Língua a Conta-Gotas

Você já teve sintomas de preciosismo? Em 27/09/2019

Não! Não se trata de branda moléstia! Aliás, esta poderia aqui ser chamada de "achaque" no afã de ilustrar o aludido preciosismo. Consiste, em verdade, na exacerbada formalidade, na falta de naturalidade ou no emprego nada parcimônico de palavras sofisticadas. Uma espécie de juridiquês difundido em toda a extensão da "Última flor do Lácio", como Olavo Bilac aludiu à Língua Portuguesa, a última derivada do Latim Vulgar falado em terras italianas.

Sim! A nossa língua é repleta de termos estrambóticos. Os seus falantes recebem e dão ósculos e amplexos sem reclamar, afinal isso é bom. Cuida-se da cútis. Sente-se cefaleia. Pessoas sofrem síncope.

O País está abarrotado de criaturas ímprobas cometendo peculato a torto e a direito, e as pessoas sabem. Sem embargo até por trás das palavras os políticos se camuflam.

Consoante diria o mancebo ex-presidente alvo de "impeachment" no início dos anos de 1990, isso tudo é uma pastucada! Loquacidade de que ele, inclusive, se valeu para ludibriar seus eleitores à época.

Enfim, nosso vernáculo é deveras complexo, e este sucinto texto se tornou suficiente para pincelar, metalinguisticamente, a verborreia de que os falantes da Língua Portuguesa podem dispor para externar seu pensamento.

Sapiência formosa, aprazível, magníloqua, não obstante não raras vezes prescindível e ruidosa, no sentido de transmissão da mensagem.



Vou tirar uma minhoca da sua cabeça! Em 23/07/2019

Você está acostumado a falar ou a ouvir expressões que são empregadas em sentido conotativo ou figurado. São tantas que seriam várias postagens para elencá-las. Portanto aqui tratarei de algumas delas e suas curiosas origens.

A expressão "terminar em pizza", que se refere a uma situação negativa que termina sem solução satisfatória, surgiu na década de 1960, quando os dirigentes do Palmeiras se reuniram em uma pizarria e encerraram lá um debate sobre a situação do clube. Na época, o jornal Gazeta Esportiva estampou a manchete "Crise do Palmeiras termina em pizza". Nesse caso, literalmente!

"Custar os olhos da cara" remonta ao espanhol Diego de Almagro, um dos conquistadores da América dos anos de 1500, que perdeu um de seus olhos durante a tentativa de invadir uma fortaleza inca. A expressão remete à ideia de algo que "custa caro, que tem valores exorbitantes".

A expressão "rodar a baiana" tem origem nos blocos carnavalescos cariocas do início de 1900, quando os capoeiristas se vestiam de baianas para golpear os homens que aproveitavam os desfiles para beliscar o bumbum das mulheres que participavam desses festejos. O sentido atual é "fazer um escândalo, normalmente em público".

Na França antiga, a ideia de "segurar a vela" proveio do fato de os criados, de costas, para manter a privacidade, serem obrigados a segurar o candeeiro enquanto seus patrões mantinham relações sexuais. A acepção atual dessa expressão é "estar acompanhando um casal em algum lugar, sobrando, enquanto eles desfrutam de seu relacionamento".

Já a expressão "tirar minhocas da cabeça" equivale a "deixar preocupações inúteis". A ideia provém de uma metáfora do movimento que esses anelídeos fazem no solo para transformar vegetais em húmus e assim favorecer a infiltração e a fertilidade do solo.

O que é sintagma? Já sentiu sintomas disso? Em 02/06/2019

Calma! Isso não dói!

Nesta postagem, tratarei de um termo linguístico que cada vez mais vem sendo utilizado tanto em concursos públicos quanto no âmbito escolar.

Cada função sintática que constitui uma oração recebe o nome de sintagma. Quando a professora Astrobete, durante a sétima série do leitor, falava-lhe acerca de sujeito, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial, entre outros, ela estava ministrando aula em torno dos sintagmas.

• Quando se diz oração, está-se diante de uma frase com verbo principal, detentora de duas grandes partes: sujeito e predicado (os quais correspondem a sintagma nominal e a sintagma verbal, respectivamente, no linguajar da Linguística). O elemento que delimita esses dois macrotermos da oração é o verbo. Veja:

>> O professor Edson Augusto ensina Português na cidade de Manaus, desde 2002.

