Língua a Conta-Gotas

Interessante capacidade de gerar duplo sentido em Português - Em 17/09/2018

Na Língua Portuguesa, é bastante rica a possibilidade de gerar mais de um sentido às frases, seja intencional, seja acidentalmente. A propaganda explora demasiadamente esse recurso, sobretudo em seus slogans. Eis um exemplo disso, por meio de uma rede de lojas de Manaus e da região.

A Bemol tem como slogan atual "Escolha com confiança". Aqui a palavra escolha pode ser interpretada como um substantivo (a escolha) ou como verbo no modo imperativo, o que é um traço característico dos comerciais.

A AMBIGUIDADE ou ANFIBOLOGIA refere-se, pois, ao duplo sentido das frases. Veja a seguir algumas ocorrências desse vício de linguagem.

Vende-se fralda para bebê descartável.

Quem é descartável? A fralda ou o bebê?

Essa AMBIGUIDADE seria desfeita por meio da mudança de posição do adjetivo:

Vende-se fralda descartável para bebê.

Outra ambiguidade:

Comi vatapá e minha prima também.

Aqui o duplo sentido ocorre devido à presença do conectivo E e do advérbio TAMBÉM.

Caso o sujeito fosse composto, somente haveria a ideia de que as duas pessoas comeram vatapá (e não mais o segundo sentido!).

Eu e minha prima comemos vatapá.

Você iria a um cabeleireiro em cuja loja houvesse a seguinte placa?

"Corto cabelo e pinto".

Seria mais segura uma barbearia com esta placa:

"Corto e pinto cabelo".

Agora sim os verbos CORTAR e PINTAR têm como complemento o substantivo CABELO!

Agora uma ambiguidade resultante do uso de sujeito composto:

Astrogildo e Romeu são casados.

De fato, eles podem constituir uma união homoafetiva; ou cada um deles tem seu cônjuge, o que poderia ser expresso mediante duas orações com sujeitos simples:

Astrogildo é casado, e Romeu também.


Você é pródigo ou prodígio? Em 06/08/2018

Em verdade, até o fim desta pequena postagem, você notará que é melhor ser PRODÍGIO. Há três palavras parecidas (parônimas) em nossa Língua Portuguesa.

PRÓDIGO = gastador, esbanjador.

Exemplo: Apesar da crise que assola o País, Astrogildo continua pródigo.

PRODÍGIO = inteligente, talentoso para sua idade.

Exemplo: Não obstante a simplicidade de sua família, os pais de Epitácio sempre o consideraram um jovem deveras prodígio.

PRODIGIOSO = fantástico, imenso, sobrenatural.

Exemplo: A comunidade Vila da Felicidade ficou atônita com a prodigiosa aparição de luzes insólitas.




Quando uma pequena palavra muda o sentido da frase - Em 24/06/2018

A palavra SÓ altera o significado da frase conforme a posição em que aparece nela.

Acompanhe a seguir uma explicação sintética do curioso efeito que o deslocamento dessa palavra de duas letras provoca no sentido de uma mesma frase.

Só um milagre pode extirpar a corrupção no Brasil! (apenas um milagre)

Um milagre pode só extirpar a corrupção no Brasil! (apenas extirpa)

Um milagre pode extirpar só a corrupção no Brasil! (extirpa a corrupção; nada mais)

Um milagre pode extirpar a corrupção só no Brasil! (somente no Brasil; em nenhum lugar mais)


Sintagma? O que é isso? Em 04/06/2018

Você sabe o que é um SINTAGMA? Essa palavra aparece em vários concursos públicos. Em verdade, você o usa com mais frequência do que imagina!

SINTAGMA equivale a cada FUNÇÃO SINTÁTICA da oração.

Por exemplo: o SUJEITO é uma parte da oração, logo é um SINTAGMA.

Outro exemplo: o OBJETO DIRETO é uma estrutura sintática da oração, portanto é um SINTAGMA.

Numa oração, há dois grandes SINTAGMAS: o sujeito (SINTAGMA NOMINAL) e o predicado (SINTAGMA VERBAL).

Exemplo:

"A imprensa brasileira divulgou a lista de envolvidos em corrupção."

Nessa oração, "A imprensa brasileira" é um sintagma nominal; "divulgou a lista de envolvidos em corrupção" constitui um sintagma verbal.

Para concursos, é suficiente entender que SINTAGMA corresponde a cada FUNÇÃO SINTÁTICA da oração.


A concordância do verbo HAVER em nossa língua- Em 23/04/2018

O verbo HAVER, no sentido de "existir", "ocorrer", "acontecer", é invariável; fica sempre na terceira pessoa do singular.

