênio, ver o mundo com olhos de seis décadas passadas porque pensamos que nada mudou sobre a face da Terra?

Ruim como possa ser, nem por isso carecemos de uma Constituição. Somente à luz desta será possível manter um mínimo de civilidade no processo de que todos somos protagonistas, mesmo os que não sentem isso. Vítimas somos todos - e a grande maioria já o percebeu

Passada a eleição, mesmo se houver segundo turno; seja quem for o eleito, devemos todos curvar-nos à decisão das urnas. O que não significa passar com mala e cuia para o lado vencedor. Mais que nunca, resistir será necessário, qualquer o lado em que estejamos.

A democracia agradecerá.


O bigodinho  não engana - Em 28/09/2018

Adolescentes na busca de identificar-se costumam eleger ídolos. Passam a adotar alguns dos traços que caracterizam aqueles com os quais se sentem parecidos ou desejam parecer-se. Daí a frequência com que se veem jovens com os cabelos cortados como os de Neymar, ainda que o próprio ídolo seja nessa matéria um eterno mutante.

Outros entregam seu corpo à aventura algo perigosa dos tatuadores, porque seus ídolos preenchem todos os espaços da pele com estranhos desenhos, seja a de uma salamandra, seja a de uma simples flor. Quando não é o nome da(o) parceira(o) que os inspira.

Há certa tolerância por esse processo de mimetização, que aos especialistas parece indispensável ao amadurecimento do ser humano normal. Quando, porém, a necessidade de marcar o próprio corpo com algum traço presente em seu ídolo ocorre em idade a que atribuímos a condição de adulto ao indivíduo, aí então o caso pode ser objeto da preocupação dos psiquiatras. Às vezes, da polícia. Nesses casos, a segurança pública pode estar em jogo. Em simples palavras: a sociedade e cada um dos que a compõem podem estar em perigo.

Recentemente, declarações de uma alta patente do Exército Brasileiro chocaram a comunidade dos democratas. Sem negligenciarmos o entusiasmo que o general despertou nos democraticidas. Foi por aquele anunciado, nada mais nada menos, o desejo de ver eliminados todos os livros que "não contem toda a verdade" do que ele recusa chamar ditadura. A verdade, aí, não seria mais que a interpretação pessoal do general Aléssio Ribeiro Couto, a respeito de fatos que estão contidos na já vasta bibliografia sobre o tenebroso período inaugurado com o golpe de 1964. Bibliografia que inclui desde denúncias como as promovidas pela Igreja Católica até análises subscritas por participantes de ações condenadas por órgãos e entidades de defesa dos direitos humanos, nacionais e internacionais. Órgão da ONU, dentre estes.

As declarações do oficial superior ora na reserva atestam, mais que a direitização em curso em todos os continentes, o risco iminente de o Brasil regressar ainda mais ao passado. Se um de seus colegas, candidato à vice-Presidência, anunciou o propósito de extinguir o 13º salário; e se o cabeça de chapa for eleito e cumprir a previsão de que se cercará no Ministério de outros de seus colegas, Aléssio poderá ser um deles. Imagine-se, então, quanto papel será queimado, nas fogueiras que o filme Farenheit 451 tão bem retratou.

Não é à toa que alguém imita um bigode histórico, ainda que monstruoso.


Barbárie e Civilização - Em 22/09/2018

Não me lembro de polarização igual em qualquer outra eleição presidencial. Desde a escolha de Juscelino Kubitscheck, acompanho com interesse o processo eleitoral, ora com maior, ora com menor atenção. Assim, creio não incidir em erro de percepção, ao indicar a disputa entre Lula e Collor, como o embate mais renhido, antes do pleito de outubro próximo.

A imagem construída do político alagoano tirou-o da mediocridade e do quase anonimato, transformando-o em um caçador de marajás. A forma como os grandes meios de comunicação se comportou, mais que um exercício de criatividade sem precedentes, constituiu grosseira agressão a um verdadeiro Estado democrático de Direito. À época, ainda não estavam na moda as chamadas redes sociais, não sei por que razão assim batizadas. Antissociais seria melhor chamá-las, tanta a agressão aos bons costumes e à vida socialmente sadia a que elas dão preferência.

O conteúdo das mensagens que circulam em milhões de computadores, tablets e celulares sofisticados é suficiente para revelar quanto malefícios elas causam sobrepujando eventuais benefícios. Agora, não bastam a ira e a solércia no passado ostentadas por Collor, na busca menos de destacar ocasionais virtudes do candidato, que desqualificar o adversário. Os fanáticos que se identificam com os candidatos ou lhes prestam serviço em geral orientam-se pelo ódio e pela mentira. Obviamente, por valores em nenhuma hipótese, mais distante que seja, relacionados à democracia. Muito menos, se a desejarmos correspondente ao Estado de Direito.

Hoje, a polarização chegou a tal ponto que de novo vemos ressurgir no cenário uma bandeira há muito deixada para trás, a do anticomunismo. É como se ainda estivesse em pleno funcionamento a temida União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e firme na cidade de Berlim o muro derrubado em 1989.

Assim, o que os comunistas de ontem reconhecem morto, tem nos seus inimigos os ressuscitadores. No Brasil, em especial, o assassínio em série e a tortura como instrumentos do Estado destruíram todas as organizações defensoras do regime mantido até o desfazimento da URSS. O que não foi alcançado, embora usada como pretexto, foi a eliminação das práticas corruptas, como em qualquer latitude do Planeta, potencializadas e ampliadas, sempre que as liberdades democráticas são prejudicadas.

O ambiente em que serão registrados os votos do próximo dia 7, além da polarização exacerbada, tem ingredientes inéditos. Estes vão desde a irresponsável e criminosa utilização da Internet, até pronunciamentos de autoridades, ao arrepio das normas constitucionais. Mais que isso, a subversão da hierarquia militar, este suposto valor cultuado pela caserna. Jamais seríamos capazes de supor a mínima possibilidade de um general prestar continência e obediência a um ex-membro das forças armadas de patente inferior. Com a agravante de o afastamento do oficial subordinado ligar-se a razões supostamente desagradáveis aos colegas.

Quando os militares brasileiros foram mandados à Itália para combater os nazistas, acenderam-se justas esperanças. Sua volta, vitoriosos, determinou a queda de um ditador e abriu os caminhos para a consolidação da democracia. Veio 1964 e, com ele, a interrupção do que poderia ser fase importante do que tem sido chamado processo civilizatório. O resultado está à vista de todos, com as agravantes que ninguém mais pode esconder, a despeito do esforço de alguns para transformar excrementos em ouro e fatos em mentiras.

Enfim, é muito mais profundo o dilema que as eleições de 7 de outubro colocam diante de nós: a civilização ou a barbárie.


Hábitos e intenções - Em 15/09/2018

Prospera, agora com clara manifestação de um candidato a vice-Presidência da República, a tese de uma nova Constituição. Reinvindicação apresentada desde quando a Carta Magna dita cidadã começou a fazer água, a versão hoje em voga tem como lema exatamente o valor contrário ao de todas as constituições respeitáveis: a democracia sem povo. Quem sabe até, contra o povo...

Já não bastassem as evidências do propósito de instalar um verdadeiro Estado Policial, mostra-se cada dia mais saliente a intenção de superar as dificuldades que a vontade e o talento não alcançam, com a reunião de "notáveis" para elaborar uma nova Carta Magna.

Disse-o recentemente em Manaus, o general Hamílton Mourão, companheiro de chapa do capitão Jair Bolsonaro. Para o postulante às dependências do Palácio do Jaburu, a Constituição de 1988 deve ser substituída por outra, formulada por pessoas que ele considera notáveis. É difícil saber-se ao certo se o candidato é capaz de discernir entre os notáveis e os notórios. Destes, só não sabe a conduta e suas respectivas motivações, quem passou muito tempo alheio aos problemas com que se defronta a maioria da população. Dos outros, além do que aparentam em palestras, artigos de jornal, auto-referência, entrevistas e referência de terceiros cultores dos mesmos valores (e preconceitos, será sempre oportuno e justo acrescentar), não se indaga a que interesses estão vinculados.

Trata-se, portanto, de portadores de diplomas de nível superior, aos quais se atribuem conhecimentos e saberes nem sempre atualizados ou aproximados sequer dos motivos que levam à elaboração do pacto social de que a Constituição, qualquer Constituição, deve ser a porta-voz.

O desejo maior e mais profundo - é fácil constatar - é manter o povo longe do acordão proposto.

Enquanto a Operação Lava Jato e suas consequências judiciárias têm escancarado seus reais objetivos, os passos antidemocráticos dos setores retrógrados da sociedade avançam por outro caminho, para ao final - e, infelizmente, não no infinito - se encontrarem. Uma versão perversa tantas vezes experimentada: o pacto por cima. Da vontade popular, das reais necessidades do povo e das aspirações legítimas da população brasileira.

O jornalista Reinaldo Azevedo, não mais que um liberal segundo suas próprias palavras, diz bem, na edição de hoje (14-09-2018) da Folha de São Paulo. "Tanques e togas tentam cercar a democracia brasileira" é a manchete de seu artigo.

Antes, todos saudávamos a participação de centenas de militares nas próximas eleições. Seus ouvidos teriam sido abertos para a voz do povo e, por isso, desejariam recolher o aplauso costumeiro nos desfiles militares, nas urnas que a democracia exige. Recentes pronunciamentos de graduados da caserna, todavia, autorizam fazer reparos nos conceitos iniciais a propósito da atração desse segmento da sociedade à arena política.

Uma nova contradição se coloca, estendendo a nem sempre justa generalização sobre os políticos brasileiros: o ingresso no ambiente é feito com a intenção de ajustar-se às normas e valores democráticos ou, ao contrário, foi a forma encontrada para matar o bicho conhecendo-lhe melhor os hábitos?


Pinocchio teria inveja - Em 12/09/2018

Se Gepetto presidisse as eleições, dificilmente encontraria concorrente. Sua criatura e a experiência do convívio entre eles - criador e criatura - jamais superariam, em falsidade e hipocrisia, o comportamento dos políticos brasileiros. Refiro- me, em especial, aos que buscam subir a rampa do Planalto.

O período que antecede as eleições presidenciais proporciona aos eleitores competição paralela pouco percebida (pelo menos, quase nunca mencionada), em que alguns dos competidores disparam à frente dos demais. Houvesse o prêmio Pinocchio, não haveria qualquer dúvida a respeito dos participantes do segundo turno.

Por tudo quanto têm afirmado, e pela desavergonhada forma com que o fazem, Jair Bolsonaro e Henrique Meirelles dariam enorme alegria a Geppeto. Talvez até inspirassem o artista da ficção italiana, na tentativa de superar a qualidade nada virtuosa que ele pôs no simpático boneco de madeira.

As mentiras do capitão, deputado há mais de trinta anos, mas insistente quanto a auto-atribuir-se a condição de apolítico, só não incomodam mais porque o candidato não é levado a sério. Pelo menos, pelas pessoas sérias deste País. (Que me perdoe o Lula por usar seu bordão). Muitos dos que têm acompanhado o lider da extrema direita oferecem a ele o benefício da generosidade: o quê exigir de quem não conhece os problemas de que fala, se não admitindo que ele diga mentiras?

Já o ex-Presidente do Banco de Boston diz, sem que o mais discreto rubor cubra seu rosto, nunca ter se candidatado a qualquer posto eletivo. Como se os registros da Justiça Eleitoral não permitissem encontrar o nome dele, e não em apenas uma lista, a de candidatos à Câmara dos Deputados, na legislatura 2000-2004. O segundo registro pode ser encontrado na relação dos eleitos. Pelo PSDB, ao qual serviu, após renunciar ao mandato. Para um banqueiro experiente, a Presidência do Banco Central era muito mais sedutora.

Tanto quanto transferir-se para o então PMDB renderia mais, sobretudo quando o interessado ocupa posição influente na comunidade dos rentistas.

No que se tem chamado pós-modernidade, no entanto, o que menos interessa é a verdade. Parece ainda prevalecer a máxima de velho político mineiro, que afirmava ser a versão mais importante que o fato. De mentira em mentira, vão sendo construídas carreiras políticas, ao mesmo tempo em que o cidadão incauto (não seria esta uma contradição nos próprios termos?) alimenta seus sonhos e fantasias sem nenhuma preocupação quanto à veracidade do discurso, a trajetória do candidato e os interesses que ele representa.

Talvez muitas das seis milhões de vidas judias sacrificadas por Hitler e seus sequazes teriam sido poupadas, não prevalecesse a máxima de Goebbels: uma mentira repetida à exaustão chega no ponto de ser considerada verdade. É disso que se tem valido boa parte dos políticos brasileiros, graças ao desprezo que a plateia dispensa à busca da verdade.

Muito por isso, a cada nova eleição, ouvem-se relatos de frustração, decepção e desencanto. Sequer os frustrados, decepcionados e desencantados se dão conta de que concorreram para esse mau resultado e para o papel desempenhado pelos meios de comunicação, nesse processo por todos os títulos ofensivo à democracia e à verdade.

Mencionei apenas Meirelles e Bolsonaro, pela desenvoltura com que, mais que os outros concorrentes, tentam passar como verídicas as mentiras propaladas nos meios de comunicação. Dos outros, pode ser que os eleitores se deem conta, uma vez entendido o papel deles mesmos na disputa eleitoral. O voto, em última análise, sempre será do eleitor. A confirmar o dito e repetido: todo povo tem o governo que merece. Nem sempre, dirão alguns. Mas quando o eleitor é advertido dos perigos de apostar nas mentiras e ainda assim permanece ignorante, a sentença ganha credibilidade. Ela, também.


De golpe em golpe - Em 02/09/2018

A torpeza e a originalidade (por que não admitir?) do golpe aplicado contra a Presidente Dilma Rousseff tornaram-me retardatário na sua compreensão. Demorei em considerar um golpe o que fizeram, Temer e sua corriola, pondo-a fora do Planalto. Mesmo sem considerar o efeito mais indigno da manobra: a exclusão do ex-Presidente Lula da corrida presidencial.

Em última instância, era esse, de fato, o propósito maior da maquinação, certamente urdida nos mesmos porões onde o beneficiário preferencial da derrubada de Dilma Rousseff acolhia e mimava Joesley Batista.

A pretexto de combater a corrupção, discurso que ouço desde quando Carlos Lacerda provocou o suicídio de Getúlio Vargas, o impeachment da Presidente foi apenas o tiro de largada do processo a que hoje assistimos. Bom resumo dele pode ser contido nos pontos a seguir elencados: 1. Revogação das minguadas conquistas dos trabalhadores, durante os três governos anteriores. 2. A fragilização da economia brasileira, pondo os setores potencialmente mais lucrativos à mercê dos interesses do grande capital. 3. O uso do desemprego como instrumento de busca do equilíbrio fiscal. 4. A entrega do que ainda resta de público de funções do Estado aos especuladores, nacionais e internacionais. 5. A troca do interesse nacional pela pesquisa científica e tecnológica, pela compra de ciência e tecnologia produzidas fora do País. 6. A manutenção de privilégios e subsídios de toda ordem aos que se valem dos cofres públicos para aumentar seu patrimônio pessoal ou familiar. 7. A manutenção e fortalecimento de iniciativas hoje responsáveis pela maior parte da população matriculada no ensino superior brasileiro. 8. A negligência quanto à imagem internacional do País, que nas últimas décadas experimentava prestígio jamais alcançado antes. 9. A disseminação da violência em todos os cantos, não obstante o discurso falsamente indignado e as medidas nem sempre atentas à segurança dos que dela mais necessitam - os pobres. Estes, diga-se, aumentaram, tanto quanto aumentou sua pobreza, nestes infaustos dias que vêm de 2016.

A corrupção, que teria sido o móvel da operação Lava Jato, não estancará porque apenas alguns dos acusados de a terem praticado está presa. Pode-se afirmar com grande margem de acerto que não é o ato em si que tem sustentado as sentenças condenatórias, mas os vínculos políticos dos denunciados. Lula está preso. Aécio, não. Pallocci está atrás das grades, Padilha, Moreira, Jucá continuam a ver redondo o sol.

Isso lembra muito o golpe militar de 1964. Desferida em flagrante e brutal ofensa à Constituição de 1946, a derrubada de Jango teve como pretexto o combate ao comunismo, visto como de iminente instalação no País, e a corrupção - as duas panaceias ao contrário, tão ao gosto da direita e de seus aliados, interna e externamente.

O que se viu, de lá para cá? Nada menos que o total desmonte dos focos de resistência à entrega de nossas riquezas aos capitais dos dominadores e a instituição do dano ao Erário como fundamento da economia. Não terá sido naquele período sombrio de nossa história que houve autoridade instalada em Brasília intitulada "Ministro 10%"? Quando surgiu a maioria das empresas arroladas (enroladas, caberia melhor) na mesma Lava Jato que pretexta combater a corrupção?

A tal ponto chegamos, que um político apto a alcançar tanto quanto merece seu talento, seu discernimento, sua conduta e seus valores - o cargo de síndico de um edifício -, concorrendo à Presidência da República. Com a observação de que, para chegar nesse posto, teria que mostrar eficácia e eficiência como chefe de segurança de alguma (quase dizia qualquer) boate.

Se o golpe de 1964 impediu a formação de lideranças políticas à altura dos desafios e das potencialidades do País, o de 2016 cedo mostra o que ainda teremos que superar...se desejarmos realmente ser dignos do povo que temos e das riquezas com que a natureza nos favoreceu.




Sobre as razões, nada - Em 24/08/2018

Sempre haverá a hora do arrependimento. Difícil é imaginar se esse momento, fugaz que seja, se prestará à reflexão sobre atos passados e à atribuição de culpas a quem elas cabem. Não que baste isso para controlar os ânimos ou mostrar outros caminhos aos arrependidos. Isso é questão da maior ou menor dose de dignidade de que são portadores os que pecaram.

Quantas vezes as igrejas se enchem e voltam a encher de frequentadores dos confessionários, a pedir perdão pelos mesmos pecados? Quantos deles vão buscar ali, menos que a tolerância pelo erro anterior, o direito de reincidir no erro? Se este não é o propósito de qualquer igreja, também não se pode dizer ausente na cabeça dos supostos penitentes.

