Língua a Conta-Gotas

Alomorfes do prefixo IN e assimilação - em 06/09/20

Nesta postagem, tratarei do prefixo IN e de termos linguísticos que justificam sua variação gráfica.

Em português, prefixo IN pode denotar ideia de negação, privação (inútil, inapto, infeliz) ou de movimento para dentro (introduzir, injetar, infiltrar).

Toda palavra em uma língua é formada por morfemas, que são suas unidades menores, com sentidos específicos.

Por exemplo, em infeliz, há dois morfemas: in, que é o prefixo, e feliz, que é o radical, a parte elementar de qualquer palavra.

Linguisticamente todo radical é chamado de lexema ou semantema, porque carrega a ideia-base da palavra; todos os demais morfemas são chamados de gramemas. Traduzindo o exemplo para uma nomenclatura linguística, infeliz possui um gramema (in) e um lexema (feliz).

IN nem sempre é assim grafado: pode assumir forma de I antes de L (ilegal, iletrado, ilimitado); de IR antes de R (irregular, irreal, irresistível); e de IM antes B ou P (impróprio, imberbe, imbatível).

Sobre essas variações do prefixo IN para I, IR e IM, cabem duas anotações:

a) Quando um morfema sofre variação, a cada forma variante chamamos de alomorfe. Com isso, o prefixo IN possui três alomorfes: I, IR e IM.

b) O fato de o prefixo IN sofrer variação se deve aos outros fonemas (sons) que estão próximos. Por exemplo, na palavra irregular, como o radical começa com R (regular), não soaria bem a forma inregular, porque essa letra inicial repele a nasalização, daí o prefixo IN apresentar alomorfia para IR. A essa influência dos sons próximos chamamos de assimilação. Isto é, o prefixo IN assimilou o som de R de regular e tornou-se IR: irregular. Da mesma forma, na palavra imberbe (sem barba), houve assimilação do B pelo prefixo IN. Já em ilegal, o prefixo assimilou o som de L gerando o alomorfe I.

Portanto o prefixo IN pode variar para I, IR e IM conforme a letra com a qual o radical da palavra começa. Ou, linguisticamente falando, o gramema IN pode sofrer alomorfia para I, IR e IM de acordo com a assimilação da letra inicial do lexema.


Você anda A PÉ, DE PÉ ou EM PÉ?

Isso depende do contexto e do sentido que você deseja expressar na frase!

A palavra em nossa língua possui vários significados; da mesma forma, as expressões com essa palavrinha são variadas.

Aqui vamos ater-nos à diferença entre a pé, de pé e em pé.

A PÉ - usa-se no sentido de "por meio dos pés", quando não se vai "a cavalo", "de carro" ou de qualquer meio.

Exemplos:

Dada a proximidade, Nicole sempre vai a pé de sua casa até a escola.

Fomos a pé até a igreja.

DE PÉ ou EM PÉ - podem ser usadas indistintamente quando se quer dizer que alguém está "na posição vertical"; "não está deitado", "não está sentado", "não está de cócoras". Ou seja, ambas as formas estão corretas!

Exemplos:

Já estou em pé/de pé desde seis da manhã.

Os funcionários da concessionária deixaram o poste em pé/de pé depois do impacto com o carro.

No que se refere à expressão de pé, o Dicionário Houaiss traz ainda outros sentidos:

"de acordo com o combinado": Nosso acordo ainda está de pé.

"firme", "irredutível": Mantém-se de pé o convite para sua visita.

Grosso modo, essas são as diferenças entre as três expressões; todas com ideia de modo.

Provavelmente você está sentado lendo este texto, logo não está de pé nem em pé!


Falamos ou falámos? Uma novidade da Reforma Ortográfica em vigor- em 02/07/20


A Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, cujo uso se tornou obrigatório a partir de 1.o de janeiro de 2016, reduziu a quantidade de acentos para diferenciar palavras com mesma escrita (homógrafas).

É importantíssimo deixar claro que, independentemente de sotaques dos diferentes países e regiões que falam Português, a pretensão do Acordo é unificar, padronizar a escrita, logo a pronúncia das palavras não sofreu qualquer alteração pós-Reforma.

Com o Acordo vigente, pares como por (preposição) e pôr (verbo) ainda se diferenciam por meio de um acento: Lutamos por dias melhores / Pôr fogo em terreno baldio é crime.

Mas uma novidade pouco utilizada no Brasil, no que se refere aos acentos diferenciais, é o acento facultativo de verbos da primeira conjugação (terminados em -ar) cuja grafia é idêntica entre o presente e o pretérito perfeito do modo indicativo, na primeira pessoa do plural.

Falamos ontem sobre os benefícios das atividades físicas para o corpo e a mente.

Falamos agora diretamente de Manaus!

Na primeira oração, pelo contexto, o verbo está no pretérito perfeito (passado); na segunda, no presente do modo indicativo. Mas repare que ambos os tempos têm a mesma grafia.

Como forma de distinguir a primeira pessoa do plural de verbos homógrafos nesses dois tempos, o Acordo Ortográfico permite que, no pretérito perfeito, seja colocado um acento agudo (´), mas de modo facultativo!

Falámos ontem sobre os benefícios das atividades físicas para o corpo e a mente.

Em Portugal, do ponto de vista da pronúncia, os lusitanos já faziam a distinção entre o pretérito perfeito (cantámos - com som mais aberto) e o presente do modo indicativo (cantãmos - com som mais nasalizado) e marcavam essa diferenciação com acento agudo. Tal distinção sonora, no Brasil, não é utilizada.

Agora, em ambos os países, do ponto de vista gráfico, esse acento diferencial pode ser usado.

E ressalto mais uma vez:

a) o acento é facultativo;

b) só é usado na primeira pessoa do plural (nós) do pretérito perfeito para diferenciá-lo do presente do modo indicativo;

c) só é empregado nos verbos da primeira conjugação (-ar);

c) e não altera a pronúncia.

Amamos (ou amámos) no passado pessoas ou coisas que não necessariamente ainda amamos no presente. Ou seja, do passado, podemos deixar de lado até o acento!


Algumas figuras de linguagem presentes no Hino Nacional - em 06/06/20

Conforme mencionei na postagem anterior, o Hino Nacional Brasileiro, composto por Joaquim Osório Duque Estrada, é repleto de figuras de linguagem. Aqui vou mostrar três delas que se destacam na letra.

No Hino, uma das mais marcantes figuras de linguagem é o hipérbato, que consiste na inversão complexa da sequência das orações e das frases.

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante, / E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, / Brilhou no céu da pátria nesse instante.

Pondo esses quatro versos na ordem direta, obtemos a seguinte construção:

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico. E o sol da liberdade brilhou no céu da pátria, nesse instante, em raios fúlgidos.

Há hipérbato em várias estrofes, entre as quais esta outra:

Mas, se ergues da justiça a clava forte. / Verás que um filho teu não foge à luta / Nem teme, quem te adora, a própria morte.

A estrofe acima também está bastante invertida, e a ordem direta dos versos seria assim:

Mas verás que um filho teu não foge à luta / Nem quem te adora teme a própria morte / se ergues a clava forte da justiça.

De volta à primeira estrofe, um detalhe curioso sobre As margens plácidas do Ipiranga: não há crase! Caso se escrevesse Às margens plácidas do Ipiranga, teríamos um local (nas margens), portanto um adjunto adverbial de lugar; e o sujeito seria indeterminado (ouviram).

Porém a ideia é a de que as margens ouviram como se fossem seres vivos que tivessem audição, o que dá origem a outra figura de linguagem importante no Hino, a prosopopeia ou personificação, com a qual se dá vida, ações, sentimentos a seres inanimados ou irracionais.

Nos versos E diga o verde-louro dessa flâmula / - "Paz no futuro e glória no passado", a flâmula, que é o mesmo que "bandeira", ou seja, um objeto inanimado, está falando algo sobre o futuro e o passado, o que igualmente configura a prosopopeia.

A propósito, aproveito o ensejo para diferenciar a prosopopeia e da metáfora.

