Observador Participante

Imenso curral - em 11/04/21

Quase todo dia somos informados da morte de alguém que, amedrontado pela permanente ameaça da covid-19, tomou medicamentos recomendados por charlatães. Oficiais ou não. A Ciência, que muito antes de Galileu cercava-se de bons augúrios, tem sido posta em questão, hoje muito mais que em qualquer outro período da História. É como se parte das gerações que se sucedem condenasse a ousadia dos que proporcionaram as viagens aéreas, espaciais, mesmo aquelas outras, cujo espaço, ilimitado e desafiador, não vemos a olho nu. Nem todos o veem, melhor dizer. Da geringonça muito depois chamada helicóptero, Leonardo Da Vinci o disse. Sendo que a Santos Dumont coube prová-lo. Das gigantescas máquinas que ocupavam salas amplas chegamos aos computadores pessoais, para pouco tempo depois reduzirmos nosso aparato de comunicações a um aparelho que cabe dentro da mão - de um adulto como de crianças que mal pronunciaram as primeiras palavras. Isso, todavia, não diz nada aos negacionistas, cuja saída da caverna se faz tardia. Essa recusa à luz talvez explique a preferência pelas mezinhas não certificadas pela Ciência e leve os ignorantes por opção a vasculhar informações em geral disseminadas pelas redes (anti)sociais, relativas a consequências indesejadas de vacinas contra a covid-19, seja qual for. Descobre-se, assim, que mães e pais de família cuidadosos com a atualização do calendário vacinal dos filhos comprometem seus sentimentos, quando revelam ignorância a respeito da imunização contra as doenças comuns na infância. Só a ignorância e o descuido com a saúde dos próprios filhos admitirá não saberem que vacina NENHUMA assegura TOTAL imunização. É certo que a maioria das pessoas vacinadas não sofrerá qualquer reação adversa; outras não terão mais que repercussões leves, em nada comparáveis à contaminação pelo mal que o imunizante evitou. Isso, porém, não escapa à observação dos que respeitam a Ciência e veem na comunidade dos que a produzem benfeitores da humanidade. Os mesmos que não pretendem acabar com a pobreza simplesmente matando os pobres. Penso, no entanto, que o líquido que finas agulhas colocam em nosso sistema circulatório tem origem muito clara, a julgar pelo comportamento dos que a rejeitam: vacina tem origem semelhante à da palavra vaca.


Impedir a banalização do mal - em 03/04/21

Parece-me fruto de ingenuidade ou desatenção a atribuição de doença mental ao Presidente da República. Em primeiro lugar, admiti-la só interessaria ao próprio ex-capitão excluído das forças armadas, aos seus fanáticos seguidores e aos advogados que o vão defender, descida a rampa do Planalto. Se constatada, a suposta enfermidade asseguraria a inimputabilidade do responsável pelo menos por algumas dezenas de milhares dos mortos pela pandemia. Dele e dos que seguiram à risca suas ordens e sua inflamada pregação pró-covid-19. Em seguida, contamina o tratamento do Presidente como uma pessoa (?) adoecida por doença mental certa ignorância, como de resto, valor consagrado nos arraiais em que ele manda e desmanda. Quem tenha informações sobre a Segunda Guerra Mundial terá, no mínimo, ouvido falar do Holocausto. Se ainda não está totalmente convertido ao pensamento de Adolph Hitler e pelo menos soube que foram mortos mais de seis milhões de judeus por ordem do Führer, também há de ter notícia de um tal Adolph Eichmann. Enforcado em 1962, depois de capturado pela Mossad, serviço secreto israelense, o organizador do holocausto refugiara-se na Argentina. Uma vez descoberto, o refinado exterminador de judeus foi submetido a julgamento e morreu pendurado na forca. Hannah Arendt, filósofa judia, em seu livro Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal, trata disso. Refere-se a autora à forma como os pósteros encaram a matança dos judeus, algo, em certo sentido, assemelhado à permissão e estímulo concedidos ao novo coronavírus, no Brasil e em alguns outros poucos países. Do responsável pelo morticínio de milhões de judeus, sabe-se ter sido pai amantíssimo, que os vizinhos jamais suspeitariam capaz de cometer os atos que o Tribunal de Nuremberg comprovou. Talvez porque nenhum deles soubesse ou sequer desconfiasse que a pele de cordeiro muitas vezes esconde um leão furioso. Bastaria, por exemplo, lembrar o que é dito sobre Eichmann, ouvinte atento de música clássica e óperas: Daria saltos na sua sepultura de tanto rir, porque sentir que tinha cinco milhões de pessoas na sua consciência seria para ele uma fonte de extraordinária satisfação. Não se tratava, portanto, de um adoecido mental, mas de um homem voluntarioso, de uma forte vontade, reveladora de seu ódio à humanidade. Quero dizer, a enfermidade mental aparente muitas vezes pode ser o exercício bem calculado do poder, em especial quando os contemporâneos não se veem motivados a impedir a ação supostamente insana. Assim, admitir doença mental no Presidente é assegurar-lhe o benefício da inimputabilidade. Se a escritora e filósofa judia não o tivesse dito, poderíamos alegar desconhecimento. Se ela o disse, e não gratuitamente, impedir a disseminação do mal como ato banal é o mínimo que o mais ínfimo sentimento humano exige dos contemporâneos.


Mortos sem morrer- em 27/03/21

A profundidade e a abrangência de nossa crise, tamanhas, tornam maior o desafio imposto aos que se interessam por vê-la resolvida. Reconhecer o desinteresse do Presidente da República por integrar-se aos esforços correspondentes é apenas constatação necessária, por comprovada. Inclusive, e sobretudo, pelos danos que o desinteresse causa, e o número de mortos pela covid-19 ilustra. Por tudo quanto já se tem sabido, mesmo o reconhecimento de que muito mais há a desvendar, a situação não permite ilusões. Chegarmos à posição de párias diante do concerto internacional tem contado com o estímulo e a ação febril e odienta dos governantes. Pelo menos, de forma tão ostensiva quanto se tem registrado desde 1 de janeiro de 2019. Ignorar a presença, ontem e hoje, de autoridades e lideranças dos mais diversos setores nacionais na trágica empreitada que agora avança nos ventos da pandemia será sempre improdutivo. Talvez dispensável dizê-lo, porque anulada qualquer possibilidade de surpreender quem quer que seja. Há alguns anos temos assistido a pregação avessa às pretensões democráticas, entendidas estas como compromisso de políticas públicas voltadas para o bem-estar de TODOS, de que a redução das desigualdades se faz a pedra de toque. Simples assim - como o diria o general-Ministro Pizaiollo: cumprir o que determina o artigo 3° da Constituição Federal. Jamais, contudo, tal dispositivo contou com olhares e leitura satisfatórias. Antes, o desvio deliberado dos olhos-leitores tem servido a outros interesses e propósitos, que não concorrer para reduzir os efeitos da tragédia de que todos damos testemunho. Não é à toa, nem um projeto da natureza, excluir de nosso convívio centenas de milhares de seres humanos a que hipocritamente chamamos semelhantes. Como não o é a tentativa de fazer a boiada (simbólica ou literalmente) passar livre, coberta pelo desassossego, pelas apreensões, as lágrimas e o luto gerados pela pandemia. Ao vírus coroado, vermes enfaixados trazem sua contribuição e fazem o poço cujo fundo cada dia é mais profundo, da dor de nossos irmãos. As esperanças indo junto com as vidas, para o nunca mais...