Daí certa reserva com que leio e ouço críticas ao comportamento supostamente extremado de muitas de nossas lideranças políticas.

Ora se encontram matérias condenando o messianismo, o autoritarismo e o egoísmo exacerbado de Lula, não fosse o rol de crimes de que o acusam. Ora é a forma como Jair Bolsonaro encara os problemas e como se conduz na vida política, não fossem as muitas mentiras facilmente desmoralizadas que ele costuma propalar.

Qualquer dos dois que ganhe as eleições, dizem muitos dos analistas ou pseudo-analistas, levará o País a entraves em nada desejáveis. Certas análises insinuam a probabilidade de transtornos nas vias nada fáceis que esperamos possam nos levar a uma democracia sólida e respeitável. Ou seja, fazê-la chegar a patamar de que aparenta estar ainda muito distante.

O de que ninguém trata é das raízes do ambiente social de que desfrutamos hoje, quando são percorridos mais de 50 anos do infausto e mais recente golpe de Estado.

Vasculhem-se as páginas de todos os jornais, consultem-se os arquivos de todos os meios de comunicação, e não será encontrada muita matéria que busque compreender por que, tantas décadas depois, a paisagem política é ocupada, quando não pelas figuras de ontem ou algum de seus herdeiros, pelas ideias então em voga.

Das lideranças, seria redundante falar. A não ser um aqui, outro acolá, carecemos de líderes capazes de transmitir com clareza e sinceridade as inspirações que mantêm a esperança de tanta gente. Isso não se aplica apenas à direita, porque a esquerda também padece deste mal.

Para ambas, vivemos a mesma guerra fria que o muro de Berlim levou consigo, ao desabar. Tudo quanto aconteceu no Mundo, e não apenas naquela noite de 1989 na capital da Alemanha, desde 1968, passa em branco dessas supostas análises.

Olhe-se a composição do Congresso Nacional, a partir da extinção dos senadores biônicos, criatura dos laboratórios oficiais da ditadura. As alterações, de tão insignificantes, não chegam sequer a animar a menor esperança de que retornará, ainda que a níveis apenas menos degradantes, a confiança dos brasileiros em seus supostos representantes. A substituição do eleitor em geral pelos interesses de grupos específicos é a regra.

Há, portanto, superposição de representatividade, fragilizando os partidos e fazendo deles razão social de empresas voltadas ao negócio político. Neste caso, a negociação teve seu quinhão de entendimento transformado em mero negócio. O lucro ou ganho já não se traduz pelo benefício causado à população, mas pelo patrimônio enriquecido do político e seus sequazes.

Como dizer que este ou aquele deputado cometeu infidelidade partidária, se sua manifestação corresponde aos interesses ou ao ideário de uma crença ou a vinculação a um segmento econômico?

Faz algum sentido pertencer ao MDB, ao PSDB, ao PP, quando a sigla sequer insinua compromisso com certo conjunto de valores e opções realmente políticas? E os partidos de aluguel, como ficam?

Onde se podem encontrar explicações para esse fenômeno que, não sendo exclusivo do Brasil, aqui se revela em toda sua crueza e crueldade?

Repito: mais que o assassinato praticado nos porões, a tortura que acumpliciou o aparelho do Estado brasileiro com empresas nacionais e transnacionais, o que de pior a ditadura deixou é o vazio político. Ele é que incomoda e impede a nação de alcançar a posição que sua grandeza territorial e humana autorizaria.


Triste papel - Em 18/08/2018

Que Luís Inácio Lula da Silva é o político mais esperto do Brasil, todos sabemos. Seus fervorosos seguidores, tanto quanto seus mais raivosos adversários. Sem ter passagem pela academia ou por outros espaços historicamente dominados pelas elites, o emigrante nordestino alcançou posição invejada e desejada pela maioria dos que dele divergem.

Ninguém chegaria à Presidência da República em uma das mais populosas e ricas nações, após três frustradas tentativas, se não reunisse algumas características ostentadas por Lula. A primeira delas, a pertinácia em nenhum momento desmentida. Nem por isso capaz de sempre produzir os efeitos desejados por ele. Agora, ela de nada lhe terá válido, diante do propósito de efetivar a candidatura que se vê forçado a abandonar.

A outra maior qualidade do ex-Presidente é o indiscutível carisma de que é dotado. Neste caso, porém, nem sempre o portador dessa característica atenta para o potencial de risco por ela atraído. Quando deixado sem controle, o carisma pode operar o efeito que Tancredo Neves atribuía à esperteza. Dizia o avô de Aécio que, quando é muita, a esperteza engole o dono.

Um dos riscos a que Luís Inácio Lula da Silva não conseguiu fugir, para dizer o menos desairoso, foi a opção por um caminho messiânico. Pondo-se acima de todos os seus companheiros e interlocutores, nosso personagem vem colhendo resultados que não parecem constar de seu repertório de aspirações. A não ser que, ilusionista mais que líder carismático, Lula não passe de um farsante. Esta é hipótese que, com tanta coisa por apurar, não se configura como verdade incontestável.

As qualidades de Luís Inácio Lula da Silva, todavia, não escondem os vícios que, como todo e qualquer ser humano, ele traz consigo. A liderança exercida durante tanto tempo no mundo sindical, depois no espaço partidário e político, ensinou práticas pelas quais ele hoje paga alto preço.

O carisma sem rédeas levou Lula a um personalismo exagerado, a um autoritarismo sem limites. Não que a ele devam ser negadas algumas decisões louváveis, é preciso confronta-las com as dificuldades geradas por essa contraditória virtude.

Feito líder e Presidente do partido por ele mesmo criado, Luís Inácio Lula da Silva repetiu o estilo de caudilhos que se pensava definitivamente excluídos da paisagem política brasileira. Tornou-se, então, dono do Partido dos Trabalhadores. O exagero na percepção de sua própria imagem resultou, agora mesmo, em mais um dos desserviços às esquerdas.

Pelo menos em seis Estados, o personalismo de Lula causou danos que podem custar muito caro - menos ao pertinaz candidato, que ao povo brasileiro. Em Pernambuco e em Minas Gerais, mais que nos outros, as esquerdas viram desmontados arranjos politico-eleitorais que poderiam evitar o pior: a perspectiva de a disputa final travar-se entre a direita e a extrema-direita.

Difícil, diante de um cenário como esse, esquecer o papel semelhante ao que o PTB de Vargas cumpriu, desta vez cumprido pelo PT. Evitar o crescimento das esquerdas, pós-ditadura Vargas; pós-ditadura militar, agora.

Se Fernando Haddad atrair os votos que seriam do ex-metalúrgico, a hipótese acima estará vencida. Restará, portanto, a esperança de que Lula um dia será um político de esquerda. Se der o contrário, ficam sem resposta as dúvidas sobre as intenções do ex-Presidente

Esperanças podem renascer - Em 12/08/2018

Mais perto nos vemos das eleições, mais aumenta a angústia dos que não pretendem do pleito contar ganhos pessoais. Podemos imaginar que os candidatos tratam de prever as melhorias com que agradarão seus familiares, o favor aqui e acolá com o qual pagarão o voto recebido e, pior que tudo, a sucessão de passos necessários a galgar o próximo posto na administração.

O deputado estadual eleito estará empenhado em avaliar sua trajetória até a vaga a conquistar na Câmara dos Deputados. O deputado federal pensando em como concorrer à futura eleição majoritária, na vaga a ser aberta para o Senado, em 2022.

Todos, talvez rara exceção, estarão de olhos postos nos negócios que um mandato parlamentar garante. Há familiares necessitados de um emprego, como os treze milhões de brasileiros conhecidos. Há numeroso grupo de apoiadores que só esperam a hora de assaltar o butim.

Diferente é a expectativa dos candidatos à Presidência e à vice-Presidência. A maioria deles já se imagina concorrendo à própria substituição. Assim tem sido, difícil pensar em que mais tarde, pelo menos a curto prazo, será diferente.

Só que, diferente da posição dos parlamentares, aos dois cabeças da hierarquia do Executivo compete o manejo do chicote. À manada, mais que os gritos do boiadeiro, cumpre avaliar o peso do relho. A experiência revela a necessidade jamais esquecida por esse tipo de profissional: engolir sapos, desde que disso resulte algum benefício pessoal. Ou, simplesmente, a renovação do mandato ou a conquista de um novo. Por isso, outras são as aspirações do mandante-maior: ampliar seu patrimônio, garantir espaço de onde possa proclamar virtudes invisíveis durante o próprio mandato, posar de benfeitor da Pátria e conselheiro de todos os cidadãos. Importará pouco, como se tem visto, o resultado de suas decisões e ações.

O discurso ouvido, mal iniciado o período de campanha, já delineia o elenco de problemas que serão mais uma vez trazidos à baila: os mesmos de sempre. Algo admissível, se todos os postulantes ao cargo estivessem estreando no cenário político e eleitoral. Não é disso que se trata, todavia.

Para exemplificar: como admitir que Henrique Meirelles possa dizer algo sobre o desemprego, se não assumir parte da culpa pelo exército de trabalhadores condenados ao ócio? E da falta de investimentos em saúde, educação, segurança e saneamento? Quem era o Ministro da Fazenda, quando Temer fez aprovar a omissão do Estado, durante vinte anos, ao que é dever e obrigação principal, em qualquer país de gente séria - e governantes sérios?

É ate compreensível que o ex-Presidente do Banco de Bóston tenha as posições que, desdenhosamente, ostenta diante do eleitorado. Afinal, protagonista e agente do sistema financeiro, de nada pode queixar-se, a respeito. Ocupando posição-chave em mais de um governo, de direita ou de esquerda, não importa, Meirelles não pode fugir à condenação da maioria dos brasileiros. Mais que muitos dos outros candidatos, ele tem as digitais marcadas nas políticas que respondem pela multidão de desempregados, pelo retorno de doenças antes controladas, pela insegurança que atemoriza os brasileiros de bem.

Os demais candidatos podem ser postos no mesmo saco. É quase epidérmica a diferença entre eles, salvo uma virtude a mais aqui, um defeito mais acentuado acolá.

Comecemos pelos defeitos. O de Bolsonaro (que tem bolso no próprio nome), é a profunda ostentação e cumplicidade com que de pior pode o ser humano portar. Defensor do estupro e da tortura (uma coisa e outra não acabam sendo a mesma?), alia a essa característica a de ser absolutamente despojado de qualquer coisa que se possa chamar ideia. Fanfarrão, mentiroso, o candidato será prejudicado eleitoralmente, se ainda resta algum - mínimo que seja - laivo de compreensão e inteligência ao eleitor.

Álvaro Dias e Marina, dotados de prudência que parece mais covardia, não enfrentam as perguntas, muito menos os problemas. Restringem-se à chorumela costumeira, com medo de desagradar, como se gregos e troianos pudessem ser atendidos, um cavalo de pau ameaçando o desenlace. O que buscam, na verdade, é ter mais do mesmo. Prosseguir no processo de conversão de milhões de brasileiros cidadãos em consumidores. E lhes terá bastado.

Guilherme Boulos, se tirasse dos olhos o ódio explícito que costuma ostentar, talvez dissesse com mais clareza a que veio.

Ciro Gomes, ah! o Ciro! Quando todos pensávamos que poderia trazer esperanças, desesperou-se pela compreensível deserção dos que não têm razões para aprovar suas propostas. Atraiu uma vice que afastou os votos.

Diante disso, resta o candidato do Partido dos Trabalhadores, uma dúvida até o próximo dia 15. Se for Lula, do ponto de vista político, nada será acrescentado ou desanuviará o cenário. Ao fim e ao cabo, a conduta messiânica, egoística e carismática do ex-Presidente autoriza classifica-lo como mais um a desejar o mais do mesmo.

Se, contudo, Fernando Haddad for mantido e pelo menos insinuar que, à moda Dilma Rousseff, pleiteará a reeleição, abrem-se novas esperanças.

O jeito é esperar.


Sem prognóstico - Em 04/08/2018

Mais próximas as eleições, mais difícil avançar em qualquer prognóstico. Ainda ontem, vários analistas (também os que reivindicam essa condição) davam como certa a derrocada de Ciro Gomes, diante dos acordos celebrados por Alckmin com o Centrão e a ação de Lula e de Temer, para isolar o candidato do PDT.

A neutralidade do PSB, atribuída ao ex-Presidente da República, e o lançamento do ex-Presidente do Banco de Bóston, pelo MDB, teriam levado Ciro à condição de fora do jogo eleitoral.

O tempo de exposição nos meios de comunicação e os recursos financeiros disponíveis praticamente tirariam o ex-Governador do Ceará do páreo. Teriam sido esses os ganhos maiores de Geraldo Alckmin e do próprio Lula, que insiste em manter-se candidato ou, em último caso, sacar outro poste do bolso do colete. Tudo, segundo a velha prática do PT, em que o ex-operário ainda reina, primeiro e único.

A comparação entre os candidatos até agora expostos às bancadas de entrevistadores, deixa claro ser Ciro Gomes, disparado, o mais credenciado. Testado em várias funções do Executivo e tendo passado pela Câmara dos Deputados, também não faltam a ele a percepção dos problemas nacionais, nem a coragem pessoal necessária ao enfrentamento da crise. As acusações que os profissionais empenhados na propaganda dos outros candidatos fazem a ele, raramente têm mostrado a vantagem desse tipo de oposição. Tanto, que em uma das redes nacionais, viu-se o retraimento da maioria dos entrevistadores, quando refutadas suas ofensas à verdade e o uso de pretextos, mais que argumentos. Os boxeadores dos media, nessas oportunidades, foram parar nos corners.

Alguns, envergonhados, recolheram-se e aparentavam formular outras perguntas mais pelo cumprimento de uma obrigação (ou ordem, nunca se sabe) que pelo ânimo de participar da entrevista.

Isso não quer dizer que Ciro seja o candidato dos sonhos - nem dos que desejam ver batida a desigualdade, nem pela esquerda. Não há como negar, porém, que Ciro mostra conhecimento das verdadeiras causas da crise e de como removê-las.

Os outros candidatos, apresentem-se como progressistas ou integrantes de um imaginário centro, ou sejam de direita, convergem para o mesmo lugar: propõem mais do mesmo. Em todos os casos, remetendo a experiências frustradas, como as privatizações, a repressão, uma suposta austeridade fiscal. Todas, como se sabe, centradas na ampliação do processo de acumulação privada e exploração do trabalho.

Há, porém, enorme contradição entre os que isolam e combatem Ciro Gomes, pelo menos quanto à influência das redes virtuais no resultado das eleições.

Muitos deles vêm afirmando que fica praticamente anulada a influência do tempo de televisão, hoje menos propícia à circulação das mensagens que as redes. Ora, se for assim, não se pode dizer de nenhum candidato que está derrotado como o peru, na véspera. As redes permitem, tanto quanto os meios convencionais de comunicação, disseminar as propostas com grande celeridade e cobertura.

Quem tiver propostas melhores, portanto, continuará no jogo e tem chances de vitória. Já nem se contem os postulantes que pedem a Deus a distância das câmeras. Diante deles, vazios de conteúdo e comprometidos com o que há de pior nos sentimentos humanos, preferem usar as redes, elas também propícias à leviandade e ao anonimato.

Sem significar confissão de meu voto (pois ainda cogito do voto nulo), tento ver os fenômenos como eles parecem e em que eles têm suas bases.

Posso estar equivocado, assim como tantos outros eleitores.


Maus caminhos - Em 01/08/2018

Ainda há muito caminho a percorrer, mas começa a ficar mais nítido o resultado do primeiro turno das próximas eleições presidenciais. O andar da carruagem sugere experimentar, ao invés de avanço, a repetição das cenas lamentáveis que têm entretido os arraiais políticos e ocupado praticamente todos os seus espaços.

Seja em termos de projeto para o País, seja em relação às práticas delituosas costumeiras, seria demasiadamente ingênuo esperar novidades. Basta apreciar o comportamento, as declarações e os arranjos buscados pelos postulantes ao cargo mais alto da república, para concluir os reais objetivos que os movem. E movem a maior parte dos que a eles se alinham, pelo menos nos escalões mais próximos dos candidatos e partidos que os apoiam.

A começar pela salada de letrinhas que ocupa cada prato posto na balança, não se pode confiar em que haverá boa refeição. A falta de identidade ou afinidade ideológica entre as diversas forças aliançadas não faz mais que reduzir ao patamar mais baixo os costumes políticos e, sobretudo, eleitorais de qualquer das candidaturas.

Ainda que se possa esperar o lançamento de outros nomes, pelos anúncios e previsões é impossível esperar que o cenário será fundamentalmente alterado.

Já são candidatos Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Paulo Rabello de Castro (PSC) e Vera Lúcia (PSTU). Dentre os que chegaram a ser cogitados, mas desistiram encontram-se o ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, e o ex-Presidente da República, Fernando Collor de Mello. Pode ser que outros dos anteriormente metidos na lista venham a concorrer, menos pela possibilidade de chegar ao posto, que às vantagens das negociações que serão feitas após o primeiro turno. Nenhuma novidade.

É no segundo turno, portanto, que serão definidas as forças em combate. Algo como aproveitar o turno inicial como experiência para tirar o maior proveito possível - não para o povo, nem para a nação. O proveito buscado beneficiará as forças em disputa, porque urnas, no Brasil, implicam sempre a visão do pote na ponta do arco-íris. Um butim que justifica qualquer conduta, mesmo à custa do sofrimento, da decepção, da desesperança da grande maioria.

As candidaturas lançadas e às vésperas de registro, ao contrário do que se poderia esperar em um tipo de democracia saudável, identificam-se pelo fio condutor que as aproxima: o desejo puro e simples de tomar o poder. Depois, a consequência comum a todas elas: para benefício pessoal do candidato, desfrute de seus apoiadores e regozijo dos grupos econômicos aos quais mantêm fidelidade. E o povo que se dane.