Na prosopopeia, as palavras continuam sendo usadas em seu sentido real. Por exemplo, nos versos citados do Hino, ouviram e diga significam em sentido denotativo ouvir e dizer, respectivamente; apenas essas ações foram atribuídas a seres inanimados ou irracionais (margens e flâmula), que também permanecem com seus sentidos originais.

Por seu turno, na metáfora - a terceira figura que exemplificarei do Hino -, as palavras ganham novos sentidos, novos significados, ao que chamamos de sentido conotativo.

No verso Fulguras, ó Brasil, florão da América, o nosso País é chamado, por meio do termo florão, de um "enfeite de flores em forma de disco", sentido metafórico, que nesse caso está associado à ideia da beleza natural do Brasil que o faz destacar-se entre os vizinhos sul-americanos.

A metáfora aqui é resultante de uma comparação abreviada: Fulguras, ó Brasil, [como um] florão da América. Aqui haveria uma comparação!

Todavia aproximar diretamente Brasil à ideia de florão produz a metáfora!

Há metáfora também no verso E o teu futuro espelha essa grandeza, pois aqui o verbo espelhar está empregado no sentido de "manifestar, expressar, evidenciar".

Esse, portanto, é o nosso Hino Nacional! Cheio de palavras sofisticadas e repleto do uso de figuras de linguagem!


Traduzindo o Hino Nacional... Parte II - em 16/05/20

Nesta postagem, continuarei a tradução dos significados de palavras sofisticadas que aparecem no Hino Nacional do Brasil.

Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido
Ao som do mar e à luz do céu profundo
Fulguras, ó Brasil, florão da América
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra, mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."

Ó Pátria amada
Idolatrada
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado
E diga o verde-louro dessa flâmula
- "Paz no futuro e glória no passado".

Mas, se ergues da justiça a clava forte
Verás que um filho teu não foge à luta
Nem teme, quem te adora, a própria morte

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada
Brasil!


Traduzindo a segunda parte:

Deitado eternamente em berço maravilhoso
Ao som do mar e à luz do céu profundo
Brilhas muito, ó Brasil, enfeite de flores da América
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Nessa estrofe, fulguras é verbo e tem também o sentido figurado de "destacar-se entre os demais", ideia cabível à de que a beleza do Brasil faz que o País se sobressaia em relação aos vizinhos sul-americanos.

florão, do italiano fiore, na verdade é o aumentativo de flor; nesse caso, designa um "enfeite em forma de disco" e pode assumir sentido metafórico de "preciosidade; bem ou qualidade de grande valor".

A estrofe fica na ordem direta assim: Ó Brasil, enfeite de flores da América, [tu] brilhas muito ao som do mar e à luz do céu profundo[,] deitado eternamente em berço maravilhoso [e] iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra, mais enfeitada
Teus alegres, lindos campos têm mais flores
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."

Garrido também tem sentido de alegre, elegante, animado. No contexto sugere a diversidade de cores, o colorido que a nossa natureza possui.

Pela segunda vez, aparece risonho no Hino. Essa palavra originalmente quer dizer "que ri, sorridente; agradável; alegre, contente". Mostrei, na primeira parte, que pode também assumir o significado de "próspero, promissor" noutro contexto.

Repare que as duas palavras - garrido / risonho - convergem para a mesma ideia de o Brasil ser um lugar de alegria proveniente da sua beleza.

Os dois primeiros versos da estrofe acima, se colocados na sequência direta, ficam desta maneira: Teus alegres, lindos campos têm mais flores do que a terra mais enfeitada.

Já os dois últimos versões da estrofe são citações do poema "Canção do exílio", de Gonçalves Dias, escrito quando esse poeta estava exilado em Portugal e expressava saudades de sua terra natal, o Brasil. Por serem citações, os trechos aparecem entre aspas:

"Nossos bosques têm mais vida" / "Nossa vida" no teu seio [tem] "mais amores". Aqui o autor inseriu na letra no teu seio, que tem sentido figurado e dá ideia de no Brasil; já eu inseri o verbo tem para clarear mais o sentido do contexto:

"Nossos bosques têm mais vida" / "Nossa vida" [tem] "mais amores" no teu seio, isto é "a natureza do Brasil é mais bela, e quem mora neste País ama mais".

Ó Pátria amada
Idolatrada
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O estandarte que exibes estrelado
E diga o verde-louro dessa bandeira
- "Paz no futuro e motivo de orgulho no passado".

Nessa estrofe, tanto lábaro quanto flâmula são sinônimos de bandeira, pendão, estandarte. Assim como na letra original, fiz a variação das palavras para evitar repetição; já ostentar significa "estampar; exibir; vangloriar"; os funkeiros sabem muito bem o que é isso!

Pondo na ordem natural, os versos ficam assim: Brasil, [que] o estandarte que exibes estrelado seja símbolo de amor eterno e [que] o verde-louro dessa bandeira diga - "Paz no futuro e motivo de orgulho no passado", isto é, "que a bandeira do Brasil represente amor infinito, paz no futuro e motivo de orgulho pelo passado".

Mas, se ergues da justiça a clava forte
Verás que um filho teu não foge à luta
Nem teme, quem te adora, a própria morte

Aqui, traduzi clava apenas como arma, mas, para ser mais exato, a palavra usada no Hino significa "arma que consiste num pedaço de pau grosso, mais volumoso numa das extremidades, que se usava para ataque e defesa".

A estrofe fica assim, na ordem direta:

Mas verás que um filho teu não foge à luta / Nem quem te adora teme a própria morte / se ergues a arma forte da justiça (ou seja, "os brasileiros, destemidos, adoram sua pátria e, em caso de conflito, seriam capazes de dar a vida pelo País, segundo a letra!)

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe grandiosa
Pátria amada
Brasil!

Depois Brasil, ó Pátria amada! Tu és terra adorada entre outras mil. E finalmente Brasil, Pátria amada; és mãe grandiosa dos filhos deste solo, conforme já mostrei na postagem anterior.

Veja que nem falei nas duas postagens sobre figuras de linguagem muito presentes na letra, como metáforas, prosopopeias e hipérbatos, a fim de simplificar ao máximo o entendimento do Hino, porém, de fato, ele é complexo, muito bem elaborado. Espero que todos que o cantem tenham, daqui para frente, uma melhor compreensão do conteúdo de seus versos!




Traduzindo o Hino Nacional... Parte I - em 01/05/2020

Elaborado por Francisco Manuel da Silva em 1831, com letra de Joaquim Osório Duque Estrada, o Hino Nacional Brasileiro, que antes também foi chamado de "Hino 7 de Abril" e depois de "Marcha Triunfal", é, ao lado da bandeira, do brasão e do selo, um dos quatro símbolos da República Federativa do Brasil. Retrata o episódio da Independência do Brasil, que ocorreu em 7 de setembro de 1822, daí a referência às margens do Ipiranga, rio diante do qual Dom Pedro I, teoricamente, ergueu sua espada e deu o Grito da Independência, como ficou conhecido tal episódio.

Feita essa breve retomada histórica, aqui me proponho a traduzir - assim digo, dentro do próprio Português - o sentido de algumas palavras sofisticadas que aparecem no Hino e fazem a maioria dos brasileiros cantá-lo sem sequer entendê-lo.

Além da troca das palavras de mais difícil compreensão por suas sinônimas, sugiro que você imagine as cenas retratadas por meio do texto, o que facilitará o entendimento da letra.

Vamos à primeira parte:

Hino Nacional do Brasil
Letra de Joaquim Osório Duque Estrada
Música de Francisco Manuel da Silva

Parte I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos
Brilhou no céu da pátria nesse instante

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte
Em teu seio, ó liberdade
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada
Idolatrada
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce
Se em teu formoso céu, risonho e límpido
A imagem do Cruzeiro resplandece

Gigante pela própria natureza
És belo, és forte, impávido colosso
E o teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada
Brasil!

Traduzindo:

Ouviram do Ipiranga as margens tranquilas
De um povo heroico o grito que ressoa
E o sol da liberdade, em raios cintilantes
Brilhou no céu da pátria nesse instante

Na estrofe acima há uma inversão da sequência natural dos dois primeiros versos: as margens tranquilas do Ipiranga ouviram o grito que ressoa de um povo heroico.

