Observador Participante

Barbárie e Civilização - Em 22/09/2018

Não me lembro de polarização igual em qualquer outra eleição presidencial. Desde a escolha de Juscelino Kubitscheck, acompanho com interesse o processo eleitoral, ora com maior, ora com menor atenção. Assim, creio não incidir em erro de percepção, ao indicar a disputa entre Lula e Collor, como o embate mais renhido, antes do pleito de outubro próximo.

A imagem construída do político alagoano tirou-o da mediocridade e do quase anonimato, transformando-o em um caçador de marajás. A forma como os grandes meios de comunicação se comportou, mais que um exercício de criatividade sem precedentes, constituiu grosseira agressão a um verdadeiro Estado democrático de Direito. À época, ainda não estavam na moda as chamadas redes sociais, não sei por que razão assim batizadas. Antissociais seria melhor chamá-las, tanta a agressão aos bons costumes e à vida socialmente sadia a que elas dão preferência.

O conteúdo das mensagens que circulam em milhões de computadores, tablets e celulares sofisticados é suficiente para revelar quanto malefícios elas causam sobrepujando eventuais benefícios. Agora, não bastam a ira e a solércia no passado ostentadas por Collor, na busca menos de destacar ocasionais virtudes do candidato, que desqualificar o adversário. Os fanáticos que se identificam com os candidatos ou lhes prestam serviço em geral orientam-se pelo ódio e pela mentira. Obviamente, por valores em nenhuma hipótese, mais distante que seja, relacionados à democracia. Muito menos, se a desejarmos correspondente ao Estado de Direito.

Hoje, a polarização chegou a tal ponto que de novo vemos ressurgir no cenário uma bandeira há muito deixada para trás, a do anticomunismo. É como se ainda estivesse em pleno funcionamento a temida União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e firme na cidade de Berlim o muro derrubado em 1989.

Assim, o que os comunistas de ontem reconhecem morto, tem nos seus inimigos os ressuscitadores. No Brasil, em especial, o assassínio em série e a tortura como instrumentos do Estado destruíram todas as organizações defensoras do regime mantido até o desfazimento da URSS. O que não foi alcançado, embora usada como pretexto, foi a eliminação das práticas corruptas, como em qualquer latitude do Planeta, potencializadas e ampliadas, sempre que as liberdades democráticas são prejudicadas.

O ambiente em que serão registrados os votos do próximo dia 7, além da polarização exacerbada, tem ingredientes inéditos. Estes vão desde a irresponsável e criminosa utilização da Internet, até pronunciamentos de autoridades, ao arrepio das normas constitucionais. Mais que isso, a subversão da hierarquia militar, este suposto valor cultuado pela caserna. Jamais seríamos capazes de supor a mínima possibilidade de um general prestar continência e obediência a um ex-membro das forças armadas de patente inferior. Com a agravante de o afastamento do oficial subordinado ligar-se a razões supostamente desagradáveis aos colegas.

Quando os militares brasileiros foram mandados à Itália para combater os nazistas, acenderam-se justas esperanças. Sua volta, vitoriosos, determinou a queda de um ditador e abriu os caminhos para a consolidação da democracia. Veio 1964 e, com ele, a interrupção do que poderia ser fase importante do que tem sido chamado processo civilizatório. O resultado está à vista de todos, com as agravantes que ninguém mais pode esconder, a despeito do esforço de alguns para transformar excrementos em ouro e fatos em mentiras.

Enfim, é muito mais profundo o dilema que as eleições de 7 de outubro colocam diante de nós: a civilização ou a barbárie.


Hábitos e intenções - Em 15/09/2018

Prospera, agora com clara manifestação de um candidato a vice-Presidência da República, a tese de uma nova Constituição. Reinvindicação apresentada desde quando a Carta Magna dita cidadã começou a fazer água, a versão hoje em voga tem como lema exatamente o valor contrário ao de todas as constituições respeitáveis: a democracia sem povo. Quem sabe até, contra o povo...

Já não bastassem as evidências do propósito de instalar um verdadeiro Estado Policial, mostra-se cada dia mais saliente a intenção de superar as dificuldades que a vontade e o talento não alcançam, com a reunião de "notáveis" para elaborar uma nova Carta Magna.

Disse-o recentemente em Manaus, o general Hamílton Mourão, companheiro de chapa do capitão Jair Bolsonaro. Para o postulante às dependências do Palácio do Jaburu, a Constituição de 1988 deve ser substituída por outra, formulada por pessoas que ele considera notáveis. É difícil saber-se ao certo se o candidato é capaz de discernir entre os notáveis e os notórios. Destes, só não sabe a conduta e suas respectivas motivações, quem passou muito tempo alheio aos problemas com que se defronta a maioria da população. Dos outros, além do que aparentam em palestras, artigos de jornal, auto-referência, entrevistas e referência de terceiros cultores dos mesmos valores (e preconceitos, será sempre oportuno e justo acrescentar), não se indaga a que interesses estão vinculados.

Trata-se, portanto, de portadores de diplomas de nível superior, aos quais se atribuem conhecimentos e saberes nem sempre atualizados ou aproximados sequer dos motivos que levam à elaboração do pacto social de que a Constituição, qualquer Constituição, deve ser a porta-voz.

O desejo maior e mais profundo - é fácil constatar - é manter o povo longe do acordão proposto.

Enquanto a Operação Lava Jato e suas consequências judiciárias têm escancarado seus reais objetivos, os passos antidemocráticos dos setores retrógrados da sociedade avançam por outro caminho, para ao final - e, infelizmente, não no infinito - se encontrarem. Uma versão perversa tantas vezes experimentada: o pacto por cima. Da vontade popular, das reais necessidades do povo e das aspirações legítimas da população brasileira.

O jornalista Reinaldo Azevedo, não mais que um liberal segundo suas próprias palavras, diz bem, na edição de hoje (14-09-2018) da Folha de São Paulo. "Tanques e togas tentam cercar a democracia brasileira" é a manchete de seu artigo.

Antes, todos saudávamos a participação de centenas de militares nas próximas eleições. Seus ouvidos teriam sido abertos para a voz do povo e, por isso, desejariam recolher o aplauso costumeiro nos desfiles militares, nas urnas que a democracia exige. Recentes pronunciamentos de graduados da caserna, todavia, autorizam fazer reparos nos conceitos iniciais a propósito da atração desse segmento da sociedade à arena política.

Uma nova contradição se coloca, estendendo a nem sempre justa generalização sobre os políticos brasileiros: o ingresso no ambiente é feito com a intenção de ajustar-se às normas e valores democráticos ou, ao contrário, foi a forma encontrada para matar o bicho conhecendo-lhe melhor os hábitos?


Pinocchio teria inveja - Em 12/09/2018

Se Gepetto presidisse as eleições, dificilmente encontraria concorrente. Sua criatura e a experiência do convívio entre eles - criador e criatura - jamais superariam, em falsidade e hipocrisia, o comportamento dos políticos brasileiros. Refiro- me, em especial, aos que buscam subir a rampa do Planalto.

O período que antecede as eleições presidenciais proporciona aos eleitores competição paralela pouco percebida (pelo menos, quase nunca mencionada), em que alguns dos competidores disparam à frente dos demais. Houvesse o prêmio Pinocchio, não haveria qualquer dúvida a respeito dos participantes do segundo turno.

Por tudo quanto têm afirmado, e pela desavergonhada forma com que o fazem, Jair Bolsonaro e Henrique Meirelles dariam enorme alegria a Geppeto. Talvez até inspirassem o artista da ficção italiana, na tentativa de superar a qualidade nada virtuosa que ele pôs no simpático boneco de madeira.

As mentiras do capitão, deputado há mais de trinta anos, mas insistente quanto a auto-atribuir-se a condição de apolítico, só não incomodam mais porque o candidato não é levado a sério. Pelo menos, pelas pessoas sérias deste País. (Que me perdoe o Lula por usar seu bordão). Muitos dos que têm acompanhado o lider da extrema direita oferecem a ele o benefício da generosidade: o quê exigir de quem não conhece os problemas de que fala, se não admitindo que ele diga mentiras?

Já o ex-Presidente do Banco de Boston diz, sem que o mais discreto rubor cubra seu rosto, nunca ter se candidatado a qualquer posto eletivo. Como se os registros da Justiça Eleitoral não permitissem encontrar o nome dele, e não em apenas uma lista, a de candidatos à Câmara dos Deputados, na legislatura 2000-2004. O segundo registro pode ser encontrado na relação dos eleitos. Pelo PSDB, ao qual serviu, após renunciar ao mandato. Para um banqueiro experiente, a Presidência do Banco Central era muito mais sedutora.

Tanto quanto transferir-se para o então PMDB renderia mais, sobretudo quando o interessado ocupa posição influente na comunidade dos rentistas.

No que se tem chamado pós-modernidade, no entanto, o que menos interessa é a verdade. Parece ainda prevalecer a máxima de velho político mineiro, que afirmava ser a versão mais importante que o fato. De mentira em mentira, vão sendo construídas carreiras políticas, ao mesmo tempo em que o cidadão incauto (não seria esta uma contradição nos próprios termos?) alimenta seus sonhos e fantasias sem nenhuma preocupação quanto à veracidade do discurso, a trajetória do candidato e os interesses que ele representa.

Talvez muitas das seis milhões de vidas judias sacrificadas por Hitler e seus sequazes teriam sido poupadas, não prevalecesse a máxima de Goebbels: uma mentira repetida à exaustão chega no ponto de ser considerada verdade. É disso que se tem valido boa parte dos políticos brasileiros, graças ao desprezo que a plateia dispensa à busca da verdade.

Muito por isso, a cada nova eleição, ouvem-se relatos de frustração, decepção e desencanto. Sequer os frustrados, decepcionados e desencantados se dão conta de que concorreram para esse mau resultado e para o papel desempenhado pelos meios de comunicação, nesse processo por todos os títulos ofensivo à democracia e à verdade.

Mencionei apenas Meirelles e Bolsonaro, pela desenvoltura com que, mais que os outros concorrentes, tentam passar como verídicas as mentiras propaladas nos meios de comunicação. Dos outros, pode ser que os eleitores se deem conta, uma vez entendido o papel deles mesmos na disputa eleitoral. O voto, em última análise, sempre será do eleitor. A confirmar o dito e repetido: todo povo tem o governo que merece. Nem sempre, dirão alguns. Mas quando o eleitor é advertido dos perigos de apostar nas mentiras e ainda assim permanece ignorante, a sentença ganha credibilidade. Ela, também.


De golpe em golpe - Em 02/09/2018

A torpeza e a originalidade (por que não admitir?) do golpe aplicado contra a Presidente Dilma Rousseff tornaram-me retardatário na sua compreensão. Demorei em considerar um golpe o que fizeram, Temer e sua corriola, pondo-a fora do Planalto. Mesmo sem considerar o efeito mais indigno da manobra: a exclusão do ex-Presidente Lula da corrida presidencial.

Em última instância, era esse, de fato, o propósito maior da maquinação, certamente urdida nos mesmos porões onde o beneficiário preferencial da derrubada de Dilma Rousseff acolhia e mimava Joesley Batista.

A pretexto de combater a corrupção, discurso que ouço desde quando Carlos Lacerda provocou o suicídio de Getúlio Vargas, o impeachment da Presidente foi apenas o tiro de largada do processo a que hoje assistimos. Bom resumo dele pode ser contido nos pontos a seguir elencados: 1. Revogação das minguadas conquistas dos trabalhadores, durante os três governos anteriores. 2. A fragilização da economia brasileira, pondo os setores potencialmente mais lucrativos à mercê dos interesses do grande capital. 3. O uso do desemprego como instrumento de busca do equilíbrio fiscal. 4. A entrega do que ainda resta de público de funções do Estado aos especuladores, nacionais e internacionais. 5. A troca do interesse nacional pela pesquisa científica e tecnológica, pela compra de ciência e tecnologia produzidas fora do País. 6. A manutenção de privilégios e subsídios de toda ordem aos que se valem dos cofres públicos para aumentar seu patrimônio pessoal ou familiar. 7. A manutenção e fortalecimento de iniciativas hoje responsáveis pela maior parte da população matriculada no ensino superior brasileiro. 8. A negligência quanto à imagem internacional do País, que nas últimas décadas experimentava prestígio jamais alcançado antes. 9. A disseminação da violência em todos os cantos, não obstante o discurso falsamente indignado e as medidas nem sempre atentas à segurança dos que dela mais necessitam - os pobres. Estes, diga-se, aumentaram, tanto quanto aumentou sua pobreza, nestes infaustos dias que vêm de 2016.

A corrupção, que teria sido o móvel da operação Lava Jato, não estancará porque apenas alguns dos acusados de a terem praticado está presa. Pode-se afirmar com grande margem de acerto que não é o ato em si que tem sustentado as sentenças condenatórias, mas os vínculos políticos dos denunciados. Lula está preso. Aécio, não. Pallocci está atrás das grades, Padilha, Moreira, Jucá continuam a ver redondo o sol.

Isso lembra muito o golpe militar de 1964. Desferida em flagrante e brutal ofensa à Constituição de 1946, a derrubada de Jango teve como pretexto o combate ao comunismo, visto como de iminente instalação no País, e a corrupção - as duas panaceias ao contrário, tão ao gosto da direita e de seus aliados, interna e externamente.

O que se viu, de lá para cá? Nada menos que o total desmonte dos focos de resistência à entrega de nossas riquezas aos capitais dos dominadores e a instituição do dano ao Erário como fundamento da economia. Não terá sido naquele período sombrio de nossa história que houve autoridade instalada em Brasília intitulada "Ministro 10%"? Quando surgiu a maioria das empresas arroladas (enroladas, caberia melhor) na mesma Lava Jato que pretexta combater a corrupção?

A tal ponto chegamos, que um político apto a alcançar tanto quanto merece seu talento, seu discernimento, sua conduta e seus valores - o cargo de síndico de um edifício -, concorrendo à Presidência da República. Com a observação de que, para chegar nesse posto, teria que mostrar eficácia e eficiência como chefe de segurança de alguma (quase dizia qualquer) boate.

Se o golpe de 1964 impediu a formação de lideranças políticas à altura dos desafios e das potencialidades do País, o de 2016 cedo mostra o que ainda teremos que superar...se desejarmos realmente ser dignos do povo que temos e das riquezas com que a natureza nos favoreceu.




Sobre as razões, nada - Em 24/08/2018

Sempre haverá a hora do arrependimento. Difícil é imaginar se esse momento, fugaz que seja, se prestará à reflexão sobre atos passados e à atribuição de culpas a quem elas cabem. Não que baste isso para controlar os ânimos ou mostrar outros caminhos aos arrependidos. Isso é questão da maior ou menor dose de dignidade de que são portadores os que pecaram.

Quantas vezes as igrejas se enchem e voltam a encher de frequentadores dos confessionários, a pedir perdão pelos mesmos pecados? Quantos deles vão buscar ali, menos que a tolerância pelo erro anterior, o direito de reincidir no erro? Se este não é o propósito de qualquer igreja, também não se pode dizer ausente na cabeça dos supostos penitentes.

Daí certa reserva com que leio e ouço críticas ao comportamento supostamente extremado de muitas de nossas lideranças políticas.

Ora se encontram matérias condenando o messianismo, o autoritarismo e o egoísmo exacerbado de Lula, não fosse o rol de crimes de que o acusam. Ora é a forma como Jair Bolsonaro encara os problemas e como se conduz na vida política, não fossem as muitas mentiras facilmente desmoralizadas que ele costuma propalar.

Qualquer dos dois que ganhe as eleições, dizem muitos dos analistas ou pseudo-analistas, levará o País a entraves em nada desejáveis. Certas análises insinuam a probabilidade de transtornos nas vias nada fáceis que esperamos possam nos levar a uma democracia sólida e respeitável. Ou seja, fazê-la chegar a patamar de que aparenta estar ainda muito distante.

O de que ninguém trata é das raízes do ambiente social de que desfrutamos hoje, quando são percorridos mais de 50 anos do infausto e mais recente golpe de Estado.

Vasculhem-se as páginas de todos os jornais, consultem-se os arquivos de todos os meios de comunicação, e não será encontrada muita matéria que busque compreender por que, tantas décadas depois, a paisagem política é ocupada, quando não pelas figuras de ontem ou algum de seus herdeiros, pelas ideias então em voga.

Das lideranças, seria redundante falar. A não ser um aqui, outro acolá, carecemos de líderes capazes de transmitir com clareza e sinceridade as inspirações que mantêm a esperança de tanta gente. Isso não se aplica apenas à direita, porque a esquerda também padece deste mal.

Para ambas, vivemos a mesma guerra fria que o muro de Berlim levou consigo, ao desabar. Tudo quanto aconteceu no Mundo, e não apenas naquela noite de 1989 na capital da Alemanha, desde 1968, passa em branco dessas supostas análises.

Olhe-se a composição do Congresso Nacional, a partir da extinção dos senadores biônicos, criatura dos laboratórios oficiais da ditadura. As alterações, de tão insignificantes, não chegam sequer a animar a menor esperança de que retornará, ainda que a níveis apenas menos degradantes, a confiança dos brasileiros em seus supostos representantes. A substituição do eleitor em geral pelos interesses de grupos específicos é a regra.

Há, portanto, superposição de representatividade, fragilizando os partidos e fazendo deles razão social de empresas voltadas ao negócio político. Neste caso, a negociação teve seu quinhão de entendimento transformado em mero negócio. O lucro ou ganho já não se traduz pelo benefício causado à população, mas pelo patrimônio enriquecido do político e seus sequazes.

Como dizer que este ou aquele deputado cometeu infidelidade partidária, se sua manifestação corresponde aos interesses ou ao ideário de uma crença ou a vinculação a um segmento econômico?

Faz algum sentido pertencer ao MDB, ao PSDB, ao PP, quando a sigla sequer insinua compromisso com certo conjunto de valores e opções realmente políticas? E os partidos de aluguel, como ficam?

Onde se podem encontrar explicações para esse fenômeno que, não sendo exclusivo do Brasil, aqui se revela em toda sua crueza e crueldade?

Repito: mais que o assassinato praticado nos porões, a tortura que acumpliciou o aparelho do Estado brasileiro com empresas nacionais e transnacionais, o que de pior a ditadura deixou é o vazio político. Ele é que incomoda e impede a nação de alcançar a posição que sua grandeza territorial e humana autorizaria.


Triste papel - Em 18/08/2018

Que Luís Inácio Lula da Silva é o político mais esperto do Brasil, todos sabemos. Seus fervorosos seguidores, tanto quanto seus mais raivosos adversários. Sem ter passagem pela academia ou por outros espaços historicamente dominados pelas elites, o emigrante nordestino alcançou posição invejada e desejada pela maioria dos que dele divergem.

Ninguém chegaria à Presidência da República em uma das mais populosas e ricas nações, após três frustradas tentativas, se não reunisse algumas características ostentadas por Lula. A primeira delas, a pertinácia em nenhum momento desmentida. Nem por isso capaz de sempre produzir os efeitos desejados por ele. Agora, ela de nada lhe terá válido, diante do propósito de efetivar a candidatura que se vê forçado a abandonar.

A outra maior qualidade do ex-Presidente é o indiscutível carisma de que é dotado. Neste caso, porém, nem sempre o portador dessa característica atenta para o potencial de risco por ela atraído. Quando deixado sem controle, o carisma pode operar o efeito que Tancredo Neves atribuía à esperteza. Dizia o avô de Aécio que, quando é muita, a esperteza engole o dono.

Um dos riscos a que Luís Inácio Lula da Silva não conseguiu fugir, para dizer o menos desairoso, foi a opção por um caminho messiânico. Pondo-se acima de todos os seus companheiros e interlocutores, nosso personagem vem colhendo resultados que não parecem constar de seu repertório de aspirações. A não ser que, ilusionista mais que líder carismático, Lula não passe de um farsante. Esta é hipótese que, com tanta coisa por apurar, não se configura como verdade incontestável.

As qualidades de Luís Inácio Lula da Silva, todavia, não escondem os vícios que, como todo e qualquer ser humano, ele traz consigo. A liderança exercida durante tanto tempo no mundo sindical, depois no espaço partidário e político, ensinou práticas pelas quais ele hoje paga alto preço.

O carisma sem rédeas levou Lula a um personalismo exagerado, a um autoritarismo sem limites. Não que a ele devam ser negadas algumas decisões louváveis, é preciso confronta-las com as dificuldades geradas por essa contraditória virtude.

Feito líder e Presidente do partido por ele mesmo criado, Luís Inácio Lula da Silva repetiu o estilo de caudilhos que se pensava definitivamente excluídos da paisagem política brasileira. Tornou-se, então, dono do Partido dos Trabalhadores. O exagero na percepção de sua própria imagem resultou, agora mesmo, em mais um dos desserviços às esquerdas.

Pelo menos em seis Estados, o personalismo de Lula causou danos que podem custar muito caro - menos ao pertinaz candidato, que ao povo brasileiro. Em Pernambuco e em Minas Gerais, mais que nos outros, as esquerdas viram desmontados arranjos politico-eleitorais que poderiam evitar o pior: a perspectiva de a disputa final travar-se entre a direita e a extrema-direita.

Difícil, diante de um cenário como esse, esquecer o papel semelhante ao que o PTB de Vargas cumpriu, desta vez cumprido pelo PT. Evitar o crescimento das esquerdas, pós-ditadura Vargas; pós-ditadura militar, agora.

Se Fernando Haddad atrair os votos que seriam do ex-metalúrgico, a hipótese acima estará vencida. Restará, portanto, a esperança de que Lula um dia será um político de esquerda. Se der o contrário, ficam sem resposta as dúvidas sobre as intenções do ex-Presidente

Esperanças podem renascer - Em 12/08/2018

Mais perto nos vemos das eleições, mais aumenta a angústia dos que não pretendem do pleito contar ganhos pessoais. Podemos imaginar que os candidatos tratam de prever as melhorias com que agradarão seus familiares, o favor aqui e acolá com o qual pagarão o voto recebido e, pior que tudo, a sucessão de passos necessários a galgar o próximo posto na administração.

O deputado estadual eleito estará empenhado em avaliar sua trajetória até a vaga a conquistar na Câmara dos Deputados. O deputado federal pensando em como concorrer à futura eleição majoritária, na vaga a ser aberta para o Senado, em 2022.

Todos, talvez rara exceção, estarão de olhos postos nos negócios que um mandato parlamentar garante. Há familiares necessitados de um emprego, como os treze milhões de brasileiros conhecidos. Há numeroso grupo de apoiadores que só esperam a hora de assaltar o butim.

Diferente é a expectativa dos candidatos à Presidência e à vice-Presidência. A maioria deles já se imagina concorrendo à própria substituição. Assim tem sido, difícil pensar em que mais tarde, pelo menos a curto prazo, será diferente.

Só que, diferente da posição dos parlamentares, aos dois cabeças da hierarquia do Executivo compete o manejo do chicote. À manada, mais que os gritos do boiadeiro, cumpre avaliar o peso do relho. A experiência revela a necessidade jamais esquecida por esse tipo de profissional: engolir sapos, desde que disso resulte algum benefício pessoal. Ou, simplesmente, a renovação do mandato ou a conquista de um novo. Por isso, outras são as aspirações do mandante-maior: ampliar seu patrimônio, garantir espaço de onde possa proclamar virtudes invisíveis durante o próprio mandato, posar de benfeitor da Pátria e conselheiro de todos os cidadãos. Importará pouco, como se tem visto, o resultado de suas decisões e ações.

O discurso ouvido, mal iniciado o período de campanha, já delineia o elenco de problemas que serão mais uma vez trazidos à baila: os mesmos de sempre. Algo admissível, se todos os postulantes ao cargo estivessem estreando no cenário político e eleitoral. Não é disso que se trata, todavia.