Isso, contudo, não pode levar os eleitores a aceitar passivamente os arranjos, da primeira e da última horas. Deve, sim, servir para que cada um reflita sobre a responsabilidade individual que assume, quando registra sua escolha na urna eletrônica. Sem seus votos, ninguém conquista mandato, uma vez contestada a hipótese da possibilidade de fraude. Enquanto não for cabalmente comprovado que a urna favorece a fraude, tolice usar o pretexto para fugir à responsabilidade.

Sobre os cinco até agora lançados, pelo menos dos mais divulgados, sabem-se de algumas virtudes e tantos mais vícios.

Ciro Gomes, por exemplo, é visto com reserva por grande parte dos eleitores, por seu perfil desaforado, beirando o autoritarismo. Mas não seria justo omitir que, dentre os demais, é o que parece entender melhor que os outros da realidade nacional. Se tiver a Inteligência necessária, poderá desfazer a imagem que pode prejudica-lo no turno final.

Jair Bolsonaro, como todo ser humano, há de ter alguma virtude. Eu a vejo apenas na coragem com que anuncia e defende valores e práticas que qualquer pessoa equilibrada trataria de esconder. Se isso pode ser confundido com recusa à hipocrisia dominante, não alimenta esperanças em um governo minimamente humano. Humanitário, menos ainda. Só o anúncio da composição do seu ministério - com grande número de militares - diz do tamanho da ameaça que paira sobre os brasileiros. Não seria honesto, nem inteligente, da parte do eleitor, esperar mais de quem defende armar cada cidadão. Talião ficou para trás, faz séculos.

Geraldo Alckmin, postulante antigo, pouco tem a ver com as dificuldades do povo brasileiro, se é que não pode ser incluído dentre os que concorrem para torna-las maiores. Os problemas enfrentados com o Ministério Público de São Paulo e as práticas do seu PSDB não passam ao largo da percepção dos eleitores. Virtude? A cara de boa praça e a aparência de um homem de família. Com ela, pátria e propriedade.

Guilherme Boulos e Vera Lúcia, por menos conhecidos e por não disporem do apoio dos grandes media, terão que vencer, inicialmente, o quase anonimato. Sendo que o candidato do PSOL é malvisto até por correligionários, desde quando pareceu um laranja de Lula. Talvez não muitos se lembrarão desse pormenor. Outros, sim.

Dos que ainda podem pedir registro, avultam Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Marina Silva e Aldo Rebelo. Este, mais pela militância prolongada no PC do B; a outra, sempre acusada de omissão nos momentos mais graves, ainda tem no seu capital alguma credibilidade. De pouco ou quase nada, realmente, ela pode ser acusada. Mas nem sempre é isso que conta em uma eleição.

Resta analisar a situação do PT. Há quem veja a demora do partido em definir sua candidatura, ligada à esperança de Lula vir a ser o escolhido. Se disputará ou não, depende menos de seus correligionários e dele mesmo, que da Justiça. Se não concorrer, é quase certo que indicará outro poste. Se transferirá votos, como fez com Dilma, também está na dependência, menos do substituto que dos eleitores. Muitos já perceberam que ele só trabalha em benefício próprio. Que o digam Palocci e José Dirceu, entre tantos outros.


Finalmente humanos - Em 23/07/2018

Enquanto Donald Trump separa pais de filhos e propaga suas bravatas pelo Mundo do qual se pensa dono, doze adolescentes são resgatados de uma caverna tailandesa. Quanto ao Presidente dos Estados Unidos da América do Norte, nada há a dizer, se não repetir quanto ele tem legitimidade para dirigir aquela nação. Arrogante, convencido de sua superioridade sobre todos os demais mortais, rico de bens materiais e paupérrimo de bons sentimentos, o político norte-americano desafia o que ainda sobra de humanidade na espécie humana. Sua figura, para mim simplesmente asquerosa e odienta, onde quer que vá ou apareça, não faz menos que apavorar o Mundo e ver cada dia mais próxima a hora derradeira.

As práticas do mais bem-acabado produto que sua sociedade conseguiu produzir - o serial killer - parecem inspirá-lo a cada novo ato, cada gesto inédito, cada infeliz proclamação saída de sua boca.

Do outro lado do Mundo, contudo, parece vir a resposta necessária: lá, afirma-se a solidariedade há muito ultrapassada pelo mais feroz e voraz egoísmo, fazendo virem da caverna não apenas os corpos debilitados dos jovens tailandeses e seu treinador. Junto com eles, após campanha acompanhada por bilhões de telespectadores espalhados por todos os continentes, surgiu a luz que reanima esperanças, desperta companheirismo, estimula a confiança e deixa a mensagem mais prosaica que poeta algum, escritor algum, filósofo ou pintor poderia formular: ainda podemos construir um mundo digno da espécie humana.

É bem verdade que não só o Homem se vê ameaçado de extinção, porque antes de seu desaparecimento terão desaparecido as florestas, os rios, o ar puro - enfim, a vida sobre a face da Terra. Para isso, esforçam-se devastadores de todo tipo, muitos dos quais inspirados na mesma arrogância, na mesma voracidade, no mesmo desamor subjacentes em cada ato e gesto do milionário que, governando os Estados Unidos da América do Norte, julga-se governador da Humanidade.

Diferentes em conteúdo e fundamento, os que socorreram os encarcerados em uma caverna da Tailândia pelo menos por breve tempo revelaram aos seus semelhantes, onde quer que estejam, quanto é possível produzir o bem, ao invés de empenhar-se na produção do mal. Muitas foram as nações que mandaram para aquela nação asiática o aceno indispensável, a colaboração humanitária, os meios científicos e tecnológicos responsáveis pelo resgate dos jovens. Mais importante que isso, porém, foi a mensagem que muitos não terão conseguido sequer vislumbrar: a de que a sociedade é construída segundo a vontade humana. Também a promessa de que, dispondo do livre arbítrio e fazendo de sua ação, sempre, a manifestação da solidariedade e a oportunidade de reconhecer-se como humanos, um dia chegaremos a dizer com propriedade e sem hipocrisia que somos todos humanos.

Que esse dia não tarde, mesmo se alguns de nós já não mais poderemos dele desfrutar. Que nossos descendentes, em todos os continentes, façam bom proveito!


Cumprimento de promessa - Em 06/07/2018

Tudo o que é sólido desmancha no ar. À situação que consubstancia a expressão, o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de sociedade liquida. No mundo em que vivemos sujeitos às vontades e caprichos de uma entidade fantasmagórica chamada mercado, nada apresenta solidez ou tem assegurada a permanência. A fugacidade das nuvens parece impor-se a todas as coisas, relações e interesses. O que era há segundos assim, no próximo segundo deixará de sê-lo. Apresenta-se diferente, às vezes até o oposto do que antes pareceu ser. É como se não fizesse qualquer sentido ser, pois que o estar, fugaz, inconsistente, infundado, domina todos os campos e os que estão neles inseridos.

Diante de cenário semelhante, como buscar a verdade? Mais próprio, ainda: tem algum sentido falar em verdade? Substituída pela conveniência e tendo-a submissa aos interesses de alguns, sempre em minoria, de que valeria procura-la?

Essas considerações me ocorrem, ao conhecer o desfecho das negociações agora concluídas, entre a Boeing norte-americana e a Embraer. Saudada pelos que vislumbraram alguma oportunidade de se tornarem mais ricos, a aproximação das duas empresas atiçou apetites e desencadeou conhecidas mensagens. Tudo, como sempre, destinado a convencer os que parecem tolos à conformação resignada, ao logro imposto, ao desrespeito recorrente.

Não foram poucas as vozes contestatórias, desde o anúncio da aproximação das duas empresas do ramo de engenharia aeronáutica. Primeiro, porque só os desonestos e os desinformados ignoram ou fingem ignorar a quanto tem sido levada a economia brasileira, quando ocorre esse tipo de cumplicidade nos negócios. Também sempre se soube quem pagará a conta.

Segundo, pela reiterada manifestação das lideranças empresariais e públicas, da importância da Embraer, transformada pelo ufanismo mais provinciano em símbolo da sabedoria nacional. Pior, de nossa portentosa economia e de virtudes empresariais ainda por conhecer.

Uma coisa e outra - a fundada oposição de uns e as manifestações do mais tolo ufanismo de outros - veem-se agora postas à prova. O negócio anunciado como altamente promissor (para quem, jamais foi dito), passa a ser tido como o rato parido pela montanha.

Como no passado, transferiremos para fora do País o controle da empresa resultante, uma paródia trágica do casamento do liliputiano com Golias. Para dourar a pílula, lembra-se que a nova empresa estará sujeita às determinações do governo brasileiro. Os números, nesse caso - 80% representando a norte-americana, o resto deferido à Embraer - são desconsiderados. Até por gente que pensa resolver todos os problemas sociais com gráficos, quadros e matemática.

Dessa história, boa parte dos brasileiros tem sobejo conhecimento. Não terá sido diferente, quando a Vale do rio Doce passou às mãos privadas, não importa se sua aparência de nacionalidade é defendida como se correspondesse à verdade.

Nesse particular episódio, porém, nem governo, nem seus apoiadores (os 2% que ainda restam) revelam-se incoerentes. As promessas de Temer e da turma que o ajudou a remover a incompetente ex-Presidente Dilma Rousseff estão sendo cumpridas.


As mesas do Planalto - Em 01/07/2018

À medida que corre o tempo, vai-se tornando mais nítida a intenção que presidiu o funcionamento da operação Lava Jato. De igual modo, esclarecem-se gradativamente os interesses que a inspiraram, infelizmente só alguns destinados a combater a corrupção. Os outros perdem-se nos meandros da atuação política, como sempre distantes do que beneficiaria a maioria da população.

Se Maria Antonieta ainda fosse viva, repetiria a sentença que - verídica ou inventada - aconselhou os que não têm pão a comerem brioches. Os que se alimentam diariamente, são brancos e ricos e continuam a receber dos governantes (que nem reis são mais), os benefícios assegurados ao monarca deposto pela Revolução Francesa e à sua corte.

Não se trata hoje de apenas garantir perdão ou prolongamento de prazos para pagamento das dívidas contraídas junto aos cofres públicos, conceder empréstimos e financiamentos subsidiados, destinar polpudas verbas públicas para proporcionar lucros a grupos privados, inventar expedientes como o FIES e o PROUNI para enriquecer empresas que exploram o negócio da educação.

Mais que isso, convivemos com a remoção da venda ostentada pela deusa da Justiça, para que a distribuição desse serviço à população estabeleça a classificação a que hoje se assiste: a uns, o rigor da Lei e, mais que isso, a própria ofensa aos textos legais, não bastasse o flagrante desrespeito a mandamento constitucionais; a outros, o favor da anulação de provas e, no limite a exclusão do rol de acusados. O pretexto, sempre, o da ausência de provas.

Na imagem da Thêmis ornamental aposta à Frente do Supremo Tribunal Federal, não foi tirada a venda. Nem precisaria, eis que muitos dos julgadores da Casa se incumbem de proceder para mostrar a efetividade da exposição dos olhos da deusa. O resultado é o que se vê: a inclusão do poder que um dia serviu à correção das mazelas de nossa débil democracia, no mesmo balaio em que restam impunes a maioria dos políticos, grande parte do empresariado nacional e dos asseclas de ambos, aqui e no exterior.

Não poderia ser diferente, quando todos põem seus próprios interesses, seus propósitos obscurantistas e seu talento acima do que pomposa e hipocritamente chamam Lei Magna. Nem se poderia esperar mais de um corpo de profissionais que se sujeitam à peregrinação de gabinete a gabinete dos mais influentes em Brasília, a mendigar patrocínio para sua malfadada causa - a obtenção de uma nomeação.

Pior que tudo, é a dificuldade de imaginar que a voz e os conselhos das Marias Antonietas de hoje serão rejeitados, pelo menos pelos que se contentariam em comer brioches, quando lhes faltasse o pão. Poucos, porém, sabem que de um e outro jamais comerão. O apetite dos de cima é insaciável. Agora, mais que antes, em qualquer das mesas oficiais do Planalto.


Sociedade e  Societários - Em 23/06/2018

Sem despertar o interesse dos brasileiros no grau a que estamos acostumados, a Copa do Mundo de Futebol não passa de todo ignorada pela maioria. Ainda desta vez, as imagens geradas nos estádios da Rússia são pretexto para a reunião de amigos e parentes, nos bares e restaurantes, nas praças e residências de muitas cidades brasileiras. Não será de uma hora para outra que a paixão brasileira pelo chamado esporte bretão desaparecerá.

Importa dizer que temos muito poucas razões para concentrar toda nossa atenção nos jogos que a seleção disputa, tão longe do território do nosso país. Concorrem para o diminuído entusiasmo ora revelado, tanto as dificuldades próprias do grupo de jogadores envolvidos, quanto a própria situação social, política e econômica em que se traduz a atual crise por que passamos.

Manifestação coletiva que muitos tomam como traço cultural, o gosto pelo futebol e o envolvimento emocional da grande maioria dos nossos compatrícios parece nunca ter sido tão desafiada. A substituição do técnico Dunga por Tite, por todos louvada, também começa a exigir novas formas de análise, seja da parte dos entendidos em futebol, seja dos mais de duzentos milhões de brasileiros que se acham especialistas no assunto.

Antes, e por toda parte, dizia-se que de médico e de louco todos temos um pouco. No Brasil, além de loucos e médicos, cada qual se pensa dotado de qualificação suficiente para discorrer sobre o esporte, criticar a conduta dos que o praticam e vivem dele, tanto quanto das razões por que alcançamos tal ou qual resultado, a cada partida e a cada competição.

Nossa primeira conquista vem do período a que se chamou "anos dourados". Eleito Presidente das República, Juscelino Kubistcheck conquistava pelo sorriso sempre aberto e pelo valseado várias vezes tornado público os que o haviam consagrado nas urnas - e os outros que nele não tinham votado. Os que, como Carlos Lacerda e seus seguidores, divergiam de Nonô, não conseguiam impor-se aos que viam no risonho mineiro um ser humano que, no mínimo, incutia o sentimento de esperança e de alegria a quantos acompanhassem sua trajetória.

A Copa de 1962, depois, antecedeu o clima de opressão e a escuridão política ameaçadores do que estava por vir. Eram, se permitem a liberdade vocabular, o ocaso de uma época que suscitou alimentar um sonho.

Depois, sonhar era tão impossível quanto sobreviver com dignidade. A conquista da Copa de 1970 deveu-se, sobretudo, à impossibilidade de os brasileiros conhecerem o que ocorria nos bastidores, aqui não apenas dos clubes de futebol e dos gramados, porque o espesso véu da censura e da tortura correspondiam à venda que impede enxergar o que quer que seja. O "prá frente. Brasil" e o "Brasil - ame-o ou deixe-o" diziam bem dos antolhos postos a cada cidadão e cimentavam a base da discriminação entre os bons e os maus, os mandantes e os mandados. Nas ditaduras sempre ocorre assim. A História o tem demonstrado.

Duas outras copas foram ganhas, menos por que tenham sido superados os mais graves problemas nacionais (dos quais a desigualdade de oportunidades parece-me a maior e mais decisiva), mas pelas esperanças devolvidas à maioria dos que têm vivido à sombra delas.

Hoje, que a esperança esmaece, e a utopia está sob fogo cerrado, torna-se difícil admitir que chegaremos ao hexa campeonato. Mais, ainda, quando persiste em nós a tendência de celebrar os deuses de pés de barro e eleger o individualismo como a melhor das virtudes, não o pecado mais grave.

Em todo caso, torcer pela seleção do Brasil não fará mal a nenhum brasileiro. Pelo menos, aos que gostam de futebol e sabem que não está nos pés de nossos atletas a solução para os problemas que a vontade dos políticos e a cabeça dos administradores não têm interesse em resolver.

Essas são questões que só as urnas resolverão. Mais lá, que diante de uma televisão e as imagens dos estádios em festa, é que o jogo da cidadania será travado. Então, poderemos reafirmar o que frequenta minha cabeça e sinto no coração: a sociedade tem a cara dos societários.


Raposa no poleiro - Em 16/06/2018

A recente greve dos transportes coletivos de Manaus importa para nós, quanto importa para o Brasil a greve/locaute dos caminhoneiros, autônomos ou reunidos em empresas especializadas. Nenhuma das duas mobilizações terá pegado desprevenidos os responsáveis pelo setor, aqui e no País. Afinal, a política de preços dos derivados de petróleo não está fora dos poderes do Estado, pelo simples e prosaico fato de que a Petrobrás é substancialmente diferente das demais empresas privadas. Que sejam adotadas, parcialmente, algumas técnicas próprias das empresas particulares, parece compreensível. O que não se pode admitir, todavia, é obscurecer a história da estatal brasileira de petróleo e as funções a que ela se destina. E pelas quais foi criada Dentre estas, a de ocupar posição estratégica nos negócios de Estado, não a de assegurar, a qualquer custo social, lucro fácil e dividendos.

Aos componentes econômicos que integram o cotidiano da empresa não podem ser opostas as conveniências e as tensões políticas, eis que seus verdadeiros donos são os contribuintes brasileiros, parentes entre si ou não. Nesse caso, a operação da empresa não poderia pautar-se pelos interesses a que serve seu ex-Presidente, de que dá noticia sua transferência para outro grupo empresarial, mal constatado o primeiro dos muitos resultados negativos de sua gestão.

Negativos, lembre-se, do ponto de vista do Estado brasileiro e, também, da maioria dos brasileiros.

No caso de Manaus, é doloroso dizer da rotina que estabelece o caos na cidade, sempre que a voracidade das empresas concessionárias dos serviços de transporte público não é atendida. Cada novo ano a população tem assistido à pressão dos proprietários de ônibus, à cata de obter ainda lucros mais escorchantes que os sempre deferidos pelos ocupantes da Prefeitura. Isso tudo, sem o cumprimento de uma só das contrapartidas com que todos eles dizem concordar: frota renovada tratamento humano dispensado aos motoristas, cobradores e passageiros; higiene e segurança dos veículos; pontualidade nos horários etc. Já nem se fale na atribuição às empresas transportadoras de facilidades fiscais e tributárias, porque esse é assunto que acaba por envolver também os supostos representantes populares, na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa.

