Observador Participante

Marcha da insensatez - Em 08/12/2019

Em meio à confirmação da subserviência que marca as relações dos demais poderes republicanos ao Executivo, se há de destacar gesto capaz de mostrar que sempre será possível resistir. Nenhum brasileiro de boa índole pode ter os olhos fechados para a marcha batida em direção a um regime autoritário. As ameaças sequer se escondem. Ao contrário, elas crescem e se mostram a cada nova aparição dos atuais donos do poder.

Ora fala-se em fechar o Supremo Tribunal Federal usando apenas um jipe e dois soldados. Ora anunciam-se medidas destinadas a garantir a impunidade de assassinos que empunhem armas pagas com o dinheiro do contribuinte. A caminhada trágica há muito foi iniciada, mas só agora começa a preocupar certos setores menos atentos. Até que chegamos á reiteração do desejo de ressuscitar o que de mais sórdido e perverso este país experimentou - o Ato Prostitucional (assim o apelidou o advogado paraense Alarico Barata, defensor de muitos dos perseguidos pela ditadura) nº 5.

Antes mesmo de se instalar o atual governo, as mensagens não anunciavam menos que esses propósitos. O apego às armas, de que a fotografia do Presidente ensinando uma menina a usar um revólver é símbolo, encontrou nesse artefato produtor de morte a panaceia que curará todos os nossos males. O projeto de armar cada brasileiro e assegurar a imunidade e a impunidade criminal de quantos a detenham, igualmente, continua de pé. À exceção dos que, portando-a, negam-se a apoiar tanta sandice.

Mesmo a recusa do Congresso em validar todas as medidas características de um Estado policial de nada adiantará, se toda a sociedade não se mobilizar. É nesse contexto que vejo a decisão da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, de estimular a Polícia Militar a apreender armas. A recompensa financeira aos funcionários públicos fardados foi o modo encontrado pelos deputados, em unanimidade, na tentativa de reduzir a violência no Amazonas.

Ainda que se possa discutir se a legitimidade da omissão em apreender as armas que infernizam a vida de tantas famílias e de toda a população amazonense, há de ser reconhecido o mérito da decisão dos deputados. O que os agentes públicos não fazem, porque seja dever de ofício, podem fazê-lo por assegurar algum ganho monetário.

A opção da Assembleia Legislativa destoa da orientação do governo federal, sobretudo pela visão dos que pouco se interessam pelo sofrimento da população. Quando mães e pais choram a perda de seus filhos por alguma bala considerada perdida, os matadores cumprem triste tarefa e jamais coincide seu julgamento com a dos familiares das vítimas. Para esses agentes, cada cadáver representa o símbolo da missão a que se devotam. Difícil admitir que algum deles ignore quanto o instituto da legítima defesa os protege. Como protege qualquer outro cidadão, armado ou não.

O que o governo pretende, porém, é alargar de tal sorte a legítima defesa, como se a letalidade de um pedaço de pau fosse a mesma de uma arma de fogo. Também já não há surpresa ver um ex-magistrado absolutamente distanciado dos ensinamentos de Cesare Beccaria e entusiasticamente defensor da lei de Talião. Ele deve considerar-se mero operador do Direito. Seus atos e opiniões pelo menos atestam isso.

Quem nos dera a decisão da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas reverberasse em outras unidades da Federação! Talvez se estancasse de vez a marcha dos insensatos.


Piadas de mau gosto - Em 30/11/2019

Humoristas existem para fazer-nos rir. Uns mais, outros menos, o certo é que sem certa dose de ironia e inteligência não se faz humor competente. Excluindo-se o Ceará, talvez o mais produtivo dos Estados brasileiros nesse particular, por todo o Brasil encontram-se humoristas competentes.

O humor, como tudo na vida, tem lugar e hora. Quando ele é feito cercado de tristeza ou mal-estar, dificilmente agrada à plateia. Quando é hora de tratar-se com austeridade e comedimento, geralmente não cai bem. Pode até desencadear a vaia generalizada.

Imaginem, agora, o humor que só agrada a um lado da plateia! O outro lado negará seu sorriso, que dirá a gargalhada!

A situação se torna mais grave, quando o pretenso humorista pisa e repisa piadas antigas. Ditas do alto da cátedra, como ordem emitida para o cumprimento dos subordinados, pior ainda.

É assim que podem ser encaradas pelo menos duas das mais aviltantes anedotas (porque de outra coisa não se pode chamar a nenhuma delas) produzidas pelo sinistro da deseconomia, Paulo Guedes.

A primeira diz respeito à intenção de tributar o salário-desemprego, a pretexto de estimular a criação de novos postos de trabalho. (Já nem se leve em conta a proposital confusão entre ocupação e emprego, disseminada pelos canais oficiais). Há quem veja nessa proposta pura maldade. Há quem a considere um erro do governo. Há, ainda, os que a entendem perfeitamente adequada à lógica que preside as políticas públicas, em especial as de ordem econômica (tributos, preços, salários etc.) impostas pelo neoliberalismo. Difícil, qualquer a consideração que se der à proposta, é descobrir o que está oculto na intenção ora malévola, ora apenas equivocada.

A outra proposta, se não decisão já posta em funcionamento, refere-se à possibilidade de o titular de conta no FGTS receber o valor correspondente à parte (fixada em R$ 500,00) do saldo. Não está aí a piada de mau gosto. Sabe-se dela pela ofensiva ousadia (maluquice certamente não será) dos formuladores: a necessidade de o trabalhador manifestar-se sobre seu desejo de receber ou não essa importância. Se ele não se manifestar, a devolução do valor para sua conta será feita após meses da migração anterior. Mandaria a menor inteligência que a parte deveria ser destacada do saldo somente com a autorização prévia do titular da conta, não o contrário. Caso dada a autorização por quem de direito, o valor seria sacado, sem outra providência que a ida ao estabelecimento depositário do FGTS.

Se bem me ocorre, pode ser até discutível a legalidade do débito efetivado na conta do trabalhador, à sua revelia. No caso, agravada com verdadeira apropriação indébita, eis que, salvo casos especiais autorizados em lei (financiamento de programas de habitação, por exemplo), tal situação ilegal se constituiria.

Se o sinistro da deseconomia pretendeu fazer-nos rir, que ria sozinho. Os trabalhadores têm aí mais razões para chorar.



Mal contadas - Em 25/11/2019

Há histórias mal contadas, para as quais nem sempre a sociedade está atenta. Talvez o costume das fake news concorra para naturalizar o fenômeno, como se ele fosse semelhante às marés e aos eclipses. Sendo a Política o ambiente em que os indivíduos têm a maior oportunidade de manifestar e defender sua vontade, também seria natural colocar tudo que lhes diz respeito sob o foco máximo de nossa atenção.

Não é assim que os fatos se passam. Alguns fingem nada perceber. Outros dizem-se "apolíticos", negando-se a si mesmos a condição de humanos, se válida a sentença de Aristóteles: o homem é animal essencialmente político. Todos fingem abominar a política, mas vão buscar seu sustento - quanto mais abastado, melhor - nela mesma.

Há ainda os que percebem e o confessam, além dos que, confessos tentam através de mentiras convencer os demais. Assim é no reino da Política, geralmente miniaturizada o tamanho da letra inicial da palavra.

Dessa torção proposital e forçada da realidade vem parte do êxito dos líderes populistas. Aproveitam-se da simpatia despertada no seio dos apoiadores, ampliam sua base de sustentação em mentiras nem sempre bem-elaboradas e passam a oferecer cala-bocas logo desmentidas pelos fatos.

Nesse particular aspecto, Luís Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro se equivalem. Ambos dispõem de certo estoque de carisma. Cada qual a seu modo, todos eles sabem dirigir-se ao público que lhes interessa. Populistas no pior sentido, eles sabem o que devem prometer aos seguidores, em geral fanáticos. Ao longo do tempo, porém, falta chão que sustente as promessas, mesmo quando elas aparentam a iminência de cumprimento.

São inegáveis alguns resultados imediatos de políticas públicas que reduziram a pobreza no País, adotadas pelos governos Lula e Dilma. O grande exemplo está no programa Bolsa-Família, um avanço em relação às bolsas diversificadas que dona Ruth Cardoso inspirou ao marido. Mas é esse mesmo programa que serve agora, aos comentários de que nos ocupamos.

Das decisões de Lula, mesmo Bolsonaro não ousou criticar o Bolsa-Família. Ao contrário, anunciou antes de eleito que o pagamento do 13° mês de bolsa seria concedido a todos os beneficiários. Justo, portanto, que todas as famílias esperassem recebe-lo este ano.

Anuncia-se, porém, que os cofres oficiais não dispõem de recursos. A promessa frustra-se como se frustrou a permanência dos pobres beneficiados pelos governos Lula e Dilma no patamar mais digno que estes lhes atribuíram.

Ao fim e ao cabo, constatam-se os prejuízos que a falta de um projeto de nação e a atenção toda voltada para o próprio umbigo das lideranças nada traz que aproveite ao povo em caráter permanente. Tudo flui ao sabor das ondas eleitorais e dos interesses dos que sempre ganharam. Ganhar com eles parece o lema de todo populista. O povo que se lixe!

Logo dirão alguns que o fenômeno é mundial. Os mais recentes exemplos, neste pedaço americano do mundo e mesmo na Europa indicam insatisfação de crescentes multidões, com o destino a que foram levadas: a pobreza. Igualmente, desagrada, aqui e lá, o fato da extraordinária e acelerada acumulação de riqueza nas mãos de tão poucos.

Por que isso não basta para questionarmos as formas como se dão as relações humanas, sobretudo as que implicam os fatos econômicos?

Cresce o número dos que sentem ser a desigualdade o pior mal social com o qual convivemos. Falta dizer porque ela se produz.

NB: Este artigo estava elaborado, quando o Ministro da Economia desmentiu o que dissera o Presidente. Então, o texto se mantém atual, até que os bolsistas ponham a mão no dinheiro.


Sem brioches, balas (Em 16/11/2019)

O mundo se alvoroça, mas a desigualdade persiste. Aprofunda-se, até. Para os que costumam justificar toda maldade feita contra os pobres, os números parecem ter deixado de interessar. Frequentemente preferidos aos sentimentos e valores que se dizem próprios do ser humano, os algarismos perdem sua validade, sempre que revelam a perversa sociedade que construímos.

Os mantras numéricos cederam lugar a outro tipo de mantra, sucedendo-se uns aos outros ao sabor dos interesses e da voracidade dos acumuladores. Enquanto estes acumulam dinheiro e bens, os outros acumulam sofrimento e luto.

A distância guardada entre os que tudo têm e mais querem e os que nada tem e nada lhes é propiciado, tende e aumentar. Para isso são tecidas as chamadas políticas públicas, cuja qualificação só corresponde ao ponto do qual são emitidas - o Estado. A captura deste pelos interesses dos de cima não apenas ameaça a própria sobrevivência do Planeta, quanto o cotidiano de cada indivíduo.

Estão aí para dizê-lo as condições ecológicas de quase todas as regiões do Mundo, feitas mero depósito de recursos naturais aptos a servir ao capital. Não importa para os donos do Mundo, aquele 1% que acumula mais que outros 50% dos terráqueos, a condenação à morte da maioria de seus contemporâneos.

Por isso, juntam-se aos povos da América Latina outros nacionais, espalhados por quase todos os continentes. É disso que nos dão conta a Síria e o Líbano, o Afeganistão e o Iraque, a Turquia e a Grécia, o Equador e a Venezuela, a Bolívia e a Argentina, o Peru e a Hungria, a Polônia e Hong Kong, porque os mais presentes nos media. Em todos eles, e em muitos outros mais, onde quer que o credo neoliberal tenha sido posto em prática, outros não têm sido os resultados: crescente desigualdade e claro retrocesso político e humano. (Não fosse o homem um animal essencialmente político, segundo o concebia Aristóteles).

Mais lentamente do que seria desejável, começam-se a ouvir vozes nomeando o maior e mais grave (o mais urgente, também) dos problemas para os quais devemos todos dar atenção - a desigualdade. Antes, os caridosos em busca do paraíso post-mortem punham a pobreza no rol de suas preocupações. E se danavam a contribuir com obras desse ponto de vista meritórias. Nada capaz de afetar suas relações com os construtores de suas fortunas, os que regam com o próprio suor o jardim do enriquecimento de que os caridosos se apropriaram.

Ainda persiste, porém, a crença de que a reivindicação por uma vida digna deve ser reprimida à força das armas. Não sendo interessante dar pão a todos, que sigam o conselho de Maria Antonieta e tratem de comer brioches. Como os brioches estão em falta, talvez balas de ensaio ou balas de metal possam responder aos que têm fome. É isso o que se tem testemunhado, nestes tristes dias que vivemos.


A moeda e seus lados - em 09/11/2019

O de que mais o Brasil precisa hoje é paz. O nível da polarização a que chegamos não nos recomenda ao respeito e à admiração da sociedade mundial. Além dos números inexpressivos ostentados nos índices que medem o bem-estar do povo e as práticas sociais comuns, pesa contra nós a proximidade com a barbárie, não com a civilização.

À violência recorrente e constrangedora soma-se certo desprezo pelo cultivo de valores, de alto a baixo da hierarquia social. Assim, nossa desafiadora desigualdade torna-se escandalosa e gera nos estrangeiros sentimento que em nada concorre para fazer-nos uma nação respeitada.

Talvez tenhamos chegado à extrema hostilidade entre facções distintas do nosso cenário político, sem sequer nos darmos conta da gravidade que as relações sociais foram absorvendo. O clima de Fla/Flu que atrai os torcedores desses dois clubes brasileiros estendeu-se por todo o tecido social, não poupando as relações sociais em todos os seus ambientes. Generalizou-se, então, um tipo de conduta que reduz as pessoas à condição de meros seguidores, incapazes de pensar por si mesmas ou fazer escolhas com alguma dose - mínima que seja - de racionalidade. Ao invés de uma população, rebanhos obedientes às ordens de boiadeiros diferentes.

O resultado aí está. Só não o enxerga quem já perdeu totalmente o discernimento.

Na última sexta-feira, o julgamento de Ação de Declaração de Constitucionalidade, pelo Supremo Tribunal Federal fica registrado como algo extraordinário. Como se não coubesse àquela instância de nosso Poder Judiciário, dirimir dúvidas sobre a interpretação de matéria constitucional. Tudo porque, temos que convir, decisão casuística anterior havia violentado a Constituição - dita por Ulysses Guimarães cidadã.

Poucos, fora dos círculos a que se integram os beneficiários diretos da decisão, entenderam o conteúdo dela, menos ainda que ali se estava corrigindo e sanando um atentado contra a Carta Magna.

Diferente do que muitos alegam, os magistrados não fizeram favor a nenhum dos presos sem coisa transitada em julgado. Afinal, deve ser entendida como beneficiária da decisão do STF toda a sociedade brasileira, que já não tem razão para sentir-se ameaçada pelo desrespeito a mandamento constitucional.

Isso não assegura a absolvição de qualquer dos envolvidos nos fatos que a Operação Lava Jato apurou, às vezes cometendo delitos igualmente puníveis. Nem implica a defesa dos corruptos, sabendo-se desde logo que o processo permitiu observá-los dos dois lados da banca: denunciados, investigadores e julgadores são diferentes apenas pelo tipo de delito que praticaram. O simples fato de que pessoas começaram a pagar as penas quando ainda não se esgotou a presunção de inocência diz tudo. Esse ponto, talvez, o mais destacado na justificativa de voto do Decano do STF, Ministro Celso de Mello.

De tal maneira avançou a caminhada em direção à barbárie, que cada cidadão quer ter uma Constituição de uso pessoal. Aprofunda-se a crença por todos os títulos nociva e geradora de ódio, em que a lei boa é a que pune nosso inimigo; é má se nos pune. O jornalista Reinaldo Azevedo, recém-convertido, lembra que todo cidadão tem direito a manifestar sua opinião. Trata- se de uma escolha pessoal. Não tem, entretanto, uma Constituição só para si mesmo.

Haverão alguns de concordar comigo: a deterioração de nossos costumes políticos trouxe-nos a uma situação difícil de concorrer para a pacificação de que tanto precisamos. Sobretudo, porque de um lado e do outro estão as faces da mesma moeda.

Resumo: Lula precisa de Bolsonaro, tanto quanto este precisa do Ex-Presidente. Os outros... bem, são os outros. Eleitores fáceis de enganar.


A morte e a morte dos outros - Em 02/11/2019

A banalização de tudo traz males que nem todas as pessoas são capazes de perceber. Sempre que se admite o absurdo, abre-se um pouco mais a porta de entrada para o que se tornará regra. A absurdez da coisa desaparece, na voragem desencadeada após a primeira manifestação do inusitado ou inédito. É assim que se vão perdendo as referências e adotando práticas e costumes aparentemente surreais.

Dado que a realidade é construída pelas pessoas, pouco a pouco ela se vai alterando, muitas vezes sem que a maioria se dê conta da mudança. Chega o dia em que a sociedade defronta situações bizarras e indesejáveis e se diz tomada de surpresa.

Fenômenos sociais acabam por ser apresentados como absolutamente determinados pela natureza. Para exemplificar: cada indivíduo é um e único, sendo portanto todos diferentes, uns dos outros. Por isso, pretender torna-los iguais é uma ofensa à natureza. Nascemos desiguais, desiguais deveremos ser ao longo de nossas vidas, durem pouco tempo ou sejamos longevos. É esta a tese dos que são hostis a qualquer forma de igualdade.

Tudo se agrava, porém, quando tal hostilidade se estende à sociedade e às instituições que ela, bem ou mal, criou na tentativa de reduzir ou eliminar os conflitos de classe. Os mesmos que concorrem para a criação das regras de convivência social (a Constituição a mais importante delas) são os que tratam de desconstruir sua própria obra. Ou encontram na captura do poder do Estado a alternativa mais fácil. Então, dá-se ao ente estatal o papel de reprimir qualquer ameaça de dissidência. Quando a dissidência já se instalou, não peja aos paladinos da desigualdade apelar para outros meios, qualquer o nível de violência de que eles sejam capazes.

Houve tempo em que todos lamentávamos a influência do tráfico de narcóticos nos negócios da Colômbia, seja na economia privada, seja no âmbito oficial. Causava-nos mal-estar o que ocorria naquele país amazônico, desafiando nossa compreensão e exigindo análise consequente e desejável. Era como se estivéssemos para todo o sempre imunes à contaminação. Eles que se houvessem com seus problemas, que nós trataríamos dos nossos. Em suma: ignorá-los e fingir que não sabíamos das agruras por que passavam os irmãos de lá foi a regra.

Hoje, passamos pelos mesmos problemas por eles experimentados em passado ainda não de todo superado.

Em grande medida, o tráfico de drogas ficou tão banal, que parece constituir herança de milênios. Quem sabe um desafio lançado desde o Olimpo, nos raios desencadeados por Zeus!

Não é só o comércio e o consumo de narcóticos que se banalizou. A morte como resultado da ação dos homens, antes reservada aos conflitos armados entre nações, passou a ser encarada como fenômeno tolerado, mesmo quando não corresponde a algum dos muitos males a que está sujeito qualquer organismo vivo. Ao contrário, ela passa a ser defendida como solução de muitos dos problemas enfrentados pela espécie humana. Pelo menos, solução desejável por parcela dessa comunidade ainda por ser compreendida.

Não bastaram os diversos genocídios registrados na História, de que a matança de seis milhões de judeus pelos nazistas terá sido o mais divulgado. Não se deve esquecer, porém, o sacrifício de outros povos e nações, como os curdos, os ruandeses, sérvios etc.

Concorre para desenhar o horizonte histórico, sempre, o silêncio diante de ameaças nem tão veladas ou implícitas, na primeira fase desse processo. Manifestam-se desejos e propósitos aparentemente individuais, quando os proclamadores não são menos que porta-vozes dos segmentos a que se vinculam. Gradativamente, as ameaças se repetem, ganhando vigor e arregimentando as minorias ensandecidas. Até que o silêncio da maioria é vencido pela militância dos outros, sem que a reação devida e necessária já seja possível.

É para essas ameaças, sobretudo as que não conseguem esconder-se, que todos devemos estar atentos. Da resposta dos que amam a vida é que se saberá quanto nos ameaça o culto da morte. A dos outros, de preferência...


Conceitos em xeque - 6 (Em 27/10/2019)

A tal aldeia global preconizada por Marshall Mac-Luhan passou da virtualidade à realidade. Como esperar que isso não impacte sobre a vida das nações? Possível é, ainda que os custos sejam muito maiores que participar da rede. Nesta, os capitais transitam com velocidade e volume jamais experimentados. Uma boa parábola diz que o capital dorme em uma nação, acorda numa segunda, almoça em outra nação, janta numa quarta. Isso tudo, no mesmo dia. Em seu rastro, as operações financeiras intrometem-se na economia dos países, destroem outras iniciativas, reerguem terceiras experiências, influenciam decisões governamentais.

Não precisa ser dotado de excepcional percepção, nem ter frequentado as mais reputadas universidades do Mundo, para saber quanto isso tem alterado o rumo de países inteiros e de suas populações.

Praticamente, consuma-se o que o pastor e poeta inglês John Donne (sec. XVII) disse: homem nenhum é uma ilha. Igual pode-se dizer das nações, mesmo se geograficamente apenas algumas o sejam.

Chego até aqui, para propor que o conceito de soberania leve em conta esse cenário. O que um especulador pode fazer, transferindo capital num só dia, anularia qualquer tentativa de preservar a soberania nacional, armada ou não.

Em que consistiria, portanto, a soberania nacional, se dizer assim ainda fosse próprio? Como entender tal conceito, diante da força avassaladora do capital e ao seu tráfego a um só tempo trêfego e velocíssimo?

Eis mais um dos conceitos que me parece dignos de ser reavaliados. Para encontrar novas bases e compensar as perdas que a transfusão fugaz de capitais provoca.

Agora mesmo, as autoridades brasileiras enfrentam um problema que beira o mistério. Naquilo que a propaganda oficial chama Amazônia Azul, a faixa de mar considerada território nacional, ocorreu derramamento de óleo cru. Todos estão atônitos, diante das consequências sobre o ambiente e a saúde das populações, ao longo do trajeto que vem sendo percorrido pelo agente poluidor. Até o momento, tudo não passa de especulação, embora depoimentos de cientistas e outros especialistas no assunto tentem explicar as causas do problema. Não tem faltado também o viés ideológico para, como sempre acontece, deixar mais distante um diagnóstico honesto e promissor.

Terá sido atingida a soberania nacional? Como dizê-lo, se a guarda do mar brasileiro, da Amazônia Azul, está sob a responsabilidade da Marinha de Guerra nacional?

Ainda que não tenha faltado a atenção da Armada, e sua presença seja constante ao longo do litoral brasileiro, só isso bastaria para assegurar a manutenção da soberania nacional? Como, se o tráfego de capitais se faz à revelia dos poderes dos Estados nacionais e nada impede sua marcha? Onde estaria a soberania, nos termos desatualizados em que o fenômeno é conceituado, se mandatos populares são vendidos, se especuladores manejam os mercados nacionais, mercê da enorme mobilidade financeira que caracteriza seus negócios?

Assim, a revisão do conceito de soberania - também ela - é uma imposição do próprio avanço tecnológico.

É duro saber que nossos interesses, nossos territórios, nossas populações, nossas riquezas naturais (águas, florestas, fauna etc.) despertam a cobiça de outras nações. Mas isso é constatação antiga, tantas vezes repetida e denunciada pelo professor amazonense Arthur César Ferreira Reis.

Desde a década dos 50 do século passado, o ex-governador do Amazonas proclama essa cobiça. A rigor, pouco foi feito para tornar os brasileiros senhores do conhecimento sobre a região e dotá-la de mecanismos capazes de impedir o exercício dessa cobiça.

O INPA é o exemplo mais evidente da primeira condição. Já o segundo tem no SIVAM seu instrumento mais divulgado.

A pergunta é: isso basta para repelir eventual ameaça à nossa soberania, enquanto a moeda corre à solta, percorrendo vários países, do nascer do sol até o crepúsculo?

Ademais, qual a nação que conseguirá, guardados os limites e a obsolescência do conceito, manter sua soberania, face às nações detentoras da bomba atômica?

Enfim, pelo menos a discussão do tema deveria constar da permanente dos governos nacionais.


Conceitos em xeque - 5 (Em 18/10/2019)

Deve-se chegar ao ponto de questionar até o conceito de democracia. Se o sistema político que Churchill considerava o pior de todos, salvo os demais, não adota o lema dos franceses de 1789, inviabiliza-se a adoção dele. Mesmo em países desenvolvidos, o processo de acumulação tem excluído porções crescentes da população do gozo e desfrute da riqueza acumulada. Isso resulta na crescente desigualdade por que passa o mundo, em termos nacionais, tanto quanto dentro de cada nação, entre seus habitantes e suas regiões.

É também da desigualdade que decorrem as restrições à liberdade e o consequente comprometimento do clima fraterno inscrito nos ideais revolucionários - de 1789.

Como considerar democracia uma nação que exclui expressiva massa de seus habitantes? Como esperar que a liberdade seja possível, diante da submissão da maioria pobre ou em acelerado passo em direção à pobreza, quando o poder político guarda enorme intimidade com taxa de acumulação dos mais bem aquinhoados? Como, pois, superar as hostilidades recíprocas que um tal ambiente social desencadeia entre as classes sociais? Quer-se dizer, aqui, que a fraternidade pregada soa como evidente hipocrisia.

Discuta-se, portanto, em que consiste a democracia e como realmente chegar a ela. Que ela hoje se afigura parente remota da democracia da ágora grega, ninguém pode duvidar. Que ela não se parece, porém, com a proposta dos revolucionários franceses, igualmente.

Teremos, pois, que reformular nosso conceito de democracia, se é que a desejamos sinceramente.

A Grécia Antiga, de onde procede o que chamamos democracia, excluía do processo de escolha dos governantes as mulheres, os escravos e os não-proprietários. Ao longo da história, porque o ambiente social se foi modificando, o conceito também ganhou novos contornos. Nunca é demais lembrar que grande parte das nações e Estados modernos só admitiram o voto feminino no final do século XIX e no século XX.

Curioso, nem por isso desimportante, é observar que Aristóteles não nasceu em Atenas, por isso não tinha direito a voto. Como ele, Diógenes, o que andava dentro de uma barrica e ostentava um archote para iluminar seus caminhos.

Os tempos iniciados com a Revolução Francesa testemunham, também, o desenvolvimento capitalista. Com este, a expansão do mercado, não apenas do ponto de vista geográfico, físico. Se os negócios hoje alcançaram escala global, na situação que os especialistas chamam transnacionalização, o próprio conceito de sociedade foi alterado. A voracidade do capitalismo invade áreas antes reservadas a outras espécies de relacionamento que não as transações entre oferta e procura, para atribuir valor de venda a mercadorias, sejam produzidas pela natureza ou pelos homens.

Observa-se, diante disso, certa lógica em chamarmos sistema de mercado, este prevalecendo sobre o conceito de sociedade. Ali onde existam seres humanos relacionando-se entre si, ali estará o mercado. Onde quer que essas relações se estabeleçam, o que significa dizer: no Mundo inteiro.

Qual a grande arma de que se vale esse espaço em constante expansão, dentro das nações - de qualquer nação? O dinheiro.

Já nem é preciso ostentar uma arma de fogo, para ameaçar populações inteiras e torna-las dóceis aos propósitos dos acumuladores de capital. Disso dá testemunho o intenso tráfego, nação a nação, em lapsos de tempo cada vez menores.

Esse dinheiro, trêfego como se sabe, compra desde commodities até consciências. Ora, se o exercício político tem a ver com a vontade dos indivíduos, a força do dinheiro acaba por estimular, atrair e favorecer certo mercado em que tal vontade pretenda manifestar-se. O voto, por exemplo, passa a ser (termo indigesto, mas usual nestes sombrios tempos) precificado.


Conceitos em xeque - 4 (Em 12/10/2019)

Na teoria marxista, que leva em conta a permanente e inarredável luta de classes em qualquer e todo grupo social desnivelado, o Estado é o instrumento de que se valem os poderosos para oprimir a vontade dos demais grupos. Os mais bem aquinhoados com recursos muitas vezes provindos da própria natureza, tomariam para si o controle social e o poder, sua vontade prevalecendo sobre as dos demais membros do grupo.

Assim, o Estado não seria mais que (na sociedade burguesa pós-Revolução Francesa) o mecanismo usado pela burguesia para exercer efetivamente o poder.

Uma forma e outra de analisar o problema, todavia, não desmentem o caráter regulador do ente estatal. A diferença se estabelece, portanto, apenas quando se observa em proveito de qual dos dois polos em confronto são exercidas as funções do Estado.

Desejemos ou não, os valores a que se referem as decisões governamentais são capazes de permitir a identificação dos grupos dominantes - se devotados à tarefa de oferecer oportunidades a todos ou se, ao contrário, interessados em favorecer sua própria classe. Canhestra, porém, longe de ser inexata, essa equação parece estar muito mais próxima da realidade que qualquer outra, qualquer que seja a sociedade.

As três palavras quase mágicas que embalaram os destruidores da Bastilha - liberdade, igualdade e fraternidade - foram facilmente esquecidas. O afã de apropriar-se de tudo quanto fosse possível, oriundo da natureza ou do trabalho humano, tem impedido a colimação dos objetivos revolucionários.

A trilogia revolucionária, não esqueçamos, traduz aspirações burguesas, desde que a monarquia absolutista ruiu. Já não são mais os reis, a nobreza que os cerca e o clero que lhes empresta o sopro divino os mandantes. Mais à frente, a Revolução Industrial acrescentou e destacou a diferença entre os que possuem os bens de produção e os outros - aqueles que se prestaram com seu trabalho a enriquecer os primeiros.

As tentativas de estancar o desenvolvimento capitalista ou encaminhá-lo por outras estradas mostraram-se infrutíferas. Disso dá testemunho a dissolução da União Soviética, antecedida pelo espetáculo da queda do muro de Berlim.

Não é que faltasse alternativa ao suposto socialismo praticado sob a tutela da URSS. A socialdemocracia poderia constituir a terceira via, dirão alguns. Não se há de ignorar, entretanto, que mesmo as conquistas nos países social-democratas têm recuado expressivamente, sobretudo depois da implosão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A corrida pelo pote de ouro, assim, surge como processo inerente ao capitalismo. A ânsia e o empenho por acumular cada vez mais sepulta qualquer ilusão a respeito do lema da Revolução Francesa.

Ademais, a globalização facilitou e potencializou o papel da propaganda, sequer tendo condições de torná-la instrumento apto a esclarecer a sociedade sobre sua própria vida. Na contramão disso, presta-se a iludir as massas e fazê-las hostis à reivindicação de condições a que se imaginava constituírem sua aspiração.

Quem sabe é chegada a hora de reconceitualizar as três palavras mágicas propostas pelos revolucionários franceses?


Conceitos em xeque - 3 (em 05/10/2019)

Equacionado o problema que envolve o conceito de natureza em si mesma, e as relações do homem com ela, passemos para a seara do mundo social. Do ambiente nascido da interrelação entre os humanos. E, também, do ponto de vista deles, face ao meio físico que os circunda.

É da sociedade, portanto, que começamos a tratar agora. Das diversas e possíveis maneiras de serem reguladas essas relações e de como elas se têm configurado, ao longo da história. Desde logo advertindo que as leis decorrentes desse contato recíproco têm, por natureza, o caráter societário do homem dito inteligente. A tal ponto, que os existencialistas negam a possibilidade de o ser biológico chamado homem realmente o ser, fora do convívio com os seus semelhantes. Daí a recusa da expressão essência humana, enquanto algo preexistente ou inato.

Ao contrário, para os existencialistas a essência humana é uma construção que só se realiza durante a existência do homem, gradativamente adquirida. Construção que acompanha toda a vida do indivíduo e dá razão a Ortega y Gassett, para quem o homem é ele e suas circunstâncias.

Ora, sendo as circunstâncias, quase sempre, produto das próprias relações sociais, serão tão mutáveis quanto aquelas. Isso só bastaria para mostrar um dos constrangimentos a que se submete todo ser humano - a permanente mudança em suas relações, sociais e naturais.