O interessante é que esses quatro verbos são sinônimos (têm o mesmo significado), entretanto apresentam flexão distinta. Os equivalentes aqui citados do verbo HAVER possuem sujeito, com o qual concordam (no singular ou no plural).

Veja frases certas e erradas com esse importante verbo da Língua Portuguesa!

Houve vários atentados em países do leste, este ano. (certo)

Houveram vários atentados em países do leste, este ano. (errado)

Na prova, Gertrudes percebeu que havia alternativas repetidas. (certo)

Na prova, Gertrudes percebeu que haviam alternativas repetidas. (errado)

Pode haver mais demissões se a crise continuar. (certo)

Podem haver mais demissões se a crise continuar. (errado)

Precisamos ter esperança de que haja dias melhores. (certo)

Precisamos ter esperança de que hajam dias melhores. (errado)

Se substituíssemos o verbo HAVER, nas frases acima, pelos sinônimos "existir", "ocorrer", "acontecer", aplicaríamos concordância obrigatória:

Ocorreram vários atentados em países do leste, este ano. (certo)

Na prova, Gertrudes percebeu que existiam alternativas repetidas. (certo)

Podem ocorrer mais demissões se a crise continuar. (certo)

Precisamos ter esperança de que existam dias melhores. (certo)

Dica: se a regra de concordância para um verbo é uma, é aplicável em todos os tempos e modos; inclusive em locuções verbais e em tempos compostos.

As inversões na posição dos termos da frase não ocorrem por acaso! Em 05/03/2018

Nesta pequena postagem, compreenderemos por que se fazem inversões da ordem direta dos períodos.

"Se beber, não dirija" ou "Se for dirigir, não beba"?

Na prática, os dois períodos, grosso modo, exprimem a mesma informação.

Contudo existe uma tendência de que o que está no começo da frase ganhe ênfase, destaque.

No primeiro período, o cérebro captaria com maior facilidade a ação de "beber"; no segundo, assimilaria mais facilmente a informação "se for dirigir".

Por conseguinte, do ponto de vista estilístico e persuasivo, uma campanha de prevenção contra a mistura de álcool e direção é mais eficaz se utiliza um período como este: "Se for dirigir, não beba".

A informação que introduz uma frase, portanto, ganha mais relevância.


A flexão verbal: aprenda a forma primitiva e reflexione corretamente os verbos derivados!

Hoje abordaremos um tópico deveras útil para os visitantes de nosso site: a flexão verbal na Língua Portuguesa.

Seguem alguns verbos que são bastante utilizados no dia a dia com a respectiva flexão, nos tempos mais utilizados.

É válido ressaltar que verbos derivados tendem a seguir o exato modelo de flexão de seu primitivo. Por exemplo, todos os verbos que vêm de PÔR (depor, repor, compor etc.) seguem as mesmas terminações desse verbo original.

VER: quando eu vir (futuro do subjuntivo); se eu visse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

VIR: quando eu vier (futuro do subjuntivo); se eu viesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

DISPOR (e qualquer derivado do verbo pôr - repor, depor, compor, supor etc.): quando eu dispuser (futuro do subjuntivo); se eu dispusesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

MANTER (e qualquer derivado do verbo ter - deter, conter, reter, entreter etc.): quando eu mantiver (futuro do subjuntivo); se eu mantivesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

Obs.: Por isso, o correto é eu entretive, ele entreteve, quando eu entretiver, se eu entretivesse.

INTERVIR: eu intervim, tu intervieste, ele interveio, eles intervieram (pretérito perfeito do indicativo); se eu intervier (pretérito imperfeito do subjuntivo); quando eu intervier (futuro do subjuntivo).

REAVER: no presente do indicativo, apenas existe nós reavemos, vós reaveis; eu reouve, tu reouveste, ele reouve (pretérito perfeito do indicativo).

PROVER: eu provejo, tu provês, ele provê (presente do indicativo); eu provi, tu proveste, ele proveu (pretérito perfeito do indicativo).

REQUERER: eu requeiro, tu requeres (presente do indicativo); eu requeri, tu requereste, ele requereu (pretérito perfeito do indicativo); se eu requeresse (pretérito imperfeito do subjuntivo); quando eu requerer, quando tu requereres (futuro do subjuntivo).

PRECAVER-SE: no presente do indicativo, apenas existe nós nos precavemos, vós vos precaveis; eu me precavi, tu te precaveste, ele se precaveu (pretérito perfeito do indicativo).