É verdade que alguns poucos deputados e vereadores têm revelado justa indignação contra o estado de coisas indicado, a que não falta sequer o desrespeito às leis trabalhistas. Também é certo que muitos dos dirigentes sindicais engrossam o coro do patronato, como toda a população tem sabido, e não é de hoje.

Não haveria melhor hora que esta, para apurar, tim-tim-por-tim-tim, como se formam os preços das tarifas e conhecer as razões pelas quais os proprietários de ônibus são donos exclusivos do pedaço. Sempre, com as vantagens que os sucessivos prefeitos não se têm negado a conceder-lhes.

Por isso, nada melhor que abrir a CPI da Câmara e promover profunda investigação, que deve ir muito além das planilhas tão reclamadas. Tudo, com o acompanhamento do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil e das entidades da sociedade civil cansadas dos males que o setor vem padecendo e impondo aos habitantes da cidade.

Se, desta vez, a CPI não prosperar, será mais honesto entregar todas as decisões do galinheiro às raposas que o rondam e em muitos momentos ocupam os poleiros enlameados.


Governar não é para os fracos - Em 08/06/2018

Brasileiros medianamente informados não deixam escapar o que muitos autoproclamados analistas não veem. Ou, se veem, preferem fingir ignorância ou esquecimento momentâneo. Os interesses, nem sempre louváveis, falam mais alto.

O governo (?) de Michel Temer, tanto pela forma como foi conquistado quanto pelas características pessoais de seu chefe, não poderia conduzir o País para outra situação, que não fosse a testemunhada por todos, nestes últimos dias. A tal ponto transpareceram as verdadeiras razões do golpe que derrubou Dilma Rousseff, que fomos levados a experimentar a intranquilidade generalizada, a impotência das autoridades e o esgarçamento das reduzidas esperanças de que as coisas mudem em curto ou médio prazo.

Experimentando o menor nível de popularidade de todos os mais recentes presidentes, Michel Temer é considerado pelo jornalista Josias de Souza como o "ex-Presidente no exercício de mandato". Em outras palavras: o governo Temer acabou e só o maior beneficiário pessoal da queda de Dilma ainda não se deu conta disso.

Quem tenha acompanhado os primeiros dias da atual gestão, facilmente se lembrará das dificuldades enfrentadas pelo ex-deputado e ex-Presidente do PMDB, para formar a equipe com que (des)governaria o Brasil. Ao final do processo de formação de seu Ministério, Temer logrou formar o que muitos analistas ou comentaristas (reais ou autoproclamados apenas) preferem chamar quadrilha. Ponderável a presença em torno do Presidente de profissionais envolvidos nas mais diversas formas de ilícito, outra não poderia ser a imagem projetada do Chefe do Poder Executivo.

Talvez não muitos se recordem mais das hesitações que marcaram os primeiros dias da atual gestão. Às dificuldades encontradas por Temer para agradar o que imaginava ser sua base de apoio, a demora em tomar decisões só a ele cabíveis revelavam, mais que inabilidade política, a fraqueza do caráter do Presidente. A frequência com que tinha que revogar verdade dita em alto e bom som na véspera, caracterizou cada dia daquela fase.

Como tudo isso parece ter caído no esquecimento da maioria dos brasileiros, neles incluídos os pretensos analistas, não se fala mais da responsabilidade do ex-Ministro da Fazenda em relação à crise agora ampliada.

A Henrique Meirelles parecia pertencer o comando da administração, investido que fora da autoridade necessária a impor as medidas antipopulares e nocivas aos interesses da sociedade e da nação. De sua inspiração foram as chamadas reformas trabalhistas, de que resultou uma volta quase integral ao período do Império; a entrega do enorme potencial da Petrobrás à voracidade dos investidores estrangeiros; a manutenção de privilégios para os agentes do agronegócio; a administração perversa do preço dos combustíveis, dentre tantas outras decisões prejudiciais ao povo brasileiro.

Mais grave, ainda, foi frequente a presença do homem forte do governo Temer diante das câmeras de televisão, para dizer do êxito econômico do período decorrente da derrubada da companheira de chapa do Presidente. O Brasil teria superado a crise, os trabalhadores estariam encontrando facilidade em empregar-se, a inflação apresentava performance jamais experimentada, em sua escalada descendente. A potoca, em doses maciças!

Tudo o que proclamava o ex-Presidente do Banco de Bóston se dirigia ao propósito de ter nele o sucedâneo do próprio Michel Temer, por certo tempo pretenso candidato à reeleição. Os números da popularidade deste, contudo, teimam em permanecer pífios. Era preciso encontrar quem pudesse ocupar o posto sempre fiel aos interesses que a equipe hoje lá instalada advoga e promove. Ninguém melhor para dar o recado do capital internacional que o banqueiro, mesmo se de sua folha corrida conste presença influente no grupo econômico que detonou a Operação Lava Jato. O mesmo que adotou postura de indiferença e distância da equipe em que foi companheiro de Eliseu Padilha, Moreira Franco, Blairo Maggi, Romero Jucá, Gedel Vieira Lima e outros de igual notoriedade.

Ao longo do período, repetiram-se episódios que misturaram, de um lado, a firme hesitação do Presidente, quando não seu alheamento às questões mais elementares que cabe a alguém no seu cargo resolver. Também não cessou a convocação de outros profissionais igualmente mantidos sob suspeita, para compor o grupo de colaboradores mais íntimos de Temer.

A tudo isso é oportuno acrescentar a dinheirama gasta com o intuito único e exclusivo de assegurar a impunidade do Chefe do Poder Executivo, duas vezes denunciado pelos investigadores de ilícitos, e duas vezes amparado pelos que se beneficiaram da gastança do dinheiro público, em defesa de uma causa que não é a mesma da maioria dos contribuintes.

Os acontecimentos gerados pela aliança entre patrões e empregados do setor de transportes rodoviários, assim, não é se não consequência das hesitações, das decisões ofensivas às leis penais e à saúde financeira do País, da fraqueza política e moral do governo e, mais que tudo, da pusilanimidade que parece apanágio do ocupante maior do Palácio do Planalto.

É certo que, mais uma vez, as dificuldades dos mais pobres serviram a uma causa cujo interesse é maior para os que se situam no patamar mais alto da sociedade, os empresários dos transportes. Nem por isso pode ser invalidada, em especial por ter revelado aos que ainda se mantinham cegos e surdos, as razões para fazer de Dilma Rousseff uma ex-Presidente.

Também chama a atenção de todos a absoluta incapacidade de Michel Temer para governar um país que teima em fazer-se democrático. Quando busca medidas repressivas que compensem sua liderança nula e suas hesitações características, ele não se peja em chamar a força armada. É sempre assim: o que a moral e a prudência, acompanhadas da firmeza de caráter e da legitimidade da causa popular não conseguem, porque ausentes no círculo do poder, poderá ser conseguido com a força.

Foi assim, também, em 1964. Os de quem o povo não gosta, logo dirigem a todos a sanha de que são possuídos. Não dispondo de bons argumentos, nem tendo benefícios gerais e duradouros para mostrar, tentam obter o apoio popular como o tentaram tantos outros, ao longo da história.


Parentesco prejudicial - Em 02/06/2018

Por mais que a maioria dos meios de comunicação pretenda, torna-se impossível esconder o malogro de Pedro Parente, na Presidência da Petrobrás. Só os que ignoram ou fingem ignorar a história da empresa (o que equivale dizer: boa parte da História do Brasil) e o papel do Estado na vida política, econômica e social das nações, continuará apostando suas fichas na competência de Parente.

Meus ex-alunos no curso de Administração da Universidade do Amazonas, ao longo de trinta anos ouviram de mim: no íntimo de qualquer burocrata típico estará sempre escondido um burrocrata.

Os fatos que determinaram a deserção de Pedro Parente da direção da ex-estatal do petróleo brasileiro tem menos a ver com a greve dos caminhoneiros - os autônomos ou as espertas empresas do setor - que à percepção do festejado gerentão, em especial sobre os dois pontos acima apontados.

Quem acompanhou, com mais acuidade e proximidade ou simplesmente post-facto o nascimento, o desenvolvimento e as lutas envolvidas no processo de criação da Petrobrás não pode admitir a condição a que foi levada a empresa. Nem a extensão e a profundidade das bandalheiras praticadas contra ela podem justificar os rumos que foi forçada a seguir, quando era hora de fortalece-la, defende-la e deixa-la distante dos vorazes interesses que sobre ela recaem. E não é de hoje.

Mais que um erro de gestão, a vinculação estreita das políticas da Petrobrás às oscilações do mercado internacional puseram-na em posição subalterna, quase de joelhos, frente às suas concorrentes estrangeiras. Isso tudo, depois de ela ter sido considerada a segunda maior petroleira do mundo.

Ao invés de reter nas mãos do Brasil as decisões mais importantes que qualquer direção honesta ou comprometida com os interesses nacionais não poderia desprezar, foi exatamente isso o que fez o grupo dirigido por Parente. O atrelamento às ondas externas não tem suas causas nas falcatruas cometidas contra a empresa. Nem estão no esquecimento as providências policiais e judiciárias correspondentes.

O que Pedro Parente e seus companheiros de direção estariam obrigados a fazer, além da recuperação ética da Petrobrás, era cuidar para que ela se mantivesse na posição de respeito e reverência granjeada nos últimos anos. Sem prejuízo ao povo brasileiro e sem a imposição de dificuldades aos que consomem seus produtos. De resto, todo o setor produtivo do País.

Quando parte do pré-sal foi deixada à vontade dos investidores internacionais, viu-se o primeiro sinal de qual seria o destino da Petrobrás. Depois, cada nova decisão mostrava as verdadeiras intenções dos burocratas que sentaram nos postos mais importantes da até então vigorosa iniciativa oficial. A mais bem-sucedida, de quantas o governo brasileiro tomou a si a tarefa de criar, expandir e manter em funcionamento.

A campanha "o petróleo é nosso", de que participaram desde Monteiro Lobato até nomes respeitáveis das forças armadas brasileiras, não pode ser impunemente ignorada, por quem quer que vá dirigi-la. Nem a importância estratégica de que ela se reveste, ainda mais quando em seus quadros estão dos mais importantes profissionais da geologia nacional.

Esse, porém, é apenas um dos aspectos a considerar. O outro diz respeito à tabula rasa em que é servida a Petrobrás à voracidade de terceiros. Estatal, não pode ela ser assemelhada às empresas constituídas por particulares, com o intuito único e exclusivo de dar lucro. Não foi essa a inspiração da Petrobrás, desde que sua criação começou a ser cogitada, lá se vão mais de 70 anos.

Só uma visão empobrecida ou aquela própria dos burocratas seria capaz de perder de vista os objetivos eminentemente sociais e políticos da ex-estatal do petróleo. Ainda mais quando ela estava próxima de alcançar a autossuficiência tão desejada. Mais grave, ainda, quando tinha à sua disposição novas fontes de prospecção e exploração, devidas sobretudo à capacidade dos técnicos de seus quadros.

Por que nos últimos dois anos não se tem uma só notícia que indique a intenção de ampliar a capacidade de refino do óleo bruto? Por isso, exportamos o produto que mais tarde compramos a custos maiores. Ou haveria a solerte intenção de nos prender ainda mais aos interesses externos?

O papel da Petrobrás, confundido com as funções de uma empresa privada qualquer, não serve à gestão dela. Nem um burocrata desprovido de percepção política e sensibilidade social poderia ascender à sua Presidência.


Quem ganhou com a greve? Em 25/05/2018

Os quatro últimos dias vividos pelos brasileiros levaram-nos a experimentar situação muito próxima daquela que infelicitou o povo venezuelano, nos últimos anos. Enquanto a Venezuela reelege um Presidente em eleição direta contestada à esquerda e à direita, permanecemos presididos por um político recordista na rejeição popular. O mesmo que, articulador da derrubada de sua companheira de chapa, foi o maior beneficiário pessoal do movimento que a depôs.

Igual a muitos dos brasileiros, cheguei a duvidar de que se tratava de um golpe. Talvez tenha pesado na formulação desse equívoco o fato de que os antecedentes e o modus faciendi da queda de Dilma Rousseff dispensaram a presença de esquadra estrangeira patrulhando nosso extenso litoral. Como em 1964. Talvez a isso se some a ausência de conciliábulos e tratativas feitas na língua inglesa.

Desta vez, o Lincoln Gordon de plantão e o símile do coronel Vernon Valters nem precisaram vir ao Brasil. Pelo menos o contribuinte estrangeiro ou mesmo o brasileiro foi dispensado de mais esse prejuízo.

Estamos desfrutando da transparência de uma situação indesejada pela maioria dos cidadãos, especialmente pelos que não têm acesso aos gabinetes refrigerados da capital federal e, por via de consequência, são mantidos à distância dos cofres públicos. Seja porque é fraca (se não inexistente) sua influência sobre as decisões governamentais, seja pela total impossibilidade de se acumpliciarem com os que controlam a caneta e o Diário Oficial.

Pior que tudo, porém, decorre do constrangimento de ver e ouvir interpretações e análises que me obrigam a transitar do sentimento de tédio ao de nojo. Porque, necessitando de informações que levam a um julgamento sensato das ocorrências, o máximo que conseguimos ver é a pretensa análise de formadores de opinião que não conseguem superar suas preferências pessoais pelo serviço público que todos consideramos deverem eles prestar.

Tudo porque não admitem ter participado de um golpe, diferente na forma, mas similar nos resultados a tantos outros de que fomos testemunhas.

A derrubada de Dilma Rousseff, se tivesse nas alegadas pedaladas fiscais seu verdadeiro motivo, imporia agora o mesmo destino a Michel Temer. Quanto à corrupção, na Petrobrás, em muitos outros órgãos públicos e em todos os escalões, igualmente permanece atuante. Poucos têm falado nisso, porque as atenções dos que se apropriaram do governo estão todas voltadas para consumar os maus propósitos que puseram Michel Temer na cadeira que foi de Dilma Rousseff, depois de ter sido ocupada por Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. E que eles pretendem entregar a Henrique Meirelles.

A bandalheira institucionalizada, assim, trouxe-nos à recente greve patronal, aquilo que em linguagem importada da metrópole e adaptada à nossa glote chamamos locaute.

A tranquilidade com que os analistas improvisados chegaram a essa conclusão dá a todos a impressão de que se trata de cidadãos probos, isentos em suas mensagens ao público. É como se não tivessem concorrido para apear a ocupante do Planalto, cedendo seu lugar, sob aplausos e salamaleques, a um Presidente que no dia 02 de janeiro de 2019 será chamado a prestar contas à Justiça.

Desta vez, os caminhoneiros brasileiros servem de escada para conferir maiores ganhos ao setor de transportes rodoviários, embora correspondam a apenas 30% os transportadores rodoviários autônomos. Os ganhadores, mais uma vez, são as empresas transportadoras, muitas das quais utilizam os serviços dos mais pobres do setor, os que dirigem seus próprios caminhões.

Não se trata, portanto, de qualquer novidade, eis que essa é história antiga. Uma luta em que já se sabe quem irá à lona, muito antes de soar o gongo. Afinal, para isso é que se tem acumpliciado o grosso do PIB nacional com os sucessivos ocupantes do Planalto.

A Lava Jato não deixa mentir.


Não mais que mentiras - 19/05/2018

Fosse a mentira - e a perversidade em que ela se inspira - tipificada como crime em si mesma, grande parte dos políticos e pretensos analistas econômicos estaria atrás das grades. Ou pagando bolsa-família, porque é assim que os ricos fogem do sistema penitenciário brasileiro.

A mentira, como ensinava Goebells, faz-se impor pela repetição com que é alardeada. Também proclamada pelas mais diversas fontes, todas elas de alguma forma influenciadas pela comunicação malsã que, convenhamos, nem é uma novidade brasileira, nem se restringe às ditas redes sociais. Estas são apenas modernização tecnológica de um hábito assaz conhecido. Com nome em inglês, obviamente - fake news.

Talvez nenhuma dessas invenções malévolas tenha a força da conclusão (desonesta, é bom dizer) de que o Brasil ostenta a maior carga tributária do Planeta. Quando é algum representante dos miseráveis e pobres do País que o afirma, pode-se admitir que terá sido convencido pelas mensagens recebidas. Porque não tem sido outro o esforço dos que defendem a desigualdade como fenômeno desejável, se não o de conquistar a opinião que, ao fim e ao cabo, beneficiará os que tudo têm, em desfavor dos que pensam nada merecer. Trabalhem ou não. (Mais fácil não, segundo indicam os números do desemprego destes tempos temerários).

Quando, porém, sai da boca de pessoas que percorrem o mundo a negócios, missões oficiais ou simples desfrute dos privilégios que a desigualdade proporciona, aí não se tem como desprezar a evidente - e única - constatação: é revelação de pura perversidade.

Dados oficiais de agências internacionais acreditadas (OCDE, por exemplo), classificam o Brasil em posição no mínimo melhor que a de dezenas de outros países, quanto ao peso da carga tributária sobre a população em geral. O que acontece, entre nós, é a ignóbil injustiça tributária. Os fundamentos da política oficial para o setor parecem firmar-se em princípios absolutamente avessos à prática do lendário Robin Hood. Temos assistido, ao longo das últimas décadas (nem posso afirmar com forte convicção se antes era diferente), à aplicação com sinal invertido do preceito a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas potencialidades.

Mesmo quando se consegue aprovar alguma lei supostamente benéfica aos mais pobres, a tessitura política acaba pondo por terra o preceito legal. É bem o caso do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, FGTS.

Recente levantamento revela ser de quase 30 bilhões de reais a dívida das empresas para com o FGTS. Dentre os devedores, obviamente, muitas são empresas vinculadas ao poder público. O que significa dizer que, nesse caso como em muitos outros, agentes públicos e privados são não mais nem menos que cúmplices. A ambos os setores basta contar com os arautos de seus interesses, vontades e decisões e proclamar tudo quanto os favoreça. Sabem todos que, mais dia menos dia, chegará a anistia ou a renegociação sempre benfazeja.

Escrevo isso tudo, para mostrar, menos que minha surpresa, o descaramento de um dos postulantes à Presidência da República, em entrevista concedida dia 14 último, a uma emissora de televisão.