Além disso, o uso de fúlgidos na letra original evitou a repetição do verbo brilhou.

Assim temos o seguinte: e o sol da liberdade brilhou no céu da pátria, nesse instante, em raios cintilantes.

Se a garantia dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte
Em teu interior, ó liberdade
Desafia o nosso peito a própria morte!

Mais inversões: se conseguimos conquistar a garantia dessa igualdade com braço forte / ó liberdade, o nosso peito desafia a própria morte em teu interior (ou seja, desafiamos a própria morte pela liberdade).

Ó Pátria amada
Amada
Salve! Salve!

Idolatrada entrou na letra original para evitar repetição vocabular na estrofe e intensificar a ideia de amar (excessivamente).

Brasil, um sonho intenso, um raio reluzente
De amor e de esperança à terra desce
Se em teu belo céu, maravilhoso e claro
A imagem do Cruzeiro brilha intensamente

Na estrofe anterior, as sequências diretas seriam: Brasil, um sonho intenso, um raio reluzente de amor e de esperança desce à terra / Se a imagem do Cruzeiro [do Sul] brilha intensamente em teu belo céu, maravilhoso e claro.

Eis uma ressalva: aqui risonho, até pelo contexto, pode ser entendido como esperançoso, promissor; alegre.

Gigante pela própria natureza
És belo, és forte, corajoso gigante
E o teu futuro mostra essa grandeza

Já na penúltima estrofe da primeira parte, temos Gigante pela própria natureza / És belo, és forte, corajoso gigante / E o teu futuro mostra essa grandeza.

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe grandiosa
Pátria amada
Brasil!

Depois Brasil, ó Pátria amada! Tu és terra adorada entre outras mil. E finalmente Brasil, Pátria amada; és mãe grandiosa dos filhos deste solo. Aqui gentil também pode ser entendido como amável; encantadora.



Verbos e substantivos homógrafos: como diferenciá-los? - Em 10/04/20

Palavras homógrafas são aquelas que têm a mesma escrita, porém possuem sentidos diferentes. Em Português, há milhares delas, pertencentes a distintas classes gramaticais. Mas aqui vou ater-me ao par verbo/substantivo e como diferenciar um do outro no contexto.

Repare nos exemplos seguintes:

a. A professora flagrou a cola sob a carteira de Bruno.

b. Nicolau cola lembretes na parede de seu quarto.

Note que nos dois exemplos a palavra cola, embora tenha sentidos distintos, apresenta exatamente a mesma escrita: são homógrafas! Na frase a, cola é um substantivo; na b, um verbo.

Já que as duas palavras são escritas igualmente, o que ajuda a diferenciá-las é seu termo antecedente: a cola está acompanhada de um artigo definido (o, a, os, as). Mesmo que ele não estivesse ali, seria possível colocá-lo; já em Nicolau cola, há uma ação verbal. No lugar de Nicolau, caberia um pronome reto (eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas): ele cola.

Resumindo: substantivo permite antes dele um artigo; verbo aceita pronome reto.

Outros exemplos:

"Eu canto, porque o instante existe" (Cecília Meireles)

Canto está acompanhado do pronome eu, logo é verbo.

"O canto da sereia seduziu você" (Arlindo Júnior)

Canto é antecedido pelo artigo o, portanto é substantivo.

É pertinente salientar que tanto o pronome quanto o artigo, conforme o linguista Mattoso Câmara Jr., são formas dependentes de outra palavra. Com isso, as frases acima não precisariam dos termos que antecedem canto.

"[...] canto, porque o instante existe"

"[...] canto da sereia seduziu você"

Todavia a inserção das formas eu e o explicita, além do sentido e da função sintática, a classe gramatical das homógrafas canto em cada um dos enunciados!


Os nomes de enfermidades são escritos com iniciais maiúsculas ou minúsculas? - Em 04/03/2020

O emprego de letras maiúsculas ou minúsculas no início de palavras segue, de modo geral, este raciocínio: quando se trata de um nome com sentido único, particular, individual de uma pessoa, objeto, lugar ou qualquer substantivo, usa-se letra maiúscula, por isso Edson, Internet, Manaus são grafadas assim; por seu turno, para substantivos com sentido geral, abrangente, o uso de minúsculas deve ser o correto, daí o fato de professor, rede, cidade terem essa escrita.

Sob esse prisma, ressalvadas as exceções da regra que expliquei acima, não haveria justificativa para grafar os nomes de doenças com letras iniciais maiúsculas: Gripe, Diabetes, Carcinoma, Tuberculose. Afinal, quando se diz diabetes - assim como diabetes tipo 1, diabetes tipo 2 e diabetes gestacional -, faz-se referência à mesma doença cujos sintomas permitem assim classificá-la. Da mesma forma, ocorre com a gripe, independentemente de ser do tipo suína ou aviária, por exemplo.

Já pensou se cada ser humano tivesse um tipo de Gripe?!

Em síntese, quero esclarecer que os nomes de enfermidades devem ser escritos com letras minúsculas. Se dentro do nome composto houver um substantivo com sentido individualizado (o descobridor da doença, por exemplo), aí sim este se mantém com a grafia original: mal de Alzheimer e doença de Chagas mantêm as maiúsculas dos nomes de seus descobridores.

Pense bem: uma doença já não é algo bom. Se ela for maiúscula, aí que a coisa não fica boa!


Há um hífen no meio desse animal! Em 02/02/2020

O sinal que aparece no meio da palavra boto-cor-de-rosa se chama hífen; nesse caso, os hífenes (ou hifens), já que há mais de um.

A vigente Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, que entrou em vigor em 1.o de janeiro de 2009, tornou-se obrigatória no Brasil a partir de 2016. A despeito das mudanças trazidas pelo Acordo, o uso do hífen nos nomes de todas as espécies da flora (plantas) e da fauna (animais) se manteve. Isso quer dizer que, se o nome for composto por duas ou mais palavras, com ou sem preposição, o emprego desse sinal era e continua sendo compulsório (ter de ser usado).

Com isso, veja como são escritos, por exemplo, os nomes destas plantas: alho-doce, amor-perfeito, araçá-boi, capim-limão, capuz-de-feira, cipó-de-são-joão, comigo-ninguém-pode, erva-cidreira, unha-de-gato, uxi-amarelo.

Por sua vez, observe a escrita dos nomes destes animais: boto-tucuxi, dragão-de-komodo, peixe-boi, mico-leão-dourado, onça-pintada, pica-pau-do-campo, tigre-de-bengala, urso-polar, urso-branco.

Algo curioso: na espécie botânica castanha-do-pará e na zoológica louva-a-deus, além do emprego obrigatório dos hifens, note que Pará e Deus são escritas com iniciais minúsculas pelo fato de comporem os substantivos comuns e por não estarem em seu sentido original.

Lembre-se, portanto: quer grafar o nome composto de uma planta, sempre use hífen; se for o nome de um bicho, ponha também o hífen no meio desse animal!


Você está acessando um site ou um sítio? Em 29/01/2020

O uso de estrangeirismos - palavras ou expressões oriundas de outras línguas - é bastante comum em Português. O interessante é que muitos deles acabam sendo aportuguesados, ou seja, têm a grafia e a pronúncia adaptados para o nosso idioma.

É claro que deparamos com palavras ou expressões que não têm um termo correspondente em Português ou não admitem esse ajuste gráfico-fonético. É o caso de termos tecnológicos como download, upload, software, hardware.

Entre os estrangeirismos adaptados para a Língua Portuguesa, está o usual "tchau", interjeição empregada em situações corriqueiras de despedida. Essa palavra vem do italiano ciao, que nesse idioma curiosamente pode ser empregada tanto na chegada quanto na saída de alguém, equivalendo a um "oi" ou um "até mais".

Brasileiro gosta mesmo de estrangeirismo: em vez de utilizar "banheiro", recorre à forma francesa toilette, ou "toalete" de um jeito bem aportuguesado e já registrado até na página da Academia Brasileira de Letras. Da mesma forma, termos ingleses, como os da área da informática layout e site, cujas adaptações são "leiaute" e "sítio" respectivamente, se ajustaram às normas gráficas de nossa língua.