• O sujeito (sintagma nominal) é O professor Edson Augusto; o predicado (sintagma verbal) é ensina Português na cidade de Manaus, desde 2002. Confirme que o verbo ensina delimita essas duas partes.

• Todo sintagma verbal tem como núcleo (palavra mais importante) o verbo. Isso significa dizer que, no exemplo acima citado, ensina é núcleo do sintagma verbal. Essa informação não tem exceção!

• Interessa-nos, sobretudo, o sintagma nominal, o qual, na maioria das vezes, tem como núcleo um substantivo. É válido notar que o sintagma nominal não corresponde apenas ao sujeito da oração; ele normalmente aparece dentro do sintagma verbal (conforme a gramática normativa, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial etc.).

>> Os políticos enganam a população brasileira cinicamente.

• O sujeito (sintagma nominal) é Os políticos; o predicado (sintagma verbal) é enganam a população brasileira cinicamente. Veja que, neste exemplo, aparece um sintagma nominal (objeto direto) - a população brasileira, já que o verbo enganar é VTD- dentro do sintagma verbal; a telepatia me diz que você quer saber a função sintagmática de cinicamente: adjunto adverbial de modo (o que corresponde, numa análise linguística, a um sintagma circunstancial - daí o fato de que muitos concursos se referem à ideia expressa pelo adjunto adverbial como circunstância).

• É crucial agora visualizar o interior de um sintagma nominal. No exemplo Os políticos enganam a população brasileira cinicamente, há dois: Os políticos e a população brasileira.

• Se o núcleo do sintagma nominal é representado por um substantivo, em Os políticos, o núcleo é políticos, e o artigo o será chamado de determinante ou termo periférico, exatamente por ficar à beira do sintagma; na gramática, constitui o chamado adjunto adnominal.

Um dica edsonável: toda vez em que você ouvir falar em adjunto adnominal, ele dependerá da existência de um substantivo obrigatoriamente. Quem pode ser adjunto adnominal? O artigo (100%), o pronome, o numeral e o adjetivo (incluam-se aqui as locuções). Portanto, dentro do sintagma, essas quatro classes acompanham o substantivo, quer à sua esquerda, quer à sua direita.

• Ainda sobre a última oração, o sintagma a população brasileira tem como núcleo o termo população (substantivo); já as palavras a (artigo) e brasileira(adjetivo) são determinantes ou periféricos ou adjuntos adnominais!

• Nesse sentido, quando se fala em relações sintagmáticas (no eixo horizontal da oração), está-se procedendo a uma análise sintática dos termos da frase; os sintagmas convivem na oração, e suas relações se dão por modificação ou por complementação.


Mecanismo de coesão verbal: verbo vicário ou supletório - Em 29/04/2019

A nossa Língua Portuguesa dispõe de um formidável mecanismo de coesão ("ligação", "conexão") textual. Substantivos, pronomes, preposições, conjunções são exemplos de classes gramaticais responsáveis pelos recursos coesivos de um texto; a elipse e a sinonímia também figuram entre as ferramentas para a união de ideias.

Nesta postagem, entretanto, tratarei de um recurso muito curioso que muitos talvez utilizem ainda que desconheçam seu nome técnico: o verbo vicário ou supletório.

Para início de conversa, "vicário" ou "supletório" significam "aquele que substitui outra coisa ou pessoa; que supre a falta de outra coisa ou pessoa".

É exatamente essa a finalidade prática desse tipo de verbo. O verbo FAZER, combinado com o pronome demonstrativo O, desempenha a função de substituir um verbo anteriormente utilizado para evitar-lhe a repetição.

Vamos ao primeiro exemplo!

"Embora seja dada aos eleitores a incumbência de escolher os seus representantes políticos, muitos não o fazem conscientemente."

Note que, no contexto acima, caso não tivesse havido a utilização do verbo fazer (+ pronome demonstrativo o), ocorreria a repetição verbal:

"Embora seja dada aos eleitores a incumbência de escolher os seus representantes políticos, muitos não escolhem conscientemente."

O fato é que, enquanto o verbo FAZER assimila o sentido daquele anteriormente utilizado, o pronome demonstrativo "o" - equivalente à ideia de isso - resume a informação que acompanha o vicário ou supletório:

fazem = escolher

o (isso) = os seus representantes políticos.