Nela, Rodrigo Maia repete o mantra dos neoliberais brasileiros, quando aborda temas e problemas que se pensa deverem ser dominados pelos candidatos. Um desses temas diz respeito à relação entre PIB e despesas previdenciárias. Presidente da Câmara, o filho de Maia fixa em 13% essa relação, no exercício de 2017. O IBGE, no entanto, fixou-a em 8,5%. Até aqui, sem qualquer contestação.

Sobre a taxa de mortalidade infantil, o pretenso candidato a vê crescente, em flagrante contradição com os números apresentados pelo instituto de estudos geográficos e estatísticos oficial. Não é menor a mentira proferida pelo Presidente da Câmara dos Deputados, quanto à diferença salarial entre o setor público e o setor privado brasileiro, especialmente se comparado ao de outros países. Cinquenta e três, para ser mais exato.

Rodrigo Maia acha absurda a diferença, mesmo se os colegas parlamentares e ele próprio estão na faixa mais generosamente retribuída em seu trabalho (?). Embora a média dos países estudados pela OCDE estabeleça o percentual de 16%, o Brasil está acima apenas um ponto percentual, 17%. Onde o absurdo? Este, como se vê, cedeu seu espaço à mentira, instrumento muito utilizado, sempre que as benesses de um posto estão postas sob o olhar dos interessados - os que pretendem a cadeira principal e os outros, que a cercam permanentemente.

Chega de mentiras! Com elas, dificilmente serão encontradas soluções para nossos problemas...se é isso que interessa a esse tipo de gente!


Os eixos de Iasi (parte II)- Em 12/05/2018

O caminho para o desenvolvimento brasileiro, segundo Mauro Iasi, tem a pavimenta-lo seis políticas que ele chama de eixos prioritários e imediatos. Um resumo do texto lido situa tais eixos nos seguintes pontos : 1. Reversão das privatizações nos setores estratégicos da economia. 2. Estabilidade financeira. 3. Dívida pública, interna e externa. 4. Reforma agrária. 5. Reforma urbana. 6. Política de desenvolvimento científico e tecnológico.

Como desde logo se observa, não é trivial, pelo menos nos dias de hoje, o que o professor da UFRJ propõe. A rigor, alguns dos pontos por ele sugeridos incidem diretamente nas políticas que o governo João Goulart pretendia realizar, muitos dos quais utilizados pela oposição para derrubar o fazendeiro-Presidente.

Dos pontos recuperados dos anos 1960 trataremos em primeiro lugar.

Como sabem os contemporâneos do golpe militar e os que se dão o trabalho de estudar a História, as reformas bancária, universitária e urbana constavam do que então se chamava reformas de base. As grandes manifestações em defesa de sua realização irritaram parte da sociedade, atiçada pelos meios de comunicação, apoiada pelo empresariado vinculado ao capital estrangeiro, parte da Igreja incomodada com a Teologia da Libertação e fração militar comprometida com os golpistas. O que se deu, testemunharam os contemporâneos, os órfãos causados pela tortura oficial e os que, não vivendo àquela época, vêm lendo a copiosa produção bibliográfica sobre o período mais infausto da História do Brasil.

O autor do oportuno texto publicado no blog da Editora Boitempo não pretende esgotar todo o assunto, mas o que nos oferece serve bem, sobretudo à discussão dos problemas que nos afligem e impedem que encontremos o caminho do verdadeiro desenvolvimento.

Ao contrário do que afirmavam, como ainda hoje afirmam, se bem que menos ousados, os conservadores, não será fazendo o bolo crescer, para depois distribuí-lo, que se chegará a bom porto. A lógica do capitalismo não dá asas a qualquer pretensão de crescimento e distribuição concomitantes. Fazê-lo importaria aquinhoar em partes equivalentes os diversos fatores de produção, o que não consta de nenhum tratado ou princípio dos sistemas de mercado.

Maior o crescimento, maior a apropriação pelos detentores do capital dos resultados alcançados. Por isso, advogo séria crítica à crença religiosa de que a sociedade melhora suas condições materiais de sobrevivência, sempre que há crescimento econômico. Não é isso o que a experiência tem deixado evidente.

Quando, lá se vão mais de 50 anos, defendíamos as reformas a que alude Mauro Iasi, a realidade do País ainda não tinha chegado ao nível de hoje. Nem se experimentavam os níveis de corrupção de que todos se revelam hoje enojados. Não, porém, sem de algum modo terem concorrido para que ela persista.

Também era menor a profundidade do fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. Durante todas as cinco últimas décadas, o nível de acumulação de riqueza só fez aprofundar-se. A tal ponto, que o Brasil marca presença importante no ranque das nações mais injustas do Planeta.

Da omissão relativa à reforma agrária dão conta os recorrentes conflitos entre camponeses e proprietários rurais, produtores não apenas das safras recordistas de cereais, como de cadáveres de trabalhadores do campo. Tudo isso, com a complacência, quando não a conivência e cumplicidade do poder público. Pior, à custa do dinheiro de todos.

O sistema financeiro, os balanços publicados pelos bancos nos últimos dias o dizem, é território propício a toda forma de exploração, pois funciona como a grande pá que escava o fosso da desigualdade. Também é isso que mostram os números conhecidos. Os cofres públicos se esvaziam, os trabalhadores perdem o emprego, os pequenos empresários não conseguem financiar seus custos - e os rentistas gargalham diante dos ganhos exorbitantes.

Iasi sugere a troca de catecismo, quanto aos bancos. Para ele, o sistema financeiro deve orientar-se pelo interesse na saúde do capital financeiro, abandonando as políticas que apenas fortalecem o poder dos bancos e dirigem a economia e as contas públicas, em favos destes. Algo como o que chamávamos, nos anos 1960, Reforma bancária.

No que respeita à reforma agrária, o que escreve o professor adjunto da UFRJ não se restringe à pura e simples entrega de terras aos camponeses. Além disso, é proposta a troca de prioridade: do agronegócio para a produção e distribuição de alimentos. Em outras palavras: substituir o apoio e as facilidades de toda ordem deferidas ao agronegócio para a produção de commodities por ações que estimulem a produção em larga escala de alimentos e o benefício de seu consumo para os mais pobres. Este, também as cifras não nos deixam mentir, são muito mais numerosos.

A reforma universitária de que éramos defensores na juventude, não sendo realizada, antes rejeitada, acabou no que se está testemunhando: a desatualização das bibliotecas e laboratórios, a deterioração geral da qualidade de ensino, o desestímulo tomando conta dos docentes, a expansão para os campi da violência que a cerca, a quase falência da pesquisa científica, a subserviência tecnológica. O mero aparelhamento do ensino às imposições do mercado. Em suma: o trajeto da educação para o adestramento.

Não é de hoje que se tem apontado o enriquecimento de grupos privados dedicados aos negócios da educação, ao mesmo tempo em que se estrangulam as melhores iniciativas da escola pública, em todos os níveis. O que falta às universidades federais encontramos nos estabelecimentos das empresas de educação, pelos mecanismos financeiros mais extravagantes, de que o FIES e o PROUNI são apenas exemplares destacados.

Nesse contexto, torna-se indispensável mencionar a desprivatização de importantes segmentos dos setores estratégicos, seja nos transportes (aeroviário, portuário etc.), seja na mineração, em especial o petróleo.

A roubalheira que se aproveitou da Petrobrás não pode servir de pretexto à agressão aos interesses de todo o povo brasileiro, com a entrega da empresa e suas subsidiárias ao controle do setor privado. Corrigir o que de errado vinha sendo feito, punir os responsáveis pela dilapidação do patrimônio da mais vitoriosa empresa brasileira não pode ser confundido com a doação aos vorazes capitais que nos ameaçam. Não apenas nesse setor.

A suspensão do pagamento da dívida pública, interna e externa, outro dos eixos de Iasi, deveria ser dos primeiros pontos a considerar, seja qual for o Presidente eleito em 2018. A recusa em discutir o assunto, tantas vezes deixada clara pelo governo, só pode ter uma explicação: a irregularidade que permeia todo o processo de constituição dessa dívida. Por isso, é dos temas fundamentais a considerar.

O que se pode esperar, diante da proposta formulada pelo professor e pesquisador da UFRJ?

No mínimo, que se multiplique o número de leitores de seu texto (e de tantos outros que ele publica no blog da Editora Boitempo). Além disso, que tais textos sirvam à análise, discussão e divulgação do que ele propõe.

Eventuais discordâncias, se isso ocorrer, devem ser levadas à conta do hábito que muitos profissionais e estudiosos de esquerda cultivaram e cultivam, ao longo de sua existência. Sobretudo, da compreensão de que o ser responsável, mentalmente são e maduro não pode ser feliz, se em seu entorno só vê infelicidade.


Um texto digno de atenção e discussão - Em 05/05/2018

Texto escrito por Mauro Iasi, publicado no blog da Editora Boitempo, em 26 de abril passado, trata da crise brasileira, e vai adiante. Fundado na experiência e nos registros históricos, o professor adjunto da UFRJ indica o que ele chama de alguns eixos prioritários e imediatos que dariam conteúdo às respostas exigidas pela crise.

Não se trata, como esclarece o autor, de tornar o Brasil um país socialista. Nesse sentido, vale-se do ensinamento de Lênin, ao afirmar, em certo momento da Revolução Russa, que sem um país minimamente civilizado não se pode pensar naquela alternativa.

É isso mesmo: Iasi nos vê distantes daquele nível razoável de civilização. Isso, para mim, implica reconhecer-nos envolvidos numa sociedade que sequer superou a barbárie.

Oportuno e esclarecedor, o texto mostra que Octavio Ianni, em seu Estado e planejamento econômico no Brasil, mostra que o País enfrentou momento em que três alternativas estavam postas: o desenvolvimento capitalista nacional, exigente de infraestrutura, industrialização e desenvolvimento tecnológico próprio; o desenvolvimento capitalista associado ao imperialismo, buscando o crescimento econômico; a alternativa socialista. O governo de Getúlio Vargas seria representativo do primeiro caminho; com Juscelino teríamos começado a experimentar a segunda. A terceira alternativa jamais foi tentada, desde que a experiência de Juscelino foi interrompida, agravando-se com o golpe militar que nos levou à longa ditadura inaugurada em 1964.

Para Ianni (apud Iasi), a terceira alternativa foi suspensa, desde quando a principal força que poderia sustenta-la, o Partido Comunista Brasileiro, decidiu aliar-se à proposta de um capitalismo nacional. Essa seria, como aponta o professor da Escola de Serviço Social da UFRJ, a via que levaria ao socialismo.

É dito, ainda, que tal postura foi retomada, com a redemocratização do País e os governos democráticos do PT. A base política assentava-se na conciliação de classes, com vistas ao desenvolvimento capitalista, a que a geração de empregos, a distribuição de renda e as políticas sociais compensatórias dariam o conteúdo.

Em todo caso, acentua Mauro Iasi, o que predominou, seja por formas democráticas, seja por fórmulas abertamente autoritárias, foi a crença de que o desenvolvimento econômico baseado no livre mercado e na inserção subordinada do Brasil à ordem econômica mundial (leia-se imperialismo) poderia dotar nosso país de uma economia sólida...

A frustração não se fez esperar, de tal modo que o País hoje se vê, após décadas da experiência, fretnet ao aumento da concentração da riqueza e da propriedade, a miséria persistente e os problemas estruturais ampliados, impedindo a dignidade mínima das condições de existência para a esmagadora maioria da população.

Diante desse cenário, o autor do texto divulgado pela Boitempo recomenda: 1. Orientar a economia subordinada à prioridade de criar os meios necessários a produção e reprodução em condições dignas da maioria da população, que é quem produz de fato essa riqueza e tem direito de usufruí-la; 2. Planejar a economia para que seja capaz de dispor dos recursos naturais, humanos, tecnológicos, culturais e outros, de maneira a otimizar a distribuição dos serviços e bens essenciais à vida, assim como manter as condições de reprodução das atividades econômicas; 3. Fortalecer a presença do Estado, sob outra forma, de modo a poder representar os interesses da maioria e das classes trabalhadoras, contra os interesses de uma minoria que deseja perpetuar sua propriedade, riqueza e privilégios.

Expostos os fundamentos da interessante sugestão de Mauro Iasi, trataremos de avançar, na abordagem dos eixos prioritários e imediatos, que ele também enumera em seu artigo.

Isso será objeto do próximo texto a ser publicado neste espaço.


Mandato e  habeas corpus - Em 28/04/2018

De tal sorte anda por maus caminhos a política brasileira, que se tornou quase impossível interpretar a ação dos seus agentes. Não é a complexidade do cenário que torna difícil qualquer esforço por compreende-lo em sua inteireza. Se isso é possível, sempre e em todo lugar...

O que ocorre no Brasil, todavia, parece não ter precedentes nem imitação em qualquer outro país. Uns consideram absurdo o que chamam de "justicialização da política", enquanto outros ignoram as funções de cada um dos poderes ditos republicanos. Mesmo se nenhum dos lados tem a menor consideração para o significado das instituições propostas por Montesquieu.

O Parlamento brasileiro, sabemos todos, jamais foi modelo a ser seguido. O que se passa, agora já não mais apenas nos bastidores, em todos os ambientes do Congresso corresponde ao que Bismarck atribuía ao Parlamento alemão. Se conhecêssemos como se fazem as salsichas e as leis, não apostaríamos em qualquer delas, salsichas e leis.

Se antes isso era assunto da - chamemos assim - cozinha da Câmara e do Senado, hoje nenhum pudor, menor que seja, impede os interessados porque beneficiários da situação de proclamar publicamente suas verdadeiras intenções e os interesses espúrios que o movem. É bem o caso das candidaturas à Presidência da República.

Dentre os postulantes, a maioria está envolta, no mínimo, em pesadas suspeitas. A começar pelo próprio Presidente da República, raramente se encontra entre os postulantes algum que esteja isento de acusações. A regra é ver o nome dos interessados no elenco dos investigados pela Lava Jato.

Não é de hoje que Michel Temer tem seu nome vinculado a irregularidades praticadas no porto de Santos. Como ele, Paulo Skaf, pretendente à melhor cadeira do Palácio dos Bandeirantes, também consta da relação de suspeitos. Esse, pelo menos, denunciou-se a si mesmo, quando representou o povo brasileiro no pato amarelo com que participa do golpe dado em Dilma Rousseff e em tudo o mais que ocorre desde aquele momento.

Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco de Bóston, permanece no firme propósito de chegar à Presidência, seja no posto mais alto, seja como coadjuvante. Representante do segmento que o Jornal do Brasil só agora descobre ser o maior agiota do País e, portanto, responsável direto pela desigualdade com a qual convivemos, o ex-deputado federal começa a dizer-se alheio à política.

Como todos os espertalhões que se aprestam a obter um mandato, menos que isso, o habeas corpus que lhes pode impedir serem postos atrás das grades. Podemos ver nele, sem muita probabilidade de errar, o Michel Temer deste mesmo. Sendo que Dilma Rousseff poderá ser o atual Presidente. Quem viver, conferirá.

Bolsonaro, o mais digno representante do atraso e do nazismo (como se não fossem sinônimos!) também não escapa do rol dos denunciados e imagina que sua truculência característica intimida os cidadãos de bem. Nem mesmo seus colegas de armas confiam nele, o que dá boa medida de sua índole e de seus objetivos.

Ciro Gomes, o ex-coronel do Nordeste, por mais força que faça, não tem capacidade teatral de representar o tempo todo. Um dia, que estará mais ou menos próximo, a cena se abrirá. E seu dilema - ser ou não ser - logo será desvendado.

Isso tudo, é claro, se for desfeita a discriminação odiosa e desonesta, caracterizada pela pressa em levar Lula à prisão, enquanto Eduardo Azeredo, o tucano pioneiro em mensalões, permanece livre e leve.

Impossível ignorar a que propósitos servirão os mandatos: substituir o habeas corpus incerto pelo privilégio do cargo eletivo. Por isso, nunca é demais insistir: só o povo, nas ruas e com estardalhaço, pode decidir o que o STF e o Congresso têm negado. Nas urnas, mais ainda. Deixando marcada, mais que a rejeição, o nojo, por tudo a que temos assistido, nesta obscura fase de nossa história.


Mais uma... - Em 22/04/2018

O embotamento que despencou sobre o cérebro da maioria dos analistas políticos contribui para fazer ainda mais obscuro o cenário nacional. Vítimas das afetações por que passa a inteligência dos estudiosos são os conceitos. Um deles, no processo de justificação de toda sorte de conduta ou em defesa de opiniões descabidas, refere-se ao termo esquerda.

Originário da Assembleia dos Estados Gerais da França, o conceito se foi firmando ao longo do tempo, a despeito do esforço despendido pelos que pensam diferente, identificando-se com certo conjunto de valores, decisões e atitudes construídos em função da Revolução Burguesa de 1789.

De esquerda eram os representantes sentados desse lado, na Assembleia. Ao contrário dos outros (nobreza e clero), buscavam substituir o absolutismo monárquico e instaurar uma nova ordem social, em que a liberdade, a fraternidade e a igualdade apontassem os rumos do povo francês. Por conta disso, opunham-se a tudo quanto comprometesse a caminhada a esse desiderato. Desejavam os representantes populares a derrubada do absolutismo e a atribuição de direitos ao terceiro estado, aquele que portava a bandeira das liberdades e que incorporou o lema dos revolucionários no elenco de conquistas a legar às gerações posteriores.

Não obstante, passados mais de dois séculos do acontecimento que marca o início da Idade Contemporânea a revolução burguesa sequer se aproximou de muitos países. Mesmo em nações onde se diz terem ocorrido substanciais mudanças políticas, os ideais proclamados e difundidos pelos franceses estão por ser adotados. Em alguns casos, nem são reconhecidos.

Muito por isso, os agentes políticos são confundidos, chamando-se de esquerda a todos os de que se não gosta (ou se gosta demasiado), na tentativa não apenas de prejudicar os classificados, mas de comprometer toda a própria História Universal.

É inadmissível que muitos dos analistas insistam em tachar de esquerdista um homem como Luís Inácio Lula da Silva, a não ser que tal classificação pretenda obscurecer as virtudes do pensamento e das propostas da esquerda.