A propósito, site ou "sítio" designam igualmente uma página ou conjunto de páginas da Internet. Aqui é pertinente ressaltar que os portugueses preferem usar a segunda forma, enquanto nós, brasileiros, a primeira. Ademais, um falante nativo do Inglês não utilizaria apenas site, mas sim website, porque aquele termo - isolado - significa "local, lugar".

E quando o brasileiro não adapta a grafia, mas sim ajusta uma palavra estrangeira a um sentido compreensível apenas em sua própria cultura?

Temos inúmeros exemplos de estrangeirismos cujo uso assumiu novo sentido entre nós, porém não tem nexo para os falantes nativos.

Vou dar-lhes apenas um exemplo da área da informática. Este texto foi escrito em um laptop! Sim! Ingleses e estadunidenses jamais teriam usado um notebook, visto que esta palavra significa "caderno" na língua inglesa.

Aproveitando o ensejo, não sei se o caro leitor percebeu que os estrangeirismos são grafados sempre em itálico ou entre aspas (nunca os dois destaques ao mesmo tempo!): ciao ou "ciao"; toilette ou"toilette"; site ou "site"; laptop ou "laptop".


Remédio para dor de cabeça ou contra dor de cabeça? Em 08/01/2020

Preposições são elementos que ligam, conectam uma palavra à outra (a, para, em, por, sem, com, de, contra etc.). Além dessa função coesiva, podem carregar sentidos diferentes conforme o contexto. É o caso das preposições para e contra, usadas no título desta postagem.

Se você está com uma dor e pretende comprar um medicamento para aliviá-la, esse remédio deve ser contra dor de cabeça, contra gripe, já que essa preposição dá ideia de combate; caso opte por um para dor de cabeça, para gripe, sua intenção é piorar os sintomas, visto que a preposição agora usada denota finalidade.

A propósito, a dor é de cabeça ou na cabeça? As duas formas são corretas, todavia carregam sentidos e funções sintáticas distintas: quando se diz dor de cabeça, aqui há a especificação do tipo de dor. Não é de dente nem de ouvido; é de cabeça. Por sua vez, ao dizer dor na cabeça, há a indicação do lugar, da localização da dor. Não está no dente, na perna nem noutro lugar; é na cabeça. Do ponto de vista sintático, teríamos um adjunto adnominal e um adjunto adverbial de lugar, respectivamente.

Verbos que expressam deslocamento como ir, dirigir-se, viajar podem aceitar as preposições a ou para, porém com diferentes significados. Se você vai a Salvador, a preposição já representa que essa ida é provisória, passageira, por tempo determinado; mas, se vai para Salvador, a ideia aqui é de que morará nessa capital, fará mudança de domicílio.

Então já sabe que, se quiser mandar alguém para bem longe, você decide se é a ou para!


Por que todo amigo já traz amor em si? (em 22/12/2019)

Existe uma área de estudo da Língua Portuguesa destinada a analisar a origem das palavras e sua evolução de sentido ao longo dos séculos. Trata-se da etimologia. Ela descortina interessantes histórias por trás da formação do português que utilizamos hoje. A título de curiosidade, trouxe aqui quatro vocábulos comuns entre os milhares de termos de nosso idioma.

A palavra gaiato, muito usada no Norte do País, tem origem provável no francês arcaico gai, originalmente com sentido de "alegre, jovial". O dicionário Houaiss também registra a forma "gaio" significando "que revela alegria, jovial"; no português, designa alguém "alegre, travesso, brincalhão".

Se você divide o pão com outras pessoas, então é companheiro! Sim! Esta palavra é resultado da expressão latina cum panis, que forma companĭa, ou "companha", o mesmo que "companhia" em português. Em latim vulgar, designava "conjunto de pessoas que comem seu pão juntamente".

Não é necessário explicar muito sobre o termo pejorativo fuleiro, cuja origem remonta ao castelhano fulero: "muito feio, covarde, desleal, de má qualidade, defeituoso". A palavra preserva atualmente esses sentidos em seu uso coloquial, além da acepção de "cafona, não confiável, sem valor, reles".

Finalmente, uma palavra com origem bastante curiosa: amigo. Vem do latim amīcus, adjetivo formado a partir do verbo amāre, no sentido de "amar". O significado original de amigo é "aquele que ama". Logo, em contrapartida, o sentido de inimigo é "aquele que não ama", proveniente da forma latina inimīcus, formada pelo acoplamento do prefixo in, com ideia de negação, oposição.

Agora já sabe por que seus amigos o amam, e seus inimigos não têm amor por você!


Falamos português ou brasileiro? - Em 02/12/2019

Assim como povo, território e soberania estão para o conceito de Estado, a língua está diretamente relacionada com a identidade dos habitantes deste. No caso do Brasil, é a língua portuguesa que identifica esse país de dimensões continentais, em função das quais é natural que haja variações linguísticas extremas, o que nos leva a indagar se falamos português ou brasileiro, uma vez que existe um afastamento entre o que a gramática apregoa e a forma espontânea como os brasileiros de fato se expressam.

É imprescindível aqui salientar que a gramática da língua portuguesa tem papel crucial na preservação do idioma e em sua consequente não fragmentação em novos dialetos ou línguas, e na padronização da comunicação oficial ou formal quando assim é necessário. Entretanto chama a atenção o descompasso entre teoria e prática no uso diário do português, sobretudo quando se pretende ensinar algo diferente daquilo que já está enraizado no brasileiro.

Se você tentar explicar que não se começa frase com pronome oblíquo como me; que uma pessoa namora outra sem preposição; que ninguém bate récorde; que em verdade o Flamengo fez dois goles na partida final da Libertadores, é capaz de nós, amazonenses, retrucarmos: tu és leso, é!?

E note que neste breve texto está apenas uma ínfima demonstração desse universo de variações, de regionalismos, de gírias nacionais em que estamos inseridos! Trata-se, portanto, de um português bem distinto do lusitano, do qual nos desprendemos.

Não obstante a gramática equivalha anatomicamente ao esqueleto da língua portuguesa, assegurando a sua preservação, sua padronização e sua compreensão da maneira a mais universal possível, resta-nos esta indagação: afinal falamos português ou brasileiro?


Você já teve sintomas de preciosismo? Em 27/09/2019

Não! Não se trata de branda moléstia! Aliás, esta poderia aqui ser chamada de "achaque" no afã de ilustrar o aludido preciosismo. Consiste, em verdade, na exacerbada formalidade, na falta de naturalidade ou no emprego nada parcimônico de palavras sofisticadas. Uma espécie de juridiquês difundido em toda a extensão da "Última flor do Lácio", como Olavo Bilac aludiu à Língua Portuguesa, a última derivada do Latim Vulgar falado em terras italianas.

Sim! A nossa língua é repleta de termos estrambóticos. Os seus falantes recebem e dão ósculos e amplexos sem reclamar, afinal isso é bom. Cuida-se da cútis. Sente-se cefaleia. Pessoas sofrem síncope.

O País está abarrotado de criaturas ímprobas cometendo peculato a torto e a direito, e as pessoas sabem. Sem embargo até por trás das palavras os políticos se camuflam.

Consoante diria o mancebo ex-presidente alvo de "impeachment" no início dos anos de 1990, isso tudo é uma pastucada! Loquacidade de que ele, inclusive, se valeu para ludibriar seus eleitores à época.

Enfim, nosso vernáculo é deveras complexo, e este sucinto texto se tornou suficiente para pincelar, metalinguisticamente, a verborreia de que os falantes da Língua Portuguesa podem dispor para externar seu pensamento.

Sapiência formosa, aprazível, magníloqua, não obstante não raras vezes prescindível e ruidosa, no sentido de transmissão da mensagem.



Vou tirar uma minhoca da sua cabeça! Em 23/07/2019

Você está acostumado a falar ou a ouvir expressões que são empregadas em sentido conotativo ou figurado. São tantas que seriam várias postagens para elencá-las. Portanto aqui tratarei de algumas delas e suas curiosas origens.