Para exemplificar: como admitir que Henrique Meirelles possa dizer algo sobre o desemprego, se não assumir parte da culpa pelo exército de trabalhadores condenados ao ócio? E da falta de investimentos em saúde, educação, segurança e saneamento? Quem era o Ministro da Fazenda, quando Temer fez aprovar a omissão do Estado, durante vinte anos, ao que é dever e obrigação principal, em qualquer país de gente séria - e governantes sérios?

É ate compreensível que o ex-Presidente do Banco de Bóston tenha as posições que, desdenhosamente, ostenta diante do eleitorado. Afinal, protagonista e agente do sistema financeiro, de nada pode queixar-se, a respeito. Ocupando posição-chave em mais de um governo, de direita ou de esquerda, não importa, Meirelles não pode fugir à condenação da maioria dos brasileiros. Mais que muitos dos outros candidatos, ele tem as digitais marcadas nas políticas que respondem pela multidão de desempregados, pelo retorno de doenças antes controladas, pela insegurança que atemoriza os brasileiros de bem.

Os demais candidatos podem ser postos no mesmo saco. É quase epidérmica a diferença entre eles, salvo uma virtude a mais aqui, um defeito mais acentuado acolá.

Comecemos pelos defeitos. O de Bolsonaro (que tem bolso no próprio nome), é a profunda ostentação e cumplicidade com que de pior pode o ser humano portar. Defensor do estupro e da tortura (uma coisa e outra não acabam sendo a mesma?), alia a essa característica a de ser absolutamente despojado de qualquer coisa que se possa chamar ideia. Fanfarrão, mentiroso, o candidato será prejudicado eleitoralmente, se ainda resta algum - mínimo que seja - laivo de compreensão e inteligência ao eleitor.

Álvaro Dias e Marina, dotados de prudência que parece mais covardia, não enfrentam as perguntas, muito menos os problemas. Restringem-se à chorumela costumeira, com medo de desagradar, como se gregos e troianos pudessem ser atendidos, um cavalo de pau ameaçando o desenlace. O que buscam, na verdade, é ter mais do mesmo. Prosseguir no processo de conversão de milhões de brasileiros cidadãos em consumidores. E lhes terá bastado.

Guilherme Boulos, se tirasse dos olhos o ódio explícito que costuma ostentar, talvez dissesse com mais clareza a que veio.

Ciro Gomes, ah! o Ciro! Quando todos pensávamos que poderia trazer esperanças, desesperou-se pela compreensível deserção dos que não têm razões para aprovar suas propostas. Atraiu uma vice que afastou os votos.

Diante disso, resta o candidato do Partido dos Trabalhadores, uma dúvida até o próximo dia 15. Se for Lula, do ponto de vista político, nada será acrescentado ou desanuviará o cenário. Ao fim e ao cabo, a conduta messiânica, egoística e carismática do ex-Presidente autoriza classifica-lo como mais um a desejar o mais do mesmo.

Se, contudo, Fernando Haddad for mantido e pelo menos insinuar que, à moda Dilma Rousseff, pleiteará a reeleição, abrem-se novas esperanças.

O jeito é esperar.


Sem prognóstico - Em 04/08/2018

Mais próximas as eleições, mais difícil avançar em qualquer prognóstico. Ainda ontem, vários analistas (também os que reivindicam essa condição) davam como certa a derrocada de Ciro Gomes, diante dos acordos celebrados por Alckmin com o Centrão e a ação de Lula e de Temer, para isolar o candidato do PDT.

A neutralidade do PSB, atribuída ao ex-Presidente da República, e o lançamento do ex-Presidente do Banco de Bóston, pelo MDB, teriam levado Ciro à condição de fora do jogo eleitoral.

O tempo de exposição nos meios de comunicação e os recursos financeiros disponíveis praticamente tirariam o ex-Governador do Ceará do páreo. Teriam sido esses os ganhos maiores de Geraldo Alckmin e do próprio Lula, que insiste em manter-se candidato ou, em último caso, sacar outro poste do bolso do colete. Tudo, segundo a velha prática do PT, em que o ex-operário ainda reina, primeiro e único.

A comparação entre os candidatos até agora expostos às bancadas de entrevistadores, deixa claro ser Ciro Gomes, disparado, o mais credenciado. Testado em várias funções do Executivo e tendo passado pela Câmara dos Deputados, também não faltam a ele a percepção dos problemas nacionais, nem a coragem pessoal necessária ao enfrentamento da crise. As acusações que os profissionais empenhados na propaganda dos outros candidatos fazem a ele, raramente têm mostrado a vantagem desse tipo de oposição. Tanto, que em uma das redes nacionais, viu-se o retraimento da maioria dos entrevistadores, quando refutadas suas ofensas à verdade e o uso de pretextos, mais que argumentos. Os boxeadores dos media, nessas oportunidades, foram parar nos corners.

Alguns, envergonhados, recolheram-se e aparentavam formular outras perguntas mais pelo cumprimento de uma obrigação (ou ordem, nunca se sabe) que pelo ânimo de participar da entrevista.

Isso não quer dizer que Ciro seja o candidato dos sonhos - nem dos que desejam ver batida a desigualdade, nem pela esquerda. Não há como negar, porém, que Ciro mostra conhecimento das verdadeiras causas da crise e de como removê-las.

Os outros candidatos, apresentem-se como progressistas ou integrantes de um imaginário centro, ou sejam de direita, convergem para o mesmo lugar: propõem mais do mesmo. Em todos os casos, remetendo a experiências frustradas, como as privatizações, a repressão, uma suposta austeridade fiscal. Todas, como se sabe, centradas na ampliação do processo de acumulação privada e exploração do trabalho.

Há, porém, enorme contradição entre os que isolam e combatem Ciro Gomes, pelo menos quanto à influência das redes virtuais no resultado das eleições.

Muitos deles vêm afirmando que fica praticamente anulada a influência do tempo de televisão, hoje menos propícia à circulação das mensagens que as redes. Ora, se for assim, não se pode dizer de nenhum candidato que está derrotado como o peru, na véspera. As redes permitem, tanto quanto os meios convencionais de comunicação, disseminar as propostas com grande celeridade e cobertura.

Quem tiver propostas melhores, portanto, continuará no jogo e tem chances de vitória. Já nem se contem os postulantes que pedem a Deus a distância das câmeras. Diante deles, vazios de conteúdo e comprometidos com o que há de pior nos sentimentos humanos, preferem usar as redes, elas também propícias à leviandade e ao anonimato.

Sem significar confissão de meu voto (pois ainda cogito do voto nulo), tento ver os fenômenos como eles parecem e em que eles têm suas bases.

Posso estar equivocado, assim como tantos outros eleitores.


Maus caminhos - Em 01/08/2018

Ainda há muito caminho a percorrer, mas começa a ficar mais nítido o resultado do primeiro turno das próximas eleições presidenciais. O andar da carruagem sugere experimentar, ao invés de avanço, a repetição das cenas lamentáveis que têm entretido os arraiais políticos e ocupado praticamente todos os seus espaços.

Seja em termos de projeto para o País, seja em relação às práticas delituosas costumeiras, seria demasiadamente ingênuo esperar novidades. Basta apreciar o comportamento, as declarações e os arranjos buscados pelos postulantes ao cargo mais alto da república, para concluir os reais objetivos que os movem. E movem a maior parte dos que a eles se alinham, pelo menos nos escalões mais próximos dos candidatos e partidos que os apoiam.

A começar pela salada de letrinhas que ocupa cada prato posto na balança, não se pode confiar em que haverá boa refeição. A falta de identidade ou afinidade ideológica entre as diversas forças aliançadas não faz mais que reduzir ao patamar mais baixo os costumes políticos e, sobretudo, eleitorais de qualquer das candidaturas.

Ainda que se possa esperar o lançamento de outros nomes, pelos anúncios e previsões é impossível esperar que o cenário será fundamentalmente alterado.

Já são candidatos Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Paulo Rabello de Castro (PSC) e Vera Lúcia (PSTU). Dentre os que chegaram a ser cogitados, mas desistiram encontram-se o ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, e o ex-Presidente da República, Fernando Collor de Mello. Pode ser que outros dos anteriormente metidos na lista venham a concorrer, menos pela possibilidade de chegar ao posto, que às vantagens das negociações que serão feitas após o primeiro turno. Nenhuma novidade.

É no segundo turno, portanto, que serão definidas as forças em combate. Algo como aproveitar o turno inicial como experiência para tirar o maior proveito possível - não para o povo, nem para a nação. O proveito buscado beneficiará as forças em disputa, porque urnas, no Brasil, implicam sempre a visão do pote na ponta do arco-íris. Um butim que justifica qualquer conduta, mesmo à custa do sofrimento, da decepção, da desesperança da grande maioria.

As candidaturas lançadas e às vésperas de registro, ao contrário do que se poderia esperar em um tipo de democracia saudável, identificam-se pelo fio condutor que as aproxima: o desejo puro e simples de tomar o poder. Depois, a consequência comum a todas elas: para benefício pessoal do candidato, desfrute de seus apoiadores e regozijo dos grupos econômicos aos quais mantêm fidelidade. E o povo que se dane.

Isso, contudo, não pode levar os eleitores a aceitar passivamente os arranjos, da primeira e da última horas. Deve, sim, servir para que cada um reflita sobre a responsabilidade individual que assume, quando registra sua escolha na urna eletrônica. Sem seus votos, ninguém conquista mandato, uma vez contestada a hipótese da possibilidade de fraude. Enquanto não for cabalmente comprovado que a urna favorece a fraude, tolice usar o pretexto para fugir à responsabilidade.

Sobre os cinco até agora lançados, pelo menos dos mais divulgados, sabem-se de algumas virtudes e tantos mais vícios.

Ciro Gomes, por exemplo, é visto com reserva por grande parte dos eleitores, por seu perfil desaforado, beirando o autoritarismo. Mas não seria justo omitir que, dentre os demais, é o que parece entender melhor que os outros da realidade nacional. Se tiver a Inteligência necessária, poderá desfazer a imagem que pode prejudica-lo no turno final.

Jair Bolsonaro, como todo ser humano, há de ter alguma virtude. Eu a vejo apenas na coragem com que anuncia e defende valores e práticas que qualquer pessoa equilibrada trataria de esconder. Se isso pode ser confundido com recusa à hipocrisia dominante, não alimenta esperanças em um governo minimamente humano. Humanitário, menos ainda. Só o anúncio da composição do seu ministério - com grande número de militares - diz do tamanho da ameaça que paira sobre os brasileiros. Não seria honesto, nem inteligente, da parte do eleitor, esperar mais de quem defende armar cada cidadão. Talião ficou para trás, faz séculos.

Geraldo Alckmin, postulante antigo, pouco tem a ver com as dificuldades do povo brasileiro, se é que não pode ser incluído dentre os que concorrem para torna-las maiores. Os problemas enfrentados com o Ministério Público de São Paulo e as práticas do seu PSDB não passam ao largo da percepção dos eleitores. Virtude? A cara de boa praça e a aparência de um homem de família. Com ela, pátria e propriedade.

Guilherme Boulos e Vera Lúcia, por menos conhecidos e por não disporem do apoio dos grandes media, terão que vencer, inicialmente, o quase anonimato. Sendo que o candidato do PSOL é malvisto até por correligionários, desde quando pareceu um laranja de Lula. Talvez não muitos se lembrarão desse pormenor. Outros, sim.

Dos que ainda podem pedir registro, avultam Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Marina Silva e Aldo Rebelo. Este, mais pela militância prolongada no PC do B; a outra, sempre acusada de omissão nos momentos mais graves, ainda tem no seu capital alguma credibilidade. De pouco ou quase nada, realmente, ela pode ser acusada. Mas nem sempre é isso que conta em uma eleição.

Resta analisar a situação do PT. Há quem veja a demora do partido em definir sua candidatura, ligada à esperança de Lula vir a ser o escolhido. Se disputará ou não, depende menos de seus correligionários e dele mesmo, que da Justiça. Se não concorrer, é quase certo que indicará outro poste. Se transferirá votos, como fez com Dilma, também está na dependência, menos do substituto que dos eleitores. Muitos já perceberam que ele só trabalha em benefício próprio. Que o digam Palocci e José Dirceu, entre tantos outros.


Finalmente humanos - Em 23/07/2018

Enquanto Donald Trump separa pais de filhos e propaga suas bravatas pelo Mundo do qual se pensa dono, doze adolescentes são resgatados de uma caverna tailandesa. Quanto ao Presidente dos Estados Unidos da América do Norte, nada há a dizer, se não repetir quanto ele tem legitimidade para dirigir aquela nação. Arrogante, convencido de sua superioridade sobre todos os demais mortais, rico de bens materiais e paupérrimo de bons sentimentos, o político norte-americano desafia o que ainda sobra de humanidade na espécie humana. Sua figura, para mim simplesmente asquerosa e odienta, onde quer que vá ou apareça, não faz menos que apavorar o Mundo e ver cada dia mais próxima a hora derradeira.

As práticas do mais bem-acabado produto que sua sociedade conseguiu produzir - o serial killer - parecem inspirá-lo a cada novo ato, cada gesto inédito, cada infeliz proclamação saída de sua boca.

Do outro lado do Mundo, contudo, parece vir a resposta necessária: lá, afirma-se a solidariedade há muito ultrapassada pelo mais feroz e voraz egoísmo, fazendo virem da caverna não apenas os corpos debilitados dos jovens tailandeses e seu treinador. Junto com eles, após campanha acompanhada por bilhões de telespectadores espalhados por todos os continentes, surgiu a luz que reanima esperanças, desperta companheirismo, estimula a confiança e deixa a mensagem mais prosaica que poeta algum, escritor algum, filósofo ou pintor poderia formular: ainda podemos construir um mundo digno da espécie humana.

É bem verdade que não só o Homem se vê ameaçado de extinção, porque antes de seu desaparecimento terão desaparecido as florestas, os rios, o ar puro - enfim, a vida sobre a face da Terra. Para isso, esforçam-se devastadores de todo tipo, muitos dos quais inspirados na mesma arrogância, na mesma voracidade, no mesmo desamor subjacentes em cada ato e gesto do milionário que, governando os Estados Unidos da América do Norte, julga-se governador da Humanidade.

Diferentes em conteúdo e fundamento, os que socorreram os encarcerados em uma caverna da Tailândia pelo menos por breve tempo revelaram aos seus semelhantes, onde quer que estejam, quanto é possível produzir o bem, ao invés de empenhar-se na produção do mal. Muitas foram as nações que mandaram para aquela nação asiática o aceno indispensável, a colaboração humanitária, os meios científicos e tecnológicos responsáveis pelo resgate dos jovens. Mais importante que isso, porém, foi a mensagem que muitos não terão conseguido sequer vislumbrar: a de que a sociedade é construída segundo a vontade humana. Também a promessa de que, dispondo do livre arbítrio e fazendo de sua ação, sempre, a manifestação da solidariedade e a oportunidade de reconhecer-se como humanos, um dia chegaremos a dizer com propriedade e sem hipocrisia que somos todos humanos.

Que esse dia não tarde, mesmo se alguns de nós já não mais poderemos dele desfrutar. Que nossos descendentes, em todos os continentes, façam bom proveito!


Cumprimento de promessa - Em 06/07/2018

Tudo o que é sólido desmancha no ar. À situação que consubstancia a expressão, o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de sociedade liquida. No mundo em que vivemos sujeitos às vontades e caprichos de uma entidade fantasmagórica chamada mercado, nada apresenta solidez ou tem assegurada a permanência. A fugacidade das nuvens parece impor-se a todas as coisas, relações e interesses. O que era há segundos assim, no próximo segundo deixará de sê-lo. Apresenta-se diferente, às vezes até o oposto do que antes pareceu ser. É como se não fizesse qualquer sentido ser, pois que o estar, fugaz, inconsistente, infundado, domina todos os campos e os que estão neles inseridos.

Diante de cenário semelhante, como buscar a verdade? Mais próprio, ainda: tem algum sentido falar em verdade? Substituída pela conveniência e tendo-a submissa aos interesses de alguns, sempre em minoria, de que valeria procura-la?

Essas considerações me ocorrem, ao conhecer o desfecho das negociações agora concluídas, entre a Boeing norte-americana e a Embraer. Saudada pelos que vislumbraram alguma oportunidade de se tornarem mais ricos, a aproximação das duas empresas atiçou apetites e desencadeou conhecidas mensagens. Tudo, como sempre, destinado a convencer os que parecem tolos à conformação resignada, ao logro imposto, ao desrespeito recorrente.

Não foram poucas as vozes contestatórias, desde o anúncio da aproximação das duas empresas do ramo de engenharia aeronáutica. Primeiro, porque só os desonestos e os desinformados ignoram ou fingem ignorar a quanto tem sido levada a economia brasileira, quando ocorre esse tipo de cumplicidade nos negócios. Também sempre se soube quem pagará a conta.

Segundo, pela reiterada manifestação das lideranças empresariais e públicas, da importância da Embraer, transformada pelo ufanismo mais provinciano em símbolo da sabedoria nacional. Pior, de nossa portentosa economia e de virtudes empresariais ainda por conhecer.

Uma coisa e outra - a fundada oposição de uns e as manifestações do mais tolo ufanismo de outros - veem-se agora postas à prova. O negócio anunciado como altamente promissor (para quem, jamais foi dito), passa a ser tido como o rato parido pela montanha.

Como no passado, transferiremos para fora do País o controle da empresa resultante, uma paródia trágica do casamento do liliputiano com Golias. Para dourar a pílula, lembra-se que a nova empresa estará sujeita às determinações do governo brasileiro. Os números, nesse caso - 80% representando a norte-americana, o resto deferido à Embraer - são desconsiderados. Até por gente que pensa resolver todos os problemas sociais com gráficos, quadros e matemática.

Dessa história, boa parte dos brasileiros tem sobejo conhecimento. Não terá sido diferente, quando a Vale do rio Doce passou às mãos privadas, não importa se sua aparência de nacionalidade é defendida como se correspondesse à verdade.

Nesse particular episódio, porém, nem governo, nem seus apoiadores (os 2% que ainda restam) revelam-se incoerentes. As promessas de Temer e da turma que o ajudou a remover a incompetente ex-Presidente Dilma Rousseff estão sendo cumpridas.


As mesas do Planalto - Em 01/07/2018

À medida que corre o tempo, vai-se tornando mais nítida a intenção que presidiu o funcionamento da operação Lava Jato. De igual modo, esclarecem-se gradativamente os interesses que a inspiraram, infelizmente só alguns destinados a combater a corrupção. Os outros perdem-se nos meandros da atuação política, como sempre distantes do que beneficiaria a maioria da população.

Se Maria Antonieta ainda fosse viva, repetiria a sentença que - verídica ou inventada - aconselhou os que não têm pão a comerem brioches. Os que se alimentam diariamente, são brancos e ricos e continuam a receber dos governantes (que nem reis são mais), os benefícios assegurados ao monarca deposto pela Revolução Francesa e à sua corte.

Não se trata hoje de apenas garantir perdão ou prolongamento de prazos para pagamento das dívidas contraídas junto aos cofres públicos, conceder empréstimos e financiamentos subsidiados, destinar polpudas verbas públicas para proporcionar lucros a grupos privados, inventar expedientes como o FIES e o PROUNI para enriquecer empresas que exploram o negócio da educação.

Mais que isso, convivemos com a remoção da venda ostentada pela deusa da Justiça, para que a distribuição desse serviço à população estabeleça a classificação a que hoje se assiste: a uns, o rigor da Lei e, mais que isso, a própria ofensa aos textos legais, não bastasse o flagrante desrespeito a mandamento constitucionais; a outros, o favor da anulação de provas e, no limite a exclusão do rol de acusados. O pretexto, sempre, o da ausência de provas.

Na imagem da Thêmis ornamental aposta à Frente do Supremo Tribunal Federal, não foi tirada a venda. Nem precisaria, eis que muitos dos julgadores da Casa se incumbem de proceder para mostrar a efetividade da exposição dos olhos da deusa. O resultado é o que se vê: a inclusão do poder que um dia serviu à correção das mazelas de nossa débil democracia, no mesmo balaio em que restam impunes a maioria dos políticos, grande parte do empresariado nacional e dos asseclas de ambos, aqui e no exterior.

Não poderia ser diferente, quando todos põem seus próprios interesses, seus propósitos obscurantistas e seu talento acima do que pomposa e hipocritamente chamam Lei Magna. Nem se poderia esperar mais de um corpo de profissionais que se sujeitam à peregrinação de gabinete a gabinete dos mais influentes em Brasília, a mendigar patrocínio para sua malfadada causa - a obtenção de uma nomeação.

Pior que tudo, é a dificuldade de imaginar que a voz e os conselhos das Marias Antonietas de hoje serão rejeitados, pelo menos pelos que se contentariam em comer brioches, quando lhes faltasse o pão. Poucos, porém, sabem que de um e outro jamais comerão. O apetite dos de cima é insaciável. Agora, mais que antes, em qualquer das mesas oficiais do Planalto.


Sociedade e  Societários - Em 23/06/2018

Sem despertar o interesse dos brasileiros no grau a que estamos acostumados, a Copa do Mundo de Futebol não passa de todo ignorada pela maioria. Ainda desta vez, as imagens geradas nos estádios da Rússia são pretexto para a reunião de amigos e parentes, nos bares e restaurantes, nas praças e residências de muitas cidades brasileiras. Não será de uma hora para outra que a paixão brasileira pelo chamado esporte bretão desaparecerá.

Importa dizer que temos muito poucas razões para concentrar toda nossa atenção nos jogos que a seleção disputa, tão longe do território do nosso país. Concorrem para o diminuído entusiasmo ora revelado, tanto as dificuldades próprias do grupo de jogadores envolvidos, quanto a própria situação social, política e econômica em que se traduz a atual crise por que passamos.

Manifestação coletiva que muitos tomam como traço cultural, o gosto pelo futebol e o envolvimento emocional da grande maioria dos nossos compatrícios parece nunca ter sido tão desafiada. A substituição do técnico Dunga por Tite, por todos louvada, também começa a exigir novas formas de análise, seja da parte dos entendidos em futebol, seja dos mais de duzentos milhões de brasileiros que se acham especialistas no assunto.

Antes, e por toda parte, dizia-se que de médico e de louco todos temos um pouco. No Brasil, além de loucos e médicos, cada qual se pensa dotado de qualificação suficiente para discorrer sobre o esporte, criticar a conduta dos que o praticam e vivem dele, tanto quanto das razões por que alcançamos tal ou qual resultado, a cada partida e a cada competição.

Nossa primeira conquista vem do período a que se chamou "anos dourados". Eleito Presidente das República, Juscelino Kubistcheck conquistava pelo sorriso sempre aberto e pelo valseado várias vezes tornado público os que o haviam consagrado nas urnas - e os outros que nele não tinham votado. Os que, como Carlos Lacerda e seus seguidores, divergiam de Nonô, não conseguiam impor-se aos que viam no risonho mineiro um ser humano que, no mínimo, incutia o sentimento de esperança e de alegria a quantos acompanhassem sua trajetória.

A Copa de 1962, depois, antecedeu o clima de opressão e a escuridão política ameaçadores do que estava por vir. Eram, se permitem a liberdade vocabular, o ocaso de uma época que suscitou alimentar um sonho.

Depois, sonhar era tão impossível quanto sobreviver com dignidade. A conquista da Copa de 1970 deveu-se, sobretudo, à impossibilidade de os brasileiros conhecerem o que ocorria nos bastidores, aqui não apenas dos clubes de futebol e dos gramados, porque o espesso véu da censura e da tortura correspondiam à venda que impede enxergar o que quer que seja. O "prá frente. Brasil" e o "Brasil - ame-o ou deixe-o" diziam bem dos antolhos postos a cada cidadão e cimentavam a base da discriminação entre os bons e os maus, os mandantes e os mandados. Nas ditaduras sempre ocorre assim. A História o tem demonstrado.