Ser de esquerda importa empenhar-se em fazer avançarem as conquistas da maioria do povo, além de fazê-lo segundo os valores proclamados e defendidos pelos revolucionários franceses de 1789. Isso quer dizer orientar a conduta de representantes e governantes pelos ideais de liberdade, fraternidade e igualdade.

É impossível desdenhar dos pequenos ganhos que as pessoas mais pobres tiveram no Brasil, nos dois governos de Lula. Igualmente impossível é ignorar a proporção em que os mais ricos ganharam nesse mesmo período, de tal forma que se ampliou a concentração de renda nas mãos do 1% mais rico. Aumentou, portanto, o fosso entre uns e outros.
Há os que dizem não ser a palavra do homem que o define, mas sua conduta. Assim, para esses, Lula pode ser considerado de esquerda, pois os trabalhadores puseram mais um prato de comida sobre suas mesas e mais jovens ingressaram nos cursos superiores. Nada é dito sobre a proporção em que os ganhos foram distribuídos, os mais ricos ficando com o naco maior. Nem se especula a respeito das razões por que mais jovens pobres ocuparam carteiras nas faculdades espalhadas por todo o País.

Poucos se dão o trabalho de ver para onde foram desviados os recursos que faltam às universidades públicas e a diferença entre o salário pago aos trabalhadores e o que o DIEESE (para ficar apenas nesse órgão) afirma o mais justo para a digna sobrevivência dos que vivem do trabalho. Num caso e noutro, podem ser encontradas suficientes razões para negar a Lula a pecha que ele sempre rejeitou - a de ser um homem de esquerda.

A igualdade que ele buscou, se não abrangeu os brasileiros que hoje perdem o emprego ou amargam o mísero salário que lhes é pago, consumou-se nele mesmo, conviva de bons bebedores de vinho e passageiro de jatos executivos dos que um dia alegou combater.

A liberdade, que hoje lhe é negada, ainda não se avizinha dos pretos e pobres, incapazes economicamente de pagar bons advogados e carentes do apoio estatal que os dois governos de Lula poderiam ter contemplado.

A fraternidade, finalmente, também não parecia constar dos valores cultivados pelo ex-Presidente, de que poderiam dar excelente esclarecimento José Dirceu, Antônio Palloci e tantos outros enxadrezados pela fidelidade mais que canina ao novo messias.

Deplore-se o que vem sendo feito com Lula. Menos por ele, mais pelo povo brasileiro. Sempre que a ira dos inimigos do povo atenta contra os direitos de um, todos passamos a ser ameaçados.

Sou dos que veem em Luís Inácio da Silva um político que, à moda de Fausto, vendeu sua alma ao diabo. Vejo nele alguém que, objetivando melhorar sua própria vida, usou de suas qualidades políticas enquanto isso lhe atendeu as ambições. Passada essa fase, logo se desfez de seus compromissos e passou à companhia dos que invejava.

Mais grave, ainda, depois que se viu frente à possibilidade de ser preso. A partir daí, fez tudo quanto faz qualquer pessoa à qual faltem fundamentos éticos e políticos: tentou igualar-se a Cristo, buscando fazer de seus próprios erros um novo ideário messiânico. Depois de tantas vezes negar ser de esquerda, pretende assemelhar-se ao crucificado, embora os que o puseram na cruz sejam os mesmos que o inspiraram a assinar a Carta aos Brasileiros.

Para agravar ainda mais a situação, Lula impediu que o Partido dos Trabalhadores gerasse novas lideranças. Ao contrário, sempre evitou a emergência de tantos jovens promissores como líderes, que agora se vê na contingência de admitir o apoio de seu partido a candidato de outra sigla.

De messias e salvadores da pátria estamos todos cheios! A esquerda não pode depender deles, ainda mais quando sempre se viraram de costas para ela. Que Lula seja posto em liberdade, mas não a tenha como um cheque em branco. Que, livre, ele venha juntar-se aos que não chegaram à esquerda hoje, nem pelo desejo de ascensão pessoal a novas condições de vida. E não pretenda dar as cartas, mas se submeta ao jogo político como ele deve ser jogado: limpo, aberto, transparente.

Que Lula se converta à esquerda e, conosco, possa retomar a orientação política descartada quando se submeteu às diretrizes de um documento a que a Odebrecht diz ter dado substancial contribuição. Mais uma...


O pior ainda pode acontecer - Em 14/04/2018

Espero não produzir, em futuro próximo, texto de protesto contra a injustiça cometida contra um amigo, um parente ou alguém que nunca terei visto. Porque o arbítrio nega-se a escolher dentre suas vítimas a que realmente deve contas à sociedade. Esta, na maioria das vezes, sequer passa pela preocupação dos que usam do autoritarismo e do preconceito para escolher os que serão punidos. Tem sido assim em todo estado autoritário, de Hitler a Fulgêncio Batista, de Médici a Somoza.

Espero que os rejubilados inimigos de Luís Inácio Lula da Silva sejam poupados de sofrer, diante do obscurantismo, as mesmas consequências sofridas pelos pobres, prostitutas e pretos. Seria bom, contudo, que não contassem que o aplauso e a cumplicidade aos atos arbitrários lhes servirão de salvo-conduto. Porque se há algo que detenha o crescente autoritarismo em que vimos mergulhando, nem mesmo a conivência se credencia a sê-lo.

O cenário que se desenha no ambiente político-institucional brasileiro jamais esteve tão ameaçador, nos últimos 30 anos. A pregação do ódio, o uso da mentira nas redes sociais, mas também nos meios de comunicação ostensivos não poderiam conduzir a panorama diferente. Ao invés de aprendermos com a História, temos sido capturados pelos mais torpes e vis interesses, o que poderá levar-nos de volta à caverna.

No âmbito das leis sociais, estamos em marcha batida na direção de uma escravatura reinventada. No campo da segurança individual, a defesa dos cidadãos cedeu lugar à ação nefasta de milícias postas à disposição de traficantes e delinquentes de toda sorte. O ambiente político não desafina. Até porque muitos dos ingredientes da tragédia brasileira são fruto pensado e implantado pelos que lograram um mandato ou uma posição de mando, em si mesmos um logro a todo um povo.

Importa pouco que a mais recente vítima do ódio seja o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Sua condenação, e agora sua prisão, certamente não correspondem aos crimes a ele ostensivamente atribuídos. O apartamento do Guarujá e o sítio de Atibaia são mero pretexto. Não fora assim, quase toda a equipe que cerca o Presidente Michel Temer (com ele mesmo à frente de todos) leriam o respectivo mandado de prisão. Não é o que ocorre.

Em todo caso, uma lição já se pode tirar de todo esse lamentável episódio. Não, exatamente, pelo que de benéfico trouxe à sociedade, mas pelo seu contrário. Refiro-me à capacidade de a justiça ser célere, quando isso atende aos interesses dos encarregados de distribuí-la. A rapidez com que Sérgio Moro expediu o mandado de prisão é excepcional e, mais que atrair aplausos, mostra quão cega é a Artêmis cultuada pelo magistrado curitibano.

Enquanto isso, os outros denunciados arranjam-se para aprofundar a desmoralização do Poder Judiciário Brasileiro. A seu favor, muitos dos atuais ocupantes das celas nas penitenciárias podem alegar também serem credores do favor feito a alguns dos que sentam, togados, no mais alto tribunal.

Não falta, sequer, o ingrediente mais inquietador: a intervenção militar, que não se restringe às favelas do Rio de Janeiro. Ela percorre, também, as ondas da internet, emitindo sinais de que tudo pode voltar como antes no quartel dos atuais Abrantes.



Subsídios à história da Antropologia brasileira - Em 06/04/2018

Acabo de ler Os primórdios da Antropologia brasileira. Integrante da coleção Jornadas Antropológicas, do Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia, o libreto (98 páginas) pretende ser uma descrição sincrônica da produção antropológica nas terras de Pindorama.Trata-se da abertura da coleção, promovida pela Universidade Estadual do Maranhão, e traz a autoria do festejado antropólogo Roque Laraia.

Segundo o editor, Alfredo Wagner Berno de Almeida (dos quadros docentes da Universidade do Estado do Amazonas), o trabalho...perscruta a história social deste campo com informações acuradas e um notável refinamento analítico... É o que se lê à página 7 (Nota prévia do editor).

Leigo no campo de conhecimento específico que recheia o trabalho, nem por isso meu faro de leitor interessado deixa passar certos aspectos - omissões, sobretudo - que penso terem lugar assegurado em obras de semelhantes propósitos, ainda mais se voltados para a reconstrução da trajetória da Antropologia no País.

Não ignoro o caráter seletivo de nossa memória. Menos, ainda, de quanto a memória (escrita ou guardada nos escaninhos do cérebro humano) ajuda na compreensão dos fenômenos históricos com os quais lidamos ou dos quais tivemos conhecimento. Isso não basta para admitir certas ausências, especialmente quando responde pelo trabalho um dos mais respeitados e competentes antropólogos brasileiros.

Discutir a importância da obra e de seu conteúdo parece-me impossível. A oportunidade em que surge, menos ainda. Quem nos dera o mesmo fosse empreendido em outros campos e áreas da produção intelectual de tantos outros estudiosos do Brasil, de suas coisas, de suas terras e de sua gente!

A lembrança da obra No pacoval do Carimbé, de Bastos de Ávila, por exemplo, como destacado pelo editor, é informação preciosa, a que não podem virar as costas os interessados na matéria. Também a intensa participação de muitos dos profissionais que produziram, divulgaram e defenderam a formação dos antropólogos, sem descurar da contribuição dada à compreensão da sociedade brasileira, em todas as suas nuances.

Aqui, exemplificarei a omissão, mencionando nomes que, a meu critério, não poderiam faltar em obra de tamanha envergadura. Não serve a escassez de páginas para justificar a ausência, verbi et gratia, de Inocêncio Machado Coelho, Nunes Pereira, Frederico Barata, Orlando Sampaio Silva, Roberto Maria Cortez de Souza, Raimundo Heraldo Maués, Isidoro Maria Alves, Napoleão Figueiredo, além de outros que talvez escapem à percepção deste pobre autor de textos sem-valia. (Minha memória também é seletiva).

Machado Coelho, um dos fundadores do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará, junto com Manuel Nunes Pereira, Armando Bordalo da Silva, Eurico Fernandes, José Coutinho de Oliveira e Paulo Maranhão Filho, também dirigiu o Museu Paraense Emílio Goeldi. Em muito se deve a ele e a seus companheiros de sonhos o incentivo à pesquisa antropológica na região. Também foi durante sua administração criado o boletim do MPEG, indiscutivelmente um importante meio de divulgação do trabalho dos mais antigos antropólogos, do Pará, da Região Amazônica e do Brasil.

Moronguetá - um decameron indígena,de Nunes Pereira, tem sido cantado em prosa e verso, e não será pelos belos olhos do autor. Autor também de Os índios maués Nunes Pereira tinha naquela obra um conjunto monumental de pesquisas, como o diz o prefaciador dos dois tomos em que ela se apresenta, poeta Thiago de Melo. Cafuso, o originalmente ictiologista maranhense

atraiu a atenção de ninguém menos que Claude Levi-Strauss e Roger Bastide. Carlos Drummond de Andrade também se ocupou dele - e não terá sido pelo simples fato de ser o primeiro não-branco brasileiro a receber honrarias e reverências da comunidade internacional!

Orlando Sampaio Silva, o único dos aqui citados ainda vivos, dedicou a maior parte de sua vida ao trabalho antropológico. Antes de diplomar-se bacharel em Direito na Universidade Federal do Pará, de que foi professor titular, teve intensa vida literária, da qual se afastou publicamente (embora continuasse produzindo poemas), em função de estudos e pesquisas na área que nos ocupa agora.

No seu caso, o foco de interesse espraiava-se de sua cidade natal (Bragança, no Pará), da Região (em cujo órgão de desenvolvimento, a então SPVEA, atuou por um período) e do exercício docente (na UFPA, da qual foi aposentado por força do Ato Prostitucional - como o chamava o advogado Alarico Barata - nº 8) alcançando outras regiões do País. Assim é que, dentre sua profícua obra escrita encontram-se os livros Eduardo Galvão: índios e caboclos (Ed. Annablume, São Paulo, 2007); Tuxá: índios do Nordeste (Ed. Annablume, São Paulo, 1997); Índios do Tocantins (Ed. Valer, coleção Memórias da Amazônia, Manaus-AM, 2009); A perícia antropológica em Processos Judiciais (Organizador, com Lídia Luz e Cecília Maria Helm, ABA-CPI/SP, Ed. Da UFSC, Florianópolis, 1994). Há, ainda de autoria de Orlando Sampaio Silva, dezenas de artigos publicados em revistas científicas e comunicações apresentadas em eventos da especialidade. No País e no exterior.

Etnias existentes em várias regiões brasileiras foram estudadas por Orlando, como os Yanomama, os Tiryó, os Wapixana, os Ticuna, além de serem estudados os japoneses que se instalaram na zona bragantina do Pará. Não faltam na bibliografia desse autor trabalhos sobre aspectos jurídicos, políticos e ritualísticos de sociedades indígenas.

Muitos trabalhos dos outros profissionais citados poderiam aqui ser mencionados, mas me restringirei a esses três, o que por si só torna estranha a omissão de seus nomes na escritura de Roque Laraia. O termo escritura é proposital, porque, não havendo qualquer sentido de crítica no presente texto, deseja-se apenas deixar registrada a estranheza pela omissão. Uma conduta, digamos assim, meramente cartorial.

Os que me conhecem mais de perto certamente alegarão que puxo brasa para meu peixe. Num certo sentido, estarão com a razão. Afinal, os laços de parentesco entre mim e Orlando Sampaio Silva - ele, tio; eu, sobrinho e amigo, que teve nele testemunho e participação no processo que me fez auto-alfabetizado - justificaria tal juízo. Só que os fatos, mais que os laços parentais, dizem da necessidade de fazer o registro, sem o que será provável a repetição da falta, salvo não fosse o professor Laraia respeitado e acatado pela comunidade dos antropólogos do País!

Logo a obra assinada pelo emérito mestre servirá de fonte para outros estudiosos. Qualidades ela as tem. Também por isso não pode permanecer com a omissão indicada, sob pena de perpetuar o que não considero desnecessária irreverência, se não fruto do esquecimento apenas.


Nosso ontem. Nosso hoje - Em 30/03/2018

À medida em que a história se desenrola, vão-se conhecendo fatos até recentemente ocultados. Pelo menos para isso serve a democracia. Os períodos autoritários, dentre os graves males produzidos, tentam sepultar não apenas as maiores atrocidades, mas também as maiores bandalheiras. Em especial, as que envolvem o patrimônio público.

Ninguém ignora a existência, nas equipes governamentais impostas durante a ditadura, de políticos e outros agentes públicos feitos dilapidadores do Erário. Uns, pela cumplicidade com o que havia de cupidez em relação aos bens coletivos; outros, pelo uso indevido de recursos do povo, para satisfazer as mais torpes inclinações de que o ser humano é capaz.
Tudo em vão.

Sabe-se de ministro que, antes de deslocar-se para as cidades aonde iria inspecionar, inaugurar ou visitar simplesmente uma obra pública, providenciava o transporte de sua corte imperial. Composta do que hoje se chama garotas de programa, a trupe antecipava-se à chegada da autoridade e seus acompanhantes. À devoção, seguia-se a diversão. Às mesas em que eram supostamente discutidos os problemas da região ou cidade visitada, somava-se a farta mesa dos regabofes, tudo pago com o dinheiro de cada um de nós.

Aos birôs dos gabinetes refrigerados, somavam-se as camas delicadamente aromatizadas, onde se cumpria o ritual exigido pelo corpo, eis que o outro, exigência do público, já se havia cumprido em discursos virulentos, condenando os que discordavam de tais práticas. Tudo isso, em nome da austeridade.

Sabe-se mais recentemente, de ministro do período autoritário beneficiado com dinheiro desviado dos cofres oficiais ou recolhido na boca do cofre dos cúmplices do setor privado. É a Lava Jato quem o diz.

Imagine-se o que foi o período 1964-1983, em termos de saque ao Erário! Algo que somente investigação minuciosa e profunda será capaz de desvendar.

Mesmo assim, e como construir o futuro é tarefa mais importante e prioritária, vale a pena pelo menos especular. Ainda mais quando se constata que o mensalão inaugurado por Renato Azeredo, em Minas Gerais, é apenas um dos muitos sinais de que a ditadura deixou sequelas. A permanência destas, se indica pouco empenho por mudar radicalmente o modo de fazer política e gerir os recursos públicos, também chama a atenção para o alcance das bandalheiras, tão mais fáceis de cometer quando se impede a publicidade que a Constituição erige como um dos princípios da administração pública.

O Presidente Michel Temer está ameaçado, mais uma vez, de ser levado à barra dos tribunais. Do STF, dada sua condição privilegiada. Será a terceira tentativa de torna-lo réu, a que dá apoio não mais apenas sub-reptício a própria rede Globo. O jornalismo desse sistema de comunicação está em plena campanha para derrubar Temer. Cada noticiário sempre encontra meio de embutir informações sobejamente divulgadas, pelos próprios órgãos da rede ou de terceiros.

Diz-se nesses noticiosos, que as práticas hoje denunciadas do ex-deputado federal paulista datam de cerca de 30 anos. Como se vê, ainda que não possa reivindicar pioneirismo em suas ações maléficas, o Presidente acumula extraordinária experiência no mister. Saber quais as motivações ocultas da Globo é tarefa que os pesquisadores (inclusive os que têm o dever de investigar crimes) poderiam tomar para si.

Tivéssemos levado a sério as aspirações da população, desde quando o general-Presidente João Batista Figueiredo deixou o poder, dificilmente teríamos chegado à crise em que nos encontramos. Fossem todos - ou pelo menos os mais graúdos deles - punidos pelos crimes cometidos contra a população, seríamos poupados das muitas ameaças que pairam sobre todos, das quais os trabalhadores já sentem na pele os efeitos.