Tudo tem um porquê! Em 16/01/2018

Hoje trataremos da grafia de uma palavra em relação à qual a maioria dos falantes da Língua Portuguesa tem dúvidas. São as quatro formas de escrever PORQUE. Esperamos que, até o fim do texto, o leitor assimile por que se grafa assim cada um destes porquês!

PORQUE sempre equivale a POIS.

Exemplo:

Estudamos, porque sempre precisamos aprender.

PORQUÊ com acento sempre está substantivado. Aceita artigo ou outro determinante.

Exemplo:

Não sei o porquê de tanto peculato sem punição no País.

POR QUE

* Preposição + pronome relativo = PELO QUAL e flexões (sempre há um substantivo anterior claro ou subentendido)

Exemplos:

A impunidade é o motivo por que o brasileiro pouco acredita na justiça.

Eis por que o País está com baixa credibilidade. (motivo por que, razão por que)

* = POR QUE MOTIVO, POR QUE RAZÃO

Exemplos:

Por que a punição só vale para os pobres?

Não sabemos por que ainda há fome num país opulento como o nosso.

* = POR QUAL

Exemplo:

A polícia descobriu por que estrada fugiram os meliantes.

POR QUÊ

* Usa-se ao lado de pontos ou vírgulas.

O País está um caos, e todos sabem por quê.

Teobalda traiu Chifronésio por quê, se ele sempre foi um bom cônjuge?

* Também leva acento se o verbo usado anteriormente está subentendido para não ser repetido.

Exemplo:

As pessoas escrevem misto com "x". Explicar por quê remonta ao Inglês. (Explicar por que escrevem assim remonta ao Inglês).



As funções da linguagem - Em 24/12/2017

Em todo ato comunicativo, existe uma pretensão, uma intenção a ser atingida. Roman Jakobson, linguista russo, elaborou estudos acerca das funções da linguagem, as quais são úteis para a produção e a análise dos textos.

O que é a FUNÇÃO DA LINGUAGEM? De modo simples, é a INTENÇÃO, o OBJETIVO que se pretende atingir no processo de comunicação.

Em um texto, pode haver mais de uma FUNÇÃO, por isso se deve falar em predomínio das FUNÇÕES DA LINGUAGEM.

Por exemplo, quando se lê uma notícia, a intenção do autor é INFORMAR o leitor, havendo, com isso, a FUNÇÃO REFERENCIAL.

Outro exemplo: as propagandas visam CONVENCER, PERSUADIR o receptor em relação ao conteúdo disposto na mensagem. É um exemplo clássico de FUNÇÃO APELATIVA.

FUNÇÃO REFERENCIAL ou DENOTATIVA ou INFORMATIVA: transmite-se a informação de modo objetivo, denotativo. A intenção é informar: textos jornalísticos, científicos, técnicos, didáticos, correspondências oficiais.

"Em 2018 empresa vai levar dois turistas para viajar em volta da Lua." (UOL - 27/2/2017 - Função Referencial)

FUNÇÃO EMOTIVA ou EXPRESSIVA: o autor, de modo verdadeiro ou não, expõe seus sentimentos, sua opinião, sua emoção. Predomina a subjetividade. Nesta função ocorre a primeira pessoa do singular.

A oração "Eu te amo" contém FUNÇÃO EMOTIVA. "Puxa!", "Meu Deus!" também são exemplos dessa função. Repare nas exclamações (do eu).

FUNÇÃO FÁTICA ou DE CONTATO: prolonga ou interrompe a comunicação, testa a eficiência do canal, estabelecendo e mantendo contato com o interlocutor.

Também ocorre quando se repete muito a mensagem, com a intenção de enfatizar seu conteúdo: "Compre Batom, compre Batom...".

Expressões de fim de frase como "Entendeu?", "Certo?", "Não é mesmo?", "Oi!", "Alô!" são exemplos de função fática.

FUNÇÃO APELATIVA ou CONATIVA ou IMPERATIVA: aqui a intenção é convencer, persuadir o receptor da mensagem. Utilizam-se muitos verbos no modo imperativo e vocativos (chamados).

Os textos publicitários e os discursos políticos exemplificam facilmente a função apelativa ou conativa: "Eleitor, vote na mudança!".

FUNÇÃO METALINGUÍSTICA: a linguagem explica a própria linguagem aqui. É o código (a língua) explicando a si mesmo.

Exemplo clássico são os dicionários. Note que neles as palavras explicam umas às outras.

Na poesia parnasiana, a arte explica a própria arte: "Assim, procedo. Minha pena / Segue esta norma, / Por te servir, Deusa serena, / Serena Forma!" (Olavo Bilac)

Note que Bilac faz um poema falando acerca da arte em si de compô-lo. (função metalinguística)

FUNÇÃO CONOTATIVA ou POÉTICA: aqui há a recriação dos sentidos das palavras; ocorre a combinação de sons, de ritmos que dão novas possibilidades à mensagem.