Outro exemplo:

"Verifico diariamente os e-mails recebidos. Eu o faço por meio do celular".

faço = verifico diariamente

o (isso) = os e-mails recebidos

Em resumo, o verbo vicário ou supletório FAZER tem a extraordinária capacidade de absorver o sentido de qualquer verbo anteriormente usado, o que lhe evita a repetição.


A sinonímia e o contexto: algum efêmero em pé no ônibus?

Quando se procede à substituição de uma palavra por outra que, no contexto, não altera o sentido do fragmento, está-se tratando de sinônimas. É válido ressaltar que uma palavra pode ser (ou não) sinônima de outra conforme a frase.

Veja isto:

"A capacidade de resposta a estímulos de alimentos caiu significativamente após o exercício".

= "A capacidade de resposta a estímulos de alimentos diminuiu significativamente após o exercício".

Mas, na frase "O menino caiu na lama", não se poderia substituir o termo destacado por diminuir: "O menino diminuiu na lama". É uma prova de que as palavras sinônimas dependem do contexto para serem equivalentes.

Por sua vez, caso se pretendesse um antônimo (sentido contrário) para o verbo cair, na frase original, a construção resultante poderia ser:

"A capacidade de resposta a estímulos de alimentos recrudesceu (aumentou) significativamente após o exercício".

Ocorre outro fato interessante na Língua Portuguesa acerca da sinonímia: duas ou mais palavras entre si podem ou não ser sinônimas conforme a classe de palavras a que pertençam. Para o leitor entender melhor, analisemos a palavra "passageiro".

Quando usada enquanto adjetivo (qualidade atribuída a seres e a coisas), equivale semanticamente à ideia de "efêmero, transitório, inconstante".

A vida é passageira! (= Logo se poderia dizer que A vida é efêmera!).

Porém essa permuta não seria cabível no contexto em que passageiro é usada como substantivo.

No domingo à noite, peguei um ônibus em que não havia passageiro em pé.

Se não havia "passageiro", muito menos qualquer efêmero em pé!

No domingo à noite, peguei um ônibus em que não havia efêmero em pé. (errado)



O  que são língua, linguagem, texto e discurso?

A capacidade de o homem se expressar por meio da linguagem é o que o difere dos demais animais. Nesse sentido, a língua e a linguagem e, por consequência, o texto e o discurso o caracterizam como ser racional.

A linguagem designa todas as formas possíveis de comunicação humana, entre as quais estão as palavras (formas verbais), os sons, as pinturas, os gestos, as placas (formas não verbais). Quando essa capacidade é organizada de modo a identificar um povo, surge o conceito de língua.

Enquanto a língua, pois, representa um processo coletivo, a fala (ou também discurso) designa o uso individual, pessoal que os falantes dela fazem.

Por seu turno, para que o discurso se organize e se realize, advém daí o texto, que é uma unidade semântica. No que toca ao texto, duas observações hão de ser feitas: essa palavra vem do Latim textum, que significa "entrelaçamento de fios"; um todo cujas partes se entrelaçam. Por isso uma peça de vestuário é unitária, oriunda de incontáveis fios interligados. Assim o texto deve sê-lo. Ademais, ao contrário do que muitos pensam, existe tanto texto escrito quanto falado.

Esses conceitos linguísticos acentuam a relevância da linguagem e da língua como fatores que distinguem o homem em relação às demais espécies animais e identificam os povos e seus idiomas.



Custam caro ou caros? Barato ou baratos? Em 15/02/2019

Nesta postagem, para começo de conversa, é válido esclarecer que, quando se deve produzir um texto de acordo com o Manual de Redação da Presi­dên­cia da República, isso equivale igualmente a dizer "conforme a norma culta", pois as regras gramaticais constantes do Manual foram baseadas na gramática normativa. Simples­men­te isso!

Vamos, então, à dica de hoje!

As palavras caro e barato, quando estão mo­di­fi­cando verbos, são advérbios. Em sendo advérbios, não têm variação, pois essa classe de palavras é invariável:

As revis­tas custaram caro. (certo)

Os ingressos para estudantes custam barato. (certo)

As ligações para outra operadora de telefonia móvel saem caro (certo)

Materiais escolares adquiridos com antecedência são vendidos barato. (certo)

Mas cuidado: caro e barato também podem assumir função de adjetivo, o que permitirá a variação de sua forma. Isso se dará em relação a verbos que denotam qualificação, atributo.