Duas outras copas foram ganhas, menos por que tenham sido superados os mais graves problemas nacionais (dos quais a desigualdade de oportunidades parece-me a maior e mais decisiva), mas pelas esperanças devolvidas à maioria dos que têm vivido à sombra delas.

Hoje, que a esperança esmaece, e a utopia está sob fogo cerrado, torna-se difícil admitir que chegaremos ao hexa campeonato. Mais, ainda, quando persiste em nós a tendência de celebrar os deuses de pés de barro e eleger o individualismo como a melhor das virtudes, não o pecado mais grave.

Em todo caso, torcer pela seleção do Brasil não fará mal a nenhum brasileiro. Pelo menos, aos que gostam de futebol e sabem que não está nos pés de nossos atletas a solução para os problemas que a vontade dos políticos e a cabeça dos administradores não têm interesse em resolver.

Essas são questões que só as urnas resolverão. Mais lá, que diante de uma televisão e as imagens dos estádios em festa, é que o jogo da cidadania será travado. Então, poderemos reafirmar o que frequenta minha cabeça e sinto no coração: a sociedade tem a cara dos societários.


Raposa no poleiro - Em 16/06/2018

A recente greve dos transportes coletivos de Manaus importa para nós, quanto importa para o Brasil a greve/locaute dos caminhoneiros, autônomos ou reunidos em empresas especializadas. Nenhuma das duas mobilizações terá pegado desprevenidos os responsáveis pelo setor, aqui e no País. Afinal, a política de preços dos derivados de petróleo não está fora dos poderes do Estado, pelo simples e prosaico fato de que a Petrobrás é substancialmente diferente das demais empresas privadas. Que sejam adotadas, parcialmente, algumas técnicas próprias das empresas particulares, parece compreensível. O que não se pode admitir, todavia, é obscurecer a história da estatal brasileira de petróleo e as funções a que ela se destina. E pelas quais foi criada Dentre estas, a de ocupar posição estratégica nos negócios de Estado, não a de assegurar, a qualquer custo social, lucro fácil e dividendos.

Aos componentes econômicos que integram o cotidiano da empresa não podem ser opostas as conveniências e as tensões políticas, eis que seus verdadeiros donos são os contribuintes brasileiros, parentes entre si ou não. Nesse caso, a operação da empresa não poderia pautar-se pelos interesses a que serve seu ex-Presidente, de que dá noticia sua transferência para outro grupo empresarial, mal constatado o primeiro dos muitos resultados negativos de sua gestão.

Negativos, lembre-se, do ponto de vista do Estado brasileiro e, também, da maioria dos brasileiros.

No caso de Manaus, é doloroso dizer da rotina que estabelece o caos na cidade, sempre que a voracidade das empresas concessionárias dos serviços de transporte público não é atendida. Cada novo ano a população tem assistido à pressão dos proprietários de ônibus, à cata de obter ainda lucros mais escorchantes que os sempre deferidos pelos ocupantes da Prefeitura. Isso tudo, sem o cumprimento de uma só das contrapartidas com que todos eles dizem concordar: frota renovada tratamento humano dispensado aos motoristas, cobradores e passageiros; higiene e segurança dos veículos; pontualidade nos horários etc. Já nem se fale na atribuição às empresas transportadoras de facilidades fiscais e tributárias, porque esse é assunto que acaba por envolver também os supostos representantes populares, na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa.

É verdade que alguns poucos deputados e vereadores têm revelado justa indignação contra o estado de coisas indicado, a que não falta sequer o desrespeito às leis trabalhistas. Também é certo que muitos dos dirigentes sindicais engrossam o coro do patronato, como toda a população tem sabido, e não é de hoje.

Não haveria melhor hora que esta, para apurar, tim-tim-por-tim-tim, como se formam os preços das tarifas e conhecer as razões pelas quais os proprietários de ônibus são donos exclusivos do pedaço. Sempre, com as vantagens que os sucessivos prefeitos não se têm negado a conceder-lhes.

Por isso, nada melhor que abrir a CPI da Câmara e promover profunda investigação, que deve ir muito além das planilhas tão reclamadas. Tudo, com o acompanhamento do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil e das entidades da sociedade civil cansadas dos males que o setor vem padecendo e impondo aos habitantes da cidade.

Se, desta vez, a CPI não prosperar, será mais honesto entregar todas as decisões do galinheiro às raposas que o rondam e em muitos momentos ocupam os poleiros enlameados.


Governar não é para os fracos - Em 08/06/2018

Brasileiros medianamente informados não deixam escapar o que muitos autoproclamados analistas não veem. Ou, se veem, preferem fingir ignorância ou esquecimento momentâneo. Os interesses, nem sempre louváveis, falam mais alto.

O governo (?) de Michel Temer, tanto pela forma como foi conquistado quanto pelas características pessoais de seu chefe, não poderia conduzir o País para outra situação, que não fosse a testemunhada por todos, nestes últimos dias. A tal ponto transpareceram as verdadeiras razões do golpe que derrubou Dilma Rousseff, que fomos levados a experimentar a intranquilidade generalizada, a impotência das autoridades e o esgarçamento das reduzidas esperanças de que as coisas mudem em curto ou médio prazo.

Experimentando o menor nível de popularidade de todos os mais recentes presidentes, Michel Temer é considerado pelo jornalista Josias de Souza como o "ex-Presidente no exercício de mandato". Em outras palavras: o governo Temer acabou e só o maior beneficiário pessoal da queda de Dilma ainda não se deu conta disso.

Quem tenha acompanhado os primeiros dias da atual gestão, facilmente se lembrará das dificuldades enfrentadas pelo ex-deputado e ex-Presidente do PMDB, para formar a equipe com que (des)governaria o Brasil. Ao final do processo de formação de seu Ministério, Temer logrou formar o que muitos analistas ou comentaristas (reais ou autoproclamados apenas) preferem chamar quadrilha. Ponderável a presença em torno do Presidente de profissionais envolvidos nas mais diversas formas de ilícito, outra não poderia ser a imagem projetada do Chefe do Poder Executivo.

Talvez não muitos se recordem mais das hesitações que marcaram os primeiros dias da atual gestão. Às dificuldades encontradas por Temer para agradar o que imaginava ser sua base de apoio, a demora em tomar decisões só a ele cabíveis revelavam, mais que inabilidade política, a fraqueza do caráter do Presidente. A frequência com que tinha que revogar verdade dita em alto e bom som na véspera, caracterizou cada dia daquela fase.

Como tudo isso parece ter caído no esquecimento da maioria dos brasileiros, neles incluídos os pretensos analistas, não se fala mais da responsabilidade do ex-Ministro da Fazenda em relação à crise agora ampliada.

A Henrique Meirelles parecia pertencer o comando da administração, investido que fora da autoridade necessária a impor as medidas antipopulares e nocivas aos interesses da sociedade e da nação. De sua inspiração foram as chamadas reformas trabalhistas, de que resultou uma volta quase integral ao período do Império; a entrega do enorme potencial da Petrobrás à voracidade dos investidores estrangeiros; a manutenção de privilégios para os agentes do agronegócio; a administração perversa do preço dos combustíveis, dentre tantas outras decisões prejudiciais ao povo brasileiro.

Mais grave, ainda, foi frequente a presença do homem forte do governo Temer diante das câmeras de televisão, para dizer do êxito econômico do período decorrente da derrubada da companheira de chapa do Presidente. O Brasil teria superado a crise, os trabalhadores estariam encontrando facilidade em empregar-se, a inflação apresentava performance jamais experimentada, em sua escalada descendente. A potoca, em doses maciças!

Tudo o que proclamava o ex-Presidente do Banco de Bóston se dirigia ao propósito de ter nele o sucedâneo do próprio Michel Temer, por certo tempo pretenso candidato à reeleição. Os números da popularidade deste, contudo, teimam em permanecer pífios. Era preciso encontrar quem pudesse ocupar o posto sempre fiel aos interesses que a equipe hoje lá instalada advoga e promove. Ninguém melhor para dar o recado do capital internacional que o banqueiro, mesmo se de sua folha corrida conste presença influente no grupo econômico que detonou a Operação Lava Jato. O mesmo que adotou postura de indiferença e distância da equipe em que foi companheiro de Eliseu Padilha, Moreira Franco, Blairo Maggi, Romero Jucá, Gedel Vieira Lima e outros de igual notoriedade.

Ao longo do período, repetiram-se episódios que misturaram, de um lado, a firme hesitação do Presidente, quando não seu alheamento às questões mais elementares que cabe a alguém no seu cargo resolver. Também não cessou a convocação de outros profissionais igualmente mantidos sob suspeita, para compor o grupo de colaboradores mais íntimos de Temer.

A tudo isso é oportuno acrescentar a dinheirama gasta com o intuito único e exclusivo de assegurar a impunidade do Chefe do Poder Executivo, duas vezes denunciado pelos investigadores de ilícitos, e duas vezes amparado pelos que se beneficiaram da gastança do dinheiro público, em defesa de uma causa que não é a mesma da maioria dos contribuintes.

Os acontecimentos gerados pela aliança entre patrões e empregados do setor de transportes rodoviários, assim, não é se não consequência das hesitações, das decisões ofensivas às leis penais e à saúde financeira do País, da fraqueza política e moral do governo e, mais que tudo, da pusilanimidade que parece apanágio do ocupante maior do Palácio do Planalto.

É certo que, mais uma vez, as dificuldades dos mais pobres serviram a uma causa cujo interesse é maior para os que se situam no patamar mais alto da sociedade, os empresários dos transportes. Nem por isso pode ser invalidada, em especial por ter revelado aos que ainda se mantinham cegos e surdos, as razões para fazer de Dilma Rousseff uma ex-Presidente.

Também chama a atenção de todos a absoluta incapacidade de Michel Temer para governar um país que teima em fazer-se democrático. Quando busca medidas repressivas que compensem sua liderança nula e suas hesitações características, ele não se peja em chamar a força armada. É sempre assim: o que a moral e a prudência, acompanhadas da firmeza de caráter e da legitimidade da causa popular não conseguem, porque ausentes no círculo do poder, poderá ser conseguido com a força.

Foi assim, também, em 1964. Os de quem o povo não gosta, logo dirigem a todos a sanha de que são possuídos. Não dispondo de bons argumentos, nem tendo benefícios gerais e duradouros para mostrar, tentam obter o apoio popular como o tentaram tantos outros, ao longo da história.


Parentesco prejudicial - Em 02/06/2018

Por mais que a maioria dos meios de comunicação pretenda, torna-se impossível esconder o malogro de Pedro Parente, na Presidência da Petrobrás. Só os que ignoram ou fingem ignorar a história da empresa (o que equivale dizer: boa parte da História do Brasil) e o papel do Estado na vida política, econômica e social das nações, continuará apostando suas fichas na competência de Parente.

Meus ex-alunos no curso de Administração da Universidade do Amazonas, ao longo de trinta anos ouviram de mim: no íntimo de qualquer burocrata típico estará sempre escondido um burrocrata.

Os fatos que determinaram a deserção de Pedro Parente da direção da ex-estatal do petróleo brasileiro tem menos a ver com a greve dos caminhoneiros - os autônomos ou as espertas empresas do setor - que à percepção do festejado gerentão, em especial sobre os dois pontos acima apontados.

Quem acompanhou, com mais acuidade e proximidade ou simplesmente post-facto o nascimento, o desenvolvimento e as lutas envolvidas no processo de criação da Petrobrás não pode admitir a condição a que foi levada a empresa. Nem a extensão e a profundidade das bandalheiras praticadas contra ela podem justificar os rumos que foi forçada a seguir, quando era hora de fortalece-la, defende-la e deixa-la distante dos vorazes interesses que sobre ela recaem. E não é de hoje.

Mais que um erro de gestão, a vinculação estreita das políticas da Petrobrás às oscilações do mercado internacional puseram-na em posição subalterna, quase de joelhos, frente às suas concorrentes estrangeiras. Isso tudo, depois de ela ter sido considerada a segunda maior petroleira do mundo.

Ao invés de reter nas mãos do Brasil as decisões mais importantes que qualquer direção honesta ou comprometida com os interesses nacionais não poderia desprezar, foi exatamente isso o que fez o grupo dirigido por Parente. O atrelamento às ondas externas não tem suas causas nas falcatruas cometidas contra a empresa. Nem estão no esquecimento as providências policiais e judiciárias correspondentes.

O que Pedro Parente e seus companheiros de direção estariam obrigados a fazer, além da recuperação ética da Petrobrás, era cuidar para que ela se mantivesse na posição de respeito e reverência granjeada nos últimos anos. Sem prejuízo ao povo brasileiro e sem a imposição de dificuldades aos que consomem seus produtos. De resto, todo o setor produtivo do País.

Quando parte do pré-sal foi deixada à vontade dos investidores internacionais, viu-se o primeiro sinal de qual seria o destino da Petrobrás. Depois, cada nova decisão mostrava as verdadeiras intenções dos burocratas que sentaram nos postos mais importantes da até então vigorosa iniciativa oficial. A mais bem-sucedida, de quantas o governo brasileiro tomou a si a tarefa de criar, expandir e manter em funcionamento.

A campanha "o petróleo é nosso", de que participaram desde Monteiro Lobato até nomes respeitáveis das forças armadas brasileiras, não pode ser impunemente ignorada, por quem quer que vá dirigi-la. Nem a importância estratégica de que ela se reveste, ainda mais quando em seus quadros estão dos mais importantes profissionais da geologia nacional.

Esse, porém, é apenas um dos aspectos a considerar. O outro diz respeito à tabula rasa em que é servida a Petrobrás à voracidade de terceiros. Estatal, não pode ela ser assemelhada às empresas constituídas por particulares, com o intuito único e exclusivo de dar lucro. Não foi essa a inspiração da Petrobrás, desde que sua criação começou a ser cogitada, lá se vão mais de 70 anos.

Só uma visão empobrecida ou aquela própria dos burocratas seria capaz de perder de vista os objetivos eminentemente sociais e políticos da ex-estatal do petróleo. Ainda mais quando ela estava próxima de alcançar a autossuficiência tão desejada. Mais grave, ainda, quando tinha à sua disposição novas fontes de prospecção e exploração, devidas sobretudo à capacidade dos técnicos de seus quadros.

Por que nos últimos dois anos não se tem uma só notícia que indique a intenção de ampliar a capacidade de refino do óleo bruto? Por isso, exportamos o produto que mais tarde compramos a custos maiores. Ou haveria a solerte intenção de nos prender ainda mais aos interesses externos?

O papel da Petrobrás, confundido com as funções de uma empresa privada qualquer, não serve à gestão dela. Nem um burocrata desprovido de percepção política e sensibilidade social poderia ascender à sua Presidência.


Quem ganhou com a greve? Em 25/05/2018

Os quatro últimos dias vividos pelos brasileiros levaram-nos a experimentar situação muito próxima daquela que infelicitou o povo venezuelano, nos últimos anos. Enquanto a Venezuela reelege um Presidente em eleição direta contestada à esquerda e à direita, permanecemos presididos por um político recordista na rejeição popular. O mesmo que, articulador da derrubada de sua companheira de chapa, foi o maior beneficiário pessoal do movimento que a depôs.

Igual a muitos dos brasileiros, cheguei a duvidar de que se tratava de um golpe. Talvez tenha pesado na formulação desse equívoco o fato de que os antecedentes e o modus faciendi da queda de Dilma Rousseff dispensaram a presença de esquadra estrangeira patrulhando nosso extenso litoral. Como em 1964. Talvez a isso se some a ausência de conciliábulos e tratativas feitas na língua inglesa.

Desta vez, o Lincoln Gordon de plantão e o símile do coronel Vernon Valters nem precisaram vir ao Brasil. Pelo menos o contribuinte estrangeiro ou mesmo o brasileiro foi dispensado de mais esse prejuízo.

Estamos desfrutando da transparência de uma situação indesejada pela maioria dos cidadãos, especialmente pelos que não têm acesso aos gabinetes refrigerados da capital federal e, por via de consequência, são mantidos à distância dos cofres públicos. Seja porque é fraca (se não inexistente) sua influência sobre as decisões governamentais, seja pela total impossibilidade de se acumpliciarem com os que controlam a caneta e o Diário Oficial.

Pior que tudo, porém, decorre do constrangimento de ver e ouvir interpretações e análises que me obrigam a transitar do sentimento de tédio ao de nojo. Porque, necessitando de informações que levam a um julgamento sensato das ocorrências, o máximo que conseguimos ver é a pretensa análise de formadores de opinião que não conseguem superar suas preferências pessoais pelo serviço público que todos consideramos deverem eles prestar.

Tudo porque não admitem ter participado de um golpe, diferente na forma, mas similar nos resultados a tantos outros de que fomos testemunhas.

A derrubada de Dilma Rousseff, se tivesse nas alegadas pedaladas fiscais seu verdadeiro motivo, imporia agora o mesmo destino a Michel Temer. Quanto à corrupção, na Petrobrás, em muitos outros órgãos públicos e em todos os escalões, igualmente permanece atuante. Poucos têm falado nisso, porque as atenções dos que se apropriaram do governo estão todas voltadas para consumar os maus propósitos que puseram Michel Temer na cadeira que foi de Dilma Rousseff, depois de ter sido ocupada por Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. E que eles pretendem entregar a Henrique Meirelles.

A bandalheira institucionalizada, assim, trouxe-nos à recente greve patronal, aquilo que em linguagem importada da metrópole e adaptada à nossa glote chamamos locaute.

A tranquilidade com que os analistas improvisados chegaram a essa conclusão dá a todos a impressão de que se trata de cidadãos probos, isentos em suas mensagens ao público. É como se não tivessem concorrido para apear a ocupante do Planalto, cedendo seu lugar, sob aplausos e salamaleques, a um Presidente que no dia 02 de janeiro de 2019 será chamado a prestar contas à Justiça.

Desta vez, os caminhoneiros brasileiros servem de escada para conferir maiores ganhos ao setor de transportes rodoviários, embora correspondam a apenas 30% os transportadores rodoviários autônomos. Os ganhadores, mais uma vez, são as empresas transportadoras, muitas das quais utilizam os serviços dos mais pobres do setor, os que dirigem seus próprios caminhões.

Não se trata, portanto, de qualquer novidade, eis que essa é história antiga. Uma luta em que já se sabe quem irá à lona, muito antes de soar o gongo. Afinal, para isso é que se tem acumpliciado o grosso do PIB nacional com os sucessivos ocupantes do Planalto.

A Lava Jato não deixa mentir.


Não mais que mentiras - 19/05/2018

Fosse a mentira - e a perversidade em que ela se inspira - tipificada como crime em si mesma, grande parte dos políticos e pretensos analistas econômicos estaria atrás das grades. Ou pagando bolsa-família, porque é assim que os ricos fogem do sistema penitenciário brasileiro.

A mentira, como ensinava Goebells, faz-se impor pela repetição com que é alardeada. Também proclamada pelas mais diversas fontes, todas elas de alguma forma influenciadas pela comunicação malsã que, convenhamos, nem é uma novidade brasileira, nem se restringe às ditas redes sociais. Estas são apenas modernização tecnológica de um hábito assaz conhecido. Com nome em inglês, obviamente - fake news.

Talvez nenhuma dessas invenções malévolas tenha a força da conclusão (desonesta, é bom dizer) de que o Brasil ostenta a maior carga tributária do Planeta. Quando é algum representante dos miseráveis e pobres do País que o afirma, pode-se admitir que terá sido convencido pelas mensagens recebidas. Porque não tem sido outro o esforço dos que defendem a desigualdade como fenômeno desejável, se não o de conquistar a opinião que, ao fim e ao cabo, beneficiará os que tudo têm, em desfavor dos que pensam nada merecer. Trabalhem ou não. (Mais fácil não, segundo indicam os números do desemprego destes tempos temerários).

Quando, porém, sai da boca de pessoas que percorrem o mundo a negócios, missões oficiais ou simples desfrute dos privilégios que a desigualdade proporciona, aí não se tem como desprezar a evidente - e única - constatação: é revelação de pura perversidade.

Dados oficiais de agências internacionais acreditadas (OCDE, por exemplo), classificam o Brasil em posição no mínimo melhor que a de dezenas de outros países, quanto ao peso da carga tributária sobre a população em geral. O que acontece, entre nós, é a ignóbil injustiça tributária. Os fundamentos da política oficial para o setor parecem firmar-se em princípios absolutamente avessos à prática do lendário Robin Hood. Temos assistido, ao longo das últimas décadas (nem posso afirmar com forte convicção se antes era diferente), à aplicação com sinal invertido do preceito a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas potencialidades.

Mesmo quando se consegue aprovar alguma lei supostamente benéfica aos mais pobres, a tessitura política acaba pondo por terra o preceito legal. É bem o caso do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, FGTS.

Recente levantamento revela ser de quase 30 bilhões de reais a dívida das empresas para com o FGTS. Dentre os devedores, obviamente, muitas são empresas vinculadas ao poder público. O que significa dizer que, nesse caso como em muitos outros, agentes públicos e privados são não mais nem menos que cúmplices. A ambos os setores basta contar com os arautos de seus interesses, vontades e decisões e proclamar tudo quanto os favoreça. Sabem todos que, mais dia menos dia, chegará a anistia ou a renegociação sempre benfazeja.

Escrevo isso tudo, para mostrar, menos que minha surpresa, o descaramento de um dos postulantes à Presidência da República, em entrevista concedida dia 14 último, a uma emissora de televisão.

Nela, Rodrigo Maia repete o mantra dos neoliberais brasileiros, quando aborda temas e problemas que se pensa deverem ser dominados pelos candidatos. Um desses temas diz respeito à relação entre PIB e despesas previdenciárias. Presidente da Câmara, o filho de Maia fixa em 13% essa relação, no exercício de 2017. O IBGE, no entanto, fixou-a em 8,5%. Até aqui, sem qualquer contestação.

Sobre a taxa de mortalidade infantil, o pretenso candidato a vê crescente, em flagrante contradição com os números apresentados pelo instituto de estudos geográficos e estatísticos oficial. Não é menor a mentira proferida pelo Presidente da Câmara dos Deputados, quanto à diferença salarial entre o setor público e o setor privado brasileiro, especialmente se comparado ao de outros países. Cinquenta e três, para ser mais exato.

Rodrigo Maia acha absurda a diferença, mesmo se os colegas parlamentares e ele próprio estão na faixa mais generosamente retribuída em seu trabalho (?). Embora a média dos países estudados pela OCDE estabeleça o percentual de 16%, o Brasil está acima apenas um ponto percentual, 17%. Onde o absurdo? Este, como se vê, cedeu seu espaço à mentira, instrumento muito utilizado, sempre que as benesses de um posto estão postas sob o olhar dos interessados - os que pretendem a cadeira principal e os outros, que a cercam permanentemente.

Chega de mentiras! Com elas, dificilmente serão encontradas soluções para nossos problemas...se é isso que interessa a esse tipo de gente!


Os eixos de Iasi (parte II)- Em 12/05/2018

O caminho para o desenvolvimento brasileiro, segundo Mauro Iasi, tem a pavimenta-lo seis políticas que ele chama de eixos prioritários e imediatos. Um resumo do texto lido situa tais eixos nos seguintes pontos : 1. Reversão das privatizações nos setores estratégicos da economia. 2. Estabilidade financeira. 3. Dívida pública, interna e externa. 4. Reforma agrária. 5. Reforma urbana. 6. Política de desenvolvimento científico e tecnológico.

Como desde logo se observa, não é trivial, pelo menos nos dias de hoje, o que o professor da UFRJ propõe. A rigor, alguns dos pontos por ele sugeridos incidem diretamente nas políticas que o governo João Goulart pretendia realizar, muitos dos quais utilizados pela oposição para derrubar o fazendeiro-Presidente.

