Com que roupa eu vou?

11/02/2018

Não é uma indumentária exclusiva dos advogados, mas é inegável a correspondência que há entre ela e esse profissional. Referimo-nos ao traje esporte fino, consubstanciado na calça e camisa sociais, paletó, gravata e sapato de couro - de bico fino ou não. De quebra, uma pasta, dessas que se leva na mão ou a tiracolo. Quando se trata de advogada, sai o paletó, entra o tailleur.

Eis o que tenho presenciado nesse início de caminhada na advocacia, sobretudo em meio advogados iniciantes, entre os quais figuro. Mas, de antemão, informo que não é esse o meu figurino normalmente. Nem sempre visto paletó quando vou, por exemplo, a audiências em Varas dos Juizados Especiais Cíveis e/ou Criminais, ambos criados pela Lei 9.099/95, os quais tratam de querelas de menor complexidade jurídica.

Nessas ocasiões, recorro comumente a trajes mais informais, quase sempre uma calça jeans, camisa de punho, sapato fechado e um blêizer. E não é por menosprezo aos JECs, onde são propostas muitas ações pautadas em "questões frívolas", como diria Anderson Schreiber. Vou assim não apenas porque nunca fui de me vestir socialmente bem, confesso, mas também porque não há nada na Constituição Federal, tampouco no Estatuto da Advocacia, Lei 8.906/94, obrigando-me a tal.

Contudo, em publicação denominada Manual do Advogado Iniciante, distribuída pela Ordem dos Advogados do Brasil, por suas seccionais, aos que dão os primeiros passos na advocacia, há, dentre outras, orientação no sentido de que o causídico busque se apresentar bem perante o público em geral, com trajes condignos à etiqueta de cada evento, o que, entre os homens advogados, implica usar na prática forense o traje esporte fino. Vi essa dica, por exemplo, no manual elaborado pela OAB-MS. Mas isso também fazem os coaching de carreira, quando indicam alguém para alguma entrevista de emprego.

O argumento justificador dessa diretiva é o de que uma boa imagem seria mais de meio caminho andado na profissão, por assim dizer. Eu não vejo razão para fechar totalmente com essa ideia. Mas ei-la como a vi exposta no dito manual a que aludi: "Não é oportuno o adágio que pronuncia - 'não se conhece um livro pela capa, visto que, no exercício da profissão e no trato com a sociedade em geral, em todos os âmbitos dela exige um profissional zeloso por sua aparência'".

É verdade que não se conhece um livro pela capa, conforme primeira parte da citação acima. Eu tenho uma edição antiga (1957, salvo engano) de contos de Anton Checov cuja capa nem de longe reflete a qualidade literária desse russo. O conto La Cigale, por exemplo, é fenomenal. Por isso, meu entendimento a respeito do zelo com a aparência na advocacia está alinhado com o que dispõe o artigo 31 do Estatuto dessa profissão, onde se lê que o causídico deve proceder de forma que o torne merecedor de respeito e que contribua para o prestígio da classe e da advocacia.

Trata-se, portanto, de algo mais do que se vestir bem, de meter-se em traje esporte fino ao estilo pinguim, como sói acontecer via de regra entre advogados. Conforme o prumo que aqui dou, a boa aparência começa, antes, no percurso que se faz no próprio curso de Direito, quando o futuro advogado deve envidar esforços para, uma vez formado, vir a justificar em nível intelectualmente elevado seu mister, evitando, com isso, a pecha de mero - e limitado - operador de leis.

Por fim, devo dizer que o Judiciário, da porta para dentro, costuma ser bem diferente da imagem idealizada que deles muitos cultivam. E não me refiro apenas à forma como eventualmente algumas querelas são julgadas, ou, ainda, ao fato de que nem sempre o juiz é figura presente na audiência. Falo também da estrutura física precária em que funcionam algumas Varas.

Afinal, em dias chuvosos como o que estamos vivenciando nesse inverno amazônico, na hipótese de aí comparecer bem-vestido, porém com uma peça processual mal elaborada, o causídico corre o risco de vir a sair molhado, literalmente; e pior: momentaneamente derrotado no embate jurídico da causa que patrocina. Logo, a preocupação com a indumentária não deve ser maior do que a de revestir em alto nível a sua atuação no processo.