A expressão "terminar em pizza", que se refere a uma situação negativa que termina sem solução satisfatória, surgiu na década de 1960, quando os dirigentes do Palmeiras se reuniram em uma pizarria e encerraram lá um debate sobre a situação do clube. Na época, o jornal Gazeta Esportiva estampou a manchete "Crise do Palmeiras termina em pizza". Nesse caso, literalmente!

"Custar os olhos da cara" remonta ao espanhol Diego de Almagro, um dos conquistadores da América dos anos de 1500, que perdeu um de seus olhos durante a tentativa de invadir uma fortaleza inca. A expressão remete à ideia de algo que "custa caro, que tem valores exorbitantes".

A expressão "rodar a baiana" tem origem nos blocos carnavalescos cariocas do início de 1900, quando os capoeiristas se vestiam de baianas para golpear os homens que aproveitavam os desfiles para beliscar o bumbum das mulheres que participavam desses festejos. O sentido atual é "fazer um escândalo, normalmente em público".

Na França antiga, a ideia de "segurar a vela" proveio do fato de os criados, de costas, para manter a privacidade, serem obrigados a segurar o candeeiro enquanto seus patrões mantinham relações sexuais. A acepção atual dessa expressão é "estar acompanhando um casal em algum lugar, sobrando, enquanto eles desfrutam de seu relacionamento".

Já a expressão "tirar minhocas da cabeça" equivale a "deixar preocupações inúteis". A ideia provém de uma metáfora do movimento que esses anelídeos fazem no solo para transformar vegetais em húmus e assim favorecer a infiltração e a fertilidade do solo.

O que é sintagma? Já sentiu sintomas disso? Em 02/06/2019

Calma! Isso não dói!

Nesta postagem, tratarei de um termo linguístico que cada vez mais vem sendo utilizado tanto em concursos públicos quanto no âmbito escolar.

Cada função sintática que constitui uma oração recebe o nome de sintagma. Quando a professora Astrobete, durante a sétima série do leitor, falava-lhe acerca de sujeito, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial, entre outros, ela estava ministrando aula em torno dos sintagmas.

• Quando se diz oração, está-se diante de uma frase com verbo principal, detentora de duas grandes partes: sujeito e predicado (os quais correspondem a sintagma nominal e a sintagma verbal, respectivamente, no linguajar da Linguística). O elemento que delimita esses dois macrotermos da oração é o verbo. Veja:

>> O professor Edson Augusto ensina Português na cidade de Manaus, desde 2002.

• O sujeito (sintagma nominal) é O professor Edson Augusto; o predicado (sintagma verbal) é ensina Português na cidade de Manaus, desde 2002. Confirme que o verbo ensina delimita essas duas partes.

• Todo sintagma verbal tem como núcleo (palavra mais importante) o verbo. Isso significa dizer que, no exemplo acima citado, ensina é núcleo do sintagma verbal. Essa informação não tem exceção!

• Interessa-nos, sobretudo, o sintagma nominal, o qual, na maioria das vezes, tem como núcleo um substantivo. É válido notar que o sintagma nominal não corresponde apenas ao sujeito da oração; ele normalmente aparece dentro do sintagma verbal (conforme a gramática normativa, objeto direto, objeto indireto, adjunto adverbial etc.).

>> Os políticos enganam a população brasileira cinicamente.

• O sujeito (sintagma nominal) é Os políticos; o predicado (sintagma verbal) é enganam a população brasileira cinicamente. Veja que, neste exemplo, aparece um sintagma nominal (objeto direto) - a população brasileira, já que o verbo enganar é VTD- dentro do sintagma verbal; a telepatia me diz que você quer saber a função sintagmática de cinicamente: adjunto adverbial de modo (o que corresponde, numa análise linguística, a um sintagma circunstancial - daí o fato de que muitos concursos se referem à ideia expressa pelo adjunto adverbial como circunstância).

• É crucial agora visualizar o interior de um sintagma nominal. No exemplo Os políticos enganam a população brasileira cinicamente, há dois: Os políticos e a população brasileira.

• Se o núcleo do sintagma nominal é representado por um substantivo, em Os políticos, o núcleo é políticos, e o artigo o será chamado de determinante ou termo periférico, exatamente por ficar à beira do sintagma; na gramática, constitui o chamado adjunto adnominal.

Um dica edsonável: toda vez em que você ouvir falar em adjunto adnominal, ele dependerá da existência de um substantivo obrigatoriamente. Quem pode ser adjunto adnominal? O artigo (100%), o pronome, o numeral e o adjetivo (incluam-se aqui as locuções). Portanto, dentro do sintagma, essas quatro classes acompanham o substantivo, quer à sua esquerda, quer à sua direita.

• Ainda sobre a última oração, o sintagma a população brasileira tem como núcleo o termo população (substantivo); já as palavras a (artigo) e brasileira(adjetivo) são determinantes ou periféricos ou adjuntos adnominais!

• Nesse sentido, quando se fala em relações sintagmáticas (no eixo horizontal da oração), está-se procedendo a uma análise sintática dos termos da frase; os sintagmas convivem na oração, e suas relações se dão por modificação ou por complementação.


Mecanismo de coesão verbal: verbo vicário ou supletório - Em 29/04/2019

A nossa Língua Portuguesa dispõe de um formidável mecanismo de coesão ("ligação", "conexão") textual. Substantivos, pronomes, preposições, conjunções são exemplos de classes gramaticais responsáveis pelos recursos coesivos de um texto; a elipse e a sinonímia também figuram entre as ferramentas para a união de ideias.

Nesta postagem, entretanto, tratarei de um recurso muito curioso que muitos talvez utilizem ainda que desconheçam seu nome técnico: o verbo vicário ou supletório.

Para início de conversa, "vicário" ou "supletório" significam "aquele que substitui outra coisa ou pessoa; que supre a falta de outra coisa ou pessoa".

É exatamente essa a finalidade prática desse tipo de verbo. O verbo FAZER, combinado com o pronome demonstrativo O, desempenha a função de substituir um verbo anteriormente utilizado para evitar-lhe a repetição.

Vamos ao primeiro exemplo!

"Embora seja dada aos eleitores a incumbência de escolher os seus representantes políticos, muitos não o fazem conscientemente."

Note que, no contexto acima, caso não tivesse havido a utilização do verbo fazer (+ pronome demonstrativo o), ocorreria a repetição verbal:

"Embora seja dada aos eleitores a incumbência de escolher os seus representantes políticos, muitos não escolhem conscientemente."

O fato é que, enquanto o verbo FAZER assimila o sentido daquele anteriormente utilizado, o pronome demonstrativo "o" - equivalente à ideia de isso - resume a informação que acompanha o vicário ou supletório:

fazem = escolher

o (isso) = os seus representantes políticos.

Outro exemplo:

"Verifico diariamente os e-mails recebidos. Eu o faço por meio do celular".

faço = verifico diariamente

o (isso) = os e-mails recebidos

Em resumo, o verbo vicário ou supletório FAZER tem a extraordinária capacidade de absorver o sentido de qualquer verbo anteriormente usado, o que lhe evita a repetição.


A sinonímia e o contexto: algum efêmero em pé no ônibus?

Quando se procede à substituição de uma palavra por outra que, no contexto, não altera o sentido do fragmento, está-se tratando de sinônimas. É válido ressaltar que uma palavra pode ser (ou não) sinônima de outra conforme a frase.

Veja isto:

"A capacidade de resposta a estímulos de alimentos caiu significativamente após o exercício".

= "A capacidade de resposta a estímulos de alimentos diminuiu significativamente após o exercício".

Mas, na frase "O menino caiu na lama", não se poderia substituir o termo destacado por diminuir: "O menino diminuiu na lama". É uma prova de que as palavras sinônimas dependem do contexto para serem equivalentes.

Por sua vez, caso se pretendesse um antônimo (sentido contrário) para o verbo cair, na frase original, a construção resultante poderia ser:

"A capacidade de resposta a estímulos de alimentos recrudesceu (aumentou) significativamente após o exercício".

Ocorre outro fato interessante na Língua Portuguesa acerca da sinonímia: duas ou mais palavras entre si podem ou não ser sinônimas conforme a classe de palavras a que pertençam. Para o leitor entender melhor, analisemos a palavra "passageiro".