Dos pontos recuperados dos anos 1960 trataremos em primeiro lugar.

Como sabem os contemporâneos do golpe militar e os que se dão o trabalho de estudar a História, as reformas bancária, universitária e urbana constavam do que então se chamava reformas de base. As grandes manifestações em defesa de sua realização irritaram parte da sociedade, atiçada pelos meios de comunicação, apoiada pelo empresariado vinculado ao capital estrangeiro, parte da Igreja incomodada com a Teologia da Libertação e fração militar comprometida com os golpistas. O que se deu, testemunharam os contemporâneos, os órfãos causados pela tortura oficial e os que, não vivendo àquela época, vêm lendo a copiosa produção bibliográfica sobre o período mais infausto da História do Brasil.

O autor do oportuno texto publicado no blog da Editora Boitempo não pretende esgotar todo o assunto, mas o que nos oferece serve bem, sobretudo à discussão dos problemas que nos afligem e impedem que encontremos o caminho do verdadeiro desenvolvimento.

Ao contrário do que afirmavam, como ainda hoje afirmam, se bem que menos ousados, os conservadores, não será fazendo o bolo crescer, para depois distribuí-lo, que se chegará a bom porto. A lógica do capitalismo não dá asas a qualquer pretensão de crescimento e distribuição concomitantes. Fazê-lo importaria aquinhoar em partes equivalentes os diversos fatores de produção, o que não consta de nenhum tratado ou princípio dos sistemas de mercado.

Maior o crescimento, maior a apropriação pelos detentores do capital dos resultados alcançados. Por isso, advogo séria crítica à crença religiosa de que a sociedade melhora suas condições materiais de sobrevivência, sempre que há crescimento econômico. Não é isso o que a experiência tem deixado evidente.

Quando, lá se vão mais de 50 anos, defendíamos as reformas a que alude Mauro Iasi, a realidade do País ainda não tinha chegado ao nível de hoje. Nem se experimentavam os níveis de corrupção de que todos se revelam hoje enojados. Não, porém, sem de algum modo terem concorrido para que ela persista.

Também era menor a profundidade do fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. Durante todas as cinco últimas décadas, o nível de acumulação de riqueza só fez aprofundar-se. A tal ponto, que o Brasil marca presença importante no ranque das nações mais injustas do Planeta.

Da omissão relativa à reforma agrária dão conta os recorrentes conflitos entre camponeses e proprietários rurais, produtores não apenas das safras recordistas de cereais, como de cadáveres de trabalhadores do campo. Tudo isso, com a complacência, quando não a conivência e cumplicidade do poder público. Pior, à custa do dinheiro de todos.

O sistema financeiro, os balanços publicados pelos bancos nos últimos dias o dizem, é território propício a toda forma de exploração, pois funciona como a grande pá que escava o fosso da desigualdade. Também é isso que mostram os números conhecidos. Os cofres públicos se esvaziam, os trabalhadores perdem o emprego, os pequenos empresários não conseguem financiar seus custos - e os rentistas gargalham diante dos ganhos exorbitantes.

Iasi sugere a troca de catecismo, quanto aos bancos. Para ele, o sistema financeiro deve orientar-se pelo interesse na saúde do capital financeiro, abandonando as políticas que apenas fortalecem o poder dos bancos e dirigem a economia e as contas públicas, em favos destes. Algo como o que chamávamos, nos anos 1960, Reforma bancária.

No que respeita à reforma agrária, o que escreve o professor adjunto da UFRJ não se restringe à pura e simples entrega de terras aos camponeses. Além disso, é proposta a troca de prioridade: do agronegócio para a produção e distribuição de alimentos. Em outras palavras: substituir o apoio e as facilidades de toda ordem deferidas ao agronegócio para a produção de commodities por ações que estimulem a produção em larga escala de alimentos e o benefício de seu consumo para os mais pobres. Este, também as cifras não nos deixam mentir, são muito mais numerosos.

A reforma universitária de que éramos defensores na juventude, não sendo realizada, antes rejeitada, acabou no que se está testemunhando: a desatualização das bibliotecas e laboratórios, a deterioração geral da qualidade de ensino, o desestímulo tomando conta dos docentes, a expansão para os campi da violência que a cerca, a quase falência da pesquisa científica, a subserviência tecnológica. O mero aparelhamento do ensino às imposições do mercado. Em suma: o trajeto da educação para o adestramento.

Não é de hoje que se tem apontado o enriquecimento de grupos privados dedicados aos negócios da educação, ao mesmo tempo em que se estrangulam as melhores iniciativas da escola pública, em todos os níveis. O que falta às universidades federais encontramos nos estabelecimentos das empresas de educação, pelos mecanismos financeiros mais extravagantes, de que o FIES e o PROUNI são apenas exemplares destacados.

Nesse contexto, torna-se indispensável mencionar a desprivatização de importantes segmentos dos setores estratégicos, seja nos transportes (aeroviário, portuário etc.), seja na mineração, em especial o petróleo.

A roubalheira que se aproveitou da Petrobrás não pode servir de pretexto à agressão aos interesses de todo o povo brasileiro, com a entrega da empresa e suas subsidiárias ao controle do setor privado. Corrigir o que de errado vinha sendo feito, punir os responsáveis pela dilapidação do patrimônio da mais vitoriosa empresa brasileira não pode ser confundido com a doação aos vorazes capitais que nos ameaçam. Não apenas nesse setor.

A suspensão do pagamento da dívida pública, interna e externa, outro dos eixos de Iasi, deveria ser dos primeiros pontos a considerar, seja qual for o Presidente eleito em 2018. A recusa em discutir o assunto, tantas vezes deixada clara pelo governo, só pode ter uma explicação: a irregularidade que permeia todo o processo de constituição dessa dívida. Por isso, é dos temas fundamentais a considerar.

O que se pode esperar, diante da proposta formulada pelo professor e pesquisador da UFRJ?

No mínimo, que se multiplique o número de leitores de seu texto (e de tantos outros que ele publica no blog da Editora Boitempo). Além disso, que tais textos sirvam à análise, discussão e divulgação do que ele propõe.

Eventuais discordâncias, se isso ocorrer, devem ser levadas à conta do hábito que muitos profissionais e estudiosos de esquerda cultivaram e cultivam, ao longo de sua existência. Sobretudo, da compreensão de que o ser responsável, mentalmente são e maduro não pode ser feliz, se em seu entorno só vê infelicidade.


Um texto digno de atenção e discussão - Em 05/05/2018

Texto escrito por Mauro Iasi, publicado no blog da Editora Boitempo, em 26 de abril passado, trata da crise brasileira, e vai adiante. Fundado na experiência e nos registros históricos, o professor adjunto da UFRJ indica o que ele chama de alguns eixos prioritários e imediatos que dariam conteúdo às respostas exigidas pela crise.

Não se trata, como esclarece o autor, de tornar o Brasil um país socialista. Nesse sentido, vale-se do ensinamento de Lênin, ao afirmar, em certo momento da Revolução Russa, que sem um país minimamente civilizado não se pode pensar naquela alternativa.

É isso mesmo: Iasi nos vê distantes daquele nível razoável de civilização. Isso, para mim, implica reconhecer-nos envolvidos numa sociedade que sequer superou a barbárie.

Oportuno e esclarecedor, o texto mostra que Octavio Ianni, em seu Estado e planejamento econômico no Brasil, mostra que o País enfrentou momento em que três alternativas estavam postas: o desenvolvimento capitalista nacional, exigente de infraestrutura, industrialização e desenvolvimento tecnológico próprio; o desenvolvimento capitalista associado ao imperialismo, buscando o crescimento econômico; a alternativa socialista. O governo de Getúlio Vargas seria representativo do primeiro caminho; com Juscelino teríamos começado a experimentar a segunda. A terceira alternativa jamais foi tentada, desde que a experiência de Juscelino foi interrompida, agravando-se com o golpe militar que nos levou à longa ditadura inaugurada em 1964.

Para Ianni (apud Iasi), a terceira alternativa foi suspensa, desde quando a principal força que poderia sustenta-la, o Partido Comunista Brasileiro, decidiu aliar-se à proposta de um capitalismo nacional. Essa seria, como aponta o professor da Escola de Serviço Social da UFRJ, a via que levaria ao socialismo.

É dito, ainda, que tal postura foi retomada, com a redemocratização do País e os governos democráticos do PT. A base política assentava-se na conciliação de classes, com vistas ao desenvolvimento capitalista, a que a geração de empregos, a distribuição de renda e as políticas sociais compensatórias dariam o conteúdo.

Em todo caso, acentua Mauro Iasi, o que predominou, seja por formas democráticas, seja por fórmulas abertamente autoritárias, foi a crença de que o desenvolvimento econômico baseado no livre mercado e na inserção subordinada do Brasil à ordem econômica mundial (leia-se imperialismo) poderia dotar nosso país de uma economia sólida...

A frustração não se fez esperar, de tal modo que o País hoje se vê, após décadas da experiência, fretnet ao aumento da concentração da riqueza e da propriedade, a miséria persistente e os problemas estruturais ampliados, impedindo a dignidade mínima das condições de existência para a esmagadora maioria da população.

Diante desse cenário, o autor do texto divulgado pela Boitempo recomenda: 1. Orientar a economia subordinada à prioridade de criar os meios necessários a produção e reprodução em condições dignas da maioria da população, que é quem produz de fato essa riqueza e tem direito de usufruí-la; 2. Planejar a economia para que seja capaz de dispor dos recursos naturais, humanos, tecnológicos, culturais e outros, de maneira a otimizar a distribuição dos serviços e bens essenciais à vida, assim como manter as condições de reprodução das atividades econômicas; 3. Fortalecer a presença do Estado, sob outra forma, de modo a poder representar os interesses da maioria e das classes trabalhadoras, contra os interesses de uma minoria que deseja perpetuar sua propriedade, riqueza e privilégios.

Expostos os fundamentos da interessante sugestão de Mauro Iasi, trataremos de avançar, na abordagem dos eixos prioritários e imediatos, que ele também enumera em seu artigo.

Isso será objeto do próximo texto a ser publicado neste espaço.


Mandato e  habeas corpus - Em 28/04/2018

De tal sorte anda por maus caminhos a política brasileira, que se tornou quase impossível interpretar a ação dos seus agentes. Não é a complexidade do cenário que torna difícil qualquer esforço por compreende-lo em sua inteireza. Se isso é possível, sempre e em todo lugar...

O que ocorre no Brasil, todavia, parece não ter precedentes nem imitação em qualquer outro país. Uns consideram absurdo o que chamam de "justicialização da política", enquanto outros ignoram as funções de cada um dos poderes ditos republicanos. Mesmo se nenhum dos lados tem a menor consideração para o significado das instituições propostas por Montesquieu.

O Parlamento brasileiro, sabemos todos, jamais foi modelo a ser seguido. O que se passa, agora já não mais apenas nos bastidores, em todos os ambientes do Congresso corresponde ao que Bismarck atribuía ao Parlamento alemão. Se conhecêssemos como se fazem as salsichas e as leis, não apostaríamos em qualquer delas, salsichas e leis.

Se antes isso era assunto da - chamemos assim - cozinha da Câmara e do Senado, hoje nenhum pudor, menor que seja, impede os interessados porque beneficiários da situação de proclamar publicamente suas verdadeiras intenções e os interesses espúrios que o movem. É bem o caso das candidaturas à Presidência da República.

Dentre os postulantes, a maioria está envolta, no mínimo, em pesadas suspeitas. A começar pelo próprio Presidente da República, raramente se encontra entre os postulantes algum que esteja isento de acusações. A regra é ver o nome dos interessados no elenco dos investigados pela Lava Jato.

Não é de hoje que Michel Temer tem seu nome vinculado a irregularidades praticadas no porto de Santos. Como ele, Paulo Skaf, pretendente à melhor cadeira do Palácio dos Bandeirantes, também consta da relação de suspeitos. Esse, pelo menos, denunciou-se a si mesmo, quando representou o povo brasileiro no pato amarelo com que participa do golpe dado em Dilma Rousseff e em tudo o mais que ocorre desde aquele momento.

Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco de Bóston, permanece no firme propósito de chegar à Presidência, seja no posto mais alto, seja como coadjuvante. Representante do segmento que o Jornal do Brasil só agora descobre ser o maior agiota do País e, portanto, responsável direto pela desigualdade com a qual convivemos, o ex-deputado federal começa a dizer-se alheio à política.

Como todos os espertalhões que se aprestam a obter um mandato, menos que isso, o habeas corpus que lhes pode impedir serem postos atrás das grades. Podemos ver nele, sem muita probabilidade de errar, o Michel Temer deste mesmo. Sendo que Dilma Rousseff poderá ser o atual Presidente. Quem viver, conferirá.

Bolsonaro, o mais digno representante do atraso e do nazismo (como se não fossem sinônimos!) também não escapa do rol dos denunciados e imagina que sua truculência característica intimida os cidadãos de bem. Nem mesmo seus colegas de armas confiam nele, o que dá boa medida de sua índole e de seus objetivos.

Ciro Gomes, o ex-coronel do Nordeste, por mais força que faça, não tem capacidade teatral de representar o tempo todo. Um dia, que estará mais ou menos próximo, a cena se abrirá. E seu dilema - ser ou não ser - logo será desvendado.

Isso tudo, é claro, se for desfeita a discriminação odiosa e desonesta, caracterizada pela pressa em levar Lula à prisão, enquanto Eduardo Azeredo, o tucano pioneiro em mensalões, permanece livre e leve.

Impossível ignorar a que propósitos servirão os mandatos: substituir o habeas corpus incerto pelo privilégio do cargo eletivo. Por isso, nunca é demais insistir: só o povo, nas ruas e com estardalhaço, pode decidir o que o STF e o Congresso têm negado. Nas urnas, mais ainda. Deixando marcada, mais que a rejeição, o nojo, por tudo a que temos assistido, nesta obscura fase de nossa história.


Mais uma... - Em 22/04/2018

O embotamento que despencou sobre o cérebro da maioria dos analistas políticos contribui para fazer ainda mais obscuro o cenário nacional. Vítimas das afetações por que passa a inteligência dos estudiosos são os conceitos. Um deles, no processo de justificação de toda sorte de conduta ou em defesa de opiniões descabidas, refere-se ao termo esquerda.

Originário da Assembleia dos Estados Gerais da França, o conceito se foi firmando ao longo do tempo, a despeito do esforço despendido pelos que pensam diferente, identificando-se com certo conjunto de valores, decisões e atitudes construídos em função da Revolução Burguesa de 1789.

De esquerda eram os representantes sentados desse lado, na Assembleia. Ao contrário dos outros (nobreza e clero), buscavam substituir o absolutismo monárquico e instaurar uma nova ordem social, em que a liberdade, a fraternidade e a igualdade apontassem os rumos do povo francês. Por conta disso, opunham-se a tudo quanto comprometesse a caminhada a esse desiderato. Desejavam os representantes populares a derrubada do absolutismo e a atribuição de direitos ao terceiro estado, aquele que portava a bandeira das liberdades e que incorporou o lema dos revolucionários no elenco de conquistas a legar às gerações posteriores.

Não obstante, passados mais de dois séculos do acontecimento que marca o início da Idade Contemporânea a revolução burguesa sequer se aproximou de muitos países. Mesmo em nações onde se diz terem ocorrido substanciais mudanças políticas, os ideais proclamados e difundidos pelos franceses estão por ser adotados. Em alguns casos, nem são reconhecidos.

Muito por isso, os agentes políticos são confundidos, chamando-se de esquerda a todos os de que se não gosta (ou se gosta demasiado), na tentativa não apenas de prejudicar os classificados, mas de comprometer toda a própria História Universal.

É inadmissível que muitos dos analistas insistam em tachar de esquerdista um homem como Luís Inácio Lula da Silva, a não ser que tal classificação pretenda obscurecer as virtudes do pensamento e das propostas da esquerda.

Ser de esquerda importa empenhar-se em fazer avançarem as conquistas da maioria do povo, além de fazê-lo segundo os valores proclamados e defendidos pelos revolucionários franceses de 1789. Isso quer dizer orientar a conduta de representantes e governantes pelos ideais de liberdade, fraternidade e igualdade.

É impossível desdenhar dos pequenos ganhos que as pessoas mais pobres tiveram no Brasil, nos dois governos de Lula. Igualmente impossível é ignorar a proporção em que os mais ricos ganharam nesse mesmo período, de tal forma que se ampliou a concentração de renda nas mãos do 1% mais rico. Aumentou, portanto, o fosso entre uns e outros.
Há os que dizem não ser a palavra do homem que o define, mas sua conduta. Assim, para esses, Lula pode ser considerado de esquerda, pois os trabalhadores puseram mais um prato de comida sobre suas mesas e mais jovens ingressaram nos cursos superiores. Nada é dito sobre a proporção em que os ganhos foram distribuídos, os mais ricos ficando com o naco maior. Nem se especula a respeito das razões por que mais jovens pobres ocuparam carteiras nas faculdades espalhadas por todo o País.

Poucos se dão o trabalho de ver para onde foram desviados os recursos que faltam às universidades públicas e a diferença entre o salário pago aos trabalhadores e o que o DIEESE (para ficar apenas nesse órgão) afirma o mais justo para a digna sobrevivência dos que vivem do trabalho. Num caso e noutro, podem ser encontradas suficientes razões para negar a Lula a pecha que ele sempre rejeitou - a de ser um homem de esquerda.

A igualdade que ele buscou, se não abrangeu os brasileiros que hoje perdem o emprego ou amargam o mísero salário que lhes é pago, consumou-se nele mesmo, conviva de bons bebedores de vinho e passageiro de jatos executivos dos que um dia alegou combater.

A liberdade, que hoje lhe é negada, ainda não se avizinha dos pretos e pobres, incapazes economicamente de pagar bons advogados e carentes do apoio estatal que os dois governos de Lula poderiam ter contemplado.

A fraternidade, finalmente, também não parecia constar dos valores cultivados pelo ex-Presidente, de que poderiam dar excelente esclarecimento José Dirceu, Antônio Palloci e tantos outros enxadrezados pela fidelidade mais que canina ao novo messias.

Deplore-se o que vem sendo feito com Lula. Menos por ele, mais pelo povo brasileiro. Sempre que a ira dos inimigos do povo atenta contra os direitos de um, todos passamos a ser ameaçados.

Sou dos que veem em Luís Inácio da Silva um político que, à moda de Fausto, vendeu sua alma ao diabo. Vejo nele alguém que, objetivando melhorar sua própria vida, usou de suas qualidades políticas enquanto isso lhe atendeu as ambições. Passada essa fase, logo se desfez de seus compromissos e passou à companhia dos que invejava.

Mais grave, ainda, depois que se viu frente à possibilidade de ser preso. A partir daí, fez tudo quanto faz qualquer pessoa à qual faltem fundamentos éticos e políticos: tentou igualar-se a Cristo, buscando fazer de seus próprios erros um novo ideário messiânico. Depois de tantas vezes negar ser de esquerda, pretende assemelhar-se ao crucificado, embora os que o puseram na cruz sejam os mesmos que o inspiraram a assinar a Carta aos Brasileiros.

Para agravar ainda mais a situação, Lula impediu que o Partido dos Trabalhadores gerasse novas lideranças. Ao contrário, sempre evitou a emergência de tantos jovens promissores como líderes, que agora se vê na contingência de admitir o apoio de seu partido a candidato de outra sigla.

De messias e salvadores da pátria estamos todos cheios! A esquerda não pode depender deles, ainda mais quando sempre se viraram de costas para ela. Que Lula seja posto em liberdade, mas não a tenha como um cheque em branco. Que, livre, ele venha juntar-se aos que não chegaram à esquerda hoje, nem pelo desejo de ascensão pessoal a novas condições de vida. E não pretenda dar as cartas, mas se submeta ao jogo político como ele deve ser jogado: limpo, aberto, transparente.

Que Lula se converta à esquerda e, conosco, possa retomar a orientação política descartada quando se submeteu às diretrizes de um documento a que a Odebrecht diz ter dado substancial contribuição. Mais uma...


O pior ainda pode acontecer - Em 14/04/2018

Espero não produzir, em futuro próximo, texto de protesto contra a injustiça cometida contra um amigo, um parente ou alguém que nunca terei visto. Porque o arbítrio nega-se a escolher dentre suas vítimas a que realmente deve contas à sociedade. Esta, na maioria das vezes, sequer passa pela preocupação dos que usam do autoritarismo e do preconceito para escolher os que serão punidos. Tem sido assim em todo estado autoritário, de Hitler a Fulgêncio Batista, de Médici a Somoza.

Espero que os rejubilados inimigos de Luís Inácio Lula da Silva sejam poupados de sofrer, diante do obscurantismo, as mesmas consequências sofridas pelos pobres, prostitutas e pretos. Seria bom, contudo, que não contassem que o aplauso e a cumplicidade aos atos arbitrários lhes servirão de salvo-conduto. Porque se há algo que detenha o crescente autoritarismo em que vimos mergulhando, nem mesmo a conivência se credencia a sê-lo.

O cenário que se desenha no ambiente político-institucional brasileiro jamais esteve tão ameaçador, nos últimos 30 anos. A pregação do ódio, o uso da mentira nas redes sociais, mas também nos meios de comunicação ostensivos não poderiam conduzir a panorama diferente. Ao invés de aprendermos com a História, temos sido capturados pelos mais torpes e vis interesses, o que poderá levar-nos de volta à caverna.

No âmbito das leis sociais, estamos em marcha batida na direção de uma escravatura reinventada. No campo da segurança individual, a defesa dos cidadãos cedeu lugar à ação nefasta de milícias postas à disposição de traficantes e delinquentes de toda sorte. O ambiente político não desafina. Até porque muitos dos ingredientes da tragédia brasileira são fruto pensado e implantado pelos que lograram um mandato ou uma posição de mando, em si mesmos um logro a todo um povo.

Importa pouco que a mais recente vítima do ódio seja o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Sua condenação, e agora sua prisão, certamente não correspondem aos crimes a ele ostensivamente atribuídos. O apartamento do Guarujá e o sítio de Atibaia são mero pretexto. Não fora assim, quase toda a equipe que cerca o Presidente Michel Temer (com ele mesmo à frente de todos) leriam o respectivo mandado de prisão. Não é o que ocorre.

Em todo caso, uma lição já se pode tirar de todo esse lamentável episódio. Não, exatamente, pelo que de benéfico trouxe à sociedade, mas pelo seu contrário. Refiro-me à capacidade de a justiça ser célere, quando isso atende aos interesses dos encarregados de distribuí-la. A rapidez com que Sérgio Moro expediu o mandado de prisão é excepcional e, mais que atrair aplausos, mostra quão cega é a Artêmis cultuada pelo magistrado curitibano.

Enquanto isso, os outros denunciados arranjam-se para aprofundar a desmoralização do Poder Judiciário Brasileiro. A seu favor, muitos dos atuais ocupantes das celas nas penitenciárias podem alegar também serem credores do favor feito a alguns dos que sentam, togados, no mais alto tribunal.

Não falta, sequer, o ingrediente mais inquietador: a intervenção militar, que não se restringe às favelas do Rio de Janeiro. Ela percorre, também, as ondas da internet, emitindo sinais de que tudo pode voltar como antes no quartel dos atuais Abrantes.



Subsídios à história da Antropologia brasileira - Em 06/04/2018

Acabo de ler Os primórdios da Antropologia brasileira. Integrante da coleção Jornadas Antropológicas, do Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia, o libreto (98 páginas) pretende ser uma descrição sincrônica da produção antropológica nas terras de Pindorama.Trata-se da abertura da coleção, promovida pela Universidade Estadual do Maranhão, e traz a autoria do festejado antropólogo Roque Laraia.