A despeito de Manaus ter sido palco do episódio talvez mais marcante deste período tão trágico de nossa História, a falta de oxigênio parece chegar a outros arraiais, em grande medida construtores do cenário que agora tolhe nossas esperanças e pretende tolher nosso mínimo movimento. Não chega a ser um mea culpa o manifesto de ex-ministros da Economia e outras lideranças do setor empresarial, advertindo sobre o peso da contribuição presidencial (e dos áulicos que o compõem )para o morticínio experimentado. Quem comprará, consumirá bens e serviços garantidores do mais monstruoso processo de acumulação registrado na história econômica mundial, se a sangria - diferente da referida por um ex-senador da ainda chamada república - não for estancada? A morte evitada, menos por humanitarismo que pela perspectiva de iminentes perdas. Não de vidas humanas, mas de ganhos resistentes à mais diminuta e miserável alteração. Dentre os signatários, sem grande esforço serão identificados defensores intransigentes das pretensões presidenciais, no que concerne à venda de toda riqueza brasileira, natureza e homens produzindo-a. Em muitos casos, é no fastio por liderar até mesmo esse processo de alienação que repousam as críticas. Desejavam vê-lo mais veloz. O Estado, este mesmo que faz do SUS a única instância realmente efetiva no combate à pandemia, precisa ser reduzido às agências de proteção e promoção de vantagens aos acumuladores. Do outro lado, permanece a tentativa de impor a mordaça aos que revelam a nudez sórdida do rei. Legislação resgatada dos porões sugere a abertura de velhos baús, de onde paus-de-arara, cadeiras-de-dragão, eletrodos e tripálios disputarão o direito sagrado de matar. Não os vírus, de que alguns dizem não serem vivos. Matar gente mesmo, porque esta é que incomoda, apesar do grau de vivacidade tão diferente. Ninguém se admire se, ao final e ao cabo (outra seja a graduação), estivermos apenas os que nem precisarão morrer. Ao abismo não cabe exigir mais.


Hora do Aparício - 26/02/21

De concessão em concessão, a prática política vai empurrando a sociedade para becos sem aparente saída. Tudo é usado como pretexto, desde uma tal governabilidade a que nunca se chega, até o déficit das contas públicas, jamais suprido. As propostas se sucedem, nenhuma delas alcançando mais que prolongar a duração do problema. Muitas vezes, aumentando-os, eis que jamais são inspirados senão por interesses pouco afeitos à vida dos cidadãos, especialmente os que só têm utilidade no dia da eleição. De entremeio, outras alegações são utilizadas, sem fugir aos (maus) costumes e às práticas que muitos dizem condenáveis, sem que isso implique em alterá-las ou fazer por onde. Incluem-se neste caso pelo menos a mobilização atual, em torno da PEC que pretende assegurar a impunidade dos parlamentares, e ao projeto que tenta extinguir o piso das verbas públicas destinadas à saúde e à educação. No primeiro caso, as concessões são antigas, começando pela interpretação demasiado elástica a respeito da proteção à liberdade de expressão atribuída aos representantes populares em âmbito federal. Gradativamente, o instituto legítimo intimamente ligado ao exercício do mandato conferido pelos eleitores expandiu-se, até chegar ao ponto de permitir que acusados de crimes contra a vida dispusessem da tribuna e otras cositas más, como se estivessem acima do bem e do mal. Seria necessário ter dentre as prerrogativas e funções parlamentares o direito ou, mesmo, o dever de matar pessoas, para admitir coberto pelo instituto da imunidade o ato pelo qual responde, por exemplo, a deputada Flordelis. Igualmente, tantos outros às voltas com as autoridades policiais e judiciárias pelo envolvimento em caudaloso elenco de ofensas às leis penais - desde as rachadinhas até a disseminação de mentiras em redes (anti) sociais. Quanto à governabilidade, ela tem levado ao conluio entre os que mandam e praticantes reconhecidos do que alguns, apenas retoricamente chamam de velha política. Daí a compra e venda (esta, mais que a outra) em que se envolve tradicionalmente o centrão, grupo que só tem crescido, não se sabe se ao mesmo nível e à mesma velocidade em que crescem as verbas necessárias à sua adesão. Parece que chegamos àquele ponto anunciado pelo bom humor de Aparício Torelly, o conhecido Barão de Itararé. Uma vez que se admite impossível chegar à moralidade, mínima que seja, instaurou-se a locupletação. Para os que têm os cofres, a Polícia e a Justiça sob suas ordens.


Significado e insígnia - em 20/02/21

A memorável sessão do Supremo Tribunal Federal na última quarta-feira, 17 de fevereiro, trouxe à baila mais que o lamentável currículo do deputado federal Daniel Silveira. Menos pela habitualidade com que o parlamentar comete agressões à ordem jurídica, que pela oportunidade de pôr em foco outras áreas do conhecimento humano. Imagino como se estarão sentindo os especialistas em semântica atentos a certas particularidades da reunião. Uma delas, quase ao final dos trabalhos, remete à simbólica pergunta do Presidente Luiz Fux sobre o nome completo do preso pela Polícia Federal. Os que estão acostumados a tratar com significantes e significados não deixarão passar a oportunidade de destacar como as peripécias do iminente ex-parlamentar repercutiram na mente dos magistrados. A deplorável riqueza curricular do preso, que se estende desde a falsificação de atestados médicos até a agressão ao Poder Judiciário, justifica o tom da pergunta de Fux ao relator, ministro Alexandre Morais. O desdém perceptível nas palavras do Presidente do STF permite avaliar a gradativa perda de solidariedade que o agora denunciado pela Procuradoria Geral da República enfrentará, mesmo dentre os seus pares. Muitos deles optarão por negar-lhe apoio, revelada sua incapacidade de ostentar a menor insígnia que seja, diante de currículo tão extenso quão oprobrioso. Já não se trata de julgar a conduta do colega, mas de atribuir a ele privilégios que comprometem a própria instituição a que pertencem todos. Aposte-se em que muitos dos deputados temem ver-se nos mesmos (maus)lençóis em que se meteu Daniel Silveira. Sabem que há porque temer. Também sabem que concorrer para tirar a maçã podre ou a que tem sua podridão mais exposta, pode garantir-lhes a leniência dos que acreditam na recuperação dos malfeitores. Será sempre uma situação de risco, mas sem risco difícil é falar da vida. Pelo menos, como todos os brasileiros que não têm bandidos de estimação, sabem o que significará ter em seu círculo mais próximo convivas destituídos de insígnias, insignificantes, portanto. Lux desta vez aclarou o ambiente. (A Câmara, em número surpreendente - 364 votos - manteve a decisão do Plenário do STF, dia 19 de fevereiro). 