"No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho". (Carlos Drummond de Andrade)

No famoso trecho de Drummond, há um novo sentido dado à palavra "pedra", além das inversões e da proposital transgressão gramatical (tinha em vez de havia).


A escrita de E ou de I no fim dos verbos - Em 10/122017

Notei que inúmeras pessoas têm dificuldade de discernir quando empregar "e" ou "i" na grafia final dos verbos.

Se você tem dúvidas em relação a quando escrever, por exemplo, "surge" ou "surgi", intenciono dar cabo a esse dilema ao término desta postagem. O que você aprenderá vale para toda a Língua Portuguesa, sem exceção!

Você deve grafar "e" somente nas sílabas átonas (fracas) dos verbos paroxítonos (aqueles cuja sílaba mais forte é a penúltima).

Repare nos exemplos abaixo:

Gertrudes inGEre bebidas alcoólicas quando seu esposo a trai.

O sol SURge fortemente nas primeiras horas do dia, em Manaus.

Astrobete CURte música eletrônica em alto volume.

Cornélio proMEte fidelidade a sua futura esposa, Astrogilda.

Por sua vez, você deve grafar "i" nos verbos oxítonos (os que têm a sílaba mais forte na última posição).

Perceba o que ocorre com os verbos acima quando são oxítonos:

Eu ingeRI uma água de coco geladíssima.

Eu surGI na sua vida para amá-la, Gertrudes! (cacofonia intencional: /mala/ 😀)

CurTI a nova música de Justin Bieber.

PromeTI que irei amar-te para sempre, Teobalda!

Notou outra diferença? Você deve usar "e" na terceira pessoa do verbo (percebe?); já "i", na primeira (percebi, Edson!).

Observação - Em verbos como CONTRIBUIR (UI é um encontro vocálico), a ocorrência de "i" na sílaba tônica se mantém da seguinte forma:

A corrupção excessiva contriBUI para que o povo sempre desconfie dos políticos. (aqui houve ditongo na sílaba destacada)

Eu contribuÍ para a mudança do panorama político do País por meio do meu voto. (nesse caso, houve hiato tônico; por isso o "i" foi acentuado).

De qualquer forma, em contriBUI e em contribuÍ, a vogal "i" continua ocorrendo na sílaba tônica!

Por fim, repare em que, em verbos como contiNUe (imperativo de CONTINUAR), SUe (imperativo de SUAR), aTUe (imperativo de ATUAR) etc., você grafa "e" pelo fato de essa vogal aparecer na sílaba fraca.

Um importante fenômeno linguístico: a lei do menor esforço - Em 24/11/2017


As línguas estão em constante evolução, e há uma tendência de os falantes cada vez mais expressarem suas ideias por meio de menos palavras. A essa economia no que tange ao emprego das estruturas linguísticas chamamos de Lei do Menor Esforço. O próprio nome desse fenômeno sugere a sua essência. Para a melhor compreensão do leitor deste texto, darei dois exemplos bem didáticos dessa Lei. 

Durante o processo de colonização portuguesa, a expressão VOSSA MERCÊ, que até certo ponto cronológico era empregada somente para o rei, passou a ser utilizada para designar qualquer título de nobreza. Essa difusão também atingiu as classes vulgares (entenda "vulgar" no sentido latino de "do povo"). A partir daí, tal expressão vem sofrendo REDUÇÃO fonética e morfológica: VOSSA MERCÊ passou a VOSMECÊ, que mais adiante se tornou VOCÊ (e há quem utilize 'OCÊ, 'CÊ ou ainda VC nas conversas por meio de aplicativos como o WhatsApp).

VOSSA MERCÊ > VOSMECÊ > VOCÊ é um exemplo clássico da Lei do Menor Esforço. 

Note que na situação acima ocorreu igualmente a dessemantização (perda do sentido original do que representava VOSSA MERCÊ). 

Outro prático exemplo dessa Lei ocorre quando damos BOM DIA, BOA TARDE ou BOA NOITE a alguém, e essa pessoa responde à saudação apenas com BOM, BOA e BOA, respectivamente. Tal redução na resposta ao cumprimento demonstra economia na linguagem, mas também carrega, sob a ótica do discurso, a ideia de que o interlocutor pode estar desinteressado na conversa ou ocupado ou em outra condição que inviabilize a conversação. 

Em resumo, a Lei do Menor Esforço consiste na progressiva síntese das estruturas linguísticas dentro do processo de comunicação.