Segundo o editor, Alfredo Wagner Berno de Almeida (dos quadros docentes da Universidade do Estado do Amazonas), o trabalho...perscruta a história social deste campo com informações acuradas e um notável refinamento analítico... É o que se lê à página 7 (Nota prévia do editor).

Leigo no campo de conhecimento específico que recheia o trabalho, nem por isso meu faro de leitor interessado deixa passar certos aspectos - omissões, sobretudo - que penso terem lugar assegurado em obras de semelhantes propósitos, ainda mais se voltados para a reconstrução da trajetória da Antropologia no País.

Não ignoro o caráter seletivo de nossa memória. Menos, ainda, de quanto a memória (escrita ou guardada nos escaninhos do cérebro humano) ajuda na compreensão dos fenômenos históricos com os quais lidamos ou dos quais tivemos conhecimento. Isso não basta para admitir certas ausências, especialmente quando responde pelo trabalho um dos mais respeitados e competentes antropólogos brasileiros.

Discutir a importância da obra e de seu conteúdo parece-me impossível. A oportunidade em que surge, menos ainda. Quem nos dera o mesmo fosse empreendido em outros campos e áreas da produção intelectual de tantos outros estudiosos do Brasil, de suas coisas, de suas terras e de sua gente!

A lembrança da obra No pacoval do Carimbé, de Bastos de Ávila, por exemplo, como destacado pelo editor, é informação preciosa, a que não podem virar as costas os interessados na matéria. Também a intensa participação de muitos dos profissionais que produziram, divulgaram e defenderam a formação dos antropólogos, sem descurar da contribuição dada à compreensão da sociedade brasileira, em todas as suas nuances.

Aqui, exemplificarei a omissão, mencionando nomes que, a meu critério, não poderiam faltar em obra de tamanha envergadura. Não serve a escassez de páginas para justificar a ausência, verbi et gratia, de Inocêncio Machado Coelho, Nunes Pereira, Frederico Barata, Orlando Sampaio Silva, Roberto Maria Cortez de Souza, Raimundo Heraldo Maués, Isidoro Maria Alves, Napoleão Figueiredo, além de outros que talvez escapem à percepção deste pobre autor de textos sem-valia. (Minha memória também é seletiva).

Machado Coelho, um dos fundadores do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará, junto com Manuel Nunes Pereira, Armando Bordalo da Silva, Eurico Fernandes, José Coutinho de Oliveira e Paulo Maranhão Filho, também dirigiu o Museu Paraense Emílio Goeldi. Em muito se deve a ele e a seus companheiros de sonhos o incentivo à pesquisa antropológica na região. Também foi durante sua administração criado o boletim do MPEG, indiscutivelmente um importante meio de divulgação do trabalho dos mais antigos antropólogos, do Pará, da Região Amazônica e do Brasil.

Moronguetá - um decameron indígena,de Nunes Pereira, tem sido cantado em prosa e verso, e não será pelos belos olhos do autor. Autor também de Os índios maués Nunes Pereira tinha naquela obra um conjunto monumental de pesquisas, como o diz o prefaciador dos dois tomos em que ela se apresenta, poeta Thiago de Melo. Cafuso, o originalmente ictiologista maranhense

atraiu a atenção de ninguém menos que Claude Levi-Strauss e Roger Bastide. Carlos Drummond de Andrade também se ocupou dele - e não terá sido pelo simples fato de ser o primeiro não-branco brasileiro a receber honrarias e reverências da comunidade internacional!

Orlando Sampaio Silva, o único dos aqui citados ainda vivos, dedicou a maior parte de sua vida ao trabalho antropológico. Antes de diplomar-se bacharel em Direito na Universidade Federal do Pará, de que foi professor titular, teve intensa vida literária, da qual se afastou publicamente (embora continuasse produzindo poemas), em função de estudos e pesquisas na área que nos ocupa agora.

No seu caso, o foco de interesse espraiava-se de sua cidade natal (Bragança, no Pará), da Região (em cujo órgão de desenvolvimento, a então SPVEA, atuou por um período) e do exercício docente (na UFPA, da qual foi aposentado por força do Ato Prostitucional - como o chamava o advogado Alarico Barata - nº 8) alcançando outras regiões do País. Assim é que, dentre sua profícua obra escrita encontram-se os livros Eduardo Galvão: índios e caboclos (Ed. Annablume, São Paulo, 2007); Tuxá: índios do Nordeste (Ed. Annablume, São Paulo, 1997); Índios do Tocantins (Ed. Valer, coleção Memórias da Amazônia, Manaus-AM, 2009); A perícia antropológica em Processos Judiciais (Organizador, com Lídia Luz e Cecília Maria Helm, ABA-CPI/SP, Ed. Da UFSC, Florianópolis, 1994). Há, ainda de autoria de Orlando Sampaio Silva, dezenas de artigos publicados em revistas científicas e comunicações apresentadas em eventos da especialidade. No País e no exterior.

Etnias existentes em várias regiões brasileiras foram estudadas por Orlando, como os Yanomama, os Tiryó, os Wapixana, os Ticuna, além de serem estudados os japoneses que se instalaram na zona bragantina do Pará. Não faltam na bibliografia desse autor trabalhos sobre aspectos jurídicos, políticos e ritualísticos de sociedades indígenas.

Muitos trabalhos dos outros profissionais citados poderiam aqui ser mencionados, mas me restringirei a esses três, o que por si só torna estranha a omissão de seus nomes na escritura de Roque Laraia. O termo escritura é proposital, porque, não havendo qualquer sentido de crítica no presente texto, deseja-se apenas deixar registrada a estranheza pela omissão. Uma conduta, digamos assim, meramente cartorial.

Os que me conhecem mais de perto certamente alegarão que puxo brasa para meu peixe. Num certo sentido, estarão com a razão. Afinal, os laços de parentesco entre mim e Orlando Sampaio Silva - ele, tio; eu, sobrinho e amigo, que teve nele testemunho e participação no processo que me fez auto-alfabetizado - justificaria tal juízo. Só que os fatos, mais que os laços parentais, dizem da necessidade de fazer o registro, sem o que será provável a repetição da falta, salvo não fosse o professor Laraia respeitado e acatado pela comunidade dos antropólogos do País!

Logo a obra assinada pelo emérito mestre servirá de fonte para outros estudiosos. Qualidades ela as tem. Também por isso não pode permanecer com a omissão indicada, sob pena de perpetuar o que não considero desnecessária irreverência, se não fruto do esquecimento apenas.


Nosso ontem. Nosso hoje - Em 30/03/2018

À medida em que a história se desenrola, vão-se conhecendo fatos até recentemente ocultados. Pelo menos para isso serve a democracia. Os períodos autoritários, dentre os graves males produzidos, tentam sepultar não apenas as maiores atrocidades, mas também as maiores bandalheiras. Em especial, as que envolvem o patrimônio público.

Ninguém ignora a existência, nas equipes governamentais impostas durante a ditadura, de políticos e outros agentes públicos feitos dilapidadores do Erário. Uns, pela cumplicidade com o que havia de cupidez em relação aos bens coletivos; outros, pelo uso indevido de recursos do povo, para satisfazer as mais torpes inclinações de que o ser humano é capaz.
Tudo em vão.

Sabe-se de ministro que, antes de deslocar-se para as cidades aonde iria inspecionar, inaugurar ou visitar simplesmente uma obra pública, providenciava o transporte de sua corte imperial. Composta do que hoje se chama garotas de programa, a trupe antecipava-se à chegada da autoridade e seus acompanhantes. À devoção, seguia-se a diversão. Às mesas em que eram supostamente discutidos os problemas da região ou cidade visitada, somava-se a farta mesa dos regabofes, tudo pago com o dinheiro de cada um de nós.

Aos birôs dos gabinetes refrigerados, somavam-se as camas delicadamente aromatizadas, onde se cumpria o ritual exigido pelo corpo, eis que o outro, exigência do público, já se havia cumprido em discursos virulentos, condenando os que discordavam de tais práticas. Tudo isso, em nome da austeridade.

Sabe-se mais recentemente, de ministro do período autoritário beneficiado com dinheiro desviado dos cofres oficiais ou recolhido na boca do cofre dos cúmplices do setor privado. É a Lava Jato quem o diz.

Imagine-se o que foi o período 1964-1983, em termos de saque ao Erário! Algo que somente investigação minuciosa e profunda será capaz de desvendar.

Mesmo assim, e como construir o futuro é tarefa mais importante e prioritária, vale a pena pelo menos especular. Ainda mais quando se constata que o mensalão inaugurado por Renato Azeredo, em Minas Gerais, é apenas um dos muitos sinais de que a ditadura deixou sequelas. A permanência destas, se indica pouco empenho por mudar radicalmente o modo de fazer política e gerir os recursos públicos, também chama a atenção para o alcance das bandalheiras, tão mais fáceis de cometer quando se impede a publicidade que a Constituição erige como um dos princípios da administração pública.

O Presidente Michel Temer está ameaçado, mais uma vez, de ser levado à barra dos tribunais. Do STF, dada sua condição privilegiada. Será a terceira tentativa de torna-lo réu, a que dá apoio não mais apenas sub-reptício a própria rede Globo. O jornalismo desse sistema de comunicação está em plena campanha para derrubar Temer. Cada noticiário sempre encontra meio de embutir informações sobejamente divulgadas, pelos próprios órgãos da rede ou de terceiros.

Diz-se nesses noticiosos, que as práticas hoje denunciadas do ex-deputado federal paulista datam de cerca de 30 anos. Como se vê, ainda que não possa reivindicar pioneirismo em suas ações maléficas, o Presidente acumula extraordinária experiência no mister. Saber quais as motivações ocultas da Globo é tarefa que os pesquisadores (inclusive os que têm o dever de investigar crimes) poderiam tomar para si.

Tivéssemos levado a sério as aspirações da população, desde quando o general-Presidente João Batista Figueiredo deixou o poder, dificilmente teríamos chegado à crise em que nos encontramos. Fossem todos - ou pelo menos os mais graúdos deles - punidos pelos crimes cometidos contra a população, seríamos poupados das muitas ameaças que pairam sobre todos, das quais os trabalhadores já sentem na pele os efeitos.

Nesta véspera de predomínio dos métodos nazifascistas, sempre será bom refletir sobre os fatos, os de ontem e os de hoje. Só isso assegurará caminhada segura e irreversível em direção a um futuro que, sonhado pelo povo, não demove os governantes e seus áulicos de seus projetos perversos e nocivos à maioria.


A flor e o estupro - Em 24/03/2018

É muito mais profunda a crise por que passamos, do que o noticiário nos dá conta. Lamentável é a forma leviana como os fatos vêm sendo tratados, seja pelos agentes políticos, seja pela própria Justiça; seja, ainda, pelos meios de comunicação tradicionais.

No ambiente político não se criam espaços de discussão criteriosa, empenhados os participantes exclusivamente com sua sobrevivência eleitoral. Tanto, que o troca-troca de legendas é a única preocupação que alimenta a intensa mobilização da maioria deles. Pouco lhes importa contribuir para o deslinde dos problemas graves de que podemos dar testemunho. Renovar seus mandatos ou conquistar posições de onde catapultam torpes interesses é quanto lhes basta. Ao invés de buscarem a redução da dissonância entre os deveres assumidos como representantes populares e a vontade da população, entrega-se a maioria a aprofundar ainda mais a falência da representatividade. Ao final, assistiremos à repetição de um passado que muitos preferem cultivar, porque isso lhes traz benefícios que acabam por constituir-se em privilégio. A que não tem acesso a maioria dos que eles mesmos, agentes políticos, dizem representar.

Essa é apenas uma das faces da crise, nem por isso desimportante.

Há outro plano, porém, que confere caráter institucional aos eventos a que lamentavelmente assistimos. Refiro-me, especialmente, ao degradante espetáculo proporcionado pelo Supremo Tribunal Federal. Neste, reproduzem-se palavras e gestos dignos do mais sórdido botequim de periferia. Não bastasse vestirem a toga e desfrutarem de outros benefícios a que o povo está alheio, reitera-se comportamento lesivo, sobretudo, à democracia.

Todos os defeitos podem ser atribuídos ao estado como instituição. Há os que a veem como mecanismo garantidor do status quo, na medida em que traduz não a vontade de todos, mas a da maioria dos cidadãos. Algo como o arranjo produzido pelos homens para deixar marcada a condição de classe que os divide.

Qualquer a interpretação dada ao fenômeno, o estado foi o meio encontrado para regular as relações entre pessoas e grupos, de modo a construir uma sociedade organizada. O que não significa admitir sábio o engessamento da instituição estatal. Antes, evoluir sempre em direção à prevalência dos interesses da coletividade, mesmo em prejuízo dos indivíduos ou pequenos grupos, parece expectativa saudável. Desde que - é bom advertir - a maioria se incline à busca desse desiderato. As nações encontraram na Constituição o instrumento adequado a essa busca.

O zelo pela chamada Carta Magna, portanto, assume aspecto crucial nesse processo. Daí a necessidade de um órgão que, colocado no topo do Poder Judiciário, tenha não só a capacidade de defender os preceitos constitucionais, como o de oferecer à sociedade a segurança jurídica tão reclamada. E indispensável à relativa paz social - igualmente tão reclamada.

Nesse particular aspecto, também nos revelamos deficitários. Dizem-no os mais recentes acontecimentos cujo palco é a corte onde as ofensas à Constituição se hão de resolver.

Nada do que tem ocorrido no STF ajuda a construir a democracia e consolidar a república. Primeiro, de costas para os preceitos que por ele deveriam ser defendidos, o STF pôs por terra o conceito de coisa julgada. Tal ocorreu quando, atenta ao clamor público, mais que à sua própria função de órgão supremo da Justiça, dispensou o final do trâmite judiciário para determinar a prisão de alguns malfeitores. Pior, ainda, quando a liberalidade ofensiva à Constituição discrimina entre denunciados - uns devendo ser logo tolhidos de seu direito de ir-e-vir; outros, cobertos pela simpatia dos julgadores, mantidos na mais desafiadora liberdade.

Mais têm trazido à cena pública os mais altos membros da magistratura brasileira, quando se entregam ao bate-boca vulgar e deseducativo, como o que se registrou na última quarta-feira.

Uma das personagens, de cujo conhecimento jurídico quase ninguém duvida, nada trouxe de novo ao conceito de que desfruta, em se tratando de compromisso com a verdade e de interesse em ver a crise resolvida. Mostrou, todavia, que certas sabedorias específicas operam sempre no pior sentido, quando lhes falta o substrato moral. O outro, talvez movido por interesses semelhantes, não fez por menos.

É certo que o ser humano é parcial por natureza. No campo da ciência, o método produz o efeito de neutralizar tal parcialidade, assegurando a isenção na conduta e na conclusão dos trabalhos de busca. Daí a frequência com que o resultado do trabalho científico acaba por desmentir hipóteses caras aos pesquisadores. Nesse embate entre parcialidade e isenção como resultado do bom método, vejo o cerne da verdade científica.

Finalizo, lembrando que nada é mais importante, neste momento, que dedicarmos esforços para superar a crise, menos com palavras de ódio e mais com compreensão da profundidade e extensão dela.

Se, ao invés de disseminarmos preconceitos, malquerenças individuais, interesses escusos, ressentimentos e frustrações, enxergarmos as dificuldades como produto saído de nossas cabeças e tolerado por conveniência, ganância ou covardia, já teremos dado passo significativo em boa direção.

Quase não duvido que, ao final do processo, teremos elaborado formas adequadas de recrutamento de novos quadros políticos e de ministros para o STF. Isso tudo acompanhado da certeza de que as crises futuras serão bem menos profundas e extensas.

Não somos imunes a qualquer agressão à Constituição. Já vivemos período em que essa ofensa era comum. Se há muitos mortos por causa disso, os que restaram dão seu testemunho. A limitação da liberdade dos que nos são antipáticos não assegura - antes, ameaça - nossa própria liberdade. Mais uma vez, a flor tirada hoje do nosso jardim pode ser o estupro cometido amanhã contra a filha do jardineiro.


A miséria da política - Em 18/03/2018

Quem se dá o trabalho de enxergar além das aparências, considerará no mínimo absurda a movimentação dominante na cena política brasileira. O País acrescenta às dificuldades financeiras causadas pelo saque dos cofres públicos a crise de (in)segurança. Não é só o Estado do Rio de Janeiro o palco da violência, nem só esse fenômeno se contém nos malefícios físicos que determina.

Outras cidades, inclusive no interior de nosso vasto território, têm registrado índices de violência (e insegurança, portanto) inadmissíveis. No caso específico do Pará, a recorrência da eliminação de lideranças populares tornou-a quase manifestação da natureza. Lá, mata-se qualquer cidadão que se oponha aos donos de tudo, nestes tempos em que ter vale mais que ser.

Mesmo a intervenção do governo federal na antiga capital do País não foge ao quadro geral. Está por ser provada a sabedoria das autoridades, tanto quanto a legitimidade das intenções. A tentativa de descaracterizar como militar a presença do governo federal tem poucas chances de prosperar no entendimento da população. O vestuário e os equipamentos dos intervencionistas, de alto a baixo, não conseguem enganar ninguém.

Dado o caráter dos atuais detentores do poder, o Presidente mais que seus cúmplices, não surpreenderá a revogação do decreto que empurrou as forças armadas para as ruas e favelas - sobretudo estas - da antiga Cidade Maravilhosa.

A situação chegou a tal ponto, que o titular do recém-criado Ministério da Segurança insinua passar o chapéu para colher os recursos segundo ele necessários. Os cofres públicos combalidos, façam-se financiadores de ações oficiais aqueles que de fato ocupam o poder. E em nome e no interesse dos quais são tomadas as decisões.

Pois bem, em meio à tragédia, o debate magno se trava em relação à eleição presidencial e ameaça sepultar uma realidade atroz, sintetizada na comparação do Brasil com outros lugares do mundo, onde há guerra declarada. Nesse item, ocupamos a liderança. Juntam-se, às armas dos traficantes e as dos que são pagos com o dinheiro de todos para oferecer-nos segurança, as canetas com que são assinados documentos oficiais.

Nada disso parece mover, sequer comover, os políticos alvoroçados. A situação é grave, dizem alguns deles. Nem por isso desistem de trazer sua contribuição ao processo de empobrecimento e enfraquecimento de toda uma nação.


A tragédia dos erros - Em 02/03/2018

Governo, todos sabemos, jamais erra. No máximo, escolhe os beneficiários de suas decisões. Ingênuo, portanto, é todo aquele que atribui as más consequências sociais das decisões governamentais a algum erro. Isso equivale à absolvição da autoridade, como se os aspectos importantes dos problemas não tivessem sido avaliados.

Os meios de comunicação que aplaudem, apoiam e, às vezes induzem as decisões oficiais também dificilmente se enganam. A menos que sejam operados por profissionais despreparados ou incapazes de análises as mais elementares. Porque a grande maioria dos problemas com que se há poder público traz em si mesma clareza meridiana. Além disso, é flagrante e choca os olhos de todos a desigualdade com a qual convivemos. Atribuí-la a fatores que independem da vontade - dos governantes e dos súditos e seus representantes - é grosseira desonestidade.

Vale dizer, então, que pesa na ação dos media o tipo de interesse a que correspondem. Parece-me claro o compromisso que a grande maioria dos jornalões e seus veículos de comunicação mantêm. Basta ver a repercussão de qualquer medida governamental que atenda a esses interesses, para verificar quão íntima é a ligação entre uns e outros - governantes e divulgadores.

Bom exemplo refere-se à tão incensada reforma das leis trabalhistas, como o é o suposto déficit da previdência oficial.

No primeiro caso, o governo se gaba de ter reduzido o número de desempregados e seus acólitos e suas caixas de eco propalam tal verdade por toda parte. Gasta-se o dinheiro do contribuinte para mentir à população e fazê-la não mais que um aglomerado de energúmenos. Sequer é mencionado o fato de que grande parte do ativo com o qual a previdência poderia contar não chegou aos cofres públicos graças à dívida que o setor privado acumula, superior aos números do déficit global do orçamento público.

Os media vão atrás. Dizem o mesmo que diz o governo, embora se contradigam na linha seguinte de seu noticiário. Isso fica mais transparentes, se analisado o noticiário sobre a queda do desemprego - hoje temos apenas doze milhões e setecentos mil desempregados. Essa é a verdade propalada a partir dos gabinetes oficiais e logo repetida pelos papagaios de plantão.

Pretensos analistas põem-se a louvar as medidas governamentais, com propósito que necessitaria de brutal ignorância da sociedade, para passar em branco.

Nenhum desses especialistas pergunta quais os critérios que autorizam dizer que o desemprego se tem reduzido. Mesmo que essa resposta seja encontrada no próprio noticiário laudatório, os analistas fingem ignorá-la. Agrada-os, mais que outra coisa, agradar aos que mandam.

Pelo menos três são os indicadores de que há uma proposital confusão produzida pelo próprio governo, com o apoio e o aplauso irrestrito dos meios de comunicação. O primeiro deles diz respeito ao crescimento da informalidade. Embora as autoridades declarem combate-la (e para isso utilizam argumentos nem sempre honestos), a política praticada reforça essa irregularidade e favorece o outro lado da equação, o capital, jamais o trabalho.

O segundo ponto refere-se à crescente tentativa de transformar todo cidadão em um empresário. São as tais políticas de empreendedorismo, uma falácia que os números do SEBRAE desmentem: a taxa de mortalidade das pequenas empresas é assustadora.

Por último, um ponto ao qual só os absolutamente ignorantes ou destituídos da mínima capacidade de análise não têm acesso. Falo, aqui, da confusão proposital entre emprego e ocupação. Se o trabalho se faz à margem da proteção social que um dia a legislação trabalhista consagrou - e agora foi reduzida -, não corresponde ao emprego. Fosse assim, o biscateiro e o trabalhador eventual, como a diarista por exemplo, seriam considerados empregados. Não o são, todavia.

Assim, de mentira em mentira, o governo presta serviços aos segmentos conhecidos, os ganhadores de sempre. A melhor prova disso são as taxas de lucratividade dos bancos e dos grandes conglomerados econômicos.

Você ainda duvida de que governos não erram?

Shakespeare escreveu uma peça chamada A comédia dos erros. Nela, graças à presença de dois gêmeos e às suas ações, tece-se uma trama engraçada, afinal resolvida com muito motivo de riso.

No caso brasileiro, o erro não existe, porque é proposital. Com a lamentável consequência: o choro e a infelicidade da grande maioria do povo


Ele só pensa naquilo - ou a bacia das almas - Em 24/02/2018

A intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro é mais uma das muitas manifestações de hipocrisia do governo que não escolhemos, mas nos está importunando. Das razões apresentadas pelo Presidente Temer, nenhuma corresponde às verdadeiras inspirações do ato. Ainda mais, diante de tudo quanto se sabe a respeito do estilo do ex-Presidente do PMDB. Firmeza nas decisões, preocupação com a vida dos seus concidadãos, fidelidade aos padrões republicanos e opção pela solução dos problemas (alheios), aprendemos ao longo das últimas décadas, não se inscrevem no elenco de eventuais qualidades do político paulista.

Não precisaria alimentar qualquer ódio ou malquerença em relação a Temer, para chegar àquela conclusão. O histrionismo de que suas mãos se fazem portadoras não dá lugar a mais que o desejo de mostrar-se diferente, não se sabe de quem ou em quê. As práticas por ele adotadas, até aqui, revelam traços de caráter em nada diferentes dos que ostenta grande parte de seus colegas, companheiros e acólitos. Uns e outros se merecem, e por causa disso, cada dia se agrava a crise política brasileira.