Indignação e alívio - em 06/02/21

Felizmente, o alívio é maior que a indignação. Sem que esta perca um só dos graus acumulados diante do que temos vivido. A certeza de que não basta a primeira dose para tirar-me da alça de mira do vírus e de todos os vermes alistados no cortejo macabro, é menor que minha esperança. Esperarei os 60 dias prescritos, porque prefiro afastar-me da ignorância e festejar a vida, ao invés de reverenciar, prestigiar e submeter-me à indesejada.

Minha presença na escola não foi acidente, nem obrigação. Apenas a oportunidade de fugir das trevas onde vivem e sobrevivem morcegos atentos às jugulares humanas, o sangue alheio a despertar-lhes apetites. Afinal, a indignação não é artigo fácil, pois seu preço é pago com a moeda chamada dignidade. Mantê-la, vê-la crescer embora a preferência pela ausência de motivos, não é problema. Nem mal me causa. Compensa a conduta abjeta dos morcegos, visto o mundo posto de cabeça para baixo (ponta-cabeça, dizem outros), o salva-vidas servido por fina cânula. Dela escorrem as poucas gotas, despertadores atentos à torpe habilidade do vírus e seus serviçais. O resto, meu organismo e minha compreensão das coisas do mundo, suas gentes, seus tempos e sentimentos o dirão.

Melhor seria não ver miséria no mundo, não por cegueira premeditada; não ouvir o clamor da fome, do desemprego, da exclusão, sem precisar de fazer-me surdo; dispensar o tato do toque dolorido, porque rugas e rusgas estariam ausentes do ambiente; bons os sabores em minha boca postos, o peixe em postas bem cortadas, as carnes e seus cortes cozidos , fritos ou assados. Se as narinas conseguissem ignorar a purulência e odor resultante do que pode e produz a violência.

Indignar-se, portanto, é preciso. Tanto quanto oxigênio sonegado, o leito hospitalar não-instalado, o servidor público enxovalhado, o charlatanismo virulento estimulado. Todos causa e consequência, trágico incesto, redução da vida como obra-prima de toda insciência. O homem ainda vivo tratado como resto. Bem-vindo alívio, fonte e regente de crescente dignidade, chama ardente a incendiar corações, despertar mentes, espaço aberto ao voo em direção incerta, mesmo sabendo não ser a morte a meta.

Companheiros

Se prosperar a denúncia feita ao Tribunal Penal Internacional contra o Presidente da República por crimes contra a humanidade, o maior estádio de futebol não terá como acomodar de uma só vez todos os réus. Será necessário estabelecer calendário cujo modelo pode ser a escala de imunização contra a covid-19. Uma das muitas ironias que têm caracterizado esta trágica fase de nossa história, quando inimigos declarados da vacina tentam fazer dela troféu e símbolo. Enfim, os vírus se entendem. Não me refiro aos primeiros cúmplices.


Necessidade e oportunidade - em 30/01/21

Despreocupam-me as motivações do jornalista Élio Gaspari, quando indaga sobre os ganhos potenciais do impeachment do Presidente da República. Ele os põe em dúvida, não sei se pelos mesmos motivos de outros que com ele concordam. Hipóteses sobre as razões, dele e de tantos, não surgem do nada. Difícil e complexa que seja, a identificação de interesses, preconceitos, circunstâncias ligadas à destituição não pode ser negligenciada.

Primeiro, porque são fenômenos indissociáveis da vida social. Depois, porque o esquecimento dessas variáveis levará a ideias e propostas nascidas sob o patrocínio do erro. É certo que alguns dirão tratar-se da troca de seis por meia dúzia. Não se descarte a hipótese de imaginarem-se agravados os riscos corridos pelo que resta de democracia, se um general substituir o capitão.

Para Gaspari, a troca seria operada no vazio, pela simples razão de que nem mesmo o que se chama - na maioria das vezes por exagero retórico - oposição tem um projeto de nação. Não há, por mais que doa dizê-lo, como negar esse aspecto dramático de nossa realidade. Difícil, por outro lado, admitir ao menos como possibilidade, algo que seja pior do que há dois anos nos constrange, maltrata, humilha e envergonha.

A retirada constitucional do Presidente de sua cadeira no Palácio do Planalto, assim, não pode afastar da consideração dos interessados, pelo menos duas condições : a necessidade e a oportunidade. Se a derrubada de Dilma Rousseff se fez baseada em pretexto, não em prática criminosa, o atual Presidente já incidiu em crimes que alguns analistas dizem terem superado duas dezenas. Não faltaria o indispensável fundamento jurídico para o processo ser instalado. Nem a convicção do Centrão, a viga mais forte a sustentar o atual governo, estaria surda ao clamor das ruas.

Desacostumada a trabalhar, a maioria dos integrantes desse grupo informe, volúvel, anódino tem os olhos sempre postos na próxima eleição. Uma questão de sobrevivência, não só política. Mesmo esse grupo seria forçado a admitir a necessidade de trocar o (des)comando do País. Os 39% dos eleitores que guindaram o ex-Capitão ao principal posto da República definham, tendo do outro lado da moeda o crescente número dos que querem vê-lo fora do Planalto. Aí, então, resta discutir se o momento é oportuno. Para que promover a mudança, sem saber o rumo a tomar? Isso poderia aumentar a enorme frustração coletiva, dia a dia alimentada pelo próprio Presidente.

De salvadores da Pátria, heróis autoproclamados destituídos de qualquer glória, estamos todos cansados. Pressionar o Legislativo e o Judiciário, provocando sua recondução aos deveres constitucionais resultaria, em boa hipótese, no estabelecimento de freios à vocação e intenção autoritárias, fazendo avançar a débil democracia aqui praticada. Em 2022 veríamos repetir-se, respeitadas nossas peculiaridades, o que aconteceu nos Estados Unidos da América do Norte. O discípulo ou serviçal daqui teria o mesmo destino do mestre e senhor de lá.

Necessidade e dignidade -  em  23-01-2021

Creio compreender as razões por que pessoas de bens (oh revisão, é no plural, mesmo) tentam ou conseguem furar a fila da imunização contra a covid-19. O medo costuma ser dos piores conselheiros, ainda mais quando a vida só importa se é desfrutada por nós mesmos ou pelos que nos estão mais próximos. Mesmo se tenhamos desdenhado da pandemia ou aplaudamos os que a ela se associam para reduzir a população incômoda que apenas sobrevive. Também compreendo o clamor para que medidas restritivas da aparente liberdade de uns e libertárias em relação ao sacrifício dos outros impeça a disseminação da morte. Sempre o outro, a que inadvertidamente chamamos semelhante, mostrando-nos quanto somos desiguais.

Estudante atento das aulas de Direito Penal, jamais esteve tão presente em minha memória o estado de necessidade, que o professor Aldebaro Cavaleiro de Macedo Klautau com invulgar histrionismo e profundo conhecimento tentava fazer-nos entrar pela cabeça. Nunca me imaginei capaz de forçar a submersão do concorrente, mar afora, vagas ameaçadoras anunciando um fim - o meu ou o do outro (sempre há um outro) disputante, pela conquista da única boia disponível. Para mim, valeria pouco continuar respirando e tendo preservados todos os sinais de vida, se de vida não mais se trataria. Algo que os antigos chamavam dignidade, quando essa ainda não era bem escasso e em vias de extinção. Mas a própria Lei Penal o admite, sem que a (boa) consciência dos que ainda a detêm viesse a purgar qualquer pecado.