Nesta véspera de predomínio dos métodos nazifascistas, sempre será bom refletir sobre os fatos, os de ontem e os de hoje. Só isso assegurará caminhada segura e irreversível em direção a um futuro que, sonhado pelo povo, não demove os governantes e seus áulicos de seus projetos perversos e nocivos à maioria.


A flor e o estupro - Em 24/03/2018

É muito mais profunda a crise por que passamos, do que o noticiário nos dá conta. Lamentável é a forma leviana como os fatos vêm sendo tratados, seja pelos agentes políticos, seja pela própria Justiça; seja, ainda, pelos meios de comunicação tradicionais.

No ambiente político não se criam espaços de discussão criteriosa, empenhados os participantes exclusivamente com sua sobrevivência eleitoral. Tanto, que o troca-troca de legendas é a única preocupação que alimenta a intensa mobilização da maioria deles. Pouco lhes importa contribuir para o deslinde dos problemas graves de que podemos dar testemunho. Renovar seus mandatos ou conquistar posições de onde catapultam torpes interesses é quanto lhes basta. Ao invés de buscarem a redução da dissonância entre os deveres assumidos como representantes populares e a vontade da população, entrega-se a maioria a aprofundar ainda mais a falência da representatividade. Ao final, assistiremos à repetição de um passado que muitos preferem cultivar, porque isso lhes traz benefícios que acabam por constituir-se em privilégio. A que não tem acesso a maioria dos que eles mesmos, agentes políticos, dizem representar.

Essa é apenas uma das faces da crise, nem por isso desimportante.

Há outro plano, porém, que confere caráter institucional aos eventos a que lamentavelmente assistimos. Refiro-me, especialmente, ao degradante espetáculo proporcionado pelo Supremo Tribunal Federal. Neste, reproduzem-se palavras e gestos dignos do mais sórdido botequim de periferia. Não bastasse vestirem a toga e desfrutarem de outros benefícios a que o povo está alheio, reitera-se comportamento lesivo, sobretudo, à democracia.

Todos os defeitos podem ser atribuídos ao estado como instituição. Há os que a veem como mecanismo garantidor do status quo, na medida em que traduz não a vontade de todos, mas a da maioria dos cidadãos. Algo como o arranjo produzido pelos homens para deixar marcada a condição de classe que os divide.

Qualquer a interpretação dada ao fenômeno, o estado foi o meio encontrado para regular as relações entre pessoas e grupos, de modo a construir uma sociedade organizada. O que não significa admitir sábio o engessamento da instituição estatal. Antes, evoluir sempre em direção à prevalência dos interesses da coletividade, mesmo em prejuízo dos indivíduos ou pequenos grupos, parece expectativa saudável. Desde que - é bom advertir - a maioria se incline à busca desse desiderato. As nações encontraram na Constituição o instrumento adequado a essa busca.

O zelo pela chamada Carta Magna, portanto, assume aspecto crucial nesse processo. Daí a necessidade de um órgão que, colocado no topo do Poder Judiciário, tenha não só a capacidade de defender os preceitos constitucionais, como o de oferecer à sociedade a segurança jurídica tão reclamada. E indispensável à relativa paz social - igualmente tão reclamada.

Nesse particular aspecto, também nos revelamos deficitários. Dizem-no os mais recentes acontecimentos cujo palco é a corte onde as ofensas à Constituição se hão de resolver.

Nada do que tem ocorrido no STF ajuda a construir a democracia e consolidar a república. Primeiro, de costas para os preceitos que por ele deveriam ser defendidos, o STF pôs por terra o conceito de coisa julgada. Tal ocorreu quando, atenta ao clamor público, mais que à sua própria função de órgão supremo da Justiça, dispensou o final do trâmite judiciário para determinar a prisão de alguns malfeitores. Pior, ainda, quando a liberalidade ofensiva à Constituição discrimina entre denunciados - uns devendo ser logo tolhidos de seu direito de ir-e-vir; outros, cobertos pela simpatia dos julgadores, mantidos na mais desafiadora liberdade.

Mais têm trazido à cena pública os mais altos membros da magistratura brasileira, quando se entregam ao bate-boca vulgar e deseducativo, como o que se registrou na última quarta-feira.

Uma das personagens, de cujo conhecimento jurídico quase ninguém duvida, nada trouxe de novo ao conceito de que desfruta, em se tratando de compromisso com a verdade e de interesse em ver a crise resolvida. Mostrou, todavia, que certas sabedorias específicas operam sempre no pior sentido, quando lhes falta o substrato moral. O outro, talvez movido por interesses semelhantes, não fez por menos.

É certo que o ser humano é parcial por natureza. No campo da ciência, o método produz o efeito de neutralizar tal parcialidade, assegurando a isenção na conduta e na conclusão dos trabalhos de busca. Daí a frequência com que o resultado do trabalho científico acaba por desmentir hipóteses caras aos pesquisadores. Nesse embate entre parcialidade e isenção como resultado do bom método, vejo o cerne da verdade científica.

Finalizo, lembrando que nada é mais importante, neste momento, que dedicarmos esforços para superar a crise, menos com palavras de ódio e mais com compreensão da profundidade e extensão dela.

Se, ao invés de disseminarmos preconceitos, malquerenças individuais, interesses escusos, ressentimentos e frustrações, enxergarmos as dificuldades como produto saído de nossas cabeças e tolerado por conveniência, ganância ou covardia, já teremos dado passo significativo em boa direção.

Quase não duvido que, ao final do processo, teremos elaborado formas adequadas de recrutamento de novos quadros políticos e de ministros para o STF. Isso tudo acompanhado da certeza de que as crises futuras serão bem menos profundas e extensas.

Não somos imunes a qualquer agressão à Constituição. Já vivemos período em que essa ofensa era comum. Se há muitos mortos por causa disso, os que restaram dão seu testemunho. A limitação da liberdade dos que nos são antipáticos não assegura - antes, ameaça - nossa própria liberdade. Mais uma vez, a flor tirada hoje do nosso jardim pode ser o estupro cometido amanhã contra a filha do jardineiro.


A miséria da política - Em 18/03/2018

Quem se dá o trabalho de enxergar além das aparências, considerará no mínimo absurda a movimentação dominante na cena política brasileira. O País acrescenta às dificuldades financeiras causadas pelo saque dos cofres públicos a crise de (in)segurança. Não é só o Estado do Rio de Janeiro o palco da violência, nem só esse fenômeno se contém nos malefícios físicos que determina.

Outras cidades, inclusive no interior de nosso vasto território, têm registrado índices de violência (e insegurança, portanto) inadmissíveis. No caso específico do Pará, a recorrência da eliminação de lideranças populares tornou-a quase manifestação da natureza. Lá, mata-se qualquer cidadão que se oponha aos donos de tudo, nestes tempos em que ter vale mais que ser.

Mesmo a intervenção do governo federal na antiga capital do País não foge ao quadro geral. Está por ser provada a sabedoria das autoridades, tanto quanto a legitimidade das intenções. A tentativa de descaracterizar como militar a presença do governo federal tem poucas chances de prosperar no entendimento da população. O vestuário e os equipamentos dos intervencionistas, de alto a baixo, não conseguem enganar ninguém.

Dado o caráter dos atuais detentores do poder, o Presidente mais que seus cúmplices, não surpreenderá a revogação do decreto que empurrou as forças armadas para as ruas e favelas - sobretudo estas - da antiga Cidade Maravilhosa.

A situação chegou a tal ponto, que o titular do recém-criado Ministério da Segurança insinua passar o chapéu para colher os recursos segundo ele necessários. Os cofres públicos combalidos, façam-se financiadores de ações oficiais aqueles que de fato ocupam o poder. E em nome e no interesse dos quais são tomadas as decisões.

Pois bem, em meio à tragédia, o debate magno se trava em relação à eleição presidencial e ameaça sepultar uma realidade atroz, sintetizada na comparação do Brasil com outros lugares do mundo, onde há guerra declarada. Nesse item, ocupamos a liderança. Juntam-se, às armas dos traficantes e as dos que são pagos com o dinheiro de todos para oferecer-nos segurança, as canetas com que são assinados documentos oficiais.

Nada disso parece mover, sequer comover, os políticos alvoroçados. A situação é grave, dizem alguns deles. Nem por isso desistem de trazer sua contribuição ao processo de empobrecimento e enfraquecimento de toda uma nação.


A tragédia dos erros - Em 02/03/2018

Governo, todos sabemos, jamais erra. No máximo, escolhe os beneficiários de suas decisões. Ingênuo, portanto, é todo aquele que atribui as más consequências sociais das decisões governamentais a algum erro. Isso equivale à absolvição da autoridade, como se os aspectos importantes dos problemas não tivessem sido avaliados.

Os meios de comunicação que aplaudem, apoiam e, às vezes induzem as decisões oficiais também dificilmente se enganam. A menos que sejam operados por profissionais despreparados ou incapazes de análises as mais elementares. Porque a grande maioria dos problemas com que se há poder público traz em si mesma clareza meridiana. Além disso, é flagrante e choca os olhos de todos a desigualdade com a qual convivemos. Atribuí-la a fatores que independem da vontade - dos governantes e dos súditos e seus representantes - é grosseira desonestidade.

Vale dizer, então, que pesa na ação dos media o tipo de interesse a que correspondem. Parece-me claro o compromisso que a grande maioria dos jornalões e seus veículos de comunicação mantêm. Basta ver a repercussão de qualquer medida governamental que atenda a esses interesses, para verificar quão íntima é a ligação entre uns e outros - governantes e divulgadores.

Bom exemplo refere-se à tão incensada reforma das leis trabalhistas, como o é o suposto déficit da previdência oficial.

No primeiro caso, o governo se gaba de ter reduzido o número de desempregados e seus acólitos e suas caixas de eco propalam tal verdade por toda parte. Gasta-se o dinheiro do contribuinte para mentir à população e fazê-la não mais que um aglomerado de energúmenos. Sequer é mencionado o fato de que grande parte do ativo com o qual a previdência poderia contar não chegou aos cofres públicos graças à dívida que o setor privado acumula, superior aos números do déficit global do orçamento público.

Os media vão atrás. Dizem o mesmo que diz o governo, embora se contradigam na linha seguinte de seu noticiário. Isso fica mais transparentes, se analisado o noticiário sobre a queda do desemprego - hoje temos apenas doze milhões e setecentos mil desempregados. Essa é a verdade propalada a partir dos gabinetes oficiais e logo repetida pelos papagaios de plantão.

Pretensos analistas põem-se a louvar as medidas governamentais, com propósito que necessitaria de brutal ignorância da sociedade, para passar em branco.

Nenhum desses especialistas pergunta quais os critérios que autorizam dizer que o desemprego se tem reduzido. Mesmo que essa resposta seja encontrada no próprio noticiário laudatório, os analistas fingem ignorá-la. Agrada-os, mais que outra coisa, agradar aos que mandam.

Pelo menos três são os indicadores de que há uma proposital confusão produzida pelo próprio governo, com o apoio e o aplauso irrestrito dos meios de comunicação. O primeiro deles diz respeito ao crescimento da informalidade. Embora as autoridades declarem combate-la (e para isso utilizam argumentos nem sempre honestos), a política praticada reforça essa irregularidade e favorece o outro lado da equação, o capital, jamais o trabalho.

O segundo ponto refere-se à crescente tentativa de transformar todo cidadão em um empresário. São as tais políticas de empreendedorismo, uma falácia que os números do SEBRAE desmentem: a taxa de mortalidade das pequenas empresas é assustadora.

Por último, um ponto ao qual só os absolutamente ignorantes ou destituídos da mínima capacidade de análise não têm acesso. Falo, aqui, da confusão proposital entre emprego e ocupação. Se o trabalho se faz à margem da proteção social que um dia a legislação trabalhista consagrou - e agora foi reduzida -, não corresponde ao emprego. Fosse assim, o biscateiro e o trabalhador eventual, como a diarista por exemplo, seriam considerados empregados. Não o são, todavia.

Assim, de mentira em mentira, o governo presta serviços aos segmentos conhecidos, os ganhadores de sempre. A melhor prova disso são as taxas de lucratividade dos bancos e dos grandes conglomerados econômicos.

Você ainda duvida de que governos não erram?

Shakespeare escreveu uma peça chamada A comédia dos erros. Nela, graças à presença de dois gêmeos e às suas ações, tece-se uma trama engraçada, afinal resolvida com muito motivo de riso.

No caso brasileiro, o erro não existe, porque é proposital. Com a lamentável consequência: o choro e a infelicidade da grande maioria do povo


Ele só pensa naquilo - ou a bacia das almas - Em 24/02/2018

A intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro é mais uma das muitas manifestações de hipocrisia do governo que não escolhemos, mas nos está importunando. Das razões apresentadas pelo Presidente Temer, nenhuma corresponde às verdadeiras inspirações do ato. Ainda mais, diante de tudo quanto se sabe a respeito do estilo do ex-Presidente do PMDB. Firmeza nas decisões, preocupação com a vida dos seus concidadãos, fidelidade aos padrões republicanos e opção pela solução dos problemas (alheios), aprendemos ao longo das últimas décadas, não se inscrevem no elenco de eventuais qualidades do político paulista.

Não precisaria alimentar qualquer ódio ou malquerença em relação a Temer, para chegar àquela conclusão. O histrionismo de que suas mãos se fazem portadoras não dá lugar a mais que o desejo de mostrar-se diferente, não se sabe de quem ou em quê. As práticas por ele adotadas, até aqui, revelam traços de caráter em nada diferentes dos que ostenta grande parte de seus colegas, companheiros e acólitos. Uns e outros se merecem, e por causa disso, cada dia se agrava a crise política brasileira.

Os sucessivos episódios de suas idas-e-vindas não pode ser esquecido porque ele decidiu intervir no Rio de Janeiro. Nada mais houvesse a alegar, bastaria dizer que não é a redução da violência naquela unidade federativa que interessa mais ao Presidente da República.

Jornalistas atentos registram ser essa a 13ª vez em que, nos últimos 9 anos, é decretada intervenção federal na antiga capital. Nem por isso a violência retrocedeu. Ao contrário, só fez crescer, gerando um clima de intranquilidade que talvez algumas nações em conflito aberto e guerra declarada não experimentem.

Não fosse trágica a situação do Rio de Janeiro, é apenas ridícula a constatação de Temer: o Rio de Janeiro foi tomado pelo crime organizado. Beirando a sandice, a afirmativa revela ignorância a respeito do País, ele sim, tomado pelo crime organizado. A começar por Brasília, onde gabinetes influentes têm servido à operação insultuosa de quadrilhas que misturam políticos e empresários e arquitetam situações e decisões contrárias aos interesses da maioria do povo.

Nenhum número ilustraria melhor a situação a que chegou o País (não só o Rio de Janeiro), no que toca ao controle exercido pelas quadrilhas, que o conceito que o Presidente e seu governo desfrutam no seio da população. No mínimo, 70% dos brasileiros rejeitam Temer.

Mesmo que a intervenção antes tentada não conseguisse estancar a sangria de violência jamais experimentada, nem outras sangrias pudessem ser estancadas, foi por esse caminho que o governo preferiu trilhar. Daí ser justo supor serem outras as motivações de Michel Temer. Mais que tudo, ele só pensa naquilo: concorrer à renovação do mandato, pela via do voto popular direto. Porque antes, escondeu-se atrás de Dilma Rousseff, o poste com que Lula derrotou Aécio Neves. Beneficiou-se dos votos dados em Dilma, para urdir a queda da que podemos considerar seu andador. Deficiente em votos, usou a Presidente deposta para caminhar. O vice não chegaria ao posto, se não pela via inglória que o pôs no Palácio do Planalto. Seus próprios pés não o levariam a tanto.

Uma vez feito Presidente, trata de contemplar os interesses que o guindaram ao cargo. Nenhum desses interesses, coincidente com as aspirações da maioria do povo brasileiro. Pôs-se, então, a leiloar o que resta da riqueza e das potencialidades nacionais, na bacia das almas. De tal sorte se entregou a esse objetivo, que cada ato seu concorre para piorar a vida dos pobres, empobrecendo outros e sequestrando o que restava da esperança da maioria.

Lamentavelmente, isso é apenas o começo. Coisa muito pior está por vir, ainda mais se surtir efeito a estrepitosa intervenção, cujo objetivo nada tem a ver com a insegurança reinante, não apenas no Rio de Janeiro, mas do Oiapoque ao Chuí, do Cabo Branco à serra de Contamana.

Mais grave ainda a situação se revela, quando o Presidente limita ao Rio de Janeiro o domínio do crime organizado. Isso é coisa de quem deseja falar do universo sem conhecer os que lhe estão mais próximos.


Práticas políticas, cá e lá - Em 17/02/2018

A renúncia do ex-Presidente da República da África do Sul, na última quarta-feira, sugere comparações com a atual situação política brasileira. Não apenas do ponto de vista histórico, mas pelo que se pode deduzir, em termos da ação dos envolvidos.

Jacob Zuma, pertencente ao mesmo partido de Nélson Mandela, esteve preso nos cárceres do antigo regime, como ocorreu com o líder da luta contra o apartheid. O Congresso Nacional Africano, dirigido pelo político morto em 5 de dezembro de 2013, ocupa o poder desde 1994. Zuma não chegou ao final de seu segundo mandato na Presidência, depois de ter cumprido o período de 2009 a 2014. Agora, acusado da prática de corrupção, recebeu ultimato do CNA, que recusou sua proposta de uma saída negociada.

Temendo ser literalmente enxotado por seus próprios correligionários, Jacob Zuma preferiu abandonar o governo, não sem repetir o que afirmam todos os acusados de corrupção, lá e cá - acha-se inocente.

Esta uma primeira diferença a fazer: o Presidente sul-africano optou pela saída mais adequada a um governante sobre o qual pesam suspeitas de enriquecimento ilícito, em detrimento da satisfação das necessidades sociais de seu país. Essa é prática aqui desconhecida, não obstante os reiterados protestos de fidelidade ao povo e de respeito aos direitos dos cidadãos. A rigor, a conduta do ex-Presidente sul-africano colide com a de seu colega brasileiro, aconselhado inclusive por Fernando Henrique Cardoso a pedir o chapéu e descer a rampa do Palácio do Planalto.