Neste caso, algumas perguntas podem ser logo levantadas: qual a consideração que o homem e seu grupo dispensam aos seres da natureza que não lhes são semelhantes? Quanto o homem ou o grupamento humano (populações inteiras ou a maioria de alguma delas) tem concorrido para promover alterações no ambiente físico que o cerca? Quais os impactos dessas intervenções na configuração física da paisagem em que transita o homem?

Talvez até milhares de indagações possam ser suscitadas. Por enquanto, bastam essas, para revelar as bases em que se assentam os conceitos e avaliar da necessidade de serem modificadas percepções mantidas durante mais ou menos tempo.

Se a pretensão dos seres humanos coincide com o domínio da natureza e sua apropriação individual dos bens que ela ostenta, certamente a conduta será uma. Se, ao contrário, a percepção indique certa cumplicidade com a natureza, porque dela é extraído mais que o oxigênio que todos respiram, a conduta seguirá rumo significativamente diverso.

Uma das instituições engendradas pela sociedade humana, o Estado, só ocorreu depois da superação do nomadismo. Quando o grupo se fez sedentário e passou a ocupar um território em caráter permanente, aí tornou-se indispensável criar mecanismos de mediação e gestão dos recursos comuns. E dos conflitos que em torno desses recursos se desenvolvem.

Dada, porém, a diversidade de percepções e de aspirações individuais, a sobrevivência do grupo não seria possível sem a presença de uma entidade abstrata. A ela chamamos, indiferentemente, de Estado.

Como, pois, foi criado esse novo ser institucional?

Há controvérsias também no conceito de Estado, segundo as percepções diferenciadas. Para os conservadores, geralmente vinculados às teorias jurídicas, o Estado não passaria da "organização política de um determinado povo, ocupando determinado espaço".

Mesmo que os divergentes o desejem, se há de reconhecer algum grau de precisão nesta expressão. Primeiro, porque território e povo (o que constitui a nação) não são excluídos, seja qual for a teoria abraçada. Depois, por estarem abrangidas, simultaneamente, duas importantes variáveis do fenômeno - a natural, o território; a social, o homem.

Não há convergência, todavia, quando se trata de especificar ou estabelecer o papel do Estado. Nem as condicionantes políticas que o informam e sustentam.

No primeiro caso - a abordagem jurídica - o Estado se revestiria de caráter neutro, uma espécie de juiz máximo de todas as relações sociais operadas dentro de seu espaço. No outro, mero instrumento da imposição da vontade de determinado grupo.

Enquanto um dos conceitos abstrai a vida social, a dinâmica determinada pelas relações sociais, a outra vê presente, sempre, a luta pelo poder. Ou seja, a vontade de uns, face à vontade de outros. O primeiro plano em que tal divergência se revela é na disputa pela apropriação da riqueza, a partir das que a Natureza oferece a todos. Depois, as outras, resultantes dos arranjos produtivos que não podem dispensar a contribuição do trabalho.

Perguntar por que o Estado renuncia ao seu dever de aquinhoar o trabalho com generoso quinhão de tudo quanto é produzido se faz pertinente. Assim, com a reconceituação do Estado, há de vir a consideração dispensada ao trabalho. Em especial, porque o discurso dos que o fazem mera mercadoria, como um par de sapatos ou um rolo de papel higiênico, tem conduzido ao empobrecimento dos trabalhadores.


Conceitos em xeque -2 (Em 28/09/2019)

Nada das muitas dificuldades por que passa a sociedade humana, neste mal iniciado terceiro milênio, é alheio à vontade dos homens (e mulheres, exigiria um desavisado). Ao contrário, a ansiedade por alterar o cenário natural dentro do qual encontrou lugar, levou os habitantes do Planeta à sensação de sentirem-se todo-poderosos. Mesmo os que acreditam num ser superior, criador de tudo e de todos, arrogam-se o poder de atuar como o suposto deus a que se dizem submissos. Ao mesmo tempo em que contestam os que se negam a crer, atuam em desfavor do que os teria criado.

Pior: dizem-se inspirados pelos poderes divinos e pretendem alterar as condições do Planeta, desde que isso traga ganhos materiais. Mata-se por tudo e se mata por nada - desde que a morte, mesmo a dos seres da natureza, lhes possa de alguma forma beneficiar. Daí o absoluto desprezo pela preservação do ambiente natural do qual procedem e no qual se passará toda sua vida.

Eis, então, o homem posto diante de um primeiro conceito: a natureza. E, conformando-a segundo sua percepção, daí advém o tratamento a ela dispensado. Tanto podemos ser agressivos em relação ao mundo que nos cerca (e por enquanto trato apenas do mundo físico), quanto podemos avaliar quais as consequências de nossas relações com as águas, as árvores, os animais que povoam as florestas, o ar que respiramos. Desde que, será sempre de bom alvitre lembrar, tenhamos claras nossas verdadeiras intenções e os objetivos a que, inspirados por elas, aspiramos.

Atribuir à natureza a culpa pelos males de que padecemos tem sido uma das bases do pensamento(?) que leva ao conceito de desenvolvimento como antípoda da natureza. Uma e outro seriam incompatíveis, prevalecesse essa percepção. Alterar, mesmo à custa da destruição generalizada, tudo quanto se configura no cenário natural, assume função obrigatória, irrenunciável, impositiva.

Não fossem os danos materiais que todos temos reconhecido onde tal despropósito tem operado, avulta uma questão de ordem ética que nem todos parecem perceber. Refiro-me ao extremado egoísmo que subjaz à ação dos predadores (ditos) humanos. Importa-lhes exclusivamente o desfrute de confortável padrão de vida, não o que será deixado ao fim dessa aventura tresloucada para as gerações por vir. A tal ponto a insanidade tomou conta dos cérebros orientados pelo egoísmo extremado, que sequer se dão conta de que entre os que chegarão serão contados seus próprios filhos, netos e demais sucessores.

É como se o mundo fosse acabar ao fim da saciedade de seus mais justos e, também com frequência quem sabe igual, torpes apetites. Esquecem-se de que o mundo acaba e recomeça todo dia. Ninguém vive mais que uma vez. Nem pode levar consigo algo do que, após insano e intenso trabalho de destruição, logrou acumular. Mesmo os faraós e tantos outros iludidos com o próprio poder não conseguiram isso.

Conceituar a natureza como o cenário que conhecemos desde o nascimento talvez nem seja mais importante. Afinal, nascemos sem nenhuma interferência pessoal no próprio nascimento. Mas ver o ambiente que nos cerca e contribuir para que ele, cada dia mais, propicie conforto, segurança e satisfação aos habitantes da Terra, ontem, hoje e sempre, é o que temos a considerar. Trata-se, portanto, de uma reflexão de ordem ética. Se não se presta à contestação do produto que a ciência tem posto à disposição da sociedade humana, pelo menos servirá para orientar a seleção dos problemas sobre os quais o homem aumenta seu conhecimento. E, mais que isso, para fazer de cada avanço tecnológico nada menos que um meio de favorecer a vida sadia na Terra.

Então, a reconceituação da natureza em si mesma, e das relações do homem com ela é indispensável. Já parece até estar passando do tempo. Depõem a favor dessa urgência, dentre muitas outras manifestações (as queimadas amazônicas, o degelo das calotas polares, os tsunamis...), o crescente desdém dos que estão dispostos a sacrificar a vida dos pósteros, para ter facilitada sua própria vida e mantido seu atual padrão de vida.


Conceitos em xeque -1  (Em 21/09/2019)

Toda e qualquer tentativa de entender a sociedade contemporânea estará incompleta, se os avanços tecnológicos ficarem de fora. As profundas e nem sempre duradouras mudanças têm resultado, mais que de outros fatores, da tecnologia. Diariamente defrontamo-nos com fatos abonadores da aldeia global imaginada por Marshall Mac-Luhan.

Talvez nenhum outro pensador terá sido tão perspicaz quanto o professor canadense, na análise do mundo novo que a tecnologia começava a desenhar. A possibilidade de contato entre povos geograficamente distantes pareceu ter reduzido o espaço que os separa. Da mesma forma, dissolveu as fronteiras nacionais, mais sólidas elas parecessem. Hoje, tais fronteiras é que se tornaram virtuais, diante da realidade que a chamada explosão das comunicações determinou. Quase instantaneamente, nossos sentidos são afetados pelas mensagens geradas e transmitidas a milhares de quilômetros de onde estamos.

Como todo invento humano, a tecnologia tem virtudes e vícios. Pode servir ao bem e ao mal. Abre, portanto, mais espaço à preocupação ética, à busca de orientação capaz de revelar a condição humana: somos, realmente, superiores ao chimpanzé?

É de Ortega y Gasset a observação de que não se pode abstrair o Homem daquilo que o cerca. O pensador espanhol é ele mesmo e suas circunstâncias. Como todos os demais seres ditos humanos. Isso não asta, porém, para explicar o Mundo. Menos, ainda, quando o cenário em que toda a espécie atua vê intensificado, expandido e acelerado o processo de mudança. A mudança, já se disse, é a única coisa que permanece, desde o início dos tempos. A mudança acelerada e abrangente, porém, é de tempos mais vizinhos.

As circunstâncias, como se sabe, também são fruto da ação humana. Mesmo se esta ação afeta o cenário natural, ainda aí o papel do homo sapiens é determinante. Se tomarmos o tsunami para ilustrar, não há como admitir a absoluta impotência do homem. Seja adotando conduta preventiva, seja empenhando-se mais e mais no conhecimento do fenômeno, sempre será possível, pelo menos, reduzir os mais trágicos efeitos da onda gigante.

Em suma: hoje, ao contrário de passado recente, dispomos de meios aptos a fazer menores os impactos dos fenômenos naturais sobre a sociedade humana. Abrem-se, portanto, amplas possibilidades para o livre arbítrio. Neste - acredito - está o cerne da atividade política.

Quando Aristóteles considerou da essência do animal dito inteligente ser político, ele elevou a vontade à condição de traço distintivo fundamental entre o homo sapiens e as feras.

A sociedade, portanto, é como a querem os societários. Os que a fazem, mandando e/ou obedecendo, pensando e/ou agindo, falando e/ou calando, gritando e/ou sussurrando. Enfim, executando aquilo que funcional ou pessoalmente cabe a cada um.

Funcionalmente, a conduta do homem se vincula às formalidades prescritas na legislação. Pessoalmente, além destas, os valores processados pelos protagonistas fundamentam o exercício da vontade.

Toda a produção científica e tecnológica, portanto, é obra de seres humanos. Recheia-se, pois, de obediência a duas ordens normativas - uma, as leis gerais inscritas no direito positivo; a outra, ditada pelos procedimentos metodológicos específicos - e à fidelidade aos valores cultivados e cultuados.

O processo histórico, então, ocorre segundo o movimento pendular sugerido. De um lado, as restrições legais ou metodológicas; de outro, restrições éticas. 


Sínodo afirmativo e libertador - Em 14/09/2019

Faltam poucos dias para o início, no Vaticano, do Sínodo da Amazônia. Evento de amplitude mundial, a reunião reafirma o compromisso da Igreja com a busca de solução para os graves problemas sociais de nosso tempo. A despeito de ser promovido pela mais antiga vertente do cristianismo, o evento tem chamado a atenção mesmo de fiéis de outras denominações religiosas.

O interesse de não-católicos decorre menos da coincidência de pautas, que das consequências que o evento pode determinar nas políticas nacionais, mesmo nos países em que o catolicismo não é majoritário.

Concorre, também para envolver expressivos contingentes das outras religiões e das seitas que em algumas delas convivem, a firme liderança do Papa Francisco. Este, desde os primeiros dias de seu mandato, tem dado mostras de seu empenho em recuperar o prestígio do Vaticano e reavivar a mensagem progressista de que se fez símbolo a Teologia da Libertação.

Soterradas pelo retrocesso histórico de que o papado de João Paulo II é emblemático, as premissas e propostas libertadoras enfrentam, hoje, resistência mais aguda e articulada. A onda conservadora, inclinada à adoção de percepções e práticas fascistas, complica a missão de Jorge Bergoglio. Não obstante, com humildade pouco frequente em seus antecessores, o ex-arcebispo de Buenos Aires busca superar barreiras e se tem esforçado para assegurar um mundo em que o amor vença o ódio, a solidariedade sobrepuje a competição.

Interessante observar a fidelidade de Francisco aos preceitos e proclamações do pregador da Judeia, quando outras vertentes substituem os valores por ele divulgados, pelos axiomas e práticas do mercado.

Não terá sido acaso o fato de o cardeal Bergoglio ter lembrado o conceito de um antigo Bispo da Antióquia, Basílio II: o dinheiro é o esterco do mundo.

Assim, sobretudo para os habitantes da Amazônia o Sínodo traz esperanças que se vêm exaurido ao longo destes infelizes décadas em que a libertação desperta suspeitas e provoca e multiplica a violência.



De caso pensado - Em 07/09/2019

Leio, na coluna Sim & Não, que A Crítica publica diariamente, notícia sobre declarações do Senador Eduardo Braga. Segundo o empresário, que foi vereador, deputado estadual, prefeito de Manaus, deputado federal, Ministro das Minas e Energia e hoje representa o Estado na antigamente chamada Câmara Alta, a zona franca enfrenta resistências resultantes do descaso e do desconhecimento.

Perdoe-me o parlamentar, mas há enorme equívoco em sua avaliação. Não se trata nem de uma coisa, nem de outra.

Basta ter acompanhado todo o processo de que os fatos atuais são desdobramento, para compreender onde reside a distância entre os propósitos do Ministro da Economia e o julgamento que deles faz o Senador Eduardo Braga.

Dentre os muitos produtos da ditadura, a Zona Franca de Manaus será, talvez, dos raros que granjearam algum grau de simpatia. Pelo menos, neste pedaço sofrido de Brasil, que a maioria dos brasileiros faz questão de ver pelas costas. Bom número de beneficiários da decisão contida no Decreto nº 288/1967 passa ao largo da tortura feita instrumento oficial, porque isso poderia prejudicar seus ganhos. Esse, porém, é outro problema, não sendo minha intenção discuti-lo agora.

Pretendo, apenas, indicar discordância a respeito do diagnóstico atribuído ao influente político, menos por ser repetitivo (o que não o desclassifica como inadequado e impertinente), que pelos riscos em que incorre.

Primeiro, porque admitir desconhecimento de autoridade coroada com galardões acadêmicos apreciáveis, em si mesmo já se constitui arriscada aventura. Guedes, como se tem propalado, traz sólidos conhecimentos de prestigiada instituição norte-americana. Harvard, não menos. Não é só isso, porém, que lhe atribui informações (no mínimo, essas) sobre os fenômenos econômicos, ocorram eles onde ocorrerem, neste globo que todo dia parece tornar-se menor.

Não faltam ao Ministro da Economia, portanto, condições intelectuais para saber da história econômica, em nível universal. A ele não terão escapado as relações entre países, as alterações passadas pelos Estados nacionais ao longo das últimas décadas, nem as formas com que foram contornados, aqui e acolá, os problemas e as contradições de um mundo em permanente mutação. Menos ainda se pode imaginar ter Guedes esquecido de ler Patrick Tissier. Este economista francês talvez tenha sido o primeiro a registrar a existência de 116 iniciativas iguais ou similares à Zona Franca de Manaus, espalhadas pelo mundo, antes de 1967. A novidade, portanto, nunca o foi.

Em segundo lugar, ver descaso na decisão de liquidar a Zona Franca de Manaus é - aí, sim - desdenhar dos fatores que movem as pessoas, ainda mais quando elas servem aos propósitos de grupos a que se vinculam. Nesse caso, acaba-se perdendo de vista o panorama mais amplo, o que empobrece a análise e a deixa retida em limites demasiadamente restritos.

Ao invés de descaso, o que o todo-poderoso da Economia revela é exatamente o contrário: ele sabe das mudanças em plano global, e sabe a que interesses deve servir. Óbvio que não seria um vasto pedaço de terra, coberto pela mais importante floresta tropical do planeta e ligado pela mais extensa rede hidrográfica, que anularia suas crenças, seus interesses e sua ação.

Diriam os antigos, o Ministro fala "de caso pensado". Alguém, afinal, tem que pensar, nos dias que correm.


História ou lembrança - Em 30/08/2019

A consciência da fragilidade própria diante das situações frequentemente resulta na adoção de respostas autoritárias. O homem que se sabe sem argumentos, ao mesmo tempo incapacitado de resolver seus problemas pessoais não raro empurra-o para caminho muita vez irrecuperável. O mesmo pode ocorrer com as instituições criadas por ele mesmo.

Posto frente à frente com a realidade que ajudou a construir, envolvido em situações a que alardeava estar imune, o ser humano precisa dispor de meios que só a serenidade, a austeridade e a solidariedade são capazes de prover. Sem essas, dentre tantas outras virtudes ausentes em boa quantidade deles, torna-se impossível encontrar as soluções anunciadas.

Se isso vale para o ser humano, no trato de problemas que lhe dizem respeito individualmente, multiplica-se a complexidade, quando os problemas afetam a vida de terceiros. Como sói acontecer na vida pública.

Aos detentores de mandatos populares não basta o sufrágio dos eleitores, para assegurar o êxito de suas iniciativas ou decisões. Passado o pleito, há que pôr em execução as ideias acaso apresentadas, os projetos anunciados, a conduta que os levou à conquista eleitoral.

Infelizmente, repetem-se os maus exemplos da dissintonia entre o prometido e o executado, quando se tenta analisar a política brasileira. Nem se fale da experiência autoritária vivida de 1937 a 1945, quanto durou o Estado Novo. O ditador Getúlio Vargas chegara ao poder sete anos após participar do movimento que impediu a posse de Júlio Prestes na Presidência da República. Da Primeira, pois que o regime instaurado pela chamada Revolução de Trinta inaugurou o novo período.

Durou um ano mais que o governo revolucionário a Ditadura de Vargas. Nela, ao lado dos costumes inerentes a todo regime autoritário, o caudilho gaúcho impôs o velho estilo populista da época: criou a Petrobrás, a Companhia Siderúrgica Nacional, o sistema normativo chamado Legislação Trabalhista.

Sabe-se como terminou a Ditadura Vargas. Forçado a enviesar a preferência do Chefe, o Brasil lutou nos campos da Itália ameaçada pelo nazi-fascismo, ao lado dos Aliados. Encerrada a Guerra, não havia como manter o autoritarismo vigente. Deu-se, então, a oportunidade de criar a Terceira República, quando a Constituição de 1946 passou a viger.

Mais uma vez, a acrobacia política se fez presente. Ao mesmo tempo em que o País se via liberto da Polaca (a Carta de 1937), registrou-se a cassação de deputados e senadores eleitos pelo povo. O registro do Partido Comunista do Brasil foi cassado. O governo também aproveitou para excluir Plínio Salgado e seus galinhas verdes do cenário. Todavia, a nova Constituição assegurou dezoito anos de relativa tranquilidade institucional.

Posteriormente, a emergência de um populista que juntava a essa característica certo viés histriônico, provocou nova ruptura na ordem institucional. Jânio Quadros, portando a vassoura com que varreria a corrupção, encerrou seus dias com dificuldades para justificar seu confortável exílio na Inglaterra. Além de ar o pretexto para o golpe de 1964. O período seguinte, se nos fez retornar a regime de alguma forma aparentado do de Vargas (1937/1945), sofisticou-o e tornou mais feroz. Disso dão conta a tortura institucionalizada e o surgimento de organizações cuja trajetória desemboca, hoje, nos autos da Lava Jato. É mais fácil combater a corrupção quando os direitos individuais são, mais que preservados, cultuados. Nas sombras passam-se coisas tão escabrosas, que a luz as impediria de acontecer. O primeiro Presidente eleito pós-ditadura valeu-se do apoio maciço dos meios de comunicação, que o tornaram o inimigo número um da corrupção. Resultou cassado. Suas práticas pouco tinham a ver com seu discurso.

Sucederam-se outros Presidentes, os três últimos dos quais assemelhando-se na divergência entre o discurso e a prática. A que poderia ser uma república respeitável perdeu-se nos desvãos do equívoco, quando não do estrelismo ou da ambição egoística. Algumas vezes, mesclada com a ignorância a respeito da concomitante harmonia e autonomia dos poderes. Enfim, uma boa democracia.

Hoje, portanto, não estamos colhendo nem mais nem menos do que a incapacidade de comportarmo-nos como cidadãos. Só estes podem pôr a correr os inimigos e assegurar que novos tempos virão.

Gostaria que tudo o que aqui vai escrito fosse ficção...


Sem cadeia alimentar - Em 24/08/2019

Animal político, o homem jamais pode desvencilhar-se dessa característica e vocação. Não fosse o ser humano dotado de vontade - o que muitos chamam livre arbítrio - dificilmente mereceria ser tido como superior em relação aos outros animais. É a vontade (e o desejo de satisfazê-la), não o instinto, que dá ao homem esse status superior a que ele nem sempre sabe corresponder.

Os tempos de barbárie como o que estamos vivendo permitem, então, avaliar melhor quanto nos empenhamos por realizar o que se poderia esperar de seres superiores. Não se trata de missão como a entendem certos profissionais, especialmente os que se orientam por dogmas, não pela vida como ela é - cheia de surpresas, ondulações, mudanças.

A incompreensão a propósito da Política, como formulada na Grécia Antiga, e dos desdobramentos das relações sociais leva a equívocos. Não são maioria, no entanto, os que se apercebem das sutilezas próprias da vida em sociedade.

O evoluir da espécie humana, do ponto de vista social, marca-se pelo aparecimento do Estado, não menos que uma criação do próprio homem. O ente político assim chamado tem sua origem na necessidade de estabelecer regras que permitam a convivência entre seres humanos em patamares diferentes dos que regem a vida na selva. Nesta, o equilíbrio é encontrado na cadeia alimentar. Aí, é a natureza que prepondera, com suas leis biológicas. Os predadores se encarregam de controlar a proliferação de espécies - as presas - nocivas ao equilíbrio natural. Justifica-se, portanto, que o sapo se alimente de insetos, as cobras engulam sapos (e não, certamente, no sentido jocoso que hoje se empresta a esse ato).

As leis reguladoras da vida social haveriam de ser outras, produzidas pelos próprios interessados, não pela natureza.

Bons e maus os há em qualquer lugar e em qualquer tempo. Ainda não houve qualquer efeito dos avanços tecnológicos nessa seara, a dos valores éticos e morais. E, se de alguma forma se consegue ver alguma relação entre tais avanços e a conduta humana, se há de convir que o resultado não tem sido positivo. É como se tivéssemos estabelecido uma relação simétrica, que distancia gradativamente uma da outra, em sentido sempre contrário. Imaginemos um ponto zero, do qual um a flecha é disparada em direção ao lado esquerdo e outra em direção ao lado direito. Quanto mais uma segue em direção a um extremo, a outra avança no sentido inverso.

Sendo a história contemporânea não mais que a história do desenvolvimento capitalista, e sendo pouco lisonjeiros os fundamentos dessa forma de acumular, impossível imaginar que as flechas se encontrem. Pelo menos, sem conflitos de que a trajetória dos povos não encontre motivo apenas de vergonha e desonra.

Se o Estado não tem cumprido com o que dele se esperava, desonesto será atribuir a frustração à maldade humana. Esta responde, sim, pela escolha feita: um sistema político desvinculado da vontade, dos desejos e das necessidades da maioria, em benefício de ínfimo grupo de seres humanos(?).

É verdade que a presença do Estado, como ente regulador da vida social, tem sido contestada. Curioso, porém, que tanto anarquistas quanto liberais convergem quanto a um aspecto: a necessidade de sua extinção. Também é verdade que o liberalismo dos nossos dias encontrou um meio de, não o extinguindo, fazer do Estado o meio através do qual explora a maioria. Mantê-lo, portanto, é bom, desde que em nome e proveito dessa minoria ínfima.

Quem não se der o trabalho de entender coisas tão simples correrá o risco de silenciar ou dizer besteiras. E insistir em melhorar o que, em sua essência, não pode ser melhorado.

A crise por que passa a sociedade mundial e cujos reflexos nos países levam à desesperança não será resolvida, caso não se apliquem às relações entre seres humanos práticas diferentes das que dão certo no mundo animal.





O exemplo do Brasil - Em 17/08/2019

Quem deseje saber do caráter autoritário ou liberal de um governo não precisa ler bibliotecas inteiras, nem visitar numerosos países. Mesmo quando nenhum projeto de nação serviu de escada para a subida ao poder, as escolhas dos governantes deixam à mostra sua índole, muitas vezes a própria vocação do eleito.

No caso brasileiro, não há quem negue a tenaz fuga ao debate mantida pelo então candidato Jair Bolsonaro. Nesse sentido, sempre será forçoso reconhecer quanto a facada recebida por ele em cidade do interior mineiro ainda justifica suspeitas. Não que esteja definitivamente descartada a hipótese oficial: o candidato foi vítima de adversários ou, no máximo, de um doente mental.

Queiramos ou não, seja qual for a causa ou o pretexto, o fato é ficar o registro do episódio como um atentado, de que o ex-capitão teria sido vítima. Nem vem mais ao caso discutir se outros foram os mandantes, se outros motivos tenham concorrido para pôr o candidato a salvo de manifestar suas próprias ideias ou apresentar um esboço que fosse do que faria, se eleito Presidente. Caso ele disponha de umas e do outro.

Outro fato, a eleição sob o escrutínio de quase 60 milhões de votantes, desloca o foco das atenções gerais. Isso não elimina, porém, os restos de suspeita sobre vários acontecimentos, anteriores, simultâneos ou posteriores à facada sofrida por Jair Bolsonaro. Nem elimina outra consequência dela: o afastamento do candidato de qualquer debate dos que puseram em confronto diferentes e claros propósitos.

Pela absoluta ausência, dos debates e do conteúdo que eles obrigariam a revelar, o agora Presidente não mostrou a que vinha. É certo que, dias após ter assumido seu posto, ele se confessou incapaz de governar o País. Ninguém o representou nessa confissão. Foi ele mesmo que o disse, com todas as palavras, pobre e chulo que seja seu vocabulário.

Nada melhor que um dia após o outro, diziam os antigos. Melhor ainda, quando há uma noite entre eles.

Daí que, já nos primeiros meses de seu mandato, Jair Bolsonaro volta suas armas e sua língua na direção de instituições postas na alça de mira de qualquer governante que aspira à propriedade da única, fundamental e incontrastável verdade. Rápida leitura dos livros de história permite identificar semelhanças e pinçar fenômenos e decisões que indicam certa similaridade.

Seja pela forma como se relacionam com as demais instituições republicanas, seja pelas decisões cabíveis no arbítrio de que se acham investidos, os autoritários aproximam-se. Às vezes, até como réplica de figuras cuja entrada na História se deu pela porta dos fundos ou pela janela lateral que o clima democrático não consegue fechar. Ainda bem.

Na Alemanha dos anos 20 do século passado, figura inspirada no preconceito racial começou como cabo, antes de desfazer a república de Weimar e fazer o que a sociedade humana conhece como uma das piores manchas que marcam a trajetória dos povos. Os judeus podem dizer melhor que qualquer versado nas ciências históricas.

Incomodava o líder e seus seguidores alemães a liberdade de imprensa. A educação não era bem-vinda, se permitisse abrir cabeças e olhos dos educandos, ajudando-os a compreender o mundo e respeitar seus semelhantes. Qualquer cidadão que não correspondesse aos preconceitos do governante, teria que ser eliminado - da vida comunitária ou da vida, só.

O Brasil em que vivemos, não há como ignorar ou contestar, segue esse rumo. Paira no ar a suspeita de que a democracia incipiente acabou por gerar em seu ventre quem deseja destruí-la. À educação se tem negado até a esperança de que resolverá seus mais graves e recorrentes problemas. A saúde não é desta vez que contará com os recursos de que precisa. Seria repetir o que todos já têm dito, quanto ao ataque que algumas instituições vêm sofrendo, desde o primeiro mês deste ano.

Os órgãos incumbidos de distribuir a Justiça são agredidos, menos pelo eventual malfeito de algum ou alguns de seus membros. Na verdade, é a possibilidade de fazerem valer sua autoridade e cumprirem com as determinações constitucionais que os coloca no pau-de-arara oficial. Os meios de comunicação diariamente sofrem ataques, além de a ameaça permanente de retaliação por suas opiniões constituir a espada sobre os ombros de seus dirigentes. A promiscuidade entre o Estado e uma forma de pensar religiosa restaura passado de que muitos nos havíamos esquecido. A Polícia Federal, que a sociedade quer posta a serviço dela é pressionada para funcionar como defensora do governo.

Vai-se aos poucos descobrindo quanta razão havia para fugir ao debate. E fazer das eleições de 2018 um dos muitos simulacros de democracia conhecidos. O Brasil, mais uma vez, dando exemplo ao mundo. Pena, que mau exemplo!



Enquanto é tempo - Em 09/08/2019

A complexidade e a profundidade da crise por que passamos parece embotar a inteligência de grande parte das pessoas. As miudezas de todo dia impedem a reflexão, se não a própria tomada de consciência, do cenário que se vem construindo no País. A cada nova investigação, a cada nova decisão, novos motivos depressivos são acrescentados à desesperança reinante.

Já não nos basta a crise da representação política, ainda mais que não é fenômeno localizado. Na verdade, espalha-se por todos os continentes e causa resultados semelhantes aos que temos colhido. Mais há a colher, como se sabe.

Ora o autoritarismo de uns sobrepõe-se à desonestidade de outros, contribuindo para tudo, menos para a pacificação do País. Os que acusaram ontem e por isso ostentam falsas folhas de louro, são os acusados de hoje. Pior: pelos mesmos atos ilícitos atribuídos aos primeiros a delinquir. Algumas vezes, mais graves ainda.

Não se sabe, muito menos os que deveriam sabê-lo por razão do ofício, os limites entre poderes. Tudo isso, misturado às proclamações sempre tonitruantes (porque só argumentos dispensam aumentar a voz), em defesa da república e alegadamente protetoras da democracia. Enquanto são cavadas as sepulturas de uma e da outra.

Os tribunais de onde serão proferidas as sentenças de que se esperava o restabelecimento do império da Lei e a reposição do Estado de Direito abrigam togas maculadas por trágicas maquinações.

O Estado democrático e de Direito despede-se de nós, aparentando exaustão. Se, antes, ele não chegou perto da sociedade, antes buscou evitá-la, hoje ele se vê esvaziado. Como fazer democracia sem povo? Como manter um Estado de Direito, quando o Poder Judiciário suscita iras, tolera vilipêndio, mergulha na mediocridade?

Não se trata, mais, de discutir as imoralidades que marcam a trajetória político-administrativa e os negócios, sabendo-se que tudo se tem transformado em negócio. E não poderia ser - como jamais será - diferente, se o mercado ocupa todos os espaços, à falta de uma sociedade que mereça minimamente ser assim chamada.

É certo que o embate entre Estado, sociedade e mercado tende à supremacia deste último. Dê no que der, é essa a direção trilhada. Direção de que se pode supor com alto grau de exatidão a que destino chegará.

A crise, portanto, não dá nenhum sinal de que será menor. Resta apenas a maioria ser convencida de quem ganhará com ela. Talvez chegará o dia em que os que optam pela ignorância, comprazem-se com a mentira e têm o ódio como grande inspiração, acordem. Ainda, então, poderá ser tarde demais. A história da Alemanha nos há de ensinar.



Trágica farsa  - Em 03/08/2019

Talvez nenhum país estimule a multiplicação da ignorância, tanto quanto o faz o Brasil. Pode ser esta uma da razões porque se somam, entre nós, os impossibilitados de chegar ao conhecimento e os ignorantes por opção. Os primeiros são resultado da desigualdade, cuidadosamente planejada pelos beneficiários da ignorância alheia. Os outros, incapazes de entender as vantagens do livre arbítrio.

Um dos frutos da desigualdade traduz-se nos números relativos à escolaridade dos brasileiros e às suas aptidões na leitura e interpretação de textos, na capacidade de lidar com os números e na limitada compreensão dos conceitos científicos. Nossa posição no ranque internacional não é menos que vergonhosa.

Embora os especialistas supostamente devotados à melhoria da educação, aqui e em outros países, subestimem o conhecimento da História, parece conveniente incluí-lo dentre os itens a serem avaliados.