É assim que contemplo os fura-filas, cujo crime, em não havendo, não exime outros de serem chamados às barras da Justiça. Os que, gestores do interesse público, seja lá qual for a razão, descuram de seus deveres e responsabilidades e concorrem para tornar ainda maior a tragédia. Chegado à idade que tenho, posso apostar que dentre os beneficiários do prêmio em detrimento dos que morrerão não-vacinados, serão contados indignados manifestantes contra a corrupção. Outros deles - pago para estar errado! - se alinharam e alinharão tantas vezes quanto for rentável, aos protestos e condenações ao aborto protegido. Enquanto mandam para as fábricas de anjinhos o produto de suas relações criminosas. Porque assim tem sido e, desafortunadamente, nada me indica que será diferente. Pelo menos nestes infelizes dias trágicos por que passa a pátria armada. No mar, não sei como agiria.

Sei, porém, que não mexi um só palito para obter o favor de que muitos se valeram. Também segui as recomendações das autoridades, competentes para muito além do cargo ou posto que ocupam. Na Pasárgada que construí para mim, ser amigo do rei é ofensa ao súdito.


Paspalho - em 15/01/21

Não se poderá considerar menos que um ato de paspalhão a primeira reação do governador do Pará, Hélder Barbalho, quando o Amazonas vive a pior tragédia de sua História. Agora, a recusa em receber pacientes açoitados pela ferocidade do vírus e dos vermes que a ele se associam para matar quanto juntos puderem, é gesto que supera o sufocamento do passado por tropas despachadas da então metrópole.

Éramos (ao Pará me refiro), a então capital da Província. Mesmo decorrido tanto tempo, se as antigas unidades do Império se transformaram em Estados republicanos, as mentes nem sempre acompanharam esse movimento. Daí as soluções como a que tem tomado o governo federal e - sabe-se lá por que razão - o governador eleito pelo povo para governar o Pará.

Ainda bem que sempre é tempo de recuar. Foi o que fez Hélder, espera-se que aconselhado pelos que não se arriscam a aventuras suicidas, guardando dentro de si o que ainda pode restar de magnanimidade, tolerância e sensibilidade diante do sofrimento alheio. Em artigo publicado em O Liberal (União ao invés de ódio, 17-05-2005) adverti sobre os riscos de cultivarmos hostilidades e ódio, ao invés de companheirismo e união. A direção do meu texto era inversa à conduta do governador.

À reação inicial do gestor paraense seguiu-se a oferta de 30 vagas para pacientes oriundos do Estado do Amazonas, nos leitos sob o controle da administração pública da saúde do vizinho Estado. Mea culpa que precisa ser repetida, em palavras, gestos e decisões, todo dia, para todo o sempre. O inimigo não é o Estado vizinho, muito menos seu povo, mas os que, mesmo dentro de ambos os territórios (como de toda a nação)entendem a guerra apenas como exercício propício a gerar mortalidade, não de combate a esta.

A solidariedade e o amor ao próximo são as melhores e mais eficientes armas, se desejamos viver em paz. O resto é guerra, com e sem quartéis.


Preventivo à mão- em 10/01/21

Reitero observação feita em vezes anteriores. Tomar-se como sandice tudo quanto sai da boca do Presidente da República é assegurar-lhe a inimputabilidade pelas dezenas de crimes que ele vem perpetrando, desde muito antes de instalar-se no Planalto do Palácio. Não foram poucas as oportunidades em que adverti sobre os riscos desse comportamento equivocado e leniente, como não o são as reincidências dele nos mais diversos dispositivos penais.

Só o fato de o Tribunal Penal Internacional entreter-se agora com denúncias promovidas contra o Chefe do Poder Executivo brasileiro bastaria para impedir tanta leniência, à beira da cumplicidade. Alguns dos crimes têm caráter continuado, tamanha a persistência intencional revelada pelo Presidente. Agora mesmo, quando a Câmara dos Deputados prepara a sucessão do hesitante e dúbio Rodrigo Maia, exacerba-se a vocação desviada da Lei, tão ao gosto do que a ostenta.

Empenhado em articular as forças que o apoiam e obter maior subserviência ainda do Congresso, o denunciado ao Tribunal de Haia junta o que há de mais nocivo ao País, reunindo diversas siglas de fantasia sob a égide protetora do Centrão, na tentativa de derrotar candidatura articulada pelo opositor de fancaria ainda Presidente da Câmara.

A aliança que une Maia ao Presidente, sob os interesses e as ordens do grande capital, só superficialmente foi rompida. A pauta de ambos é a mesma, sendo diferentes apenas os apetites pessoais. Tanto, que as dezenas de proposta de submeter o Presidente ao processo de impeachment permanecem engavetadas.

Diante da invasão do Capitólio por hordas estimuladas e convocadas pelo quase-ex-Presidente dos Estados Unidos da América do Norte, a maior autoridade da república brasileira recalcitra e reforça o juízo que faz dele a maioria da população, descontados - óbvio - os que ele ajudou a sepultar, desde fevereiro de 2020.

Não tivesse se não tardiamente reconhecido o novo Presidente eleito dos Estados Unidos, seu colega brasileiro continua a pôr em questão a lisura das eleições norte-americanas. Até este momento (tarde de 07 de janeiro de 2021), é dos poucos governantes silentes quanto aos acontecimentos da tarde anterior, no que os irmãos do Norte têm como símbolo da democracia, a sede do Congresso daquele país. Pior, porém, a afirmação - única e exclusiva - relativa ao lamentável fato. Será assim no Brasil, se for mantido o voto eletrônico nas eleições presidenciais de 2022. É o que ele diz. Não precisa sequer saber ler nas entrelinhas, para adivinhar o significado das palavras do fanfarrão.

Pode não ser mera coincidência lembrar que, dias antes do suposto atentado de Juiz de Fora, ninguém menos que o chefão do GABIN falou da eventualidade de uma facada. Assim, a experiência impede qualquer outra interpretação, clara como têm sido a hostilidade à democracia e o ódio revelado a cada palavra ou decisão daquela autoridade.

No caso brasileiro, no entanto, ainda há saída preventiva. Basta ser incluída na pauta da Câmara, por via do acordo com partidos de (suposta) oposição, a tramitação imediata de um dos muitos pedidos de impeachment do Presidente. E vê-lo aprovado.

Poderíamos com isso ser poupados de invasão semelhante às cúpulas de Brasília, onde a subserviência, os interesses espúrios e o ódio ao povo têm tido guarida. Até vidas humanas, como o Capitólio o demonstra, poderiam ser poupadas, a despeito de a quantos isso desagradaria.


NÃO BASTA SÓ O ANO- 01/01/2021

Tem sido uma constante a pregação pela criação de novos valores e novas condutas, ao longo da História. Nenhum dos grandes revolucionários, mesmo os religiosos como Jesus, deixou de empenhar-se na busca do que se tem chamado um HOMEM NOVO. Talvez até essas lideranças tenham dado mais ênfase a essa necessidade. As revoluções modernas, beneficiadas pela disseminação mais rápida e abrangente da informação, deixam a impressão de que foi com elas que se iniciou esse processo civilizatório. Na verdade, passo a passo, em graus diferentes de abrangência e celeridade, vão-se alcançando níveis diferentes nas relações entre os humanos. Nem sempre, em direção ao futuro, se focadas as particularidades de cada fase. Ao final de mais amplos períodos, todavia, avaliação criteriosa e isenta (porque pedir imparcialidade seria tolice)constatará um passo mais à frente.