Quando usada enquanto adjetivo (qualidade atribuída a seres e a coisas), equivale semanticamente à ideia de "efêmero, transitório, inconstante".

A vida é passageira! (= Logo se poderia dizer que A vida é efêmera!).

Porém essa permuta não seria cabível no contexto em que passageiro é usada como substantivo.

No domingo à noite, peguei um ônibus em que não havia passageiro em pé.

Se não havia "passageiro", muito menos qualquer efêmero em pé!

No domingo à noite, peguei um ônibus em que não havia efêmero em pé. (errado)



O  que são língua, linguagem, texto e discurso?

A capacidade de o homem se expressar por meio da linguagem é o que o difere dos demais animais. Nesse sentido, a língua e a linguagem e, por consequência, o texto e o discurso o caracterizam como ser racional.

A linguagem designa todas as formas possíveis de comunicação humana, entre as quais estão as palavras (formas verbais), os sons, as pinturas, os gestos, as placas (formas não verbais). Quando essa capacidade é organizada de modo a identificar um povo, surge o conceito de língua.

Enquanto a língua, pois, representa um processo coletivo, a fala (ou também discurso) designa o uso individual, pessoal que os falantes dela fazem.

Por seu turno, para que o discurso se organize e se realize, advém daí o texto, que é uma unidade semântica. No que toca ao texto, duas observações hão de ser feitas: essa palavra vem do Latim textum, que significa "entrelaçamento de fios"; um todo cujas partes se entrelaçam. Por isso uma peça de vestuário é unitária, oriunda de incontáveis fios interligados. Assim o texto deve sê-lo. Ademais, ao contrário do que muitos pensam, existe tanto texto escrito quanto falado.

Esses conceitos linguísticos acentuam a relevância da linguagem e da língua como fatores que distinguem o homem em relação às demais espécies animais e identificam os povos e seus idiomas.



Custam caro ou caros? Barato ou baratos? Em 15/02/2019

Nesta postagem, para começo de conversa, é válido esclarecer que, quando se deve produzir um texto de acordo com o Manual de Redação da Presi­dên­cia da República, isso equivale igualmente a dizer "conforme a norma culta", pois as regras gramaticais constantes do Manual foram baseadas na gramática normativa. Simples­men­te isso!

Vamos, então, à dica de hoje!

As palavras caro e barato, quando estão mo­di­fi­cando verbos, são advérbios. Em sendo advérbios, não têm variação, pois essa classe de palavras é invariável:

As revis­tas custaram caro. (certo)

Os ingressos para estudantes custam barato. (certo)

As ligações para outra operadora de telefonia móvel saem caro (certo)

Materiais escolares adquiridos com antecedência são vendidos barato. (certo)

Mas cuidado: caro e barato também podem assumir função de adjetivo, o que permitirá a variação de sua forma. Isso se dará em relação a verbos que denotam qualificação, atributo.

As passagens aéreas ficam caras no fim do ano. (certo)

Repare que caras representa um qualificativo de passagens aéreas, daí a flexão do adjetivo!

Diego e sua namorada só vão ao cinema nos dias em que os ingressos estão mais baratos. (certo)

Já na frase acima, baratos está concordando com o substantivo ingressos.

Em síntese, barato e caro modificando verbos não sofrem variação; quando caracterizam substantivos ou outros nomes, com eles concordam!


Acontecer ou realizar-se? Quando usar esses verbos? - Em 26/01/2019

Esses verbos parecem ter o mesmo significado, entretanto não o têm. Essa confusão é comum na Língua Portuguesa, inclusive entre outros pares (furtar e roubar diferem apenas no fato de que o segundo pressupõe o uso da ameaça, da violência ou de xingamentos).

Utilize o verbo ACONTECER para referir-se a algo inesperado; já o verbo REALIZAR-SE é usado para designar algo programado, esperado.

Veja exemplos:

Com certa frequência, acontecem terremotos em países como o Japão (certo)

Acontecem muitos acidentes nas estradas, devido à combinação de álcool e direção. (certo)

Em 2018, acontecerão eleições presidenciais. (errado)

Em 2018, realizar-se-ão eleições presidenciais. (certo)

A reunião entre os amigos de Astrogildo acontecerá nesta semana, na casa deste. (errado)

A reunião entre os amigos de Astrogildo se realizará nesta semana, na casa deste. (certo)


Textos oficiais exigem formalidade - Em 19/12/2018

Sabemos que a linguagem varia conforme as circunstâncias do ato comunicativo. Há contextos que são despojados de formalidade, no entanto há situações que a exigem. É o caso da redação oficial. A ideia aqui é uniformizar o entendimento da mensagem afastando traços linguísticos como regionalismos, gírias, linguagem com sentido figurado.

Exemplos de textos oficiais são memorandos, ofícios, atas, entre outros.

Anote as qualidades que devem existir na redação oficial (textos expedidos entre empresas, órgãos públicos, entidades etc., a exemplo de memorandos e ofícios):

> Emprego da norma culta da linguagem (regras prescritas pelas gramáticas).

> Clareza (frases inteligíveis).

> Concisão (texto enxuto, não prolixo).

> Impessoalidade (escrever em nome da instituição, com objetividade).

> Formalidade (obediência à estrutura e aos tratamentos formais).

> Uniformidade da pessoa gramatical (utilização da mesma pessoa - 3.a - ao longo do texto).


Você sabe como expressar seu amor? - Em 30/10/2018

Há quem indague se o correto em nossa língua é dizer:

EU LHE AMO, EU TE AMO ou EU A AMO.

Nesta breve postagem esclarecerei acerca dessa dúvida.

Há pronomes oblíquos que devem acompanhar verbos transitivos diretos (os que pedem complemento sem preposição); outros, por sua vez, complementam transitivos indiretos (os que exigem complemento por meio de preposição).

AMAR é transitivo direto. Pode ser completado por O, A, OS, AS, que são pronomes oblíquos com função de objeto direto.

ME, TE, SE, NOS, VOS se combinam tanto com VTDs quanto com VTIs.

Já LHE, LHES completam transitivos indiretos, o que NÃO é o caso do verbo AMAR.

Portanto eis frases certas e erradas com o verbo AMAR:

EU LHE AMO. (errado)
EU TE AMO. (certo)
EU A AMO. (certo)
EU O AMO. (certo)


A interessante capacidade de gerar duplo sentido em Português - Em 17/09/2018

Na Língua Portuguesa, é bastante rica a possibilidade de gerar mais de um sentido às frases, seja intencional, seja acidentalmente. A propaganda explora demasiadamente esse recurso, sobretudo em seus slogans. Eis um exemplo disso, por meio de uma rede de lojas de Manaus e da região.

A Bemol tem como slogan atual "Escolha com confiança". Aqui a palavra escolha pode ser interpretada como um substantivo (a escolha) ou como verbo no modo imperativo, o que é um traço característico dos comerciais.

A AMBIGUIDADE ou ANFIBOLOGIA refere-se, pois, ao duplo sentido das frases. Veja a seguir algumas ocorrências desse vício de linguagem.

Vende-se fralda para bebê descartável.

Quem é descartável? A fralda ou o bebê?

Essa AMBIGUIDADE seria desfeita por meio da mudança de posição do adjetivo:

Vende-se fralda descartável para bebê.

Outra ambiguidade:

Comi vatapá e minha prima também.

Aqui o duplo sentido ocorre devido à presença do conectivo E e do advérbio TAMBÉM.

Caso o sujeito fosse composto, somente haveria a ideia de que as duas pessoas comeram vatapá (e não mais o segundo sentido!).

Eu e minha prima comemos vatapá.

Você iria a um cabeleireiro em cuja loja houvesse a seguinte placa?

"Corto cabelo e pinto".

Seria mais segura uma barbearia com esta placa:

"Corto e pinto cabelo".

Agora sim os verbos CORTAR e PINTAR têm como complemento o substantivo CABELO!

Agora uma ambiguidade resultante do uso de sujeito composto:

Astrogildo e Romeu são casados.

De fato, eles podem constituir uma união homoafetiva; ou cada um deles tem seu cônjuge, o que poderia ser expresso mediante duas orações com sujeitos simples:

Astrogildo é casado, e Romeu também.