Tida pelos antigos como a mestra da vida, a História fornece material indispensável à compreensão do mundo, em qualquer época. Isso não quer dizer que os fatos se repetem, autônomos em relação ao tempo e ao espaço em que se registram. Nem significa negar o conteúdo frequentemente farsesco da reincidência.

Sem entender as relações sociais e suas motivações, qualquer tentativa de interpretação da sociedade e dos que a constroem e mantêm será infrutífera.

Sendo assim, não há como negar atenção a fatos ocorridos no passado, não buscando reconstruí-los, mas tentando apreender algum aspecto que guarda certa semelhança com o contexto em que se vive.

Na primeira metade do século passado, um cabo austríaco chegou ao governo da Alemanha, ungido pelo voto popular. Pouco a pouco, pôs em prática as ideias por ele defendidas, nenhuma delas edificante. O resultado, só o ignorante completo não sabe. Mesmo se ouviu algum dia, de alguém, sobre a morte de milhões de judeus. Outros também morreram, porque não se fazem guerras, se não para matar o inimigo.

Nunca, em lugar algum, a sociedade tem fisionomia diferente da que a imprimem os societários, em sua maioria. Não seria reservado ao Brasil deste trágico 2019 o papel de exceção.

Porque o voto de quase 50 milhões de brasileiros optou por ideário hostil à diferença, agressivo à liberdade, cultor da violência, comprometido com a tortura, inimigo da civilidade, seria injusto atribuir apenas ao símile de Adolph Hitler os maus dias que vivemos. A barbárie brasileira é produto sobretudo dos que, preferindo a ignorância, precisam de mitos e heróis, renunciando ao livre arbítrio e contribuindo para a encenação da farsa.

Para eles, nem como lição a História interessa.


Homem e tecnologia - Em 27/07/2019

Tenho recusado insistentemente participar de redes (anti) sociais. Não me têm faltado convites, muitos deles partidos de pessoas por quem nutro grande admiração e estima. Não deixo nenhuma delas sem resposta. Esta é sempre a mesma: a decisão, antiga, faz-me colocar meu endereço eletrônico à disposição de todos os que desejam manter-me como correspondentes. Sei quanto perco, se alguns dos proponentes não concordam em correspondermo-nos pelo e-mail. Deixo de ler comentários equilibrados, sugestões valiosas, às vezes - suponho - conselhos e lições que muito me ajudariam a compreender o mundo e a gente que o habita. Paciência! É o preço pago para evitar os dissabores por que têm passado muitos dos usuários desse mecanismo capaz de infernizar a vida das pessoas. E de cumprir um destino que se pode imaginar talvez não ter em momento algum passado pela cabeça de seus inventores.

Esse aparente descaso dos inventores pode ser atribuído a muitos fatores, presumivelmente alheios à sua percepção. Senhores de sua ciência, reconhecidos como sábios nos respectivos campos de conhecimento em que atuam, pode lhes parecer pueril dar atenção ao mais frágil dos integrantes deste tão maltratado e sofrido mundo: o ser humano. Daí tornar-se frequente o sacrifício dos seus sonhos, suas prosaicas aspirações e interesses triviais que todos trazemos conosco.

Quem sabe os inventores sequer souberam da existência de um tal Charles Spencer Chaplin? Ou, tendo gargalhado diante das cenas que os filmes daquele gênio provocavam, nunca se preocuparam com os pensamentos dele e as palavras por ele proferidas. Se o fizessem, possivelmente encontrariam o que o criador de Carlitos disse, a respeito dos avanços tecnológicos: pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.

O filme Tempos Modernos, que considero um dos melhores trabalhos da arte mundial, até hoje não foi superado. Ao contrário, os problemas que ele põe em discussão permanecem, agravados, e cada dia mais hostis aos sentimentos valorizados por Chaplin.

As práticas a que se têm prestado as redes causam mais mal-estar que as primeiras máquinas que o ator e cineasta inglês criticou. As fake news, que estão na moda, não são exclusivas. Que o digam os pais de crianças e adolescentes, os pedagogos e os psicólogos e psiquiatras.

Estou certo de que, décadas à frente, o paciente sairá do consultório médico com a prescrição que será levada a um laboratório - de bioengenharia. Voltará lá, passados poucos dias, para receber seu kit: um fígado, pâncreas e vesícula, devidamente numerados, segundo as medidas do paciente. Dias após, no próprio consultório, o médico dará alta ao ciborgue.

Quando o cérebro for transplantado, ao novo ciborgue restará algo do que ele era? Os sentimentos referidos pelo gênio que criou o adorável vagabundo seriam os mesmos?



Boa viagem - Em 20/07/2019

Estivessem os grandes navegadores de Sagres amedrontados pelos gigantes adamatores, talvez o mundo não tivesse o tamanho que tem. As Tormentas não seriam ultrapassadas, nem qualquer esperança surgiria, muito menos a que deu nome a outro cabo, afinal alcançado. Porque os homens daqueles tempos não se amesquinharam, o globo tem o tamanho que tem.

A valentia que se nutre da convicção e do conhecimento e por isso dispensa o uso de outros instrumentos impulsionava os nautas formados na famosa escola de navegadores europeia. O Novo Mundo, assim, resultou de bravura diferente da que ostentam os tripulantes das naves insensatas. Fez-se de curiosidade; desta fez-se o conhecimento; deste resultou a ampliação do horizonte. E a terra, outras terras se puseram à vista.

Não se espere, porém, facilidade no embate imposto pela sanha punitiva. Parta esta de onde partir, exerça-se contra quem se exercer, boa coisa dela jamais se pode esperar. O mau, todavia, sempre resultará da covardia, do amesquinhamento consentido, da fuga às responsabilidades que a condição humana - se verdadeiramente humana for - exige.

Paira mais uma ameaça contra as instituições, prestes a consumar-se, passar da potencialidade para a realidade. Refiro-me à apressada intenção de transformar os conselhos de controle do exercício profissional em não mais que um clube recreativo. Dando-lhes caráter privado, retira-se deles o poder de polícia tão necessário às atividades por eles reguladas e controladas.

Não me cinjo aqui à Ordem dos Advogados do Brasil, cujo respeito e prestígio social não são devidos se não à forma como se tem inserido na sociedade, desde a fundação. Não houve, durante toda a trajetória da OAB, um só momento em que ela estivesse distante das melhores causas populares. Os que lutaram na Europa, na Segunda Grande Guerra, ou os que souberam como se portaram os brasileiros no conflito mundial, certamente sabem da contribuição que a Ordem prestou à causa pela qual lutaram. Ali, tratava-se de derrotar o nazi-fascismo, pondo por terra as intenções de Adolf Hitler. E evitar que os mortos fossem muitos mais. E que tenham sobrevivido aos seis milhões de judeus mortos muitos dos que hoje denunciam os horrores da guerra - qualquer guerra. Mais, ainda, a guerra entre irmãos, dentro de um mesmo território, partilhado por todos. Mesmo se essa partilha se mostre desigual, injusta, imoral. Esse tipo de comunhão, certamente, só será alterado se as ideias do fürher servirem apenas como lição capaz de impedir a repetição das cenas que ele provocou e do sofrimento que ele impôs ao Mundo.

O que se pretende fazer, agora, é condenar os diversos conselhos profissionais à paralisia, neutralizando sua legítima participação na vida política e social do País. Pode-se ver - e o mais novato dos advogados terá percepção suficiente para sabê-lo - o incômodo que causa qualquer ação tendente a denunciar as ofensas ao Estado de Direito. Nesse caso, não é apenas a Ordem dos Advogados que sofre a ameaça. Todas as entidades ficarão à mercê da sanha punitiva, se não houver a reação pronta e firme contra a menor tentativa de criar restrições e reduzir o espaço de atuação daqueles colegiados.

O desejo dos que mandam, ontem, hoje e amanhã, foi, e será sempre o de remover tudo quanto dificulte a empreitada ensandecida.

Mais que recusar participar da tripulação dessas naus sem rumo, devem os segmentos a que os conselhos profissionais correspondem, tomar-se da bravura dos nautas de Sagres. Só assim os monstros adamastores serão vencidos. E sua sanha punitiva encontrará a resposta que a cidadania e as pessoas de bem trazem consigo

Ofensa aos amazônidas - Em 13/07/2019

Aproxima-se o 25º ano de funcionamento do Bosque da Ciência, a população de Manaus é informada de que as atividades daquele importante meio de divulgação científica serão interrompidas. A muitos, a decisão dos dirigentes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia- INPA parecerá coisa de somenos. O mesmo não pensarão os que se dedicam ao conhecimento da região, durante mais de sessenta anos. De seus laboratórios têm saído as informações e o material reveladores de parte da realidade regional. Menos ainda compreenderão e aceitarão o fechamento os pais e as crianças, de Manaus e de tantos outros pontos do País e do exterior, que visitam a área para reduzir o grau de ignorância a respeito da região.

As restrições impostas ao pleno funcionamento do Bosque correspondem ao momento mais crítico por que passam a educação e a ciência brasileiras. Dificuldades foram encontradas pela iniciativa do ex-Diretor do INPA, José Seixas Lourenço, desde que a reiterada reivindicação dos pesquisadores do Instituto foi atendida.

Em 1995, firmou-se a entrega de parte da área adjacente à em que se situa o INPA, para fazer dela um exemplo de divulgação da ciência produzida pelos esforçados e competentes cientistas de seus quadros. Desde o início, diversos e reiterados foram os óbices ao propósito de vencer a insciência da população local e visitante. Da primeira vez, a omissão da empresa que se havia comprometido com o financiamento dos serviços necessários à abertura do Bosque da Ciência foi superada. Coube à Petrobrás assumir as despesas, pela relevância das funções que o novo logradouro executaria e pela necessidade de eliminar um dos pretextos usado pelos inimigos da ciência. Estes, insensíveis às necessidades e aos resultados do labor científico investigativo, teimavam (será que ainda teimam?) em enxovalhar os cientistas, sob a alegação de que a população não sabia do destino dado às verbas públicas que financiam os projetos de pesquisa.

Poucos não foram os percalços que as sucessivas administrações do INPA e, especificamente, do Bosque da Ciência, enfrentaram durante os últimos vinte e quatro anos. Sequer foi dada atenção ao resultado mais efetivo alcançado pelo projeto. A área em que se instalou o Bosque começava a ser cobiçada e lentamente invadida por parte dos moradores da vizinhança. Graças ao trabalho sério, cientificamente conduzido e consequente de uma equipe de profissionais tão dedicados quanto qualificados, o local chegou à situação em que hoje se encontra, pelo menos quanto às demandas da população - a que reside em Manaus e no Amazonas, além dos visitantes que buscam na cidade ampliar seu parco conhecimento da Amazônia. Informa o INPA que, no exercício de 2018 cerca de 100 mil pessoas passearam sob as árvores mantidas em pé nos 13 hectares que constituem o Bosque.

Muitas as dificuldades por que tem passado o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, talvez um dos amais importantes órgãos de produção da ciência, nos últimos anos. Pode-se até suspeitar de que sua liquidação como alavanca do conhecimento científico é planejada - porque desejada e mantida sob restrições de toda ordem. Já não basta a avareza com que são substituídos os cientistas, para avançar no propósito malsão.

Estivessem as lideranças políticas, intelectuais e empresariais do Amazonas voltadas para o interesse público, uma vigorosa reação se faria sentir.

Espero ser desmentido. E parece que começo a sê-lo.

Anunciou-se, já, a disposição da Prefeitura de Manaus em oferecer apoio ao INPA, para que o Bosque da Ciência continue funcionando. Um sinal positivo, de que os maiores beneficiários serão os moradores de Manaus e de tantos outros lugares do Brasil e do mundo.

Quando as coisas da ciência, da arte e do esporte têm recebido a hostilidade de alguns governantes, será sempre bom receber notícias como essa. Talvez porque, nos tempos em que o Prefeito Arthur Neto esteve no Ministério das Relações Exteriores prevalecia o mérito dos diplomatas. Tais tempos parecem ter acabado.


Se arrependimento matasse... Em 05/07/2019

Todo dia cresce minha dificuldade em entender a decepção de crescente número de eleitores de Bolsonaro. Rigorosamente, o atual Presidente não tem feito se não satisfazer seu eleitorado e cumprir o que anunciou quando candidato. Nesse sentido, talvez nenhum dos últimos presidentes terá sido tão sincero.

Bastaria comparar Lula, Dilma e Temer com Jair Bolsonaro, para constatar quão maior é a taxa de lealdade às promessas de campanha e seu desempenho. Dele pode dizer-se tudo, menos que escondeu suas motivações mais íntimas e suas crenças e convicções, por mais condenáveis que elas sejam.

Comecemos por indicar incoerências em que seus antecessores incorreram, afastada qualquer intenção de juízo valorativo. Não interessa, aqui, dizer dos méritos ou defeitos das motivações e dos atos que delas decorreram, seja este ou aquele o Presidente.

Lula, por exemplo, dizia-se empenhado em combater a desigualdade. Migrante nordestino, encontrara em São Paulo o lugar mais propício ao seu crescimento como ser humano e cidadão. Fez carreira política, iniciado nas questões sindicais, afinal o caminho que o levou à liderança dos metalúrgicos. Daí para a criação de um partido e a chegada à Presidência da República, passaram-se quase trinta anos.

Fez sua sucessora, que nunca disputara uma só eleição popular. Ao fim do período em que Lula governou ou influenciou o governo, viram-se frustradas as esperanças de milhões de brasileiros. Tirar mais de quarenta milhões de famílias da miséria não obstou que, findo esse período, a desigualdade se tivesse ampliado. Diz-se que o fosso entre os que nada têm e os que têm tudo só fez aumentar.

De Temer pode ser dito que suas promessas buscaram atender os mesmos, talvez ainda menos numerosos, que se valeram das políticas econômicas dos três governos anteriores - duas vezes, Lula; outra vez e meia, Dilma. O impeachment desta alterou para pior a situação dos mais pobres. Podia-se esperar tudo, menos que as famílias resgatadas da miséria mantivessem a pobreza nos níveis em que permaneceram nos quinze anos anteriores.

A campanha eleitoral para substituir Temer tirou das mais profundas e obscuras águas do baixo clero um velho parlamentar do qual menos de 10% dos próprios eleitores fluminenses nuca ouviram falar, passadas as eleições.

Silente porque nada tivesse a dizer; indiferente face aos mais graves problemas nacionais, porque lhe faltasse discernimento; tosco, pela ausência de conhecimento para apreender a realidade e, muito menos, as nuances da vida política, Jair Bolsonaro acabou por transformar-se em fenômeno eleitoral. Com isso, ganhou o direito de governar o País. Autorizado por quase 60 milhões dos votantes de 2018.

Durante a campanha eleitoral, jamais o atual Presidente escondeu suas preferências, suas crenças tisnadas pelo preconceito e pela discriminação. Assim é que propalou seu ódio aos diferentes; sua tendência a substituir o debate pelo uso da força; seu desejo de enxotar da política brasileira tantos quantos divergissem de suas convicções; sua frustração por não terem sido mortos 30 milhões de brasileiros durante os anos de chumbo; sua tristeza por FCH (e quantos mais?) não ter sido morto pela ditadura; sua homenagem à tortura e seu agradecimento aos torturadores. Isso tudo, dito às claras, sem subterfúgios, porque a escuridão e a ocultação foram dedicadas às questões nacionais mais graves. Até agora ninguém sabe o que ele pensa(?) delas e sobre elas.

Sem participar de qualquer debate e, maquis contemporâneo com sinal in vertido, batalhou à sombra, porque esgotos estão ausentes na maioria das cidades brasileiras. Algo como trocar a resistência pela inexistência.

O que, então, pretendiam os que hoje se dizem arrependidos pelo voto em Bolsonaro? Por que, quando o candidato difundia suas antiquadas opiniões, sentiram-se inebriados e seduzidos? Onde estavam seus ouvidos, quando advertidos dos riscos que a democracia enfrentaria, caso o velho político fosse eleito?

Ao contrário, muitos experimentavam certo orgasmo cívico, repetindo o gesto que simula a imagem de uma arma, com as mãos.

Os antigos diziam que a semeadura do vento traz sempre a tempestade. Abandonar o barco agora ou só agora sentir-se ameaçado porque as barbas do vizinho ardem não confere título de saber a ninguém. No máximo, é admissível pedir perdão. Tê-lo deferido é outra coisa.

O que ninguém pode dizer é que Bolsonaro engana seus eleitores. Se estes se envergonham de ficar clara sua preferência pela ditadura, pela eliminação física dos divergentes, pela perseguição aos diferentes e pela entrega de nossas riquezas e de nossa dignidade, que tenham aprendido a lição. Se sobreviverem ao destino que se prevê será dado aos pobres brasileiros.



Tudo, menos ignorância - Em 29/06/2019

Recuso admitir como ignorância certas afirmações de profissionais nas suas áreas de competência específica. Mesmo que não possa afirmar tratar-se de desonestidade intelectual ou interesse em nada louvável, constato a incidência cada dia maior dessa conduta - leviana ou desonesta, pouco importa. Suas consequências são as mesmas: a desinformação dos cidadãos e a consagração de práticas em qualquer hipótese danosas ao interesse público.

Refiro-me, especialmente, à suposta preferência dos governos pelo financiamento de projetos executados no exterior. Tem sido reiterado o apoio financeiro do Brasil a construções de infraestrutura em países estrangeiros, enquanto o próprio País padece dos males causados pelo estado de nossas rodovias, nossos portos, nossos aeroportos - para ficar apenas nesses exemplos. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES atrai a maior parte, se não a totalidade das críticas. A ele é atribuído o desvio de recursos que bastariam para solucionar alguns dos mais urgentes problemas nacionais. A situação da infraestrutura de saneamento, não mencionada acima, dentre as outras.

Que um leigo veja a ação governamental, via o BNDES, como preferência por este ou aquele governo, ainda é de se admitir. Quando o crítico é profissional formado em Economia ou diz entender das matérias que lhe são afeitas, a ignorância seria a última coisa de que se poderia cogitar.

Não é preciso ser especialista em relações internacionais, muito menos em negócios entre países, para entender as razões pela preferência. Sendo que esta não diz respeito ao país beneficiário do financiamento, mas aos que inspiram, estimulam, cobram e apoiam a transferência de vultosos recursos para outros países.

Qualquer semialfabetizado em Economia um dia terá aprendido como se dão as relações entre países e respectivas empresas. A não ser que tenham faltado às aulas que trataram do assunto ou que sua mente seja severamente embotada, não há como frequentar um curso de Economia (os alunos de Relações Internacionais, ao que presumo, podem ser assemelhados aos economistas, nesse aspecto pontual) sem identificar os beneficiários do financiamento externo.

Os contratos de financiamento, neste caso, asseguram a empresas do país financiador o direito de serem as vendedoras (quase sempre em caráter de exclusividade) de bens e serviços necessários a execução dos projetos financiados. Geralmente, tem sido usado certo ufanismo infantil, que vê nessas operações a confirmação do poderio econômico e financeiro do país fornecedor dos recursos.

No Brasil não tem sido diferente. Muitas das empresas envolvidas na Lava Jato estão dentre as que participaram da farra dos financiamentos externos com dinheiro dos brasileiros. Porque elas fossem as maiores beneficiárias, jamais lhes interessou ou motivou o desejo de evitar que a corrupção se alastrasse. Ao contrário, quanto maior fosse o volume de recursos transferidos para outros países, maior sua probabilidade de entesourar. Sem esquecer, por conseguinte, de aquinhoar seus patronos com ínfima parte do que o BNDES atirou em seus cofres.

Em casos tais, os governos dos países estrangeiros financiados eram o biombo através do qual foi praticado o criminoso ufanismo infantil. Também nós, poderiam dizer os patrocinadores dessa farra com dinheiro público, temos nossas poderosas multinacionais!

Ou ainda há quem pense que a escolha dos países correspondia a uma inspiração de caráter ideológico? Como se sabe, o capital não tem alma nem coração. Essa é afirmativa reiterada pelos que vivem para acumulá-lo. Pode dizer-se, hoje, que um novo item foi incluído nessa expressão, de modo a permitir ou autorizar que se afirme: o capital também não tem ideologia. Para além da acumulação - legal ou ilegal, lícita ou criminosa, não importa.

Se um economista não sabe que é assim, que rasgue seu diploma. Ou, humilde e honestamente, peça sua baixa do cadastro do órgão que regulamenta sua profissão.



Direito ou loucura - Em 22/06/2019

Enquanto não superarmos nosso (mau) gosto pelo espetáculo, não alcançaremos o estágio de civilização a que alguns pretextam aspirar. Espetáculo tão mais agradável quanto mais cercado pelo clima de Fla-Flu, o cenário político não dispensa as sensações experimentadas nas cadeiras do Maracanã ou dos estádios mais humildes do País. O importante é torcer, quando muito, aplaudir a vitória, mesmo se o gol é feito com a mão e em situação de impedimento.

Do que se viu e ouviu, durante a oitiva do Ministro da Justiça e da Segurança Pública no Senado, pouco pode ser aproveitado. Primeiro, pelo legítimo interesse que a autoridade tem em desfazer as suspeitas que pesam contra ele, depois da divulgação de suas conversas com o Procurador da República, de Curitiba. É legítimo, também, o interesse de alguns senadores em multiplicar os constrangimentos por que passa o ex-juiz Sérgio Moro. Cada qual trata de tirar o melhor proveito, pessoal diga-se logo, do episódio.

Era justo, portanto, o registro de audiência possivelmente ampliada, com televisores abertos o dia inteiro da última quarta-feira, de Norte a Sul do País. Não é justo, no entanto, impor ao telespectador um espetáculo distante anos-luz do endereço também legitimamente buscado: espionar a correspondência pessoal via e-mail é ou não é lícito?

A resposta a essa pergunta, aparentemente simples, frequentou muito pouco a cabeça e a boca dos senadores intervenientes. Na cabeça de muitos estava apenas o desejo de prestar serviços a Sérgio Moro. Seja criando virtudes ainda ignoradas pela maioria dos cidadãos brasileiros, seja candidatando-se a uma boa recompensa pela fidelidade - que dizer canina talvez ofendesse os cães; seja pelo desejo puro e simples de confirmar o que verdade outra nenhuma estaria apta a modificar.

Os fatos e seus fundamentos foram quase absolutamente esquecidos, não fosse a intervenção dos senadores Cid Gomes e Jaques Wagner. Só estes foram explícitos em sua indagação. Porque a interceptação telefônica e eletrônica esteja em voga, parece que caminhamos para consagrar o direito de bisbilhotar a vida alheia como um dos sustentáculos do liberalismo enviesado. O mesmo que torna regra caixa 2, a matança de negros pobres e jovens, a expulsão dos índios de suas terras tradicionais, a propina paga por grandes empreiteiras ou pelo infrator de trânsito. Sem esquecer a riqueza dos cofres públicos quando é preciso aprovar alguma lei proposta pelo Executivo e se restringem os investimentos públicos devido ao oco que nesses cofres se encontra.

Toda tergiversação em relação ao Estado de Direito resulta em problema maior, logo à frente. Tivessem os cidadãos interessados de fato e sem falácias na moralização das práticas administrativas e políticas, reagido ao uso inaugural da invasão no e-mail de terceiros, hoje não veríamos Moro forçado a malabarismos verbais que nada explicam. Nem os senadores perderiam tanto tempo para ver respondida uma pergunta capaz de pôr luz sobre fatos que muitos desejam manter ou submeter à escuridão.

A Operação Lava Jato, por tudo quanto prometeu e pelo interesse que despertou em quase toda a população brasileira, teria a força do exemplo, se seus operadores e julgadores pautassem seus atos à distância das ilicitudes praticadas. Pior, com o comprometimento da necessária imparcialidade no ato de julgar.

Poucos perceberam - e se o perceberam devem ter avaliado o que ganhariam, pessoalmente, com isso - quanto ameaça todos os cidadãos o ato praticado ao arrepio da Lei. A consagração de meios ilícitos para atingir um fim determinado, por melhores que sejam os objetivos, haverá de ser sempre condenada. Não é bom o porto de destino, quando para chegar a ele renunciamos a valores conquistados ao longo da História do Homem. Sempre que a barba do vizinho arde, é de bom alvitre esperar que um dia a nossa própria barba será queimada.

Ao invés de voltar as costas para a pergunta crucial, devemos todos os interessados em combater a corrupção, evitar que esse combate incorpore práticas capazes de tornar a missão uma missão destinada ao encobrimento das más ações. Assim como a tortura deve ser banida dos interrogatórios (às vezes nem se chega a estes), o uso de más práticas merece repúdio.

Não é preciso ser advogado criminalista para saber quantos registros são propositalmente equivocados, para obter o resultado que favorece o delinquente. Nas várias esferas do poder, e não só em Pindorama (com o empréstimo não solicitado a Elio Gáspari).

Usemos o que a Constituição e as leis põem à disposição de todos, na defesa sobretudo da sociedade. Reivindiquemos elogios para os que conseguem manter-se fielmente dentro da lei e veem nela o limite para suas vaidades, aspirações profissionais e apetite pelo poder.

O risco maior é usar os instrumentos necessários ao combate à corrupção para desmoralizar o que até agora foi alcançado ou manter o que se fez, com o sacrifício do Estado de Direito.

Só os cegos por opção não sabem que a pior democracia é melhor que a mais incensada das ditaduras. A não ser que a liberdade também constitua, mais que uma utopia, rematada loucura.


Atualizando Brecht - Em 15/06/2019

A divulgação de sucessivas negociações entre o Coordenador da Operação Lava Jato e o ex-juiz federal de Curitiba, hoje instalado no gabinete do Ministério da Justiça, dá a exata medida da distância que o País guarda de uma verdadeira república. Mais ainda, do vácuo remanescente entre a democracia e o clima político que se estabeleceu no Brasil.

Qualquer que tenha sido a forma de obtenção das informações sobre as conversas entre Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, eventual ilicitude na apuração não apaga a realidade protagonizada pelos dois. Ainda mais quando se sabe estar na divulgação de conversa telefônica entre a ex-Presidente Dilma Rousseff e o ex-Presidente Lula peça fundamental do processo que culminou com o impeachment da primeira.

Os atos imputados ao jornalista norte-americano que administra o Intercept Brasil diferem da prática que lhe foi pioneira. Não são equivalentes os atos que puseram em maus lençóis os supostos guardiões da moralidade e os que levaram à condenação de Lula. No caso mais recente, praticou-os um jornalista, em seu esforço legítimo e assegurado por lei de informar. No outro, a associação de acusador e julgador, empenhados em chegar a um objetivo lesivo às leis vigentes, a partir da Carta Magna.

Perde o sentido, portanto, restringir à abordagem meramente moral a análise dos fatos, em especial pelo que eles têm de dissemelhantes. Tentemos, então, compreender a situação, vista sob outro ângulo e de ponto de vista diferente.

Neste caso, nada melhor que estabelecer a distinção entre aqueles que desejam ver fulminada a Operação Lava Jato e aqueles outros, desejosos de que se mantenha o cerco aos que roubaram o cofre público, tanto quanto aos que frustraram a esperança neles depositadas. Dentre estes, o autor do presente texto.

Seria mais que mera leviandade descartar alguns dos atos praticados pelos investigadores e julgadores da Lava Jato, excluídos os métodos e decisões flagrantemente lesivos aos direitos constitucionais. A sociedade deseja, mais que isso - defende a apuração dos ilícitos praticados, do mesmo modo que não se pode sentir segura, quando há a menor ameaça de conluio entre aqueles que um dia poderão investir contra ela mesma. Em seu conjunto ou sobre cada um dos cidadãos. Menos merecedor do apoio e, ao contrário, angariador de hostilidade é todo ato praticado ao arrepio da Constituição e ostentando vínculos partidários insofismáveis.

Assim, a condução coercitiva de investigado que não se recusa a prestar declarações, o estrépito que cerca as ações de polícia e a exacerbação de vaidades pessoais não é albergada no coração e na mente dos cidadãos.

Muito menos decisões de cunho casuístico, como o que altera entendimento de dispositivo constitucional e revoga um dos mandamentos mais caros a uma verdadeira democracia: o trânsito em julgado. Neste caso, como já ocorrera no 4º Tribunal Regional Federal, resulta ostensivo o ataque ao Estado de Direito.

Pouco a pouco, a sociedade se vai dando conta do equívoco em considerar heróis os que, ainda que mal-intencionados, cumprem apenas dever de ofício. Mais não fosse, porque pagos com o dinheiro de cada um de nós sua caneta não deveria escrever senão o que corresponde à satisfação das necessidades de todos. Um dever de qualquer pessoa investida de função pública, mormente aquela que diz respeito à distribuição da Justiça. Esta, na verdade, a sede das esperanças de toda uma população. Se estamos falando de democracia.

Se há mal em ambas as ações - a invasão da privacidade de Moro e Dallagnol, obra de quem está revestido do legítimo direito de informar, e a praticada contra Dilma e Lula - esta agride a Constituição e acarreta prejuízo a toda a sociedade, no seu presente e no seu futuro. A outra atinge apenas duas personalidades públicas.

Vivêssemos dias normais, o mínimo que se poderia esperar dos envolvidos na patranha seria a exigência, por eles mesmos, de que tudo fosse posto em pratos limpos. Com o mesmo rigor, mas em estrita obediência à letra da Lei, da Maior com mais razão, posto nas investigações que mandaram alguns poderosos para a cadeia. Sem o estrépito tão ao gosto dos operadores da Lava Jato, escoimadas da preferência partidária e rigidamente obedientes ao Estado Democrático de Direito. Mesmo se este ainda seja miragem de difícil aproximação.

Brecht disse e pouca gente entendeu: infeliz do país que precisa de heróis. Sejam o que forem, seus pés sempre conterão o barro que um dia voltará para suas origens.



Nau dos insensatos - Em 07/06/2019

Quanta insensatez! A expressão não se contém dentro da mente, e sai ao léu, sem destino. Não é firme a voz que a expele, quase como um sopro; nem negligente, porque para isso temos o bocejo. A palavra sai como sai da árvore aquela folha soprada pela mais calma brisa. Se encontrar onde cair, lá ficará inerte, até que o tempo se encarregue de fazê-la podre. E fenecer.

É mais ou menos assim que me expresso: quanta insensatez! Sejam quantos forem os ouvintes dispostos a emprestar seus ouvidos ao que pode parecer uma imprecação, a palavra dita está, dita ficará.

Se porá alguém a refletir sobre o seu significado, ou se os que a ouvirem não terão qualquer interesse por ela e pelo que ela quer - e precisa - dizer, pouco importa. Parte do objetivo de sua libertação terá sido cumprida: sinto-me mais leve. Como se tivesse arrancado de mim um corpo estranho, a irritar-me a garganta, ou a unha encravada que me impede de seguir meus próprios passos.

Se acontecer de alguém na audiência interessar-se por refletir sobre o que ouviu, aí então não será difícil encontrar os sinais necessários à compreensão da insensatez agressiva e agredida. Neste segundo caso, a emissão do som pejorativo com que a expressão atingiu os ouvidos é o sinal mais patente da agressão cometida pelo emissor. A agressividade dos praticantes da insensatez, contudo, é exigente de evidências outras.

Felizmente (ou infelizmente?) não são poucos, nem ocasionais, muito menos pobres, os sinais de que vivemos época insensata, em um mundo insensato.

Vamos aos fatos.

É fato que a educação brasileira não serve de exemplo a um só país. A qualidade que lhe falta é por quase todos reconhecida. Os resultados das mais diferentes avaliações, nacionais e estrangeiras, são desoladores. Raramente, se é que alguma vez isso acontece, somos classificados em posição destacada. A não ser que invertamos a direção, da base para o topo.

O que se pretende fazer ou o que se tem feito para elevar o nível da educação nacional, além de ameaçar os que tornam concreto o esforço educacional do País?

Dezenas de ataques e ações restritivas têm atingido o setor educacional, em especial a educação pública, nos últimos meses. Ainda ontem, milhares de bolsas de formação de mestres e doutores foram extintas. Este é, contudo, apenas um dos muitos sinais de insensatez.

Todos (à exceção dos fabricantes e vendedores de armas e as milícias e seus praticantes) reclamam contra a violência que ceifa, de preferência, parte da juventude brasileira. Pessoas do sexo masculino, entre 15 e 29 anos de idade têm a vida interrompida, qualquer que seja a região do Brasil. Das penitenciárias procede o desassossego da maioria da população, ainda mais quando consideramos a parcela a que se nega tudo.