Ninguém haverá de ignorar os avanços da Ciência e da tecnologia, graças ao qual muitas doenças foram erradicadas do Planeta; novos territórios foram expostos ao mundo, nem sempre despertando sadia vontade de conhecê-los e habitá-los. Saúdam-se, com justiça, as caravelas que chegaram ao que mais tarde se chamou NOVO MUNDO. Admitida a hipótese mais provável do encontro, não da descoberta, se haverá igualmente de reconhecer quanto as terras d'além-mar frequentavam o imaginário de povos antigos e dos que vieram depois, até chegar a modernidade. Chegar a esse mundo foi apenas o epílogo de um capítulo de uma utopia. Outras utopias foram vencidas, porque alcançadas. Porque para isso servem as utopias: para manter a sociedade humana entregue à tarefa de chegar àquele lugar que muitos dizem inalcançável e que outros - dentre os quais me incluo - sabem ser apenas o lugar ainda não alcançado. Não era de outra coisa que nos falava Miguel de Cervantes Saavedra, ao apresentar Alfonso Quijano, personagem imortal da literatura mundial. O trajeto em direção ao destino tem seu roteiro e seu mapa inscritos pelas letras da esperança. Com o cavaleiro injustamente tido por triste, o anúncio de que o mundo pode ser sempre melhor do que é.

Estamos nesta exata quinta-feira (31/12/) comemorando (sim até na tristeza é preciso comemorar)a passagem do infausto ano de 2020 para outro, dois anos exatos em que somos tentados a voltar à caverna. Não obstante, os que tratam da Ciência podem colocar-nos fora do risco de não assistir à chegada a novas utopias. Muito mais levar-nos à concepção de novos sonhos, exigência irrecusável da inteligência humana. Ciência e tecnologia, e políticas que as contemplem e favoreçam são tudo de que precisamos. Umas e outras, porém, não resultam senão dos conhecimentos e entendimentos que os homens produzirem. Sobre o mundo, as gentes que o povoam e as relações que entre si estabelecerem. Daí voltarmos ao ponto inicial: de que valerá rasgar a folhinha do calendário, se tudo nos impedir de gerar o HOMEM NOVO desde milênios reclamado?

De minha parte, sinto-me impelido a empurrar com as forças que ainda me restam, firme e determinado, este pedaço de mau tempo, ladeira abaixo! Que com ele se anunciem a contenção do vírus e os vermes que o cercam, festejam e glorificam. Que o sol não tenha vergonha de mostrar sua cara e iluminar as máscaras por todo o sempre ostentadas. Aí, sim, teremos a oportunidade de conviver com o HOMEM NOVO!


O Natal e a cruz de cada um - em 25/12/20

O pretexto de festejar o nascimento de um menino em distante manjedoura do Oriente, tem entretido os povos, faz quase dois milênios. Tanto quanto as terras alcançadas em outros pedaços deste Mundo a que alguns negam a formação esférica se foram alterando, têm-se alterado os sentimentos que cercam os festejos.

Os acontecimentos são os mesmos, diferentes os modos de vê-los. Para os que, saídos dos portos europeus, o Novo Mundo gerava a possibilidade de enriquecimento a que nunca o nascido em Belém dera importância, também valeria a pena apostar em alterações que pudessem, em torno do bebê que se fez andarilho, concorrer para os mesmos e nem sempre humanos objetivos.

A cruz em que o suposto festejado de todo dia 25 de dezembro foi imolado não tardou, foi esquecida. Quem sabe a madeira de que foi feito o instrumento de suplício de Jesus foi obtida pelos mesmos processos utilizados na desertificação da Amazônia? Aqui, apenas uma hipótese que cumpre aos especialistas explorar. Não se trata de hipótese, porque verdade provada com boas provas, a mudança substancial de sentido na festa natalina é inconteste, e não se diria inspirada em qualquer das prédicas do pregador da Judeia. Elas hoje estão mais para prestar reverência àquele que o bispo Basílio, da Antióquia (sec. IV) chamou esterco do diabo, o dinheiro.

A mesa farta, a cabeça vazia, a alma pior ainda. Nos corações, o desejo mal disfarçado de humilhar o outro, espezinha-lo, mantê-lo refém da falsa generosidade, do favor com data certa para ser resgatado. Isso tudo, como remate da solene retirada dos véus sobre as cabeças, e dos terços e rosários devolvidos às finas e douradas caixas onde se esconde a hipocrisia humana. Isso não é mera hipótese, sequer desabafo destituído de mais que indignação. É o retrato de uma sociedade fundada no mais abjeto egoísmo, sustentada na mais vil desigualdade, defendida pelos mais perversos instrumentos. Uma sociedade, é bom que se diga, construída por todos, a despeito de muitos se apropriarem de inocência indevida, de isenção falsificada, de propósitos os mais nefastos que a mente humana possa conceber.

Enquanto os brindes com cara champanhe se repetem, em salões aveludados e gente exalando odor de finos e caros perfumes, não há um só pedaço de pão nas mesas inexistentes dos que moram nas ruas. Há alguns, é certo, que têm muitos motivos para festejar o Natal, por Jesus, não pelo grande promotor de vendas, visível por todos, mesmo - e talvez mais por eles - os que têm vendas nos olhos. E, por isso, nada veem. Ou não querem ver, como os piores cegos de que se fala.

É com aquela ínfima minoria que desejo saudar o Natal da pandemia. Quando se festeja seja por qual for a razão, em meio à mortandade generalizada cujo estímulo corresponde ao grau de responsabilidade dos que deveriam combate-la - e não o fazem, o fato que anima cada um dos regozijados: os bons lucros auferidos, que tanto podem vir da venda de caixões e sepulturas, quanto pela apropriação do dinheiro público. Fico com aqueles que, a despeito de tudo isso, preferem acreditar na possibilidade de vencer a surdez dos ouvidos insensíveis, a cegueira dos que optaram por não ver, a ignorância dos que a tomam por opção, a perversidade a erguer-se da lama do egoísmo. Mais eles sejam, menos pesada será a cruz de todos.


Sede, potes e bilhões - em 19/12/20

O governo decidiu aplicar vinte bilhões de reais na imunização da população brasileira. Medida Provisória já foi assinada, de certa forma surpreendendo, haja vista a conduta pró-covid-19 mantida durante todo este ano. Boa coisa não se pode esperar, embora a aparência meritória da decisão governamental. Sabe-se, porém, quanto as aparências enganam. Além de se saber que a decisão da manhã não tem sido mantida depois do meio-dia. Essa, aliás, uma das tônicas do atual governo, que guarda da ordem unida o comando meia-volta, volver! Será renunciar à tão malsinada presunção de inocência a suspeita de que boa parte desses bilhões jamais passará pela porta de um posto médico, farmácia ou ambulatório da saúde pública?