As passagens aéreas ficam caras no fim do ano. (certo)

Repare que caras representa um qualificativo de passagens aéreas, daí a flexão do adjetivo!

Diego e sua namorada só vão ao cinema nos dias em que os ingressos estão mais baratos. (certo)

Já na frase acima, baratos está concordando com o substantivo ingressos.

Em síntese, barato e caro modificando verbos não sofrem variação; quando caracterizam substantivos ou outros nomes, com eles concordam!


Acontecer ou realizar-se? Quando usar esses verbos? - Em 26/01/2019

Esses verbos parecem ter o mesmo significado, entretanto não o têm. Essa confusão é comum na Língua Portuguesa, inclusive entre outros pares (furtar e roubar diferem apenas no fato de que o segundo pressupõe o uso da ameaça, da violência ou de xingamentos).

Utilize o verbo ACONTECER para referir-se a algo inesperado; já o verbo REALIZAR-SE é usado para designar algo programado, esperado.

Veja exemplos:

Com certa frequência, acontecem terremotos em países como o Japão (certo)

Acontecem muitos acidentes nas estradas, devido à combinação de álcool e direção. (certo)

Em 2018, acontecerão eleições presidenciais. (errado)

Em 2018, realizar-se-ão eleições presidenciais. (certo)

A reunião entre os amigos de Astrogildo acontecerá nesta semana, na casa deste. (errado)

A reunião entre os amigos de Astrogildo se realizará nesta semana, na casa deste. (certo)


Textos oficiais exigem formalidade - Em 19/12/2018

Sabemos que a linguagem varia conforme as circunstâncias do ato comunicativo. Há contextos que são despojados de formalidade, no entanto há situações que a exigem. É o caso da redação oficial. A ideia aqui é uniformizar o entendimento da mensagem afastando traços linguísticos como regionalismos, gírias, linguagem com sentido figurado.

Exemplos de textos oficiais são memorandos, ofícios, atas, entre outros.

Anote as qualidades que devem existir na redação oficial (textos expedidos entre empresas, órgãos públicos, entidades etc., a exemplo de memorandos e ofícios):

> Emprego da norma culta da linguagem (regras prescritas pelas gramáticas).

> Clareza (frases inteligíveis).

> Concisão (texto enxuto, não prolixo).

> Impessoalidade (escrever em nome da instituição, com objetividade).

> Formalidade (obediência à estrutura e aos tratamentos formais).

> Uniformidade da pessoa gramatical (utilização da mesma pessoa - 3.a - ao longo do texto).


Você sabe como expressar seu amor? - Em 30/10/2018

Há quem indague se o correto em nossa língua é dizer:

EU LHE AMO, EU TE AMO ou EU A AMO.

Nesta breve postagem esclarecerei acerca dessa dúvida.

Há pronomes oblíquos que devem acompanhar verbos transitivos diretos (os que pedem complemento sem preposição); outros, por sua vez, complementam transitivos indiretos (os que exigem complemento por meio de preposição).

AMAR é transitivo direto. Pode ser completado por O, A, OS, AS, que são pronomes oblíquos com função de objeto direto.

ME, TE, SE, NOS, VOS se combinam tanto com VTDs quanto com VTIs.

Já LHE, LHES completam transitivos indiretos, o que NÃO é o caso do verbo AMAR.

Portanto eis frases certas e erradas com o verbo AMAR:

EU LHE AMO. (errado)
EU TE AMO. (certo)
EU A AMO. (certo)
EU O AMO. (certo)


A interessante capacidade de gerar duplo sentido em Português - Em 17/09/2018

Na Língua Portuguesa, é bastante rica a possibilidade de gerar mais de um sentido às frases, seja intencional, seja acidentalmente. A propaganda explora demasiadamente esse recurso, sobretudo em seus slogans. Eis um exemplo disso, por meio de uma rede de lojas de Manaus e da região.

A Bemol tem como slogan atual "Escolha com confiança". Aqui a palavra escolha pode ser interpretada como um substantivo (a escolha) ou como verbo no modo imperativo, o que é um traço característico dos comerciais.

A AMBIGUIDADE ou ANFIBOLOGIA refere-se, pois, ao duplo sentido das frases. Veja a seguir algumas ocorrências desse vício de linguagem.

Vende-se fralda para bebê descartável.

Quem é descartável? A fralda ou o bebê?

Essa AMBIGUIDADE seria desfeita por meio da mudança de posição do adjetivo:

Vende-se fralda descartável para bebê.