Qual a solução apresentada, além do estímulo à aquisição de armas?

Pretende-se, ao invés de combater a violência, ampliá-la. Usam-se argumentos que seriam considerados pueris, se não beirassem a rematada irresponsabilidade. Armas, armas e mais armas - é o que se proclama, como se aos cadáveres contabilizados não se vinculasse todo tipo de armamento, muitas vezes até arsenais. Mesmo se as chacinas e as matanças não bastassem à prática sistemática do extermínio, simplesmente.

Se somos o país campeão na mortandade praticada pelos que fazem dos veículos automotores outro tipo de arma, afrouxam-se os constrangimentos aos condutores. Que eles continuem a matar-se e a matar os outros!

Os serviços públicos correm o risco de total desmantelamento, quando seria prudente torná-los melhores. Em especial nos setores da saúde, do transporte coletivo, da educação básica, da habitação e do saneamento, prefere-se jogar a criança fora, quando se alega indispensável jogar a água suja que corre pelos esgotos em que tais setores se transformaram. Com a bacia, vai a criança.

É difícil entender tanta insensatez! Mais ainda, prever bom o porto a que haveremos de chegar. Infelizmente, todos, não só os que respondem por ela. E nela encontram arrimo para sua temerária viagem.




Faroeste caboclo - Em 01/06/2019

Todo dia se torna menor o espaço do sonho. Se para os que sonham acordados o caminho parece encurtado demais, para os que dormem não é oferecido se não o pesadelo. Tanto faz apurada percepção da realidade que nos cerca, quanto a ignorância absoluta.

Vivemos como ilustração da canção escrita por Renato Russo, quando o Legião Urbana empolgava plateias jovens, mas não apenas elas. Havia, de alguma forma e em algum lugar, certa nuvem de esperança. Por mais passageira fosse, se não nuvem não seria, existia e era preciso aproveitá-la. Antes que maus ventos a levassem para bem longe.

Os últimos acontecimentos nas unidades do Sistema Penitenciário de Manaus remetem, imediatamente à canção cujo título encima este texto. Nela, Renato Russo descreveu mais que o cotidiano de uma época. A história de João Santo Cristo e Maria Lúcia, forjada segundo a vida vivida pelos jovens do final da década dos 1970 ali foi posta com tocante e necessária crueza. Ao mesmo tempo, mostrou-se antecipatória, não fosse próprio dos poetas enxergarem o que a maioria das pessoas não vê. Ou, como se tem constatado, faz absoluta questão de não ver. Ou silenciar, quando não consegue fugir à visão do que está à sua frente.

O herói-bandido cuja vida foi narrada pelo vocalista do Legião Urbana pode ser encontrado, às vezes em quantidade multiplicada, nos inúmeros estabelecimentos penais do País. Pode ocorrer, em algumas dessas fábricas de delinquentes definitivos, de se encontrar exemplares revistos e ampliados do menino do interior, mandado aos 15 anos para o reformatório. Também não será mera coincidência muitos deles terem a orfandade causada pelo tiro de um revólver, posto nas mãos de quem acha bom bandido morto".

Os ingredientes da canção de Renato Russo fazem-na chegar a quase 10 minutos de duração. Porque também é extenso o manancial onde o compositor foi buscar os fatos em que se inspirou. Já eram extensos naquele tempo, quando começavam a reabrir-se os céus do Brasil, imagine-se agora, a pregação do ódio e o exercício da intolerância constituindo a matéria-prima de expressiva quantidade dos habitantes do País!

O duelo com Jeremias, se por um lado lembra outra belíssima canção - Domingo no Parque, de Gilberto Gil - remete às paredes das prisões e outras paredes entre as quais blocos e facções se digladiam. E põem a perder, mais que projetos pessoais e eventuais (quando os têm), as esperanças a que todos se julgam com direito.

No final, a morte. Outro não é o destino, de pessoas e de sociedades, quando o ódio é a fonte de inspiração, e a intolerância o seu modus operandi.

O álbum editado em 1987, contendo a tragicamente bela peça do compositor brasiliense - Que país é este? - continua deixando uma pergunta sem resposta.


Onde está a crise? Em 26/05/2019

O Brasil parece confrontar-se, hoje mais que nunca, com uma realidade que, simplificadamente, remete a um dilema: manter e fazer avançar a claudicante democracia duramente alcançada, ou renunciar à proposta de apresentar-se ao mundo como uma nação respeitável.

Os ingredientes da crise por que vimos passando incluem produtos do débil sentimento de cidadania de que somos acometidos, tanto quanto de reações que beiram a perturbação mental. O esforço de muitos que reclamam do status quo dirige-se a assegurar para si mesmos os privilégios atribuídos aos inimigos (não adversários, como seria mais aceitável), que a busca da igualdade de oportunidades, esta sim, uma proposta democrática e republicana.

Frequentam o debate, além de detentores de boas informações e de sadias intenções, os que substituem o cérebro no exercício de pensar. Insuflados pela bile e por tudo quanto tem a ver com o processamento do que ingerem (inclusive informações deturpadas), disseminam o ódio através de todos os meios, de preferência os que ocultam a identidade dos detratores.

Qualquer que seja o fundamento, diferentes que sejam as formas de abordagem, a crise está aí, desafiando a sabedoria e os interesses de todos. Para onde quer que rumemos, não serão levados apenas os partidários desta ou daquela liderança, a real e a apenas presumida.

Uma das faces mais incômodas da crise, a bipolarização insana impede perceber a necessidade de enxergar a luz ainda não descoberta, no fim do túnel ou antes dele. Certamente, isso não ajuda a superar os obstáculos, muito menos a cumprir a agenda com que todo governante ou representante popular deveria comprometer-se. Como cerne mesmo de sua existência e justificativa da outorga de que se fez merecedor.

É justo e indispensável reconhecer os vícios encontrados em quase todas as instituições, dentre as quais agora não escapa sequer o escalão mais alto do Poder Judiciário. Lá, como no Legislativo e no Executivo, não se percebe vínculo adequado com os direitos dos cidadãos, nem com os deveres dos que concorreram para preencher os postos oficiais - os eleitores.

Os riscos de a Justiça transformar-se em partido político ou, no máximo, arena dos debates de tal natureza, são muitos. Nenhum irremovível, no entanto. A rigor, fosse cumprida a regrar atual, restaria muito pouco para corrigir. O saber jurídico devidamente comprovado e a ilibada conduta seriam suficientes, mantido o controle pelo Parlamento, para ter no STF pessoas em que a sociedade acreditaria.

Não é menor a importância de cumprir-se a Constituição, no que toca em especial às Medidas Provisórias. Expediente destinado a prevenir situações emergenciais, a MP responde por inaceitável imposição sobre os congressistas. E acaba por transformar as duas Casas do Parlamento em balcão de negócios.

Tudo isso, porém, parece-me secundário, quando o dilema pode ser visualizado. A crise afeta, sobretudo, a democracia. Isso tem a ver com a forma como o poder é exercido e em nome de quem. Por enquanto, insiste-se em providências absolutamente afastadas do problema político principal. Menos próximas, ainda, da redução da desigualdade. Neste tópico, temos rumado sempre no sentido contrário. Apenam-se os desafortunados, para premiar os abastados. Perseguem-se os adversários, todos transformados em inimigos. As penas impostas à educação, por exemplo, resultam do papel pouco relevante que tem sido dado a essa função, pelos que teriam que emprestar total apoio às atividades do setor. Em especial, às escolas, faculdades e institutos mantidos com o dinheiro do contribuinte. É dentre estes que estão os analfabetos de toda ordem e os que não têm assegurada a vaga no banco da escola, em qualquer nível.

Se nos preocuparmos com a democracia, não há como fazer ouvidos de mercador aos que analisam a questão do ponto de vista que me parece mais conveniente e oportuno, Necessário, até.

Refiro-me às ameaças de levar o Presidente Jair Bolsonaro ao impeachment. Os que advogam essa medida extrema não são unânimes, quanto à motivação. Uns a desejam por calcularem que terão suas falcatruas esquecidas; outros veem a oportunidade de sua facção chegar ao posto mais alto da República, havendo ainda os que pensam em instalar no Planalto o vice-Presidente. Ambos, Bolsonaro e Mourão, receberam mais de 57 milhões de votos. Se muitos desses eleitores já abandonaram o barco, ainda são muitos mantidos em sua ignorância cultivada.

Não é o caso de tirar Bolsonaro e seguir o rito constitucional. O que implicaria guindar o general-vice-Presidente à posição daquele.

O que importa, agora, é saber o que a democracia ganharia com a troca. Como se sentirão os eleitores, eles sim, beneficiados ou prejudicados pela ação de que foram alijados. Não bastam, também, as simples manifestações de rua, ainda que indispensáveis. É de lá que se pode emitir o som quase sempre desagradável ao ouvido dos mandatários.

Não serão os mais informados, nem os desinformados, muito menos os que se aproveitam das informações para obter ganhos materiais, aqueles de quem se pode esperar propostas e ideias benéficas à sociedade.



Ruas, povo e governo - Em 19/05/2019

Em uma das inúmeras exibições da sabedoria política de que era detentor, Ulysses Guimarães disse da necessidade de ouvir a voz das ruas. Em 1964, convencido da pregação golpista, ajudou a derrubar João Goulart, presidente ungido pelas urnas, tanto quanto os presidentes que ocuparam o Planalto, desde 1990.

Dos últimos sucessores dos generais-presidentes, dois foram colhidos pelo impeachment. Outros têm contas a prestar à Justiça, vítimas uns de certo sentimento justiceiro, enquanto há os que conseguem a leniência e a simpatia dos que detêm o Poder. No aparelho estatal recomendado por Montesquieu, nos meios de comunicação ou nos círculos empresariais.

A corrupção - sabe-o qualquer semi-alfabetizado - não foi inventada por este ou aquele partido, nem é fruto semeado neste ou naquele país. É fenômeno diretamente vinculado à forma prevalecente no campo das ideias. Justifica-se pelos valores semeados, cultivados, divulgados e transformados em ideário. Daí a substituição do papel e da importância das instituições, nenhuma delas criada à revelia da opinião pública, sejam quais forem seus formadores.

Também esses valores, a que alguns atribuem caráter dogmático, não fogem às mais dramáticas contradições. Não fosse assim, como admitir a consagração do mercado como a régua que mede todas as coisas e relações, e condenar o magistrado que vende sentenças? Como criticar a mãe que prostitui a própria filha? Num caso e noutro, não se está se não cumprindo a regra máxima, porque fundadora, do mercado: o encontro entre oferta e procura, para chegar ao preço. Magistrados e mães, portanto, terão sido apenas obedientes às regras do mercado. Simples assim, como diria o Ministro da Justiça, em relação à diferença no tratamento de suspeitos de crime igual.

Nas democracias, produto das relações sociais (e por isso mesmo!), encontram-se virtudes e vícios. Estes, menos numerosos que as outras, como o disse Winston Churchill.

Sem a voz das ruas, esse lugar a que muitos do povo atribuem a condição de lar, impossível crer na democracia. Mesmo a desigualdade no timbre e na mensagem dos que se reúnem não consegue calar a boca dos insatisfeitos. Os interesses, difusos em sua origem, acabam por tornar-se invisíveis, não obstante suas dissemelhanças.

O que se chama povo, parte apenas da população, vê sua voz misturada a outras vozes. A dissonância jamais aparece na aglomeração pública. Pode ser percebida, porém, sempre que aos ouvidos do poder chega o clamor. Tem sido frequente, entre nós, a força da voz desafinada, a mensagem dos que têm no povo o inimigo a combater. Dispensa-se qualquer exercício acadêmico para entender o fenômeno, se comparado o perdão de dívidas bilionárias dos setores que mandam, relativamente aos constrangimentos orçamentários impostos à educação. Mas não apenas a ela.

Vozes, do povo e de outros que a ele se misturam, um dia inevitavelmente chegam aos gabinetes de onde partem as decisões. Resta, então, escolher quem serão os beneficiários e quem perderá, com as decisões tomadas. Aqui os valores, as crenças, a experiência, os preconceitos, os sentimentos, os conhecimentos, os compromissos, a índole e muito mais - inspiram, orientam e sustentam as escolhas.

Se há algo universal, o processo de tomada de decisões talvez seja o melhor exemplo a ser dado. Basta comparar países, cada qual com sua história e seu povo. A inspiração virá daquele com o qual mais se identificam os tomadores de decisão.

Se as decisões apenam a maioria, as democracias têm proteção. O impeachment, um deles. Simples assim, como diz o ex-magistrado, talvez um dos mais exigentes reivindicantes do instituto do recall. Que, ao fim e ao cabo, tem sido defendido por tantos.


Tudo como dantes - Em 11/05/2019

Pouco a pouco, o Brasil vai voltando às práticas que se anunciaram caminhando para a extinção. Jamais veríamos a repetição do toma-lá-dá-cá enraizado em nosso cenário político. Também a prevalência de um - o Executivo - sobre os demais poderes republicanos seria de vez extirpada de nosso receituário oficial. Muito menos a partilha dos cargos mantidos com a contribuição dos cidadãos permaneceria atrelada aos mais condenáveis interesses. Enfim, foi prometida uma nova era aos milhões de brasileiros que foram às urnas, em outubro passado. Não ficou de fora das promessas a substituição de critérios ideológicos na designação de ocupantes de posições-chaves na administração, por outros, validadores da competência técnica e da conduta proba.

É certo que tais promessas só poderiam repercutir em mentes fortemente vinculadas ao que de pior a ideologia pode proporcionar e oferecer. No mínimo, expectativas favoráveis não teriam como ser sequer admitidas, fossem todos os eleitores suficientemente ou honestamente informados a respeito da realidade brasileira e da trajetória dos agentes políticos ou econômicos em atividade no País.

Não se pode descartar, além disso, a ingenuidade (?) com que muitos embarcam em qualquer canoa, cujos furos sejam obscurecidos pelo desencanto e o desespero. Só ao sabor das ondas ameaçadoras, alguns dos desesperados vão-se dando conta do naufrágio iminente.

É exatamente esse o sentimento que começa a emergir, nesta difícil fase de nossa república e neste momento de incerteza quanto à claudicante democracia de que vínhamos desfrutando.

Ninguém pode governar este país, tenha a qualificação acadêmica que tiver, se for incapaz de perceber a História do Brasil. Menos, ainda, se essa ignorância decorre de opção pessoal, desdenhosa do conhecimento dos fatos e dos meandros que costumam frequentar ambiente minimamente democrático.

A democracia, que Winston Churchill considerava o pior dos regimes salvo todos os demais, tem um preço. Quem se negar a pagá-lo, o mínimo que fará aos cidadãos, ao País e ao futuro, é sacrificar a liberdade, sepultar as esperanças e encaminhar a sociedade por veredas cuja opacidade traz o desassossego a todos.

Os esforços por esconder as verdadeiras razões da (anti)reforma previdenciária, por exemplo, são sinal destes tempos. Mas não os únicos. A eles se juntam as permanentes agressões às instituições sobre as quais repousa o próprio edifício republicano: os poderes Judiciário e Legislativo. Se a crise que os atinge diretamente e dá abrangência institucional ao conflito não foi inaugurada em 01 de janeiro deste ano, a multiplicação dessas agressões e a origem ilegítima de que procedem só servem para complicar o quadro. Pior, ainda, quando pessoas intimamente ligadas ao Poder Executivo tentam restaurar a monarquia, apresentando-se como membros de uma dinastia, como ocorre no regime monárquico.

A promiscuidade entre os poderes, sempre sob o pretexto de alcançar a governabilidade, ganha novos contornos, aproximando-se ainda mais do escambo político tanto e tão repetidamente criticado na campanha eleitoral. O dinheiro público continua a ser desperdiçado em benefício dos dirigentes, não da população carente de educação, saúde, segurança, habitação e tudo quanto caberia ao poder público prover. A falta de argumentos continua a gerar despesas com publicidade, como no passado, remoto ou recente.

A prometida troca de preferência ideológica na designação de profissionais frustra-se, mesmo se ideologia exige a preexistência de ideias. Até quando estas são escassas, preconceitos e fanatismo dão base às escolhas de hoje.

Para piorar tudo, transforma-se o País em um faroeste, pretextando combater a violência com mais violência. Antes, tínhamos algumas pessoas portando armas e concorrendo para fazer do Brasil um dos países mais violentos do mundo. Hoje, às armas junta-se o espírito armado de cidadãos que estão longe das virtudes desejáveis nos que governam



Nós e o tempo - em 04/05/2019

Ninguém escolhe o lugar de nascimento. O vir-ao-mundo é não mais que um acidente para cada indivíduo. Será ato de escolha ou decisão para os que o geraram e promoveram sua chegada à luz. Para o recém-nascido, o cumprimento de uma decisão. Nada mais que isso.

O que vem depois tem sido sempre obra do tempo (ah, sempre ele!), e daquilo que Ortega y Gasset chamou circunstâncias. Do primeiro não se tem certeza de como e quando começou. Pode ter sua origem no que os entendidos chamam big-bang, mas a certeza disso ainda não foi alcançada. Como toda hipótese, poderá um dia ser refutada.

As circunstâncias, moldadas ao longo da trajetória humana, impõem as mutações às quais estão sujeitas aos sujeitos que concorrem para a configuração dos cenários em que se movem. Agente e paciente de tudo o que se constrói e destrói, segue o homem sua caminhada.

Se o ato de nascer, na perspectiva individual, escapa à participação do indivíduo, o mesmo não se pode dizer de sua contribuição à construção da sociedade. Aqui, mais uma vez, e em caráter definitivo, basta o tempo passar. Não se espere que lactente, criança e muito jovem, o ser humano tenha completa percepção do mundo que o recebeu, onde quer que tenha alcançado a condição de tripulante e passageiro da nave Terra. Por isso, é necessário acumular mais vida. Somar mais minutos, horas, dias, anos, décadas à sua individual aventura de existir. Até chegar o momento em que, senhor de sua própria cabeça, dono de seus próprios sonhos, passe a decidir segundo seus próprios valores, suas nem sempre firmes convicções, seus mais próximos interesses.

Alguns baseiam suas escolhas esquecidos de sua condição. Ou porque lhes faltem informações razoáveis, ou pela contemplação obsessiva do próprio umbigo, fundam-nas no egoísmo. Abstraem-se, portanto, de sua condição social, de apenas parte de um todo muito mais amplo e complexo, comumente chamado sociedade.

Outros, cientes dessa condição, orientam-se por valores fundados na solidariedade, no amor mais que no simples respeito ao semelhante. E é no seio de uma sociedade da qual participam uns e outros, todos esses indivíduos, que as decisões são tomadas. Uma delas, a busca de mecanismos capazes de solucionar os conflitos inevitáveis entre seres diferentes. Tantíssimo diferentes, melhor dizer.

Chego a este ponto para tocar em assunto trivial, até ser alcançado o objetivo que identifico em parcela da sociedade de que participo. E que postulo menos desigual, mais solidária e pacífica.

Como tantos aqui acolhidos, nunca vi Manaus como o Eldorado, apto a satisfazer alguma ânsia de enriquecimento material. Pensei-a como a Pasárgada reescrita, em que nem a amizade do rei me bastaria. A liberdade para ser o que sou, como sou e o amor da mulher amada - valem mais que minha conta bancária. O respeito e a justa amizade dos meus contemporâneos é quanto me basta, para ter quase fastio pelas discussões que fundamentarão o pedido de prorrogação sempre em pauta. Prorrogação tantas vezes obtida, como se o mundo não avançasse e trouxesse consigo ameaças ao que envelheceu sem se dar conta disso.

Esquecemos todos de que o tempo nunca passa. Ele veio para ficar. Nós é que passamos por ele, eterno a zombar de nós.


Ventania de palavras - em 27/04/2019

No início dos anos 1970, escrevemos sobre a então infante Zona Franca de Manaus. Referíamo-nos às condições que facilitaram e determinaram sua criação aqui. Louvávamo-nos em estudo feito pelo economista francês ParickTissier, em artigo publicado no periódico especializado de seu país, a Révued'Économie Politique. O economista europeu, interessado em compreender o processo responsável pela criação de mecanismos de integração do mercado global, apontava para os fatores favoráveis à implantação deles em determinados lugares, em comparação a outros.

Minha atenção foi atraída, porque eu punha em dúvida os pretextos para a criação, em território tão afastado dos centros de produção e consumo nacionais, de uma experiência sem precedentes no País. Instigava-me, também, a frustração de outros Estados pretendentes a sediar a zona franca ou similares. Manaus acabou ganhando o páreo.

Segundo o autor francês, a ZFM era a 117ª experiência de modelo implantada no Mundo. Só isso bastaria para comprometer os promotores da decisão traduzida no Decreto-Lei nº 288. À época, sempre que os defensores da criação se manifestavam, davam a impressão de que a capital amazonense logo estaria beneficiada por uma novidade. Atribuía-se à zona franca quase caráter original. No entanto, em praticamente todos os continentes havia algo igual ou semelhante. Portos livres, plataformas de exportação, zonas de livre comércio e quejandos espalhavam-se já pelo mundo inteiro.

A análise das condições políticas e sociais desses lugares levou Patrick Tissier a reconhecer pelo menos três fatores comuns: 1. Todos estavam, quando da criação do mecanismo de incentivo à produção industrial, vivendo experiência autoritária. Os governos instalados tinham resultado de golpes de Estado e os cidadãos sofriam os constrangimentos típicos dessas intervenções. 2. A mão de obra oferecia-se fartamente, face à ausência de empregos que a mantivesse totalmente ((ou perto disso) ocupada. Aquilo que, no linguajar dos economistas, se chama exército de reserva da mão de obra. 3. O escasso sentimento cidadão e de classe, que leva à desorganização dos trabalhadores e os mantêm subordinados aos caprichos, interesses e ganância do patronato.

O Amazonas, e Manaus por consequência, viviam em pleno abandono. A crise experimentada quando a Malásia começou a produzir borracha reapresentou-se, desta vez com maior dose de dramaticidade. Era preciso fazer algo para reverter esse incômodo quadro. Desde o final da Segunda Grande Guerra, assinado o armistício com os países contendores, a Amazônia tinha pouco a oferecer como atrativo, mesmo aos países Aliados. E a economia mundial anunciava a entrada em novo ciclo. De um lado, era preciso restaurar a Europa devastada e promover o reerguimento do Japão. Do outro, poucos benefícios poderiam ser colhidos aqui.

Daí o interesse de algumas lideranças locais, em trazer para cá recursos externos, apostando em que isso teria o dom de superar o desânimo que se abatera sobre a região.

Como e onde fazer isso? Aqui dificilmente se descartará a hipótese de Tissier. Os três fatores acima enunciados eram facilmente identificados entre nós. Com a adição de uma circunstância, que nem por ser vício de origem, perde seu lugar no elenco de pretextos: a distância. Embora dado do problema, fatal como pode ser fatal qualquer fenômeno natural, a inserção da capital amazonense em área distante do oceano ainda hoje tem sido aproveitada para justificar muita decisão oficial. E, como se sabe, nunca faltou o aplauso fácil e o salamaleque subserviente aos que mandam. Sejam quem forem....

Estamos, hoje, enfrentando aquilo que muitos chamam de ameaça. Eu prefiro chamá-la

oportunidade.

O governo federal inclina-se por tornar letra morta o mandamento do artigo 40 das Disposições Transitórias da Constituição de 1988. Nele, assegura-se a manutenção da ZFM. Mas, como disse o Ministro da Economia, nem precisa tocar na Lei Maior, para extinguir a ZFM, ou deixá-la morrer à míngua...

Os motivos para liquidar o modelo aqui implantado podem não estar sendo repetidos, mas os interesses que movem a liquidação provêm dos mesmos setores.

Não precisa ser sequer profundo conhecedor de Economia (talvez até seja melhor nada saber dela), nem conhecer a fundo as potencialidades da região, do Amazonas igualmente.

Dotada da maior floresta tropical do Planeta, contando com a mais ampla bacia hidrográfica da Terra, beneficiando-se de regime de chuvas e insolação inigualáveis e somando reservas minerais ainda por avaliar criteriosamente, talvez sejamos das regiões do Mundo mais aptas a resolverem por si mesmas suas dificuldades.

Para que isso ocorra, contudo, será necessária alteração substancial e profunda na conduta das lideranças locais. Fenômeno pouco esperado, exatamente porque jamais exercitado. Os mais exaltados dos que fingem insatisfação são os mesmos que deixaram FUCAPI, CT-PIM e CBA ao desabrigo. Neles poderia estar a catapulta científica e tecnológica necessária ao aproveitamento de nossas potencialidades. Somadas às universidades públicas e ao INPA, essas instituições dariam a resposta mais adequada aos nossos graves problemas.

Ao contrário, a indiferença das lideranças políticas e empresariais acabou por fortalecer os que sempre conspiraram contra a nossa economia. Só os cegos não veem isso. E os que, porque veem demais, também não precisam enxergar.

O que foi feito quando a arrecadação da SUFRAMA foi transferida para os cofres federais? Quem se esforçou por romper as bem orquestradas divergências entre o MMA, o MDIC e o MCTI, que inviabilizaram o CBA e o condenaram à morte?

Nunca é tarde demais para fazer o mea culpa. É disso que o Brasil está precisando: a renúncia ao exacerbado egoísmo e a superação da costumeira subserviência. Sem isso, não teremos mais que palavras. Estas, o vento leva...



De volta a Montesquieu - Em 20//04/2019

Precisamos voltar à República. Ainda que jamais a tenhamos alcançado em sua plenitude ou logrado oferecer-lhe a robustez desejada, melhor seria preservar a possibilidade de chegar a tanto. Para isso, porém, muito chão há a percorrer, muita poeira há que ser levantada, muito mais há a ser aprendido.

Quando Montesquieu postulou a separação de poderes, já se tinha como certa a sabedoria de deixar claras as funções específicas de cada um dos poderes do Estado. O passado, concentrador de funções nas mãos dos monarcas, tornou-se incompatível com o avanço do conhecimento e as consequências disso sobre a sociedade. Ficou para trás a crença no caráter divino do exercício do poder. A autoridade republicana, laica e mundana, não é atribuída por qualquer dos habitantes do Olimpo ou de outra origem, que não sejam os cidadãos de determinada nação.

Ao constituir-se, os Estados modernos, em sua maioria, optaram pela fórmula do pensador francês. Quaisquer que sejam as regras específicas, de uma a outra das Repúblicas modernas, nenhuma delas supera as linhas demarcatórias do modelo proposto por Montesquieu. Se é que alguma chega a efetivá-las satisfatoriamente.

Executivo, Legislativo e Judiciário, onde quer que se tenha implantado o regime republicano, apresentam-se com características próprias, sem rompimento do território delineado na obra clássicade Charles Louis de Secondat. Em termos gerais, ao primeiro desses poderes, o Executivo, corresponde a ação resultante das determinações legais. Estas, obra do Legislativo, delimitam a autoridade dos membros do primeiro poder. Ao Judiciário compete intervir, provocado apenas, sempre que houver divergência entre pessoas, pessoas e autoridades, organizações versus organizações.

No Parlamentarismo, mesmo nele, o conjunto de funções específicas não se desfigura. Apenas o governo obedece, em sua formação e funcionamento, ritual diverso daquele adotado no Presidencialismo. Se, neste, cabe ao Presidente da República dirigir as ações governamentais, naquele tais responsabilidades cabem ao Primeiro-Ministro. Em ambos os casos, o Presidente é eleito pelo povo, diretamente.

Uma primeira diferença entre o papel do Presidente registra-se quando o Parlamentarismo atribui a ele autoridade para nomear o Primeiro-Ministro, o líder da maioria no Parlamento. Dá-se ao Presidente a alternativa de dissolver o corpo legislativo e convocar novas eleições parlamentares.

Busca-se, na fórmula parlamentarista, aumentar o grau de governabilidade, legitimando a gestão dos negócios públicos com a afinação dos executivos coma representação popular. Aqui parece-me estar a mais profunda diferença de ordem prática entre uma e outra das duas formas de funcionamento da República. Mesmo se evidentes os percalços porque têm passado alguns países parlamentaristas, isso não apaga as sucessivas crises por que passam as repúblicas presidencialistas. Parece até demasiado lembrar que muitos países têm convivido com crises desse tipo, sem que se altere o cotidiano dos cidadãos. Há como elevado grau de estabilidade nas ações governamentais, porque a burocracia estatal permanece firme em suas bases. As tendências pessoais autoritárias encontram mais amplas probabilidades de emersão e êxito no sistema presidencialista.

Uma particularidade do parlamentarismo aponta na direção de maior compromisso dos representantes eleitos pelo povo com suas promessas de campanha: a virtualidade de dissolução do Parlamento.

Dificilmente, sob o sistema parlamentar, testemunharíamos o lamentável quiproquó em que se envolvem, agora, o Poder Judiciário e o Ministério Público Federal, feito 4º. poder pela Constituição de 1988. Ê verdade que a ascensão do MPF ao patamar em que o colocou a Constituição-cidadã nada tem a ver com a questão. Seria mais fácil, todavia, observar com maior critério as especificidades dos poderes, se requisitos básicos para a escolha e nomeação dos membros do Poder Judiciário fossem obedecidos. Como está inscrito na Lei Maior.

A bem da verdade, precisa-se responder se a ilibada conduta e o notável saber jurídico estão presentes em todos os atuais membros do STF.

A tentativa de censura partida da mais alta corte de Justiça a um órgão de comunicação dificilmente ocorreria, atendidas as exigências legais no provimento das vagas do STF. Seria menor a probabilidade de envolvimento de algum daqueles magistrados em atos desabonadores. E ninguém lá teria motivo para intervir em causa própria - se não, em ato de ilegítima defesa.

Quem disse melhor sobre essa constrangedora questão, foi mais uma vez o ex-Presidente do STF, Ministro aposentado Aires Brito: poder que investiga não pode julgar, poder que julga não pode investigar.

Inadmissível, no entanto, é agredir o STF como instituição republicana que é. Nele, como em todos os demais poderes e organizações, convivem seres humanos. Como tal, dotados de vícios e virtudes. A contenção dos vícios, sua correção e a manutenção e prosperidade das virtudes é que devem merecer a atenção de todos. Só o aperfeiçoamento das práticas, sob a permanente e rigorosa vigilância da sociedade é cabível, exigível até.

Tanto se tem dito sobre a sabedoria de manter em funcionamento as casas representativas, por piores que elas sejam. A experiência mostra as desvantagens de Parlamento fechado. Nem se descarte a oportunidade que as eleições dão aos cidadãos a oportunidade de corrigirem seus próprios erros. Basta negar a recondução dos maus, trocando-o pelos que esperamos sejam melhores. Tudo isso, sem qualquer certeza de que não voltaremos a errar. Quem conhece a fundo a alma do outro?

De igual forma se há de preservar o funcionamento do Poder Judiciário, em todas as suas instâncias. Que tal reservar ao Supremo as causas que põem em questão aspectos constitucionais? Quem já se terá lembrado de garantir isso, ao mesmo tempo em que tornar férrea a obediência ao preceito que reserva às pessoas de bem - não às de bens - as togas solenes que decidem sobre a vida e a morte de cada um de nós? Pessoas de bem, neste caso, as que têm conduta ilibada e notório saber jurídico.


Gesto que falta - Em 13/04/2019

Criança ainda, ouvi dizer que de boas intenções o inferno está cheio. Na vida privada, tanto quanto na vida pública, jamais será sábio conter-se nas boas intenções e contradita-las com as ações. Uma não opera sem a outra, como se ambas representassem as faces da mesma moeda.

Em um país que construiu e cultiva consenso a respeito da complexidade das relações sociais, a ponto de fazer de sua compreensão um problema que só os experientes e profissionais conseguem deslindar, mais avulta a importância de interpretar a sentença dos nossos maiores.

Tom Jobim disse, certa vez, que o Brasil não é para principiantes. Depois dele, muitos repetiram a frase, em versões individuais. Às vezes, mera troca de palavras, como a que diz não ser o Brasil coisa para amadores. De profissionais, portanto, é que poderão vir as soluções para nossos graves e persistentes problemas.

Ao admitir alguma razoabilidade na exigência de profissionais, somos forçados a conceituar ou reconceituar a própria expressão: o que será um profissional, para muito além da teoria weberiana?