Você é pródigo ou prodígio? Em 06/08/2018

Em verdade, até o fim desta pequena postagem, você notará que é melhor ser PRODÍGIO. Há três palavras parecidas (parônimas) em nossa Língua Portuguesa.

PRÓDIGO = gastador, esbanjador.

Exemplo: Apesar da crise que assola o País, Astrogildo continua pródigo.

PRODÍGIO = inteligente, talentoso para sua idade.

Exemplo: Não obstante a simplicidade de sua família, os pais de Epitácio sempre o consideraram um jovem deveras prodígio.

PRODIGIOSO = fantástico, imenso, sobrenatural.

Exemplo: A comunidade Vila da Felicidade ficou atônita com a prodigiosa aparição de luzes insólitas.




Quando uma pequena palavra muda o sentido da frase - Em 24/06/2018

A palavra SÓ altera o significado da frase conforme a posição em que aparece nela.

Acompanhe a seguir uma explicação sintética do curioso efeito que o deslocamento dessa palavra de duas letras provoca no sentido de uma mesma frase.

Só um milagre pode extirpar a corrupção no Brasil! (apenas um milagre)

Um milagre pode só extirpar a corrupção no Brasil! (apenas extirpa)

Um milagre pode extirpar só a corrupção no Brasil! (extirpa a corrupção; nada mais)

Um milagre pode extirpar a corrupção só no Brasil! (somente no Brasil; em nenhum lugar mais)


Sintagma? O que é isso? Em 04/06/2018

Você sabe o que é um SINTAGMA? Essa palavra aparece em vários concursos públicos. Em verdade, você o usa com mais frequência do que imagina!

SINTAGMA equivale a cada FUNÇÃO SINTÁTICA da oração.

Por exemplo: o SUJEITO é uma parte da oração, logo é um SINTAGMA.

Outro exemplo: o OBJETO DIRETO é uma estrutura sintática da oração, portanto é um SINTAGMA.

Numa oração, há dois grandes SINTAGMAS: o sujeito (SINTAGMA NOMINAL) e o predicado (SINTAGMA VERBAL).

Exemplo:

"A imprensa brasileira divulgou a lista de envolvidos em corrupção."

Nessa oração, "A imprensa brasileira" é um sintagma nominal; "divulgou a lista de envolvidos em corrupção" constitui um sintagma verbal.

Para concursos, é suficiente entender que SINTAGMA corresponde a cada FUNÇÃO SINTÁTICA da oração.


A concordância do verbo HAVER em nossa língua- Em 23/04/2018

O verbo HAVER, no sentido de "existir", "ocorrer", "acontecer", é invariável; fica sempre na terceira pessoa do singular.

O interessante é que esses quatro verbos são sinônimos (têm o mesmo significado), entretanto apresentam flexão distinta. Os equivalentes aqui citados do verbo HAVER possuem sujeito, com o qual concordam (no singular ou no plural).

Veja frases certas e erradas com esse importante verbo da Língua Portuguesa!

Houve vários atentados em países do leste, este ano. (certo)

Houveram vários atentados em países do leste, este ano. (errado)

Na prova, Gertrudes percebeu que havia alternativas repetidas. (certo)

Na prova, Gertrudes percebeu que haviam alternativas repetidas. (errado)

Pode haver mais demissões se a crise continuar. (certo)

Podem haver mais demissões se a crise continuar. (errado)

Precisamos ter esperança de que haja dias melhores. (certo)

Precisamos ter esperança de que hajam dias melhores. (errado)

Se substituíssemos o verbo HAVER, nas frases acima, pelos sinônimos "existir", "ocorrer", "acontecer", aplicaríamos concordância obrigatória:

Ocorreram vários atentados em países do leste, este ano. (certo)

Na prova, Gertrudes percebeu que existiam alternativas repetidas. (certo)

Podem ocorrer mais demissões se a crise continuar. (certo)

Precisamos ter esperança de que existam dias melhores. (certo)

Dica: se a regra de concordância para um verbo é uma, é aplicável em todos os tempos e modos; inclusive em locuções verbais e em tempos compostos.

As inversões na posição dos termos da frase não ocorrem por acaso! Em 05/03/2018

Nesta pequena postagem, compreenderemos por que se fazem inversões da ordem direta dos períodos.

"Se beber, não dirija" ou "Se for dirigir, não beba"?

Na prática, os dois períodos, grosso modo, exprimem a mesma informação.

Contudo existe uma tendência de que o que está no começo da frase ganhe ênfase, destaque.

No primeiro período, o cérebro captaria com maior facilidade a ação de "beber"; no segundo, assimilaria mais facilmente a informação "se for dirigir".

Por conseguinte, do ponto de vista estilístico e persuasivo, uma campanha de prevenção contra a mistura de álcool e direção é mais eficaz se utiliza um período como este: "Se for dirigir, não beba".

A informação que introduz uma frase, portanto, ganha mais relevância.


A flexão verbal: aprenda a forma primitiva e reflexione corretamente os verbos derivados!

Hoje abordaremos um tópico deveras útil para os visitantes de nosso site: a flexão verbal na Língua Portuguesa.

Seguem alguns verbos que são bastante utilizados no dia a dia com a respectiva flexão, nos tempos mais utilizados.

É válido ressaltar que verbos derivados tendem a seguir o exato modelo de flexão de seu primitivo. Por exemplo, todos os verbos que vêm de PÔR (depor, repor, compor etc.) seguem as mesmas terminações desse verbo original.

VER: quando eu vir (futuro do subjuntivo); se eu visse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

VIR: quando eu vier (futuro do subjuntivo); se eu viesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

DISPOR (e qualquer derivado do verbo pôr - repor, depor, compor, supor etc.): quando eu dispuser (futuro do subjuntivo); se eu dispusesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

MANTER (e qualquer derivado do verbo ter - deter, conter, reter, entreter etc.): quando eu mantiver (futuro do subjuntivo); se eu mantivesse (pretérito imperfeito do subjuntivo).

Obs.: Por isso, o correto é eu entretive, ele entreteve, quando eu entretiver, se eu entretivesse.

INTERVIR: eu intervim, tu intervieste, ele interveio, eles intervieram (pretérito perfeito do indicativo); se eu intervier (pretérito imperfeito do subjuntivo); quando eu intervier (futuro do subjuntivo).

REAVER: no presente do indicativo, apenas existe nós reavemos, vós reaveis; eu reouve, tu reouveste, ele reouve (pretérito perfeito do indicativo).

PROVER: eu provejo, tu provês, ele provê (presente do indicativo); eu provi, tu proveste, ele proveu (pretérito perfeito do indicativo).

REQUERER: eu requeiro, tu requeres (presente do indicativo); eu requeri, tu requereste, ele requereu (pretérito perfeito do indicativo); se eu requeresse (pretérito imperfeito do subjuntivo); quando eu requerer, quando tu requereres (futuro do subjuntivo).

PRECAVER-SE: no presente do indicativo, apenas existe nós nos precavemos, vós vos precaveis; eu me precavi, tu te precaveste, ele se precaveu (pretérito perfeito do indicativo).


Tudo tem um porquê! Em 16/01/2018

Hoje trataremos da grafia de uma palavra em relação à qual a maioria dos falantes da Língua Portuguesa tem dúvidas. São as quatro formas de escrever PORQUE. Esperamos que, até o fim do texto, o leitor assimile por que se grafa assim cada um destes porquês!

PORQUE sempre equivale a POIS.

Exemplo:

Estudamos, porque sempre precisamos aprender.

PORQUÊ com acento sempre está substantivado. Aceita artigo ou outro determinante.

Exemplo:

Não sei o porquê de tanto peculato sem punição no País.

POR QUE

* Preposição + pronome relativo = PELO QUAL e flexões (sempre há um substantivo anterior claro ou subentendido)

Exemplos:

A impunidade é o motivo por que o brasileiro pouco acredita na justiça.

Eis por que o País está com baixa credibilidade. (motivo por que, razão por que)

* = POR QUE MOTIVO, POR QUE RAZÃO

Exemplos:

Por que a punição só vale para os pobres?

Não sabemos por que ainda há fome num país opulento como o nosso.