Vivêssemos em um ambiente politicamente asséptico, avesso a mutretas de toda ordem, cometeria no mínimo uma imprudência ou maledicência quem esperasse ver desviado qualquer centavo da dinheirama anunciada. Não é o caso, porém. Tantas são as evidências de ilícitos praticados de olhos postos nos recursos de que o contribuinte provê os cofres públicos, que deixar de fora a hipótese de iminentes desvios soaria a mais rematada ingenuidade. Ou ignorância - sei lá... O fato é este: estão assegurados (estarão, mesmo?) vinte bilhões de reais para o programa de imunização contra a covid-19.

Uma primeira preocupação deve relacionar-se ao grau de certeza de que tais recursos serão aplicados com sabedoria e austeridade. Ninguém imaginaria, por exemplo, que estavam na iminência de apodrecer nos depósitos do Ministério da Saúde materiais e equipamentos adquiridos pelo governo para combater a pandemia. E isso ocorreu, determinando inclusive medida no mínimo exigente de análise criteriosa - do Parlamento e do órgão que lhe dá apoio técnico, embora às vezes pareça integrar o Poder Judiciário, o Tribunal de Contas da União. Refiro-me à extensão do prazo de validade dos produtos em véspera de alcançar a invalidade.

Por isso, aos contadores, economistas, advogados e todos os brasileiros interessados em acompanhar o andar da carruagem, recomendo muita atenção. Ficar de olho nas Juntas Comerciais, por exemplo, será de bom aviso. Pode-se prever o nascimento explosivo de novas empresas, porque vinte bilhões é caça desejada. Capaz de despertar apetites de que somos conhecedores, satisfazendo agentes notórios e outros nem tanto, mas todos de olhos postos do ervanário oficial. Nas regiões do interior, ontem mais que hoje, a sede era saciada com água mantida em potes de barro. Quando a família era grande e a sede ainda maior, em bilhas a água era depositada. Agora, não são aquelas peças de barro que animam os grupos - familiares ou não -, mas os bilhões.


Pobre república! - em 14/12/20

Qualquer nação respeitável, república ou monarquia constitucional, não deixaria por menos. Promoveria rigorosa e profunda investigação, à primeira e mais superficial denúncia de uso de órgão oficial em benefício de quem quer que fosse. Mais, ainda, se o beneficiário mantivesse vínculo muito estreito com os governantes. Imaginem, então, quanto a denúncia se agravaria, se o vínculo de família, não outra relação, fizesse parte do vergonhoso enredo!

Quanto à natureza do órgão prestador desses estranhos serviços, multiplica-se a gravidade da denúncia ao constatar-se incidir sobre a agência incumbida de colher informações e, de sua análise, produzir alternativas para as mais importantes decisões da república. Não seria outra a função principal da Agência Brasileira de Informação - ABIN, como órgão do Estado, não de governo, qualquer governo, como tem destacado a retórica oficial. Por isso, à parte qualquer alegação antecipada dos denunciantes e dos denunciados, só a investigação dos fatos, sob supervisão de organismos internacionais acreditados, e intenso e extenso acompanhamento de entidades nacionais, corresponderia às exigências políticas e sociais.

Ainda que uma conclusão apressada possa eivar-se dos mesmos vícios (criminosos, alguns) legitimamente atribuíveis à apuração dos fatos pela Operação Lava Jato, o esforço das autoridades, a partir do Palácio do Planalto, fortalece a suspeita de que há muito o que esconder. Nem se diga quão seria ingênuo, para dizer o menos, imaginar serem inocentes os denunciados. Por mais que não se deseje ler e interpretar stricto senso a máxima referente ao cesteiro (quem faz um cesto faz um cento), o currículo dos envolvidos recomenda não levar tão longe a boa fé generalizada.

Também não se trata de percepção simplória do aforismo quem nada deve, nada teme. Porque, neste caso, trata-se de pessoas e instituições que, por sua natureza pública e sua institucionalidade política (órgãos de Estado, não de governo), devem sempre e sempre deverão prestar contas aos que os mantêm funcionando. Aqui, as contas não se referem apenas à aplicação dos recursos recolhidos pelos contribuintes, embora esse aspecto não deva ser excluído. Cabe mais, todavia, comprovar a responsabilidade dos órgãos e de seus dirigentes diante dos direitos da cidadania.

Às autoridades de que, com legitimidade, podem esperar-se decisões favoráveis ao bem-estar e à paz social caberia mais que a quaisquer outros, propor, promover, exigir e cobrar profundo processo de esclarecimento da denúncia. O que temos visto, no entanto, contraria expectativa favorável. Se há denúncias, se elas apontam na direção de agressões à Constituição, a proximidade dos denunciados com o poder não basta para arredar os investigadores do interesse pelos atos alegados dos agentes neles enredados.


Contradições e poluição -  05-12-2020

As contradições do sistema econômico geram dúvidas exigentes de malabarismos mentais que, longe de resolvê-las, prestam-se a torná-las ainda mais graves. Os sábios da Economia, assim, põem em risco seus argumentos e sua credibilidade, esta com frequência construída sobre falsas bases. Manda o neoliberalismo em vigor permanente e cada dia mais vigoroso tenaz e nem sempre limpo combate ao Estado. Essa abstração, que assegurou durante boa parte do século passado algum tipo de proteção a expressiva parte da população mundial, nunca deu conta integral de seu papel.

À crescente imposição das regras do mercado corresponde o acirramento da hostilidade contra o Estado. Ao invés de promover iniciativas estatais bem-sucedidas - e o wellfare state o diz -, os gurus do neoliberalismo optaram por destruir essa genial criação humana. No máximo, sua hostilidade e a voracidade dos seus representados cedem à captura do aparelho oficial pelos interesses que lhes dizem respeito. Estado, sim, desde que posto a serviço do processo de acumulação em vigor, de preferência aprofundando os resultados sociais conhecidos.

Esses, tão denotadores da injustiça, mantêm-se em caráter permanente se espraiam, a ponto de não escaparem mesmo dos menos informados. Óbvio que o uso da mentira como instrumento de gestão serve a esse propósito. Pior, não decorre de erro ou equívoco atribuíveis à boa fé dos agentes. Tome-se um só, mesmo numerosas as possibilidades, dos exemplos que atestam esse lamentável estado de coisas. Basta atentar para as análises que a Auditoria Cidadã da Dívida tem feito e divulgado e que a leva a criticar o PL 3877/ 2020. A coordenadora da Auditoria, professora Maria Lúcia Fattorelli tem feito verdadeira cruzada contra o que ela considera um verdadeiro assalto. Só que, desta vez, o assalto é praticado contra o povo brasileiro, para a satisfação de cujas necessidades o governo alega a falta de recursos financeiros. Ao mesmo tempo, interessa-se pela aprovação do Projeto de Lei 3.877/2020, de autoria do senador petista Rogério Carvalho. Neste caso, trata-se de parlamentar filiado ao Partido dos Trabalhadores, o mesmo que comentaristas incautos ou desonestos consideram de esquerda. Esta, porém, é uma das muitas e inevitáveis contradições geradas pelo sistema econômico.