Basta ao indivíduo pertencer à estrutura burocrática, civil ou militar, pública ou privada; ter sua remuneração paga por ela e submeter-se às regras e procedimentos próprios dessa estrutura, para ser considerado profissional?

Os dias que correm estão prenhes do desmentido desses pressupostos. Ameaçam fazer ruir, portanto, o conceito weberiano e trazem de volta a velha discussão entre intenção e ação.

Muitos veem déficit no nível dos que fazem política no País. A isso estão atribuindo a confusão em que se tem constituído o governo nacional, desde o primeiro dia de 2019. A falta de conhecimento e do talento que antigos atores do cenário político revelaram parece subjazer à barafunda institucionalizada.

As decisões confusas, os recuos consequentes; o bater de cabeças entre os membros de uma mesma equipe; a intromissão de agentes ilegítimos nos negócios públicos; a renúncia à altaneria característica de nossas relações com o Mundo - tudo isso faz supor termos entregue o País a diletantes, empenhados em aprender o fazer político quando têm a responsabilidade de, por sua ação, comprovar as intenções proclamadas.

Nem se vê, lê ou ouve qualquer menção à incompatibilidade do conceito emitido pelos governantes, quando décadas de experiência não parecem ter servido para qualquer forma de aprendizado. As intenções anunciadas cada dia mais se mostram distanciar das ações que se esperaria lhes corresponderiam.

È inoportuno qualquer ato que tente diagnosticar a doença que se abate sobre a sociedade, se ela não trouxer a análise criteriosa das causas e ajude a construir hipóteses viáveis de correção. Para isso serve a democracia; disso se nutre a cidadania inspirada pelo interesse coletivo.

Se é importante considerar que as intenções não valem, se para ratifica-las as ações as contradizem, não é menor o interesse que deveríamos devotar à sinceridade com que tais intenções são proclamadas.

Muitos autores atribuem à ideologia um papel ingrato: o de esconder ou falsear a realidade. Discordando, vejo a ideologia como resultante da existência de ideias e ideais nos quais as pessoas acreditam. Pior, se o indivíduo não tem ideias.

Será que as intenções, sobretudo as alardeadas nos períodos eleitorais também não sofrem déficit - o da sinceridade?

Justo que muitos se arrependam do voto dado. Justo, ainda, que outros insistam em sua pregação eleitoral, no sentido contrário. Injusto, porém, que façamos do malogro razão para tripudiar sobre os vencidos, mesmo se pensam ser os vencedores. A história está cheia desses episódios, que Pirro não deixa esquecer.

Há pessoas cujo limite da competência (e aqui tomo emprestado o conceito de Peter Townsend, autor de Todo mundo é incompetente, inclusive você), deveria aconselhar outros caminhos, não o escolhido por elas mesmas. De qualquer maneira, louvemos o reconhecimento da incompetência, mesmo se ela já produziu efeitos maléficos sobre toda uma nação.

Falta, porém, o gesto mais digno, nessas circunstâncias. Que ele venha.


Uma necessidade premente - Em 06/04/2019

Ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, nada produzem em termos de benefício ao povo. A experiência humana tem sido marcada pelo sacrifício dos valores democráticos, e só por exceção se consegue pinçar algum resultado positivo para a coletividade.

Quando se impede os cidadãos de exercerem com plenitude os direitos atribuídos a todo ser humano, dificilmente se conseguirão resultados benéficos ao conjunto deles. Já nem me preocupa incluir neste rol o direito à vida, durante séculos considerado um direito natural. O que significa dizer: nascido, o ser humano não pode ter dificultado o desfrute do direito de viver. Nem pode tolerar qualquer gesto ou ato que prejudique o exercício desse direito.

Até aí, porém, há pouca - se há alguma - diferença entre o ser que se autoproclama superior e os outros animais. Tanto, que o maltrato a cães e gatos (para ficar apenas nos membros da fauna mais próximos de nós) é objeto de normas legais, em todos os países.

O melhor exemplo histórico dessa consideração merecida pelos animais nos foi dado pelo advogado Sobral Pinto, durante a ditadura Vargas. A base do recurso que pôs o líder comunista Luís Carlos Prestes fora das grades, o grande nome da advocacia brasileira foi buscar na Lei de Proteção aos Animais. Porque as ditaduras, onde quer que tenham deixado sua infausta marca, não conseguem distinguir o ser humano dos outros animais da Natureza.

Importa pouco se Joseph Stalin é o nome do ditador. Ou se ele se chama Adolph Hitler. Pode chamar-se, também, Augusto Pinochet, Videla, Franco, Salazar ou Médici. Há como um elo que os torna, independentemente de onde cada um exerceu seu fatídico múnus, irmãos de crença, parceiros de missão, cúmplices da mesma triste aventura que são.

È para isso que todos devemos atentar, se realmente nos interessa perseguir a democracia, resgatando-a onde ela esteja e trazendo-a para o nosso convívio.

Interessa pouco, hoje, discutir passado que não deve cair no esquecimento. Não na busca de reformular conceitos, criar novas palavras ou esconder o que toda a Humanidade já sabe. Interessa, sim, evitar retrocesso cujo interesse só anima os destituídos da mínima condição de entender o mundo, nele situar-se e contribuir para fazê-lo melhor.

Também não há de vingar a resposta comumente encontrada, quando os argumentos a favor da causa de cada um se revelam enfraquecidos: a violência, através do uso da força. Toda vez em que tal ocorre, aí se há de identificar a fragilidade do que a usa, a confissão tácita de seu próprio fracasso - como cidadão e como ser humano.

Se, passados mais de dois séculos da Revolução Burguesa que derrubou a Bastilha, ainda não se logrou criar uma sociedade marcada pela liberdade, a igualdade e a fraternidade, isso não atesta a impossibilidade de fazê-lo. Ao contrário, a frustração deve alimentar as forças que concorrerão para aproximar-nos cada dia mais do sonho dos iluministas, maior que aparente ser a escuridão.

Sem liberdade, impossível alcançar a igualdade que entreteve tantos filósofos e pensadores, em todas as partes do Globo. Tal igualdade, porém, não será produto da prevalência do egoísmo sobre a solidariedade.

Deu-se de dizer que o homem é, sobretudo, egoísta. Alguns até veem no egoísmo uma virtude, não o pior dos vícios. Certo que ele existe, não para fazer-nos reféns. Melhor que seja objeto da humana consideração, porque só assim oferecerá condições de reduzir o grau em que ocorre e tantos males causa à sociedade humana.

As ditaduras jamais lograram isso. Os exemplos, de tão fartos, nem precisam ser mencionados. Salvo se a ignorância seja tamanha, que exige dizer que o sol só aparece durante o dia.

Pode ser que a alguns leitores - reduzidos que sejam - tenha ocorrido de perguntar-se: isso tudo não é se não utopia, pura utopia? Minha resposta: imagine-se o estado do Homem não fosse sua relação estreita com a utopia! Como nos deslocaríamos pelos ares, de um lugar ao outro? Como venceríamos os vírus que ceifam a vida de tantos humanos? Como comprovaríamos serem os mesmos os genes de pais e filhos?

A utopia, portanto, não é apenas o não-lugar, mas o lugar aonde ainda não chegamos. Por que abandonar a caminhada até lá?

As ditaduras são inimigas da utopia, aqui e alhures. Não as podem ter os cavalos, as hienas, os leões. Delas precisam, como precisam do ar e da água, todos os seres que reúnem as condições a que se refere Hanna Arendt.


Nada é ( ou será) mais feio - Em 02/04/2019

Dos que dizem acreditar na democracia não se deve cobrar nem esperar menos que traduzam sua crença ou convicção em ação. Só a atividade pautada pelos valores correspondentes a esse sistema democrático consagrado na expressão de Churchill (a democracia é o pior sistema de governo, à exceção de todos os demais), atesta, ratifica e comprova a alegação.

Se desejássemos caracterizar o regime democrático, dificilmente encontraríamos papel e tempo suficientes para deixar registrados os elementos que a ele correspondem. Fiquemos, portanto, com a proclamação da Revolução Francesa, cujos objetivos ainda estão por ser alcançados - liberdade, igualdade e fraternidade.

Falar de democracia e alegar apreço por ela exige, no mínimo, a defesa intransigente do direito de todos pensarem segundo mandam seus interesses e sua cabeça. Há, portanto, planos diferentes na convicção democrática, todos imprescindíveis: no plano individual, pesam mais os interesses de cada um. No plano coletivo - e nenhum conceito de democracia é negligente quanto a isso -, não é dessa invenção grega que se trata, quando o egoísmo se sobrepõe à solidariedade.

Uma coisa é o que pensamos; outra, o que fazemos. Proclamar amor à democracia, ao mesmo tempo em que postular a limitação de qualquer dos direitos humanos ou ofender a liberdade individual não é menos que sinal de enlouquecimento,

Onde falte a liberdade de opinião, onde o cidadão tenha amputado o direito de ir-e-vir, onde os ouvidos sejam moucos às palavras do outro, aí não haverá, como jamais ouve e como, desafortunadamente, ainda não há, o menor esgar democrático.

Pior, quando a História revela os resultados do sacrifício da liberdade. Quando perpetrado, tem levado consigo milhões de vidas humanas. Já não bastam os exemplos fornecidos pelas políticas de Stalin, de Hitler, de Mussolini, de Franco, de Salazar, dos governos militares no Brasil de 1964-1985?

Mais grave, ainda, quando o sacrifício da liberdade cumpre a mais ignóbil função a que alguma sociedade é forçada a submeter-se: produzir, manter e defender, a ferro e fogo, a desigualdade social. Uns mais, outros menos, os países têm enfrentado ainda tibiamente os que se aprazem da desigualdade social e dão a ela um caráter natural que só os tolos e ingênuos, se não mal-intencionados ousam admitir. No entanto, era no sentido inverso que apontavam as guilhotinas que ignoraram cetros e palácios, talentos e habilidades pessoais. Luís XVI e Maria Antonieta, Danton e Robespierre são exemplares.

E o que se há de dizer a respeito da fraternidade? Nada menos que foi remetida ao lixo da História, porque incompatível com uma sociedade que faz da exploração de um ser humano por outro (ainda assim, suposta teimosamente tido como semelhante) o móvel de toda ação.

Reduzido à condição de fator de produção, o homem tem para os ideólogos do que está aí, o mesmo que uma folha de papel higiênico. Ou o objeto do uso desse material.

Longe da fraternidade postulada pela Revolução Burguesa, a humanidade vai-se cada dia enredando nas teias que parecem tecidas não pelo fio de Ariadne, nem pelas cordas com que Prometeu pretendia levar ao alto a pedra que lhe foi dado transportar.

Para transformar o mundo, não se há de ser conservador. As coisas boas, aprazíveis aos sentidos do Homem, enobrecedoras de sua presença no Planeta devem ser conservadas. Como conservar, porém, o que destoa da verdadeira condição humana? Ou, se somos criacionistas, como admitir que o Criador determinou a desigualdade e fez dela motivo de enlouquecido culto?

Por isso, impactou-me a leitura de um livro, obra de uma ucraniana, mais tarde laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, 2014. Refiro-me Svetlana Aleksievitch e sua obra As últimas testemunhas.

O livro tem como material nada mais, nada menos, que extratos de depoimentos prestados por pessoas que, na infância, passaram pelos horrores da guerra. A autora refere-se à Segunda Grande Guerra e colhe as impressões, sentimentos e traumas sofridos por contemporâneos infantis daquele conflito armado.

As atrocidades que os soldados do Eixo, os comandados por Adolph Hitler em especial, impunham às populações submetidas só não causam horror àqueles que, destituídos da condição humana (ou, quem sabe, porque humanos são?) dão à vida de seus semelhantes o valor de uma caixa de fósforos. Ou de um caixote de balas.

Hoje, em muitos países, é chocante ver-se quanto a intenção de conservar o que desonra a espécie humana ameaça retroceder aos tempos em que isso parecia louvável. Não basta a esse tipo de pessoas sentir-se bem no ambiente hostil dos nossos dias. É preciso recuar no tempo e de lá trazer de volta a indignidade como selo de qualidade dos homens.

Escrevi um texto, apreciando o que lera em As últimas testemunhas. Não contente, repeti a autora, só que descobrindo Poesia mesmo no horror da guerra. E juntei trechos de cada depoimento, juntando-os segundo as limitações do meu parco talento poético, em capítulos que se referem ao conteúdo do texto: Amor, Horror, Infância, Fome, Compaixão, Memória e Poesia.

É meu tributo a estes dias nada alvissareiros.


Nossos patriotas - Em 23/03/2019

Nestes tempos de globalização, poucos entendem necessário promover a atualização de conceitos e suas respectivas práticas. Quando já distamos algumas décadas da guerra fria que impediu o confronto direto e armado entre as nações hegemônicas em cada lado do Mundo, muitos parecem ignorar as consequências disso. Talvez outros tantos sequer se tenham dado conta do novo clima político e estratégico construído no Planeta. Logo, impossível falar dos efeitos de mudanças que foram - e ainda são - incapazes de perceber.

As fronteiras físicas se dissiparam ou perderam qualquer sentido, quando os capitais ganharam asas e romperam outras fronteiras - as políticas e ideológicas, de preferência. Por isso, a volatilidade desses capitais, que garante seu trânsito acelerado entre os espaços dos antigos mercados nacionais. Porque mesmo esses - talvez a face mais evidente da globalização - impõem enorme dificuldade a quem os pretende situar geograficamente. Melhor explicação não haveria, se não dispuséssemos do surgimento das empresas transnacionais. Delas parece impossível traçar o perfil ou definir a identidade. Pelo menos, a respeito de sua localização e área de atuação. Elas são, na aldeia global, igualmente globais.

Dentre os muitos conceitos ligados ao fenômeno transformador das relações internacionais, os de pátria e soberania atraíram sobre si efeitos ora danosos, ora favoráveis. Ninguém haverá de deplorar a facilidade de comunicação, devida sobretudo às conquistas da tecnologia. Comunicação, diga-se, de bens e pessoas, tanto quanto de informações - e valores e comportamentos, também.

Não são esses, apenas, os âmbitos afetados pela crescente aproximação entre as nações e suas respectivas populações. Enfim, a aldeia global se instalou entre nós, em que pese não haver consciência disso sobre a vida dos seres humanos, onde quer que estejam. Deixa-se, portanto, de aproveitar e generalizar os bons resultados da globalização.

Talvez aí, o medo de superar conceitos tradicionais ou aproximar-se de um globo sem fronteiras e livre da desigualdade impeça aproveitar o que o avanço tecnológico conquistou.

Neste particular aspecto, o Brasil parece tirar de letra. Enquanto muitos posam de patriotas, confessam sua submissão a outras potências. A afirmação de que a soberania nacional deve ser preservada não os impede de aceitar a direta e impositiva intromissão estrangeira em nossas decisões.

Certo que a autodeterminação, como era vista e praticada no passado, já não encontra lugar no mundo. Isso não quer dizer, condenação à situação submissa como uma fatalidade. Menos, ainda, quando se trata de uma nação como o Brasil por todos os títulos assentada sobre uma das maiores áreas territoriais dos antigos Estados nacionais: nossa diversidade climática, biológica, florestal, florística tem tal peso no ambiente, que alterações na Amazônia repercutem em toda a Terra. Nossa rede hidrográfica não é menos importante, nem exauriu o potencial de que é dotada, em especial quanto à pesca, a piscicultura, a produção de energia, para ficar nas mais evidentes vantagens. Nossa população, ainda predominantemente jovem, se favorecida pelo bom ambiente escolar e acadêmico, terá tudo para transformar as potencialidades de que tolo ufanismo tanto fala, em produção de melhor qualidade de vida para todos e não apenas para reduzido segmento populacional.

Nada disso parece objeto da consideração de nossos governantes. Ao contrário, o que se tem visto é absoluto desprezo pelas características apontadas.

Quando, porém, se afirma que o Brasil está acima de tudo, o menos que se poderia esperar é a conduta subserviente e deslumbrada diante dos que se pensam donos do mundo.

Ah, esses nossos patriotas!...


Circunstâncias da tragédia - Em 17/03/2019

Quando a discussão séria e respeitável dos problemas é substituída pelo uso de armas, não são apenas a democracia e seus protagonistas que perdem. Perde toda a humanidade.

A tentativa de superar as dificuldades especialmente se estas resultam da desigualdade, transformando-as em caso de polícia, não conduz a qualquer desfecho positivo. Essas considerações, todavia, passam ao largo não apenas dos que têm sobre os ombros as responsabilidades do Estado. Elas não frequentam, um segundo sequer, as mentes dos que instalaram as autoridades nos gabinetes, a elas atribuindo o poder e, igualmente os deveres inerentes à esfera governamental.

O trágico episódio ocorrido em escola do interior paulista não foi o primeiro, podendo-se apostar que não será o último. A morte de pessoas entregues às suas tarefas diárias - ensinar e aprender, no caso da Escola de Suzano - junta às que morrem de doenças ou ataques repentinos, as vítimas da violência que só a desigualdade sabe produzir. E a desigualdade, sabe o mais ignorante dos animais ditos superiores, não pode ser combatida com armas. Estas só têm validade em casos excepcionais - a guerra, por exemplo, a mais estúpida das iniciativas de que o homem é capaz. Em todos os demais casos, o uso de armas como método de resolução de problemas incide em uma das duas situações: a debilidade dos argumentos ostentados por uma das partes em conflito; ou a confissão clara e contundente da própria incompetência.

Atribuir-se ao governo instalado no Planalto desde 1 de janeiro qualquer culpa pelo ocorrido na cidade paulista, mais que injusto, é tolice intolerável. Imaginar, porém, que os anúncios ventilados desde a Praça dos Três Poderes reduzirão a violência, mais que injusto e tolo, incide em delírio. E, como tal, absolutamente avesso à realidade.

Mais armas levarão à multiplicação de atos como os que interromperam a vida dos alunos e funcionários da escola de Suzano. Ninguém compra e porta uma arma de fogo como quem compra uma imagem do santo de devoção. Ou um quadro pintado a óleo ou aquarela. Se estes servem para os momentos de oração ou de contemplação estética, nem religião nem arte inspiram o uso de um revólver ou pistola. Para ficar nos mais discretos desses instrumentos de guerra e crime.

O mínimo que se pode dizer a respeito da facilitação da compra de armas e de sua detenção pelo cidadão comum é que transfere para cada indivíduo uma responsabilidade do Estado. A este é que cabe garantir a segurança dos habitantes de uma cidade. De qualquer cidade. Para isso, todos pagam impostos (excetuem-se os que tiram dos cofres públicos o que a maioria leva a esses mesmos cofres); para isso a maioria abre mão de parte de seus (predominantemente parcos) salários.

Dentre as funções tipicamente de Estado a prestação de serviços de segurança pública é elencada. Isso significa a impossibilidade de transferi-la a terceiros, mesmo se a prática das milícias e a tolerância em relação às suas atividades às vezes contem com o olhar indiferente das autoridades. Quando não a cumplicidade e a aliança, ostensivas ou não.

Ontem, jovens morreram porque estudavam. Professora e auxiliar da escola morreram quando cumpriam obrigações de interesse de toda a coletividade. Dois jovens, igualmente, morreram, sabe-se lá por que razão. Da mesma forma como se desconhecem as razões que os levaram a reproduzir o exemplo dos Estados Unidos da América do Norte, são ignoradas as razões pelas quais se tornaram amantes de armas e admiradoras de solução tão infausta. Para os seus e para os outros.

Imagine-se o sentimento das famílias dos dois jovens, que certa imprensa vê apenas como assassinos. Sim, eles praticaram um crime. Esse é o fato. É preciso, porém, avançar um pouco nas considerações sobre o acontecimento, sabido que o homem é produto do seu meio.

Tanto quanto pode alterar o meio em que vive, de que a degradação ambiental flagrante é testemunho, o homem sofre a influência do ambiente, social sobretudo.

Não cabem comparações relativas à dor sentida pelos que perderam filhos e parentes, causados pelo ato insano dos dois atacantes. Nem esquecer que os pais destes perderam os seus filhos, também. Pior: depois de cometerem um ato que os terá abalado para o resto da vida. Pais e mães, portanto, estão unidos pelo mesmo sentimento, pela mesma perda e pela irreversibilidade da situação.

Enquanto não atentarmos para o que disse Ortega Y Gassett, a respeito do homem - ele é ele e suas circunstâncias - teremos pouca chance de chegar a bom porto. Restaria apenas abrir mais cemitérios.


Tartamudos e bobos da corte - Em 09/03/2019

Estes tristes tempos que vivemos atribuíram caráter obsessivo à inovação. Toda e qualquer sugestão, para ganhar legitimidade e apoio, arrima-se em jargão a que nem mesmo as autoridades públicas se acham capazes de resistir. É como se a troca de palavras, às vezes o sepultamento de algumas delas, substituísse o fenômeno. O fato sendo apagado pela linguagem. A narrativa do nada.

Pior, porém, quando certa tendência à subserviência e à submissão preponderam. Nesse caso, vocábulos estrangeiros acabam por tentar nomear e definir coisas e relações que são exclusivas do patrimônio histórico e cultural de alguma nação.

Já não bastam os riscos próprios da transformação do Planeta em uma aldeia global, vários são os fatores que se agregam a essa nova tentativa de submeter os povos, distantes que estejam, longínquas as paragens onde se reúnam seus nativos.

Um dos termos que praticamente as gerações mais jovens ignoram é a palavra tatibitate. O dicionarista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira o define como : 1. Que ou aquele que fala trocando certas consoantes. 2. Gago ou tartamudo. 3. Muito acanhado, apatetado, inhenho. (Editora Nova Fronteira, 1ª edição, 15ª impressão, p. 1.357). Gago ninguém desconhece o que significa. Tartamudo, porém, não desfruta da mesma popularidade. Para o mesmo dicionarista, é aquele que pronuncia as palavras a custo, entaramelado. É preciso, pois, esclarecer ainda mais o conceito, para deixar claro o que significam entaramelado e inhenho, constante da primeira citação acima.

Comecemos por inhenho, do qual se diz ser indivíduo muito acanhado, palerma, imbecil, pateta, decrépito. Já o entaramelado é o que embaraça a fala, a língua; titubeia, emaranha-se, enleia-se. O dicionarista sequer faz referência à pobreza vocabular do tartamudo, que agravaria ainda mais o tatibitear (o verbo também dicionarizado) do orador.

Conhecem-se pessoas cujo universo vocabular talvez não reúna mais que 500 palavras. Nesse universo, muitos profissionais das comunicações podem ser incluídos.

Do homem público, pela natureza e importância da função que exerce e por ter relação com a sociedade, o mínimo que se pode exigir é o uso da língua nacional e de linguagem a que todos tenham acesso, letrados ou analfabetos. Às vezes, é mais educativo manter silêncio que disseminar termos e formas de expressão incompatíveis - primeiro, com a realidade da situação retratada; depois, com a dignidade da audiência. O silêncio, neste caso, se não atesta a honestidade de propósitos, pelo menos dá sinal de alguma inteligência do falante. (Ou não-falante).

Não é à toa que muitos líderes políticos, empresariais e científicos dedicam-se ao estudo da língua nativa e de línguas estrangeiras. Sabem eles quanto isso ajuda na construção de conceito positivo a respeito deles e do país onde nasceram. Talvez o sentimento de patriotismo devesse começar por aí, respeitadas as restrições que o processo de globalização opõe às concepções e a conceitos avelhantados.

Quanto menos bem dita seja a palavra, mais confusão se há de estabelecer no seio da sociedade. A experiência o tem revelado e os exemplos, em que pese a advertência dos societários, são mais frequentes do que os avanços tecnológicos e as técnicas educacionais justificariam.

O resultado dessa absoluta incompetência para dizer o que supostamente se desejaria dizer é a descrença até dos mais fervorosos apoiadores de qualquer pessoa aspirante à legítima e respeitável liderança.

O resto é o arbítrio, a imposição de verdade única, sustentada à distância de saudáveis relações sociais e de clima que leve ao respeito do líder. Ao final, reconhecido apenas como um impostor ou um bobo da corte.


Barbárie - Em 01/03/2019

Mais se aprofunda o processo de globalização, menos o fenômeno é entendido. Mesmo nos ambientes acadêmicos e em outros supostamente bem-informados, permanecem vivos valores e condutas repelidas pelas novas formas de relacionamento entre os países e as comunidades respectivas. Prestes a ingressar na segunda década do terceiro milênio, a aldeia global enfrenta resistências impossíveis de imaginar, quando a explosão da informática apenas começava.

O resultado é que os problemas parecem ter-se multiplicado e agravado. O ser humano dos tempos atuais parece ter apagado tudo quanto veio antes dele, como se não houvesse uma trajetória histórica a observar.

Nesse particular aspecto, as duas grandes guerras, o colonialismo, a utilização da geografia como certificado de propriedade de extensas regiões, a guerra fria e o desfazimento da chamada "cortina de ferro" tendem a ser esquecidas. Propositalmente, diga-se, a bem da verdade.

Os mesmos que saudaram a derrubada do muro de Berlim fazem coro aos que tentam construir um muro entre o México e os Estados Unidos da América do Norte.

Avaliar os males causados à sociedade humana por aqueles - e não só eles! - fenômenos tende a ser uma probabilidade permanente. Por isso, os arranjos políticos e a conduta ofensiva ao direito dos povos continuam a perpetrar-se, deixando transparente o descompasso em que se vive.

A divisão do globo terrestre entre as nações mais poderosas, em que pese a aparente eliminação do colonialismo, levou-nos à guerra fria. Os dois polos de poder trataram de preservar suas colônias, seja qual for o nome dado às relações de subordinação em que mantiveram seus satélites (supostamente) nacionais.

De que terá adiantado a alguns países da África superar seu estatuto colonial, se outras formas de dominação surgiram? Para que terá servido o sangue derramado nas duas guerras, se é vergonhosa por suas dimensões, a fome que grassa no mundo?

Pior: quando se pode imaginar o triunfo de uma organização capaz de pôr em prática o ideal da Terra como pátria de todos, os manda-chuvas oficiais enveredam por caminhos absolutamente indesejáveis. Pelo menos, para os bilhões de famintos e para outros que, sem sentir fome, julgam o ser humano diferente dos animais chamados inferiores.

O fracasso da Liga das Nações e da Organização das Nações Unidas muitas vezes tem desanimado mesmo os bem-intencionados. Como a dar razão ao velho e conhecido aforismo: de boas intenções o inferno está cheio.

Nem por isso, todavia, o melhor será insistir nas causas desse fracasso ou desdenhar da melhor hipótese: uma globalização que não se ponha exclusivamente a serviço do lucro e do enriquecimento que sacrifica a maioria.

No início do século XX, o cineasta Charles Chaplin afirmava que a sociedade humana estava carente, muito mais de sentimentos que de tecnologia. Se esta é capaz de resolver muitos dos problemas com que se defronta a sociedade dos homens (e mulheres, acrescentaria um escriba pouco versado na língua de Camões e Saramago), não tem a mesma eficácia, quando se trata de subordinar-se às carências de todos, não apenas dos que a detêm e controlam.

Assim, mais se avança na criação de réplicas eletrônicas do homo sapiens, mais se impõem sacrifícios ao homem comum. Aquele que, portando sonhos e aspirações como todos os demais, não tem sequer a oportunidade de tentar realizá-los. Ao contrário, o cotidiano revela sempre e em movimento ascendente, sua exploração.

A promessa de substituir o trabalho humano pelo uso de máquinas eficientes e oferecer oportunidade de satisfação pessoal e crescimento intelectual e cultural das pessoas produziu, mais que tudo, o número de desempregados registrado em quase todos os países. Não só nos países que cumprem o papel de reserva de riqueza para os mais fortes. Os ricos também são afetados pelo fenômeno, não raro alimentador da violência generalizada.

Claro que a alguns parecerá utopia (e é bom que o seja) desejar um mundo em paz, não a paz construída segundo a máxima de César - vis pax para bellum - mas aquela que repousa no respeito ao direito à vida e a todos os demais direitos que justificaram o derramamento de sangue nos campos e montanhas da Europa.

Nunca ficou tão clara a exigência de uma decisão. Individual quanto social. A barbárie ou um mundo em paz - eis o dilema.

Conceitos em discussão - Em 23/02/2019

A globalização, ao mesmo tempo que aturde os observadores, tem comprometido seu discernimento. Se, por um lado, significa a tentativa de arrebentar fronteiras entre nações, aproximando-as e levando à consideração da oportunidade de um governo igualmente global, traz consigo o acirramento de divergências e a produção de ideias absolutamente avessas ao dito processo civilizatório. Este o outro lado da questão.

Não é apenas a ampliação no volume e no ritmo dos negócios que se registra. Aparentes mais que os outros fenômenos, os negócios parecem tomar todo o interesse dos protagonistas e dos observadores do processo. A tal ponto, que somente essa dimensão é contemplada pela análise nem sempre inteligente da questão.

Vejo a necessidade de alargar a perspectiva da qual a globalização vem sendo observada. Não basta determo-nos nas novas formas de relações econômicas e comerciais entre nações e empresas. Neste aspecto particular, tornou-se difícil até dizer da nacionalidade deste ou daquele grupo econômico, esta mesma entidade que parece ter definitivamente substituído a mercearia de uma esquina ou a quitanda da outra esquina.

Não é só nisso que a globalização interfere. Nem é inteligente imaginar que o movimento por ela desencadeado se circunscreva ao ambiente dos negócios.

As políticas públicas e aquilo que se tem chamado de governança também são afetados pelo que os franceses chamam mundialização. Talvez até esse desfazimento de fronteiras tenha sua compreensão mais facilmente captada, se atentar primeiro para o que repercute nas formas de conduzir as nações e seus respectivos povos. Conceitos também merecem a atenção dos analistas.

Desse ponto de vista, portanto, deve ser avaliado o papel da soberania. Como qualificá-la com o adjetivo nacional, se é irreversível a derrubada de fronteiras econômico-financeiras entre os estados antes ditos nacionais? Como admitir a prevalência dos interesses de um povo e governo específicos, se suficientemente comprovada a impossibilidade de autarquização total?

Já não se trata de discutir o conceito de soberania como até poucas décadas antes. Não se espere que, de um dia para o outro, uma nação decida invadir território vizinho, ferindo aquilo a que se deu o nome de soberania.

Não será com armas, em consequência, que se anulará a interferência de uma nação em outra ou de um Estado em outro. A força das armas não consegue impedir o capital na sua busca cada dia mais agressiva por lucros em outros territórios fora do seu próprio. Isso já não basta. A rigor, mostra-se absolutamente inócua a resposta militar. A não ser que os governos correspondentes detenham armas atômicas. Os resultados de um confronto em tal paridade, simplesmente elidem o problema mencionado - a globalização - como tudo igualmente que a sociedade humana construiu. Por isso, não cabe comentar o que deixará de existir.

Como evitar essa como a única saída é o de que devem tratar os que se interessam pela vida. A de cada ser humano, como a de toda sociedade, seja qual for a latitude e a longitude onde esteja instalada. Pois é sobre essas medidas que reflete o processo que nos transformou em uma aldeia global.

Como nos inserirmos no processo avassalador é a inevitável - talvez a única ou a mais importante - pergunta a ser feita. Podemos fazê-lo de forma inferior, subserviente, acovardada; ou resistir à pior das consequências - a situação colonizada um dia experimentada.


A joia e o joio - Em 16/02/2019

A pólvora foi de novo descoberta: o crime cometido em Brumadinho pela Vale ocorreu porque a empresa estava interessada em manter sua lucratividade. Dito assim, aos incautos parecerá tratar-se da primeira tragédia envolvendo a gigante brasileira da mineração. Mas não é!

A declaração nada original ocorria quase ao mesmo tempo em que um porta-voz da empresa atribuía caráter acidental ao desastre que matou número ainda não reconhecido pelas autoridades. Se depender dos dirigentes da Vale, as vítimas diretas seriam pouco mais de trezentas, 147 das quais têm morte confirmada. Mais de 160 permanecem desaparecidas. Tais números, todavia, são contestados por pessoas que conhecem a empresa e sabem do contingente de profissionais vinculados a empresas prestadoras de serviços à mineradora. Os números podem alcançar mais de setecentas vítimas, segundo essas fontes.