* = POR QUAL

Exemplo:

A polícia descobriu por que estrada fugiram os meliantes.

POR QUÊ

* Usa-se ao lado de pontos ou vírgulas.

O País está um caos, e todos sabem por quê.

Teobalda traiu Chifronésio por quê, se ele sempre foi um bom cônjuge?

* Também leva acento se o verbo usado anteriormente está subentendido para não ser repetido.

Exemplo:

As pessoas escrevem misto com "x". Explicar por quê remonta ao Inglês. (Explicar por que escrevem assim remonta ao Inglês).



As funções da linguagem - Em 24/12/2017

Em todo ato comunicativo, existe uma pretensão, uma intenção a ser atingida. Roman Jakobson, linguista russo, elaborou estudos acerca das funções da linguagem, as quais são úteis para a produção e a análise dos textos.

O que é a FUNÇÃO DA LINGUAGEM? De modo simples, é a INTENÇÃO, o OBJETIVO que se pretende atingir no processo de comunicação.

Em um texto, pode haver mais de uma FUNÇÃO, por isso se deve falar em predomínio das FUNÇÕES DA LINGUAGEM.

Por exemplo, quando se lê uma notícia, a intenção do autor é INFORMAR o leitor, havendo, com isso, a FUNÇÃO REFERENCIAL.

Outro exemplo: as propagandas visam CONVENCER, PERSUADIR o receptor em relação ao conteúdo disposto na mensagem. É um exemplo clássico de FUNÇÃO APELATIVA.

FUNÇÃO REFERENCIAL ou DENOTATIVA ou INFORMATIVA: transmite-se a informação de modo objetivo, denotativo. A intenção é informar: textos jornalísticos, científicos, técnicos, didáticos, correspondências oficiais.

"Em 2018 empresa vai levar dois turistas para viajar em volta da Lua." (UOL - 27/2/2017 - Função Referencial)

FUNÇÃO EMOTIVA ou EXPRESSIVA: o autor, de modo verdadeiro ou não, expõe seus sentimentos, sua opinião, sua emoção. Predomina a subjetividade. Nesta função ocorre a primeira pessoa do singular.

A oração "Eu te amo" contém FUNÇÃO EMOTIVA. "Puxa!", "Meu Deus!" também são exemplos dessa função. Repare nas exclamações (do eu).

FUNÇÃO FÁTICA ou DE CONTATO: prolonga ou interrompe a comunicação, testa a eficiência do canal, estabelecendo e mantendo contato com o interlocutor.

Também ocorre quando se repete muito a mensagem, com a intenção de enfatizar seu conteúdo: "Compre Batom, compre Batom...".

Expressões de fim de frase como "Entendeu?", "Certo?", "Não é mesmo?", "Oi!", "Alô!" são exemplos de função fática.

FUNÇÃO APELATIVA ou CONATIVA ou IMPERATIVA: aqui a intenção é convencer, persuadir o receptor da mensagem. Utilizam-se muitos verbos no modo imperativo e vocativos (chamados).

Os textos publicitários e os discursos políticos exemplificam facilmente a função apelativa ou conativa: "Eleitor, vote na mudança!".

FUNÇÃO METALINGUÍSTICA: a linguagem explica a própria linguagem aqui. É o código (a língua) explicando a si mesmo.

Exemplo clássico são os dicionários. Note que neles as palavras explicam umas às outras.

Na poesia parnasiana, a arte explica a própria arte: "Assim, procedo. Minha pena / Segue esta norma, / Por te servir, Deusa serena, / Serena Forma!" (Olavo Bilac)

Note que Bilac faz um poema falando acerca da arte em si de compô-lo. (função metalinguística)

FUNÇÃO CONOTATIVA ou POÉTICA: aqui há a recriação dos sentidos das palavras; ocorre a combinação de sons, de ritmos que dão novas possibilidades à mensagem.

"No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho". (Carlos Drummond de Andrade)

No famoso trecho de Drummond, há um novo sentido dado à palavra "pedra", além das inversões e da proposital transgressão gramatical (tinha em vez de havia).


A escrita de E ou de I no fim dos verbos - Em 10/122017

Notei que inúmeras pessoas têm dificuldade de discernir quando empregar "e" ou "i" na grafia final dos verbos.

Se você tem dúvidas em relação a quando escrever, por exemplo, "surge" ou "surgi", intenciono dar cabo a esse dilema ao término desta postagem. O que você aprenderá vale para toda a Língua Portuguesa, sem exceção!

Você deve grafar "e" somente nas sílabas átonas (fracas) dos verbos paroxítonos (aqueles cuja sílaba mais forte é a penúltima).

Repare nos exemplos abaixo:

Gertrudes inGEre bebidas alcoólicas quando seu esposo a trai.

O sol SURge fortemente nas primeiras horas do dia, em Manaus.

Astrobete CURte música eletrônica em alto volume.

Cornélio proMEte fidelidade a sua futura esposa, Astrogilda.

Por sua vez, você deve grafar "i" nos verbos oxítonos (os que têm a sílaba mais forte na última posição).

Perceba o que ocorre com os verbos acima quando são oxítonos:

Eu ingeRI uma água de coco geladíssima.

Eu surGI na sua vida para amá-la, Gertrudes! (cacofonia intencional: /mala/ 😀)

CurTI a nova música de Justin Bieber.

PromeTI que irei amar-te para sempre, Teobalda!

Notou outra diferença? Você deve usar "e" na terceira pessoa do verbo (percebe?); já "i", na primeira (percebi, Edson!).

Observação - Em verbos como CONTRIBUIR (UI é um encontro vocálico), a ocorrência de "i" na sílaba tônica se mantém da seguinte forma:

A corrupção excessiva contriBUI para que o povo sempre desconfie dos políticos. (aqui houve ditongo na sílaba destacada)

Eu contribuÍ para a mudança do panorama político do País por meio do meu voto. (nesse caso, houve hiato tônico; por isso o "i" foi acentuado).

De qualquer forma, em contriBUI e em contribuÍ, a vogal "i" continua ocorrendo na sílaba tônica!

Por fim, repare em que, em verbos como contiNUe (imperativo de CONTINUAR), SUe (imperativo de SUAR), aTUe (imperativo de ATUAR) etc., você grafa "e" pelo fato de essa vogal aparecer na sílaba fraca.

Um importante fenômeno linguístico: a lei do menor esforço - Em 24/11/2017


As línguas estão em constante evolução, e há uma tendência de os falantes cada vez mais expressarem suas ideias por meio de menos palavras. A essa economia no que tange ao emprego das estruturas linguísticas chamamos de Lei do Menor Esforço. O próprio nome desse fenômeno sugere a sua essência. Para a melhor compreensão do leitor deste texto, darei dois exemplos bem didáticos dessa Lei. 

Durante o processo de colonização portuguesa, a expressão VOSSA MERCÊ, que até certo ponto cronológico era empregada somente para o rei, passou a ser utilizada para designar qualquer título de nobreza. Essa difusão também atingiu as classes vulgares (entenda "vulgar" no sentido latino de "do povo"). A partir daí, tal expressão vem sofrendo REDUÇÃO fonética e morfológica: VOSSA MERCÊ passou a VOSMECÊ, que mais adiante se tornou VOCÊ (e há quem utilize 'OCÊ, 'CÊ ou ainda VC nas conversas por meio de aplicativos como o WhatsApp).

VOSSA MERCÊ > VOSMECÊ > VOCÊ é um exemplo clássico da Lei do Menor Esforço. 

Note que na situação acima ocorreu igualmente a dessemantização (perda do sentido original do que representava VOSSA MERCÊ). 

Outro prático exemplo dessa Lei ocorre quando damos BOM DIA, BOA TARDE ou BOA NOITE a alguém, e essa pessoa responde à saudação apenas com BOM, BOA e BOA, respectivamente. Tal redução na resposta ao cumprimento demonstra economia na linguagem, mas também carrega, sob a ótica do discurso, a ideia de que o interlocutor pode estar desinteressado na conversa ou ocupado ou em outra condição que inviabilize a conversação. 

Em resumo, a Lei do Menor Esforço consiste na progressiva síntese das estruturas linguísticas dentro do processo de comunicação.