Os sucessivos episódios de suas idas-e-vindas não pode ser esquecido porque ele decidiu intervir no Rio de Janeiro. Nada mais houvesse a alegar, bastaria dizer que não é a redução da violência naquela unidade federativa que interessa mais ao Presidente da República.

Jornalistas atentos registram ser essa a 13ª vez em que, nos últimos 9 anos, é decretada intervenção federal na antiga capital. Nem por isso a violência retrocedeu. Ao contrário, só fez crescer, gerando um clima de intranquilidade que talvez algumas nações em conflito aberto e guerra declarada não experimentem.

Não fosse trágica a situação do Rio de Janeiro, é apenas ridícula a constatação de Temer: o Rio de Janeiro foi tomado pelo crime organizado. Beirando a sandice, a afirmativa revela ignorância a respeito do País, ele sim, tomado pelo crime organizado. A começar por Brasília, onde gabinetes influentes têm servido à operação insultuosa de quadrilhas que misturam políticos e empresários e arquitetam situações e decisões contrárias aos interesses da maioria do povo.

Nenhum número ilustraria melhor a situação a que chegou o País (não só o Rio de Janeiro), no que toca ao controle exercido pelas quadrilhas, que o conceito que o Presidente e seu governo desfrutam no seio da população. No mínimo, 70% dos brasileiros rejeitam Temer.

Mesmo que a intervenção antes tentada não conseguisse estancar a sangria de violência jamais experimentada, nem outras sangrias pudessem ser estancadas, foi por esse caminho que o governo preferiu trilhar. Daí ser justo supor serem outras as motivações de Michel Temer. Mais que tudo, ele só pensa naquilo: concorrer à renovação do mandato, pela via do voto popular direto. Porque antes, escondeu-se atrás de Dilma Rousseff, o poste com que Lula derrotou Aécio Neves. Beneficiou-se dos votos dados em Dilma, para urdir a queda da que podemos considerar seu andador. Deficiente em votos, usou a Presidente deposta para caminhar. O vice não chegaria ao posto, se não pela via inglória que o pôs no Palácio do Planalto. Seus próprios pés não o levariam a tanto.

Uma vez feito Presidente, trata de contemplar os interesses que o guindaram ao cargo. Nenhum desses interesses, coincidente com as aspirações da maioria do povo brasileiro. Pôs-se, então, a leiloar o que resta da riqueza e das potencialidades nacionais, na bacia das almas. De tal sorte se entregou a esse objetivo, que cada ato seu concorre para piorar a vida dos pobres, empobrecendo outros e sequestrando o que restava da esperança da maioria.

Lamentavelmente, isso é apenas o começo. Coisa muito pior está por vir, ainda mais se surtir efeito a estrepitosa intervenção, cujo objetivo nada tem a ver com a insegurança reinante, não apenas no Rio de Janeiro, mas do Oiapoque ao Chuí, do Cabo Branco à serra de Contamana.

Mais grave ainda a situação se revela, quando o Presidente limita ao Rio de Janeiro o domínio do crime organizado. Isso é coisa de quem deseja falar do universo sem conhecer os que lhe estão mais próximos.


Práticas políticas, cá e lá - Em 17/02/2018

A renúncia do ex-Presidente da República da África do Sul, na última quarta-feira, sugere comparações com a atual situação política brasileira. Não apenas do ponto de vista histórico, mas pelo que se pode deduzir, em termos da ação dos envolvidos.

Jacob Zuma, pertencente ao mesmo partido de Nélson Mandela, esteve preso nos cárceres do antigo regime, como ocorreu com o líder da luta contra o apartheid. O Congresso Nacional Africano, dirigido pelo político morto em 5 de dezembro de 2013, ocupa o poder desde 1994. Zuma não chegou ao final de seu segundo mandato na Presidência, depois de ter cumprido o período de 2009 a 2014. Agora, acusado da prática de corrupção, recebeu ultimato do CNA, que recusou sua proposta de uma saída negociada.

Temendo ser literalmente enxotado por seus próprios correligionários, Jacob Zuma preferiu abandonar o governo, não sem repetir o que afirmam todos os acusados de corrupção, lá e cá - acha-se inocente.

Esta uma primeira diferença a fazer: o Presidente sul-africano optou pela saída mais adequada a um governante sobre o qual pesam suspeitas de enriquecimento ilícito, em detrimento da satisfação das necessidades sociais de seu país. Essa é prática aqui desconhecida, não obstante os reiterados protestos de fidelidade ao povo e de respeito aos direitos dos cidadãos. A rigor, a conduta do ex-Presidente sul-africano colide com a de seu colega brasileiro, aconselhado inclusive por Fernando Henrique Cardoso a pedir o chapéu e descer a rampa do Palácio do Planalto.

Nossos costumes políticos parecem rejeitar a solução encontrada pelo ex-seguidor de Mandela, ainda que a população a veja com bons olhos. O que se tem visto, ao contrário, é o apego ao cargo - e não só o de Presidente da República -, como se a cadeira onde sentam as autoridades operasse resultados pessoais dos quais nenhum dos ocupantes gostaria de afastar-se.

Há, porém, semelhanças entre as peripécias (para não usar termo mais justo, igualmente mais pesado) do resignado governante da África do Sul e os do Brasil: a promiscuidade com grupos econômicos, lá e cá envolvidos em denúncias e propiciadores de - digamos assim - certos favores aos que governam. Pode-se ver, por exemplo, alguma similaridade entre a grande corporação indiana Gupta e o clube do tênis, a Odebrecht à frente.

Enquanto a empreiteira daqui cria e opera com grande desenvoltura um departamento dedicado ao enriquecimento dos governantes, lá o ex-Presidente ganhou para dois de seus numerosos filhos postos de comando em empresas do grupo da Índia. Mineração, aviação civil, tecnologia e energia são os campos preferenciais da corporação, soando estranho ver as telecomunicações excluídas das informações conhecidas. Como tem ocorrido entre nós.

A Sahara Computadores conta em sua direção com uma filha de Zuma, enquanto outra das empresas do mesmo conglomerado tinha um irmão dela em posição destacada. Este renunciou ao posto, ainda em 2016. É possível que se tenha livrado das dificuldades por que ainda há de passar (?) seu pai.

Em relação ao Brasil, sabe-se quanto filhos têm merecido dos beneficiários de decisões governamentais a gratificação pelas boas ações dos pais. Em alguns casos, aos filhos se tem juntado pessoas íntimas dos círculos e gabinetes palacianos, como todo dia se vem a saber.

Há quem veja grandeza e exemplo em governantes que, pegos com a boca na botija, acabam pondo fim à própria vida. Seria essa a fórmula mais conveniente a quem não vê preço que compre sua honra. Na hipótese, porém, de descartada a prática do haraquiri, já bastaria que os suspeitos pendurassem as chuteiras e vestissem o pijama. Deixando, é claro, de atrapalhar as investigações e insistir em uma inocência dificilmente atestada. Aí, é a história dos denunciados que faz gol contra.


Usos e abusos - em 10/02/2018

Em uma de suas muitas frases de efeito, Ulysses Guimarães disse que o poder tinha certa qualidade afrodisíaca. Enquanto muitos encontram na acumulação de dinheiro e outros bens uma fonte de poder, há outros que são capazes de vender a alma ao diabo, desde que isso assegure uma posição em que possam mandar.

Maquiavel já chamava a atenção para certas condições em que o poder é exercido e quanto os homens que o detêm se empenham em manter-se poderosos. Pode não ser tão fácil compreender as relações entre as diversas classes sociais, mas não parece muito difícil ter a completa compreensão para a justificativa do fenômeno.

De nada valeria aos que se pensam superiores aos demais seres humanos, se não pudessem exercer sobre eles algum tipo de autoridade. Às vezes, tal autoridade decorre da ocupação de um posto na administração, pública de preferência. Outras, da força moral que atrai admiração (inveja, muitas vezes) e torna o poderoso oráculo certo, quando se trata de algum assunto complexo e de interesse geral. Há, ainda, os que baseiam sua autoridade na capacidade intelectual, perigosa quando o poderoso tem excesso de vaidade. Nesse caso, passa a ver-se como um conselheiro de Deus.

Quando armados, certos indivíduos suprem sua própria inferioridade com a força advinda do instrumento que os torna senhores da vida dos seus semelhantes. (Se é que o são, realmente).

Conhecem-se, no Brasil, as relações entre os cidadãos e os policiais. Mais que autoridade, o que estes frequentemente revelam é profunda ignorância sobre o papel que devem desempenhar, sobretudo quando se relacionam com os que garantem o pagamento de seus serviços.

A crônica diária, em qualquer cidade média ou grande, desenha um quadro inaceitável. A tal corresponde a rotina abusiva com que o poder se manifesta, em especial no contato inevitável com membros das minorias. Daí dizer-se que a lei (e, em consequência polícia), nas terras de Santa Cruz só vale para pretos, prostitutas e pobres. O pior, porém, é que praticamente nos acostumamos a esses abusos.

A tal ponto convivemos com essa agressão ao Estado de Direito, à Democracia e aos mais transparentes princípios humanistas, que mesmo os poderosos sem armas enveredaram pelo mesmo truculento caminho. Fazendo de suas canetas ou de outros instrumentos por eles manipulados mensageiros da violência (às vezes, física; outras, não), jornalistas, magistrados, professores, políticos e tantos quantos se julguem portadores de poder, extrapolam de suas prerrogativas legais, incidindo no mesmo vício dos outros.

Quando se pretende impedir que investigadores de atos ilícitos e julgadores desses mesmos atos vejam reduzida a margem do espaço em que praticam os abusos, sempre será bom lembrar que o cidadão comum é muito mais vítima do guarda da esquina que de qualquer outro agente público. O estabelecimento de prioridades, portanto, parece necessário. A não ser que a intenção supostamente democrática e republicana não seja mais que o garrote com que se tenta impedir a hemorragia de um órgão ferido.

O abuso praticado nas ruas e contra as minorias parece-me mais grave que os imputados aos investigadores e julgadores. Até por que, ao poder em que estes se instalam só têm acesso os outros, os que ocupam o topo da pirâmide social.

Corrijam-se os abusos seja lá de quem for, mas sem esquecer de que é na base que está nosso maior problema.


Chão e convés - Em 03/02/2018

A insistência com que os media oferecem espaço às peripécias da filha de Roberto Jefferson só se compara à reiteração de Michel Temer em práticas no mínimo inexplicáveis. À luz dos melhores preceitos jurídicos, políticos e éticos, óbvio! Porque explicações ele as deve ter, abundantes. Até arrisco indicar uma delas: seu hábito por escolhas agressivas aos direitos dos súditos e sua harmônica convivência com gente semelhante à deputada federal para quem o pagamento de salário aos empregados é favor do patrão.

A folha corrida do Presidente nada tem de inovadora, nesse pouco mais de um ano em que ele pôs a titular no olho da rua e passou a ocupar o gabinete e instalar nos gabinetes vizinhos gente da laia de Elizeu Padilha, Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Rodrigues Loures, Romero Jucá e outros de igual notoriedade. Cumpre-se, assim, uma vocação, mais que um mandato. Até porque, neste caso, pôs-se a correr a titular, para dar vez a seu parceiro - na campanha eleitoral, na subida da rampa, nos regabofes oficiais, nas decisões e em tudo mais que estas implicaram. Feita a justiça de Salomão ao contrário, tudo o mais que viesse só poderia dar no a que estamos assistindo.

Nem se pense que a gravidade da situação será removida, apenas porque uma candidata ao Ministério se nega a reconhecer o direito dos que habitam o chão de fábrica, para contentar-se com os folguedos de um convés.

Cristine Brasil, cuja qualificação para o cargo resulta da linhagem do sangue, sentiu-se estimulada pelo quase-futuro (se não ex-futuro) assessorado, e não sentiu o menor constrangimento. Disse com todas as letras, a bordo de um barco, que sequer se sabia devedora do motorista que trabalhava até 15 horas por dia para ela. Talvez estejamos diante de uma profecia, que a filha do Presidente do PTB faz por antecipar na prática. Tantas e tamanhas são as perversidades praticadas pelo atual governo contra os trabalhadores, que não será novidade o dia em que determinados profissionais terão cassado o direito de receber em troca do trabalho prestado. Não estamos longe de chegar lá...

Afinal, como disse um dos generosos acompanhantes da postulante ao Ministério do Trabalho, exceção é um empresário não ter reclamação trabalhista em tramitação. Disse-o, com a mesma desenvoltura com que se diz que César apontava o dedo polegar para baixo, na condenação à morte dos descontentes. Se ainda não chegamos à barbárie, então me digam o que é isso. A postulante ao posto mais alto na estrutura que trata das relações capital-trabalho sabe ler o cenário. Acha-se, portanto, a melhor promessa para esse governo que esmaga o proletariado e tripudia sobre os mais elementares direitos do trabalhador. Pagá-los, para quê?

Pelo andar da carruagem, porém, o pai da parlamentar percebeu que a conduta de sua filha não serve se não para lamentar. É do que se pode cogitar, nesta noite de quarta-feira, segundo o noticiário das agências. Desta vez, o interesse familiar poderá ceder espaço à indicação meramente partidária.

Até para o ex-deputado e Presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (não vejam a menção, aqui, como tremenda ironia, por favor), não é com Cristine que se poderá salvar o Brasil. Sem que ela tire o sobrenome, é possível deixar os anéis, para que fiquem os dedos. Estes, pelo menos, servirão para contar votos na bancada e pixulecos de origem vária. Ou repetir os gestos teatrais do chefe.

Os dedos, um dia duros e capazes de levar à morte (na Roma Antiga quanto no Brasil 1964/1979), também são úteis nos exercícios de prestidigitação do Presidente. Até que os ratos se vejam forçados a pular do convés à agua que sujaram.


Virtudes e pecados de Lula- Em 26/01/2018

O cidadão Luís Inácio Lula da Silva paga caro, não pela quantidade de ações condenáveis de que o acusam, mas pelas escassas e insuficientes boas ações praticadas. Não são as suspeitas de que se terá seduzido pelas sereias da corrupção que respondem por sua condenação, já em segunda instância. Como ele, é a grande maioria dos que o acusam, alguns até elencando rol muito mais rico e numeroso de delitos.

Inegável, até porque incontestáveis os números a que se costumam apegar os carentes de outros argumentos, a redução da quantidade de pobres no Brasil foi resultado de seus dois governos. O de Dilma apenas os terá mantido. O prato a mais que muitos trabalhadores puderam pôr à mesa da família foram conquista do período 2003/2010.

Nada disso, porém, tem sido levado em conta. Nem o deveria, pois não se faz o bem com a esperança de que as boas ações autorizem praticar tudo o mais. Se resultados semelhantes são a verdadeira causa das denúncias e do que os petistas chamam perseguição política, não está nelas o pior crime que Lula praticou.

Tirando dos olhos as lágrimas de multidões, enquanto subia a rampa do Planalto, o Presidente Luís Inácio Lula da Silva gerou esperanças que ninguém esperava nos levariam à situação que hoje testemunhamos. Vem daí a constatação da falta de base sólida às conquistas que pareciam irreversíveis. Mas não foram. Nem o são.

Os dias que correm, cada vez mais nos revelam a fragilidade das decisões dos governos de Lula. Como um castelo de areia, cada uma delas desmorona ao menor sopro, ainda mais quando o vento vem da boca de interesses vorazes e afoitos, em tempos de globalização.

Quando assumiu o Planalto, Lula reunia todas as condições para mudar o modus operandi dos políticos. Para isso, contava com a determinação e o espirito aguerrido dos movimentos sociais. Mesmo a classe média, cansada de pagar a conta, punha nele todas as suas fichas. Cabia-lhe atentar para muitos dos pensadores políticos de quem ouvira falar, se quisesse realmente transformar o País. Afinal, pela primeira vez um trabalhador chegara tão longe...

Então, aí está o primeiro e mais grave crime de Lula: desdenhar da importância dos movimentos sociais e optar pelo aparelhamento de alguns deles. Isso os esterilizou e tornou massa de manobra ou correia de transmissão do PT e do Planalto.

Assim transformados, logo os pelegos reassumiram seus postos. E contribuíram para ver Lula como um salvador da Pátria, um messias em boa hora chegado. Registra-se, pois, a substituição de um líder operário por um demiurgo. Daí decorreu certo fanatismo, que Lula poderia ter afastado, mas que teve o dom de seduzi-lo.

Somado ao canto de sereia dos grandes capitais nacionais e internacionais, esse novo atrativo enfraqueceu a militância, acomodou o ex-líder à fruição das benesses do cargo - e deu no que se sabe.

Luís Inácio Lula da Silva, assim, amarga as consequências de se ter desviado do caminho que apontara. E que anunciara ao povo, abandonado em benefício de suas novas (e más) companhias.

Talvez não fosse tão fácil alterar profundamente a realidade deste País. Talvez muito esforço governamental e resistência popular tivessem que ser feitos, para consumar esse que parecia o objetivo esperado de seu governo. Sem experimentar, porém, não se sairia do lugar. Seria possível, até, que o Presidente da República tivesse posto a prêmio seu próprio mandato. Essa história conhecemos bem.

Só que, ao invés de irem às ruas pedir que seu líder não seja condenado e preso, o povo pediria que ele implementasse as políticas anunciadas. E nas quais a maioria dos 50 milhões de brasileiros apostou.

O resultado aí está: a desigualdade só aumentou, o futuro que se anuncia não poderia ser pior. Menos para os que, também nos governos Lula e Dilma, chegaram à condição de biliardários.

Quanto ao PT, feito seita religiosa, o Partido impediu o crescimento de outras lideranças, a ponto de praticamente perder fôlego na eleição presidencial do próximo ano. Fica reforçado deste modo o papel do Judiciário mais que o do povo, na escolha do futuro Presidente.


Legados da ditadura - Em 20/01/2018

Recente entrevista concedida pelo historiador Jorge Caldeira ao jornalista Roberto D´Ávila traz luz a muitas questões ainda carentes de cabal esclarecimento. Porque digam respeito ao triste período de nossa história (1964-1985), tais questões têm sido ignoradas. Alguns pseudoanalistas chegam a pôr em dúvida o caráter autoritário da ditadura iniciada com a derrubada de João Goulart. Outros, pretextando o risco de o Brasil tornar-se um país comunista, oferecem interpretações distantes da realidade como a Terra dista da Lua.

Já se tornou comum apontar para a carência de lideranças políticas confiáveis, graças aos reiterados expurgos praticados pelos democratas que usam os tanques e os canhões, em substituição ao argumento e à discussão honesta. Parece esse o único exemplo da coorte de malefícios causados pelo regime instaurado em 1 de abril do fatídico ano de 1964. Mas não é.

Jorge Caldeira, de quem não se diz ser mais que um estudioso da História, não um filiado às correntes de esquerda que se multiplicam (e se desencontram) no País, revela não a permanência da desigualdade anterior à queda de Jango. Apoiado em levantamentos criteriosos e obedientes à teoria econômica, Caldeira afirma ter crescido a desigualdade, enquanto se deterioravam os costumes políticos. Esfuma-se qualquer tentativa saudável dos golpistas da década dos 1960, à simples apreciação dessa - digamos assim - particularidade. Também perde sustentação o pretexto de pretender desenvolver o País, o que importaria torna-lo melhor para os brasileiros.

Os fatos posteriores, portanto, vão esvaziando as falsas razões usadas como pretexto para tirar João Goulart do Palácio do Planalto. A eliminação do suposto risco de implantação de uma república anarco-sindicalista (seja lá o que isso queira dizer) choca-se com a chegada ao exercício do poder mediante a troca de favores entre os poderosos, acumpliciados sempre com os grandes empresários e grandes proprietários dos veículos de comunicação. As vontades destes segmentos convergem, gerando uma teia que causa malefícios à população. Ao invés de dedicar-se ao encontro de solução para os mais graves e persistentes problemas sociais, entregam-se eles ao saque como ação política. Mesmo quando é tímido o avanço e os que sempre ganharam viram crescer continuamente sua riqueza, as elites tratam de ampliar a desigualdade. Tido como constitucionalista, Michel Temer comandou um golpe parlamentar e empresarial, a despeito das normas expressas na Carta Magna. Avulta, nesse importante tópico, a busca da redução das desigualdades sociais e regionais, de que trata o artigo 3º da Constituição que Ulysses Guimarães, num arroubo até certo ponto compreensível, chamou cidadã.

Outro dos legados da ditadura consiste na cegueira das elites nacionais ao processo que na década dos 1980 mostrava ter vindo para ficar: a globalização. Pouco a pouco, foi-se mostrando necessário entender todo o significado desse processo, em um globo que caminhava para ser visto como uma aldeia. Isso, que o disse foi Marshall Mac-Luhan.

Assim, a inserção do Brasil na mundialização, como preferem dizer os franceses, tem-se dado da forma mais suicida. Preferimos ser caudatários da vontade e das aspirações de outras nações, que encontrar caminhos próprios, a despeito de nossas aparentemente inesgotáveis fontes de recursos, os naturais sobremaneira.

Ninguém mais que Michel Temer empenha-se por instalar-nos em posição subalterna, diante dos vorazes capitais internacionais. Nem a ele têm faltado o aplauso e a cumplicidade dos capitais nacionais, cada dia mais transformando-se em apêndice dos grandes interesses internacionais. De grupos econômicos e de nações. Ficamos, assim, em assimetria com o mundo.

Outro legado malsão diz respeito ao clima de nós contra eles. Foi na ditadura que se timbrou a frase Brasil, ame-o ou deixe-o. O amor solicitado não poderia ir além da submissão a tudo quanto fosse pensado (?) e urdido pelos detentores do poder. Eles, os opositores, se algum dia discordaram, logo lhes foi dada a reprimenda que regimes autoritários costumam utilizar: a cadeia, a cassação de direitos ou, como frequentemente ocorreu, a execução. Marighella, Herzog, Fiel Filho, Rubem Paiva não deixam mentir.

Naquele infausto período, os tanques e cavalos saiam dos quartéis para dissuadir (agredir seria mais próprio dizer) os descontentes. Substituía-se a tessitura política pelo porrete. Hoje, o porrete é representado pelas verbas públicas, cuja utilização serve para acumular votos parlamentares.

A História não se faz com ses. Não é demais especular, porém, a respeito do que seria alcançado, em termos de lideranças genuínas e preparadas, inserção altaneira no processo de globalização, clima de fraterna contribuição ao desenvolvimento do País e o uso da inteligência - não da força - para reduzir as dissenções. Isso tudo poderia ter sido alcançado, se as reformas de base propugnadas pelas esquerdas, até 1964, não tivessem sido golpeadas. Com a quarta esquadra da Marinha norte-americana atenta aos nossos passos.


O perfil de um governo - Em 14/01/2018

O dia em que se escrever a história do crime no Brasil, dificilmente o período 2015/2018 será superado, na quantidade de registros. Não pensem que me refiro apenas às rebeliões nas penitenciárias, tornadas costume, nestas terras onde canta o sabiá.

O que se poderia esperar acontecesse em estabelecimentos destinados à recuperação de praticantes de atos ilícitos, transformados em escolas de especialização e pós-graduação de alunos neófitos? Difícil, se não insensato, imaginar que o desvio de finalidade dos presídios levasse a mais que o observado pela população, em qualquer das unidades federativas. Embora de uma federação que há muito tempo perdeu essa condição.

Essa é só uma parte das fartas fontes de informação sobre os delitos praticados naquele país nada imaginário, que Elio Gaspari chama Pindorama. Outros setores também têm muito a oferecer, com grau de gravidade ainda maior que os massacres com que tendemos a nos acostumar, praticados nos presídios. Tenham ou não a fictícia segurança máxima.

Basta acompanhar os acontecimentos políticos para identificar as mais variadas formas de agredir a sociedade, seja compondo equipes marcadas pela trajetória delinquente de muitos dos seus integrantes, seja pelas decisões que põem a nu o mais absoluto desprezo pela população e a intenção única de proteger-se.