Há, ainda, os que alegam ter a Vale promovido estudos e levantamentos recentes, relativos aos riscos ligados às suas atividades em Brumadinho. Não há como evitar o raciocínio: somente a iminência de um "acidente" motivaria o que alguns chamam de preocupação da companhia. Não a preocupação com a vida de tantos brasileiros, muitos dos quais trabalhando para fazer a Vale ainda mais rica. E seus acionistas, repetirem os ganhos que os de sua classe sempre conseguem. Mesmo que para isso tenham que sepultar sob a lama tantos pais e mães de família, tantas mulheres, tantos jovens que se dispuseram a tornar a empresa e seus acionistas orgulhosos dos resultados.

Séculos depois de os chineses produzirem a pólvora, eis cérebros brasileiros chegando à conclusão de que o lucro a qualquer custo responde por mais esse assassinato em massa. Como se não passassem de ficção os "acidentes" ocorridos em Mariana, na mesma Minas Gerais; e em Barcarena, no Pará. Sem falar em muitos outros, agora que se ganha o direito de suspeitar que muito mais joio está misturado ao trigo, nesses empreendimentos que somam à predação da natureza o sacrifício de vidas humanas. Quase sempre, às centenas...

Foi o mesmo graduado da Vale quem insinuou a absoluta inconveniência de serem aplicadas à empresa que lhe paga o salário (jamais próximo da remuneração dos que pagaram com a própria vida a aposta na seriedade de seus patrões), as penas cabíveis. Tudo porque, ao juízo do representante da mineradora, esta é uma joia da economia brasileira. O sangue dos que morreram, portanto, vale menos que a lama que os sepultou. Sequer serve para lavar a joia que o graduado deseja preservar e pôr acima da Lei.

Pena que não se possa assegurar que outros acidentes como o de Brumadinho jamais ocorrerão. A lama, ao que tudo indica, veio para ficar e levar consigo a esperança de tanta gente...

O que é a vida humana, diante da oportunidade de ganhar mais dinheiro?


Interpretação simplória - Em 09/02/2019

É demasiado simplória a atribuição de culpa ao Presidente Jair Bolsonaro pelas tragédias registradas nos últimos dias no País. No máximo, podemos dizer dele assemelhar-se ao roqueiro Mick Jagger, conhecido pé frio.

O mar de lama que destruiu a cidade de Brumadinho, a tempestade caída sobre o Rio de Janeiro e o incêndio no Ninho do Urubu podem ser explicados, menos por sua coincidência cronológica. Em menos de 45 dias decorridos, o último ano da segunda década do século XXI, o primeiro de novo milênio, vamos acumulando motivos para achar que o que é ruim sempre pode piorar.

Não são de hoje, nem atribuíveis a este ou àquele partido, a este ou àquele governo os problemas que se acumulam. Nem parece razoável vincular nossas atuais dificuldades exclusivamente ao patrimonialismo herdado desde a carta de Pero Vaz de Caminha. Se 519 anos não podem ser comparados aos milênios contados por outros povos, é necessário lembrar quanto a sociedade resulta da vontade e da ação dos que a constituem. E quanto, hoje, o que se passa no resto do mundo tem a ver com a realidade dos países, qualquer a latitude e a longitude em que se localizem.

Talvez ninguém melhor que Geraldo Vandré soube dize-lo: quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Quando há omissão, nada ocorre se não como acidente.

Sempre que os societários se omitem, dão a impressão de isolamento. Ditada por timidez, indiferença, exagerado egoísmo ou seja lá por que motivo, tal conduta acaba por punir-nos, todos. Uns pagam com a própria vida. Outros perdem parentes, amigos, colegas ou conhecidos. Mesmo os que a princípio se pensam imunes à dor geral, um dia perceberão a cumplicidade em que incidiram. Quando nada mais há a fazer. A não ser chorar os mortos, recolher a lama e esquecer os fatos.

Aí, no esquecimento dos fatos repousa grande parte das tragédias que nos têm afligido. O perdão, nem sempre justo, não pode levar ao esquecimento, como se estivéssemos diante de cena de ficção. Ao contrário, cada fato, ocorra onde ocorrer, seja ou não objeto da historiografia, sempre será História. E influi nos tempos mais à frente.

Se esquecermos do extermínio dos judeus, pelos nazistas; se olvidarmos a crucificação de Jesus; se não tivermos olhos para ver o sofrimento imposto aos negros, aos indígenas, aos homossexuais, às mulheres e aos trabalhadores brasileiros - dificilmente seremos levados a bom porto.

Não basta, contudo, termos informações de boa fonte sobre essas questões. Desse conhecimento há de resultar uma tomada de posição, como a coroar o que pensava Aristóteles acerca da Política. Esse lugar onde se manifesta o traço definitivo de nossa condição humana: a vontade.

Assim, se nossos olhos têm que estar voltados para o futuro, construção dependente de nossa vontade e de nossa conduta, o passado nos terá deixado lições das quais cumpre jamais desdenhar.

Importa pouco mencionar que tragédias ocorrem também em outros países. Mais interessante parece determo-nos em identificar as causas e buscar comparações que permitam compreender porque as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem.

O mundo, a aldeia identificada por Mc-Luhan, tem sido varrida por tragédias, muitas delas preveníveis. Por que não se as tem evitado?

Sucedem-se planos e programas oficiais, sem que algum deles tenha conseguido reduzir a desigualdade no Planeta. Repetem-se as tragédias, sem que diminuam a violência, a fome e o desemprego.

Quem sabe não chegou a hora de nos provarmos humanos?


Enlameados - Em 04/01/2019

Pieguice, demagogia, tecnicalidades, nada disso minora o sofrimento dos que perderam parentes e amigos na tragédia de Brumadinho. Muito menos, devolve rá aos seus familiares aqueles que a incúria, a ganância, a perversidade feitas lama tirou do convívio humano. Nem menos desumano e ofensivo é o gesto da maior empresa mineradora do País, tentando cobrar o silêncio dos que ficaram.

Faz poucos dias, os investidores e aqueles que lhes dão guarda-chuvas e pavimentam o confortável tapete por onde transitam sua ganância e seu menosprezo pelo ser humano, festejavam os lucros da Vale. Quase vinte bilhões de reais- essa a monumental montanha de dinheiro lucrado, enquanto a lama formava o caudal que acabou por levar a vida de centenas de brasileiros. Não brasileiros iguais aos que os assassinaram, mas dos que ainda restam com emprego, a troco das esperanças que se esvaem. Cada dia mais - e de formas tão solertes.

O que aconteceu na cidade mineira difere em localização geográfica apenas, se comparado à anterior tragédia de Mariana. Ambas, e oxalá outras não estejam para acontecer, respondem às mesmas causas e só não trazem iguais consequências, porque a cada uma que advém, maior a agressão aos valores que se podem considerar humanos e ao ambiente de que os humanos precisam para sobreviver.

Isto tudo acontece quando a promessa de tornar mais frouxa a fiscalização das condições em que operam as mineradoras (mas não somente elas) e mais célere o licenciamento para empreendimentos inspirados pelos mesmos interesses e orientados pelos mesmos valores, desenha o cenário das próximas tragédias.

Some-se a essas tragédias que muitos ainda atribuem aos fenômenos naturais o tiroteio que tomará conta das ruas brasileiras, quando todos puderem ganhar a coragem pessoal que uma arma de fogo assegura aos tíbios de caráter e de moral. Ninguém de boa fé pode acreditar na hipótese de alguém armar-se e deixar sua arma em casa, porque se trata de posse, não de porte. Com sentido inverso no sinal, seria ignorar que milhões de veículos automotores são dirigidos por pessoas que não portam o documento de habilitação.

Quantos alegam, sempre em defesa de seus próprios maus atos, que a carteira de habilitação é menos importante que a suposta e auto-atribuída perícia para conduzir os veículos? Por que imaginar que seria diferente, em relação à posse da arma?

Nada, porém, seria mais simbólico que a enxurrada de lama de Brumadinho. Nem o cenário, o ambiente de exploração minerária, seria tão emblemático.

A lama penetra por toda parte, leva consigo as esperanças de um povo e faz a festa daqueles para quem o País sempre foi verdadeira mina. De todos os lugares brotam indícios de que a lavra ainda está por fazer-se. E haja lama!


O meu guri - Em 27/01/2019

Há muito alimento a suspeita de que os filhos são, sobretudo, produto dos pais. Não, não me refiro ao encontro dos gametas, do qual resulta um novo ser. Minha suspeita leva em conta, mais que o ser biológico, aquela entidade social, ontológica, sujeita ao processo que acaba por torná-la um ser humano.

Convenço-me, todo dia um pouco mais, de que não nascemos humanos. Ao longo de nossa existência é que vamos adquirindo a condição humana. Para isso concorre um mecanismo social a que damos o nome de socialização. (Já aqui tenho que me desculpar diante dos que abjuram tal expressão. Lamento apenas não ser a hora de tirá-los da caverna onde se hospeda toda ignorância).

Penso que o lar é o lugar em que tem início o processo humanizante. Lá são estabelecidos os primeiros contatos do novo ser com seus semelhantes e com o mundo. Lá são aprendidas as primeiras práticas e incutidas em sua mente os valores que acompanharão a criança, nas sucessivas fases de sua vida.

A cada uma dessas fases correspondem experiências substancialmente diferentes. A vizinhança, a escola, os grupos de amigos, os colegas de profissão, os companheiros de trabalho, todos esses conjuntos de semelhantes acrescentam ao ser humano percepções distintas do mundo. De suas gentes e de sua forma de ser, igualmente.

É na primeira infância, dizem os entendidos, que se firmam no pequeno ser os valores que orientarão sua conduta, quase sempre para o resto da vida. Isso não quer assegurar validade universal ou generalizada ao aforismo "tal pai, tal filho". Nem se garantirá que, em todos os casos, "filho de peixe, peixinho é". Se, do ponto de vista biológico, pode-se apostar todas as fichas em que da ova nascerá um peixe, rematada tolice é esperar que um casal de cientistas gerará uma prole de cientistas.

É certo que o convívio com pessoas diferentes propicia a recepção de informações e conhecimentos diferentes daqueles recebidos e experimentados no recesso do lar. Amplia-se, portanto, o repertório de alternativas postas diante da observação da pessoa. O bom e o mau, o feio e o belo, a audácia e a covardia, o bem e o mal - enfim, os valores que subjazem nos fenômenos observados, quando levados à interpretação do observador, se deixam influenciar pelos valores que a experiência da infância registrou. E, mais que mera marca na memória, sedimentou-se e ganhou permanência.

Há, portanto, frequente probabilidade de alteração no juízo dos adultos, sobretudo quando ele é exposto a situações diferentes das que ele terá visto representadas no palco de sua própria vida. O livre arbítrio de que é portador leva o indivíduo a escolher os valores que falam melhor à sua lembrança: os aprendidos desde o lar ou aqueles adquiridos no convívio com outros grupos sociais.

Nada disso, todavia, anula o amor de pai para filho. A probabilidade de a recíproca não ser verdadeira, é enorme. Daí ter Chico Buarque, em uma de suas mais tocantes poesias musicadas, criado a peça que dá título a este despretensioso texto.

Para um pai será sempre difícil admitir um facínora naquele corpo que um dia ele pôs no colo e que dele terá ouvido: a bênção, paizinho! Quanta dor deve ocupar o coração desse pai, confrontado com o produto que pode ter resultado de seus próprios exemplos! Admita ou não sua casa como o primeiro palco da socialização daquele que guarda identidade e semelhança com ele mesmo.


Ceticismo e cinismo - Em 19/01/2019

Há quem pense dispensável a filosofia. Afinal, nunca ninguém viu um cachorro (ou um pato) discutir sua vinda ao mundo e o fato de estar no mundo. Muito menos conjeturar a respeito da própria origem e do destino de cada um, pato ou cachorro.

Os que veem diferença entre o homem e os outros animais, no entanto, teimam e atribuir importância à Filosofia. Para esses, não terá sido vão o esforço de pensadores conhecidos desde a mais remota Antiguidade. É certo que muitos desconhecem que Sócrates, Platão e Aristóteles são apenas alguns, e dos mais importantes filósofos com que a Grécia Antiga premiou a sociedade humana.

Ouve-se muito, mesmo em ambientes onde o pensamento é escasso, referência ao célebre preceito socrático "eu só sei que nada sei". Quando essa sentença é repetida pelos que realmente podem ostentá-la sem nenhum risco de mentir, pode-se medir o tamanho da ignorância de alguém. Exatamente aqueles desdenhosos de outra afirmação de Sócrates - "conhece-te a ti mesmo" -, incapazes de conhecer seja o que for, muito menos o que está obscuro em suas mentes. (Quando o que têm sobre o pescoço sequer se sabe se contém neurônios ativos).

Os que apostam na sabedoria filosófica, porém, podem valer-se de alguns dos ensinamentos dos pensadores, sobretudo dos antigos. E deles extrair alguns conselhos e orientações para a vida. Sobretudo quando a vida parece recheada de fenômenos surreais, para cuja compreensão é exigido mais que o conhecimento vulgar.

Nos tempos ora vivenciados, há quem vá tirar nos cínicos e nos céticos as bússolas que orientarão sua conduta.

Na corrente fundada por Antístenes (sec.V a.c.), o cinismo, e na que teve em Pirro (sec.IV a.c.) sua mais conhecida representação, o ceticismo, podem estar linhas adequadas à orientação nestes tempos tão difíceis.

De tanto vermos a contradição entre o discurso e a prática, ninguém melhor que Pirro para orientar a apreciação dos fatos. Trata-se de questionar permanentemente tudo que é posto sob nossa observação, qualquer o sentido aplicado. Assim, o que ouvimos (sobretudo, isso), vemos ou de que tomamos conhecimento, primeiro deve ser tido como questionável. Evidências provadas têm que se apresentadas, do mesmo modo como Descartes exigia, para considerar verdade a proposição científica.

Nenhuma verdade o é, sem que provas sobejas sejam reveladas. Tudo a quanto falte esse requisito, deve ser objeto de dúvida.

Da mesma forma, a contribuição de Antístenes e seus adeptos, todos discípulos de Sócrates, considera virtuosa a vida, quando ela corresponde à sabedoria da natureza. Assim, melhor seria desprezar as convenções sociais, escarnecer de tudo e a toda hora e, no extremo, pôr em questão a bondade, a do próprio observador e a de todos os demais indivíduos.

Segundo consigo entender (se é que o alcanço) o significado das duas correntes filosóficas mencionadas, a saúde mental, em dias tão turbulentos e sombrios, depende em especial de sabermos interpretar os fatos obedientes a alguns dos preceitos ensinados por Antístenes e Pirro. Deste, deixando de acreditar em tudo quanto se ouve. Nas fake News, menos ainda.

Do cinismo, pode-se recomendar que seja usado com parcimônia, tanta quanta baste para não deixar o juízo apodrecer. Fingir que se acredita, mesmo quando a mentira é agressiva. Ou, talvez, o fingimento deve ter a mesma dimensão da mentira apresentada.

Em épocas como a de agora, cínicos e céticos são os únicos a assegurar a absoluta dispensabilidade de tratamento psiquiátrico.

Talvez possam ser considerados loucos pelo senso comum. Aí, não há como evitar a repetição de go dito acima, pela metade: a loucura é o sol que não deixa o juízo apodrecer. Em tempos tão podres, já é alguma coisa que o ser humano não pode dispensar.


Lágrimas e pragas - Em 12/01/2019

Se o passar dos anos traz com ele achaques jamais sentidos nas primeiras décadas de vida, não se hão de desprezar algumas vantagens atribuídas aos que têm a idade avançada. Não falo da proteção piegas concedida aos pertencentes àquela categoria que a hipocrisia chama melhor idade. O conteúdo contraditório da expressão finge ignorar as restrições à prática desportiva de algumas modalidades, tanto quanto impõe regras alimentares nem sempre agradáveis aos idosos. Velhos costumam perder gradativamente alguns dos sentidos, não sendo rara a perda decorrente de males dos quais juventude costuma escapar.

Animais da natureza, fazemo-nos humanos, mas não conseguimos fugir a muitas das condenações naturais. Uma delas, acrescentar sabedoria, desde que para tanto aproveitemos certos dons, naturais alguns, adquiridos ao longo da vida, outros. Nesse caso, o longo ou curto aprendizado concorre para que nos tornemos mais tolerantes e serenos, seja na apreciação dos fatos e fenômenos com os quais nos defrontamos, sejana conduta pessoal.

Reporto-me a esse fato corriqueiro, ao verificar a multiplicação dos antes ardorosos defensores da candidatura de Jair Bolsonaro, e sua reação, mal vencidos os primeiros dez dias de seu governo.

Antes, viam-se famílias esfacelarem-se, como produto da intolerância e do discurso malfazejo que a inspirava. Registram-se incidentes capazes de afastar parentes próximos e até então estimáveis, tudo porque uns deles admitiam seriedade e responsabilidade nas palavras do candidato afinal eleito. De nada adiantaram as advertências, quase todas baseadas nas indicações e previsões do que seria o País, uma vez governado pelo capitão excluído do Exército Brasileiro.

A reação de muitos de nós, cedo convencidos do equívoco a que a maioria se entregou, quando sábia, tomou o rumo da distância. Melhor ficar de fora do ambiente em que a mentira passa a ser tida como a verdade; a demagogia e o silêncio obstruem a análise criteriosa e a discussão sadia. Assim - e só assim - seríamos preservados de participar de uma aventura sem par na história. Do Brasil e sei lá de quantos mais países.

Hoje, testemunhamos o mea culpa envergonhado, quando o arrependido mostra não ter perdido todo o bom senso com que cada homem, em porções diferentes, é aquinhoado. Pela natureza, menos que pelo convívio sadio com seus semelhantes.

Pelo menos se há de reconhecer certa dose de honestidade pessoal, diferente da malícia e da desonestidade que o terão influenciado antes.

Admito, pois, repetido com grande parte dos eleitores de Jair Bolsonaro, certo fenômeno que levou Luís Inácio Lula da Silva ao mesmo cargo da hierarquia pública brasileira.

Posso até dar meu próprio exemplo, como sei ter sido igual o que milhões de outros eleitores sentiram, na primeira eleição de Lula. O desespero - e era isso o que sentíamos, eu e tantos milhões de eleitores - é dos piores conselheiros. Só ele transforma uma folha de papel flutuando sobre as águas do mar em segura boia, capaz de levar-nos à margem. Não fora assim, por que haveríamos de eleger Luís Inácio Lula da Silva Presidente do Brasil, desde seu ato de rendição, a Carta ao Povo Brasileiro?

Pode ter acontecido o mesmo com os eleitores ora arrependidos e envergonhados. Certa ou errada, sua escolha terá fundamento no desespero e no medo de serem praticadas por outro político, saído do mesmo ambiente em que Lula reina como o imperador do carnaval, por sua exclusividade e sua alegria, as irregularidades de que o ex-metalúrgico é acusado.

Até a esperança, portanto, traz consigo ameaças de que é bom fugir. Por esperar, acabamos distraindo-nos da cena principal. Emprestamos importância a aspectos desprezíveis, sobretudo tendo a atenção dedicada a manifestações individuais, nem sempre coerentes com os objetivos sociais, coletivos, da função política. Esquecemos, muita vez, quão afeitos às luzes das gambiarras dos teatros e tão acostumados à encenação, mais que à verdade, atuam os políticos como os conhecemos.

Ainda bem que o mundo não acaba, toda vez em que um mandato se esgota. Sempre será melhor, ainda que muita água role dos olhos dos enganados e muita praga inútil saia dos lábios que antes só encontravam palavras de louvor.


Feliz Ano Novo (se possível) - Em 28/12/2018

Quando o Presidente eleito Jair Bolsonaro pretendia fundir os Ministérios do Meio Ambiente e o da Agricultura, as primeiras vozes a rejeitar a decisão tinham em mente a perda de prestígio do setor a que se vinculavam. Ambientalistas e ruralistas acharam-se do mesmo lado, embora por motivos diferentes. Pelo menos, um dos motivos era comum aos interessados na manutenção autônoma das duas pastas: a inevitável perda de prestígio de ambos os setores.

Se, de um lado - o dos defensores do ambiente - havia a suspeita de que mais difícil ainda seria sua luta pelo respeito à natureza e a prevenção dos riscos devidos aos maus tratos a ela imputados, o outro lado atentava para a manutenção do poder de fogo que concorre para a poluição ambiental e assegura ganhos exagerados aos que promovem o intenso desmatamento. E, óbvio, promovem o acirramento da luta no campo.

A decisão final, agradando aparentemente às duas partes, não chegou a surpreender. Embora a outra parte, a mais fraca, saiba que maiores serão suas agruras, mais graves as disputas que enfrentará.

Os ruralistas, mais uma vez atendidos, ganham espaços ainda maiores que os de que desfrutam há muito tempo. Conhecendo o pensamento do Presidente e de alguns dos seus mais influentes auxiliares, sentem-se à vontade para impor os rumos da política agrária.

Aos ambientalistas, que já viam com desconfiança os propósitos manifestos do Presidente em vias de subir a rampa do Planalto, resta preparar-se para tempos ainda mais duros.

Aos trabalhadores do campo, as perspectivas não se mostram alvissareiras. Ao contrário, a pulverização sofrida pelo Ministério do Trabalho e Emprego indica o aprofundamento da crise no campo, onde o trabalho assemelhado ao do escravo já indica situação trágica. Poucas são as esperanças de que o camponês brasileiro experimentará dias auspiciosos.

A liquidação do MTE representa, mais que tudo, a visão ainda cultivada sobre os problemas sociais do País. Antes de serem avaliadas as desigualdades marcantes em nossa sociedade, tudo se reduziu a uma questão de polícia. Ou de segurança.

As contradições manifestas no pensamento e no ideário de Jair Bolsonaro só tem servido para destacar o quanto estamos flertando com soluções autoritárias. Também revela quanto o jargão de propalado patriotismo se presta a mostrar nossa inclinação pela condição de colonizado.

Se, antes, Juracy Magalhães dizia ser bom para o Brasil tudo quanto fosse bom para os Estados Unidos, hoje se observa ser Trump o grande inspirador do Presidente que se instalará no Planalto, a partir de 1º de janeiro do próximo ano.

Feliz Ano Novo são meus votos, que espero não serem tomados por ironia ou brincadeira de mau gosto.


O messias e a história - Em 21/12/2018

O messianismo é fenômeno tão velho quanto a própria humanidade. Em todas as épocas, aqui e acolá surgiram indivíduos imbuídos das melhores intenções, mesmo que elas não tivessem a sustentá-las a criteriosa avaliação das condições que poderiam facilitar a missão dos que se diziam predestinados. É quase certo que o fenômeno ocorreu a partir de quando o homem se deu conta de sua presença no mundo e das necessidades que enfrentaria em seu cotidiano.

Ou seja, o que se chamou História ainda não se iniciara, quando terão passado pela Terra missionários dispostos a purgar todos os pecados do mundo, e fazer a felicidade dos que encontravam em suas erráticas andanças.

O mais importante deles, porque teve quem contasse sua trajetória, terá sido o filho do carpinteiro José com a doméstica Maria. Tudo quanto disseram os autores dos evangelhos, se não corresponde à verdade que os cientistas julgam ter produzido, tem sua credibilidade respaldada pela fé. Já disse em texto anterior, que importa pouco discutir a verdade, quando se está diante de realidade revigorante da crença. É o caso de Jesus, que se não terá existido ou cuja descrição e testemunho não corresponderiam à verdade dos cientistas, existe no coração e na mente de boa parte dos nossos contemporâneos.

Dele se diz ter sido um messias, enviado pelo ser superior ao qual se deu o nome de Deus. Deuses, como se sabe, conhecem-se faz muito tempo. O estudo dos povos mais distantes e mais longevos o diz.

A promessa de interceder junto aos credores da fidelidade e reverência dos povos, cobrindo a Terra do maná que a todos alimentará e da restauração do Paraíso onde reinará a justiça e onde todos serão iguais tem alimentado o surgimento dos demiurgos. Assim ontem, como hoje.

Nem por isso, qualquer deles logrou realizar a missão que tanto os animou, animando tantos seguidores.

A Terra, longe de dirigir-se para a situação edênica tão buscada, cada dia mergulha mais na desigualdade e na violência. Agrava-se mais ainda a tragédia vivida pelos contemporâneos, quando fracassam as tentativas de cumprir o que o mais festejado dos messias a todos prometeu.

Nem por isso se há de esquecer a pregação de Jesus, cujos sonhos não realizados devem ter o fracasso atribuído aos que dele se afastaram, com ouvidos de mercador.



Sem Quixote - Em 14/12/2018

Um dos aspectos mais fascinantes da vida humana e da Política, por consequência, é o conteúdo simbólico embutido em toda ação praticada. Seja o mais simples gesto, tanto quanto a mais extravagante postura corporal pod dizer mais que enciclopédias inteiras.

A linguagem, assim, não reside apenas na combinação de símbolos gráficos e fonéticos, eis que pode ser encontrada sob outras formas, de que dá conta o acervo artístico acumulado pelos povos.

Seja na literatura, na pintura, na música, na escultura ou em qualquer outra forma de expressar-se, o ser humano põe-se a nu, mesmo quando utiliza disfarces. A preocupação por esconder, mais que explicitar sentimentos, crenças rui diante da observação atenta e a perspicácia dos contemporâneos.

Na Política, que atribui ao ser humano a superioridade sobre os demais seres vivos, identificada por Aristóteles, esse simbolismo nem sempre resulta do uso consciente das possibilidades do cérebro. Outras vezes, vem à tona pela ocorrência do que os psicólogos chamam ato falho.

Presente no inconsciente do homem, ocorre de expressar-se, ainda quando o agente disso não se dá conta. Aí, então, a vontade mais íntima, a crença mais abjeta e esconsa, o propósito mais vergonhoso, vêm à superfície, ajudando os contemporâneos a entender os desvãos da alma, os ocultos interesses e os pecados escondidos à sombra dos que os praticam.

O gesto às vezes aparentemente espontâne de simular com os dedos a posse de uma arma de fogo quer dizer muito mais do que poderia supor nossa vã e desatenta filosofia. No entanto, as mesmas mãos que podem afagar a cabeleira farta de uma criança podem ser as mesmas que comprimem o gatilho de um revólver. Ao afago pode suceder o disparo.

Quase sempre, o gesto mais descuidado traz consigo significado tão vigoroso, que prevalece contra a palavra empenhada, o valor proclamado, o compromisso supostamente assumido.

Reflito aqui sobre o que tenho visto e ouvido, toda vez em que os jornalistas tentam ouvir alguma palavra de paz do Presidente eleito. Difícil encontrar nelas as promessas de que o País será pacificado, sepultará as divergências acirradas durante a campanha eleitoral, encaminhando-se-pela bússola do entendimento, da concórdia e do trabalho fraterno e produtivo.

Cervantes, em sua jamais suficientemente louvada obra, pôs em certo cavaleiro da Mancha as virtudes e as fraquezas de que é dotado todo ser humano. Foi além. Mostrou quantos todos somos detentores de virtudes e vícios, boas e más qualidades. Sem o que, faleceria nossa mais frágil pretensão à humanidade.

Pois bem. Aparentemente derrotado, o cavaleiro que nunca considerarei de triste figura ainda não foi superado, quanto à busca da justiça, da solidariedade que só elas constroem com amor. Talvez porque o amor seja algo repelido nestes tempos tão sombrios, há que evitar demonstrá-lo. Fazer isso corresponderia a tornar-se frágil. A despeito de apenas isso elevar-nos à condição de humanidade tão reivindicada e proclamada.

Mas não vivemos na época de Cervantes, muito menos de Quixote. Dcontentarmos-nos com os valores traduzidos em Sancho Pança.

A mediocridade e o pragmatismo de que se recheia dão o tom de nossos tempos nada quixotescos.


Levanta, Lázaro - e anda! Em 07/12/2018

As esquerdas brasileiras têm sido acusadas de manter o pé no passado. O pensamento conservador atribui a elas todos os males que afligem o País e o mundo. Proposital e cuidadosamente esquecidas de que a queda do muro de Berlim e a implosão da antiga União Soviética levaram com elas a iminência de realizar o sonho socialista, teimam em buscar no passado os argumentos com que se pretendem proclamar arautos de novidades.

Não passa pela cabeça dos ideólogos conservadores, nem pelas de seu rebanho de seguidores, ter o mundo chegado aos problemas ora enfrentados sem que a um só esquerdista possa ser imputada a menor culpa. Desde quando se pôs fim à guerra fria, desapareceu o equilíbrio político entre as duas porções do mundo - o Ocidente e o Oriente.

As decisões impostas às nações emanaram da mesma fonte, aquela que segue exigindo sacrifícios dos povos, encontrem-se eles onde quer que estejam. Mesmo a suposta ameaça do gigante amarelo não chega a preocupar.

Transformada em um sistema econômico moldado segundo os padrões capitalistas, a China já não dá conta - nem se interessa por - rejeitar o capitalismo, chamemo-lo por esse nome ou se o ponha a trajar as vestes do neoliberalismo.

Só os cegos ou irresponsáveis poderão ver algo de comunista na China - ou em qualquer outra parte do Mundo. Mesmo os que admitem discordância vinda da Coréia do Norte, o que lhes resta de honestidade não desmentirá o papel auxiliar dessa nação, relativamente à gigante do rio Amarelo.

Isso quer dizer que, em última análise, toda análise fundada na antiga divisão do mundo, e gerida pela dinâmica da guerra fria tende a limitar-se a inócuo exercício de imaginação.

O processo de globalização e a submissão de todas as relações sociais aos negócios do mercado não podem ser ignorados. Muito menos esquecidos, quando se busca a resolução dos problemas que, anteriores à queda do muro e ao desfazimento da URSS, permanecem afetando a maior parte dos habitantes do Globo.

Assim, ao que nos interessa como habitantes desse pedaço distante dos centros de decisão, torna-se forçoso adquirir novas percepções e refletir sobre as mudanças operadas no Mundo, desde o longínquo ano de 1967.

Refiro-me, especialmente, à tolice em que se constitui reiterar gestões (até grotescas) que determinem o prolongamento da agonia da Zona Franca.

Passados mais de 50 anos de sua instalação, o que mais pode a ZFM oferecer, em termos de desenvolvimento? Nada, rigorosamente nada. Concedam-se as indulgências devidas, se um dia se admitiu, com sanidade mental e honestidade intelectual, que ela fosse de fato uma tentativa de desenvolvimento. Nunca o foi.

Não é que se trate de simples objeção à desigualdade por ele agravada. Também não vem ao caso apenas elencar o rol de problemas inexistentes no final da década dos 1960, relativamente aos ora registrados.

Mais honesto será reconhecermos todos quanto a desigualdade aprofundou-se e quanto ela tem parcas oportunidades de ser alterada, mantido o padrão de relações capital-trabalho, região-país-mundo, neste momento da história.

Se trouxermos a pelo a política econômica anunciada para viger a partir do próximo ano, aí então nossa situação se complica.

No passado, a abertura da economia nacional causou abalos capazes de serem enfrentados, inclusive com a manutenção do privilégio dos que tinham em Manaus sua mais rentável fonte de enriquecimento. Hoje, as diferenças decorrentes da globalização e a voracidade com que os investidores nos olham deixam pouca margem ao otimismo.

Quando deveríamos ter buscado caminhos alternativos e complementares, contentamo-nos com participar do banquete dos ganhadores, debaixo da mesa onde se reuniam os comensais. Bastaram-nos os restos acidentalmente caídos da mesa do farto repasto!

E o CBA , como um Lázaro prestes a deixar o leito de morte, continua com todas as suas potencialidades abertas à justa e digna exploração. Não a que vai no rumo da devastação ambiental e na exploração extrativista, mas na que se há de orientar pelo aproveitamento racional de tudo quanto a natureza põe à nossa disposição.

Se, por um lado, nada há de auspicioso nos anúncios até aqui conhecidos, pode-se ainda enxergar a oportunidade de tentar o que deveria ser tentado desde o início da primeira década deste milênio - o funcionamento efetivo do CBA.

Apoio da própria SUFRAMA não faltou, desde o surgimento do Centro de Biotecnologia da Amazônia. Interesses menores, porém, impediram-no de cumprir o objetivo para o qual foi criado.