Por isso, como destaca Fattorelli, a premiação dos bancos com cerca de R$ 1,6 trilhões, enquanto o que resta de emprego vai sendo punido com a precariedade e a desproteção social. A circunstância a mencionar, como evidência maior da injustiça generalizada é o sucessivo desrespeito das instituições financeiras a pactos estabelecidos e compromissos assumidos. Mesmo contempladas com benesses sucessivas e ampliadas, tais instituições continuam cobrando taxas criminosas pelo crédito concedido, ainda assim liberados em níveis desprezíveis. Aqui, a constatação é do próprio sinistro da Economia. Paulo Guedes disse estarem os trilhões que o governo tem servido em bandeja de ouro cravejada de brilhantes aos rentistas empoçados. Só não foi dito pelo falido "posto Ypiranga" do quão poluídas são essas poças. Porque, dado o nível de poluição, é quase certo gerarem outras formas virulentas, sempre fazendo dos pobres as mais numerosas vítimas.


Retrocesso e resistência- em 28/11/20

Houve época em que o Brasil se credenciava como dos mais respeitados interlocutores internacionais, no BRICS. A inclusão do País no grupo resultara das perspectivas abertas com o reconhecimento internacional. O combate à pobreza, os compromissos assumidos perante as demais nações sobre temas importantes de interesse do Planeta e a crescente participação popular na formulação das decisões, atraiam mais que a voracidade dos ditos investidores, ao fim e ao cabo não menos que apostadores no cassino da economia. Os olhos do Mundo passaram a ver-nos como uma sociedade apta a situar-se no topo dos organismos internacionais, tantas as perspectivas que nosso destaque entre pares justificava.

Imagina-se estar no tamanho da população a razão principal da formação do BRICS. Habitadas por pouco mais de 35% da população mundial, a China e a Índia são contadas ao lado do Brasil, Rússia e África do Sul, em cujos territórios vivem pouco mais de 5% dos habitantes do Planeta. A diferença entre a África do Sul (46 milhões de habitantes) e a China (quase 1,4 bilhões), o Brasil (210 milhões) e a Índia (mais de 1.3 bilhões) revela pouco - ou nada - pesar na recíproca atração que levou à constituição do bloco, concluída em 2011, com a inclusão da nação de Nélson Mandela.

A extensão territorial, reconhecidas as áreas pouco promissoras à exploração econômica atual, certamente não constará dos fundamentos da criação do BRICS. Juntas, a extensão dos países soma menos que 8% da superfície terrestre. Essas duas variáveis - extensão territorial e população - portanto, têm peso nenhum ou, quando muito, apenas secundário.

Comecemos por avaliar as condições políticas dessas nações, onde se incluem a Índia e o Brasil, tidas como duas das maiores democracias. Já não terá sido esse traço o motivo pelo qual a Rússia e a China foram integrados. Neste caso, as perspectivas econômicas e - não se sabe em que medida - o poderio bélico terão tido peso decisivo. Com a particularidade de que, na terra de Mao Tse Tung o crescimento econômico e, na terra de Putin o avanço tecnológico certamente têm papel destacado. Da África do Sul pode dizer-se até certo ponto ser um exemplo de bem-sucedida superação do apartheid e do combate ao supremacismo branco.

De uma forma ou de outra, vinha sendo crescente a integração da população no processo político desses países, cada qual segundo sua própria experiência histórica. Num certo sentido e até certo ponto, à nação que se arroga o direito de em todos mandar e de todos exigir obediência, pode ser atribuída a função de espelho. Quando se trata(va) de democracia, o exemplo sacado de livros vazios e cabeças pouco atentas logo davam o país de Tio Sam como o espelho. Tornarmo-nos todos uma democracia como a de lá seria, então, o grande objetivo. A despeito de armas adquiridas com o dinheiro do contribuinte matarem o contribuinte, país adentro; afora, países distantes serem economicamente explorados e invadidos seus territórios. Pois é este tipo de democracia, onde o povo sofre o mesmo grau de exploração de que outras nações dão testemunho, a que se tem praticado nos Estados Unidos da América do Norte.

Há, ainda, todavia, os que apostam em que na terra de Trump - só a presença e o poder dele determinariam recusar tal conceito - existe real democracia. E que tal modelo é que deve ser imitado pelas demais nações.

Trate o BRICS de cumprir trajetória diferente das demais colônias espalhadas pelo Mundo, e se dará muito bem. Percamos todos o medo de desafiar esse Davi sem funda, mesmo que Golias não nos inspire os sentimentos e ações. A força do dinheiro e das armas jamais suplantará a dignidade dos povos. Cabe, portanto, estancar o avanço para trás, que é como se pode qualificar o momento político, dentro e fora do Brasil, dentro e fora das Américas.

Resistir é preciso. Esta é a decisão necessária e urgente!


Avidez e voracidade - em 20/11/20

Ilusório imaginar a sensibilidade das elites voltada para o problema, tragédia mais que comédia, que vítima os outros. Seu mundo, viagem por onde viajarem, jamais extrapolará o espaço entre o calcanhar e o bico do sapato. O próprio umbigo é o centro do mundo. Há os que imaginam diferente a sociedade que emergirá, depois que a vacina chegar. Dos cerca de duzentos mil mortos no Brasil e dos milhões que o mundo terá perdido só restará tênue lembrança, talvez marcada na lousa fria dos túmulos raramente visitados. Ou nas cerimônias religiosas em que os vivos (muito vivos!) simularão certa saudade anual. Até que o barco de Caronte chegue, como chegou, chega e chegará para todos os que antecederem a produção em série dos cyborgs que nos sucederão.

Então, ninguém escapará às valquírias, pressurosas em abreviar nosso encontro com os cérberos famintos. Só nessa hora, quando tudo será vão, pode-se esperar o reconhecimento da realidade. Quando formos devolvidos ao nada que sempre fomos. Alimentemos, portanto, as esperanças, porque sem elas não somos mais que mortos insepultos. Saibamos de nossa estatura real, incapaz de medir por fitas ou varas marcadas por centímetros. Quem a pode dar é o grau em que a sensibilidade humana capta o sofrimento do outro. Talvez assim se identifiquem as razões pelas quais os deputados argentinos aprovaram a tributação das grandes fortunas. Mais de 35% dos habitantes daquele país irmão em estado de pobreza extrema e cerca de 10% de desempregados justificam a decisão parlamentar, em resultado (133 X 115) que ratifica a polarização que varre o mundo.

Trata-se de um tímido avanço, ainda se ao Senado caiba a palavra final. Outra vez nossos vizinhos saem na frente. Não falta, é óbvio, a resistência de parte dos afortunados, nem todos, como sabemos, tenham acumulado fortuna com uma só gota do seu suor. Alguns, como de hábito, usando o dinheiro do contribuinte, do qual se tornaram privilegiados gestores financeiros. Pois para isso existe um Estado, que os egoístas há pelo menos dois séculos lograram colocar a seu serviço e sob seu controle. De qualquer maneira, e porque sem esperança não há vida, devemos saudar a decisão dos deputados argentinos, sem desistir do combate à avidez voraz de nossas elites.