A forma como Michel Temer chegou ao poder, se contém ingredientes importantes para mostrar a imoralidade em que consistem as tratativas e os resultados destas para os políticos, é fichinha, se comparada com o que se tem visto depois da queda de Dilma Rousseff.

Imoral, pusilânime, entreguista, patrimonialista, antipopular - esses os adjetivos que, no mínimo, cabem na identificação do atual governo. Assim foi no seu início, assim tem sido ao longo do tempo em que urdiu, derrubou e substituiu a companheira de chapa do Chefe do Poder Executivo neste infeliz período de nossa história.

Mesmo que encontremos algum conteúdo moral nos pretextos que fizeram Temer abandonar o barco de Dilma, a escolha dos nomes que o acompanham não deixa dúvidas. Não é preciso sequer o comentário dos oposicionistas, para ver clara a imoralidade levada aos altos postos de República. Moreira Franco, Elizeu Padilha, Gedel de Lima, Romero Jucá e, mais recentemente, a filha de Roberto Jeferson - para ficar nos mais notórios - timbram a marca da imoralidade, ainda que se esqueçam os Eduardo Cunha, Carlos Marun e outros, facilmente apreendidos pela Polícia Federal, se tempo houver para pôr atrás das grades outros meliantes.

É pusilânime todo indivíduo que, as convicções substituídas pelas conveniências, o espírito público prejudicado em benefício de interesses minoritários, toma decisões que logo, logo serão substituídas. Às vezes, exatamente pela opção contrária. No mínimo, isso deveria ser chamado leviandade ou fraqueza de caráter.

As decisões de Temer, longe de vislumbrar um futuro alvissareiro depois da ponte que ele prometeu construir, nos condenará a entregar o que de riqueza até aqui produzimos coletivamente. A oferta da Petrobrás aos insaciáveis apetites internacionais, um só dos muitos exemplos a indicar, mais que um gesto entreguista, o é de lesa-pátria. Não é um professor de Direito que poderá alegar ignorância a respeito de como surgiu a estatal e das razões que a fizeram surgir.

O patrimonialismo resulta da aliança espúria entre governantes e elites econômicas, sempre alimentadas pela certeza de que o País, a República e tudo quanto se tenha realizado e acumulado até agora a eles - e só a eles - pertence. Podem dispor disso como se lhes correspondesse a quase um direito natural, perpétuo, irremovível, transferível aos seus herdeiros, em detrimento dos verdadeiros construtores dessa riqueza.

É antipopular o governo, não apenas porque as pesquisas revelam a rejeição do povo pela maioria das decisões que ele toma. O é, sobretudo, pela opção por atender aos interesses vorazes dos endinheirados, sejam os ricos nacionais, sejam os estrangeiros, todos eles empenhados em explorar nossas riquezas, a maior delas o trabalho honesto e dedicado do homem e da mulher brasileiros.

Posso não ter produzido o retrato escrito do governo de Michel Temer com a precisão e o brilho necessários. Sei, porém, que qualquer outra fisionomia que pretendermos dar ao grupo que tomou por um assalto parlamentar o poder, não dispensará os adjetivos aqui sugeridos. Apenas destacará outros aspectos, que por motivos óbvios deixam de estar aqui registrados.


Despudor e angústia - Em 06/01/2018

O despudor é uma das marcas do atual governo. Os que dele participam comportam-se como se investidos de poderes divinos tivessem à sua disposição magos capazes de construir uma realidade que ninguém enxerga. Pouco se lhes dá se a grande maioria dos súditos (porque assim é que Temer e seus acólitos consideram os brasileiros) rejeita sua forma de governar e os propósitos que animam as decisões do Planalto.

Até certo ponto, é fácil compreender a conduta de Temer e do malsinado grupo que lhe rende homenagens e empresta a mais lucrativa submissão. Afinal, o golpe que derrubou sua antecessora e colega de chapa não se terá feito ao léu. As motivações encontradas, contudo, nada têm a ver com a corrupção alegada, alguma irregularidade menor praticada pela ex-Presidente ou o desejo de levar o País a bom rumo.

Quanto mais o tempo nos distancia da fingida indignação que o então vice-Presidente pôs em carta à sua companheira de jornada eleitoral, mais se tem condições de apreciar o cenário e como ele se construiu.

Vão-se tornando transparentes as ligações de Michel Temer com os grandes capitais internacionais e com os representantes locais de seus interesses. Os media, igualmente, servem de adjutório ao esforço por transferir o patrimônio público brasileiro para o controle dos grupos internacionais. Essa foi a promessa de Temer, e ele tenta cumpri-la à risca. Mesmo que isso aprofunde a desigualdade da qual nos tornamos campeões e afaste para mais longe o momento em que a sociedade brasileira romperá os maus costumes políticos e econômicos tão conhecidos. Um dia ela o fará.

Desde quando se instalou, o atual governo revelou a que viera. Teve a infelicidade de instalar-se quando a Operação Lava Jato já tinha colhido informações que, em outros países, levariam ao suicídio muitos dos investigados. Como não tinha qualquer - como ainda não tem - compromisso com a população, o Presidente foi buscar na lista de suspeitos boa parte do grupo que o assessoraria e ajudaria a (des) governar o Brasil. A presença de pessoas como Moreira Franco, Eliseu Padilha, Gedel Vieira Lima, na equipe do Planalto; e de Rodrigo Loures e Romero Jucá, nas cercanias do gabinete presidencial dizem da inclinação para o recrutamento de malfeitores.

Pior: não bastava premiar suas artimanhas e ilicitudes. Seria necessário impedir que um dia se vissem constrangidos pela Justiça a prestar contas de seus atos delinquentes. Daí o empenho em proteger gente como Eduardo Cunha, cujo apoio de Joesley Batista deveria ser mantido. Isso, não sou eu quem o diz, mas interessante e esclarecedora gravação do diálogo entre dois amigos, tão próximos, que nem de agenda precisam para conversar, à luz de velas.

Não foi apenas isso, porém, que revelou o despudor com que Michel Temer age no Planalto. A mochila cheia de dinheiro transportada na sombra de uma garagem de centro comercial, por um de seus mais chegados assessores reforça a identificação do estilo do Presidente. Já nem se lembre do apartamento de Gedel, abarrotado de malas milionárias.

Michel Temer sabe que, uma vez posto o primeiro pé fora do Planalto, o Ministério Público e a Polícia Federal tratarão de pôr em atividade as algemas e tornozeleiras agora em falta no mercado. Por isso, empenha-se em achar um jeito de concorrer à eleição. Se não como candidato a sucessor de si mesmo, para algum cargo passível de ser alcançado com as sobras de votos de algum Tiririca ou Wlademir Costa.

O esforço de Temer para manter-se Presidente esbarra na pretensão de Henrique Meireles, que a banca vê como mais confiável; afinal, é um deles. Mas Temer sabe nada desprezível obter um mandato federal, para não ser excluído do rol dos que desfrutam de foro privilegiado. Dele precisará, sem dúvida.


O artrópode do Planalto - Em 30/12/2017

Índole, diz o Novo Dicionário Aurélio, significa propensão natural, tendência característica, temperamento. Assim, conhece-se a índole de uma pessoa, pela observação de seus atos, mais que de suas palavras. Mesmo que se considere eivada da própria experiência social, a pessoa observada pode orientar-se em certa direção por motivos de tal maneira íntimos, que acabam por fazer do convívio social apenas adjutório nas situações em que se envolvem. Justifica-se, assim, a atribuição de naturalidade à propensão do indivíduo.

A tendência a agir de determinada maneira, não de outra, pela regularidade com que se apresenta acaba por transforma-se característica da pessoa. A sequência de seus atos revela, então, ser esse ou aquele o temperamento de que é portadora.

A propósito, é oportuno lembrar a anedota sobre a travessia de um escorpião, montado nas costas de outro animal. Como não dispunha de meios próprios para chegar ao outro lado do rio, aconteceu de aquele artrópode ter-se válido dos préstimos de outro animal, este sim, dotado de nadadeiras. Quando se preparava para deixar o dorso de seu transportador, o lacrau (que é como se conhece o artrópode em algumas regiões do Brasil) aplicou-lhe dolorosa ferroada. Interpelado pela vítima, o ingrato apenas retrucou: é da minha índole.

Revelava ali, o abjeto espécime, a inevitabilidade de comportar-se como era de sua própria natureza. Nascera para ferroar os demais que com ele se relacionassem, e não seria o fato de ter merecido as atenções e o favor do outro que revogaria seu destino, nem enfraqueceria sua propensão natural, afinal uma característica que o escorpião trazia consigo. Per omnia secula saeculorum.

Tudo isso dito (ou lido, não é?), podemos avaliar as mais recentes decisões do Presidente Michel Temer, de cujos bons propósitos só os beneficiários dessas mesmas decisões podem dizer favoravelmente.

Cai por terra, depois dessa - que não foi a primeira, nem a segunda, nem será a última - vez, qualquer tentativa de desqualificar os que o acoimam de acumpliciado a Eduardo Cunha, Romero Jucá e outros notórios escorpiões. A rigor, eles e tantos outros de sua coorte participam da mesma coletividade que as investigações da Polícia Federal, as promoções do Ministério

Público e as manifestações do Judiciário chamam de quadrilha.

Quando determinou a Joesley Batista que mantivesse o apoio a Eduardo Cunha, então já condenado, houve quem suspeitasse - absurdo! - de que a gravação era montada, uma falsidade. A esses incautos brasileiros, pouco a pouco o chão foi cedendo. As operações postas em prática, com o objetivo de impedir o aprofundamento das investigações sobre a conduta de Temer foram debilitando a crença dos ingênuos (se não também comprometidos).

Mais recentemente, o indulto feito por costureiras e alfaiates sabedores do manequim da clientela foi tecido por inspiração e determinação do escorpião que se instalou no Palácio do Planalto.

Chegar ao outro lado do rio é o que importa a Michel Temer. E aos que lhe dão as ordens. Até que estes últimos, investindo-se dos ferrões, agulhem o dorso de seu transportador. Então, o artrópode da política brasileira (um deles, na verdade) já terá cumprido a sina que a natureza lhe reservou. E os sócios exigiram.


Tatuagem - um novo conceito Em 23/12/2017

Em quase todas as regiões do País, se não em todas, é corriqueiro usar-se a expressão o buraco é mais em baixo (ou em cima), quando se trata de deixar claras as diferenças entre uma situação ou problema e outra/o. Assim, o buraco assume a condição de parâmetro, sempre que se aprecia um fato, bom ou mau. De sua localização - mais acima ou mais abaixo - se deduz a gravidade ou a complexidade da situação ou problema.

As sucessivas crises por que tem passado o Brasil tornou corrente a expressão o fundo do poço. Os otimistas achando que quando ele for alcançado surgirão todas as soluções historicamente esperadas. Talvez por isso, não faltam no cenário agentes pressurosos pelo alcance do ponto final, o fundo do poço.

Uns, aboletando-se nos cargos públicos, eletivos ou de livre nomeação; outros, fazendo uso dos primeiros - todos se entregam a ampliar o buraco, em profundidade e amplitude. E nada de se encontrar seu fim... O que só torna mais exaustiva a faina dos interessados na meta pretendida: o fundo do poço.

Os que se utilizam, em fraternidade promíscua, das oportunidades que autoridades públicas lhes propiciam, não laboram em sentido contrário. Tratam, eles também, de buscar o fundo desse poço de que todos falam e muitos poucos se aproveitam. Ao mesmo tempo em que o alargam e aprofundam

Procede, portanto, a denominação atribuída à quadrilha que defendeu a livre concorrência tantas vezes proclamada, com a formação do cartel chamado Tatu Tênis Clube. Camargo Corrêa, Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão não poderiam ser mais exatos!

O nome dessa entidade que as autoridades judiciárias chamam de quadrilha não poderia ser outro, nem desprezível é a contribuição dela à viagem que levará ao fundo do poço. É claro que chegar lá deixou de interessar aos tatus brasileiros, todos eles incensados e premiados pelos seus feitos.

Muitos, como Adriana Ancelmo e Marcelo Odebrecht, já desfrutam do favor oficial, podendo relatar seus dias de prisão no antegozo do livro que por certo escreverão (ou mandarão escrever), a troco de alguns milhões. Porque é somente isso que os motiva.

Tatu porém, não é bicho que se acostume com espaços tão limitados. Ele pode aparecer em túneis urbanos, como podemos vê-lo em buracos menos sofisticados em terras áridas ou em gabinetes refrigerados. Os desdentados fazem prole na planície, como a fazem no planalto. Infestam todo lugar onde haja a menor possibilidade de varar o terreno e esconder-se, porque para fazer isso nem de paraísos fiscais precisam.

Daí tornar-se necessário sair em busca desse espécime da família dos dasipodídeos, cuja carência dentária não os impede de morder..., de preferência, cofres e bolsos. Se não falam, porque lhes falte o verbo, isso importa pouco, desde que haja verbas.


Nojo e asco, sentimentos justos - Em 14/12/2017

O pasto é bom e o rebanho se alvoroça. É preciso conquistar todos os espaços onde a gra(n)ma possa medrar e satisfazer a fome voraz dos que a contemplam. Ainda que isso custe a vida dos que imaginam construir uma fazenda maior, onde a produção de todos, por todos seja justamente dividida.

Mesmo que a grande maioria dos habitantes da fazenda se tenha dedicado ao trabalho probo, ao esforço produtivo e à busca de melhores dias, para si e para os seus, a minoria dos animais é mais forte. Dispõe das armas; conta com a cumplicidade dos fiscais de suas atividades; encontra acolhida nas togas que fingem zelar pelos interesses coletivos; tem o aplauso dos que se postam nas melhores posições do (quase dizia da ... pocilga) comedouro.

É assim que se pode ver o cenário político e econômico deste imenso e imensamente infelicitado país.

As reiteradas manobras para descaracterizar crimes com caráter quase axiomático já nem despertam o estupor de uma sociedade crescentemente aviltada, cotidianamente enganada, minuto a minuto espezinhada. Malas cheias de dinheiro, mochilas que transitam nos desvãos de estacionamentos subterrâneos, gravações cristalinas das ilicitudes cometidas - nada disso parece sensibilizar ninguém.

Nem os que estão obrigados a investigar as denúncias, nem os que veem roubados de sua mesa a comida que lhes assegurará o dia seguinte de vida, a educação para seus filhos, o remédio para seus males - nenhum deles parece entender o que deixou de ocorrer nos escondidos dos gabinetes, para dotar-se da mais absurda ostensão. A vergonha parece definitivamente perdida. A esperança, idem.

Vergonha e esperança, como faces da mesma moeda, escorrem pelos mesmos esgotos por onde transitam as verbas públicas. Enquanto isso, transfere-se o pouco que ainda resta do patrimônio construído por todos, para beneficiar pequenos grupos, não bastasse serem estes detentores de parte substancial e excessiva da riqueza nacional. Não são os ignorantes que o dizem, mas é assim que se revelam os números da tragédia brasileira.

Mantêm-se nos tribunais agentes da injustiça, cuja ascensão não parece menos que o prêmio conferido a quem sempre se mostrou submisso - asqueroso, melhor dizer com toda a força do sentimento justo e adequado.

É de nojo, asco, profunda ojeriza o único sentimento cabível, nesta temerária fase de nossa história.

Um novo ano se anuncia, sem que se possam anunciar profundas alterações nessa maneira de ser de nossas lideranças políticas e empresariais. A alternativa a esse desencanto vai-se mostrando pior que o soneto. A emenda, neste caso, pode ocorrer na própria Constituição, essa vitima selecionada sempre que os interesses mais mesquinhos amordaçam as vozes discordantes e se amplia a ganância dos que sempre ganharam. E mais uma vez ganharão, a não ser...


Ferida a rosa, fica a roseira - Em 02/12/2017

O golpe de que resultou a queda de Dilma Rousseff está em pleno e acelerado curso. Enquanto não produzir todos os efeitos perseguidos pelos golpistas, não cessará. Para isso conta com um Congresso preocupado em enriquecer seus próprios membros; juízes dedicados à defesa dos privilégios conquistados em campo minado pelos que dependem de sentenças; negócios feitos a pretexto de produzir e disseminar notícias; e a maioria da população, anestesiada na luta constante pela sobrevivência. Nada mais.

Enquanto for esse o quadro, dificilmente será desviado o caminho do retrocesso, ameaçando tornar-nos contemporâneos da terceira metade do século XIX.

O trabalho escravo, que pensávamos ter erradicado mesmo sendo o último país a fazê-lo no continente, faz parte do cotidiano de grandes parcelas da população rural. O conluio entre empresários e políticos, que seria desfeito por obra de graça da redemocratização que custou tantas vidas, permanece incólume. Assim, vamos nos encaminhando para o que de mais autoritário se poderá experimentar: uma nação sem vontade própria, sujeita a determinações elaboradas no exterior, ao sabor dos interesses dos que se acostumaram a explorar os mais fracos, e enfraquecidos pela cumplicidade que se estabelece no mais alto escalão da República, imiscuindo-se por todo o tecido social.

É exemplar, nesta trajetória golpista, o que aconteceu dia 29 de novembro, em instalações da Universidade Federal do Pará. Quando o seminário As veias abertas da Volta Grande do Xingu preparava-se para conhecer e debater resultados de pesquisas realizadas pela academia naquela região paraense, repetiu-se o que assistíramos na noite de 30 de março de 1964, no auditório da Faculdade de Odontologia. Naquele momento, baderneiros ostentavam lenços brancos no pescoço, para não serem confundidos por seus companheiros de invasão com as pessoas que deveriam ser agredidas.

Desta vez, não havia lenços brancos, nem militares participavam ou davam cobertura à baderna. Nem seria preciso, tamanho é o poder dos agressores de hoje, muito bem instalados e representados nos gabinetes mais influentes da República. Os revólveres de ontem são substituídos pelas canetas, de poder letal mais efetivo. Pelo menos, as armas de fogo têm seu uso reservado às ações contra os camponeses e os que, no campo, lhes emprestam a solidariedade recomendada pelas várias confissões de fé.

A reitoria da Universidade do Pará já se manifestou, denunciando o ato praticado pelo prefeito do Município de Senador José Porfírio e cerca de quarenta asseclas. Diz a nota da Reitoria que os jagunços desejavam impedir a apreciação das questões ambientais que envolvem projetos do interesse dos grandes capitais, na região. Jagunços, já se sabe, há muito deixaram o campo, para atuar nas cidades, algumas vezes instalados em confortáveis gabinetes de onde promanam decisões da maior importância para a população.

Nem chega a ser surpreendente que o alvo mais uma vez foi o ambiente universitário. É dele que podem vir as ideias mais lúcidas e as denúncias mais contundentes, ainda que nele ainda possam ser encontrados os defensores de um tipo de democracia que só se sustenta quando o debate é evitado, a discussão é malvista, a divergência perseguida.

Dia 15 de dezembro próximo foi escolhido o momento de declarar a resistência e a luta pela Universidade Brasileira. O que significa dizer a luta pela alteração profunda dos rumos que um governo golpista quer impor à sociedade, contrariando a manifesta hostilidade que os brasileiros têm mostrado aos que se apoderaram dos postos de mando.

Os invasores do auditório do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Federal do Pará podem ter arrancado uma rosa, mas jamais conseguirão deitar por terra a roseira. Resistir, mais que necessidade, é a alternativa que resta àqueles destituídos do egoísmo que obnubila o pensamento e faz a honra mergulhar na lama.


Novo Titanic e seus ratos - Em 18/11/2017

Magoa mais para certas pessoas a dor da perda de cargos públicos e das vantagens (nem sempre lícitas) que a posição assegura, que o desaparecimento de pessoa de suas relações. Graças a isso, sucedem-se episódios que muitos encaram como traição ou falta de caráter, nenhuma dessas considerações conseguindo desvendar o que ocorre no mais fundo da alma humana.

No mundo político, alianças se fazem e desfazem, ao sabor dos interesses em jogo. Quase sempre, a cobiça é despertada não pela oportunidade de participar do poder, mas pelo que essa participação pode garantir materialmente aos que dela desfrutam.

A história está cheia de exemplos, de que a expressão do Imperador Romano (Até tu, Brutus!) não é menos que o resumo da perplexidade injustificada dos que se têm considerado traídos. O próprio Jesus Cristo passou por esse mau pedaço. O resultado é o que os livros sagrados e mesmo os heréticos relatam: um homem posto na cruz, pelo pecado de ameaçar as estruturas de poder e tentar estancar o permanente esforço de uns para subjugar a maioria.

Daí vem a crença de que todo homem tem uma cruz a carregar. Uns, cada dia em número menor, entendem justo ter sobre os ombros o pesado madeiro um dia carregado pelo andarilho da Judeia. Enchem-se de resignação e encontram no exercício da fé religiosa a maneira de conviver com o peso de sua cruz, certamente menor que o peso de suas próprias consciências.

Boa parte, porém, perde a vida toda em busca de quem carregue seus pecados, enquanto tratam de recolher os benefícios que fazem da vida dos contemporâneos o pesadíssimo lenho que aos primeiros caberia carregar. É o justo pagando pelo pecador, como também está inscrito nos livros sagrados.

Ainda agora, o assim chamado Partido da Social Democracia (?) Brasileira entende chegada a hora de deixar a cruz sobre os ombros do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, hoje absolutamente desfigurado da imagem que Ulysses Guimarães construiu, quando os cães perseguiam os opositores do regime, nas ruas e nas masmorras.

Um e outro - PSDB e PMDB - filhos gerados no mesmo útero político, nunca lograram desfazer a figura xifópaga correspondente às práticas comuns dos nascidos no mesmo berço. Ora mais, ora menos próximos, aos poucos foram percebendo os riscos de continuar o caminho compartilhado. A cruz de um já não serve ao outro.

É assim que deve ser vista a manifestação do mais emplumado dos tucanos, ninguém menos que o festejado sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Em recente artigo publicado em dois dos mais influentes jornais brasileiros, o ex-Presidente destoa da conduta característica dos peessedebistas e sequer usa eufemismos. Recomenda, com todas as letras, o abandono da nau temerária que se apossou do Brasil, desde 2016. Fugindo aos hábitos que o fazem pessoa considerada detentora de grande habilidade, FHC chega a cutucar alguns de seus correligionários, em especial os que teimam em permanecer no Titanic comandado por Michel Temer e uma grei de liderados que o Ministério Público Federal identifica a uma quadrilha de malfeitores.

Não se pense, porém, que a surpreendente sinceridade do tão respeitado sociólogo quanto deficiente executivo, se faz movida pelo interesse público. Ao contrário, a previsível derrota nas urnas de 2018 mostra a FHC os caminhos que ele recomenda ao seu partido. Nada mais que isso.

O navio segue à deriva. Para que alguns não sejam levados pelas águas da história, parece chegada a hora de lançar-se ao mar, enquanto o grande buque naufraga. Comportamento semelhante ao dos ratos, sendo que algumas vezes o comandante é o primeiro a abandonar o passadiço de onde comanda o barco.

Não faz tanto tempo, um comandante italiano deu o exemplo. Talvez nada tenha perdido, se é que lhe terá bastado manter-se vivo. Há comandantes, contudo, que têm mais que a vida a perder. Que o digam os portadores de malas, sacolas e maletas, ou os ocupantes de bunkers instalados em apartamentos de alto luxo.


O Éden dos ministros - Em 10/11/2017

Circula no Brasil, faz tempo, uma das muitas curiosidades que nos fazem diferentes. Somente aqui, prostitutas se apaixonam por seus rufiões. Algo precursor do fenômeno que levou à conceituação da síndrome de Estocolmo: a vítima apaixonada pelo algoz.