Oxalá os constrangimentos resultantes do processo de globalização, combinados com a orientação governamental que se espera, determinem a implantação definitiva e sólida do CBA. Sem danos à natureza, nem submissão aos interesses econômicos, políticos e científicos das nações mais poderosas. O que não será tarefa muito fácil.


A melhor aposta (parte-2) Em 24/11/2018

Impossível, agora e sempre, deixar ocultos nos desvãos da memória pessoas e fatos que ajudam a compreender a conjuntura e desaconselham pressa e superficialidade nos prognósticos.

Lembremos, por exemplo, que Jair Bolsonaro iniciou sua vida política sustentado pela rebeldia, não pela identidade própria aos ex-colegas de caserna.

Tal irresignação produziu, inclusive, manifestação de simpatia por Hugo Chávez, o militar hoje responsabilizado pelos que votaram no próximo Presidente brasileiro de tentar implantar na Venezuela o comunismo. Mesmo se o comunismo parece ter ruído com o muro de Berlim.

O tosco militar e político venezuelano ganhou notoriedade quando ainda era Coronel e invadiu o Parlamento na tentativa de dissolve-lo. Depois, deu no que deu...

Também é inevitável buscar onde estão as semelhanças e as diferenças entre Jair Bolsonaro e alguns de seus predecessores, Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello, em especial.

O primeiro, com vassoura simbólica, anunciava a varrição de toda corrupção da vida política e administrativa do País. Sete meses depois, seguia para viver em Londres. Seus opositores até hoje, quase 60 anos passados, não sabem como o professor matogrossense foi buscar recursos financeiros para manter tão civilizado exílio.

Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás, em meio ao mandato passou à posição de caça. Até hoje ainda há espingardas que o têm como alvo.

O recomendável, portanto, é acompanhar a trajetória do Presidente e apostar todas as fichas na manutenção do clima democrático experimentado nos últimos 30 anos. E, respeitadas suas regras, completar o que a chamada Constituição-cidadã ainda não esgotou. As dezenas de normas por complementar dão o testemunho.

Se, ao final, ele tiver posto na cadeia todos os ladrões do dinheiro público, empregado os milhões de brasileiros desempregados, reduzido a violência, estancado a sangria do Erário em direção às contas bancárias de ínfima minoria - aí, então, quem negará o aplauso? O voto está fora, eis que Bolsonaro promete acabar com a reeleição. O grau de sinceridade com que ele o afirma dirá da possibilidade disso.

Às esquerdas têm hoje, mais que os demais segmentos do espectro ideológico, a obrigação de a um só tempo lutar em defesa da democracia e ficar de olho nos que mandam no País. Para tanto, não pode mostrar certa tolerância ou indiferença quanto à corrupção, nem à reiteração de promessas e compromissos verbais com suas bandeiras. É preciso mais.

Erradas estarão, ainda, se fecharem os olhos para o que - por mais improvável que isso seja - poderá beneficiar o povo, vindo do Planalto. Getúlio Vargas, combatido como ditador, recebeu a Presidência das mãos do Marechal Dutra e, antes de completar o mandato, praticou o suicídio. De ditador a ídolo popular foi só um passo. Depois dele, rearranjos nos negócios internacionais conduziram a maioria das nações ao estado em que elas se encontram.

Ao longo do processo, comunistas se tornaram ricos e governaram com mão de ferro, enquanto alguns direitistas se bandearam para o lado do povo.

Os políticos mineiros diriam, repetindo um dos mais conhecidos de Minas Gerais: as nuvens a todo instante se movem. Não são mais o que eram, havia poucos segundos.




A melhor aposta (parte-1) -Em 17/11/2018

Apostar no pior não me parece aconselhável, mesmo se discordamos das ideias e propostas de qualquer mandatário eleito pelo povo. Menos, ainda, quando os eleitores, os favoráveis e os adversários, só agora começam a ser informados de algumas vagas noções que o eleito revela, quanto aos rumos do País.

A rigor, a impressão marcada no espírito não apenas dos críticos, mas também dos analistas, é a de despreparo.

A forma como a candidatura do capitão R/2 foi conduzida não deixou margem à mais simples expectativa em relação ao seu governo. Nem é possível admitir o pretexto de que a fuga ao debate se deveu às condições de saúde em que se encontrava. Sua presença em entrevistas prestadas em locais que ele escolheu di-lo melhor. Curiosamente, nenhum jornalista ou opositor lembrou da possibilidade de Jair Bolsonaro participar de debates em rede, e á distância. Até reuniões científicas têm usado desse artifício tecnológico. No caso da campanha do Presidente eleito, é mais importante lembrar disso, pelo intenso, extenso - e nem sempre honesto - uso da tecnologia. A consequente influência das fake news fala mais alto.

A realidade de hoje aconselha refletir sobre os riscos que todos corremos, menos pelo evidente despreparo do eleito. Prioritário é cuidar para que não seja interrompida a caminhada democrática há três décadas empreendida.

Não, contudo, sem atentar para as circunstâncias que conformam a atual conjuntura.

O bate-cabeça frequente entre o Presidente eleito e alguns de seus auxiliares anunciados não mostra senão a perplexidade de que foram tomados, ainda no decurso da campanha. Era como se, desacreditado da hipótese de ser eleito, o ex-capitão se tivesse dispensado de aprender mais e discutir, ao longo desse aprendizado, com os que reuniria em torno de si. O que não aprendera em quase trinta anos teria que ser aprendido em poucos meses. O tempo dividido entre o computador ou o telefone, livros e documentos.

Assim, a crescente simpatia por seu nome o teria apanhado de calças curtas. Difícil descartar essa suspeita, face á necessidade frequente de impor o silêncio obsequioso. O general Mourão e o economista Paulo Guedes que o digam.

Também não têm faltado da parte de Jair Bolsonaro recuos que o tornam próximo de Michel Temer. Nem escasseiam sinais de que o padrão moral prometido dificilmente será levado à prática. Basta mencionar que o braço direito do Presidente eleito, Ônix Lorenzonni é praticante confesso do crime de caixa 2. Eliseu Padilha terá sucessor à sua altura.

Até agora, não se sabe quantos e quais serão os ministérios. A luta de bastidores não esconde a conveniência de preservar os postos, pelo que eles representam no mercado político. No caso, o alcance da chamada governabilidade é a sentença máxima.

Isso tudo tem peso relevante na administração, ainda mais quando o Chefe do Poder Executivo assumirá o cargo com experiência zero. Nem por isso, contudo, colocar todas as fichas no malogro do próximo governo é algo positivo. Não houvesse outra razão, pelo simples fato de que ele sai das urnas.

Se o povo que leva Jair Bolsonaro ao Planalto errou, só o futuro dirá. Os erros que por ventura ele cometer refletirão diretamente sobre a vida de cada brasileiro.



Chega de errar - Em 10/11/2018

10 de novembro de 2018. Estamos exatamente há 81 anos, desde que o País iniciou experiência que jamais deveria cair no esquecimento. Naquela tão longínqua quão infeliz data, era dado o golpe de Estado a que a História deu o nome de Ditadura Vargas. O Presidente da República governava após a chamada Revolução de 30, numa simulação de democracia. Simpático ao nazi-fascismo, mal combatera movimento inconsequente de 1935, preparava-se para golpear de morte o que restava de democracia no País.

A proteção paternalista ao trabalhador (exemplo dado por Mussolini), a desenvoltura com que operavam os órgãos repressores e outras medidas de caráter sobretudo nacionalista (o nazismo também fez isso) ameaçavam o Brasil de participar do Eixo. (Para lembrar os que sabem e abrir os olhos dos que não sabem). Se dependesse de Getúlio Vargas, acolitado por Felinto Muller e outros irmãos ideológicos, as glórias militares hoje festejadas seriam feitas à moda do fürher.

Para desfazer-se dos opositores, o ditador contou com os serviços de seu então Ministro da Guerra, general Góis Monteiro. Este, por sua vez, teve em um capitão - que, general, desencadeou o golpe de 1964 - decisivo e oportuno contribuinte. Ao capitão Olympio Mourão Filho foi atribuído, sem contestação assaz persuasiva, o Plano Cohen. Os que leram algum livro da história do Brasil contemporâneo sabem do que escrevo. Os que não o sabem podem procurar em bons livros, que os há em abundância.

Pois bem. Instaurado o Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, dela adveio a "constituição", logo popularizada como "polaca" Menos pela inspiração, que pelas práticas das mulheres que se dizia terem nascido naquele país europeu.

Jamais houvera, antes, regime tão ofensivo aos direitos humanos. O ódio contra os pobres, a discriminação dos dissidentes, a perseguição aos críticos, a opressão da imprensa, o cerceamento do direito de defesa - tudo isso ocorreu, como soe ocorrer quando as liberdades da democracia burguesa são eliminadas.

A união de todas as forças que execram a ditadura e rendem homenagens, e as associam, à conduta democrática, acabou por forçar a queda do então ditador. Daí veio a imposição ao governo de aliar-se às forças que lutavam contra o Eixo.

Ganha a guerra pelas forças aliadas, ganhou o Brasil: a ditadura foi posta a correr. O marechal Dutra foi eleito em eleições livres, a despeito das restrições da legislação eleitoral.

O sangue derramado pelos soldados brasileiros, contudo, dera vida aos movimentos sociais, que acabaram por derrubar Getúlio Vargas.

Vive-se hoje no mundo uma nova onda de ameaças nazifascistas. A direita ocupa cada dia mais espaço, e não apenas em países fracos ou pobres. Em grande medida, pelos erros em que reincidiram partidos, lideranças e intelectuais que se pensam de esquerda. Nem por isso, têm aprendido a combater o bom combate. Ao invés, muitos preferem embarcar nas canoas furadas dos que têm os olhos postos apenas no poder. E. em lá chegando, tratam de pôr em prática o velho e condenável ditado: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Esquecem-se esses de que, neste país tão bem aquinhoado, jamais a farinha será pouca. E que, quando aparenta ser, não é por outra razão, se não a voracidade com que ínfima minoria dotada de infinito egoísmo suga tudo e todos, para auto- beneficiar-se.

Também pesa nos mais recentes fracassos das esquerdas a amplitude com que tal conceito é classificado. Primeiro, porque não se exige de cada um dos protagonistas, líderes ou suas respectivas agremiações, compromisso expresso com a causa maior, a democracia. Depois, porque à guisa de revelar tolerância, admitimos existir companheirismo em quem não vê mais que a oportunidade de atender a seus interesses pessoais. Uma terceira, talvez o pior dos ingredientes, a incapacidade de exercermos permanente autocrítica. Daí a crítica também malfeita, ao ponto de entregar ao adversário algumas das bandeiras tão duramente erguidas.

Oitenta e um anos depois da instauração do Estado Novo - ainda é admissível errarmos tanto?


O preço - Em 03/11/2018

Sabe qualquer calouro do curso de Economia: o mercado é aquele ambiente em que oferta e procura se encontram para estabelecer o preço. Das coisas, originalmente, pois coisas são o objeto desse encontro, melhor chamado transação ou operação comercial.


Daí decorre a lei de ouro da sociedade em que o mercado ocupa todos os espaços: maior a oferta da coisa ou produto, menor o preço; maior o preço, se menos produtos sejam oferecidos.

Às sociedades em que essa norma predomina sobre todas as demais, mesmo as regras constitucionais, dá-se o nome de sociedade de mercado. Ou, ainda mais para revelar o HOMO ECONOMICUS submetendo o HOMO SAPIENS, economia de mercado.

Como a coisa mais importante de um mercado são os produtos, os artigos, os bens oferecidos para venda, tudo o mais a eles é assemelhado. Daí decorre o aforismo presente em toda forma de avaliação, tudo reduzido ao resultado do encontro procura-oferta - o preço: todo homem tem seu preço.

Ora, se também o ser humano, nada importando tudo quanto o faz diferente, tem seu preço, por que exclui-lo do mercado? Por que limitar sua participação nessa troca ao papel de consumidor ou usuário?

Se outros conceitos correspondentes à variedade e complexidade de outros papéis são eliminados, resta assemelhar casa ser humano a um objeto submetido à ideologia e às regras a ela referidas: todo indivíduo, como uma saca de feijão, uma cadeira, um caderno, um rolo de papel higiênico, é um produto. Como tal, há de sujeitar-se à lei máxima do mercado e, em consequência, ter um preço.

Decorrem da ideologia que sustenta essa percepção da sociedade muitos acontecimentos, hipócrita ou descuidadamente condenados por grande parte dos defensores da sociedade de mercado. Todos são contra a corrupção, e assim se manifestam, quando o detentor de informação privilegiada vende-a ao especulador. Em nome da família, os apóstolos dessa religião contemporânea verberam contra a mãe que prostitui a própria filha, lançam acusações contra o magistrado que vende sentenças.

Pior, veem em todo crítico da prevalência e da consideração exclusiva das leis do mercado, um inimigo a combater. Por isso a reiterada reverência a um ser por eles mesmos inventado, sempre que seus interesses estão em jogo e se torna necessário apelar para algo indefinido, feito sem carne e sem ossos, sem cérebro e sem coração: é preciso saber o que pensa disso o mercado, dizem os evangelistas desse novo catecismo.

Várias são as moedas usadas para firmar a ideologia subjacente a essa nefasta percepção, do ser humano e da sociedade que ao longo dos milênios ele construiu. Ora é o dinheiro mesmo, a moeda corrente; ora é a oportunidade de realizar rentável negócio; outras vezes é a nomeação para cargo público. Claro que, sendo apenas exemplos, as hipóteses mencionadas não esgotam as possibilidades da criatividade humana, aparentemente mais rica e vigorosa, quanto menos voltada ao interesse público.

O preço, nesses casos, depende da repercussão do ato do ser humano-objeto vendido, e do seu proveito na direção pretendida pelo comprador.


Prioridades - Em 26/10/2018

Na vida pública, como na vida das pessoas e nas famílias, o estabelecimento de prioridades tem sido uma constante. Ora mais, ora menos, dá-se à ponderação dos fatores que interferem na decisão importância maior ou menor. Sem que nunca ela esteja ausente, embora muitas vezes sequer percebida conscientemente pelo tomador da decisão. Em situações críticas, então, a necessidade impõe cuidadosa apreciação daqueles fatores, com as vistas sempre postas nas prováveis consequências determinadas pela escolha.

Talvez nenhum exemplo seja mais ilustrativo que o dilema enfrentado pelos médicos plantonistas de serviço de urgência, frente às numerosas vítimas de um acidente, mesmo tragédias naturais - terremoto, inundação, desabamento, por exemplo.

Nesses casos, mais que um cuidado profissional, a equipe assistencial tem no estabelecimento de prioridades um dever. Para Isso, terão sido ministradas orientações sobre como lidar com tais circunstâncias, agravadas pelo fato de que as consequências da decisão referem-se à vida humana. Tais orientações dizem respeito aos critérios a seguir, no atendimento das vítimas.

Em outras palavras: a análise da situação dá à equipe a prerrogativa de escolher a ordem em que os feridos serão atendidos. Talvez valha a pena lembrar que, nos casos de naufrágio, o comandante da embarcação sinistrada sempre há de ser o último a escapar. O fato de que o comandante italiano do transatlântico naufragado na região da Toscana escafedeu-se antes dos passageiros não anula a regra. Tanto, que processado e julgado, ele foi condenado.

Não é só nos hospitais e nos navios que se enfrentam situações de crise. Há que atentar, portanto, para situações que envolvem o ser humano e a sociedade por ele integrada, na imensa variedade de aspectos em que ela se apresenta.

A política não pode fugir ao âmbito destas considerações, com todas as nuances e complexidade que apresenta. Se o homem é, como disse Aristóteles, essencialmente um animal político, inúmeras e imprevisíveis serão as oportunidades de estabelecer prioridades.

No Brasil de hoje, escolher segundo critérios minimamente razoáveis significa expressar o amor pela liberdade e o direito de todo cidadão aspirar à felicidade. Nem todos a alcançarão, por motivos os mais variados. Nenhum desses motivos, porém, pode ser imposto pelo governante. Ao contrário, a este cabe gerar as oportunidades que satisfarão as necessidades de toda ordem e as aspirações de cada indivíduo.

Como se observa, a exacerbação dos espíritos trouxe-nos a polarização sem precedentes, como se fôssemos membros de hordas inimigas. A sobrevivência de uma exigiria a extinção da outra. Ou seja: a intolerância, o preconceito, o ódio e a agressividade não são ofensivos apenas a indivíduos determinados, senão que agridem o sistema de governo que Churchill considerava o pior, a não ser todos os demais. No momento, e no caso específico do Brasil, a prioridade parece clara: não interromper a trajetória democrática, conquistada não sem sangue ou sacrifício. Até porque, sem democracia a redução significativa da ladroeira generalizada jamais será alcançada. Essa é tentativa feita, entre 1964 e 1985, sem que esse objetivo tenha sido logrado.

Com democracia, no mínimo, as falcatruas podem ser conhecidas e investigadas. E seus responsáveis punidos. Sem democracia, além de os ladrões ficarem à vontade para roubar, será derramado o sangue até dos que, por boa fé, escolheram a prioridade errada.

Quem tiver amor à liberdade e se convencer de que a violência nada resolve ou ainda tiver dúvidas a respeito disso, dê uma olhadinha nos livros sobre a Revolução Francesa. Enquanto as cabeças não começarem a rolar.


Risco do bumerangue - Em 20/10/2018

Característica marcante destas eleições presidenciais, o uso das chamadas redes sociais (que prefiro chamar antissociais) mostrou quanto a tecnologia pode se prestar a interesses desprovidos de qualquer boa intenção. Festejados pela grande maioria das pessoas como a antecipação de tempos de esclarecimento e entendimento, os recursos da informática têm mostrado sua face mais trágica. As mentiras recheadas de agressão aos mais elementares sentimentos humanitários entretiveram verdadeiras multidões de apoiadores, aqui e na metrópole além do rio Grande. Se Donald Trump é uma espécie de criador do deletério e condenável uso das redes, não tardou a que no Brasil surgissem seus imitadores.

Óbvio que a imitação sempre revela as fontes de que se valem o modelo e seus clones. Nem esconde a proximidade entre os valores partilhados por ambos, criador e imitadores.

Apostando na ignorância e na absoluta falta de critérios sensatos, ostentados pela maioria dos participantes assíduos desses grupos de numerosíssimos anônimos, Donald Trump se fez Presidente daquela que os incautos consideram a maior república democrática do Planeta. A mensagem cheia de preconceitos e de ódio do magnata norte-americano reproduz-se entre nós. Pior, com o mesmo vigor e maior dose de risco para a democracia.

Se o primeiro turno das eleições brasileiras acompanhou as desonestas práticas responsáveis pela ascensão de Trump, vem-se observando o agravamento dessas práticas, tão ao gosto de Goebells.

Mais grave ainda, as ofensas à verdade agora se fazem acompanhar da suspeita da prática de crimes eleitorais, de que o uso do caixa dois é o mais frequente. Nele, como em outras oportunidades, a dinheirama investida por empresas e empresários está presente.

Complica o cenário a resposta dos adversários de Bolsonaro, o beneficiário da maléfica atuação das redes, no segundo turno. Tal resposta consiste no uso também intensivo e extensivo das redes, para fazer frente às mentiras divulgadas pelo candidato do PSL.

Sendo impossível - ou, quem sabe, desinteressante - controlar e punir os malfeitores da comunicação, não se pode descartar a disseminação de mentiras, pelo outro lado.

Nesse caso, teremos as redes como verdadeiros bumerangues eleitorais. Eleitores que têm maior sentimento cidadão não se comportam como os ignorantes e mal-intencionados. Pode-se prever, portanto, a frustração de um dos lados, aquele para os quais as práticas de Goebells devem ser condenadas.


Respeito ou chacota? Em 13/10/2018

Em tempos de globalização, imprudente tomar qualquer decisão dentro dos estritos e estreitos limites de uma comunidade aldeã. O que afirmou Mac-Luhan, com a expressão aldeia global, desaconselha ignorar as múltiplas facetas do processo que os franceses chamam mundialização.

Ao mesmo tempo em que o capital transita célere e cupidamente de nação a nação, a opinião pública rompe fronteiras e atinge e mobiliza grupos sociais cujos participantes jamais se encontrarão pessoalmente. Qualquer que seja a razão - um cataclismo, uma tragédia coletiva, uma alteração ambiental -, as facilidades favoráveis à disseminação de informações geraram um certo sentimento cidadão em toda parte do globo terrestre. Para o bem e para o mal, quase todos somos vizinhos dos acontecimentos, ocorram estes à nossa ilharga ou em uma distante Ilha oceânica.

Não é diferente, quando algum país, independente do continente em que se situa, entrega-se à substituição de seus governantes. Às vezes, o casamento de nobres de algumas nações sob a monarquia atrai a atenção de centenas de milhões de pessoas. Outras vezes, um tsunami ou uma erupção vulcânica leva o sentimento de perda e a dor, territórios afora.

Hoje, sabe-se quão atentos estão cidadãos de países da Europa e do continente americano, para o resultado das eleições no Brasil. Lá e nos demais continentes.

Disso dá conta a quantidade de artigos e editoriais dos mais lidos e conhecidos periódicos internacionais. Seja na Argentina e no Chile; seja no Canadá e nos Estados unidos; seja na Alemanha e no Reino Unido; seja na Itália e na França; seja na Turquia, no Egito e em Israel, repetem-se manifestações comprobatórias do interesse pelos destinos do Brasil. De seus mais de 200 milhões de habitantes.

Em passado recente, tínhamos alcançado posição privilegiada, quanto ao prestígio e o respeito dentre os participantes do concerto Internacional. Depois, o escancaramento de práticas ofensivas aos direitos humanos, dentre elas os atos de corrupção e os danos ambientais, fizeram-nos descer alguns degraus na consideração de nossos contemporâneos.

A eleição do novo Presidente da República, oportunidade adequada à superação dos fatores responsáveis pela perda de prestígio e respeito internacionais, parece pouco percebida, pelo menos dentro do próprio País. No máximo, põe nos pratos da balança situação incomoda e constrangedora: de um lado, candidato incapaz de desatrelar-se de um grupo que abandonou as promessas originais; do outro, um vazio de ideias que pretende resolver os problemas ao preço da democracia.

O mundo, assim, continua de olho em nós. Esta eleição, portanto, pode repor o Brasil no lugar em que já o colocara a sociedade Internacional, ou faze-lo afundar de vez no poço da chacota e no anedotário mundial.


Ontem e hoje - como será o amanhã? Em 06/10/2018

A virtual vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do próximo domingo, como o propalam seus eleitores, desencadeou avalanche de comentários nem sempre pautados pela sensatez. Se antes o ambiente político se deixava influenciar por poluição de todo tipo, a posição do capitão-deputado na fase final da campanha estimulou exercícios os mais disparatados. Não encontrei em nenhum deles o menor sinal de apreço pelo que todos reivindicam como bandeira particular - a democracia e o Estado de Direito. Nem do lado do capitão, nem dentre a grei dos outros candidatos.

Como se nossa convicção democrática só valesse quando somos os vencedores, ninguém se esmerou em afirmar que, Bolsonaro ou Haddad, Alckmin ou Marina, Ciro ou Daciolo, Meirelles ou Amoedo, Vera ou Boulos, ou, ainda, João Goulart Filho - qualquer deles que sair vitorioso só o será porque a maioria dos eleitores brasileiros assim o terá querido. Ponto.

Seria essa a única condição para eleger-se qualquer representante popular, em país que se diz e apresenta como democrático. Mais grave, ainda: que diz defender a manutenção do Estado de Direito.

Não li uma só afirmativa nesse sentido, ao menos parecida com isso.

Há unanimidade, quanto às dificuldades que o futuro Presidente encontrará, para satisfazer pelo menos mínima parte do que foi prometido pelos candidatos. Todos, sem exceção. Desde Meirelles, que deixou o País na situação de que todos sabemos, até Alckmin, Ciro, Marina e Haddad, cada um é parte do problemão com que se há o povo brasileiro e se haverá o novo Presidente.

Compreender o quadro político, descrever o cenário em que se movem os agentes - neste caso, não só políticos, mas igualmente os econômicos, acadêmicos, militares e empresariais - é muito importante. Investigar as causas por que se chegou à lamentável situação unanimemente mencionada, também. Isso, porém, parece mais exercício acadêmico. No que estará interessado o novo Presidente, por certo, é como encaminhará seus primeiros dias de governo. Quais as medidas que tornará prioritárias e como, respeitando a Constituição, vencerá as dificuldades é o que de mais importante deverá ocupar sua preocupação. E é, em última análise, o que interessa mais ao povo brasileiro.

O grau de polarização e a fúria ressentida com que muitos revelam fazer política, recomenda expectativa pouco otimista. Como crianças mimadas de quem se tira o brinquedo preferido, a maioria dos que ganham a vida exercendo mandatos populares não se dá conta das responsabilidades que a representação lhes impõe. E a que eles raramente sabem responder com maturidade. Às vezes, honestidade.

Contados e batidos todos os ingredientes, o bolo em que nos metemos não é dos mais digeríveis. O desencanto do povo com a prática política dos que se apresentam como seus representantes; a corrupção deslavada que se instalou em todos os poderes e escalões da República; a voracidade de nossas elites; a cumplicidade dos mais influentes meios de comunicação e lideranças empresariais tidas por respeitáveis; a letargia acadêmica e o aparelhamento dos sindicatos aos partidos - tudo isso compõe o infausto cenário que nos vitima e desestimula. Conhecer como esses fatores se reúnem e se relacionam, para dar na tragédia que todos experimentamos agora será muito bom. De nada valerá, porém, se não passar disso.

Ou desejamos, em plena segunda década do terceiro milênio, ver o mundo com olhos de seis décadas passadas porque pensamos que nada mudou sobre a face da Terra?

Ruim como possa ser, nem por isso carecemos de uma Constituição. Somente à luz desta será possível manter um mínimo de civilidade no processo de que todos somos protagonistas, mesmo os que não sentem isso. Vítimas somos todos - e a grande maioria já o percebeu

Passada a eleição, mesmo se houver segundo turno; seja quem for o eleito, devemos todos curvar-nos à decisão das urnas. O que não significa passar com mala e cuia para o lado vencedor. Mais que nunca, resistir será necessário, qualquer o lado em que estejamos.

A democracia agradecerá.


O bigodinho  não engana - Em 28/09/2018

Adolescentes na busca de identificar-se costumam eleger ídolos. Passam a adotar alguns dos traços que caracterizam aqueles com os quais se sentem parecidos ou desejam parecer-se. Daí a frequência com que se veem jovens com os cabelos cortados como os de Neymar, ainda que o próprio ídolo seja nessa matéria um eterno mutante.

Outros entregam seu corpo à aventura algo perigosa dos tatuadores, porque seus ídolos preenchem todos os espaços da pele com estranhos desenhos, seja a de uma salamandra, seja a de uma simples flor. Quando não é o nome da(o) parceira(o) que os inspira.

Há certa tolerância por esse processo de mimetização, que aos especialistas parece indispensável ao amadurecimento do ser humano normal. Quando, porém, a necessidade de marcar o próprio corpo com algum traço presente em seu ídolo ocorre em idade a que atribuímos a condição de adulto ao indivíduo, aí então o caso pode ser objeto da preocupação dos psiquiatras. Às vezes, da polícia. Nesses casos, a segurança pública pode estar em jogo. Em simples palavras: a sociedade e cada um dos que a compõem podem estar em perigo.

Recentemente, declarações de uma alta patente do Exército Brasileiro chocaram a comunidade dos democratas. Sem negligenciarmos o entusiasmo que o general despertou nos democraticidas. Foi por aquele anunciado, nada mais nada menos, o desejo de ver eliminados todos os livros que "não contem toda a verdade" do que ele recusa chamar ditadura. A verdade, aí, não seria mais que a interpretação pessoal do general Aléssio Ribeiro Couto, a respeito de fatos que estão contidos na já vasta bibliografia sobre o tenebroso período inaugurado com o golpe de 1964. Bibliografia que inclui desde denúncias como as promovidas pela Igreja Católica até análises subscritas por participantes de ações condenadas por órgãos e entidades de defesa dos direitos humanos, nacionais e internacionais. Órgão da ONU, dentre estes.

As declarações do oficial superior ora na reserva atestam, mais que a direitização em curso em todos os continentes, o risco iminente de o Brasil regressar ainda mais ao passado. Se um de seus colegas, candidato à vice-Presidência, anunciou o propósito de extinguir o 13º salário; e se o cabeça de chapa for eleito e cumprir a previsão de que se cercará no Ministério de outros de seus colegas, Aléssio poderá ser um deles. Imagine-se, então, quanto papel será queimado, nas fogueiras que o filme Farenheit 451 tão bem retratou.

Não é à toa que alguém imita um bigode histórico, ainda que monstruoso.


Barbárie e Civilização - Em 22/09/2018

Não me lembro de polarização igual em qualquer outra eleição presidencial. Desde a escolha de Juscelino Kubitscheck, acompanho com interesse o processo eleitoral, ora com maior, ora com menor atenção. Assim, creio não incidir em erro de percepção, ao indicar a disputa entre Lula e Collor, como o embate mais renhido, antes do pleito de outubro próximo.

A imagem construída do político alagoano tirou-o da mediocridade e do quase anonimato, transformando-o em um caçador de marajás. A forma como os grandes meios de comunicação se comportou, mais que um exercício de criatividade sem precedentes, constituiu grosseira agressão a um verdadeiro Estado democrático de Direito. À época, ainda não estavam na moda as chamadas redes sociais, não sei por que razão assim batizadas. Antissociais seria melhor chamá-las, tanta a agressão aos bons costumes e à vida socialmente sadia a que elas dão preferência.

O conteúdo das mensagens que circulam em milhões de computadores, tablets e celulares sofisticados é suficiente para revelar quanto malefícios elas causam sobrepujando eventuais benefícios. Agora, não bastam a ira e a solércia no passado ostentadas por Collor, na busca menos de destacar ocasionais virtudes do candidato, que desqualificar o adversário. Os fanáticos que se identificam com os candidatos ou lhes prestam serviço em geral orientam-se pelo ódio e pela mentira. Obviamente, por valores em nenhuma hipótese, mais distante que seja, relacionados à democracia. Muito menos, se a desejarmos correspondente ao Estado de Direito.

Hoje, a polarização chegou a tal ponto que de novo vemos ressurgir no cenário uma bandeira há muito deixada para trás, a do anticomunismo. É como se ainda estivesse em pleno funcionamento a temida União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e firme na cidade de Berlim o muro derrubado em 1989.

Assim, o que os comunistas de ontem reconhecem morto, tem nos seus inimigos os ressuscitadores. No Brasil, em especial, o assassínio em série e a tortura como instrumentos do Estado destruíram todas as organizações defensoras do regime mantido até o desfazimento da URSS. O que não foi alcançado, embora usada como pretexto, foi a eliminação das práticas corruptas, como em qualquer latitude do Planeta, potencializadas e ampliadas, sempre que as liberdades democráticas são prejudicadas.

O ambiente em que serão registrados os votos do próximo dia 7, além da polarização exacerbada, tem ingredientes inéditos. Estes vão desde a irresponsável e criminosa utilização da Internet, até pronunciamentos de autoridades, ao arrepio das normas constitucionais. Mais que isso, a subversão da hierarquia militar, este suposto valor cultuado pela caserna. Jamais seríamos capazes de supor a mínima possibilidade de um general prestar continência e obediência a um ex-membro das forças armadas de patente inferior. Com a agravante de o afastamento do oficial subordinado ligar-se a razões supostamente desagradáveis aos colegas.

Quando os militares brasileiros foram mandados à Itália para combater os nazistas, acenderam-se justas esperanças. Sua volta, vitoriosos, determinou a queda de um ditador e abriu os caminhos para a consolidação da democracia. Veio 1964 e, com ele, a interrupção do que poderia ser fase importante do que tem sido chamado processo civilizatório. O resultado está à vista de todos, com as agravantes que ninguém mais pode esconder, a despeito do esforço de alguns para transformar excrementos em ouro e fatos em mentiras.

Enfim, é muito mais profundo o dilema que as eleições de 7 de outubro colocam diante de nós: a civilização ou a barbárie.