Outra ambiguidade:

Comi vatapá e minha prima também.

Aqui o duplo sentido ocorre devido à presença do conectivo E e do advérbio TAMBÉM.

Caso o sujeito fosse composto, somente haveria a ideia de que as duas pessoas comeram vatapá (e não mais o segundo sentido!).

Eu e minha prima comemos vatapá.

Você iria a um cabeleireiro em cuja loja houvesse a seguinte placa?

"Corto cabelo e pinto".

Seria mais segura uma barbearia com esta placa:

"Corto e pinto cabelo".

Agora sim os verbos CORTAR e PINTAR têm como complemento o substantivo CABELO!

Agora uma ambiguidade resultante do uso de sujeito composto:

Astrogildo e Romeu são casados.

De fato, eles podem constituir uma união homoafetiva; ou cada um deles tem seu cônjuge, o que poderia ser expresso mediante duas orações com sujeitos simples:

Astrogildo é casado, e Romeu também.


Você é pródigo ou prodígio? Em 06/08/2018

Em verdade, até o fim desta pequena postagem, você notará que é melhor ser PRODÍGIO. Há três palavras parecidas (parônimas) em nossa Língua Portuguesa.

PRÓDIGO = gastador, esbanjador.

Exemplo: Apesar da crise que assola o País, Astrogildo continua pródigo.

PRODÍGIO = inteligente, talentoso para sua idade.

Exemplo: Não obstante a simplicidade de sua família, os pais de Epitácio sempre o consideraram um jovem deveras prodígio.

PRODIGIOSO = fantástico, imenso, sobrenatural.

Exemplo: A comunidade Vila da Felicidade ficou atônita com a prodigiosa aparição de luzes insólitas.




Quando uma pequena palavra muda o sentido da frase - Em 24/06/2018

A palavra SÓ altera o significado da frase conforme a posição em que aparece nela.

Acompanhe a seguir uma explicação sintética do curioso efeito que o deslocamento dessa palavra de duas letras provoca no sentido de uma mesma frase.

Só um milagre pode extirpar a corrupção no Brasil! (apenas um milagre)

Um milagre pode só extirpar a corrupção no Brasil! (apenas extirpa)

Um milagre pode extirpar só a corrupção no Brasil! (extirpa a corrupção; nada mais)

Um milagre pode extirpar a corrupção só no Brasil! (somente no Brasil; em nenhum lugar mais)


Sintagma? O que é isso? Em 04/06/2018

Você sabe o que é um SINTAGMA? Essa palavra aparece em vários concursos públicos. Em verdade, você o usa com mais frequência do que imagina!

SINTAGMA equivale a cada FUNÇÃO SINTÁTICA da oração.

Por exemplo: o SUJEITO é uma parte da oração, logo é um SINTAGMA.

Outro exemplo: o OBJETO DIRETO é uma estrutura sintática da oração, portanto é um SINTAGMA.

Numa oração, há dois grandes SINTAGMAS: o sujeito (SINTAGMA NOMINAL) e o predicado (SINTAGMA VERBAL).

Exemplo:

"A imprensa brasileira divulgou a lista de envolvidos em corrupção."

Nessa oração, "A imprensa brasileira" é um sintagma nominal; "divulgou a lista de envolvidos em corrupção" constitui um sintagma verbal.

Para concursos, é suficiente entender que SINTAGMA corresponde a cada FUNÇÃO SINTÁTICA da oração.


A concordância do verbo HAVER em nossa língua- Em 23/04/2018

O verbo HAVER, no sentido de "existir", "ocorrer", "acontecer", é invariável; fica sempre na terceira pessoa do singular.

O interessante é que esses quatro verbos são sinônimos (têm o mesmo significado), entretanto apresentam flexão distinta. Os equivalentes aqui citados do verbo HAVER possuem sujeito, com o qual concordam (no singular ou no plural).

Veja frases certas e erradas com esse importante verbo da Língua Portuguesa!