O serviço dos militares- em 14/11/20

Prestei serviço militar no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, CPOR/8, onde ingressei antes de completar 18 anos. Durante os quatro primeiros meses, fui voluntário. Isso me tirava o direito de receber a remuneração correspondente, suficiente para manter os coturnos engraxados, a fivela do cinto cintilando, a roupa muito bem engomada. E a proeza de nunca ter ao menos sido convocado à chamada noturna, pena mais branda de quantas eram aplicadas às infrações regulamentares.

Poderia, como muitos de meus contemporâneos e de gerações posteriores, fugir ao serviço. Foi escolha minha, porém, passar dois anos no ambiente da caserna. Lá pude sentir quanto o homem é objeto e produto das circunstâncias, não raro podendo construir o mundo à sua volta. Vi exemplos de grandeza humana, como também testemunhei atos que põem em dúvida a superioridade do animal inteligente. Preferi, sempre, recolher os bons exemplos e propositalmente esquecer o que agredia meu modo de ver o mundo.

Chegado o momento de inscrever-me no estágio de instrução, fui dos primeiros a candidatar-se. Após dois meses, voltei de Manaus para Belém, ainda aspirante a oficial, mas já assegurado o direito de ser promovido a segundo-tenente. Não repetirei aqui o já relatado em livros de minha autoria, a respeito da contribuição da vida castrense na minha formação de cidadão. Afirmo, no entanto, suposição que sei alimentada até por cidadãos e cidadãs que nunca passaram do portão das armas de qualquer quartel.

Como eu, muitos desses brasileiros e brasileiras devem estranhar aparente indiferença das instituições militares (a que se chama forças armadas), diante das agressões e do achincalhe reiterado do Presidente da República a muitos dos seus integrantes. As humilhações e os vexames impostos pelo ex-capitão a generais que compõem seu quadro de auxiliares fariam sentido se tal tratamento fosse revelador da submissão da instituição militar ao poder civil, como o exige democracia minimamente digna desta qualificação. Não é o caso, a partir da hostilidade do Presidente aos limites constitucionais e legais impostos ao exercício do cargo.

Então, haveremos de buscar, segundo o grau de conhecimento acumulado da vida pregressa do ex-oficial, a razão da inadmissível conduta de Jair Bolsonaro. Felizmente, algumas vozes sensatas começam a traduzir e expressar sentimento que vai tomando conta da caserna. Quando, por exemplo, o Ministro da Defesa lembra que as forças armadas têm como partido a nação, e seu compromisso é com ela, não com este ou aquele governo, é justo e legítimo pensar tratar-se de um recado. O general Édson Pujol sabe mais dos seus subordinados que qualquer um de nós pode saber. A ele não escapa, portanto, o mal-estar causado por um ex-colega, cuja exclusão de seu meio certamente não terá sido provocada por atos de bravura ou dedicação à causa que os une.

Sabem, o general Pujol e quantos mais militares têm semelhante compreensão do caráter institucional das forças armadas, do inadmissível fosso que Bolsonaro insiste em pôr entre elas e a sociedade brasileira. O resultado desse esforço inglório e lesivo à ordem constitucional arrisca produzir crescente desprestígio da instituição castrense, situação que em nenhuma hipótese justa ou lúcida beneficiará o efetivo humano que a compõe.

Tanto quanto ao médico é vedado prejudicar o cliente que não compartilha de suas ideias, crenças, ideologia, aos membros das forças armadas cabe conter-se dentro dos limites institucionais. Nem falo de receberem eles, como paga de sua dedicação ao serviço público militar, parte do que dos contribuintes é exigido. Isso seria reduzir à sagrada lei da compra-e-venda as relações institucionais. Algo tão oprobrioso quanto as humilhações que Bolsonaro não se cansa de protagonizar.


Ócio e pandemia - em 10/09/20

Uma das consequências mais impactantes do processo de globalização terá sido o desmanche do Estado. Não um desfazimento de igual natureza quanto o que se opera dentro do espaço territorial dos antigos estados nacionais. No desmanche em nível mundial, o que se observa é a caminhada no sentido de uma aldeia global, de que nos falara Marshall Mac-Luhan. As barreiras físicas ou aduaneiras, os quartéis erguidos para defender soberania cada dia mais frágil aos poucos vão sucumbindo, enquanto é intensificada a relação entre países, não só através das trocas comerciais. A elas se acrescenta intenso intercâmbio cultural, sem que isso comprometa as raízes e a história de cada aglomerado humano. Esse é fato devido às impressionantes e avassaladoras velocidade e abrangência do avanço tecnológico. A conversa entre parentes e amigos cobertos pelo mesmo teto é substituída pelo diálogo em que os interlocutores estão distanciados por milhares de quilômetros entre si. Nem falta a esse bate-papo transcontinental a imagem de um e de outro, cada qual no seu pago distante. Também se tornou quase trivial o encontro entre esses conversadores, postos um diante do outro em pessoa, nem bem saídos de um avião que não faz muitas horas, partiu de um para outro continente. O globo se tornou pequeno. Grande permaneceu sendo - oxalá isso permaneça! - o sonho do Homem. Por isso, os que pensam o futuro e respeitam o Homem e se empenham em deixar provada sua condição superior diante dos demais seres da natureza, esforçam-se por esgotar as possibilidades que os avanços da tecnologia propiciam aos que vieram do pitecantheropus erectus. Não se duvide de que nossos netos, não sei de qual geração depois da nossa, viverão na pátria única, em que as línguas não serão mais que uma das variações com que a natureza dotou as florestas, os solos, o subsolo, obediente à ditadura do solo, dos ventos, das águas espalhados por toda parte. Esse é o lado, digamos assim, lírico do processo. Outro, sem ser antípoda, cruel, é o que se refere à desmontagem do Estado político, não sei até que ponto auxiliando a confraternização e a solidariedade com que sonha o Homem. Óbvio que não me refiro aos cultores da morte, aos orientados pela mais profunda e cultuada e cultivada ignorância. Não sei quantos os que se veem iguais a todos os demais, sejam eles vestidos por pele da qualquer da cor que tenham; os olhos lembrando mares, oceanos ou brilhantes jabuticabas; os cabelos, dourados ou suscitando a ardência de fogueiras, lisos como a superfície dos lagos ou emaranhados como a floresta se apresenta. No coração o mesmo sonho, na mente o futuro por construir. Refiro-me, portanto, àqueles que pretendem viver em fraterna aliança com seus semelhantes, fazendo-os em verdade, não só nas palavras, vãs palavras que não se cansam (nem envergonham) de proferir. É para eliminação de mecanismos internos aos antigos estados-nações que dirijo meu olhar. Como ingressar nesse mundo que se avizinha se levamos para ele o desdouro de nossa desigualdade, a miséria de nossa vida, a exploração roendo-nos até o osso mais vigoroso? É disso que somos testemunhas. Num mundo cada dia mais necessitado de alisar rugosidades, impossível localizar-nos bem, tantos os vícios com que o abordaremos. Para pensar besteiras como as que ocupam eventuais leitores deste texto, é que serve o ócio de um quase oitentão em quarentena. Espero, porém, que desta vez o ócio não tenha contribuído para o trabalho do diabo.

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Observador Participante

Dr. José Seráfico