O rol de curiosidades não se restringe às relações pessoais e íntimas dos envolvidos em registros semelhantes. Nem mesmo o universo político e empresarial consegue fugir.

Ainda agora, respeitáveis órgãos de comunicação estrangeiros descobrem que o Ministro da Fazenda brasileiro mantém empresa em paraíso fiscal. Isso não basta para a conclusão apressada de que Henrique Meirelles pratica ilicitudes. Também o fato de outro dos auxiliares de Michel Temer ser titular de outra off-shore não concorre para julgarmos o entusiasmado pré-candidato à Presidência da República um réprobo. Afinal, política e administrativamente, a posição de ambos - Meirelles e Blairo Maggi - é a mesma de Eliseu Padilha, Moreira Franco e tantos outros que vivem à sombra do Presidente da República. E lhe propiciam a desejável penumbra. Inclusive, concorrendo para que o Ministério Público veja na reunião deles uma organização criminosa.

O próprio Meirelles afirma que seu investimento em paraíso fiscal tem fins benemerentes. Ele o faz para, quando morrer, financiar ações educacionais no País. E diz não sonegar impostos que o leão sob sua batuta costuma pôr em ação, para morder o contribuinte brasileiro. Aquele que sequer sabe a latitude e a longitude onde se situam os paraísos fiscais.

Até aí, tudo bem: o fato de manter investimentos fora do País não constitui, por si só, delito a ser punido. Ainda mais quando nada teria sido feito à revelia das autoridades fiscais, nem os cofres do país do investidor (no caso, o Brasil) foram privados dos impostos devidos. Menos ainda, se poderá condenar o investidor, quando de seus investimentos possam decorrer a total eliminação do analfabetismo, a excelência dos cursos superiores, o avanço científico e tecnológico do País. Afinal, não é isso que se deve esperar de investimentos na educação?

Ocorre que de Henrique Meirelles - e também de seu colega Mauro Blaggi - não se pode dizer tratar-se de duas pessoas comuns. Ambos fazem parte do mais alto escalão político e administrativo, daí decorrendo deveres que jamais poderiam ser cobrados dos demais contribuintes.

Logo eles, docemente constrangidos pelos privilégios que se atribuem aos servidores públicos instalados em luxuosos gabinetes e atendidos por uma coorte de subordinados bem pagos, levarem para fora do País valor que bem poderia ajudar o PIB brasileiro!?

O menos que se pode fazer, em situações semelhantes, cujos envolvidos nada têm de semelhantes aos que lhes pagam os vencimentos, é conhecer mais a fundo a verdadeira situação. Longe de tentar censurar as notícias, ou desqualificar os que deram origem a elas ou as divulgaram, Blairo Maggi, Henrique Meirelles e quantos mais lhes sucedam no noticiário, precisam exigir profunda investigação dos fatos.

Avançar qualquer julgamento, por enquanto, é temerário. Não é porque os tempos são efetivamente temerários que deveremos todos incorrer nessa perversa conduta. Impossível, porém, deixar que as coisas sejam ignoradas pela população, tanto quanto pelos órgãos aos quais se atribuem deveres investigativos em defesa dos direitos coletivos.

Mais trabalho para a Lava Jato! Ou para outras instâncias que desejem passar água e sabão na vida nacional.

Só assim, e dependendo dos resultados, estaremos impossibilitados de acrescentar ás curiosidades tão nossas a de que somos o único país no mundo em que responsáveis pela cobrança de impostos fogem a esse elementar dever de cidadãos. E tratam de ir em busca do novo Éden.


Funeral da Lava Jato - Em 03/11/2017

Corre mais rápido do que muitos imaginariam o processo de esvaziamento da operação Lava Jato. Avançam as estratégias anunciadas por vários dos mais influentes líderes do PMDB, tanto quanto de partidos que se supunha adversários de Temer e acompanhantes, os mesmos que o Ministério Público Federal chamou de quadrilha.

Se coube a Romero Jucá expressar com enorme sinceridade a aspiração maior de seus companheiros, Aécio Neves não escondeu até aonde podem chegar os esforços para pôr todos a salvo das medidas legais aplicáveis aos que cometem ilícitos. O primeiro mostrou a necessidade de "estancar a sangria", enquanto o outro chegou a mencionar a conveniência de matar quem tentasse frustrar a tentativa de manterem-se todos fora da lei.

Um e outro, mas não apenas eles, fizeram o que os IMLs em todo o mundo jamais lograriam alcançar: revelar em sua profunda raiz o DNA que aproxima os delinquentes, onde quer que tenham cometido os crimes de que são acusados. R

Romero Jucá, um dos mais bem-sucedidos filhotes da ditadura e o neto de Tancredo Neves, escorado na fama do avô, resumem a ópera de mau gosto em curso no País. Triste palco, esse em que foi perdida totalmente a noção de bem público, independentemente do poder constituído (prostituído talvez coubesse melhor afirmar) em que se exibe a tragicomédia brasileira.

Mesmo o mais alto tribunal do Poder Judiciário faz absoluta questão de participar da pantomima, se essa não for comparação demeritória para os artistas de circo e de outros picadeiros.

Antes, a atuação de alguns magistrados, talvez não a maioria deles, revelou a perda de substância e credibilidade do STF. Pouco a pouco, porém, a nódoa alastrou-se, até envolver a própria instituição.

À conduta temerária (em todos os sentidos que se possa encontrar para este termo) de Gilmar Mendes somam-se hoje manifestações das quais não se pode dizer estarrecedoras apenas porque não destoam do cenário. Quando se esperava que a Presidente Carmen Lucia imprimisse rumo diferente ao Supremo, ela se comporta com tibieza pouco identificada com o rigor que as mulheres fazem questão de ostentar, quando lhes cai às mãos o cajado.

Isso tudo estimula outras instancias, tamanha a forca do exemplo. Diz disso a recente divulgação

do acordo celebrado entre o Ministério da Transparência e as empresas. A legislação que se seguirá credencia outros órgãos da administração a celebrar acordos de leniência, tirando a exclusividade da providencia do Ministério Público. Trocando em miúdos: enfraquecerá o MP e cedera às raposas o direito de vigiar o galinheiro.

Melhor seria incluir na legislação a troca de nome: de Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União, para Ministério da Conivência e Proteção de Acusados.


SERÁ O FUNDO? Em 28/10/2017

"O tráfico de drogas não acaba porque financia campanhas políticas no Brasil. O tráfico é nocivo e funesto, mas a corrupção é o crime que mais mata no Brasil." Marcinho VP, chefe do "Comando Vermelho", facção criminosa que domina o tráfico no Rio.

O cenário que vislumbro, neste país que Stephan Zweig imaginava ser o do futuro, traz à memória um tempo em que o drama vivido pela Colômbia impressionava. Presa da ação maléfica dos traficantes de drogas, a nação irmã justificava conceitos que não eram mais que preconceitos; julgamento desatrelado de qualquer critério minimamente justo; desprestígio vinculado à maneira autoritária e odienta contra os que não se parecem conosco.

Não demorou, na busca de um fundo de poço que abriga nossa desmesurada desigualdade, chegamos a situação talvez pior à que vivenciaram nossos vizinhos. A eles não se concediam as atenções que merecem todos os que, pessoas ou coletividades, têm o mesmo direito de buscar ser felizes. Mesmo as forças que sustentaram a guerrilha sucumbiram à sedução - não apenas do tráfico de drogas, mas à crença em que o dinheiro que a prática lhes proporcionava acumular conseguisse alterar a desigualdade social prevalecente.

O resultado foi o que se viu. O armistício entre governo e FARC, mais que evidenciar a escassa possibilidade de êxito no campo de batalha, revelou quanto o processo político em curso torna improváveis as mudanças necessárias.

Poucos os que trataram de saber das razões desse drama e das alternativas à prática guerrilheira. Muitos estancaram diante de argumentos com base exclusivamente moral, como se a sobrevivência digna de cada homem ou mulher estivesse alheia à moralidade - pública e particular.

Verifiquemos o cenário, no Brasil de hoje. Campeões em desigualdade social, reproduzimos em cores ainda mais fortes, a tragédia que se abateu sobre a Colômbia. Com a hipocrisia característica de nossas relações sociais, fingimos unanimidade na crítica ao tráfico de drogas. Entre as proclamações de insatisfação e a persistência no crime, a droga torna dependente maior número de brasileiros, a cada ano. Pior que isso, dissemina uma cultura de violência e intolerância, enquanto se multiplicam os apelos ao autoritarismo, como se esse não fosse fator propício ao aumento da tragédia.

O que um dos mais conhecidos chefes do tráfico disse (e a epígrafe registra) só é novidade para os absolutamente alheios à realidade de que somos parte. Não é de hoje que se produzem, mais que suspeitas e denúncias, provas do que Marcinho VP afirma. Nem será injusto ampliar o coletivo a que se refere o traficante, eis que não deixa de fora dele qualquer das instituições em funcionamento no País. Disso dá conta o noticiário de todo dia, ainda que os grandes meios de comunicação pintem com tintas neutras a cor aziaga da tragédia. A não ser quanto ao nome da raia miúda, da que não pede dinheiro para campanhas políticas, nem paga anúncios.

Corrupção e tráfico, portanto, não podem ser vistas como coisas à parte, alheias uma à outra. Ambas compõem o quadro e estão dentro do poço cujo fundo não se sabe onde está. Neste particular aspecto, jamais será inoportuno mencionar quanto interessa a políticos, empresários, membros da sociedade civil e da que veste farda, estancar a sangria da Lava Jato. Como já o disse um dos mais credenciados representantes disso tudo que está aí. E que Marcinho VP tão bem soube identificar.


TRAJE NÃO FAZ DIFERENÇA - Em 20/10/2017

Faz pouco tempo, era considerado louco quem arriscasse a possibilidade de um golpe de Estado. Mesmo depois do golpe parlamentar que derrubou Dilma, o mínimo que se atribuía aos que viam nebuloso o cenário político era o culto ao pessimismo. Talvez porque daquela vez os quartéis preferiram ficar à margem, muitos observadores (?) consideraram afastada qualquer intervenção militar, não obstante o fenômeno tenha raízes históricas desde o fim do Império. No entanto, mencionar essa hipótese fazia desabar verdadeira chuva de adjetivos pejorativos sobre quem o fazia.

Só depois da proclamação do general Antônio Mourão, e da consequente conduta de seus chefes, o risco indicado pareceu emergir das profundezas em que costumam operar os golpistas de todo gênero. A presença daquele oficial, fardado e eloquente, em uma sessão da maçonaria aberta ao público terá operado como a senha que fez detonar o processo a que se assiste.

Se, antes da pregação de Mourão, os setores avessos à democracia continham seu ímpeto, a partir daquela ofensa à hierarquia castrense as amarras foram rompidas. Por isso, têm-se multiplicado pronunciamentos repetitivos da reivindicação do Diretor de Finanças do Exército.

Hoje, os mais céticos admitem atravessarmos momento extremamente grave da crise que se prolonga desde a queda de Dilma Rousseff. A porteira aberta pelo general gaúcho está sendo aproveitada por todo o rebanho, como se tem visto nos últimos dias.

Mesmo os que usam o argumento de que na história a repetição sempre ocorrerá de modo farsesco já veem semelhança entre os pródromos do golpe de 1964 e o cenário atual. Não que os momentos sejam iguais, mas há semelhança entre muitas das circunstâncias e dos ingredientes em que se inserem.

Ainda não se consegue vislumbrar, pelo menos ostensivamente, a efetiva participação do empresariado no golpe em preparação. Talvez suas lideranças ainda não tenham concluído os cálculos econômicos e financeiros que costumam, com exclusividade, orientar seus caminhos.

No passado, os ganhos foram imediatos, levando muitas dessas lideranças e de suas entidades representativas a envolver-se até no que de mais sujo e condenável foi prática dos governos ditatoriais, a tortura e a eliminação física dos divergentes. Os documentos produzidos pela Comissão Nacional da Verdade o comprovam. Como as Igrejas também o atestam.

Também se há de considerar que às empresas interessa pouco trocar o atual governo por um governo dirigido por militares, tanto os quartéis têm reclamado da roubalheira generalizada. Neste particular aspecto, empresas e políticos participam em igualdade de condições. No máximo, os costumeiros financiadores dos políticos poderão encontrar no próprio noticiário certo alento. As práticas corruptas não passam ao largo dos quartéis, cujos hóspedes são feitos do mesmo barro que produz os políticos, os empresários e todos os demais brasileiros. Basta ler o que os grandes jornais e certos periódicos têm publicado sobre o envolvimento de homens fardados em falcatruas que põem no ralo o dinheiro público.

Não é o traje diferente que confere dignidade e honorabilidade a ninguém.


DOIS ASSUNTOS - Em 14/10/2017

A meu juízo, duas são as matérias mais interessantes dos media, esta semana. A primeira faz referência à intenção do governo de majorar as alíquotas do PIS e do COFINS. A outra diz respeito ao julgamento do STF, sobre os limites em que a Justiça pode interferir no Parlamento.

Engana-se quem pensa desvinculados os dois temas entre si. Será dito, pode-se apostar, que o primeiro tem caráter essencialmente tributário, enquanto o outro opera no âmbito do Judiciário. Nada mais enganoso!

Um e outro mantêm vínculos profundos, eis que versam sobre os propósitos de políticos desejosos de manter-se no poder a qualquer custo, e o outro busca pelo menos obstaculizar as costumeiras ações predatórias dos políticos.

No primeiro caso, avulta o pronunciamento do relator da Lava Jato, Ministro José Édson Facchin. Louvando-se na posição assumida e nas palavras proferidas pelo antecessor nessa função, Ministro Teori Zavasky, Fachin procurou dar um xeque-mate em alguns de seus colegas de tribunal. Por isso, lembrou como votaram a hoje Presidente do Supremo e outro de seus pares, quando da decisão sobre a destituição de Eduardo Cunha.

Carmen Lúcia e Levandowsky foram favoráveis à cassação do ex-Presidente da Câmara dos Deputados e primeiro na linha sucessória do Presidente da República.

Como se comportarão, agora, Carmen e Levandowsky? Sobretudo, levando em consideração o que disse o mesmo Facchin, sobre o risco de desmoralização do próprio Poder Judiciário. Pior, por manifestação de sua mais elevada instância, por isso chamada Supremo Tribunal

Não é que ainda perdure alguma expectativa de surpresa no seio da população, a respeito da conduta futura dos dois ministros. O esperado, em tempos marcados pela hipocrisia e pela motivação mais oprobriosa, é o recuo, o desmentido do que foi dito antes.[1]

De qualquer maneira, Facchin foi coerente com a orientação que vem seguindo. Ao menos, ele.

O outro tema mostra a absoluta desonestidade característica do atual governo, já não bastasse a omissão do próprio Presidente da República, ao manter em seu Ministério réus em crimes de que se ocupa a Lava Jato. Favorece Temer, no entanto, o fato de que faz parte de seu ethos particular dizer ontem o que hoje desmentirá, prometer na véspera o que negará no dia seguinte.

Aumentar tributos foi outra das propostas, evidentemente saídas da cachola não do Chefe formal do Poder Executivo, mas do verdadeiro comandante-em-chefe dos negócios (opa! Não há ironia aqui) governamentais. Henrique Meirelles, rentista conhecido, é dos que proclamam exagerada a carga tributária. Não obstante, é ele mesmo quem propõe torná-la ainda mais onerosa para o contribuinte. Tudo, porque a farra feita com o dinheiro que é meu, seu, e de todos os brasileiros que efetivamente trabalham e ganham a vida com o suor do próprio rosto, talvez ajude a manter no poder a equipe que o ex-Procurador-Geral Rodrigo Janot chama de quadrilha.

Se Facchin faz tudo para evitar a desmoralização do Supremo, Meirelles desmoraliza-se por ele mesmo, tanto quanto desmoraliza a tese que ele sabe mentirosa: a de que a nossa é a maior carga tributária do mundo. Dizê-la injusta não é coisa que se possa esperar do Ministro, nem dos que lhe festejam as decisões. Pior que isso: os propósitos.


[1] Redigido na véspera da lamentável decisão do STF, o texto errou apenas no tamanho do recuo. O Ministro Facchin não teve êxito no xeque-mate. Reis e rainhas não se deixam vencer com facilidade.

NO REINO DE LAMPEDUSA - Em 08/10/2017

O que se pode esperar de uma reforma, seja lá no que for? Qualquer pessoa no uso pleno de sua sanidade mental exigiria alteração nas condições da coisa reformada. O exemplo mais prosaico talvez seja a reforma de uma casa. Sem que a ela se atribuam novas condições - e sempre para melhor - de habitabilidade, de pouco valeria a pena o esforço de reformá-la.

Esse não é o entendimento dos parlamentares brasileiros, ainda que a reforma política contenha ingredientes muito mais importantes que tintas, pedra, tijolo, cimento e areia. Não é para manipular tais materiais que o eleitor brasileiro elege seus supostos representantes. Aqui, nenhuma ironia, tamanha é a distância entre os interesses da população que vai às urnas e o desempenho dos que ela coloca nas casas do Congresso.

É quase unânime o clamor pela reforma política. O assunto é discutido nos bares, nos salões sociais, nos gabinetes dos três poderes, em associações de bairros, nos sindicatos e centros acadêmicos ...e, verdade, quase nunca na própria academia. E quando ocorre de ocupar os deputados e senadores, não é para reencontrar-se com os anseios populares que eles batem boca.

A PEC e os dois projetos aprovados a toque de caixa, cercado pelo alheiamento da sociedade, a cumplicidade dos meios de comunicação e o desinteresse da academia, foi alcunhado de reforma política. (Se não fosse assunto tão sério, daria mais para rir que para chorar).

O arremedo que será levado ao Presidente Temer, nos próximos dias, pode ser tudo, menos uma reforma política. Primeiro, porque se fez à revelia da sociedade, embora esta seja o destinatário final do arranjo institucional. Depois, porque pesaram nos debates mais os interesses dos debatedores e das agremiações partidárias a que estão vinculados, que o interesse público. Mais uma vez, a esfera privada dita a conduta dos entes públicos.

Não se despreze, além disso, a sofreguidão com que os beneficiários financeiros da tal reforma acompanharam o processo. Reduzir a quantidade de dinheiro envolvida nas campanhas eleitorais significaria a perda da oportunidade de enriquecimento a muitas empresas de alguma forma ligadas às atividades políticas. Também repercutiria na redução da taxa de corrupção costumeira. Tornada tradição, não seria demais afirmar.

O grau de dependência de um poder ao outro, a forma de nomeação de servidores públicos do Judiciário, por exemplo, ainda depende da caneta do Presidente da República, chefe de outro poder.

O financiamento, depois do balão de ensaio envolvendo quase 4 bilhões de reais, acabou retirando das emendas parlamentares 30% de seu valor global. A despeito de tais emendas serem justificadas pelos que delas se beneficiam - não os habitantes de regiões desfavorecidas, mas os deputados e senadores que as propõem, além dos prefeitos apaniguados.

O resultado limitou-se à aparência, não ao cerne do problema. Uma reforma (sejamos indulgentes) meramente cosmética, que não se relaciona com os anseios populares, nem afeta os principais problemas relacionados à democracia capenga que insistimos em manter e fortalecer.

Veja-se, para exemplificar, a proibição de candidaturas avulsas, sem vínculo partidário. Aqui, o pretexto é que a democracia exige partidos prestigiados, fortes, representativos. Ora, nenhuma dessas condições está presente no cenário atual, e nada indique que estará, com as mudanças propostas.

Prestigiar os partidos em funcionamento é o mesmo que premiar toda sorte de crimes cometidos em nome de uma tal governabilidade que só aproveita aos que governam, jamais aos governados.

Da representatividade torna-se dispensável falar, haja vista o absoluto e exagerado descompasso entre o que pensam e desejam os supostos representados e seus também supostos representantes.

Quanto ao fortalecimento, os partidos frequentemente não passam de estações de temporada dos congressistas. De tal sorte e em tamanha amplitude, que o processo de migração partidária assemelha-se às linhas aéreas, com pontos de partida e destinos surpreendentes. Assim, pode-se migrar do PC do B para o DEM, como sair do PSDB para o PR.

Chame-se de qualquer coisa ao produto das últimas sessões parlamentares, menos de reforma política.

ONDE BUSCAR A ESPERANÇA? Em 30/09/2017

As palavras de Antônio Palocci, ex-homem-forte do governo Lula, dão novo rumo às investigações da Lava Jato e, em consequência, da compreensão que se tem da vida política nacional. Seu antigo aliado e hoje desafeto, Luís Inácio Lula da Silva tem confirmadas afirmações que, se não põem nenhum dos dois acima de toda e qualquer suspeita, servem para descrever o cenário em que se movem tradicionais aliados - o empresariado "brasileiro" e os agentes políticos, onde quer instalem sua voracidade predatória e seu desprezo pelo povo.

Lula, ao assinar o documento de rendição intitulado Carta aos Brasileiros, não operava sozinho. Nem aquele documento foi obra de uma só cabeça, ainda que se admita terem sido apenas de uma só pessoa as mãos que o digitaram no teclado de um computador.

Da formulação das ideias ali delineadas, responsáveis pelo maciço apoio empresarial que permitiu a subida à rampa do Planalto, já se sabe ter participado boa fatia do PIB nacional. Disse-o, sem subterfúgios, Emílio Odebrecht. Luís Inácio Lula da Silva, com seu pragmatismo em nada diferente do que ostentam aqueles que ele dizia combater, já reconhecera: impossível mudar o cenário, para manter-se no poder.

Deu no que deu.

Antes, o mensalão levantara as primeiras suspeitas de que algo não cheirava bem no reino. Infelizmente, não no da Dinamarca. Disso dou testemunho pessoal, eis que me alinhei com a minoria de membros do falecido CDES- Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, mais tarde conhecido (quem sabe até jocosamente) como Conselhão. Foi a percepção de que não havia a menor intenção do governo em esclarecer os fatos e, depois, de oculta-lo quanto e enquanto pudesse, que me levou a deixar aquele colegiado. Não sem a sensação de perda e desesperança. Perda quanto à oportunidade que parecia apresentar-se, de caminharmos para a segura e progressiva redução da desigualdade que muitos proclamavam combater. A desesperança resultou da decepção com a conduta de muitos dos que se diziam comprometidos com o aprofundamento da democracia e o fortalecimento das relações com o povo. A defesa dos interesses populares, portanto, como móvel da ação desses agentes.

Uma a uma, as esperanças se foram dissolvendo, mesmo as que pensávamos sólidas. Afinal, comprovava-se que tudo que é sólido desmancha-se no ar.

Poucos os que conseguimos ver na Carta aos Brasileiros o documento-fundador dessa nova fase de um processo que parece ter seguido seta com direção invertida.

Seguiu-se a adoção de medidas que tiraram milhões de brasileiros do estado de indigência, alimentaram nova imagem do País no exterior, reacenderam esperanças que pareciam sepultadas. Ao mesmo tempo, os números da economia aproveitaram os bons ventos vindos do exterior, avançaram sobre as florestas, o subsolo e as águas, assegurando ganhos jamais experimentados na história deste País (para ser fiel ao condutor-mor). Isso nos levou ao registro de ainda maior desigualdade: os ricos ganhando proporcionalmente mais do que os pobres vinham recolhendo das políticas oficiais.

A constatação de que sem subserviência aos ricos, impossível aquinhoar (miseramente que seja) os mais pobres pôs-se em prática como jamais. E a situação é a que hoje experimentamos.

Quase ninguém destaca a importância do conluio entre grandes capitais e governo. Enquanto isso não for posto sob o foco da opinião pública e mobilizar os movimentos paralisados pela criação de nova classe de pelegos e de organizações aparelhadas, pouco restará, se de esperanças estamos falando.










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Observador Participante

Dr. José Seráfico