Houve vários atentados em países do leste, este ano. (certo)

Houveram vários atentados em países do leste, este ano. (errado)

Na prova, Gertrudes percebeu que havia alternativas repetidas. (certo)

Na prova, Gertrudes percebeu que haviam alternativas repetidas. (errado)

Pode haver mais demissões se a crise continuar. (certo)

Podem haver mais demissões se a crise continuar. (errado)

Precisamos ter esperança de que haja dias melhores. (certo)

Precisamos ter esperança de que hajam dias melhores. (errado)

Se substituíssemos o verbo HAVER, nas frases acima, pelos sinônimos "existir", "ocorrer", "acontecer", aplicaríamos concordância obrigatória:

Ocorreram vários atentados em países do leste, este ano. (certo)

Na prova, Gertrudes percebeu que existiam alternativas repetidas. (certo)

Podem ocorrer mais demissões se a crise continuar. (certo)

Precisamos ter esperança de que existam dias melhores. (certo)

Dica: se a regra de concordância para um verbo é uma, é aplicável em todos os tempos e modos; inclusive em locuções verbais e em tempos compostos.

As inversões na posição dos termos da frase não ocorrem por acaso! Em 05/03/2018

Nesta pequena postagem, compreenderemos por que se fazem inversões da ordem direta dos períodos.

"Se beber, não dirija" ou "Se for dirigir, não beba"?

Na prática, os dois períodos, grosso modo, exprimem a mesma informação.

Contudo existe uma tendência de que o que está no começo da frase ganhe ênfase, destaque.

No primeiro período, o cérebro captaria com maior facilidade a ação de "beber"; no segundo, assimilaria mais facilmente a informação "se for dirigir".

Por conseguinte, do ponto de vista estilístico e persuasivo, uma campanha de prevenção contra a mistura de álcool e direção é mais eficaz se utiliza um período como este: "Se for dirigir, não beba".

A informação que introduz uma frase, portanto, ganha mais relevância.


A flexão verbal: aprenda a forma primitiva e reflexione corretamente os verbos derivados!

Hoje abordaremos um tópico deveras útil para os visitantes de nosso site: a flexão verbal na Língua Portuguesa.

Seguem alguns verbos que são bastante utilizados no dia a dia com a respectiva flexão, nos tempos mais utilizados.

É válido ressaltar que verbos derivados tendem a seguir o exato modelo de flexão de seu primitivo. Por exemplo, todos os verbos que vêm de PÔR (depor, repor, compor etc.) seguem as mesmas terminações desse verbo original.

VER: quando eu vir (futuro do subjuntivo); se eu visse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

VIR: quando eu vier (futuro do subjuntivo); se eu viesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

DISPOR (e qualquer derivado do verbo pôr - repor, depor, compor, supor etc.): quando eu dispuser (futuro do subjuntivo); se eu dispusesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

MANTER (e qualquer derivado do verbo ter - deter, conter, reter, entreter etc.): quando eu mantiver (futuro do subjuntivo); se eu mantivesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

Obs.: Por isso, o correto é eu entretive, ele entreteve, quando eu entretiver, se eu entretivesse.

INTERVIR: eu intervim, tu intervieste, ele interveio, eles intervieram (pretérito perfeito do indicativo); se eu intervier (pretérito imperfeito do subjuntivo); quando eu intervier (futuro do subjuntivo).

REAVER: no presente do indicativo, apenas existe nós reavemos, vós reaveis; eu reouve, tu reouveste, ele reouve (pretérito perfeito do indicativo).

PROVER: eu provejo, tu provês, ele provê (presente do indicativo); eu provi, tu proveste, ele proveu (pretérito perfeito do indicativo).

REQUERER: eu requeiro, tu requeres (presente do indicativo); eu requeri, tu requereste, ele requereu (pretérito perfeito do indicativo); se eu requeresse (pretérito imperfeito do subjuntivo); quando eu requerer, quando tu requereres (futuro do subjuntivo).

PRECAVER-SE: no presente do indicativo, apenas existe nós nos precavemos, vós vos precaveis; eu me precavi, tu te precaveste, ele se precaveu (pretérito perfeito do indicativo).


Tudo tem um porquê! Em 16/01/2018

Hoje trataremos da grafia de uma palavra em relação à qual a maioria dos falantes da Língua Portuguesa tem dúvidas. São as quatro formas de escrever PORQUE. Esperamos que, até o fim do texto, o leitor assimile por que se grafa assim cada um destes porquês!

PORQUE sempre equivale a POIS.

Exemplo:

Estudamos, porque sempre precisamos aprender.

PORQUÊ com acento sempre está substantivado. Aceita artigo ou outro determinante.

Exemplo:

Não sei o porquê de tanto peculato sem punição no País.