Nossos costumes políticos parecem rejeitar a solução encontrada pelo ex-seguidor de Mandela, ainda que a população a veja com bons olhos. O que se tem visto, ao contrário, é o apego ao cargo - e não só o de Presidente da República -, como se a cadeira onde sentam as autoridades operasse resultados pessoais dos quais nenhum dos ocupantes gostaria de afastar-se.

Há, porém, semelhanças entre as peripécias (para não usar termo mais justo, igualmente mais pesado) do resignado governante da África do Sul e os do Brasil: a promiscuidade com grupos econômicos, lá e cá envolvidos em denúncias e propiciadores de - digamos assim - certos favores aos que governam. Pode-se ver, por exemplo, alguma similaridade entre a grande corporação indiana Gupta e o clube do tênis, a Odebrecht à frente.

Enquanto a empreiteira daqui cria e opera com grande desenvoltura um departamento dedicado ao enriquecimento dos governantes, lá o ex-Presidente ganhou para dois de seus numerosos filhos postos de comando em empresas do grupo da Índia. Mineração, aviação civil, tecnologia e energia são os campos preferenciais da corporação, soando estranho ver as telecomunicações excluídas das informações conhecidas. Como tem ocorrido entre nós.

A Sahara Computadores conta em sua direção com uma filha de Zuma, enquanto outra das empresas do mesmo conglomerado tinha um irmão dela em posição destacada. Este renunciou ao posto, ainda em 2016. É possível que se tenha livrado das dificuldades por que ainda há de passar (?) seu pai.

Em relação ao Brasil, sabe-se quanto filhos têm merecido dos beneficiários de decisões governamentais a gratificação pelas boas ações dos pais. Em alguns casos, aos filhos se tem juntado pessoas íntimas dos círculos e gabinetes palacianos, como todo dia se vem a saber.

Há quem veja grandeza e exemplo em governantes que, pegos com a boca na botija, acabam pondo fim à própria vida. Seria essa a fórmula mais conveniente a quem não vê preço que compre sua honra. Na hipótese, porém, de descartada a prática do haraquiri, já bastaria que os suspeitos pendurassem as chuteiras e vestissem o pijama. Deixando, é claro, de atrapalhar as investigações e insistir em uma inocência dificilmente atestada. Aí, é a história dos denunciados que faz gol contra.


Usos e abusos - em 10/02/2018

Em uma de suas muitas frases de efeito, Ulysses Guimarães disse que o poder tinha certa qualidade afrodisíaca. Enquanto muitos encontram na acumulação de dinheiro e outros bens uma fonte de poder, há outros que são capazes de vender a alma ao diabo, desde que isso assegure uma posição em que possam mandar.

Maquiavel já chamava a atenção para certas condições em que o poder é exercido e quanto os homens que o detêm se empenham em manter-se poderosos. Pode não ser tão fácil compreender as relações entre as diversas classes sociais, mas não parece muito difícil ter a completa compreensão para a justificativa do fenômeno.

De nada valeria aos que se pensam superiores aos demais seres humanos, se não pudessem exercer sobre eles algum tipo de autoridade. Às vezes, tal autoridade decorre da ocupação de um posto na administração, pública de preferência. Outras, da força moral que atrai admiração (inveja, muitas vezes) e torna o poderoso oráculo certo, quando se trata de algum assunto complexo e de interesse geral. Há, ainda, os que baseiam sua autoridade na capacidade intelectual, perigosa quando o poderoso tem excesso de vaidade. Nesse caso, passa a ver-se como um conselheiro de Deus.

Quando armados, certos indivíduos suprem sua própria inferioridade com a força advinda do instrumento que os torna senhores da vida dos seus semelhantes. (Se é que o são, realmente).

Conhecem-se, no Brasil, as relações entre os cidadãos e os policiais. Mais que autoridade, o que estes frequentemente revelam é profunda ignorância sobre o papel que devem desempenhar, sobretudo quando se relacionam com os que garantem o pagamento de seus serviços.

A crônica diária, em qualquer cidade média ou grande, desenha um quadro inaceitável. A tal corresponde a rotina abusiva com que o poder se manifesta, em especial no contato inevitável com membros das minorias. Daí dizer-se que a lei (e, em consequência polícia), nas terras de Santa Cruz só vale para pretos, prostitutas e pobres. O pior, porém, é que praticamente nos acostumamos a esses abusos.

A tal ponto convivemos com essa agressão ao Estado de Direito, à Democracia e aos mais transparentes princípios humanistas, que mesmo os poderosos sem armas enveredaram pelo mesmo truculento caminho. Fazendo de suas canetas ou de outros instrumentos por eles manipulados mensageiros da violência (às vezes, física; outras, não), jornalistas, magistrados, professores, políticos e tantos quantos se julguem portadores de poder, extrapolam de suas prerrogativas legais, incidindo no mesmo vício dos outros.

Quando se pretende impedir que investigadores de atos ilícitos e julgadores desses mesmos atos vejam reduzida a margem do espaço em que praticam os abusos, sempre será bom lembrar que o cidadão comum é muito mais vítima do guarda da esquina que de qualquer outro agente público. O estabelecimento de prioridades, portanto, parece necessário. A não ser que a intenção supostamente democrática e republicana não seja mais que o garrote com que se tenta impedir a hemorragia de um órgão ferido.

O abuso praticado nas ruas e contra as minorias parece-me mais grave que os imputados aos investigadores e julgadores. Até por que, ao poder em que estes se instalam só têm acesso os outros, os que ocupam o topo da pirâmide social.

Corrijam-se os abusos seja lá de quem for, mas sem esquecer de que é na base que está nosso maior problema.


Chão e convés - Em 03/02/2018

A insistência com que os media oferecem espaço às peripécias da filha de Roberto Jefferson só se compara à reiteração de Michel Temer em práticas no mínimo inexplicáveis. À luz dos melhores preceitos jurídicos, políticos e éticos, óbvio! Porque explicações ele as deve ter, abundantes. Até arrisco indicar uma delas: seu hábito por escolhas agressivas aos direitos dos súditos e sua harmônica convivência com gente semelhante à deputada federal para quem o pagamento de salário aos empregados é favor do patrão.

A folha corrida do Presidente nada tem de inovadora, nesse pouco mais de um ano em que ele pôs a titular no olho da rua e passou a ocupar o gabinete e instalar nos gabinetes vizinhos gente da laia de Elizeu Padilha, Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Rodrigues Loures, Romero Jucá e outros de igual notoriedade. Cumpre-se, assim, uma vocação, mais que um mandato. Até porque, neste caso, pôs-se a correr a titular, para dar vez a seu parceiro - na campanha eleitoral, na subida da rampa, nos regabofes oficiais, nas decisões e em tudo mais que estas implicaram. Feita a justiça de Salomão ao contrário, tudo o mais que viesse só poderia dar no a que estamos assistindo.

Nem se pense que a gravidade da situação será removida, apenas porque uma candidata ao Ministério se nega a reconhecer o direito dos que habitam o chão de fábrica, para contentar-se com os folguedos de um convés.

Cristine Brasil, cuja qualificação para o cargo resulta da linhagem do sangue, sentiu-se estimulada pelo quase-futuro (se não ex-futuro) assessorado, e não sentiu o menor constrangimento. Disse com todas as letras, a bordo de um barco, que sequer se sabia devedora do motorista que trabalhava até 15 horas por dia para ela. Talvez estejamos diante de uma profecia, que a filha do Presidente do PTB faz por antecipar na prática. Tantas e tamanhas são as perversidades praticadas pelo atual governo contra os trabalhadores, que não será novidade o dia em que determinados profissionais terão cassado o direito de receber em troca do trabalho prestado. Não estamos longe de chegar lá...

Afinal, como disse um dos generosos acompanhantes da postulante ao Ministério do Trabalho, exceção é um empresário não ter reclamação trabalhista em tramitação. Disse-o, com a mesma desenvoltura com que se diz que César apontava o dedo polegar para baixo, na condenação à morte dos descontentes. Se ainda não chegamos à barbárie, então me digam o que é isso. A postulante ao posto mais alto na estrutura que trata das relações capital-trabalho sabe ler o cenário. Acha-se, portanto, a melhor promessa para esse governo que esmaga o proletariado e tripudia sobre os mais elementares direitos do trabalhador. Pagá-los, para quê?

Pelo andar da carruagem, porém, o pai da parlamentar percebeu que a conduta de sua filha não serve se não para lamentar. É do que se pode cogitar, nesta noite de quarta-feira, segundo o noticiário das agências. Desta vez, o interesse familiar poderá ceder espaço à indicação meramente partidária.

Até para o ex-deputado e Presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (não vejam a menção, aqui, como tremenda ironia, por favor), não é com Cristine que se poderá salvar o Brasil. Sem que ela tire o sobrenome, é possível deixar os anéis, para que fiquem os dedos. Estes, pelo menos, servirão para contar votos na bancada e pixulecos de origem vária. Ou repetir os gestos teatrais do chefe.

Os dedos, um dia duros e capazes de levar à morte (na Roma Antiga quanto no Brasil 1964/1979), também são úteis nos exercícios de prestidigitação do Presidente. Até que os ratos se vejam forçados a pular do convés à agua que sujaram.


Virtudes e pecados de Lula- Em 26/01/2018

O cidadão Luís Inácio Lula da Silva paga caro, não pela quantidade de ações condenáveis de que o acusam, mas pelas escassas e insuficientes boas ações praticadas. Não são as suspeitas de que se terá seduzido pelas sereias da corrupção que respondem por sua condenação, já em segunda instância. Como ele, é a grande maioria dos que o acusam, alguns até elencando rol muito mais rico e numeroso de delitos.

Inegável, até porque incontestáveis os números a que se costumam apegar os carentes de outros argumentos, a redução da quantidade de pobres no Brasil foi resultado de seus dois governos. O de Dilma apenas os terá mantido. O prato a mais que muitos trabalhadores puderam pôr à mesa da família foram conquista do período 2003/2010.

Nada disso, porém, tem sido levado em conta. Nem o deveria, pois não se faz o bem com a esperança de que as boas ações autorizem praticar tudo o mais. Se resultados semelhantes são a verdadeira causa das denúncias e do que os petistas chamam perseguição política, não está nelas o pior crime que Lula praticou.

Tirando dos olhos as lágrimas de multidões, enquanto subia a rampa do Planalto, o Presidente Luís Inácio Lula da Silva gerou esperanças que ninguém esperava nos levariam à situação que hoje testemunhamos. Vem daí a constatação da falta de base sólida às conquistas que pareciam irreversíveis. Mas não foram. Nem o são.

Os dias que correm, cada vez mais nos revelam a fragilidade das decisões dos governos de Lula. Como um castelo de areia, cada uma delas desmorona ao menor sopro, ainda mais quando o vento vem da boca de interesses vorazes e afoitos, em tempos de globalização.

Quando assumiu o Planalto, Lula reunia todas as condições para mudar o modus operandi dos políticos. Para isso, contava com a determinação e o espirito aguerrido dos movimentos sociais. Mesmo a classe média, cansada de pagar a conta, punha nele todas as suas fichas. Cabia-lhe atentar para muitos dos pensadores políticos de quem ouvira falar, se quisesse realmente transformar o País. Afinal, pela primeira vez um trabalhador chegara tão longe...

Então, aí está o primeiro e mais grave crime de Lula: desdenhar da importância dos movimentos sociais e optar pelo aparelhamento de alguns deles. Isso os esterilizou e tornou massa de manobra ou correia de transmissão do PT e do Planalto.

Assim transformados, logo os pelegos reassumiram seus postos. E contribuíram para ver Lula como um salvador da Pátria, um messias em boa hora chegado. Registra-se, pois, a substituição de um líder operário por um demiurgo. Daí decorreu certo fanatismo, que Lula poderia ter afastado, mas que teve o dom de seduzi-lo.

Somado ao canto de sereia dos grandes capitais nacionais e internacionais, esse novo atrativo enfraqueceu a militância, acomodou o ex-líder à fruição das benesses do cargo - e deu no que se sabe.

Luís Inácio Lula da Silva, assim, amarga as consequências de se ter desviado do caminho que apontara. E que anunciara ao povo, abandonado em benefício de suas novas (e más) companhias.

Talvez não fosse tão fácil alterar profundamente a realidade deste País. Talvez muito esforço governamental e resistência popular tivessem que ser feitos, para consumar esse que parecia o objetivo esperado de seu governo. Sem experimentar, porém, não se sairia do lugar. Seria possível, até, que o Presidente da República tivesse posto a prêmio seu próprio mandato. Essa história conhecemos bem.

Só que, ao invés de irem às ruas pedir que seu líder não seja condenado e preso, o povo pediria que ele implementasse as políticas anunciadas. E nas quais a maioria dos 50 milhões de brasileiros apostou.

O resultado aí está: a desigualdade só aumentou, o futuro que se anuncia não poderia ser pior. Menos para os que, também nos governos Lula e Dilma, chegaram à condição de biliardários.

Quanto ao PT, feito seita religiosa, o Partido impediu o crescimento de outras lideranças, a ponto de praticamente perder fôlego na eleição presidencial do próximo ano. Fica reforçado deste modo o papel do Judiciário mais que o do povo, na escolha do futuro Presidente.


Legados da ditadura - Em 20/01/2018

Recente entrevista concedida pelo historiador Jorge Caldeira ao jornalista Roberto D´Ávila traz luz a muitas questões ainda carentes de cabal esclarecimento. Porque digam respeito ao triste período de nossa história (1964-1985), tais questões têm sido ignoradas. Alguns pseudoanalistas chegam a pôr em dúvida o caráter autoritário da ditadura iniciada com a derrubada de João Goulart. Outros, pretextando o risco de o Brasil tornar-se um país comunista, oferecem interpretações distantes da realidade como a Terra dista da Lua.

Já se tornou comum apontar para a carência de lideranças políticas confiáveis, graças aos reiterados expurgos praticados pelos democratas que usam os tanques e os canhões, em substituição ao argumento e à discussão honesta. Parece esse o único exemplo da coorte de malefícios causados pelo regime instaurado em 1 de abril do fatídico ano de 1964. Mas não é.

Jorge Caldeira, de quem não se diz ser mais que um estudioso da História, não um filiado às correntes de esquerda que se multiplicam (e se desencontram) no País, revela não a permanência da desigualdade anterior à queda de Jango. Apoiado em levantamentos criteriosos e obedientes à teoria econômica, Caldeira afirma ter crescido a desigualdade, enquanto se deterioravam os costumes políticos. Esfuma-se qualquer tentativa saudável dos golpistas da década dos 1960, à simples apreciação dessa - digamos assim - particularidade. Também perde sustentação o pretexto de pretender desenvolver o País, o que importaria torna-lo melhor para os brasileiros.

Os fatos posteriores, portanto, vão esvaziando as falsas razões usadas como pretexto para tirar João Goulart do Palácio do Planalto. A eliminação do suposto risco de implantação de uma república anarco-sindicalista (seja lá o que isso queira dizer) choca-se com a chegada ao exercício do poder mediante a troca de favores entre os poderosos, acumpliciados sempre com os grandes empresários e grandes proprietários dos veículos de comunicação. As vontades destes segmentos convergem, gerando uma teia que causa malefícios à população. Ao invés de dedicar-se ao encontro de solução para os mais graves e persistentes problemas sociais, entregam-se eles ao saque como ação política. Mesmo quando é tímido o avanço e os que sempre ganharam viram crescer continuamente sua riqueza, as elites tratam de ampliar a desigualdade. Tido como constitucionalista, Michel Temer comandou um golpe parlamentar e empresarial, a despeito das normas expressas na Carta Magna. Avulta, nesse importante tópico, a busca da redução das desigualdades sociais e regionais, de que trata o artigo 3º da Constituição que Ulysses Guimarães, num arroubo até certo ponto compreensível, chamou cidadã.

Outro dos legados da ditadura consiste na cegueira das elites nacionais ao processo que na década dos 1980 mostrava ter vindo para ficar: a globalização. Pouco a pouco, foi-se mostrando necessário entender todo o significado desse processo, em um globo que caminhava para ser visto como uma aldeia. Isso, que o disse foi Marshall Mac-Luhan.

Assim, a inserção do Brasil na mundialização, como preferem dizer os franceses, tem-se dado da forma mais suicida. Preferimos ser caudatários da vontade e das aspirações de outras nações, que encontrar caminhos próprios, a despeito de nossas aparentemente inesgotáveis fontes de recursos, os naturais sobremaneira.

Ninguém mais que Michel Temer empenha-se por instalar-nos em posição subalterna, diante dos vorazes capitais internacionais. Nem a ele têm faltado o aplauso e a cumplicidade dos capitais nacionais, cada dia mais transformando-se em apêndice dos grandes interesses internacionais. De grupos econômicos e de nações. Ficamos, assim, em assimetria com o mundo.

Outro legado malsão diz respeito ao clima de nós contra eles. Foi na ditadura que se timbrou a frase Brasil, ame-o ou deixe-o. O amor solicitado não poderia ir além da submissão a tudo quanto fosse pensado (?) e urdido pelos detentores do poder. Eles, os opositores, se algum dia discordaram, logo lhes foi dada a reprimenda que regimes autoritários costumam utilizar: a cadeia, a cassação de direitos ou, como frequentemente ocorreu, a execução. Marighella, Herzog, Fiel Filho, Rubem Paiva não deixam mentir.

Naquele infausto período, os tanques e cavalos saiam dos quartéis para dissuadir (agredir seria mais próprio dizer) os descontentes. Substituía-se a tessitura política pelo porrete. Hoje, o porrete é representado pelas verbas públicas, cuja utilização serve para acumular votos parlamentares.

A História não se faz com ses. Não é demais especular, porém, a respeito do que seria alcançado, em termos de lideranças genuínas e preparadas, inserção altaneira no processo de globalização, clima de fraterna contribuição ao desenvolvimento do País e o uso da inteligência - não da força - para reduzir as dissenções. Isso tudo poderia ter sido alcançado, se as reformas de base propugnadas pelas esquerdas, até 1964, não tivessem sido golpeadas. Com a quarta esquadra da Marinha norte-americana atenta aos nossos passos.

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Observador Participante

Dr. José Seráfico