Hábitos e intenções - Em 15/09/2018

Prospera, agora com clara manifestação de um candidato a vice-Presidência da República, a tese de uma nova Constituição. Reinvindicação apresentada desde quando a Carta Magna dita cidadã começou a fazer água, a versão hoje em voga tem como lema exatamente o valor contrário ao de todas as constituições respeitáveis: a democracia sem povo. Quem sabe até, contra o povo...

Já não bastassem as evidências do propósito de instalar um verdadeiro Estado Policial, mostra-se cada dia mais saliente a intenção de superar as dificuldades que a vontade e o talento não alcançam, com a reunião de "notáveis" para elaborar uma nova Carta Magna.

Disse-o recentemente em Manaus, o general Hamílton Mourão, companheiro de chapa do capitão Jair Bolsonaro. Para o postulante às dependências do Palácio do Jaburu, a Constituição de 1988 deve ser substituída por outra, formulada por pessoas que ele considera notáveis. É difícil saber-se ao certo se o candidato é capaz de discernir entre os notáveis e os notórios. Destes, só não sabe a conduta e suas respectivas motivações, quem passou muito tempo alheio aos problemas com que se defronta a maioria da população. Dos outros, além do que aparentam em palestras, artigos de jornal, auto-referência, entrevistas e referência de terceiros cultores dos mesmos valores (e preconceitos, será sempre oportuno e justo acrescentar), não se indaga a que interesses estão vinculados.

Trata-se, portanto, de portadores de diplomas de nível superior, aos quais se atribuem conhecimentos e saberes nem sempre atualizados ou aproximados sequer dos motivos que levam à elaboração do pacto social de que a Constituição, qualquer Constituição, deve ser a porta-voz.

O desejo maior e mais profundo - é fácil constatar - é manter o povo longe do acordão proposto.

Enquanto a Operação Lava Jato e suas consequências judiciárias têm escancarado seus reais objetivos, os passos antidemocráticos dos setores retrógrados da sociedade avançam por outro caminho, para ao final - e, infelizmente, não no infinito - se encontrarem. Uma versão perversa tantas vezes experimentada: o pacto por cima. Da vontade popular, das reais necessidades do povo e das aspirações legítimas da população brasileira.

O jornalista Reinaldo Azevedo, não mais que um liberal segundo suas próprias palavras, diz bem, na edição de hoje (14-09-2018) da Folha de São Paulo. "Tanques e togas tentam cercar a democracia brasileira" é a manchete de seu artigo.

Antes, todos saudávamos a participação de centenas de militares nas próximas eleições. Seus ouvidos teriam sido abertos para a voz do povo e, por isso, desejariam recolher o aplauso costumeiro nos desfiles militares, nas urnas que a democracia exige. Recentes pronunciamentos de graduados da caserna, todavia, autorizam fazer reparos nos conceitos iniciais a propósito da atração desse segmento da sociedade à arena política.

Uma nova contradição se coloca, estendendo a nem sempre justa generalização sobre os políticos brasileiros: o ingresso no ambiente é feito com a intenção de ajustar-se às normas e valores democráticos ou, ao contrário, foi a forma encontrada para matar o bicho conhecendo-lhe melhor os hábitos?


Pinocchio teria inveja - Em 12/09/2018

Se Gepetto presidisse as eleições, dificilmente encontraria concorrente. Sua criatura e a experiência do convívio entre eles - criador e criatura - jamais superariam, em falsidade e hipocrisia, o comportamento dos políticos brasileiros. Refiro- me, em especial, aos que buscam subir a rampa do Planalto.

O período que antecede as eleições presidenciais proporciona aos eleitores competição paralela pouco percebida (pelo menos, quase nunca mencionada), em que alguns dos competidores disparam à frente dos demais. Houvesse o prêmio Pinocchio, não haveria qualquer dúvida a respeito dos participantes do segundo turno.

Por tudo quanto têm afirmado, e pela desavergonhada forma com que o fazem, Jair Bolsonaro e Henrique Meirelles dariam enorme alegria a Geppeto. Talvez até inspirassem o artista da ficção italiana, na tentativa de superar a qualidade nada virtuosa que ele pôs no simpático boneco de madeira.

As mentiras do capitão, deputado há mais de trinta anos, mas insistente quanto a auto-atribuir-se a condição de apolítico, só não incomodam mais porque o candidato não é levado a sério. Pelo menos, pelas pessoas sérias deste País. (Que me perdoe o Lula por usar seu bordão). Muitos dos que têm acompanhado o lider da extrema direita oferecem a ele o benefício da generosidade: o quê exigir de quem não conhece os problemas de que fala, se não admitindo que ele diga mentiras?

Já o ex-Presidente do Banco de Boston diz, sem que o mais discreto rubor cubra seu rosto, nunca ter se candidatado a qualquer posto eletivo. Como se os registros da Justiça Eleitoral não permitissem encontrar o nome dele, e não em apenas uma lista, a de candidatos à Câmara dos Deputados, na legislatura 2000-2004. O segundo registro pode ser encontrado na relação dos eleitos. Pelo PSDB, ao qual serviu, após renunciar ao mandato. Para um banqueiro experiente, a Presidência do Banco Central era muito mais sedutora.

Tanto quanto transferir-se para o então PMDB renderia mais, sobretudo quando o interessado ocupa posição influente na comunidade dos rentistas.

No que se tem chamado pós-modernidade, no entanto, o que menos interessa é a verdade. Parece ainda prevalecer a máxima de velho político mineiro, que afirmava ser a versão mais importante que o fato. De mentira em mentira, vão sendo construídas carreiras políticas, ao mesmo tempo em que o cidadão incauto (não seria esta uma contradição nos próprios termos?) alimenta seus sonhos e fantasias sem nenhuma preocupação quanto à veracidade do discurso, a trajetória do candidato e os interesses que ele representa.

Talvez muitas das seis milhões de vidas judias sacrificadas por Hitler e seus sequazes teriam sido poupadas, não prevalecesse a máxima de Goebbels: uma mentira repetida à exaustão chega no ponto de ser considerada verdade. É disso que se tem valido boa parte dos políticos brasileiros, graças ao desprezo que a plateia dispensa à busca da verdade.

Muito por isso, a cada nova eleição, ouvem-se relatos de frustração, decepção e desencanto. Sequer os frustrados, decepcionados e desencantados se dão conta de que concorreram para esse mau resultado e para o papel desempenhado pelos meios de comunicação, nesse processo por todos os títulos ofensivo à democracia e à verdade.

Mencionei apenas Meirelles e Bolsonaro, pela desenvoltura com que, mais que os outros concorrentes, tentam passar como verídicas as mentiras propaladas nos meios de comunicação. Dos outros, pode ser que os eleitores se deem conta, uma vez entendido o papel deles mesmos na disputa eleitoral. O voto, em última análise, sempre será do eleitor. A confirmar o dito e repetido: todo povo tem o governo que merece. Nem sempre, dirão alguns. Mas quando o eleitor é advertido dos perigos de apostar nas mentiras e ainda assim permanece ignorante, a sentença ganha credibilidade. Ela, também.


De golpe em golpe - Em 02/09/2018

A torpeza e a originalidade (por que não admitir?) do golpe aplicado contra a Presidente Dilma Rousseff tornaram-me retardatário na sua compreensão. Demorei em considerar um golpe o que fizeram, Temer e sua corriola, pondo-a fora do Planalto. Mesmo sem considerar o efeito mais indigno da manobra: a exclusão do ex-Presidente Lula da corrida presidencial.

Em última instância, era esse, de fato, o propósito maior da maquinação, certamente urdida nos mesmos porões onde o beneficiário preferencial da derrubada de Dilma Rousseff acolhia e mimava Joesley Batista.

A pretexto de combater a corrupção, discurso que ouço desde quando Carlos Lacerda provocou o suicídio de Getúlio Vargas, o impeachment da Presidente foi apenas o tiro de largada do processo a que hoje assistimos. Bom resumo dele pode ser contido nos pontos a seguir elencados: 1. Revogação das minguadas conquistas dos trabalhadores, durante os três governos anteriores. 2. A fragilização da economia brasileira, pondo os setores potencialmente mais lucrativos à mercê dos interesses do grande capital. 3. O uso do desemprego como instrumento de busca do equilíbrio fiscal. 4. A entrega do que ainda resta de público de funções do Estado aos especuladores, nacionais e internacionais. 5. A troca do interesse nacional pela pesquisa científica e tecnológica, pela compra de ciência e tecnologia produzidas fora do País. 6. A manutenção de privilégios e subsídios de toda ordem aos que se valem dos cofres públicos para aumentar seu patrimônio pessoal ou familiar. 7. A manutenção e fortalecimento de iniciativas hoje responsáveis pela maior parte da população matriculada no ensino superior brasileiro. 8. A negligência quanto à imagem internacional do País, que nas últimas décadas experimentava prestígio jamais alcançado antes. 9. A disseminação da violência em todos os cantos, não obstante o discurso falsamente indignado e as medidas nem sempre atentas à segurança dos que dela mais necessitam - os pobres. Estes, diga-se, aumentaram, tanto quanto aumentou sua pobreza, nestes infaustos dias que vêm de 2016.

A corrupção, que teria sido o móvel da operação Lava Jato, não estancará porque apenas alguns dos acusados de a terem praticado está presa. Pode-se afirmar com grande margem de acerto que não é o ato em si que tem sustentado as sentenças condenatórias, mas os vínculos políticos dos denunciados. Lula está preso. Aécio, não. Pallocci está atrás das grades, Padilha, Moreira, Jucá continuam a ver redondo o sol.

Isso lembra muito o golpe militar de 1964. Desferida em flagrante e brutal ofensa à Constituição de 1946, a derrubada de Jango teve como pretexto o combate ao comunismo, visto como de iminente instalação no País, e a corrupção - as duas panaceias ao contrário, tão ao gosto da direita e de seus aliados, interna e externamente.

O que se viu, de lá para cá? Nada menos que o total desmonte dos focos de resistência à entrega de nossas riquezas aos capitais dos dominadores e a instituição do dano ao Erário como fundamento da economia. Não terá sido naquele período sombrio de nossa história que houve autoridade instalada em Brasília intitulada "Ministro 10%"? Quando surgiu a maioria das empresas arroladas (enroladas, caberia melhor) na mesma Lava Jato que pretexta combater a corrupção?

A tal ponto chegamos, que um político apto a alcançar tanto quanto merece seu talento, seu discernimento, sua conduta e seus valores - o cargo de síndico de um edifício -, concorrendo à Presidência da República. Com a observação de que, para chegar nesse posto, teria que mostrar eficácia e eficiência como chefe de segurança de alguma (quase dizia qualquer) boate.

Se o golpe de 1964 impediu a formação de lideranças políticas à altura dos desafios e das potencialidades do País, o de 2016 cedo mostra o que ainda teremos que superar...se desejarmos realmente ser dignos do povo que temos e das riquezas com que a natureza nos favoreceu.




Sobre as razões, nada - Em 24/08/2018

Sempre haverá a hora do arrependimento. Difícil é imaginar se esse momento, fugaz que seja, se prestará à reflexão sobre atos passados e à atribuição de culpas a quem elas cabem. Não que baste isso para controlar os ânimos ou mostrar outros caminhos aos arrependidos. Isso é questão da maior ou menor dose de dignidade de que são portadores os que pecaram.

Quantas vezes as igrejas se enchem e voltam a encher de frequentadores dos confessionários, a pedir perdão pelos mesmos pecados? Quantos deles vão buscar ali, menos que a tolerância pelo erro anterior, o direito de reincidir no erro? Se este não é o propósito de qualquer igreja, também não se pode dizer ausente na cabeça dos supostos penitentes.

Daí certa reserva com que leio e ouço críticas ao comportamento supostamente extremado de muitas de nossas lideranças políticas.

Ora se encontram matérias condenando o messianismo, o autoritarismo e o egoísmo exacerbado de Lula, não fosse o rol de crimes de que o acusam. Ora é a forma como Jair Bolsonaro encara os problemas e como se conduz na vida política, não fossem as muitas mentiras facilmente desmoralizadas que ele costuma propalar.

Qualquer dos dois que ganhe as eleições, dizem muitos dos analistas ou pseudo-analistas, levará o País a entraves em nada desejáveis. Certas análises insinuam a probabilidade de transtornos nas vias nada fáceis que esperamos possam nos levar a uma democracia sólida e respeitável. Ou seja, fazê-la chegar a patamar de que aparenta estar ainda muito distante.

O de que ninguém trata é das raízes do ambiente social de que desfrutamos hoje, quando são percorridos mais de 50 anos do infausto e mais recente golpe de Estado.

Vasculhem-se as páginas de todos os jornais, consultem-se os arquivos de todos os meios de comunicação, e não será encontrada muita matéria que busque compreender por que, tantas décadas depois, a paisagem política é ocupada, quando não pelas figuras de ontem ou algum de seus herdeiros, pelas ideias então em voga.

Das lideranças, seria redundante falar. A não ser um aqui, outro acolá, carecemos de líderes capazes de transmitir com clareza e sinceridade as inspirações que mantêm a esperança de tanta gente. Isso não se aplica apenas à direita, porque a esquerda também padece deste mal.

Para ambas, vivemos a mesma guerra fria que o muro de Berlim levou consigo, ao desabar. Tudo quanto aconteceu no Mundo, e não apenas naquela noite de 1989 na capital da Alemanha, desde 1968, passa em branco dessas supostas análises.

Olhe-se a composição do Congresso Nacional, a partir da extinção dos senadores biônicos, criatura dos laboratórios oficiais da ditadura. As alterações, de tão insignificantes, não chegam sequer a animar a menor esperança de que retornará, ainda que a níveis apenas menos degradantes, a confiança dos brasileiros em seus supostos representantes. A substituição do eleitor em geral pelos interesses de grupos específicos é a regra.

Há, portanto, superposição de representatividade, fragilizando os partidos e fazendo deles razão social de empresas voltadas ao negócio político. Neste caso, a negociação teve seu quinhão de entendimento transformado em mero negócio. O lucro ou ganho já não se traduz pelo benefício causado à população, mas pelo patrimônio enriquecido do político e seus sequazes.

Como dizer que este ou aquele deputado cometeu infidelidade partidária, se sua manifestação corresponde aos interesses ou ao ideário de uma crença ou a vinculação a um segmento econômico?

Faz algum sentido pertencer ao MDB, ao PSDB, ao PP, quando a sigla sequer insinua compromisso com certo conjunto de valores e opções realmente políticas? E os partidos de aluguel, como ficam?

Onde se podem encontrar explicações para esse fenômeno que, não sendo exclusivo do Brasil, aqui se revela em toda sua crueza e crueldade?

Repito: mais que o assassinato praticado nos porões, a tortura que acumpliciou o aparelho do Estado brasileiro com empresas nacionais e transnacionais, o que de pior a ditadura deixou é o vazio político. Ele é que incomoda e impede a nação de alcançar a posição que sua grandeza territorial e humana autorizaria.


Triste papel - Em 18/08/2018

Que Luís Inácio Lula da Silva é o político mais esperto do Brasil, todos sabemos. Seus fervorosos seguidores, tanto quanto seus mais raivosos adversários. Sem ter passagem pela academia ou por outros espaços historicamente dominados pelas elites, o emigrante nordestino alcançou posição invejada e desejada pela maioria dos que dele divergem.

Ninguém chegaria à Presidência da República em uma das mais populosas e ricas nações, após três frustradas tentativas, se não reunisse algumas características ostentadas por Lula. A primeira delas, a pertinácia em nenhum momento desmentida. Nem por isso capaz de sempre produzir os efeitos desejados por ele. Agora, ela de nada lhe terá válido, diante do propósito de efetivar a candidatura que se vê forçado a abandonar.

A outra maior qualidade do ex-Presidente é o indiscutível carisma de que é dotado. Neste caso, porém, nem sempre o portador dessa característica atenta para o potencial de risco por ela atraído. Quando deixado sem controle, o carisma pode operar o efeito que Tancredo Neves atribuía à esperteza. Dizia o avô de Aécio que, quando é muita, a esperteza engole o dono.

Um dos riscos a que Luís Inácio Lula da Silva não conseguiu fugir, para dizer o menos desairoso, foi a opção por um caminho messiânico. Pondo-se acima de todos os seus companheiros e interlocutores, nosso personagem vem colhendo resultados que não parecem constar de seu repertório de aspirações. A não ser que, ilusionista mais que líder carismático, Lula não passe de um farsante. Esta é hipótese que, com tanta coisa por apurar, não se configura como verdade incontestável.

As qualidades de Luís Inácio Lula da Silva, todavia, não escondem os vícios que, como todo e qualquer ser humano, ele traz consigo. A liderança exercida durante tanto tempo no mundo sindical, depois no espaço partidário e político, ensinou práticas pelas quais ele hoje paga alto preço.

O carisma sem rédeas levou Lula a um personalismo exagerado, a um autoritarismo sem limites. Não que a ele devam ser negadas algumas decisões louváveis, é preciso confronta-las com as dificuldades geradas por essa contraditória virtude.

Feito líder e Presidente do partido por ele mesmo criado, Luís Inácio Lula da Silva repetiu o estilo de caudilhos que se pensava definitivamente excluídos da paisagem política brasileira. Tornou-se, então, dono do Partido dos Trabalhadores. O exagero na percepção de sua própria imagem resultou, agora mesmo, em mais um dos desserviços às esquerdas.

Pelo menos em seis Estados, o personalismo de Lula causou danos que podem custar muito caro - menos ao pertinaz candidato, que ao povo brasileiro. Em Pernambuco e em Minas Gerais, mais que nos outros, as esquerdas viram desmontados arranjos politico-eleitorais que poderiam evitar o pior: a perspectiva de a disputa final travar-se entre a direita e a extrema-direita.

Difícil, diante de um cenário como esse, esquecer o papel semelhante ao que o PTB de Vargas cumpriu, desta vez cumprido pelo PT. Evitar o crescimento das esquerdas, pós-ditadura Vargas; pós-ditadura militar, agora.

Se Fernando Haddad atrair os votos que seriam do ex-metalúrgico, a hipótese acima estará vencida. Restará, portanto, a esperança de que Lula um dia será um político de esquerda. Se der o contrário, ficam sem resposta as dúvidas sobre as intenções do ex-Presidente

Esperanças podem renascer - Em 12/08/2018

Mais perto nos vemos das eleições, mais aumenta a angústia dos que não pretendem do pleito contar ganhos pessoais. Podemos imaginar que os candidatos tratam de prever as melhorias com que agradarão seus familiares, o favor aqui e acolá com o qual pagarão o voto recebido e, pior que tudo, a sucessão de passos necessários a galgar o próximo posto na administração.

O deputado estadual eleito estará empenhado em avaliar sua trajetória até a vaga a conquistar na Câmara dos Deputados. O deputado federal pensando em como concorrer à futura eleição majoritária, na vaga a ser aberta para o Senado, em 2022.

Todos, talvez rara exceção, estarão de olhos postos nos negócios que um mandato parlamentar garante. Há familiares necessitados de um emprego, como os treze milhões de brasileiros conhecidos. Há numeroso grupo de apoiadores que só esperam a hora de assaltar o butim.

Diferente é a expectativa dos candidatos à Presidência e à vice-Presidência. A maioria deles já se imagina concorrendo à própria substituição. Assim tem sido, difícil pensar em que mais tarde, pelo menos a curto prazo, será diferente.

Só que, diferente da posição dos parlamentares, aos dois cabeças da hierarquia do Executivo compete o manejo do chicote. À manada, mais que os gritos do boiadeiro, cumpre avaliar o peso do relho. A experiência revela a necessidade jamais esquecida por esse tipo de profissional: engolir sapos, desde que disso resulte algum benefício pessoal. Ou, simplesmente, a renovação do mandato ou a conquista de um novo. Por isso, outras são as aspirações do mandante-maior: ampliar seu patrimônio, garantir espaço de onde possa proclamar virtudes invisíveis durante o próprio mandato, posar de benfeitor da Pátria e conselheiro de todos os cidadãos. Importará pouco, como se tem visto, o resultado de suas decisões e ações.

O discurso ouvido, mal iniciado o período de campanha, já delineia o elenco de problemas que serão mais uma vez trazidos à baila: os mesmos de sempre. Algo admissível, se todos os postulantes ao cargo estivessem estreando no cenário político e eleitoral. Não é disso que se trata, todavia.

Para exemplificar: como admitir que Henrique Meirelles possa dizer algo sobre o desemprego, se não assumir parte da culpa pelo exército de trabalhadores condenados ao ócio? E da falta de investimentos em saúde, educação, segurança e saneamento? Quem era o Ministro da Fazenda, quando Temer fez aprovar a omissão do Estado, durante vinte anos, ao que é dever e obrigação principal, em qualquer país de gente séria - e governantes sérios?

É ate compreensível que o ex-Presidente do Banco de Bóston tenha as posições que, desdenhosamente, ostenta diante do eleitorado. Afinal, protagonista e agente do sistema financeiro, de nada pode queixar-se, a respeito. Ocupando posição-chave em mais de um governo, de direita ou de esquerda, não importa, Meirelles não pode fugir à condenação da maioria dos brasileiros. Mais que muitos dos outros candidatos, ele tem as digitais marcadas nas políticas que respondem pela multidão de desempregados, pelo retorno de doenças antes controladas, pela insegurança que atemoriza os brasileiros de bem.

Os demais candidatos podem ser postos no mesmo saco. É quase epidérmica a diferença entre eles, salvo uma virtude a mais aqui, um defeito mais acentuado acolá.

Comecemos pelos defeitos. O de Bolsonaro (que tem bolso no próprio nome), é a profunda ostentação e cumplicidade com que de pior pode o ser humano portar. Defensor do estupro e da tortura (uma coisa e outra não acabam sendo a mesma?), alia a essa característica a de ser absolutamente despojado de qualquer coisa que se possa chamar ideia. Fanfarrão, mentiroso, o candidato será prejudicado eleitoralmente, se ainda resta algum - mínimo que seja - laivo de compreensão e inteligência ao eleitor.

Álvaro Dias e Marina, dotados de prudência que parece mais covardia, não enfrentam as perguntas, muito menos os problemas. Restringem-se à chorumela costumeira, com medo de desagradar, como se gregos e troianos pudessem ser atendidos, um cavalo de pau ameaçando o desenlace. O que buscam, na verdade, é ter mais do mesmo. Prosseguir no processo de conversão de milhões de brasileiros cidadãos em consumidores. E lhes terá bastado.

Guilherme Boulos, se tirasse dos olhos o ódio explícito que costuma ostentar, talvez dissesse com mais clareza a que veio.

Ciro Gomes, ah! o Ciro! Quando todos pensávamos que poderia trazer esperanças, desesperou-se pela compreensível deserção dos que não têm razões para aprovar suas propostas. Atraiu uma vice que afastou os votos.

Diante disso, resta o candidato do Partido dos Trabalhadores, uma dúvida até o próximo dia 15. Se for Lula, do ponto de vista político, nada será acrescentado ou desanuviará o cenário. Ao fim e ao cabo, a conduta messiânica, egoística e carismática do ex-Presidente autoriza classifica-lo como mais um a desejar o mais do mesmo.

Se, contudo, Fernando Haddad for mantido e pelo menos insinuar que, à moda Dilma Rousseff, pleiteará a reeleição, abrem-se novas esperanças.

O jeito é esperar.


Sem prognóstico - Em 04/08/2018

Mais próximas as eleições, mais difícil avançar em qualquer prognóstico. Ainda ontem, vários analistas (também os que reivindicam essa condição) davam como certa a derrocada de Ciro Gomes, diante dos acordos celebrados por Alckmin com o Centrão e a ação de Lula e de Temer, para isolar o candidato do PDT.

A neutralidade do PSB, atribuída ao ex-Presidente da República, e o lançamento do ex-Presidente do Banco de Bóston, pelo MDB, teriam levado Ciro à condição de fora do jogo eleitoral.

O tempo de exposição nos meios de comunicação e os recursos financeiros disponíveis praticamente tirariam o ex-Governador do Ceará do páreo. Teriam sido esses os ganhos maiores de Geraldo Alckmin e do próprio Lula, que insiste em manter-se candidato ou, em último caso, sacar outro poste do bolso do colete. Tudo, segundo a velha prática do PT, em que o ex-operário ainda reina, primeiro e único.

A comparação entre os candidatos até agora expostos às bancadas de entrevistadores, deixa claro ser Ciro Gomes, disparado, o mais credenciado. Testado em várias funções do Executivo e tendo passado pela Câmara dos Deputados, também não faltam a ele a percepção dos problemas nacionais, nem a coragem pessoal necessária ao enfrentamento da crise. As acusações que os profissionais empenhados na propaganda dos outros candidatos fazem a ele, raramente têm mostrado a vantagem desse tipo de oposição. Tanto, que em uma das redes nacionais, viu-se o retraimento da maioria dos entrevistadores, quando refutadas suas ofensas à verdade e o uso de pretextos, mais que argumentos. Os boxeadores dos media, nessas oportunidades, foram parar nos corners.

Alguns, envergonhados, recolheram-se e aparentavam formular outras perguntas mais pelo cumprimento de uma obrigação (ou ordem, nunca se sabe) que pelo ânimo de participar da entrevista.

Isso não quer dizer que Ciro seja o candidato dos sonhos - nem dos que desejam ver batida a desigualdade, nem pela esquerda. Não há como negar, porém, que Ciro mostra conhecimento das verdadeiras causas da crise e de como removê-las.

Os outros candidatos, apresentem-se como progressistas ou integrantes de um imaginário centro, ou sejam de direita, convergem para o mesmo lugar: propõem mais do mesmo. Em todos os casos, remetendo a experiências frustradas, como as privatizações, a repressão, uma suposta austeridade fiscal. Todas, como se sabe, centradas na ampliação do processo de acumulação privada e exploração do trabalho.

Há, porém, enorme contradição entre os que isolam e combatem Ciro Gomes, pelo menos quanto à influência das redes virtuais no resultado das eleições.

Muitos deles vêm afirmando que fica praticamente anulada a influência do tempo de televisão, hoje menos propícia à circulação das mensagens que as redes. Ora, se for assim, não se pode dizer de nenhum candidato que está derrotado como o peru, na véspera. As redes permitem, tanto quanto os meios convencionais de comunicação, disseminar as propostas com grande celeridade e cobertura.

Quem tiver propostas melhores, portanto, continuará no jogo e tem chances de vitória. Já nem se contem os postulantes que pedem a Deus a distância das câmeras. Diante deles, vazios de conteúdo e comprometidos com o que há de pior nos sentimentos humanos, preferem usar as redes, elas também propícias à leviandade e ao anonimato.

Sem significar confissão de meu voto (pois ainda cogito do voto nulo), tento ver os fenômenos como eles parecem e em que eles têm suas bases.

Posso estar equivocado, assim como tantos outros eleitores.


Maus caminhos - Em 01/08/2018

Ainda há muito caminho a percorrer, mas começa a ficar mais nítido o resultado do primeiro turno das próximas eleições presidenciais. O andar da carruagem sugere experimentar, ao invés de avanço, a repetição das cenas lamentáveis que têm entretido os arraiais políticos e ocupado praticamente todos os seus espaços.

Seja em termos de projeto para o País, seja em relação às práticas delituosas costumeiras, seria demasiadamente ingênuo esperar novidades. Basta apreciar o comportamento, as declarações e os arranjos buscados pelos postulantes ao cargo mais alto da república, para concluir os reais objetivos que os movem. E movem a maior parte dos que a eles se alinham, pelo menos nos escalões mais próximos dos candidatos e partidos que os apoiam.

A começar pela salada de letrinhas que ocupa cada prato posto na balança, não se pode confiar em que haverá boa refeição. A falta de identidade ou afinidade ideológica entre as diversas forças aliançadas não faz mais que reduzir ao patamar mais baixo os costumes políticos e, sobretudo, eleitorais de qualquer das candidaturas.

Ainda que se possa esperar o lançamento de outros nomes, pelos anúncios e previsões é impossível esperar que o cenário será fundamentalmente alterado.

Já são candidatos Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Paulo Rabello de Castro (PSC) e Vera Lúcia (PSTU). Dentre os que chegaram a ser cogitados, mas desistiram encontram-se o ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, e o ex-Presidente da República, Fernando Collor de Mello. Pode ser que outros dos anteriormente metidos na lista venham a concorrer, menos pela possibilidade de chegar ao posto, que às vantagens das negociações que serão feitas após o primeiro turno. Nenhuma novidade.

É no segundo turno, portanto, que serão definidas as forças em combate. Algo como aproveitar o turno inicial como experiência para tirar o maior proveito possível - não para o povo, nem para a nação. O proveito buscado beneficiará as forças em disputa, porque urnas, no Brasil, implicam sempre a visão do pote na ponta do arco-íris. Um butim que justifica qualquer conduta, mesmo à custa do sofrimento, da decepção, da desesperança da grande maioria.

As candidaturas lançadas e às vésperas de registro, ao contrário do que se poderia esperar em um tipo de democracia saudável, identificam-se pelo fio condutor que as aproxima: o desejo puro e simples de tomar o poder. Depois, a consequência comum a todas elas: para benefício pessoal do candidato, desfrute de seus apoiadores e regozijo dos grupos econômicos aos quais mantêm fidelidade. E o povo que se dane.

Isso, contudo, não pode levar os eleitores a aceitar passivamente os arranjos, da primeira e da última horas. Deve, sim, servir para que cada um reflita sobre a responsabilidade individual que assume, quando registra sua escolha na urna eletrônica. Sem seus votos, ninguém conquista mandato, uma vez contestada a hipótese da possibilidade de fraude. Enquanto não for cabalmente comprovado que a urna favorece a fraude, tolice usar o pretexto para fugir à responsabilidade.

Sobre os cinco até agora lançados, pelo menos dos mais divulgados, sabem-se de algumas virtudes e tantos mais vícios.

Ciro Gomes, por exemplo, é visto com reserva por grande parte dos eleitores, por seu perfil desaforado, beirando o autoritarismo. Mas não seria justo omitir que, dentre os demais, é o que parece entender melhor que os outros da realidade nacional. Se tiver a Inteligência necessária, poderá desfazer a imagem que pode prejudica-lo no turno final.

Jair Bolsonaro, como todo ser humano, há de ter alguma virtude. Eu a vejo apenas na coragem com que anuncia e defende valores e práticas que qualquer pessoa equilibrada trataria de esconder. Se isso pode ser confundido com recusa à hipocrisia dominante, não alimenta esperanças em um governo minimamente humano. Humanitário, menos ainda. Só o anúncio da composição do seu ministério - com grande número de militares - diz do tamanho da ameaça que paira sobre os brasileiros. Não seria honesto, nem inteligente, da parte do eleitor, esperar mais de quem defende armar cada cidadão. Talião ficou para trás, faz séculos.

Geraldo Alckmin, postulante antigo, pouco tem a ver com as dificuldades do povo brasileiro, se é que não pode ser incluído dentre os que concorrem para torna-las maiores. Os problemas enfrentados com o Ministério Público de São Paulo e as práticas do seu PSDB não passam ao largo da percepção dos eleitores. Virtude? A cara de boa praça e a aparência de um homem de família. Com ela, pátria e propriedade.

Guilherme Boulos e Vera Lúcia, por menos conhecidos e por não disporem do apoio dos grandes media, terão que vencer, inicialmente, o quase anonimato. Sendo que o candidato do PSOL é malvisto até por correligionários, desde quando pareceu um laranja de Lula. Talvez não muitos se lembrarão desse pormenor. Outros, sim.

Dos que ainda podem pedir registro, avultam Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Marina Silva e Aldo Rebelo. Este, mais pela militância prolongada no PC do B; a outra, sempre acusada de omissão nos momentos mais graves, ainda tem no seu capital alguma credibilidade. De pouco ou quase nada, realmente, ela pode ser acusada. Mas nem sempre é isso que conta em uma eleição.

Resta analisar a situação do PT. Há quem veja a demora do partido em definir sua candidatura, ligada à esperança de Lula vir a ser o escolhido. Se disputará ou não, depende menos de seus correligionários e dele mesmo, que da Justiça. Se não concorrer, é quase certo que indicará outro poste. Se transferirá votos, como fez com Dilma, também está na dependência, menos do substituto que dos eleitores. Muitos já perceberam que ele só trabalha em benefício próprio. Que o digam Palocci e José Dirceu, entre tantos outros.


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Observador Participante

Dr. José Seráfico