POR QUE

* Preposição + pronome relativo = PELO QUAL e flexões (sempre há um substantivo anterior claro ou subentendido)

Exemplos:

A impunidade é o motivo por que o brasileiro pouco acredita na justiça.

Eis por que o País está com baixa credibilidade. (motivo por que, razão por que)

* = POR QUE MOTIVO, POR QUE RAZÃO

Exemplos:

Por que a punição só vale para os pobres?

Não sabemos por que ainda há fome num país opulento como o nosso.

* = POR QUAL

Exemplo:

A polícia descobriu por que estrada fugiram os meliantes.

POR QUÊ

* Usa-se ao lado de pontos ou vírgulas.

O País está um caos, e todos sabem por quê.

Teobalda traiu Chifronésio por quê, se ele sempre foi um bom cônjuge?

* Também leva acento se o verbo usado anteriormente está subentendido para não ser repetido.

Exemplo:

As pessoas escrevem misto com "x". Explicar por quê remonta ao Inglês. (Explicar por que escrevem assim remonta ao Inglês).



As funções da linguagem - Em 24/12/2017

Em todo ato comunicativo, existe uma pretensão, uma intenção a ser atingida. Roman Jakobson, linguista russo, elaborou estudos acerca das funções da linguagem, as quais são úteis para a produção e a análise dos textos.

O que é a FUNÇÃO DA LINGUAGEM? De modo simples, é a INTENÇÃO, o OBJETIVO que se pretende atingir no processo de comunicação.

Em um texto, pode haver mais de uma FUNÇÃO, por isso se deve falar em predomínio das FUNÇÕES DA LINGUAGEM.

Por exemplo, quando se lê uma notícia, a intenção do autor é INFORMAR o leitor, havendo, com isso, a FUNÇÃO REFERENCIAL.

Outro exemplo: as propagandas visam CONVENCER, PERSUADIR o receptor em relação ao conteúdo disposto na mensagem. É um exemplo clássico de FUNÇÃO APELATIVA.

FUNÇÃO REFERENCIAL ou DENOTATIVA ou INFORMATIVA: transmite-se a informação de modo objetivo, denotativo. A intenção é informar: textos jornalísticos, científicos, técnicos, didáticos, correspondências oficiais.

"Em 2018 empresa vai levar dois turistas para viajar em volta da Lua." (UOL - 27/2/2017 - Função Referencial)

FUNÇÃO EMOTIVA ou EXPRESSIVA: o autor, de modo verdadeiro ou não, expõe seus sentimentos, sua opinião, sua emoção. Predomina a subjetividade. Nesta função ocorre a primeira pessoa do singular.

A oração "Eu te amo" contém FUNÇÃO EMOTIVA. "Puxa!", "Meu Deus!" também são exemplos dessa função. Repare nas exclamações (do eu).

FUNÇÃO FÁTICA ou DE CONTATO: prolonga ou interrompe a comunicação, testa a eficiência do canal, estabelecendo e mantendo contato com o interlocutor.

Também ocorre quando se repete muito a mensagem, com a intenção de enfatizar seu conteúdo: "Compre Batom, compre Batom...".

Expressões de fim de frase como "Entendeu?", "Certo?", "Não é mesmo?", "Oi!", "Alô!" são exemplos de função fática.

FUNÇÃO APELATIVA ou CONATIVA ou IMPERATIVA: aqui a intenção é convencer, persuadir o receptor da mensagem. Utilizam-se muitos verbos no modo imperativo e vocativos (chamados).

Os textos publicitários e os discursos políticos exemplificam facilmente a função apelativa ou conativa: "Eleitor, vote na mudança!".

FUNÇÃO METALINGUÍSTICA: a linguagem explica a própria linguagem aqui. É o código (a língua) explicando a si mesmo.

Exemplo clássico são os dicionários. Note que neles as palavras explicam umas às outras.

Na poesia parnasiana, a arte explica a própria arte: "Assim, procedo. Minha pena / Segue esta norma, / Por te servir, Deusa serena, / Serena Forma!" (Olavo Bilac)

Note que Bilac faz um poema falando acerca da arte em si de compô-lo. (função metalinguística)

FUNÇÃO CONOTATIVA ou POÉTICA: aqui há a recriação dos sentidos das palavras; ocorre a combinação de sons, de ritmos que dão novas possibilidades à mensagem.

"No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho". (Carlos Drummond de Andrade)

No famoso trecho de Drummond, há um novo sentido dado à palavra "pedra", além das inversões e da proposital transgressão gramatical (tinha em vez de havia).


A escrita de E ou de I no fim dos verbos - Em 10/122017

Notei que inúmeras pessoas têm dificuldade de discernir quando empregar "e" ou "i" na grafia final dos verbos.

Se você tem dúvidas em relação a quando escrever, por exemplo, "surge" ou "surgi", intenciono dar cabo a esse dilema ao término desta postagem. O que você aprenderá vale para toda a Língua Portuguesa, sem exceção!

Você deve grafar "e" somente nas sílabas átonas (fracas) dos verbos paroxítonos (aqueles cuja sílaba mais forte é a penúltima).

Repare nos exemplos abaixo:

Gertrudes inGEre bebidas alcoólicas quando seu esposo a trai.

O sol SURge fortemente nas primeiras horas do dia, em Manaus.

Astrobete CURte música eletrônica em alto volume.

Cornélio proMEte fidelidade a sua futura esposa, Astrogilda.

Por sua vez, você deve grafar "i" nos verbos oxítonos (os que têm a sílaba mais forte na última posição).

Perceba o que ocorre com os verbos acima quando são oxítonos:

Eu ingeRI uma água de coco geladíssima.

Eu surGI na sua vida para amá-la, Gertrudes! (cacofonia intencional: /mala/ 😀)

CurTI a nova música de Justin Bieber.

PromeTI que irei amar-te para sempre, Teobalda!

Notou outra diferença? Você deve usar "e" na terceira pessoa do verbo (percebe?); já "i", na primeira (percebi, Edson!).

Observação - Em verbos como CONTRIBUIR (UI é um encontro vocálico), a ocorrência de "i" na sílaba tônica se mantém da seguinte forma:

A corrupção excessiva contriBUI para que o povo sempre desconfie dos políticos. (aqui houve ditongo na sílaba destacada)

Eu contribuÍ para a mudança do panorama político do País por meio do meu voto. (nesse caso, houve hiato tônico; por isso o "i" foi acentuado).

De qualquer forma, em contriBUI e em contribuÍ, a vogal "i" continua ocorrendo na sílaba tônica!

Por fim, repare em que, em verbos como contiNUe (imperativo de CONTINUAR), SUe (imperativo de SUAR), aTUe (imperativo de ATUAR) etc., você grafa "e" pelo fato de essa vogal aparecer na sílaba fraca.

Um importante fenômeno linguístico: a lei do menor esforço - Em 24/11/2017


As línguas estão em constante evolução, e há uma tendência de os falantes cada vez mais expressarem suas ideias por meio de menos palavras. A essa economia no que tange ao emprego das estruturas linguísticas chamamos de Lei do Menor Esforço. O próprio nome desse fenômeno sugere a sua essência. Para a melhor compreensão do leitor deste texto, darei dois exemplos bem didáticos dessa Lei. 

Durante o processo de colonização portuguesa, a expressão VOSSA MERCÊ, que até certo ponto cronológico era empregada somente para o rei, passou a ser utilizada para designar qualquer título de nobreza. Essa difusão também atingiu as classes vulgares (entenda "vulgar" no sentido latino de "do povo"). A partir daí, tal expressão vem sofrendo REDUÇÃO fonética e morfológica: VOSSA MERCÊ passou a VOSMECÊ, que mais adiante se tornou VOCÊ (e há quem utilize 'OCÊ, 'CÊ ou ainda VC nas conversas por meio de aplicativos como o WhatsApp).

VOSSA MERCÊ > VOSMECÊ > VOCÊ é um exemplo clássico da Lei do Menor Esforço. 

Note que na situação acima ocorreu igualmente a dessemantização (perda do sentido original do que representava VOSSA MERCÊ). 

Outro prático exemplo dessa Lei ocorre quando damos BOM DIA, BOA TARDE ou BOA NOITE a alguém, e essa pessoa responde à saudação apenas com BOM, BOA e BOA, respectivamente. Tal redução na resposta ao cumprimento demonstra economia na linguagem, mas também carrega, sob a ótica do discurso, a ideia de que o interlocutor pode estar desinteressado na conversa ou ocupado ou em outra condição que inviabilize a conversação. 

Em resumo, a Lei do Menor Esforço consiste na progressiva síntese das estruturas linguísticas dentro do processo de comunicação.